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A bem da Nação

UM POUCO DA ÍNDIA – 1

 

 

Há pouco tempo propuseram-me colaborar com um blog de Goa, ao que respondi que a minha ignorância sobre a Índia era quase total, ou ainda maior se possível, mas que teria todo o prazer em “falar” sobre África, por exemplo.

 

Por enquanto o único assunto que andou foi o meu imenso interesse pela história da Índia que é de uma riqueza excepcional.

 

Comprei uma porção de livros, um dos quais, de Londres, dada a eficiência dos correios brasiliensis, demorou 80 dias – oitenta – para chegar... mas chegou.

 

Interessou-me sobretudo a Índia primitiva, a começar pela primeira pergunta que há muito me fazia: “- porque na Índia tem gente de pele tão escura?”

 

Vamos à história da jornada humana, desde o aparecimento do Homo Sapiens, que segundo a ciência, terá surgido há uns 200.000 anos na Etiópia. A seguir, ninguém sabe porque, demoraram 130.000 para começarem a se expandir na sua jornada pelo mundo, sendo uma das primeiras levas a dos africanos a atravessarem o estreito de Bab-El Mandeb, cruzarem o sul da Península Arábica, actual Yemen, entrarem directamente no sudoeste da Índia, e sempre se multiplicando, seguido pelas ilhas da Indonésia até à Nova Guiné e Austrália, onde terão chegado há uns 40 ou 50.000 anos.

 

Há registos de ossadas humanas na Índia que datam de 34.000 anos.

 

 

Mas da Índia se fala sobretudo da pós-invasão dos arianos, ou indo-arianos ou indo-europeus, que levaram consigo uma civilização mais adiantada, do sânscrito, do Mahabarata, etc.

 

Índia, é o nome que deram àquela zona, ocupada pelo Paquistão e Índia, que deriva do famoso rio Hindus, hoje inteiramente dentro do Paquistão.

 

Como se sabe que a invasão dos tais arianos se deu uns 1.500 a.C., temos que procurar bem mais para trás o porquê de, por exemplo, cerca de 1.600 dialectos no continente indiano.

 

Uns 10 ou 20.000 anos depois, as migrações a partir de África, sempre continuaram, pelo Médio Oriente até à parte Central da Ásia, e daí em todas as direcções, e muitos deles com o passar dos séculos, ou milénios, deram a volta pelo norte dos Himalaias e foram estabelecer-se na Birmânia – Myanmar – Tailândia e sudeste da Índia.

 

Portanto hoje encontram-se na Índia os tipos humanos de características mais dispares, desde o mais escuro, que mantém quase intocáveis as feições africanas, até outros que poderiam ser finlandeses.

 

Fala-se muito na maravilha do budismo, do hinduísmo e do jainismo, mas todas estas filosofias ou religiões começaram há bem “bem pouco tempo”, coisa de, no máximo, uns 500 a 600 anos a.C. Para trás perde-se no tempo o que veio a ser o hinduísmo, já que sempre existiram crenças e filosofias naquela região, que se foram aperfeiçoando e fixando ao longo dos tempos.

 

Os traços de civilizações mais antigas encontram-se no vale do Hindus, e podem chamar-se de civilizações porque, por exemplo em Mohenjo Daro, encontrou-se um dos centros urbanos mais antigos do mundo, construído por volta do XXVI século a.C.

 

Uma perfeita planificação da cidade, ruas alinhadas com cruzamentos em ângulo recto e, o mais extraordinário, todas as casas com água corrente, pequena piscina, tipo banheira e até sanitários, por baixo dos quais corria água que era levada para depuração em poços.

 

Um selo encontrado em Mohenjo-Daro sugere para esse local um possível antigo nome dravidiano, Kukkutarma ("a cidade [-rma] do galo [kukkuta]"). Talvez lá fizessem lutas de galos.

 

As línguas dravídicas, usadas nalguns “enclaves” do Paquistão e em todo o cone sul do sub-continente indiano, parece terem sido introduzidas na Índia em tempos pré históricos. Outra língua, Munda, pertencente ao ramo Austric – de austral – apesar de ter relativamente pouco falantes na Índia é talvez a língua mais espalhada no mundo porque se encontra desde a Ilha de Páscoa, junto ao Chile, atravessa toda a Indonésia e vai até Madagáscar, por onde se podem “acompanhar” os traços da jornada dos africanos desde as suas primeiras migrações.

 

O planalto central da Índia, Decan, segundo geólogos, é constituído sobretudo de basalto, resultante do magma expelido por um imenso vulcão, perto da Ilha da Reunião, no periodo pré-Cambriano, no continente que hoje é chamado como Gondwana *.

 

Curioso os cientistas afirmarem que o mais antigo povo da Índia seriam os Gonds (daí Gondwana, a Terra dos Gonds), que ainda hoje constituem a maior tribo do mundo. E Gonds significa os “homens das encostas”, porque saíram da zona costeira e se foram fixar no planalto.

 

E, ainda de acordo com descrições antropomórficas, o tipo dravidiano seria: “de estatura baixa ou abaixo da média, tez muito escura, aproximando-se do negro, muito cabelo com tendência a encrespar, olhos escuros, cabeça longa, nariz largo, por vezes achatado até à raiz, mas não o suficiente para parecer que a cara é recta.”

 

 

Tudo isto responde também à primeira pergunta que sempre me fazia sobre a cor da pele, escura, de grande parte da população indiana.

 

Nem todo o dravidiano é assim, porque a mistura de populações idas de todos os cantos do mundo, em milénios, é imensa.

 

Heródoto, nas suas viagens que o levaram a escrever e ficar conhecido como o Pai da História, terá chegado, quando muito a Ecbátana, na Pérsia, a mais de dois mil quilómetros do Hindus, de forma que o que escreveu sobre a Índia é tudo de relatos, alguns extremamente fantasiosos. Mas a certa altura diz: “...esses indianos dos quais falei... a tez deles é da mesma cor, análoga à dos etíopes. Esses vivem muito longe dos persas, na direcção sul.”

 

Os ancestrais, idos de África, e segundo parece, os primeiros povoadores daquela região, estão, até hoje, e para sempre, bem presentes em milhões de seus descendentes.

 

* O termo original para designar o super continente que haveria ao sul, Gondwanaland, foi cunhado pelo geólogo inglês Eduard Suessem 1861, em referência à região de Gondwana, na Índia, onde a flora de Glossopteris, plantas fósseis permianas – 250 a 300 milhões de anos –foi encontrada pela primeira vez

 

N.- Continuaremos a “falar” sobre a Índia.

 

11/03/2014

 

 Francisco Gomes de Amorim

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