VIVA A TROPA!!!
São historietas de que me lembro, as que me fazem bradar o título ali em cima.
- Os meus avós tinham na Beira Alta uns vizinhos que não paravam de ter filhos – uns dos quais iam nascendo mortos e outros exalavam o supremo suspiro pouco depois dos primeiros vagidos – pelo que era uma vitória cada um que vingava.
Quando, dos vivos, o mais velho deu o nome para a tropa, logo todos se apressaram a convencê-lo a calçar alguma coisa. Começou por umas botifarras largueironas – que dariam para um gigante muito maior que ele – onde mal lhe cabiam os dedos esparramados e foi vê-lo coxo a toda a hora, sentado as mais das vezes, a dar largas aos horrores de tanto martírio... e o meu avô lá o ia animando com palavras de encorajamento e botas menos agigantadas para que ele, assentando praça, pudesse então calçar botas da Ordem. E de cada vez que ia com o meu avô à feira comprar botas menos anormais, lá vinha ele sentado sobre um carro de bois a gemer a sua desgraça. E é que nem pensar em vir a pé os três quilómetros da feira até casa. Mas no dia seguinte, entre plangências e palavras horríveis a condizer, lá ele se ia habituando à tarefa de juntar os dedos que sempre tinham andado apartados à moda dos palmípedes.
Passado o negrume de tanta dor, chegou o dia de assentar praça, foram muitos que acompanharam os mancebos da terra à estação do comboio e fez-se grande escuridão de notícias. Breu completo, houve quem mandasse rezar missas pelos jovens da terra de quem nada se sabia.
Até que o nosso militar escreveu uma carta a dar prova de vida daquele género «Espero que esta vos encontre bem que eu por cá nunca pior...». E certa vez a carta dizia que iria para Angola embarcando no navio “Não Sei Quê” e por aí fora como mandava o Movimento Nacional Feminino «e adeus, até ao meu regresso».
Foi cerca de dois anos depois que o nosso homem voltou de Angola, foi desmobilizado, passado à «peluda» e regressou a casa.
Ileso, habituado a três refeições diárias completas, a cama limpa e a hábitos de higiene, ei-lo completamente desadaptado à vida que veio reencontrar de refeições aleatórias, enxerga fétida e descargas fisiológicas a trás das moitas.
O homem não queria de modo nenhum regressar à vida do bicho bravo de antigamente e a primeira coisa que fez, antes da primeira noite depois do regresso, foi pedir ao meu avô se o deixava dormir no quarto dos fundos da escada de serviço, ali ao lado da porta da adega. A resposta imediata foi positiva e a vida retomou um ritmo sem toques de clarim mas de grandes inovações para o obscurantismo até então vulgar.
Esta leva de soldados restituídos à terra que os vira nascer fez com que a autarquia se visse na obrigação de fazer algo parecido com «banhos públicos» na sede do Concelho, iniciasse as prospecções necessárias ao fornecimento de água potável a todas as sedes de Freguesia, promovesse a iluminação (esparsa) das estradas municipais e, consequentemente, fizesse chegar a electricidade a locais que até aí viviam como no tempo dos moiros.
E porquê? Porque a tropa educara os embrutecidos que, entre grunhidos de resmungo, tinham um dia assentado praça, fizera deles pessoas normais e lhes dera novos horizontes geográficos e civilizacionais.
- O meu primo sempre achara que era muito melhor ir para a praia e fazer ginástica do que queimar as pestanas a estudar as chatíssimas matérias que lhe impingiam no Liceu.
Atlético e praticante de luta livre, foi Sargento miliciano em Angola. Relativamente pouco o tempo que esteve numa unidade operacional algures «no mato» daí transitando para uma qualquer unidade em Luanda onde deu aulas de educação física a militares e, nas horas vagas, a civis.
Ileso, adorou estar em Angola mas quando lhe perguntei qual fora a missão que lá desenvolvera, deixou-me espantado quando me disse que se dedicara a domar selvagens.
Como assim?
Que eu não imaginava o que era a selvajaria dos soldados (nomeadamente dos brancos) à mesa no refeitório e o que era a falta de ética na luta livre que ensinava a militares, civis, brancos, pretos e mistos.
Então, passou a dar o exemplo à mesa no refeitório militar para que o vissem direito e não debruçado com o queixo dentro do prato, comer com colher, garfo e faca e nas aulas de ginástica, a sua preocupação foi, mais do que os truques e golpes de mestre, a de inculcar a ética cavalheira naquelas cabeças frequentemente estouvadas e por vezes até vingativas. Sim, terá sido muito frutificante domar selvagens.
Conseguiu?
Talvez o homem da primeira história lhe tenha passado pelo refeitório mas não consta que tivesse feito ginástica.
26 de Junho de 2016
Henrique Salles da Fonseca
(1970, antes do bigode)


