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A bem da Nação

VIKINGS – 6

segway.png

 

Soubéramos nós que iríamos andar tanto a pé e teríamos arranjado segways (que já usámos noutras paragens) para visitar Estocolmo. Mas não o fizemos e ficámos com as solas dos pés gastas, as pernas doridas e um cansaço que subia das cruzes por ali acima até à base da consciência. Mas a nossa guia – portuguesa radicada na Suécia há mais de 40 anos – já não tinha idade para experimentar uma segway. E a ordem foi: - A butes, marche!

 

Cidade moderna onde foi antiga a ponto de que um turista menos expedito em questões históricas perguntou se Estocolmo tinha sofrido muito com a segunda guerra mundial. Nem queríamos acreditar no que ouvíamos e a guia teve que disfarçar e dizer que aquela modernidade na Vasagatan (Avenida Vasa) e adjacências resultava das demolições feitas para que se pudesse construir o metropolitano. E mais não disse para que o dito turista não continuasse a fazer a figura de urso que já começara a exibir com a pergunta inicial. Não era português.

 

Em Estocolmo, a modernidade vai da época pós-guerra até aos dias actuais com edifícios de arquitectura tal que me deixaram embasbacado – e eu até «já passei além da Taprobana».

Conference Center-Stockholm.jpg

Stockholm Conference Center

 

Foi com algum detalhe que nos mostraram a Câmara Municipal: houve coisas de que gostei e houve outras coisas. Gostei da arquitectura geral do edifício e do salão azul (o dos banquetes que o Rei oferece aos nobelizados) mas achei o painel do salão doirado uma pepineira atroz.

Câmara Municipal Estocolmo.JPG

 

Câmara de Estocolmo-salão doirado.jpg

Câmara de Estocolmo-salão dos banquetes.jpg

 

Dali partimos para a cidade velha.

 

Gostámos do que vimos e foi por lá que senti a História a passar por nós.

 

E de quem me lembrei? Sobretudo da Rainha Cristina e de duas personalidades tão díspares como D. António Pimentel do Lago e de Descartes.

 

Cristina convidou Descartes para ensinar filosofia aos suecos na condição de a ensinar a ela também. O ilustre filósofo tinha que rumar ao palácio real logo pela manhãzinha e apanhou uma pneumonia que o levou para o além…

 

D. António Pimentel do Lago, natural de Amarante, era o Embaixador de Filipe IV de Espanha e III de Portugal junto da Coroa Sueca. Socialmente conhecido por «O Amarante», o Embaixador teria encantos especiais por que a Rainha se deixou seduzir mas, infelizmente, tuberculizou e morreu no regaço (ou no leito?) de Sua Majestade. A dor de Cristina foi tal que fundou uma Ordem Honorífica a que chamou «Stora Amaranterorden» e a que nós chamamos «Grande Ordem de Amarante». Trata-se ainda hoje da mais importante Ordem sueca.

 

Stora Amaranterorden.jpg

 

E foi por isto tudo que me senti a passar. Gostei, claro!

 

Mas ficou tanto por ver na Suécia que só há uma solução: lá voltar.

 

FIM

Janeiro de 2019

Púlpito discurso Nobel.JPG

Henrique Salles da Fonseca

(No púlpito dos laureados Nobel)

VIKINGS – 5

Sigtuna 5.JPG

Ex-igreja de Santo Olof

 

Pelos vistos, os suecos concordam comigo quando digo que as ruínas são monumentos ao desleixo das gerações anteriores. Em Sigtuna as ruínas estão consolidadas e em sua substituição existem construções relativamente modernas (do séc. XVIII para cá) que desempenham funções equivalentes. Refiro-me às igrejas, sobretudo.

Sigtuna-Mariakyrkan.jpg

Igreja de Santa Maria

 

Como já referi em texto anterior, a cidade foi fundada há mais de mil anos, é uma relíquia da História sueca e também um aprazível local onde a estrutura hoteleira entretanto instalada ao longo do município (mais de 4000 camas) lhe permite ser um importante centro de conferências. Não é, pois, um amontoado de ruínas, é, sim, uma localidade viva e, fundamental, com vida própria. Nada a ver com Pompeia, Herculano ou Conímbriga e muito menos a ver com Balsa que continua miseravelmente debaixo do chão.

Sigtuna, vista geral.jpg

 

Duas curiosidades que esta simpática localidade me revelou:

  • Teve durante muitos anos o mais pequeno edifício servindo de Câmara Municipal em toda a Suécia

Sigtuna_antiga Câmara.jpg

 

  • O último posto de telefone na via pública em toda a Suécia foi transformado em quiosque de troca de livros

Sigtuna ponto troca livros.JPG

 

É claro que o actual município tem sede num edifício maior (o primitivo está dedicado aos tempos escolares livres das crianças mais pequenas) e o quiosque de troca de livros fez-me pensar numa questão para que não tive «lata» de pedir informação: - Há quantas gerações já não há adultos analfabetos na Suécia?

A propósito de Câmaras municipais, amanhã vamos à de Estocolmo e fechamos a «loja» sueca.

(continua)

Janeiro de 2019

Sigtuna 6.JPG

Henrique Salles da Fonseca

VIKINGS - 4

 

 

Lagertha é o exemplo das mulheres que lutaram militarmente nas guerras dos povos nórdicos, nomeadamente daqueles a que hoje chamamos suecos e que povoam largamente a mitologia nórdica. Diz quem sabe que há mitos femininos presentes em documentos, textos e poesia de toda a Escandinávia.

Lagertha.jpg

Lagertha foi líder militar e obteve o título de Duquesa

 

Nas lendas escandinavas, Lagertha é esposa do guerreiro viking Ragnar Lothbrok, é skjaldmö (“donzela de escudo”), participa em diversas batalhas, assume a liderança militar e chega a Duquesa. Segundo o «Gesta Danorum», livro do século XII sobre feitos escandinavos na particularidade dinamarquesa, da autoria do historiador medieval Saxo Grammaticus, Lagertha era guerreira e reconhecida valquíria. A presença de mulheres guerreiras na mitologia nórdica parece mesmo indicar que elas tinham uma posição social mais destacada do que noutras sociedades antigas, nomeadamente as meridionais então conhecidas.

 

A civilização viking era envolta em grande misticismo, a começar pelo uso das runas, alfabeto mágico dos povos germânicos e como tinham uma religiosidade baseada em cultos, actos e rictos, mas não em dogmas, a cultura religiosa sofreu mudanças após o domínio cristão. O cristianismo introduziu novos conceitos religiosos e influenciou as fontes históricas pelo que talvez hoje não consigamos conhecer mais do que uma versão «interpretada» (para não dizer «deturpada») da realidade viking original.

 

Para conhecer um pouco da mitologia nórdica, ver, por exemplo, em

https://mitologia-nordica.net/deusas/

 

Os mitos, lendas e sagas nórdicas só foram escritos e, portanto, fixados culturalmente, na era cristã durante o processo de consolidação dos reinos da Dinamarca, Noruega e Suécia.

 

Viking era um ofício ligado a operações de guerra, pirataria e comércio marítimo, constituindo uma pequena parcela da população, formada na maioria por camponeses. O modelo feminino ficou, assim, com aspectos conflituantes: de um lado, havia deusas vikings associadas a valores guerreiros, de autossuficiência, de feminilidade e de feitiçaria enquanto do outro lado havia a Virgem Maria como modelo de pureza, submissão e devoção à família.

 

Diferentemente do cristianismo, na cultura viking havia sacerdotisas que dirigiam rituais de sacrifício e ritos de adoração aos deuses. De um modo geral, a mulher integrava expedições colonizadoras, podia participar na defesa armada em casos de ataque, tinha plenos direitos perante a sociedade tais como acesso à propriedade, direito à herança do marido e podia tomar a iniciativa do divórcio.

 

Em resumo, a mulher viking lutava e, portanto, tinha os mesmos direitos que os homens. Por aqui se vê a diferença com as sociedades meridionais cujo argumento principal para aplicação da «Lei Sálica» era e ainda é o de a mulher, não combatendo, não ter os mesmos direitos que o homem.

 

Eis como as sociedades nórdicas sempre aproveitaram ao máximo as potencialidades de todos os seus membros, homens e mulheres, enquanto nós, cá pelo Sul, seguíamos (e os muçulmanos continuam a seguir) uma prática misógina, redutora das potencialidades endógenas globais.

 

Não é por acaso nem por azar que uns são desenvolvidos e outros continuam boçais.

 

(continua)

 

Janeiro de 2019

Rua mais estreita de Estocolmo.JPG

Henrique Salles da Fonseca

(Estocolmo histórico, na rua mais estreita da cidade medieval)

 

BIBLIOGRAFIA:

«Guerreiras viking», Pedro Machado Frossard - Revista Planeta, edição 522, 13JUL16

VIKINGS – 3

Sigtuna 9.JPG

 

Sigtuna, o «berço» da Suécia, localiza-se a uns 50 kms a norte de Estocolmo e relativamente perto do aeroporto pelo que o aglomerado histórico passou do milhar de habitantes que tinha tido durante séculos e séculos para passar a ser o centro político-administrativo de um conjunto de localidades onde residem alguns dos 75.000 funcionários do dito aeroporto.

 

Se nos tempos a que chamamos históricos Sigtuna vivia da pesca e da agricultura, hoje vive sobretudo da História (leia-se, turismo), do aeroporto e de alguns perímetros industriais nas redondezas.

 

Foi lá que nos mostraram uma pedra relativamente grande com inscrições rúnicas, a escrita antiga da civilização viking…

Sigtuna 3.JPG

… mas a que vimos na parte histórica de Estocolmo tem as letras e os desenhos realçados com tinta e dá muito melhor ideia do que se trata:

Estocolmo-pedra rúnica.jpg

 

Então, para que todos fiquemos a saber o mesmo, fui à Wikipédia buscar informação sobre este alfabeto:

 

As runas são letras usadas nas línguas germânicas da Europa do Norte, sobretudo Escandinávia, Ilhas Britânicas e Alemanha desde o século II ao XI. Tais caracteres têm sido encontrados em pedras, pergaminhos e placas metálicas.

Runen_nordisch.jpg

 

As inscrições rúnicas mais antigas datam de cerca do ano 150. Com o avanço do cristianismo na Escandinávia, no século XI, o alfabeto rúnico foi sucessivamente substituído pelo latino. O alfabeto primitivo tinha 24 runas e era usado nas actuais Alemanha, Dinamarca e Suécia. A lista ordenada das runas é conhecida como Futhark devido ao facto de as suas primeiras seis letras serem 'F', 'U' 'Th', 'A', 'R', e 'K' - ᚠᚢᚦᚨᚱᚴ e foi usada até à Idade Média.

 

Para saber mais, v. https://pt.wikipedia.org/wiki/Runas

 

(continua)

 

Janeiro de 2019

Sigtuna 12.JPG

Henrique Salles da Fonseca

(frente à casa que se julga ser a mais antiga de Sigtuna)

VIKINGS – 2

Estocolmo.jpg

Estocolmo é um conjunto de 14 ilhas e ilhotas mas é já fora do seu perímetro que se estende até ao mar Báltico aquilo a que eles chamam «o arquipélago». Não vou discutir a sintaxe nem a semântica suecas mas, para mim, a um conjunto de ilhas continua a chamar-se arquipélago sejam as ditas urbanas, rurais ou qualquer outra coisa. Só sei que fui corrigido quando disse que Estocolmo é um arquipélago. Que não, o arquipélago começa lá mais à frente em direcção ao mar. Pois sim; não será por isso que nos vamos zangar.

 

Então, para eu aprender a ter maneiras, fomos fazer um cruzeiro até ao final do «arquipélago» e nisso – entre a ida e a volta – navegámos três horas em que a partir de certa altura fomos escoltados por um mega navio de cruzeiros que «bateu a bola baixinho» para não fazer ondas que nos pusessem de pernas para o ar nem provocassem tsunamis nas margens pejadas de casas de férias dos muitos suecos verdadeiramente endinheirados. Mas nas ilhas mais próximas da cidade, vê-se que há muito «pobretanas» que ali vive o ano inteiro com barco à frente e carro nas traseiras. Ver qualidade de vida é algo que me dá enorme prazer mas que infelizmente faz inveja a muita criatura que não tem onde cair morta. Gostei do que vi mas, mesmo que pudesse, não me habilitaria a construir ou comprar casa naquelas paragens - não gosto de frio, prefiro o arquipélago que se estende frente a Angra dos Reis, no Estado do Rio de Janeiro ou o das Kirimbas no norte de Moçambique.

arquipélago-de-estocolmo 1.jpg

 

Mas, apesar do muito ou menos frio, só uma exclamação me ocorre: - Assim, sim!

 

E para que não restem dúvidas, aí vai mais uma vista:

arquipélago-de-estocolmo 2.jpg

 

E a maior parte das «casinhas», com a Bandeira Nacional hasteada.

 

(continua)

 

Janeiro de 2019

 

Navegando arquipélago Estocolmo.jpg

Henrique Salles da Fonseca

(navegando entre Estocolmo e ilhas adjacentes)

VIKINGS - 1

 

Visita relâmpago de quatro noites e cinco dias mal contados por causa da ida e da volta, só deu para visitar um pouco de Estocolmo e alguns – poucos – arredores.

 

Frio como já não nos lembrávamos desde que há uns anos fomos ao Canadá também em finais de Dezembro e primeiros dias de Janeiro. Mas se é mesmo para ver um país, há que o visitar na plenitude das respectivas características, não em situações adamadas, incaracterísticas.

 

E se desta vez os termómetros não mediram nada de escandaloso (-2, -4), o efeito vento, sim, estragou tudo dando sensações ao estilo dos -10 ou pior, o que para meu consumo é demais. Pior na cidade com o vento encanado pelas ruas do que no campo onde ele, afinal, parecia uma brisa perfeitamente suportável. Ao todo, só tivemos uns floquinhos de neve bem simpáticos que me fizeram lembrar o Augusto Gil e a sua «Balada…» dos «pezinhos de criança».

 

E foi nessas ventanias nocturnas – a noite põe-se pelas 3 da tarde – que me lembrei da «Miséria» de João de Deus quando vi alguns «sem abrigo» em pleno centro de Estocolmo:

 

Era já noite cerrada,

Diz o filho: "Oh minha mãe,

Debaixo daquela arcada

Passava-se a noite bem!"

 

Sim, «sem abrigo» lestianos pedintes mas também vikings. E foi por estes que perguntei porque dos outros já sabia a resposta, igual à de cá. Os «sem abrigo» vikings são alcoólatras ou, em menor número, vítimas de outras dependências. A ponto de até os guias turísticos se referirem «à dura relação dos suecos com o álcool». O que mais me espantou não foi a realidade que me referiram – tão semelhante ao que se passará por cá e por outras bandas – mas sim a franqueza com que nos falaram do tema, sem encapotamentos nem falsas justificações. E quando nos foram mostrar Sigtuna, tida pelo «berço» da Suécia, não perderam a oportunidade de nos mostrarem uma mansão agrária que está em vias de se transformar num grande polo de turismo (rural) mas que até há pouco era um centro de desintoxicação da alcoolémia. E à minha pergunta sobre se acabaram com esse trabalho de desintoxicação porque o problema diminuiu, logo me informaram que a razão não era a da diminuição do problema mas sim porque cerca de 97% dos «curados» regressava ao internamento não muito depois de um ano de terem tido «alta». Porquê, o tratamento era assim tão ineficaz? Sim, mas não só. Uma parte substancial dos «retornados» preferia viver naquele internato do que ter que enfrentar as agruras da vida cá fora, vida de que estavam, entretanto, completamente desadaptados. E como desadaptados, caíam novamente na dependência do álcool e tudo voltava ao início. E então? - perguntei eu. A resposta não se fez esperar: - Que se cuidem pois o Estado não pode continuar a suportá-los indefinidamente deitando dinheiro à rua. Sim, pareceu-me cruel. Mas eu sou latino, lamecha, não sou um frio viking.

 

E se, por cá, fizessemos o mesmo?

 

(continua)

 

Janeiro de 2019

Mansão agrária, arredores Estocolmo, 1JAN19.jpg

Henrique Salles da Fonseca

(1JAN19-Mansão agrária, arredores de Estocolmo)

MERDEKA – 11

 

 

O último dia da nossa presença em Bali foi livre de programas pré-estabelecidos pelo que cada um fez o que muito bem lhe apeteceu. A todos apeteceu praia de manhã, almoço no hotel e piscina à tarde. Eu aproveitei a folga de compromissos para fazer uma «massage». E não fique o leitor a pensar em coisas especiais porque o que eu queria – e tive – foi uma massagem dos joelhos para baixo pois andam os artelhos a doer-me sempre que ando um pouco mais do que eles, artelhos, querem que eu ande. E o resultado foi o de ter ficado com os sapatos a dançar nos pés (a activação da circulação de retorno foi eficaz) mas quanto à dor nos artelhos com o forçar da andadura… vou ali e já venho. Talvez que se perder uns quilitos, a «coisa» melhore. A ver…

 

Esta coxeira é para ser solidário com a minha égua «Lola» que a dormir deu um jeito tal na perna direita que esteve coxa durante quase 15 dias. Ela já está boa, eu não.

 

Regressando a Bali e à praia do hotel, reconheço que é muito boa mas quem, como eu, está habituado à praia do Barril, em Tavira, fica com a certeza de que a motivação «praística» não justifica que um português voe meio planeta. Mas fomos lá por todos os motivos que já constam destas crónicas e que justificaram plenamente a viagem.

 

Só que, se houvesse menos azáfama por todo o lado em que andámos e se não houvesse engarrafamentos de trânsito, eu admitiria que ali fosse o paraíso mas… foi-o por certo há 50 anos como disse a minha amiga. Hoje, tem uma gente encantadora, paisagens muito bonitas, oferece qualidade de vida. Mas eu creio que o paraíso exige algo mais que não sei ao certo definir.

 

Foi, entretanto, hora de jantar cedo para irmos apanhar o avião que nos levaria ao Dubai seguido de outro que nos levaria a Lisboa. Voos sem história, tudo normal. No ar, não sentimos mais um tremor de terra que ocorreu numa ilha indonésia mais perto de Bali do que os anteriores e seus tsunamis. Foi já no Dubai que soubemos disso.

 

Para fechar estas croniquetas, uma nota de pé de página sobre o que me passa pela cabeça quando sobrevoo o Norte de África.

 

Cartago.jpg

 

De cá para lá (Lisboa-Dubai), sobre Cartago, sempre me lembro de Aníbal e, quando chegamos à Argélia, lembro-me sempre de Santo Agostinho, da sua célebre frase «não basta fazer coisas boas - é preciso fazê-las bem» e da sua Hipona que hoje se chama Annaba (que também sobrevoamos).

Annaba, ex-Hipona.jpg

 Annaba, a ex-Hipona de Santo Agostinho

 

Manuel_Teixeira_Gomes.png

Mas de lá para cá, precisamente o mesmo percurso mas em sentido inverso, lembro-me sempre de Manuel Teixeira Gomes. Porquê? Aqui deixo a sugestão de estudo para quem me lê.

 

E por aqui me fico com estes mistérios das circunvoluções cerebrais que para lá me fazem lembrar de uns e para cá de outro.

 

Et ita concludit trinus

 

Java, Candi Mendut, Buda sentado.JPG

Henrique Salles da Fonseca

(Java, Candi Mendut, junto à única estátua de Buda sentado à moda ocidental)

MERDEKA – 10

 

Antes que me esqueça, uma nota muito positiva à qualidade do piso das estradas principais, secundárias e mesmo rurais (ou quase vicinais) por que andámos tanto em Java como em Bali. Nas muitas centenas de quilómetros que percorremos, não sentimos um único solavanco.

 

Os meus leitores desculparão que eu passe por cima do passeio de elefante já que esse simpático trombudo não é típico de Bali; os antepassados da “Gigi” que montei vieram de Samatra onde, aí sim, são indígenas. Também não vou dar grande relevo à visita que fizemos ao vulcão Batur à vista de cuja cratera almoçámos sempre com um olho alerta para qualquer fumarola que aparecesse. Não apareceu. Os tremores de terra e tsunamis que aconteceram durante a nossa visita à Indonésia ocorreram no arquipélago das Celebes que dista de Bali tanto ou mais do que Berlim em relação a Lisboa.

 

A simpática «Gigi» em Bali.JPG

Mas não passo por cima de uma outra visita que efectuámos com alguma solenidade ao templo hindu da fonte sagrada «Tirta Empul» a cujas águas são atribuídos efeitos de rejuvenescimento eterno. E porquê solenidade? Porque andava por lá quem acredita nessas qualidades sobrenaturais e uma das minhas características é a de nunca bulir com a fé alheia.

 

Tirta Empul - 4.JPG

  

Houve aqui um companheiro de viagem que teve a gentileza de chamar a minha atenção para a juventude que acorre ao santuário e, de facto, os únicos adiantados nas respectivas idades eramos nós próprios, os forasteiros.

 

Que fiquem eternamente jovens, é o que lhes desejo. Nós, os anosos, não acreditamos que os poderes daquelas águas consigam tirar-nos os anos por que já passámos e, portanto, cumprimos a exigência de envergar o sarong mas não nos banhámos.

 

(continua)

Tirta Empul - 1.JPG

Henrique Salles da Fonseca

MERDEKA – 9

 

 

Foi há quase 50 anos que uma amiga me disse «Oh Henrique, Bali é o verdadeiro paraíso na Terra!». E eu disse a mim mesmo que não haveria de ir para o Paraíso celestial sem antes visitar o paraíso terreno. E fui!

 

À semelhança do que sucede com o Paraíso celestial, a Bali também se chega pelo ar mas, neste caso, num voo comercial, de preferência vestido à moda dos turistas e não numa nuvem envergando uma túnica branca com direito a auréola nem asindo uma lira das de oito cordas. Diferenças menores, portanto…

 

Chegados ao paraíso, fomos de imediato levados para o hotel e logo à entrada fiquei boquiaberto com a grandeza, a beleza, o requinte. Lembrei-me de que Luís XIV haveria de gostar. E, já que me lembrei dele, então fiquei «bouche bée».

ayodya-resort-bali.jpg

Lobby do hotel Ayodya, em Bali

Bali-Ayodya Hotel-sala de dança balinesa.jpg

 Sala para apresentações de dança balinesa no hotel Ayodya

 

Gostei de constatar que o paraíso é luxuoso e não austero como os puritanos apregoam.

 

No dia seguinte fomos logo de manhã levados a ver um espectáculo de teatro dançado e quase nada falado. Ainda bem que não se esforçaram muito com as falas e respectivas «deixas» pois nós, a multidão de espectadores, não haveríamos de perceber patavina. Com a mímica percebemos tudo, ou seja, a eterna quezília entre o bem e o mal e a tentativa de estabelecer um certo equilíbrio entre o caos e a ordem.

 

Contando com um dos espectáculos de mímica mas fabulosos que alguma vez vi, em Cochim (com tema muito semelhante, aliás), este também mereceu todos os aplausos que lhe demos no final. E qual não foi a nossa agradável surpresa quando ao jantar desse mesmo dia tivemos um espectáculo-resumo privativo no teatro do nosso hotel com direito a confraternização com o elenco. Mas este espectáculo privativo teve a participação de um coro que não actuara de manhã e que viemos a saber constituir, por si próprio, um ex-libris da cultura balinesa. Trata-se do Kecak Dance e não resisto a ir ao YouTube buscar um vídeo para que os meus leitores também possam apreciar algo muito diferente do que estamos habituados:

https://www.youtube.com/watch?v=t0HY0oD84OM

 

Sugiro que saltem o discurso introdutório, que passem directamente para a actuação do coro e sigam por aí fora…

 

(continua)

KECAK DANCE.jpg

 Henrique Salles da Fonseca

(com as «boazinhas» do teatro-dança e com o «malandreco»)

MERDEKA – 8

 

 

A visita ao palácio do Sultão deu-me a sensação desagradável de estar em casa de alguém sem ter sido convidado. Porquê? Porque Sua Alteza vive lá e não veio à porta receber-nos. Mas como tinha mandado uma guia falante de espanhol esperar por nós ao portão, pude presumir um convite subentendido. E como pagámos bilhete de acesso ao palácio, fiz de conta que o bilhete era o convite. Mas a sensação desagradável de estar a furar o ambiente íntimo de Sua Alteza não se desvaneceu por completo.

 

A pompa real exige muitos servos a quem o Sultão paga modestos salários mas a quem oferece casa de habitação que entra no património do servo e pode ser transmitida aos respectivos herdeiros que não ficam obrigados à vassalagem que originou a posse do imóvel. Ou seja, nos vastos domínios urbanos que circundam o palácio e respectivos jardins, reside muita gente que já não tem qualquer relação funcional com o Sultão.

Presente português ao Sultão de Yogy.JPG

Mamarracho oferecido a um anterior Sultão pelo Estado Português em data não identificada e representando sabe Deus o quê pois parece um energúmeno qualquer a fazer mal a um cão.

 

Pergunta que saltou da boca de alguém do nosso grupo: - O Estado Indonésio paga as despesas do Sultão?

 

Resposta: - O Estado paga apenas as despesas directamente relacionadas com as funções oficiais do Sultão na sua qualidade de Governador; tudo o mais é suportado pelo próprio Sultão.

 

Nova pergunta: - Os bilhetes de acesso ao palácio são suficientes?

 

Nova resposta: - Não, o Sultão é empresário, tem diversas fontes de rendimento.

 

Lembrei-me de que a Rainha de Inglaterra também tem rendimentos privados e de que, no final da nossa Monarquia, a Casa Real Portuguesa estava com as finanças viradas do avesso.

 

Mas voltando a onde estávamos, o palácio do Sultão de Yogy no centro histórico de Yogyakarta, ficámos a saber que tudo são pretextos para festejos reais, plebeus, privados e públicos. Sim, os indonésios são muito divertidos e não perdem pitada no que respeita a folguedos.

 

O meu leitor compreenderá que eu tenha registado dois motivos de festejo: o da primeira menstruação de cada princesa; o da menopausa de cada uma das esposas do Sultão. À pergunta sobre se a menopausa das concubinas também é assinalada, a guia explicou que o actual Sultão só tem uma esposa (que era modelo antes de ser Sultana) e não tem concubinas (que se saiba).

 

Imaginei-nos em Belém à volta do pedestal de Afonso de Albuquerque a celebrar a menopausa da Dona Carmona com fragatas e varinos embandeirados Tejo abaixo e acima...

 

Basta de ridículo, fiquemo-nos hoje por aqui.

 

(continua)

Castelo de água, Yogyakarta.JPG

 Henrique Salles da Fonseca

(na piscina real do Castelo da Água Taman Sari que foi obra de um arquitecto português do séc. XVII não identificado nas brochuras turísticas)

 

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