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A bem da Nação

DAS MINHAS NAVEGAÇÕES E ALHEIAS

SOCOTORÁ

 

Verás defronte estar do Roxo estreito

Socotorá, com o amaro Aloé famosa.

(Os Lusíadas - Canto X - estrofe 137)

 

Antiguidade

Na Antiguidade, a ilha encontra-se referida no "O périplo do mar Eritreu" (manuscrito, século I) como "Dioskouridou" em alusão ao autor greco-romano Dioscórides. Entretanto, nos nossos dias, o arqueólogo e antropólogo G. W. B. Huntingford, assinala que a toponímia "Socotorá" é de origem grega, mas que procede do sânscrito "dvipa sukhadhara" ("ilha da felicidade").

No século X, o geógrafo árabe Almaçudi comentou que a maioria dos habitantes das ilhas eram cristãos.

 

Descobrimentos portugueses

À época dos Descobrimentos portugueses, é provável que o primeiro navegador a alcançar a ilha tenha sido Vicente Sodré, tio de Vasco da Gama, que ali terá feito aguada antes de se perder nas ilhas de Curia Muria (atual Omã) em 1503. No entanto, essa primeira descoberta é disputada por Diogo Fernandes Piteira (ou Pereira), segundo Damião de Góis e João de Barros que, de regresso ao reino, dele deu notícia a D. Manuel I. O navegador e militar António de Saldanha, que navegara na região rumo ao estreito do Mar Vermelho, confirmou em Lisboa a bondade da ilha em portos e quanto à provável existência de cristãos descendentes dos habitantes que o apóstolo São Tomé doutrinara aquando do seu naufrágio no local a caminho da Índia.

Para além da aparente população cristã que a Coroa Portuguesa considerou urgente libertar da servidão imposta pelo rei muçulmano de Fartaque (atual cabo Fartak, no Iémen), Socotorá, localizada à "mão esquerda entrando para o estreito, junto ao cabo Guardafui", aparentava ser uma peça-chave para o controle do Mar Vermelho. Por essa razão, D. Manuel traçou um plano de conquista da ilha incumbindo Tristão da Cunha e Afonso de Albuquerque dessa missão e de nela instalarem uma fortaleza. Para esse fim, fez embarcar uma estrutura de madeira prefabricada em Lisboa. A conquista da ilha teve lugar em 1507, sob o comando de Tristão da Cunha, após a tomada da Fortaleza de Soco (à época, escrita Çoco), guarnecida por 120 homens sob o comando do "mui valente cavaleiro e sem medo nenhum" Coje Abrahem, filho do rei de Caxem (atual Qishn), cidade a alguns quilómetros do cabo Fartak.

 

O Forte de São Miguel de Socotorá

As obras da fortificação ficaram a cargo do mestre de pedraria Tomás Fernandes. Sob a invocação de São Miguel, ficou sob o comando do capitão D. Afonso de Noronha tendo a mesquita local sido convertida em igreja sob a invocação de Nossa Senhora da Vitória e a orientação de Frei António do Loureiro, guardião do mosteiro franciscano de São Tomé, o primeiro fundado extramuros e também o primeiro fundado no Estado Português da Índia.

 

Do século XVI ao XIX

A infertilidade da terra e o isolamento da praça em pleno território controlado pelo inimigo, levou a que, tanto a guarnição militar quanto os religiosos, fossem assolados pela fome, pelas doenças e pelos levantamentos dos muçulmanos, recebendo socorro apenas após a conquista de Ormuz por Afonso de Albuquerque (1507). Em pouco tempo, entretanto, a tese de que era essencial a ocupação de ilhas para o controle das rotas marítimas, começou a perder peso na estratégia portuguesa na região. A Fortaleza de Angediva havia sido abandonada (1506) e assim o seria o Forte de Socotorá (1511) e o Forte de Quíloa (1512).

A evacuação de Socotorá fez-se com o recurso às naus de Diogo Fernandes de Beja que não apenas fez demolir a fortificação até aos alicerces como transportou toda a sua guarnição para reforço de Goa e mais de duzentas mulheres e demais cristãos da terra, assim como a artilharia e demais apetrechos.

Com a retirada portuguesa, o arquipélago passou para o controle dos sultões Mahra.

A ilha continuou a servir de ponto de aguada aos portugueses tendo nela permanecido sempre um ou dois missionários. Alguns dos cristãos no local foram catequizados por São Francisco Xavier aquando da sua passagem para a Índia (1542), que descreveu a ilha como "(...) terra desamparada e pobre, não crescendo nela nem trigo, nem arroz, nem milho, nem vinha, nem fruta: é muito estéril e seca".

Entre 1540 e 1541 foi descrita por D. João de Castro, que registou: "(...) em todo o circuito da ilha não há porto nem outra alguma estância onde possa algum navio invernar seguramente". Em suas águas várias embarcações naufragaram, sendo a mais famosa o galeão Santo António, sob o comando do capitão Manuel Pais da Veiga, tendo como piloto Aleixo da Mota, em 1601.

Em termos económicos, os portugueses extraíam poucas matérias-prima, essencialmente o "sangue de dragão" (seiva de dragoeiro) e o aloé, este último utilizado como adstringente e purgante intestinal.

 

Do século XIX aos nossos dias

Devido à sua posição estratégica, passou a ser um protectorado britânico em 1886 controlando o estreito de Áden.

Com a independência do Iémen (1967), passou à sua soberania.

 

(Da Internet, Autor não identificado)

Por ali naveguei em Março de 2019 com piratas a bombordo e uma guerra civil (no Iémen) a estibordo. Mas passámos incólumes.

 

Junho de 2019

Henrique Salles da Fonseca

EPIFANIA JOYCEANA

 

ou

SINAIS EXTERIORES DE RELIGIÃO

 

 

Foi James Joyce que me chamou a atenção para a beleza de tentarmos captar a essência dos locais, aquilo a que ele chamava a «epifania dos locais» e eu passei a chamar a «epifania joyceana».

Para tal, sem transcendências, há que lhes conhecer a história, saber minimamente o que por ali se passou e, depois, no local propriamente dito, imaginar os cenários envolventes desses acontecimentos. Poeticamente, há que ler a história que as pedras tenham para nos contar.

E é isso que faço amiúde nos locais mais vulgares assim como noutros, menos banais. Sem ensaios de mediunidade, imagino as cenas que se passaram em gerações anteriores nos locais que habito ou nas ruas que me são frequentes mas em lugares especiais não deixo de me sensibilizar por figuras especiais. Por exemplo, na minha rota dos Apóstolos.

O Apóstolo S. Tiago Menor, também conhecido por S. Jaime, dito irmão de Cristo (ou em Cristo?), foi o primeiro Bispo de Jerusalém e teve que negociar a nova Doutrina com os prosélitos do Antigo Testamento. Isso deu-lhe uma firmeza doutrinal que os sacerdotes do Templo não estavam preparados para encarar com bonomia e, incitadas as massas, foi S. Jaime atirado do topo das muralhas de Jerusalém despedaçando-se no local em que os homens de boa vontade lhe fizeram o túmulo.

Desconheço que provas arqueológicas existam que confirmem o local como o do túmulo do Apóstolo mas não me preocupei com a hipótese de reescrever a História e foi ali mesmo que imaginei S. Jaime, a sua vivência mais diplomático-turbulenta e imaginei, invocando-o mentalmente, na fase de transição para a vida eterna naquele mesmo lajedo. Não senti que o Apóstolo me enviasse alguma bênção pessoal mas senti-me bem só de o imaginar.

A minha primeira relação geográfica com S. Paulo foi na gruta a que ele se terá recolhido após o naufrágio em Malta mas a quantidade de visitantes e a estreiteza do local não foram propícios a qualquer invocação. Deixei passar… e fui encontrar-me com ele em Éfeso, no teatro romano em que ele se dirigiu aos gentios e em que lhes terá dito que «se Cristo não ressuscitou, então a nossa fé é vã».

Não sei ao certo se foi isso que ele começou por dizer ali e que depois repetiu na segunda carta aos romanos (ou aos efesos?) mas foi dessa passagem que me lembrei quando pisei a laje central do palco do teatro, precisamente a mesma (espero bem que aquela mesma e não outra que os arqueólogos lá tenham posto entretanto) sobre a qual ele falou. Também ali não senti nenhuma bênção especial mas senti-me bem apesar de a minha relação com S. Paulo nem sempre ser tão pacífica como eu gostaria. Mas isso fica para outro escrito.

Deixei passar uns tempos – e uns templos – e fui ao Sul da Índia, ao Estado do Tamil Nadu.

Madurai, onde foi martirizado S. João de Brito cuja igreja não estava na rota da agência de viagens. Duvido mesmo que os agentes turísticos portugueses saibam da existência daquele nosso mártire e que assim passem em falso não só uma parte importante da História da Igreja na Índia como também da própria História de Portugal. Mas quem sou eu para me estar a meter na vida de quem sabe tudo, os agentes de viagens?

 

Mas um pouco mais a Norte, a sete horas de autocarro, em Meliapor, a Basílica do Apóstolo S. Tomé, sim, estava na rota turística.

Começo por dizer que os ingleses chamam Tomás a Tomé daí gerando uma confusão histórica medonha entre o Apóstolo e o Santo que viveu mais de não sei quantos séculos depois. Qualquer minudencia histórica como uma diferença de 12 séculos. Só!

Mas eu não os confundi e sabia muito bem na presença de quem estava, na do Apóstolo S. Tomé, o do «ver para crer». E visitei a sua capela no subsolo da actual basílica. Apesar duma breve invocação, também não senti receber alguma benesse especial mas senti-me bem. O mais sensível, foi, contudo, à saída da capela quando por acaso me virei para uma determinada parede e reparei numa lápide onde se informava os leitores da dita cuja que aquela capela fora reaberta ao público uns quantos anos antes (poucos, pareceu-me então) numa cerimónia presidida por um hierarca – Bispo ou Arcebispo – da Igreja Portuguesa cujo nome entretanto esqueci.

E logo voltei a invocar o Apóstolo para que a Igreja Indiana retome em Goa, em Damão, em Diu, em Chennai, em Baçaim e mais não sei onde uma celebração eucarística semanal em língua português para reaproximar os fiéis da sua Igreja estaminal. Mas como o Apóstolo não me enviou qualquer mensagem de volta, peço agora aqui a algum responsável indiano pela fé católica industânica que não se esqueça de que fomos nós, portugueses, que lhes levámos a sua fé e não os anglófonos em que actualmente celebram.

Todas estas histórias são muito primárias ou mesmo nulas em relação ao misticismo e mais não são do que os meus sinais exteriores de religião. Mas eu gosto deles.

Felizes aqueles que têm uma fé.

Maio de 2019

Henrique Salles da Fonseca

AH! MAFAMEDE, MAFAMEDE…

… VALHA-ME SANTA LUZIA!!!

Santa Luzia.png

 

Foi por terras de Mafamede que me lembrei de Santa Luzia.

 

Santa Luzia de Siracusa (~283-304), Santa da Luz segundo a tradição da Igreja Católica. Mesmo sem olhos, nascida numa família rica de Siracusa, foi venerada como virgem e mártir cristã que, segundo consta, morreu durante as perseguições do imperador Diocleciano.

 

Na antiguidade cristã, juntamente com Cecília, Águeda e Inês, todas elas atempadamente canonizadas, a veneração a Santa Luzia foi das mais populares e, como as primeiras, tinha ofício próprio chegando a ter vinte templos em Roma nomeados em sua devoção.

 

O episódio da cegueira, ao qual a iconografia a associa, deverá estar ligado à faculdade espiritual de captar a realidade sobrenatural. Por este motivo, Dante Alighieri, na Divina Comédia, lhe atribui a função de «graça iluminadora».

 

E assim foi que ficou como padroeira dos amblíopes, zarolhos, cegos e, claro está, dos oftalmologistas – e presumo que dos optometristas, oculistas e outros que tais…

 

E porque foi em terras de Mafamede que me vi metido em trabalhos com o meu olho direito, lembrei-me dela. E muito!

 

Então, foi assim…

 

… meti-me a fazer um rally pelas dunas do deserto do Dubai e na manhã seguinte apareci com a sensação de que ia fazer um treçolho. Só que não tinha a pálpebra inchada. O pseudo-treçolho desapareceu mas surgiu uma mancha opaca. No hospital do barco deram-me um antibiótico oftálmico e um anti-inflamatório. Assim me tratei até ao final do cruzeiro (rejeitei uma ida a um oftalmologista em Aqaba) e apresentei-me no Banco do Hospital de Santa Maria no dia seguinte à chegada a Lisboa. Médicos em polvorosa a espreitarem cá para dentro, análises (normais), TAC (normal), ida à Neurologia (saído limpo)… mais análises na manhã seguinte mas, entretanto, tome lá isto mais aquilo. E tomei. Vá ter connosco ao «Instituto Gama Pinto». Fui. Devo ter sido observado por cerca de uma dúzia de especialistas. Absolutamente formidável a atenção que me dispensaram. Derrames e inflamações desde a córnea ao disco e ao próprio nervo óptico. Como acontece uma coisa destas? Sabemos lá! Vi-os «à nora» e foram muito sinceros (e sérios, claro!): Quando não sabemos o que fazer, receitamos cortisona. Tome isso! Tomei tudo nas doses prescritas.

 

Voltei lá hoje e viram-me pormenorizadamente. Que estou incomparavelmente melhor. Reduziram-me a medicação. Posso montar de novo a cavalo mas com cautela. Querem ver-me no final do mês e então é que se vai ver quanta visão mantenho no olho afectado. A ver, como se diz em Oftalmologia.

 

Valham-me Santa Luzia e os médicos do Gama Pinto.

 

Sim, quem se mete por terras de Mafamede… é como quem adormece com crianças, sai húmido.

 

Lisboa, 11 de Abril de 2019

 

Arábia-3.png

Henrique Salles da Fonseca

 

BIBLIOGRAFIA:

Wikipédia, sobre Santa Luzia

 

 

ARÁBIA FELIX – 18

 

Notada a ausência de relatos sobre monumentos, venho trazer agora umas quantas vistas do que nos foi apresentado tanto en passant como em detalhe:

033-Moldura, Dubai.JPG

Dubai - foto tirada de dentro do nosso autocarro, daí o reflexo do vidro

Trata-se de uma moldura gigante que mais não é do que um miradouro

Meu comentário: pobre dinheirinho, o que de ti fazem…

038-Burg Khalifa, Dubai.JPG

O edifício à direita é o chamado «Burj Khalifa», tido como um dos mais altos do mundo a cujo piso 145 subimos

112-Monumento ao incinerador de incenso, Mascate.J

Monumento ao incinerador de incenso junto ao porto de Mascate, Omã

 

Muitas mais fotos poderia juntar mas desde já informo que na Internet há imagens muito melhores do que as que a minha mulher e eu fizemos.

 

Contudo, se os monumentos por que passei me motivaram menos do que os meus leitores esperavam, isso deve-se a que me interesso muito mais por outros aspectos da realidade, nomeadamente a perspectiva humana.

 

Sim, vi algumas mesquitas, arranha-céus e outros monumentos laicos mas gostei muito mais de saber que, afinal, em Omã, a versão religiosa não é o Sunismo nem o Xiismo mas sim o Ibadismo o qual pugna pela exegese conducente à concórdia, ao contrário dos sunitas que negam qualquer exegese e cumprem literalmente os respectivos textos sagrados numa lógica de Talião; os xiitas, fazendo a respectiva exegese, também assentam toda a sua filosofia na mesma lógica de Talião. Eis por que fiquei a admirar muito mais a beleza da mesquita de Mascate do que outras por que passei. Mas como, na altura da visita, eu não sabia da existência do Ibadismo, não me apercebi de nada e passei em falso aquela beleza arquitectónica. Fica a imagem com aprovação tanto do soft como do hardware.

 

097-Mesquita de Mascate.JPG

Mesquita de Mascate, Omã, o mais importante local de oração Ibadista

 

Sobre a paisagem humana ainda tenho alguma coisa a dizer: na nossa perspectiva, ocidental, aqueles regimes políticos são medievo-anacrónicos, criticáveis pela lógica democrática e denunciáveis ao abrigo dos nossos actuais conceitos de humanismo.

Ócio em Mascate-2.png

Petra modernista-2.png

 

As imagens falam por si: medievalismo e laivos de modernismo na comunicação. Resta apurar que mensagem transmitida: de ódio ou de compaixão? Na foto de cima, em Mascate, devem ser ibadistas, os da concórdia, mas na de baixo, num qualquer outro local por onde passei, é por certo um sunita e, então, a «coisa» pia muito mais fininho. Ou piará grosso?

 

Mas – e há sempre um «mas» - perante realidades como a da Irmandade Muçulmana e outros grupos fundamentalistas sunitas wahhabitas, é imprescindível que os mullahs temam mais o ditador terreno do que a ira divina.

 

Eis por que os monumentos me passaram ao lado mas a linha verde do combate ao deserto me encantou e a referi.

 

Abril de 2019

À porta do palácio do Emir do Dubai.jpg

Henrique Salles da Fonseca

(Dubai – palácio do Emir)

ARÁBIA FELIX – 17

 

Demorámos 12 horas a percorrer o Canal de Suez de um extremo ao outro. Não sei se é habitual que assim seja ou se a nossa velocidade foi especial de passeio. Deu para ver tudo em detalhe, a curta distância, pois estava tudo ali, à mão de semear. E o que vimos? Muito. Diria mesmo mais: muitíssimo!

Cidade turística no Sinai-2.jpg

 

O incrível volume de obras em curso na margem do lado do Sinai dá que pensar. Trata-se de cidades e cidades seguidas umas às outras com finíssimas zonas de permeio. A maior parte delas com nítida vocação habitacional ou até mesmo turística e algumas outras em que vi militares e equipamentos da Engenharia egípcia a trabalhar. Estas, poderá ser que estejam vocacionadas para o lazer de militares mas achei lazer em demasia. Do que se tratará? Não havia a bordo quem me soubesse esclarecer pois este era o primeiro cruzeiro que o nosso Armador por ali fazia e, pelos vistos, o pessoal sabia tanto como eu: nada. Fica o registo de que na margem do Sinai está tudo numa polvorosa de obras grandes, médias e pequenas, civis e militares.

 

A Administração do Canal situa-se na margem africana, a que está humanizada há mais tempo, relativamente próxima do Cairo e de Alexandria.

Sinai-portão mistério.png

Um dos mistérios que deixo por resolver é o de estradas que, na margem do Sinai, saem a 90º do Canal em direcção a nenhures mas que, logo ali à nossa vista, são interrompidas por um muro de pedra em que a única passagem (um relativamente pequeno portão) está descentrado da via e colocado sobre uma das bermas, aparentemente em descontínuo com qualquer trânsito que por ali se aventure.

Ponte em Port Saïd.JPG

E lá vem o companheiro «Costa» quase a passar por baixo da ponte de Port Saïd

 

Nos arrabaldes de Port Saïd, uma ponte magnífica (ainda por inaugurar) que ligará ao porto marítimo que se situa na outra margem, a do Sinai.

 

E por aqui saímos das Arábias, nos fizemos ao mar e seguimos rumo ao Pireu.

 

Haja calma e ninguém vai suster o Egipto.

 

Inch Allah!

 

Questão final: «Arábia Felix» - porquê «felix»?

 

E por aqui me fico que os meus leitores já devem estar fartos.

 

Abril de 2019

Pôr do Sol nas dunas do Dubai.JPG

Henrique Salles da Fonseca

(ao pôr do Sol no deserto do Dubai)

ARÁBIA FELIX – 16

 

Regressados, não nos pararam na Alfândega da Zona Franca e chegámos a Aqaba já estava o Sol posto. Foi-nos, então, proporcionada uma volta pela cidade que à noite é muito mais bonita do que de dia. Não nos apeámos do autocarro e seguimos para o barco; eram horas de jantar e o pessoal de bordo tem direito a que os passageiros não se atrasem muito.

 

Estávamos a jantar quando vimos as luzes de Eilat a mexerem-se de um lado para o outro do janelão do restaurante. Zarpávamos para fazermos o périplo da Península do Sinal, nos lançarmos pelo Canal de Suez além e abandonarmos as Arábias por Port Saïd rumo ao Pireu.

 

Foi durante a minha noite dormente que passámos frente a Sharm El Sheik que eu já conheço vista do ar num espectáculo fabuloso de luzes, tornejámos o cabo Ra’s Muhammad, extremo Sul do Sinal e rumámos a Norte.

 

Península do Sinai.png

 

Amanheceu um pouco antes da entrada do Canal de Suez e coube-nos liderar um comboio de alguns navios que pretendiam o mesmo que nós, subir o Canal. Vindo de Eilat, o nosso companheiro «Costa» alinhou a trás de nós; depois dele, vários cargueiros que perdi de vista lá para trás. Pena, pena, foi termos perdido as vistas do Golfo do Suez; mas não se pode ter tudo, paciência.

 

E, uma vez entrados no Canal, eis-nos com terra à vista de ambos os lados. E que vimos? Muito!

 

Linha verde Canal de Suez.jpg

 

Parece pouco mas é muito: uma linha verde contínua, paralela à costa, autêntica barreira de contenção do deserto. E isto, em ambas as margens. Perante o clima local, a linha no Sinai só pode ser mantida à custa de água dessalinizada enquanto a do lado africano ainda posso admitir que venha do Nilo. Virá? De qualquer modo, é uma obra magnífica seja ela com água daqui ou dali. E desde já faço notar que estas linhas se mantiveram ininterruptamente, apesar das obras, cidades e outras ocorrências que entretanto acontecem de permeio. Parece pouco? Talvez pareça, mas a mim pareceu-me muito e bom. Outras linhas se lhes seguirão e o futuro está por ali definido como uma luta titânica contra o deserto. E digo deserto, não digo desertificação porque naquelas paragens não é possível desertificar mais a Natureza que já o é plenamente; a mudança aponta no sentido da des-desertificação, da verdificação. É evidente que muito está por fazer mas o caminho está por ali traçado e é com esperança que vejo o Egipto a olhar para a frente.

 

Oxalá o verde chegue a tempo de ocupar os radicais muçulmanos e de os distrair do ócio e das ideias abstrusas a que o deserto os tem condenado.

 

(continua)

Abril de 2019

155-Canal de Suez 4.JPG

 

Henrique Salles da Fonseca

ARÁBIA FELIX – 15

 

Chegados à placa toponímica de Petra, logo começámos a descer por uma estrada em rampa sinuosa através de filas de casas em socalco que nem percebi bem como lá se chega se se for com pressa. Mas como não vi ninguém apressado, pode ser que esse não seja um problema.

 

E descemos, descemos… até que demos com um parque de estacionamento de autocarros de turismo completamente apinhado. Mas, lá estava outro socalco logo ali por baixo com mais lugares de estacionamento, desta vez disponíveis.

 

O hotel onde haveríamos de almoçar era no socalco por baixo deste local de estacionamento e a entrada do sítio arqueológico era por baixo da entrada do hotel.

 

Até ali, tudo funcionava a descer mas o pior seria na volta em que tudo funcionaria a subir.

 

O já «famoso» guia disse-nos que poderíamos alugar uma charrete ou um cavalo para descermos até aos locais a visitar e que, de preferência, deveríamos estabelecer logo o preço para o regresso, na subida. Que seriam cerca de dois quilómetros em cada sentido, o que corresponderia a € 40,00.

 

Se o cavalo era hipótese do meu agrado, já o mesmo não disseram os outros membros do meu grupo: a minha mulher que, sabendo montar, não o pode fazer por causa de um problema nas costas, o outro casal porque nunca montou a cavalo na vida. A charrete seria a solução. Mas não foi porque um jordano de ar rude e «dono» daquele negócio rugiu para o nosso «famoso» que já não havia charretes disponíveis, que teríamos que descer a pé e contratar lá em baixo quem nos trouxesse para cima.

 

Pelo mapa do campo arqueológico ficámos então a saber que a distância completa a descer (e, depois, a subir) não eram dois quilómetros mas quase oito. E descemos… mas chegámos todos lá a baixo em boas condições para sermos lançados ao guano. Depois de não sei quantos dias de inactividade no barco, descer custa quase tanto como subir porque, apesar de os músculos serem outros, também estão habituados a não fazer nada e queixam-se amargamente. E o cansaço era tanto que a minha mulher e eu decidimos que dávamos uma vista de olhos na primeira fase, a da fachada do «Tesouro» e trataríamos de contratar a tal charrete que nos levasse até lá a cima. Quanto ao resto, haveríamos de voltar a ver na Internet, agora que tínhamos uma noção do local e da dimensão fantástica de tudo aquilo.

147.JPG

 

Então, vendo por ali uma charrete vazia, logo tratámos de a contratar mas o timpanas viu que estávamos derreados e explorou a situação de um modo que se assemelhou à diplomacia dos piratas do Mar Vermelho: o preço da subida seria, afinal, igual ao que o «famoso» nos tinha dito que correspondia à ida e volta, € 40,00. Tudo bem, nem discutimos. O que nos chocou mais foi, contudo, o facto de a charrete ao lado desta que arrematáramos estar já contratada por alguém que pagara na origem, lá em cima, a descida e a subida e cujo timpanas, vendo que por ali havia outras situações de grande exaustão, fechou outro negócio por € 100,00 só pela subida deixando o cliente inicial sem outra solução que não fosse perder o dinheiro que já pagara e subir a pé.

 

Mas o que mais me chocou ainda estava para vir: a nossa exaustão não foi nada em comparação com a dos cavalos das charretes quando chegavam lá a cima em haustos de grande aflição e um deles, cheio de «cornage», ouvia-se à distância. Um verdadeiro crime cuja cessação deveríamos promover com a maior urgência. Um Governo que permite tal «cartão de visita», presta um muito mau serviço ao prestígio da sua Nação. Só animais tão voluntariosos e generosos como os cavalos é que se submetem a tal situação e o bicho homem, selvático, explora-os ignobilmente até à exaustão. Um verdadeiro crime!

 

Zangados com tudo aquilo, arrastámo-nos até ao hotel para o almoço. Tudo bem, mas cada pessoa só tinha direito a um copo de água. Se quisesse outro, tinha que comprar uma garrafa de litro e meio que eles vendiam ao preço de quem a tinha ido buscar às neves eternas do Kilimanjaro mas se quisesse álcool, então teria que pagar uma bula salvadora do crime de lesa não sei quem.

 

Um amigo meu diz-me que gosta muito da Jordânia porque conhece lá muita gente muito civilizada. Pena eu não ter conhecido essa elite e me ter limitado a esta ralé do mais vil com que alguma vez me cruzei. E eu até já conheço um bocado do mundo - mas tão reles como isto, nunca tinha visto.

 

(continua)

 

Abril de 2019

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Henrique Salles da Fonseca

ARÁBIA FELIX – 14

 

Alvorada pelas 6 da manhã, pequeno almoço pelas 7, início da excursão a Petra pelas 8. Rodas à viagem para fora de Aqaba pelas 8,30 em estrada relativamente boa, paralela ao caminho de ferro, vale acima por onde Lawrence da Arábia veio por ali a baixo.

 

Aridez seguida de mais aridez, mesmo assim topei com 4 ou 5 muros de contenção das chuvas e respectivos aluviões, antes que assolem a cidade lá no fundo. Noutros locais, chamaríamos represas ou mesmo mini-barragens mas ali não passam de muros de contenção de lamas. Mas estão cheios pelos aluviões anteriores e que, caso aí venha nova chuvada, servirão mais de trampolim do que de retenção. Perguntado, o guia não me respondeu sobre há quanto tempo por ali não chove; já não lhe perguntei sobre a previsão meteorológica porque ele vive em Amman, não deve saber destas particularidades do extremo Sul e estava ali para receber as comissões dos lojistas, não para nos responder a curiosidades não previstas no programa que lhe tinham consignado na agência de turismo.

Jordânia-Sul-4.png

Jordânia – no caminho de Aqaba para Petra

 

Até que o vale subiu, subiu e se transformou num planalto onde há vida com aldeias e seus minaretes, culturas (de sequeiro, claro) e animais por aqui e por ali.

 

Miséria? Não no conceito que eles próprios possam atribuir à condição de miserável mas, para nós, aquela é por certo uma vida muito contida. E, mesmo assim, o grau de insatisfação leva aquela gente a emigrar com uma certa militância. Vê-se o investimento feito pelos emigrantes que ali vão construindo casas algo desenquadradas das outras construções, como aquelas a que no nosso Norte chamamos as «casas tipo maison».

 

Foi também por causa deste afluxo de capitais que admiti que o câmbio da moeda jordana, o Dinar, equivalente a cerca de USD 1.50, não seja assim tão absurdo como de início me pareceu. Absurdo, sim, mas não tanto como pensei antes. É que a Jordânia – à semelhança de outros que bem conhecemos… – vem sendo apoiada financeiramente por várias instituições tais como o FMI e a UE. Em 2016, o pretexto para o apoio foi o acréscimo de custos que o país teve com os refugiados sírios. Mas, porquê aquele câmbio? Não me vou deter mais no tema pois que estou em turismo, não numa conferência sobre finanças internacionais ou de mercados de capitais. De uma coisa tenho a certeza: aquele câmbio não resulta das forças económicas naturais mas apenas de algum Decreto.

 

Assim meditei durante as cerca de duas horas de viagem por meio de paisagens lunares ou marcianas, até que chegámos a Petra, cidade enclausurada num desfiladeiro que os jordanos actuais não resgataram assim tanto lá das profundezas em que os nabateus se enfiaram nos tempos idos. Porquê tão fundo? Água, certamente.

 

(continua)

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Henrique Salles da Fonseca

(junto a um neo-nabateu que cobra € 1,00 por foto)

 

ARÁBIA FELIX – 13

 

Como dizem os franceses, Aqaba é um «cul de sac» ou, à nossa maneira, um beco. E já foi o fundo de um saco de gatos assanhados pois ali se encontram os extremos de Israel, Jordânia, Arábia Saudita e Egipto. Para já, tudo calmo, até prova em contrário.

Aqaba.png

 

Note-se que se trata do único porto marítimo jordano pelo que é vital para o país que se estende por ali a cima com tudo longe através duma paisagem que nos faz duvidar se se trata de Marte ou da Lua. Agora, acaba em Aqaba (ou começa, conforme o sentido da marcha) o caminho de ferro construído no tempo do Império Otomano que liga a Amman e que de início se estendia bastante mais para Sul pela Península Arábica além… É por Aqaba que a Jordânia exporta fosfatos e é por ali que importa tudo, até turistas.

 

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Aqaba, Jordânia

 

Trata-se duma cidade aprazível na época em que por lá passámos (Março) mas que no Verão alcança vulgarmente os 50º Centígrados com a água do mar a rondar os 30º. Já lá vai o tempo em que não havia ares condicionados; já lá vai o tempo em que até os camelos se davam mal por ali. Não me informaram se também há estábulos para camelos com ar condicionado. Mas tiveram o cuidado de nos lembrar que aqueles a que habitualmente chamamos camelos são dromedários (apenas com uma bossa) e que os verdadeiros camelos são os da Ásia profunda e que têm duas bossas. Já sabíamos, mas é sempre bom recordar. Como se isso fizesse alguma diferença para o nosso propósito de apreciação do estado daquela Nação. E mais nos disse o guia que os camelos são animais de carga e que os dromedários são animais de sela ou de corrida. Os guias anteriores já no-lo tinham dito com mais erudição do que este jordano mais interessado nas comissões que os lojistas lhe dariam nas compras que nós, turistas, fizéssemos.

 

Uma curiosidade histórica: Lawrence da Arábia conquistou Aqaba aos otomanos vindo por terra quando os atacados esperavam o inimigo pelo lado do mar. Sim, o segredo é a alma do negócio da guerra.

 

Para além do porto marítimo, Aqaba é também uma estância turística que se está a fazer muito cosmopolita mas fica a menos de um tiro de obus da israelita Eilat.

 

Eilat.png

Eilat, Israel

 

E se este extremo de Israel é o acesso ao Mar Vermelho e a todos os mares do Sul, agora adquiriu novo valor estratégico quando está em vias de se tornar no ponto de abastecimento de água (a dessalinizar) que irrigará todo o Deserto do Neguev e o transformará integralmente em terra muito mais produtiva do que tem sido até ao presente.

 

A meia dúzia de quilómetros de Eilat fica a fronteira com o Egipto e a 17 de Aqaba fica a da Arábia Saudita. Ficámos a saber que há muito movimento turístico transfronteiriço de Israel com a Jordânia e com o Egipto mas não me informaram se o mesmo acontece entre Israel e a Arábia.

 

(continua)

 

Abril de 2019

031.JPG

Henrique Salles da Fonseca

(pelas Arábias, algures)

ARÁBIA FELIX – 12

 

Continuando…

 

Admito que exista um sistema de comunicações inter-piratiano que tenha informado os interessados que aqueles dois navios de cruzeiro não eram alvos fáceis e que poderia ser mais proveitoso dedicarem-se a outros passantes. E, na verdade, não voltámos a ser perturbados na nossa rotina pelo Mar Vermelho acima.

 

Mar Vermelho a fugir.png

- Lá vem o «Costa» na nossa esteira!

 

Ao contrário do que os mapas da Senhora Professora lá da escola primária podem dar a entender, a partir de certo momento, o Mar Vermelho é suficientemente largo para que, navegando pelo meio, não se avistem as margens e isso faz com que, à falta de pirataria, tudo seja muito monótono.

 

E sendo praticamente impossível chegar a horas cristãs à piscina e encontrar uma cadeira disponível (quanto mais quatro que era o número que nos convinha), continuámos a optar pelo deck 10 da ré pois poderíamos tomar banhos de Sol sem o vento que zunia pela vante.

 

Pela minha parte, fui entrando por um livro de André Maurois (que não tive paciência para ler até ao fim, devolvendo-o à biblioteca do barco e que rapidamente substitui por outro que levara de Lisboa sobre Leon Blum, Albert Camus e Raymond Aron acerca do qual escreverei brevemente alguma coisa) e por imaginar a História que passara por cima das ondas antepassadas daquelas que estávamos a navegar.

 

Lembrei-me dos cerca de 400 portugueses chefiados por Sebastião da Gama (filho de Vasco da Gama) que estavam fartos de servir como tropas de elite do Preste João, que decidiram abandonar a Etiópia no que foram perseguidos por tropas etíopes que não os queriam deixar sair, das batalhas que foram tendo até finalmente avistarem os barcos portugueses que ali os tinham ido resgatar, da batalha que foi travada na praia (hoje eritreia) em que morreu Sebastião da Gama mas de que o Dr. João Bermudes saiu ileso, ali embarcou e regressou a Lisboa onde tudo contou; lembrei-me de Afonso de Albuquerque que quis conquistar e destruir Meca, intento gorado por falta de vento e por o reino de Judá lhe ter faltado com os 500 cavalos prometidos; lembrei-me de Pêro da Covilhã que, como emissário de D. João II, já tinha, antes de todos os outros, ido a pé de Alexandria até encontrar a corte então itinerante do Preste João…

 

Sim, foi pelo Mar Vermelho que o sonho português tentou muitas das aspirações de dar a volta ao poderio do Segundo Império Romano, o do Vaticano, apertando-o entre a Igreja monofisista abexim e os milenaristas franciscanos refugiados em Alenquer; lembrei-me de que o primeiro tempo foi o do Pai, o segundo foi o do Filho e de que este, em que nos encontramos, é o do Espírito Santo tão celebrado nos Açores (para onde os milenaristas tinham entretanto sido enviados); lembrei-me dos jesuítas que, gorando esse sonho de entendimento, tentaram converter os monofisistas etíopes ao catolicismo; lembrei-me da guerra que noutras paragens mas por motivos não muito diferentes já tinha oposto os cátaros a Roma, da rainha Santa Isabel que, sendo simpatizante cátara, foi canonizada por Roma naquilo que me parece um absurdo teológico…

 

Lembrei-me de tanta coisa que a monotonia da navegação sem piratas se me tornou agradável e «lembrativa».

 

Então, ao fim de cinco dias de navegação, acordámos atracados em Aqaba, extremo sul da Jordânia, Eilat à vista.

 

(continua)

 

Abril de 2019

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Henrique Salles da Fonseca

(por águas corânicas)

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