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A bem da Nação

Uma candeia às avessas

 

Custa aceitar opiniões sobre pessoas ou acontecimentos que vão contra as “nossas próprias” opiniões (devia ter mais cuidado com a “pleonasmação” depois da leitura de um artigo muito bem feito por um “Anónimo” sobre o fenómeno, tão vulgar entre nós, que o Dr. Salles colocou no seu “A Bem da Nação”, mas o “próprias” da expressão acima reforça o possessivo, em projecção que nos eleva aos próprios olhos (evitei, neste caso o possessivo “nossos” para escusar reincidências por “mim” também condenáveis, mesmo sem o “própria” do reforço, embora os franceses reforcem igualmente o seu pronome pessoal (moi-même, toi-même, nous-mêmes…) ou até o possessivo, sem que lhes caia o Carmo e a Trindade da iracúndia linguística superior, que não admite sequer a “licença poética” da retórica discursiva.

Mas Vasco Pulido Valente é de tal forma arguto e certeiro nas suas explanações argumentativas, que me leva muitas vezes a aderir aos seus pensamentos, apesar do sofrimento próprio que isso implica neste mar de sofrimento que ultimamente nos harmoniza – único padrão de harmonia, de resto - questão de fado - sob este sol ou sob esta chuva do único céu a que temos direito, perdidos “os outros céus diferentes” da nossa glória passada, que Sá de Miranda refere em carta ao “rei de muitos reis”, D. João III, o Pio.

 Gosto de Nuno Crato e de Pires de Lima, que me parecem sérios, inteligentes e corajosos. Acredito que eles estão metidos nas talas de uma governação complicada, o que torna as suas manifestações públicas contraditórias e motivo de chufas de todos os que seríamos incapazes de assim proceder, honestos e talentosos que somos cá fora, incapazes de proceder como eles lá dentro, porque faríamos necessariamente melhor.

Mas o artigo de Vasco Pulido Valente, do “Público” de 17/1, “Como os ministros pensam” assenta que nem luva sobre o nosso pensamento assustado - que se me perdoe o concretismo prosaico da personificação literária - daí que o fixe no blog do meu refúgio, embora discorde da afirmação do articulista contida no início do segundo parágrafo de que “o dr. Nuno Crato apareceu numa conferência de imprensa conjunta com o dr. Pires de Lima”, como se o seu “aparecimento” fosse acto voluntário e não imposto pelos actuais juízes das acções governativas - sindicatos, partidos da oposição, no ilimitado verboso das suas reivindicações de uma altissonância impune:

«A Fundação para a Ciência e a Tecnologia atribuiu 298 bolsas de doutoramento, ou seja, a quase 40%, dos candidatos que se apresentaram. Para estudos pós-doutorais, a que concorreram 2035 pessoas, a dita Fundação deu generosamente 233 bolsas, ou seja, 11, 45% do total. Muitas coisas se poderiam dizer sobre isto. Mas como se escreveu neste jornal, os cortes foram um “massacre” que afectará muito tempo a Universidade portuguesa e que mata de repente uma tendência que já começava a ganhar uma certa força. O responsável pela coisa é o Dr. Nuno Crato, ainda ministro de um Governo que por aí vai sobrevivendo, sem direcção, sem programa e sem coerência. Não acreditam? Esperem pelo próximo episódio desta telenovela.

No dia seguinte, ou pouco mais tarde, o dr. Nuno Crato apareceu numa conferência de imprensa conjunta com o dr. Pires de Lima. Nessa conferência os dois resolveram falar sobre “empreendorismo e inovação”. Tanto um como outro falaram com entusiasmo da colaboração entre a ciência e a economia: prometeram 50 milhões de euros, uma série de programas de utilidade duvidosa e um esforço para mandar infinitos doutorados para empresas de grande futuro. Mas como bons burocratas que são, e nunca deixarão de ser, anunciaram também a sua coroa de glória: a criação de uma “agência interministerial” para se ocupar do assunto; o que significa evidentemente mais funcionários, mais conselheiros, mais secretárias, mais despesa e por aí fora.

Claro que, se o “presidente” ou o “director” desta original loucura tiver um resto de juízo, manda ao sr. Pires de Lima e ao sr. Nuno Crato uma cartinha, aconselhando este excelentíssimo par a devolver as bolsas a quem as tirou e pedindo respeitosamente a sua demissão. Mas, como uma criatura destas não é fácil de encontrar em Portugal, só nos resta, para nos divertir, fazer listas comentadas das contradições destes cavalheiros e de Passos Coelho e Portas, que os deveriam vigiar. Verdade que o tempo não está para risotas sobretudo num caso destes. De qualquer maneira talvez não deixasse de confortar os portugueses compreender a inteligência e a subtileza de quem os pastoreia. Quando o disparate ferve, convém estar preparado para qualquer emergência. Nada impede que amanhã eles nos declarem uma colónia de Andorra em nome da independência nacional.»

A nossa triste verdade é que o disparate ferve por toda a parte, em toda a nossa tessitura social. Sempre ferveu, é de longa data, que o digam Gil Vicente, Camões, Eça… E os historiadores das governações…. E as salas de psiquiatria, onde muitos professores repousam das violências de uma sociedade de adolescentes que lhes passa pelas mãos e culminará nos crimes de uma praxe imbecil e torpe, que já Verney criticava, há mais de dois séculos, e que não é democrático eliminar…

Não, não é fácil de encontrar, o tal que Diógenes procurava, de candeia acesa em pleno dia…

 Berta Brás

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