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A bem da Nação

LACRIMOSA - 3

Õ fenómeno migratório está directamente relacionado com a determinação de melhoria das condições de vida – da guerra para a paz, do locacionismo para a liberdade de escolha de assentamento, dos condicionalismos económicos para a liberdade de estabelecimento, da autocracia para a democracia, da corrupção para a transparência, das sociedades fracturadas para as solidárias. Em suma, sempre no sentido da liberdade e da solidariedade.

Se tomarmos em conta que o conceito de solidariedade corresponde à
miscigenação dos conceitos de igualdade e de fraternidade, lá estamos todos simbolicamente «virados» para a República Francesa que, grosso modo, é o modelo ocidental.

Independentemente da localização geográfica, o modelo ocidental é alvo de imigração; outros modelos são geradores de emigração.

* * *

Durante séculos, Portugal gerou grandes fluxos migratórios porque não proporcionava aos seus nacionais as condições por que muitos ambicionavam sobretudo no plano material, o palpável.

As questões relativas ao desenvolvimento facilmente formalizam extensos conteúdos (mesmo que abandonando o plano teórico e baixando a análises de casos concretos) pelo que, para o caso português, me limito a constatar que foi a progressiva atenção dada à melhoria das condições de vida da generalidade da população sem o equivalente zelo nas questões da produção, da produtividade e, sobretudo, da competitividade que vêm gerando sucessivos colapsos financeiros do país. Mas, paralelamente, o perfil do actual emigrante português é muito diferente do do emigrante de uma ou duas gerações anteriores: o actual emigrante português não busca a sobrevivência (emigrante definitivo), escolhe entre as várias opções que o livre estabelecimento europeu ou norte-americano proporciona ao nível mais ou menos sofisticado de uma determinada condição profissional (emigrante temporário).

Em paralelo, os imigrantes em Portugal são oriundos de países que não oferecem esperanças aos seus nacionais e vêm para cá em busca de segurança e de uma «tábua de salvação» sujeitando-se a fazer o que nós, já rodeados de mordomias, não queremos fazer. O quê? Todo o trabalho braçal ou cuja remuneração seja inferior aos subsídios públicos a mândria.

Sugiro aos meus leitores em «Portugal e nos Algerves d’Aquém e d’Além mar em África, na Guiné, Arábia, Pérsia e Índia…» que façam uma análise ao caso que se lhes aplique e tirem as consequentes conclusões já que toda a emigração é simultaneamente esperançosa e lacrimosa.

Dezembro de 2021

Henrique Salles da Fonseca

OS ALCATRUZES

Por tradição, o povo é a maior fonte cultural.  

A cultura popular, sobretudo sensitiva, primária, com a tradição oral a anteceder a escrita das «lendas e narrativas», a música e as danças folclóricas a antecederem formas mais elaboradas de acordes e «ballets», a pintura rupestre a anteceder Rembrant e Picasso…

Ou seja, o primitivismo sensitivo a assumir cada vez mais formas elaboradas, espiritualizdas num processo evolutivo das mais baixas classes sociais, as do trabalho braçal, para as mais elevadas, as da aristocracia intelectual.

Assim se estabelece o domínio cultural, político, económico e social das elites pois a intelectualidade é a génese do elitismo. O «chico espertismo» é uma corruptela deste processo.

Mas, a partir de certo momento, a estabilidade social permite que a juventude popular desperte intelectualmente (universitários oriundos do analfabetismo familiar) e assuma funções que os instalados e adormecidos filhos de «boas famílias» deixaram de conseguir assumir.

Já Platão se queixava (ou era Aristóteles?) de que a juventude não respeitava os valores dos anciãos.

Eis o que se está a passar actualmente no âmbito de um processo pacífico mas outros processos foram menos sossegados. Refiro-me, por exemplo, à Revolução Francesa e à russa de 1917 mas outras houve que engrossaram rios de sangue.

E, então, é assim: pacífica ou revolucionariamente, as bases cansam-se das elites e derrubam-nas. Eis ao que assistimos nos telejornais.

Contudo, os que sobem hoje serão derrubados dentro de cinquenta anos (ou menos) com a repetição das lamúrias platónicas (ou aristotélicas?).

Jovens, estudem mais e brinquem menos se não quiserem ser obrigados a cumprir a sina dos alcatruzes quando ficam debaixo de água.

«COGITO, ERGO SUM»

Deste mundo fazem parte três categorias de pessoas:

  • As que sabem e pensam por si próprias;
  • As que não sabem mas estudam e passam a pensar;
  • As que não sabem nem estudam, se viram para o outro lado e continuam a consumir oxigénio.

A inércia social que se opõe ao desenvolvimento mede-se por aqueles que não sabem nem querem saber e que espantariam Descartes se soubesse que há gente que não pensa mas que, contudo, existe.

Novembro de 2020

Henrique Salles da Fonseca

CABO DA ROCA

 

OU

O FIM DA PICADA – 2

 

E a palestra continuou depois de um mini intervalo para dar entrada a mais ouvintes que vinham sabe-se lá donde.

 

Retomada a palavra, avancei para a solução dos problemas até ali enunciados que, como tinha dito, é a Ética cuja reposição me parece imperiosa.

 

E a questão estaminal da nossa conversa é a de saber o que é a Ética. Então, para desfazer muita confusão que por aí navega, comecei por afirmar simplisticamente que a Moral é a questão dos princípios enquanto a Ética é a questão dos factos.

 

Muito resumidamente, disse que todas as religiões têm as suas escrituras sagradas as quais, criando a respectiva Teologia, deram origem a verdadeiros códigos de conduta que definiram os grandes princípios da Moral correspondente e foi a partir daí que cada sociedade, descendo aos factos reais da vida quotidiana, criou a sua Ética; assumindo a obrigatoriedade do cumprimento, cada Ética vestiu o figurino de quadro jurídico.

 

Breve, a lógica descendente tem origem nas Sagradas Escrituras que definem a Moral que, por sua vez, induz a Ética e é esta que fundamenta o quadro jurídico.

 

Exemplos? Muitos. Mas basta referir a Bíblia cujo Antigo Testamento fundamenta o Judaísmo, os Vedas que são a base do Hinduísmo, os Ensinamentos de Buda que deram origem ao Budismo, o Novo Testamento que, em conjunto com o Antigo, fundamenta o Cristianismo, o Corão que é a Sagrada Escritura do Islão.

 

Contudo, como vimos de início, o homem pós-moderno extremou a sua própria laicização donde resulta que a inspiração divina nada lhe diz e ele se desliga de tudo que tenha origem nesse tipo de Valores. Não vale, portanto, a pena invocarmos princípios religiosos – venham eles donde vierem – para levarmos o pós-moderno convicto a aceitar um quadro jurídico que se inspire numa Ética que por sua vez se fundamente numa Moral de origem divina.

 

Então, como havemos de sair deste beco?

 

A questão pode-se resolver a partir duma frase que cito muitas vezes que, apesar de ser da autoria de um Cardeal, pode ser laicizada com toda a facilidade pois ela própria a isso conduz: «as coisas não são boas ou más porque Deus as mande ou as proíba; antes as manda porque são boas e as proíbe porque são más»[i].

 

Ou seja, tanto o bem como o mal existem fora da discussão teológica e por isso é possível erigirmos uma Ética laica que se fundamente na «Declaração Universal dos Direitos do Homem»[ii] e na «Declaração de Ética Mundial»[iii]

 

Para não cansar a assistência, referi apenas as linhas gerais deste último documento que começa por condenar a usurpação dos ecossistemas do planeta, o abandono dos miseráveis, o recrutamento forçado de crianças como soldados, a agressão e o ódio cultivados em nome das religiões.

 

E depois deste posicionamento crítico, passa para a positiva afirmando haver uma reserva de valores fundamentais comuns a toda a Humanidade que constituem a base para uma ética que fundamente uma ordem mundial duradoira, nomeadamente pelo reconhecimento de alguns princípios:

  • Há que respeitar a comunidade dos seres viventes (humanos, animais e plantas) preocupando-nos com a conservação da Terra, do ar, da água e do solo – princípio ecológico;
  • Todas as nossas acções e omissões têm consequências que devemos ponderar – princípio da responsabilidade;
  • Devemos dar aos outros o tratamento que deles queremos receber - princípio da equidade;
  • Temos que nos encher de paciência;
  • Nos cumpre servir o bem comum;
  • Deve prevalecer uma relação de companheirismo entre homem e mulher com igualdade de direitos – princípio da dignidade humana;
  • Temos o direito de combater a ânsia pelo poder – princípio da democracia política.

 

Estas, algumas das bases que devem servir para a construção de uma ética laica mundial na qual se revejam os pós-modernos que por aí pululam à nossa volta.

 

Concluí a palestra com a revelação de um segredo (pedindo que não o revelassem aos pós-modernos): esta ética laica mundial pode na perfeição ser considerada ecuménica pois resulta de um longo diálogo inter-religioso e o documento em apreço tem origem, afinal, nas confabulações desenvolvidas no seio do Parlamento das Religiões Mundiais.

 

Então, o que menos importa será saber se a origem da Ética Mundial tem ou não uma génese religiosa; basta saber que ela nasceu para servir a Humanidade.

 

Cabo_da_Roca_sunset.jpg

 

É que, assim não sendo, nos resta constatar que chegámos ao Cabo da Roca onde a terra acaba, onde é o fim da picada e onde, portanto, só poderemos optar entre atirarmo-nos ao mar ou darmos meia volta e meditarmos ponderadamente sobre o que queremos fazer da vida.

 

* * *

 

Dei por finda a palestra e não apanhei mocadas na cabeça. Mas passadas as portas do anfiteatro, retomaram pela certa aqueles finalistas a dinâmica das festas da queima das fitas arquivando algures numa dobra recôndita do cérebro as coisas que o tipo do bigode disse desejando que ele se coce com urtigas pois «nós somos hedonistas felizes como o cão dele».

 

Fevereiro de 2018

Henrique em Praga.jpg

 Henrique Salles da Fonseca

 

[i] - D. Manuel Clemente, Cardeal Patriarca de Lisboa, então Bispo do Porto, no seu livro “1810-1910-2010 DATAS E DESAFIOS”, pág. 121

 

[ii] - 1948

[iii] - Assinada em Chicago em 1993

CABO DA ROCA

 

OU

O FIM DA PICADA -1

Sé-de-Braga.jpg

 

Fui há tempos palestrar a uma «queima de fitas» no norte de Portugal e pediram-me previamente que abordasse o tema do futuro deles, os então finalistas daquela Universidade.

 

Nunca eu falara para plateia tão grande e tão apinhada em que não dava para perceber onde estavam os sentados, os de pé e os «sabe Deus como».

 

Então, se me queriam ouvir falar do futuro, teriam que ter uns minutos de paciência para me ouvirem falar do passado. Do recente, sim, mas passado na mesma. O passado imediato relativamente ao presente, este que antecede imediatamente o futuro. E como o presente é o instante que separa o grande passado e o futuro que temos por infinito, vejamos no que estamos metidos. E esse «caldinho» chama-se pós-modernidade.

 

A pós-modernidade designa a condição sócio-cultural dominante após a queda do Muro de Berlim (1989), o colapso da União Soviética e a crise das ideologias nas sociedades ocidentais no final do século XX, sobretudo pela dissolução da referência a esquemas totalizantes - o fascismo, o nazismo e o comunismo - fundados na crença no progresso mas que, por sua vez, já eram a negação dos ideais iluministas de igualdade, liberdade e fraternidade.

 

E aqui chegados, disse-lhes que me parece imprescindível pensarmos na questão da ética e seus fundamentos precisamente porque estamos a viver num mundo sem conceitos superiores uma vez que nos tempos que correm só se pensa na competitividade. E esta, sim, é fruto do pós-modernismo em toda a sua pujança, é a sacralização do profano.

 

Então, avancei com a afirmação de que o cidadão do Mundo, pós-moderno, é ateu ou, no mínimo, agnóstico; para ele a vida é esta em que estamos e mais nenhuma. Por isso mesmo quer TUDO, e JÁ! E como não se sente vinculado a uma Moral, também ignora a correspondente Ética. Ou seja, tudo vale para que alcance imediatamente a sua própria felicidade sem sacrifícios pessoais (mas talvez à custa dos alheios). Egocêntrico, assume o egoísmo como algo de natural e fá-lo de consciência tranquila, sem sentimento de culpa, porque amoral e aético. Assim se confunde com hedonista sem sequer saber que o é nem o que tal palavra significa.

 

Com risco de não sair dali sem umas mocadas na cabeça, eu disse-lhes que o meu cão também é hedonista: quer todo o prazer de imediato; não gere a sorte da fortuna. Ninguém levantou a voz em protesto mas fiquei convencido de que muitos daqueles jovens reconheceram os paizinhos no que eu acabara de dizer. Mas, educadamente, «enfiaram o barrete» e calaram.

 

Onde estamos, então, depois de derrubado o muro das ideologias? Na arena nihilista e em mais nenhuma. Um BRAVO a Nietzsche que se suicidou em vão.

 

Sobrevivente do frisson quase ofensivo, mais lhes disse que, chegados ao ponto em que não se olha a meios para atingir o objectivo que cada um se auto-atribui sem querer minimamente saber se tal desiderato corresponde ou não ao bem-comum, a desorientação global resulta da abdicação que os governos fizeram de muitos conceitos entretanto considerados caducos para apenas alcandorarem a competitividade ao estatuto de quase sacralização. Foi assim que nos vimos chegados a uma sociedade de quase Partido Único em que todos os grupos seguem políticas liberais e apenas diferem nas cores das camisolas que vestem. Aliás, todos sabemos por experiência própria que a definição do bem-comum é pouco ou nada referida nas campanhas eleitorais e os votos definem-se com frequência por claques de simpatia. Vacuidade ideológica, política liberal por quase todos e por toda a parte, gestão de favores de classe ou, pior, individuais.

 

E, então, eu disse-lhes como foi na época em que eles estavam a concluir o ensino secundário e a entrar na Universidade: quando a inovação tecnológica deixou de proporcionar as margens de lucro ambicionadas pelos vorazes pós-modernos, restou-lhes a matéria-prima alvo da sua cobiça, o dinheiro. Foram então os «capitães de indústria» substituídos pelos magnatas da finança e do investimento produtivo se passou à especulação bolsista em que se vende «gato por lebre» (os famigerados «produtos tóxicos») sendo que até vendem o gato mesmo antes de o comprarem ou até mesmo antes dele nascer.

 

E de tanto por ela puxarem, a corda da sorte rebentou e ficámos a braços com a bancarrota mundial… As poucas lebres andavam perdidas no meio de muitos gatos e saíram da cena todas arranhadas.

 

- Eis o cenário que se vos depara – disse-lhes eu e notei algum desconforto na plateia.

 

Que fazer? Eis a questão cuja resposta não passa pelo encarceramento do todos os culpados pois não há grades suficientemente grandes para aprisionar meio mundo. E a reciclagem de mentalidades vai demorar...

 

A palestra continuou mas eu acho que este escrito vai ficar por aqui para não cansar quem me lê. No próximo número vou então continuar a contar como decorreu a palestra da queima das fitas e tratar da solução, a Ética.

 

(continua)

 

Fevereiro de 2018

Dubrovnik-réveillon 2016-17 (2).jpg

 Henrique Salles da Fonseca

AFINAL, SOMOS UNS GAJOS

 

Numa palestra que proferi há tempos, comecei por abordar o tema de identificação da génese do desenvolvimento duma Nação afirmando que, naturalmente, todos ambicionamos pertencer a uma sociedade desenvolvida mas que é importante sabermos como se alcança esse desenvolvimento para que não corramos o risco de algum retrocesso.

 

Quais, então, as condições necessárias para que o desenvolvimento ocorra?

 

Logo afirmei de seguida que isso se consegue com um elevado sentido de independência individual e colectiva, com muita gente a trabalhar para si própria demonstrando grandes doses de empreendedorismo, elevado nível de auto-estima, assumindo com orgulho as tradições culturais sem submissão a estrangeirismos e com um elevado sentido de auto-suficiência.

 

Perguntei aos meus ouvintes se estavam de acordo com as premissas enunciadas e, como previra, quase não tive tempo de chegar ao fim da pergunta porque a resposta foi imediata com uma aprovação unânime.

 

Então, sugeri que todos se sentassem confortavelmente, o que fizeram de imediato porque, efectivamente, a plateia estava cheia mas não havia ninguém de pé. E assim foi que lhes disse que quando estava a definir as premissas, eu estava a pensar nos ciganos. A desilusão que senti na audiência nada teve a ver com racismo mas apenas com alguma revolta contra mim, o orador, que os levara ao engano. Com a verdade os enganara.

 

Para não deixar a desilusão assentar praça, avancei de imediato para a fase seguinte do meu raciocínio, aquela em que lhes provaria que as premissas enunciadas eram necessárias, sim, mas estavam longe da suficiência.

 

Então, qual é a génese do desenvolvimento?

 

E aqui seguiu-se o resto da palestra em que comparei o Afeganistão com a Suíça, Angola com o Japão, a Cisjordânia com Israel,… até demonstrar que o desenvolvimento é consequência directa, não das riquezas naturais dos territórios ocupados por uma Nação mas sim do elevado nível de educação, instrução e formação.

 

Assim, as premissas que eu enunciara no início da palestra são claramente importantes mas estão longe da suficiência.

 

A educação que se obtém na família induz a civilização; a instrução que se obtém na escola induz a cultura; a formação profissional que se obtém nas Universidades e noutras instituições equiparáveis induz os conhecimentos para se ganhar a vida, a independência material. Se a isto tudo se juntar um elevado sentido de independência individual e colectiva, se houver muita gente a trabalhar para si própria demonstrando grandes doses de empreendedorismo, se se tiver um elevado nível de auto-estima, se se assumir com orgulho a tradição cultural sem submissão a estrangeirismos e se se tiver um elevado sentido de auto-suficiência, então, sim, alcança-se o desenvolvimento por todos ambicionado e ninguém «agarra» essa Nação.

 

gente_normal.jpg

 

Seremos, então, ciganos? Não, somos apenas «gajins», os não-ciganos, esses que, na terminologia cigana, deram origem aos gajos.

 

Bom. Mas se para progredirmos nos resta a solução de sermos uns gajos, então que o sejamos com classe, com ética.

 

Só que isto da ética vai dar para mais umas quantas palestras. Lá iremos…

 

Fevereiro de 2018

Barranco, Lima, Peru, 12 de Outubro de 2017.jpg

 Henrique Salles da Fonseca

OS HIPERBÓREOS

Wotan.jpg

 

Presidindo ao Walhala, Wotan é o deus da guerra e envia as suas filhas valquírias para recolher os corpos dos heróis mortos em combate. Só morrendo em combate se garante a vida eterna – eis a fé dos hiperbóreos, aquela raça que se crê superior e que vive para lá das neves sopradas por Boreas, o vento do Norte.

 

Foi Umberto Ecco que me apresentou os hiperbóreos[1] por intermédio de Nietzsche que me disse, referindo-se à sua própria Nação, que...

 

hiperboreos.png

 

... bastante ousados, não poupámos os outros nem a nós mesmos; mas, por longo tempo, não soubemos onde ir com a nossa bravura; tornámo-nos sombrios, chamaram-nos fatalistas. O nosso «fatum» era a plenitude, a tensão, a acumulação de forças. Tínhamos sede de relâmpagos e de actos, mantínhamo-nos o mais longe possível da felicidade dos fracos, da resignação. Pairava a tempestade da nossa atmosfera; a natureza que nós somos obscurecia-se pois não tínhamos senda alguma. Eis a fórmula da nossa felicidade: um sim, um não, uma linha recta, uma finalidade. O que é bom? Tudo o que aumenta no homem o sentimento do poder, a vontade do poder, o próprio poder. O que é mau? Tudo o que nasce da fraqueza. O que é a felicidade? O sentimento de que o poder cresce, de que uma resistência foi vencida. Não o contentamento, mas mais poder. Não a paz, finalmente, mas a guerra; não a virtude, mas a excelência isenta de moralismos.

 

General Ludendorff e Hitler.jpg

Ludendorff e Hitler, auto-enviados de Wotan

 

Destaco: (...) não soubemos onde ir com a nossa bravura; tornámo-nos sombrios (...)

 

E hoje?

 

Hoje, os descendentes dos hiperbóreos – a que actualmente chamamos alemães – ainda lambem as feridas que sofreram por terem ido à glória duas vezes em menos de 100 anos. E, ao contrário do que dão a entender, não esqueceram Wotan e a ideia de superioridade em relação aos soalheiros povos do Sul que tomam por carnavalescos.

 

Como assim? É que também contaram com Lutero que os incitou à justificação da fé pela fé, sem intermediários com o Deus único. Dessa relação directa resulta um grande sentido de responsabilidade e, portanto, ainda mais sisudez e maior convicção de superioridade em relação aos que carecem de intermediários para obterem o perdão divino. O luterano é directamente responsável pelos seus actos perante Deus e não há bula que lhe valha.

 

Desta responsabilidade individual resulta uma Ética também sisuda, austera, que induz os descendentes dos hiporbóreos a servirem o bem comum da sua Nação, atitude que os faz viverem para trabalhar e para aforrar.

 

Pelo contrário, os meridionais acham muito mais graça ir para as praias gozar dos mares aquecidos e, se pecarem, logo pedem a absolvição. Entretanto, os subsídios de sobrevivência que os endividados Estados Providência lhes concedem, não deixam margem para dúvidas: não há vida mais bela que a das férias permanentes.

 

Então, os setentrionais poupam e os meridionais gastam.

 

São estas as duas perspectivas, totalmente antagónicas, que fazem os Varoufakis e outros causídicos das «cigarras» dizerem mal de Schäuble e de outros defensores das «formigas». Mas mais valia que se queixassem a Wotan.

 

Janeiro de 2017

Dubrovnik-réveillon 2016-17 (2).jpg

Henrique Salles da Fonseca

 

BIBLIOGRAFIA:

Umberto Ecco – «História das Terras e dos Lugares Lendários», Gradiva, 1ª edição, Outubro de 2015

Max Weber – «A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo», Editorial Presença, 8ª edição, Setembro de 2015

 

 

[1] - «História das Terras e dos Lugares Lendários», Ed. Gradiva, 1ª edição, Outubro de 2015, pág. 241 e seg.

SÔR HENRIQUE

 

Fulano de Tal.jpg

 

Todos nós já passámos pela desgraça de sermos tratados pelo nome próprio quando abordados pelos profissionais dos call centers ou equivalentes.

 

Foi o caso, ontem, quando uma diligente menina da oficina do meu carro me tratou por «Sôr Henrique». Imediatamente antes de lhe desligar o telefone, mandei-a aprender a lidar com os clientes. Ainda lhe ouvi de raspão um «An?» de espanto.

 

Reconheço que não fui um exemplo da boa educação mas o serafismo não é propriamente uma característica latina e há coisas com que me «passo». E esta do «Sôr Henrique» é uma delas. O mais triste é que essas pessoas nem sequer percebem a razão do meu agastamento.

 

O conhecido de um amigo meu, posto perante tal tratamento, responde com uma fleuma que eu não consigo assumir perguntando, muito “inocentemente”, algo como «não me lembro da escola em que andámos para me tratar pelo nome próprio...». Mas na escola e na tropa o tratamento entre iguais é por «tu» e não por «Você» pelo que eu acho que a pergunta do conhecido do meu amigo é cínica de mais para poder ser considerada subtil.

 

Bimbismo à parte, continuo a achar que o tratamento pelo nome próprio é monárquico – o Senhor D. Henrique, por exemplo – e que o tratamento republicano é pelo apelido – o Senhor Fonseca. Em casos mais identificados, os republicanos portugueses gostamos de ser tratados pelo título académico – o Senhor Engenheiro, o Senhor Doutor, o Senhor Arquitecto, etc. Reminiscências monárquicas resultantes da falta de condados e marquesatos a que nós, plebeus, não podemos recorrer (não que nos importassemos...).

 

Mas a menina do call center nada sabe sobre o meu título académico porque, no acto de inscrição do meu carro lá na oficina eu nada disse sobre essa questão (nem ninguém me perguntou porque não vinha de todo a propósito). Mas «Sôr Henrique» é que não!

 

Contudo, eu conheço alguém que sabe «a potes» destas coisas do protocolo e do atendimento e daqui peço ajuda ao meu Amigo Embaixador José de Bouza Serrano para que me ensine o que lhe aprouver acerca disto tudo e, sobretudo, em relação à questão mais importante que é a de como havemos de resolver esta matéria que tanto incomoda quem leva carros às oficinas.

 

Lisboa, Setembro de 2016

 

Henrique-piscina dos monges em Kandy, Sri Lanka.JP

Henrique Salles da Fonseca

AFINAL, O QUE SOMOS?

 

 

 

«A ultrapassagem do metafísico pelo positivo só se sustentou enquanto este último viveu da herança dos estádios anteriores (teológico e metafísico). Porém, o sucessivo afastamento e descuido em relação àquelas fontes deixou-o animicamente esvaído e eticamente desamparado».

 

D. Manuel Clemente.jpg

 

Este raciocínio de D. Manuel Clemente a págs.40 e seg. do seu livro “PORQUÊ E PARA QUÊ – Pensar com esperança o Portugal de hoje” assenta como uma luva à geração pós-moderna actual.

 

Contudo, a ética cristã de solidariedade e benevolência para com o próximo, de honradez e de trabalho, tem uma versão laica que pergunta, com enorme simplicidade, «o que é que eu posso fazer por ti sem o prejudicar a ele, esse terceiro que nem sequer conheço?». E esta atitude não carece de fundamento teológico.

 

No início do século XX, a sociedade portuguesa vivia numa quase hierocracia e foi contra esse domínio que a laicização da ética tentou abrir caminho. Mas não terá conseguido vingar no ambiente de iliteracia que então reinava e hoje, passado um século, continuamos a padecer as consequências desse desencontro.

 

Uma população tutelada pela ameaça da ira divina, não teve arcaboiço para se harmonizar eticamente sem tutela num espaço que se pretendia republicano, responsável. Aos portugueses, iletrados e habituados a uma estrutura social muito parametrizada, foi então pedido que assumissem uma plena cidadania. Mas, na verdade, nada lhes foi pedido: foi-lhes consumado o facto e, desenquadrados, deixados entregues a si próprios.

 

E como as elites republicanas se limitaram a copiar as homólogas monárquicas que as tinham antecedido digladiando-se em lutas renhidas pelo Poder, o vulgo continuou ignaro, não opôs resistência quando o mandaram morrer na Flandres e não fez «cara feia» quando apareceu alguém disposto a pôr ordem onde se instalara a desavença constante, o «tira-te tu para me pôr eu», a falência.

 

Seguiu-se nova parametrização social, rigor financeiro, resfriamento das vontades que se apresentavam aquecidas.

 

Essa parametrização durou 40 anos. Tantos como agora levamos de militância pós moderna.

 

Teremos entretanto conseguido fundamentar a liberdade de que queremos usufruir empreendendo uma síntese do que aprendemos entretanto para nos retomarmos como humanidade? Tenho esta como a questão portuguesa historicamente mais pertinente.

 

Ou será que não aprendemos nada? E andará por aí alguém com poder de síntese?

 

Henrique Salles da Fonseca, 2007, jpg

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