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A bem da Nação

VIKINGS - 6

 

Recordatória – estas crónicas de viagem não são um «diário de bordo» pelo que uma etapa pode dar origem a várias crónicas e uma crónica englobar várias etapas.

* * *

Iniciado o regresso e passando o Cabo Norte a bombordo, lembrei.me de que aquelas águas, se falassem, teriam muito que contar. E no Museu do Cabo lá está a história do comboio de navios aliados que durante a segunda guerra mundial furou a guarda nazi daquela rota para ir a Murmansk levar o apoio de que a URSS então precisava para atacar a Alemanha pelo Leste. Lembrei-me do Polígono Acústico dos Açores que, durante a guerra fria controlava o movimento dos submarinos soviéticos na sua passagem de Murmansk para o Atlântico e pensei no stress a que Putin está a sujeitar o mundo para, no final, ficar com uma passagem para o Mar Egeu entre a cozinha da Senhora Yasmina que mora ao lado do estáedio do Galatasarai e a retrete do Senhor Yussuf que mora naquela zona a que os gregos chamavam Calzedónia. Tanto sarilho por causa dum caneiro sujo…! E lembrei-me de Vladivostok, de Kalininegrad e dos mais incómodos que nos podem esperar só porque as costas marítimas russas são inoperacionais.

Passado o Cabo e entrados no Mar do Norte, entrámos em alguns fjords imponentes mas cujas cidades pouco tinham para mostrar além de um evidente nível de conforto das populações. Umas com mais bacalhau, outras com menos; umas com mais indústria de apoio à pesca e à navegação do que outras. Mas todas a trabalhar e ninguém encostado à caridade.

Desta correnteza de visitas só aqui trago Bergen, também ela de génese hanseática e, daí, o seu nome alemão que significa montes. E, realmente, à sua volta e ela própria, tudo são montes que mergulham a pique nas águas do fjord.

Esta foi capital da Noruega até que alguém a fez mudar para Oslo. De notar que, aquando do referendo ao Regime, Bergen votou pela República e, daí, (a confirmar, p. f.), a Monarquia vencedora se tenha sentido mais confortável dali para fora.

Ser cidade com Universidade é perfeitamente banal naquele país mas fizeram-nos notar que os estudantes (do superior, presumo) correspondem a 10 % da sua população (residente, transumante? Não perguntei). Seria interessante fazer uma comparação com o que se passa entre nós. Aqui fica a sugestão/pedido a quem tenha interesse por estes temas do desenvolvimento e olhos mais operacionais que os meus.

À saída de Bergen, antes mesmo de chegarmos ao mar aberto, as nossas 95 mil toneladas baloiçaram bem e nós, à saída do restaurante, parecíamos etilizados. Mesmo quem só tinha bebido água. Afinal. O balancé foi benigno para o sono e na manhã seguinte o mar voltou a estar chão.

Avistámos uma ou outra plataforma petrolífera e, já em águas dinamarquesas, alguns parques (flutuantes???) de geradoras eólicas (centenas???).

Seguiu-se navegação serena Elba acima, desembarque e tomada do vôo de Hamburgo até Lisboa.

Mas amanhã ainda haverá uma crónica-surpresa.

(continua)

Henrique Salles da Fonseca

VIKINGS - 5

 

Do liceu, recordo que o mapa pendurado na aula de geografia mostrava que a Noruega ia por ali a cima e que, lá no alto onde acaba a terra e começa o Oceano Ártico, virava à direita até chocar com a Rússia. Também me lembro de a professora dizer que nos tempos das grandes convulsões geológicas, aquele maciço montanhoso se ter afundado e os vales terem sido invadidos pelo mar formando os actuais fjords. Se não é verdade, está bem imaginado.

Assim, saindo do fjord de Alesund (Olesund), rumámos a norte durante dois dias e duas noites, cruzámos algures o Círculo Polar Ártico (que alguém escondeu pois não o vimos),virámos à direita como mandava o mapa da professora, vimos o Cabo Norte à nossa direita e aportámos a Honningsvag  (Honningsvog por causa dotal º sobre o a que o meu teclado não tem) depois de termos avistado o repuxo de uma ou duas baleias e alguns barcos de pesca miúda. Outro navio de cruzeiros (um «Costa») fundeara ao largo e o cais foi para nós.

Naquele Verão setentrional e bem para lá dos famosos hiperbóreos (como os gregos chamavam aos frios povos germânicos), a temperatura máxima do ar estava nos 7º C, a mínima nos 6º e a brisa encarregava-se de pôr tudo a 1º C. E, mesmo assim, há venezuelanos que preferem aquilo a terem que suportar o ditador Maduro. Sim, um motorista de autocarro e uma guia eram venezuelanos. Por aqui se imagina o que seja o actual inferno na Venezuela. Mas isto foi um àparte e retomemos o fio à meada ultrahiperbórea.

Estávamos a alguns minutos e segundos para além dos 71º de latitude norte e isso fez-me pensar na responsabilidade de toda a Humanidade estar dali para baixo.

Desembarcámos pelas dez da noite para irmos ao Cabo Norte assistir ao espectáculo do «Sol da meia noite». Percurso duma trintena de quilómetros sempre a subir… renas por toda a parte, árvores por parte nenhuma. C0ntudo, a maior parte das casas são de madeira. A meio da subida… um parque de campismo cheio de autocaravanas. Junto ao parque de estacionamento do Museu do Cabo, outro parque de campismo ainda maior que o anterior. Eu, estupefacto; eles, caravanistas, talvez congelados.

É do miradoiro do Museu que, sobranceiro ao promontório do Cabo, supostamente se pode ver a imensidão do Oceano Ártico e o espectáculo do «Sol da meia noite». Desde que aquele banco de nevoeiro o permitisse. Não permitiu e voltámos para dentro do Museu onde as lojas de bugigangas eram assediadas por turistas descoroçoados pela míngua do espectáculo natural. Nós, os avisados, fomos ao cinema ver o que o nevoeiro nos negara.

Regressámos ao navio pelas duas da manhã e ao longo do percurso de volta, os pássaros voavam, as renas pastavam e só os caravanistas dormiam à espera do Solstício de Verão que seria daí a dois dias. Fiquei sem saber se se estava a preparar alguma cerimónia druídica que justificasse tanto caravanista. Não fiz perguntas pois o pessoal venezuelano de serviço naquele autocarro não devia saber o que é um druida.

Zarpámos pelas três da manhã e demos início à viagem de regresso que nos traria do topo do mundo até às cercanias da Baixa da Banheira.

(continua)

Henrique Salles da Fonseca

VIKINGS - 4

 4

Deixados os prolegómenos lá pela foz do Elba, eis-nos a navegar em total calmaria rumo a Norte… comigo sempre à espera de um daqueles vagalhões que alguém me dissera que aparecem vindos do nada e fazem trinta por uma linha. Mas Neptuno foi benigno e, depois de um dia e duas noites a navegar, aportámos à simpática Alesund (diga-se Olesund por causa do º sobre o A que o meu teclado não inclui) que se intitula a «capital do bacalhau».

Volta pela cidade e redondezas mas a guia, sabendo que alguns dos visitantes eram portugueses, mandou o motorista do autocarro parar junto à igreja local e começou por contar a história de que o Kaiser Guilherme II (da Alemanha, claro está) gostava muito de ir até ali gozar umas férias e que, após a cidade ter sido arrasada por um incêndio, ele contribuiu para a reconstrução mandando colocar no interior daquela igreja a sua bandeira com a águia bicéfala para memória futura da sua ajuda. Interessante, sim, mas pouco nos motivou qualquer sentimento especial. E foi então que a simpática guia nos sugeriu que rodássemos sobre os calcanhares e que reparássemos no pequeno cemitério que assim passava a estar à nossa frente. Muito bem ajardinado, não muito mais do que meia centena de sepulturas muito bem conservadas… E foi então que a guia nos contou solenemente que durante séculos, os barcos portugueses (e espanhois) vinham a Alesund pescar e comprar bacalhau e que o lastro na vinda era terra portuguesa (e espanhola) a qual era descarregada naquele local para que na viagem de regresso o lastro fosse o carregamento de bacalhau. Eis como em Alesund a terra sagrada do cemitério… é portuguesa (e espanhola). Nada consta sobre se naquele pequeno e bonito cemitério está sepultado algum português (ou espanhol) mas, esta sim, foi história que ouvi com a mesma solenidade de quem a contou.

Não é importante mas achei giro.

Nota final sobre este primeiro encontro «in loco» com os vikings: as mulheres não se nos apresentaram com aquelas tranças  loiras das míticas personagens do Walhala nem os homens com capacetes de ferro ornamentados de armentío. Pelo contrário, apresentam-se com uma das mais elevadas taxas de escolaridade a nível mundial e consta que, quando nos anos 20 do século XX se encontrou um adulto analfabeto que vivia quase isolado num recanto longínquo de um destes fjords, o escândalo foi tal que o Governo caiu. Em Alesund, cidade que me pareceu relativamente pequena, há três escolas em que se ministra o secundário superior e a Universidade localiza-se a seguir ao túnel submerso que liga esta ilha ao continente.

Foi à chegada a Alesund que me lembrei de que a Noruega saudou a chegada de Portugal ao mundo da democracia oferecendo-nos um navio totalmente equipado para que pudéssemos estudar as nossas pescas: o «Noruega» que tão importante tem sido para sairmos da então reinante boçalidade. Mas os equipamentos electrónicos de apoio à pesca e à navegação continuam a ser fabricados na Noruega e não em Portugal. Porquê? Porque em Portugal os Governos não caem quando aparece um adulto analfabeto. 

(continua)

Henrique Salles da Fonseca

VIKINGS - 3

 

Os meus leitores sabem perfeitamente o que foi a Liga Hanseática pelo que não se justifica eu vir aqui «ensinar o “Pai Nosso” ao Vigário» mas, mesmo assim, permito-me sugerir uma visita à Wikipédia a quem queira refrescar a memória. E refiro a dita Liga porque Hamburgo foi uma das suas principais cidades e porque ao longo da nossa viagem visitaríamos outras cidades hanseáticas.

O nome oficial da cidade é «Frei Hansastadt Hamburg» que traduzo por «cidade hanseática livre de Hamburgo». E porquê livre? Porque sempre se valeu por si própria, nunca pertenceu a um Principado ou «coisa» do género e ainda hoje está entre dois Estados da Federação mas não se integra em nenhum deles. Tanto quanto consegui apurar, tem representação autónoma a nível federal.

O binómio cidade<>porto (fluvial) é, como manda o conceito, indissociável e se a cidade é importante por si própria, a actividade portuária dá serventia a uma das regiões económicas mais desenvolvidas a nível mundial.

E assim foi que nos levaram por ali fora… até ao MSC «Magnifica» que estava ali todo vaidoso a exibir a sua imponente magnificência.

São «só» 95 mil toneladas de navio e mais não digo pois a Internet diz tudo, Apenas confesso que, quando lhe vi a proa – que é por onde os barcos falam – fiquei «bouche bée».

Gostei da decoração interior e fizemos o «check in» ao som de um duo ao vivo de piano e violino que nos recebeu com o «Canon» de Pachelbel, com a «Avé Maria» de Schubert e com outras suavidades que não identifiquei.

Camarote no deck 11, a bombordo, deu para nos instalarmos nas cadeiras de palhinha da varanda e irmos vendo aqueles cem quilómetros da margem esquerda do Elba até à foz. Já fora da malha urbana e industrial, uma floresta ornamentada por mansões de quem é tributado pelos escalões mais altos.

E foi a pensar na lógica e na justiça da fiscalidade directa que, já noite, nos fizemos ao Mar do Norte que nos recebeu chão.

(continua)

Henrique Salles da Fonseca   

VIKINGS - 2

Ainda não tínhamos recolhido as malas no aeroporto de Hamburgo e já eu me lembrava de Lutero que disse que «a salvação se consegue pelo trabalho» (Deus não quer madraços no Céu), de Kant cujo «imperativo categórico» afirma que toda a gente tem a obrigação ética de contribuir para o bem-comum do seu grupo social, da sua Nação e lembrei-me também de Max Weber (o «pai» da Sociologia) que pegou naqueles ditames e, conjugando-os, escreveu um livro que tenho por fundamental para se perceber os alemães, «A ética protestante e o espírito do capitalismo». Os meus leitores sabem perfeitamente conjugar estas três referências, prescindem de explicações. Lembrei-me também dos resultados obtidos por políticas benignas quando aplicadas a uma parte dessa Nação quando comparados com os homólogos resultantes da aplicação de políticas malignas à outra parte.

E assim foi que, sem saber exactamente por onde nos levavam, almoçámos numa margem do rio Auster por ali canalizado entre prédios de afável compostura.

Depois do almoço fomos dar uma volta pela cidade (que não reconheci de quando lá fui em 1959 e em 1961) e visitámos a Igreja de S. Miguel.

Um espanto, caiu-me o queixo!

Relativamente modesta por fora mas magnífica por dentro com sete órgãos de tubos (cinco visíveis e dois em segundo plano); como igreja luterana, ali apenas se veneram Deus e Jesus Cristo pelo que nem Nossa Senhora é venerada – total ausência de iconografia. Mas se disto eu já esperava, o meu espanto teve a ver, obviamente, com o que eu não esperava: na cripta repousa «apenas» Georg Friedrich Telemann, Carl Emmanuel Bach e Johannes Brahms. Caramba, um ptotopanteão da música alemã!

Mas o que mais me espantou foi aquela igreja ter como orago o «nosso» Arcanjo S. Miguel, o Protector de Portugal.

Duvido que os frequentadores habituais daquela igreja conheçam a história de S. Miguel mas daqui lhes agradeço a simpática devoção.

Nos tempos megalíticos em que ao nosso território, Portugal, se chamava Ofiuza (a terra da serpente, símbolo da sabedoria), a cultura druídica instituiu a veneração a Endovélico cujo culto perdurou até aos tempos de Viriato. Com a chegada dos romanos, o deus Endovélico foi redenominado Zéfiro e com a cristianização, àquele espírito foi reconhecido o estatuto de Arcanjo sendo então denominado Miguel. Eis a história de S. Miguel Arcanjo a cuja protecção Portugal se guarda.

Mas esta crónica já vai longa e, assim, por aqui me fico. Amanhã há mais…

(continua)

Henrique Salles da Fonseca

AVIGNON - 3

ou

«MALGRÉ PARIS»

«ACH…!!!» e «BUFFF…!!!» - eis duas expressões que os franceses usam a esmo já mesmo sem saberem porquê. Mas, na origem, ambas expressam o enfado (para dentro) e o desprezo  (para fora) de terem que ouvir estupidezes quando ditas em surdina ou de modo mais veemente se o «ofendido» sentir que lhe estão a coarctar os seus sacrossantos e inalienáveis direitos. A este tipo de expressões (que nem sei se se podem classificar como omanotopaicas) eu chamo grunhidos.

Então, a institucionalização do grunhido como instrumento verbal de comunicação humana, começou com a queda dos Valores religiosos e, daí, a queda dos correlativos Valores morais – tardou a implementação da Moral Laica (Republicana); queda dos Valores Éticos de inspiração religiosa – deficiente implementação de um Código de Ética Republicana com prevalência dos Direitos e algum esbatimento dos Deveres de Cidadania, assumpção do «carpe diem» com voracidade.

Eis o pós-modernismo exaustivamente dissecado por Gilles Lipowetsky, eis o urbano-comprimido amoral, aético, associal, o titular de todos os direitos a quem tudo é devido e que bufa constantemente desprezíveis «BACHs…!!!» e «BUFFFs…!!!».

Foi esta a França que NÃO vi!

Perguntados, o Senhor Cheminot e a Senhora Cheminée apressaram-se a dizer que isso é o que acontece na região de Paris. O resto de França continua em paz consigo própria, as pessoas são cordatas, a vida flui docemente…

Ao que respondi: - VIVE LA FRANCE (malgré Paris).

E assim saudámos o ano novo.

3 de Janeiro de 2022

O GATO E A LEBRE

Nas viagens todas que já fiz de Cacilhas a Xangai passando pelo Cabo Horn e por Alotau no extremo leste da Papua Nova Guiné, estive em muitos lugares surpreendentes mas houve dois que me mereceram atenção especial e onde a mostarda me chegou ao nariz. Refiro-me ao Cabo Comorim, o extremo sul da Índia e ao Lorelei, no Reno.

A solenidade que a epifania desses locais me inspirava estava a ser grosseiramente prejudicada por ruidosos grupos de viajantes que desconheciam totalmente o que visitavam e assim foi que dei dois berros, provoquei o silêncio e expliquei tudo o que sabia. Em ambas as ocasiões choveram agradecimentos e pedidos de desculpas pelas algazarras anteriores.

No Cabo Comorim, para além da confluência do Mar de Omã com o Golfo de Bengala, chamei a atenção em inglês a um grupo que me pareceu sul-africano para a imponência da estátua ao Deus Aurobindo, figura de grande relevo no hinduísmo e, daí, aquele ser local importante de peregrinação – e os basbaques, atónitos, miravam o promontório enorme…; no Lorelei, com a música mais célebre do tema local a encher de nostalgia o barco do nosso cruzeiro, expliquei em castelhano ao grupo catalão  que aquele é um local importante da mitologia germânica com a valquíria a dialogar com Wotan lá no alto do promontório e blá-blá-blá…, a música que estávamos a ouvir era de Schubert, a letra de Heinrich Heine e que Robert Schumann se despencara fatalmente daquele rochedo.

As ovações taparam a música e tudo passou com grande glória para a minha sabedoria.

Mas… não era bem assim. Melhor direi que quase nada era assim. Felizmente, não voltei a encontrar quem me confrontasse com tanta involuntária fantasia resultante de tão vasta falsa cultura.

Então, no Cabo Comorim só acertei na geografia e tudo o mais passa a ser muito mais profano pois a estátua enorme é de Tiruvalluvar, o filósofo tamil  e o outro memorial é ao filósofo bengali Swami Vivekananda que nos finais do séc. XIX representou o hinduísmo em Chicago no Parlamento Mundial de Religiões. Quando uma parte das cinzas de Gandhi ali foi espalhada, já o local era de peregrinação hindu. Ainda não sei porquê mas voltarei aqui quando souber.

Quanto ao Lorelei, a mística do local resulta de o penhasco provocar no Reno uma curva em cotovelo cujos turbilhões provocaram muitas tragédias desde que o homem decidiu navegar ali. Mas o local tem imponência e espíritos mais românticos (Heinrich Heine, por exemplo) inventaram a história duma bela pastora que ali penteava os seus cabelos doirados e blá-blá-blá… E, vai daí, os alemães do solfejo entretiveram-se a compor lieder para a letra do Heine. Encontrei muitas dessas músicas no YouTube, a mais célebre é de um compositor cujo nome esqueci e não encontrei nenhuma de Schubert. Quanto a Schumann, se alguma vez ali foi, nada encontrei que registasse o passeio ao Lorelei. Encontrei, isso sim, que se atirou duma ponte sobre o Reno em Düsseldorf, que um barqueiro lhe deitou a mão e que dali foi para um hospício psiquiátrico nos arredores de Bonn onde morreu anos mais tarde.

E a minha pergunta é: - onde é que eu fui desencantar tanta falsa informação que involuntariamente impingi aos meus «colegas» turistas?

E se algum desses meus «colegas» foi estudar as lições, há-de concluir que anda por aí muita falsa informação turística.

Que esta correcção voluntária sirva para a remissão daqueles pecadilhos involuntários.

Recomendo, pois, que não nos fiemos no que nos contam enquanto passeamos pois anda por aí muito gato a fazer-se passar por lebre.

Contudo, se as minhas versões eram falsas, elas eram muito mais bonitas do que as insípidas verdadeiras - e fui eu que saquei aplausos, contei às pessoas o que elas queriam ouvir, fui demagogo, pareci político em campanha a sacar os votos dos inocentes.

Julho de 2021

POR TORDESILHAS ALÉM… - 12

Vão-se os anéis mas fiquem os dedos. Prescindimos das excursões e de mais uns dias de hotel mas conseguimos antecipar o regresso: de início, previsto para 22 de Março, antecipado pela própria companhia aérea para 21 e, finalmente, antecipado pela nossa agência de viagens em Lisboa para 18.

Mas como nestes tempos que correm, o que é verdade agora pode não o ser amanhã, só acreditávamos que viríamos no dia 18 depois de sentirmos os motores do avião a trabalhar. Significaria isso que tinha sido dada autorização para aterrarmos no destino, Madrid. Portanto, na dúvida, fui informando a nossa Embaixada no México de que, eventualmente, poderíamos vir a necessitar de ajuda oficial para o repatriamento. Tudo correu como desejávamos e não foi necessário incomodar a Embaixada.

Vôo sem história aeronáutica – apenas uns ligeiros tremeliques horizontais – mas em que apenas foi servido o jantar; quem quisesse pequeno almoço, que o pagasse.

Pesado, o ambiente a bordo: silêncio de quem não sabia o que iria encontrar no destino; parecia um vôo de resgate de refugiados, a evacuação de sobreviventes de um cataclismo. Nós os quatro sabíamos que tínhamos um carro à nossa espera numa determinada empresa de aluguer de automóveis em Barajas. Mais: carro com matrícula portuguesa para facilitar a passagem da fronteira no Caia, com capacidade para quatro adultos que gostam de comodidade e bagageira capaz de conter oito malas. Aluguer sem condutor, eu sem visão para poder guiar, o Pepe, mal dormido no avião, teve que alinhar com mais seis horas ao volante. Heróico!

Autoestrada contínua de Barajas a Lisboa, diziam-nos que haveria controlos policiais cada 10 kms e que no Caia a fronteira fechava às 8 da noite para só reabrir às 6 da manhã com fila interminável. Tudo mentira, tenho por terroristas as pessoas que lançam essas atoardas. Pouco trânsito de pesados e menos ainda de ligeiros, não houve um único controlo policial, no Caia não havia qualquer fila, exibimos os passaportes através dos vidros fechados e, sem delongas e com uma certa cordialidade, fomos mandados entrar no nosso país. Viemos a saber que a fronteira está aberta 24 horas por dia. Eram quase 7 da tarde do dia 19 de Março quando metemos a chave à porta de casa.

Para desgosto dos dependentes das negatofinas (as endorfinas negativas) que, sob a capa da amizade e da protecção, fazem a vida dos mais sensíveis num inferno, chegámos sem dramas nem outro constrangimento que não o cansaço físico, não psíquico.

Como dizem os franceses, «tout va bien quando fini bien».

FIM

Março de 2020

Henrialles da Fonseca

POR TORDESILHAS ALÉM… - 11

Mármore branco e luzidio por tudo quanto era chão e paredes naquela bela aerogare de Cancún. Encaminhados para a fila dos guichets da Polícia de Fronteiras, a Bandeira Nacional Mexicana panda no seu pau encimado por seta doirada. Grande dignidade merecedora da admiração dos forasteiros - neste caso, eu. Verificados e carimbados os passaportes, a agente à paisana a dar-nos as bienvenidas. Cinco estrelas.

Contraste absoluto com a agente fardada e de máscara que rudemente nos verificou os passaportes à entrada do Panamá. Desculpei-a porque admiti que o marido dela se tivesse portado mal na véspera. Ou porque nem sequer tivesse marido.

Esperava-nos um mexicano baixote que se apresentou como José e nos conduziu a uma carrinha – quatro adultos habituados a mordomias e oito malas não se metem numa carripana qualquer - que cheirava a limpo. Bom piso nos 30 ou 40 kms até Playa del Carmen. O guarda da cerca exterior do hotel não estava informado da nossa chegada senão para daí a dois dias, não nos deixava entrar. Barafustámos, ameaçámos com a ira divina, apregoámos o cancelamento das reservas futuras e o Fulano que estava do outro lado da comunicação do guarda lá deu licença para que entrássemos.  Afinal, esse mini-déspota, tiranete, eunuco de harém, era um atabalhoado que não era capaz de fazer o nosso check-in e fomos nós (mais uma vez, a Graça e o Pepe) a fazerem tudo. O José da carrinha não nos abandonou enquanto não teve a certeza de que estávamos em segurança. De caminho para os quartos já por horas nada cristãs, o recepcionista estendeu-me a mão num gesto de boas-vindas. Mão gorda, saposa. Devem ser assim as mãos dos guardas dos haréns.

Arquitectura e decoração sumptuosas, só tínhamos por ambição verificar tudo isso no dia seguinte. Para já, cama.

Luxo, luxo, luxo.

O programa das festas era a permanência de uma semana com três excursões mas tudo saiu truncado por estarmos a assistir ao encerramento sucessivo dos espaços aéreos e a corrermos o risco de ficarmos retidos no México sem ligações a casa. Aliás, a própria companhia aérea se encarregou de antecipar o vôo e nós fizemos apenas uma excursão. Mas os outros dias foram muito bons: uma dúzia de restaurantes dentro do hotel para que pudéssemos escolher à vontade no regime de tudo incluído. Para quem este regime é novidade, a exuberância dos consumos é notória; para quem está habituado (nós), a moderação é a norma. Quarto sobranceiro à piscina e a curtíssima distância da praia; baía fechada por rede anti-dentuças, os primos do cação da nossa sopa; água a condizer com as nossas expectativas – entrada afoita; comes ligeiros e bebes tanto inocentes como hard servidos à descrição com água pelo pescoço ou à sombra de alguma palapa. Aquela não é mas poderia ser a «praia do nababo».

Excursão interessante de um dia inteiro por local arqueológico (Tulum) e piramidal (Cobá). Mas, mais do que o campus arqueológico (não tive pernas que lá me levassem) e as pirâmides, interessou-me mais o que se passa actualmente com a Civilização Maya. Tanto quanto o homem do rickshaw que nos levou às pirâmides contou, em casa falam a língua maya mas na escola só aprendem castelhano; aprendem História maya mas nada mais. Concluo (talvez abusivamente) que o Estado Mexicano tem medo da Civilização Maya e do que algum revivalismo possa significar para a integridade nacional - já lhes chega Chiapas.

Entretanto, as notícias que nos chegavam da Europa e, mais concretamente, de Espanha, eram aterradoras. Estava (e ainda está, no momento em que escrevo estas linhas) em curso uma verdadeira chacina. Havia que apressar o regresso antes que o colapso nos impedisse de voltar a ver as famílias e os amigos.

(continua)

Março de 2020

Henrique Salles da Fonseca

POR TORDESILHAS ALÉM… - 10

Ondas como as do Lago de Genève. Fazendo horas para o jantar, a Graça e eu estávamos na varanda do camarote a ver o Sol a caminho da noite e olhávamos para nenhures. O que se espera ver num mar que parece infinito e plano? Um tsunami que nos vire de borco? Não! Talvez se veja uns golfinhos, umas baleias, um navegador solitário ou uns náufragos… Nada disso. A novidade não estava no mar, tinha sido posta num papel por baixo da porta do camarote.

Era uma comunicação formal de alguém colocado na hierarquia determinante do navio a informar que aportaríamos a Colón na manhã seguinte pelas 7 horas e que seríamos todos metidos em autocarros e escoltados até ao aeroporto de Panamá City. Que tratássemos de mudar de vida. E que, como com o bode a ser ordenhado, não haveria nem meio mé.

O nosso programa de festas previa desembarcarmos, termos um carro à nossa espera para nos levar ao hotel em Panamá City onde ficaríamos mais dois dias a ver o que por lá houvesse de interessante e, então e só então, voarmos para Cancún, no México. Nada disso, seríamos escoltados até ao aeroporto e dali não poderíamos sair a não ser por uma porta de embarque para um avião que nos tirasse para fora do Panamá. No Panamá é que não podíamos ficar. Escorraçados como um bando de mal-cheirosos. E mais: o problema não era apenas connosco, os quatro portugueses, era com todos os passageiros do navio com desembarque previsto em Colón, «apenas» cerca de 850 pessoas. Se a esta multidão somarmos os tripulantes não panamianos em fim de contrato que também desembarcariam, tratar-se-ia de cerca de mil pessoas à deriva, sem solução muito diferente da de terem (termos) que dormir espojados no chão do aeroporto. Estariam 16 autocarros à nossa espera no cais e seríamos escoltados pela Polícia. E que desamparássemos a loja, neste caso, o navio. À saída, haveria uma equipa médica que nos mediria a temperatura: se apiréticos, tudo bem; se febris, não nos disseram onde estaria a máquina de picar carne para de seguida mandarem os restos para o crematório local.

- E não podemos ir no barco até Cartagena de las Índias e tentar resolver o problema a partir da Colômbia?

- Nem pensar nisso, até porque o problema lá é igual ao daqui. Têm que sair e desenrascarem-se.

No check in, aquele mesmo funcionário tinha sido mais afável e não perdi a oportunidade de chamar Pilatos a quem assim se livrava de nós. Desapareceu e não foi mais visto nas redondezas daquele balcão de «apoio» aos passageiros do nosso deck.

A Graça e o Pepe – os reais organizadores das viagens que fazemos em conjunto – tinham 12 horas para conseguirem antecipar o vôo do Panamá para Cancún e para anteciparem dois dias a nossa chegada ao hotel em Playa del Carmen. Como se imagina, as comunicações do barco entupiram de imediato com tanta gente a querer resolver os respectivos problemas equivalentes ao nosso. Valeu-nos a diferença horária entre o Panamá e Portugal, 5 horas, pelo que quem tudo reorganizou com inexcedível dedicação e profissionalismo foi a nossa agência de viagens em Lisboa, a Lusanova, a quem daqui presto merecido aplauso. É que, quando desembarcámos, já sabíamos que voaríamos no vôo tal e tal, que no destino teríamos quem nos levasse ao hotel, tudo perfeito.

Formada a coluna de 16 autocarros, fomos escoltados por polícia motorizada e armada de metralhadora como se fôssemos uma leva de criminosos ou um bando de leprosos. E isto era sabendo que estávamos todos apiréticos. O que seria se alguém estivesse com febre por causa de um panarício ou por um ataque de caspa? Chegados à cerca do aeroporto, ordem para parar. E começámos a ser ultrapassados por todos os que não pertenciam à coluna. Assim estivemos cerca de uma hora até que duas dúzias dos nossos, exaltados, fizeram um cordão humano a impedir o trânsito. Foi ver a Polícia a dar ordem para seguirmos. Pensei que esses cívicos armados ou eram cobardes ou não estavam convictos de alguma ordem absurda que estavam contrariadamente a cumprir.

À hora prevista chamaram-nos para o avião. Não nos virámos para trás a fazer um gesto feio até porque os passageiros depois de nós na fila de embarque não tinham culpa nenhuma. Mas dissemos «Adios Panamá».

Vôo de duas horas e aterragem tão suave que só me apercebi que já estávamos no chão porque senti o piloto pôr o reverse e travar.

Bom augúrio, México!

Continua)

Março de 2020

Henrique Salles da Fonseca

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