Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A bem da Nação

VIVA A TROPA!!!

 

Tropas portuguesas em parada.jpg

 

São historietas de que me lembro, as que me fazem bradar o título ali em cima.

 

  1. Os meus avós tinham na Beira Alta uns vizinhos que não paravam de ter filhos – uns dos quais iam nascendo mortos e outros exalavam o supremo suspiro pouco depois dos primeiros vagidos – pelo que era uma vitória cada um que vingava.

 

Quando, dos vivos, o mais velho deu o nome para a tropa, logo todos se apressaram a convencê-lo a calçar alguma coisa. Começou por umas botifarras largueironas – que dariam para um gigante muito maior que ele – onde mal lhe cabiam os dedos esparramados e foi vê-lo coxo a toda a hora, sentado as mais das vezes, a dar largas aos horrores de tanto martírio... e o meu avô lá o ia animando com palavras de encorajamento e botas menos agigantadas para que ele, assentando praça, pudesse então calçar botas da Ordem. E de cada vez que ia com o meu avô à feira comprar botas menos anormais, lá vinha ele sentado sobre um carro de bois a gemer a sua desgraça. E é que nem pensar em vir a pé os três quilómetros da feira até casa. Mas no dia seguinte, entre plangências e palavras horríveis a condizer, lá ele se ia habituando à tarefa de juntar os dedos que sempre tinham andado apartados à moda dos palmípedes.

 

Passado o negrume de tanta dor, chegou o dia de assentar praça, foram muitos que acompanharam os mancebos da terra à estação do comboio e fez-se grande escuridão de notícias. Breu completo, houve quem mandasse rezar missas pelos jovens da terra de quem nada se sabia.

 

Até que o nosso militar escreveu uma carta a dar prova de vida daquele género «Espero que esta vos encontre bem que eu por cá nunca pior...». E certa vez a carta dizia que iria para Angola embarcando no navio “Não Sei Quê” e por aí fora como mandava o Movimento Nacional Feminino «e adeus, até ao meu regresso».

 

Foi cerca de dois anos depois que o nosso homem voltou de Angola, foi desmobilizado, passado à «peluda» e regressou a casa.

 

Ileso, habituado a três refeições diárias completas, a cama limpa e a hábitos de higiene, ei-lo completamente desadaptado à vida que veio reencontrar de refeições aleatórias, enxerga fétida e descargas fisiológicas a trás das moitas.

 

O homem não queria de modo nenhum regressar à vida do bicho bravo de antigamente e a primeira coisa que fez, antes da primeira noite depois do regresso, foi pedir ao meu avô se o deixava dormir no quarto dos fundos da escada de serviço, ali ao lado da porta da adega. A resposta imediata foi positiva e a vida retomou um ritmo sem toques de clarim mas de grandes inovações para o obscurantismo até então vulgar.

 

Esta leva de soldados restituídos à terra que os vira nascer fez com que a autarquia se visse na obrigação de fazer algo parecido com «banhos públicos» na sede do Concelho, iniciasse as prospecções necessárias ao fornecimento de água potável a todas as sedes de Freguesia, promovesse a iluminação (esparsa) das estradas municipais e, consequentemente, fizesse chegar a electricidade a locais que até aí viviam como no tempo dos moiros.

E porquê? Porque a tropa educara os embrutecidos que, entre grunhidos de resmungo, tinham um dia assentado praça, fizera deles pessoas normais e lhes dera novos horizontes geográficos e civilizacionais.

 

 

  1. O meu primo sempre achara que era muito melhor ir para a praia e fazer ginástica do que queimar as pestanas a estudar as chatíssimas matérias que lhe impingiam no Liceu.

 

Atlético e praticante de luta livre, foi Sargento miliciano em Angola. Relativamente pouco o tempo que esteve numa unidade operacional algures «no mato» daí transitando para uma qualquer unidade em Luanda onde deu aulas de educação física a militares e, nas horas vagas, a civis.

 

Ileso, adorou estar em Angola mas quando lhe perguntei qual fora a missão que lá desenvolvera, deixou-me espantado quando me disse que se dedicara a domar selvagens.

 

Como assim?

 

Que eu não imaginava o que era a selvajaria dos soldados (nomeadamente dos brancos) à mesa no refeitório e o que era a falta de ética na luta livre que ensinava a militares, civis, brancos, pretos e mistos.

 

Então, passou a dar o exemplo à mesa no refeitório militar para que o vissem direito e não debruçado com o queixo dentro do prato, comer com colher, garfo e faca e nas aulas de ginástica, a sua preocupação foi, mais do que os truques e golpes de mestre, a de inculcar a ética cavalheira naquelas cabeças frequentemente estouvadas e por vezes até vingativas. Sim, terá sido muito frutificante domar selvagens.

 

Conseguiu?

 

Talvez o homem da primeira história lhe tenha passado pelo refeitório mas não consta que tivesse feito ginástica.

 

26 de Junho de 2016

 

Henrique sem bigode-1970.jpg

Henrique Salles da Fonseca

(1970, antes do bigode)

 

 

 

2 comentários

Comentar post

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2026
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2025
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2024
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2023
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2022
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2021
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2020
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2019
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2018
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2017
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2016
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2015
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2014
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2013
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2012
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2011
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D
  209. 2010
  210. J
  211. F
  212. M
  213. A
  214. M
  215. J
  216. J
  217. A
  218. S
  219. O
  220. N
  221. D
  222. 2009
  223. J
  224. F
  225. M
  226. A
  227. M
  228. J
  229. J
  230. A
  231. S
  232. O
  233. N
  234. D
  235. 2008
  236. J
  237. F
  238. M
  239. A
  240. M
  241. J
  242. J
  243. A
  244. S
  245. O
  246. N
  247. D
  248. 2007
  249. J
  250. F
  251. M
  252. A
  253. M
  254. J
  255. J
  256. A
  257. S
  258. O
  259. N
  260. D
  261. 2006
  262. J
  263. F
  264. M
  265. A
  266. M
  267. J
  268. J
  269. A
  270. S
  271. O
  272. N
  273. D
  274. 2005
  275. J
  276. F
  277. M
  278. A
  279. M
  280. J
  281. J
  282. A
  283. S
  284. O
  285. N
  286. D
  287. 2004
  288. J
  289. F
  290. M
  291. A
  292. M
  293. J
  294. J
  295. A
  296. S
  297. O
  298. N
  299. D