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A bem da Nação

COM OS PÉS BEM ASSENTES NAS PEDRAS

Como será na outra dimensão que não esta, material, em que nos encontramos? Não sei e não pensei ainda no assunto. O que sei é que não me vou preocupar por enquanto com o tema. Por enquanto…

Mas, embora possa parecer um absurdo, agora penso em James Joyce e na sua epifania, a epifania joyceana dos lugares e das suas ocasiões. E do que se trata? Trata-se de «vermos» o que aconteceu nos lugares por que passamos, sobre as pedras que pisamos. Mas isso, numa condição: a de sabermos o que se tenha por ali efectivamente passado. Então, vemos as cenas, imaginamos as pessoas, os factos historicamente conhecidos. E tudo isso acende luzes na nossa mente até ao ponto de consciencializarmos os pormenores, os fundamentos dos acontecimentos, a quinta essência dos locais.

Eis por que espiritualismo nada tem a ver com espiritismo; James Joyce nem sequer terá conhecido Allan Kardec. E eu prefiro «Ulisses».

A epifania a que me refiro acontece a partir do conhecimento prévio do que tenha acontecido, resulta de nós, não é uma adivinhação nem uma revelação de algo que não conhecíamos e que nos seja trazida… por quem? A transcendência joyceana é endógena, genuinamente nossa, não usa mesas com pé de galo nem fumos mais ou menos anabolizantes espirituais.

E nada me diz que James Joyce tenha curriculum que o eleve aos altares.

 

Henrique Salles da Fonseca

A CAMINHO DO ALÉM…

Se a plenitude do conhecimento científico é inalcançável porque a fronteira do conhecimento se move constantemente à nossa frente a uma velocidade igual à nossa, então o que se passa com o conhecimento total? A minha resposta é simples: o conhecimento científico é uma parcela do conhecimento humano; se a plenitude do conhecimento científico é inalcançável, então a plenitude do conhecimento é inalcançável também. Monsieur de La Palisse não seria mais óbvio.

E quanto às outras parcelas do conhecimento humano, as não propriamente científicas? Creio que a sua plenitude é também utópica pois haverá sempre a prevalência do ditado que nos diz que «cada cabeça, cada sentença».

É que basta o raciocínio humano não ser unicitário – VIVA A DEMOCRACIA! – para que haja sempre a possibilidade duma variante ao pensamento «provisoriamente definitivo» quer empírico e factual, quer doutrinário, quer filosófico, quer religioso, quer material, quer espiritual e assim por aí além…

Basta hoje pensarmos no que há um século era tido por definitivo para nos espantarmos (ou rirmos, até) com o atraso em que os nossos antepassados estavam há relativamente tão pouco tempo. E isso, em todos os campos do conhecimento.

Então, se 2+2 continuam a ser 4, já o determinismo histórico marxista nos parece hoje um perfeito absurdo, a máquina a vapor temo-la como um «pouco» ineficaz no processo de lançamento de naves espaciais, as determinações do Concílio de Trento podem não ser totalmente conformes às do Concílio Vaticano II e as teologias luterana e romana podem já não estar tão distantes como o estavam há 500 anos.

Então, para onde vai o conhecimento?

A resposta mais fácil é: para o infinito.

Henrique Salles da Fonseca

POIS QUE ASSIM SEJA!

Alguém deu a ordem de ignição para que o Big Bang acontecesse.

A questão que coloco de seguida é a de saber se esse Alguém accionou a grande explosão e se retirou de seguida ou se se manteve a assistir ao resultado da acção desencadeada.

A esta questão respondo com a hipótese da continuação pois não encontro a quem mais se possa atribuir a autoria do inexplicável à luz dos nossos sentidos (conhecimento sensorial), do racional (lógica, a dos silogismos), do intelectual (raciocínio especulativo) nem do conhecimento científico. Autoria do inexplicável, vulgo, fazer milagres.

Será então que à medida que o homem avança no conhecimento, esse Alguém recua nos milagres?

Aqui recorro novamente a Karl Popper[1] quando afirma que o avanço científico se faz pela sucessão de

problema inicial => tentativa de formação de teoria => discussão crítica para eliminação de erros => reformulação do problema => nova teoria => despiste de erros => …

… e assim sucessivamente com destino à verdade que consiste num ponto no infinito.

Ou seja, o homem avança mas esse tal Alguém não recua porque o homem culto e sabedor despista erros mas descobre que a verdade é um ponto no infinito. E o inexplicável continuará até que o homem atinja a verdade total lá no infinito…

Deus é como chamam a esse Alguém que venho referindo e eu nada tenho contra. Muito bem, assim seja!

Henrique Salles da Fonseca

 

[1] «A VIDA É APRENDIZAGEM – Epistemologia evolutiva e sociedade aberta», Karl Popper, ed. Edições 70, 1ª edição, Janeiro de 2011, pág. 30 e seg.

TEOLOGIA, DA MINHA - 17

Platão e o bem.jpg

 

Tenho como dogma a obrigação de praticarmos o bem.

 

Parafraseando o Cardeal D. Manuel Clemente, Patriarca de Lisboa, no seu livro “1810-1910-2010 DATAS E DESAFIOS” na pág. 121, «as coisas não são boas ou más porque Deus as mande ou as proíba; antes as manda porque são boas e as proíbe porque são más».

 

Mas eu não preciso de ordem divina para praticar o bem; tenho a sua prática como algo que é do meu próprio interesse. Nesta linha de raciocínio platónico, quase diria que é por egoísmo que pratico o bem cuja melhor definição me parece ser «a  qualidade de excelência ética atribuída a acções que estejam relacionadas com sentimentos de aprovação e dever».

 

Novembro de 2018

Fonte dos leões-Heráklion.JPG

Henrique Salles da Fonseca

(Nikósia, ABR18)

TEOLOGIA, DA MINHA - 16

 

 

Não eleves a fé até à altura do vôo dos pássaros e não rastejarás depois como os vermes.

John Steinbeck.jpg John Steinbeck, in «As vinhas da ira» (pág. 110 - LIVROS DO BRASIL, edição de Novembro de 2014)

 

 

Por cá, dizemos «fia-te na Virgem e não corras, logo verás o trambolhão que dás». Ou seja, o livre arbítrio é determinante no rumo das nossas vidas, o determinismo não faz sentido. Temos sorte na vida se a soubermos «levar direitinha»; com muitas probabilidades, o azar bate-nos à porta se não procurarmos acertar, se pusermos o pé em ramo verde, não pusermos as barbas de molho.

 

O anjo da guarda só actua se nós não abusarmos da sorte, se agirmos dentro da sociabilidade, enfim, se seguirmos o Decálogo com um mínimo de respeito; ele, o anjo da guarda, age contra agressões externas, não contra o mal que façamos a nós próprios tanto por actos como por omissões.

 

No que respeita à saúde, convém passarmos pelo médico antes que este já nada saiba fazer e quando isto suceder, então e só então, é que devemos procurar a ajuda sobrenatural.

 

Fomos dotados duma capacidade estaminal de raciocínio que nos tem permitido grandes progressos científicos. A própria capacidade de raciocínio, a inteligência, tem evoluído muito ao longo dos milhares de anos que a humanidade já conta e, portanto, afrontaremos quem nos dotou dessa capacidade estaminal se não recorrermos aos conhecimentos adquiridos e se não nos deixarmos tratar por quem utilize a medicina em conformidade com a ética.

 

Curámo-nos da maleita que nos incomodava? Óptimo! Isso foi porque nos deram a injecção certa, nos submeteram à cirurgia conveniente, nos fizeram a transfusão de que estávamos necessitados. Deixemos o «queira Deus» para quando o homem já não souber actuar. Então, sim, entreguemo-nos ao Altíssimo.

 

Janeiro de 2018

Fonte da Telha-27NOV16 (barco museu).jpg

Henrique Salles da Fonseca

TEOLOGIA, DA MINHA – 15

gente_normal.jpg

 

Santos - refiro-os no masculino apenas por uma questão de simplificação da escrita mas é para mim claro que o feminino se lhe aplica em perfeita igualdade.

 

Sei de Santos em várias religiões – na hindu, na budista, na católica e na muçulmana. Nas outras, não sei se os há.

 

E o que é um Santo? Objectivamente, é alguém a quem os fiéis pedem bênçãos por intermediação com a Divindade Suprema. E serão mesmo “muito bonzinhos” como diz a crença popular? Tenho as minhas sérias dúvidas de que tenham obrigatoriamente que o ser. Não podem é ser maus porque, se o forem, não serão aceites como intermediários credíveis entre Deus e o humano pecador (mas não obrigatoriamente pecaminoso).

 

Como se pode, então, ser intermediário entre Deus e os homens? Tenho como condição essencial, a de ser aceite por ambas as partes, Deus e homens, sem o que não se estabelece a imprescindível ligação. E só uma grande finura espiritual pode alcançar o misticismo necessário à aproximação da Divindade Suprema - o Ser Supremo budista, Brahma hindu, Allah muçulmano, o Deus cristão - e em nome dos homens obter a dádiva por estes pedida. Tudo, no singular ou no plural, no masculino ou no feminino.

 

Esta aproximação e intermediação pode ser feita em vida do Santo, antes do reconhecimento canónico por parte das respectivas Igrejas; o Santo pode sê-lo antes da canonização uma vez que esta é apenas o reconhecimento oficial (canónico) pelos homens das capacidades sobrenaturais do Santo, do seu misticismo. Mas o Santo é-o independentemente de ser ou não reconhecido pelos homens.

 

Daqui, dá para imaginarmos quantos Santos por aí andam ou andaram que ninguém conhece nem reconhece…

 

Os Santos são-no por si próprios, não pelo reconhecimento humano e com ou sem parusia.

 

Janeiro de 2018

Henrique-Ushuaia, MAR12.jpg

 Henrique Salles da Fonseca

TEOLOGIA, DA MINHA – 14

 

 

Tenho os anjos como os mensageiros da verdade.

 

Então, o que são anjos e o que é a verdade?

 

Citam os antigos quatro seres da esfera espiritual: anjos, arcanjos, querubins e serafins.

 

Os anjos são citados como mensageiros e executores da ordem divina, espíritos que servem a Deus e aos humanos. Em alguns textos cristãos, os anjos são descritos com características semelhantes às humanas.

 

O arcanjo é uma espécie de “Anjo-chefe” e exerce uma posição de destaque na esfera espiritual. Por exemplo, São Miguel Arcanjo, o protector de Portugal, é uma figura mística que não corresponde a alguém que tenha vivido na Terra e que historicamente resulta da cristianização do deus romano Zéfiro que, por sua vez, tinha sido a romanização de Endovélico, o deus dos lusitanos.

Santuário de Endovélico-rocha-da-mina.jpg

Santuário de Endovélico – Rocha da Mina

 

Quanto aos querubins e aos serafins, parecem-me fruto de imaginações muito elásticas e, portanto, não os levo em consideração. Não creio que tenha sido algum destes que me tenha chamado.

 

E o que é a verdade? A verdade da nossa vida, sendo o contrário do erro, é revelada pelo sentido protegido da vida individual terrena, a que levamos. Nada a ver com qualquer predestinação definida superiormente, apenas com a «boa gestão» de um processo em que o livre arbítrio desempenha um papel central; um sentido místico que nos protege não nos deixando cair em tentações, nos dá sinais que nem sempre percebemos e, portanto, não seguimos; a que subjaz a uma orientação que nos é concretamente sugerida pelo tão esquecido Decálogo.

 

Tudo, para além da mera ordem cognitiva metafísica; tudo, na ordem da fruição mística, do superlativo intelectual.

 

Janeiro de 2018

 

De Denang para Hué.JPG

 Henrique Salles da Fonseca

TEOLOGIA, DA MINHA - 13

 

FÉ, MITOLOGIA E TEOLOGIA

 

Etimologicamente, «Mitologia» vem de mito que é algo que não existe, que é ficcional; «Teologia» tem a ver com «teo», Deus.

 

Independentemente da verdade, só a nossa religião é teológica; todas as demais são mitológicas.

Inti.jpg

 

Inti é o nome quéchua do Sol, tido pela divindade mais significativa da fé do Inca.

 

Culturas anteriores à quéchua tinham Viracocha como sendo a suprema divindade. A definição completa do seu poder absoluto passava pela enumeração da sua superioridade sobre a água, a terra e o fogo mas evoluiu para um conceito mais complexo que acabou por se tornar no Deus único e criador universal, Inti.

 

Este novo e muito poderoso Deus do Sol não estava sozinho, estava casado com a sua irmã, a Lua com quem compartilhava uma posição igual no tribunal celestial. A Lua era conhecida sob o nome de Mama Quilla.

 

Mama Quilla.png

 

Inti era representado por uma elipse de ouro; Mama Quilla era representada por um disco de prata. Como um criador, Inti era adorado e reverenciado, mas também concedia (ou não) favores e ajudava (ou não) a resolver problemas e aliviar as necessidades; só ele podia dar boas colheitas, curar doenças e providenciar a segurança exigida pelo homem. E no meio de Natureza tão agreste com desertos tão áridos, com chuvas diluvianas, com tremores de terra e tsunamis tão devastadores, bem se compreende como esta (e qualquer outra) divindade era importante.

 

A Mama Quilla foi atribuído o fervor religioso das mulheres e elas foram as que formaram o núcleo duro dos seus fiéis seguidores. Quem melhor do que Quilla conseguia entender os seus desejos e os seus medos dando-lhes a protecção pretendida?

 

* * *

 

Teologia ou apenas mitologia, uma coisa é certa: mesmo fora da influência das civilizações nossas conhecidas no Médio Oriente, no Oriente, no seu Extremo ou aqui na Europa, o homem acreditava em divindades - ou porque as sentira ou apenas porque precisava de se agarrar a uma crença. E aceitou os intermediários que lidam directamente com o divino: os xamãs, os médiuns, os sacerdotes, todos mais ou menos profissionais, todos verdadeira ou falsamente imbuídos de misticismo, uns verdadeiros, outros charlatães.

 

Mas, ao contrário dos que matam em nome de Deus, eu acho que a fé não se discute.

 

Janeiro de 2018

 

Henrique num templo indú em Goa.jpg

Henrique Salles da Fonseca

(algures em Goa, no exterior de um templo hindu)

TEOLOGIA, DA MINHA – 12

 

OS MENSAGEIROS

 

Quando todas as questões científicas possíveis e imagináveis tiverem sido respondidas, os problemas da vida – a tragédia, o sofrimento, a felicidade, o significado das nossas vidas – permanecerão completamente intocados porque a ciência e o mistério da vida são dois mundos diferentes. E, neste sentido, a ciência priva-nos da verdade. Então, perdemo-nos num amontoado de verdades transitórias e parciais.

 

Eis por que, perdido o sentido da metafísica, nenhuma verdade pode existir, a mentira domina e triunfa o nihilismo da missão do homem na vida. E esta vacuidade leva forçosamente à filosofia do poder, ao «salve-se quem puder». E foi nesse desespero que Nietzsche pôs termo à vida.

 

O drama actual está em evitar que a nossa velha Civilização continue na senda nietzschiana. Também, com todo o materialismo e profusão do conforto consumista, chegámos à alienação pela obesidade física, ao enfartamento informativo, à manipulação do conhecimento, à anulação da velha sabedoria geracional.

 

* * *

 

Depois deste interregno sociológico, sem nos transformarmos em anacoretas, urge regressarmos à Metafísica para não ficarmos fisicamente enfartados e pensarmos pelas nossas cabeças em vez de nos deixarmos manipular pela indústria da informação.

 

Anjo.jpg

 

E a questão é: onde cabem os anjos mensageiros da verdade nesta floresta de verdades transitórias e parciais?

 

Janeiro de 2018

 

Mar e cabelo revoltos.jpg

Henrique Salles da Fonseca

TEOLOGIA, DA MINHA – 11

 

UMA QUESTÃO DE SEMÂNTICA?

 

Quando pousei pela primeira vez na Índia, logo o guia turístico me chamou a atenção para a profusão de Deuses na religião hindu. Tantos que nem ele, devoto, os conhecia a todos. Mas um, Brahma, é o principal, o criador de tudo [i], sendo os outros apenas seus auxiliares na ligação temática com os humanos. Por isso, os hindus consideram que, para cada tipo de questões, devem invocar um certo Deus secundário.

BRAHMA.jpg

 

Claro está que, em silêncio, logo fiz uma analogia com o Deus cristão, Cristo e Santos assim como também me lembrei do que os budistas fazem nos pagodes (onde rezam a Buda e, por sua intercessão, ao Ser Supremo) e nos templos (onde invocam o orago respectivo e lhe pedem isto e aquilo).

 

Hierarquias estas que me parecem muito semelhantes (se bem que cada religião com particularidades muito específicas). Semelhanças evidentes entre o Deus cristão, o Ser Supremo budista e o Brahma hindu a quem os homens reconhecem a função criadora. Uma diferença evidente que é apenas de cariz semântico. Depois vêm as outras diferenças resultantes do isolamento durante milhares de anos de uns relativamente aos outros, de exegeses diferentes e assim por diante…

 

Mas também me parece evidente que muitas diferenças resultam do interesse dos respectivos Cleros manterem os seus rebanhos próprios, bem controlados e isolados dos demais no âmbito de um esquema a que chamo «Teo business». Ou seja, há muito interesse no distanciamento e muito pouco em qualquer espécie de diálogo inter-religioso.

 

Se os homens se quisessem entender nestas matérias, bem poderiam começar por abordar as questões de semântica. E só com isso já seriam capazes de se entreter durante uns quantos séculos num longo processo de paz e de tendencial concórdia. Talvez…

 

Janeiro de 2018

Henrique Salles da Fonseca.png

Henrique Salles da Fonseca

 

[i] -  http://deva-dani.blogspot.pt/2009/01/deus-da-criao-brahma.html

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