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A bem da Nação

XICUEMBO – XICUEMBO (3)

 

Zavala

 

Na sequência do que afirmei no final do texto anterior, dá para perguntar agora: se as velhas misérias missionárias em Moçambique (exploração de «prazos» com base no trabalho escravo) se passaram muito antes de a moderna administração portuguesa ter iniciado a corrida do desenvolvimento no âmbito de um modelo em que multidões de pretos, brancos, pardos, mistos e amarelos eram directa e significativamente beneficiados, como se explica que a Igreja se voltasse então contra Portugal apoiando os movimentos de rebeldia? Só tenho uma resposta: a Igreja quis lavar a sua própria história naquelas paragens. Mais: se o próprio Papa se recusava a admitir que a Deus se pudesse chamar Xicuembo e que as almas dos que já partiram e por quem se reza na Missa pudessem ser invocadas por esse nome de Deus, que tinha aquela Igreja a ver com a cultura dos povos que se propunha defender contra um «usurpador» que, esse sim, beneficiava os «oprimidos»? Só tenho uma resposta: a Igreja continuava a desprezar as culturas desses povos e simultaneamente não queria repetir experiências para si difíceis como a dos ritos na Índia. Mais ainda: a Igreja queria transmitir a ideia de ser muito «boazinha», coisa que naquelas paragens nunca fora. Ou será que a Igreja, habituada a preponderar localmente através da sua rede de Missões, temia a concorrência qua a Administração Civil portuguesa lhe fazia com a sua revigorada rede de Postos?

 

É evidente que não me posso fundamentar em sussurros de confessionário mas toda esta acção adversa da Igreja contra Portugal foi claramente contrária à tradição paulina.

 

Mas é também claro que esta é argumentação facilmente contestável pela Igreja se afirmar que o segredo do confessionário é inviolável e que a tradição paulina não constitui dogma nem chega sequer a ser imperativa. E tudo continuará sem a explicação lógica que nós, portugueses, lhe poderíamos pedir.

 

O facto de termos sido nós a dar «boleia» ao cristianismo até às paragens que palmilhámos, isso é «coisa» menor que a Igreja considera por certo como não tendo nós feito mais do que a nossa obrigação como cristãos confessos.

 

E como teria sido a História se as engrenagens da nossa corrida pelo desenvolvimento não tivessem sido emperradas, nomeadamente pela Igreja?

 

Como teria sido a História se nós tivéssemos dado a devida importância às culturas genuínas dos povos que governávamos em vez de as vermos apenas como simples folclore?

 

Como teria sido a História se as nossas Forças Armadas não tivessem sido corroídas pelo Partido Comunista Português como forma de colocar o Império Português nas mãos do Império Soviético?

 

E as perguntas poderiam continuar, até que alguém nos lembrasse que nunca poderemos conhecer os resultados de experiências não experimentadas.

 

Valha-vos, moçambicanos, o facto de entretanto o Império Soviético ter implodido.

 

Valha-vos, moçambicanos, Vocês serem genuinamente civilizados mesmo sem as religiões que os forasteiros vos quiseram impor substituindo Xicuembo pelos nomes de Deus e de Alá.

 

É que, em Moçambique, o erro de todos os forasteiros, leigos e religiosos, europeus ou outros, foi o de, tomando-vos por atrasados animistas, não reconhecerem a vossa como uma civilização que poderia ter sido aprimorada em vez de combatida.

 

E agora?

 

«Agora é tarde e Inês é morta».

 

Agosto de 2014

 

 Henrique Salles da Fonseca

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