Quinta-feira, 8 de Fevereiro de 2018
CABO DA ROCA

 

OU

O FIM DA PICADA – 2

 

E a palestra continuou depois de um mini intervalo para dar entrada a mais ouvintes que vinham sabe-se lá donde.

 

Retomada a palavra, avancei para a solução dos problemas até ali enunciados que, como tinha dito, é a Ética cuja reposição me parece imperiosa.

 

E a questão estaminal da nossa conversa é a de saber o que é a Ética. Então, para desfazer muita confusão que por aí navega, comecei por afirmar simplisticamente que a Moral é a questão dos princípios enquanto a Ética é a questão dos factos.

 

Muito resumidamente, disse que todas as religiões têm as suas escrituras sagradas as quais, criando a respectiva Teologia, deram origem a verdadeiros códigos de conduta que definiram os grandes princípios da Moral correspondente e foi a partir daí que cada sociedade, descendo aos factos reais da vida quotidiana, criou a sua Ética; assumindo a obrigatoriedade do cumprimento, cada Ética vestiu o figurino de quadro jurídico.

 

Breve, a lógica descendente tem origem nas Sagradas Escrituras que definem a Moral que, por sua vez, induz a Ética e é esta que fundamenta o quadro jurídico.

 

Exemplos? Muitos. Mas basta referir a Bíblia cujo Antigo Testamento fundamenta o Judaísmo, os Vedas que são a base do Hinduísmo, os Ensinamentos de Buda que deram origem ao Budismo, o Novo Testamento que, em conjunto com o Antigo, fundamenta o Cristianismo, o Corão que é a Sagrada Escritura do Islão.

 

Contudo, como vimos de início, o homem pós-moderno extremou a sua própria laicização donde resulta que a inspiração divina nada lhe diz e ele se desliga de tudo que tenha origem nesse tipo de Valores. Não vale, portanto, a pena invocarmos princípios religiosos – venham eles donde vierem – para levarmos o pós-moderno convicto a aceitar um quadro jurídico que se inspire numa Ética que por sua vez se fundamente numa Moral de origem divina.

 

Então, como havemos de sair deste beco?

 

A questão pode-se resolver a partir duma frase que cito muitas vezes que, apesar de ser da autoria de um Cardeal, pode ser laicizada com toda a facilidade pois ela própria a isso conduz: «as coisas não são boas ou más porque Deus as mande ou as proíba; antes as manda porque são boas e as proíbe porque são más»[i].

 

Ou seja, tanto o bem como o mal existem fora da discussão teológica e por isso é possível erigirmos uma Ética laica que se fundamente na «Declaração Universal dos Direitos do Homem»[ii] e na «Declaração de Ética Mundial»[iii]

 

Para não cansar a assistência, referi apenas as linhas gerais deste último documento que começa por condenar a usurpação dos ecossistemas do planeta, o abandono dos miseráveis, o recrutamento forçado de crianças como soldados, a agressão e o ódio cultivados em nome das religiões.

 

E depois deste posicionamento crítico, passa para a positiva afirmando haver uma reserva de valores fundamentais comuns a toda a Humanidade que constituem a base para uma ética que fundamente uma ordem mundial duradoira, nomeadamente pelo reconhecimento de alguns princípios:

  • Há que respeitar a comunidade dos seres viventes (humanos, animais e plantas) preocupando-nos com a conservação da Terra, do ar, da água e do solo – princípio ecológico;
  • Todas as nossas acções e omissões têm consequências que devemos ponderar – princípio da responsabilidade;
  • Devemos dar aos outros o tratamento que deles queremos receber - princípio da equidade;
  • Temos que nos encher de paciência;
  • Nos cumpre servir o bem comum;
  • Deve prevalecer uma relação de companheirismo entre homem e mulher com igualdade de direitos – princípio da dignidade humana;
  • Temos o direito de combater a ânsia pelo poder – princípio da democracia política.

 

Estas, algumas das bases que devem servir para a construção de uma ética laica mundial na qual se revejam os pós-modernos que por aí pululam à nossa volta.

 

Concluí a palestra com a revelação de um segredo (pedindo que não o revelassem aos pós-modernos): esta ética laica mundial pode na perfeição ser considerada ecuménica pois resulta de um longo diálogo inter-religioso e o documento em apreço tem origem, afinal, nas confabulações desenvolvidas no seio do Parlamento das Religiões Mundiais.

 

Então, o que menos importa será saber se a origem da Ética Mundial tem ou não uma génese religiosa; basta saber que ela nasceu para servir a Humanidade.

 

Cabo_da_Roca_sunset.jpg

 

É que, assim não sendo, nos resta constatar que chegámos ao Cabo da Roca onde a terra acaba, onde é o fim da picada e onde, portanto, só poderemos optar entre atirarmo-nos ao mar ou darmos meia volta e meditarmos ponderadamente sobre o que queremos fazer da vida.

 

* * *

 

Dei por finda a palestra e não apanhei mocadas na cabeça. Mas passadas as portas do anfiteatro, retomaram pela certa aqueles finalistas a dinâmica das festas da queima das fitas arquivando algures numa dobra recôndita do cérebro as coisas que o tipo do bigode disse desejando que ele se coce com urtigas pois «nós somos hedonistas felizes como o cão dele».

 

Fevereiro de 2018

Henrique em Praga.jpg

 Henrique Salles da Fonseca

 

[i] - D. Manuel Clemente, Cardeal Patriarca de Lisboa, então Bispo do Porto, no seu livro “1810-1910-2010 DATAS E DESAFIOS”, pág. 121

 

[ii] - 1948

[iii] - Assinada em Chicago em 1993



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 16:01
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Terça-feira, 6 de Fevereiro de 2018
CABO DA ROCA

 

OU

O FIM DA PICADA -1

Sé-de-Braga.jpg

 

Fui há tempos palestrar a uma «queima de fitas» no norte de Portugal e pediram-me previamente que abordasse o tema do futuro deles, os então finalistas daquela Universidade.

 

Nunca eu falara para plateia tão grande e tão apinhada em que não dava para perceber onde estavam os sentados, os de pé e os «sabe Deus como».

 

Então, se me queriam ouvir falar do futuro, teriam que ter uns minutos de paciência para me ouvirem falar do passado. Do recente, sim, mas passado na mesma. O passado imediato relativamente ao presente, este que antecede imediatamente o futuro. E como o presente é o instante que separa o grande passado e o futuro que temos por infinito, vejamos no que estamos metidos. E esse «caldinho» chama-se pós-modernidade.

 

A pós-modernidade designa a condição sócio-cultural dominante após a queda do Muro de Berlim (1989), o colapso da União Soviética e a crise das ideologias nas sociedades ocidentais no final do século XX, sobretudo pela dissolução da referência a esquemas totalizantes - o fascismo, o nazismo e o comunismo - fundados na crença no progresso mas que, por sua vez, já eram a negação dos ideais iluministas de igualdade, liberdade e fraternidade.

 

E aqui chegados, disse-lhes que me parece imprescindível pensarmos na questão da ética e seus fundamentos precisamente porque estamos a viver num mundo sem conceitos superiores uma vez que nos tempos que correm só se pensa na competitividade. E esta, sim, é fruto do pós-modernismo em toda a sua pujança, é a sacralização do profano.

 

Então, avancei com a afirmação de que o cidadão do Mundo, pós-moderno, é ateu ou, no mínimo, agnóstico; para ele a vida é esta em que estamos e mais nenhuma. Por isso mesmo quer TUDO, e JÁ! E como não se sente vinculado a uma Moral, também ignora a correspondente Ética. Ou seja, tudo vale para que alcance imediatamente a sua própria felicidade sem sacrifícios pessoais (mas talvez à custa dos alheios). Egocêntrico, assume o egoísmo como algo de natural e fá-lo de consciência tranquila, sem sentimento de culpa, porque amoral e aético. Assim se confunde com hedonista sem sequer saber que o é nem o que tal palavra significa.

 

Com risco de não sair dali sem umas mocadas na cabeça, eu disse-lhes que o meu cão também é hedonista: quer todo o prazer de imediato; não gere a sorte da fortuna. Ninguém levantou a voz em protesto mas fiquei convencido de que muitos daqueles jovens reconheceram os paizinhos no que eu acabara de dizer. Mas, educadamente, «enfiaram o barrete» e calaram.

 

Onde estamos, então, depois de derrubado o muro das ideologias? Na arena nihilista e em mais nenhuma. Um BRAVO a Nietzsche que se suicidou em vão.

 

Sobrevivente do frisson quase ofensivo, mais lhes disse que, chegados ao ponto em que não se olha a meios para atingir o objectivo que cada um se auto-atribui sem querer minimamente saber se tal desiderato corresponde ou não ao bem-comum, a desorientação global resulta da abdicação que os governos fizeram de muitos conceitos entretanto considerados caducos para apenas alcandorarem a competitividade ao estatuto de quase sacralização. Foi assim que nos vimos chegados a uma sociedade de quase Partido Único em que todos os grupos seguem políticas liberais e apenas diferem nas cores das camisolas que vestem. Aliás, todos sabemos por experiência própria que a definição do bem-comum é pouco ou nada referida nas campanhas eleitorais e os votos definem-se com frequência por claques de simpatia. Vacuidade ideológica, política liberal por quase todos e por toda a parte, gestão de favores de classe ou, pior, individuais.

 

E, então, eu disse-lhes como foi na época em que eles estavam a concluir o ensino secundário e a entrar na Universidade: quando a inovação tecnológica deixou de proporcionar as margens de lucro ambicionadas pelos vorazes pós-modernos, restou-lhes a matéria-prima alvo da sua cobiça, o dinheiro. Foram então os «capitães de indústria» substituídos pelos magnatas da finança e do investimento produtivo se passou à especulação bolsista em que se vende «gato por lebre» (os famigerados «produtos tóxicos») sendo que até vendem o gato mesmo antes de o comprarem ou até mesmo antes dele nascer.

 

E de tanto por ela puxarem, a corda da sorte rebentou e ficámos a braços com a bancarrota mundial… As poucas lebres andavam perdidas no meio de muitos gatos e saíram da cena todas arranhadas.

 

- Eis o cenário que se vos depara – disse-lhes eu e notei algum desconforto na plateia.

 

Que fazer? Eis a questão cuja resposta não passa pelo encarceramento do todos os culpados pois não há grades suficientemente grandes para aprisionar meio mundo. E a reciclagem de mentalidades vai demorar...

 

A palestra continuou mas eu acho que este escrito vai ficar por aqui para não cansar quem me lê. No próximo número vou então continuar a contar como decorreu a palestra da queima das fitas e tratar da solução, a Ética.

 

(continua)

 

Fevereiro de 2018

Dubrovnik-réveillon 2016-17 (2).jpg

 Henrique Salles da Fonseca



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 18:44
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Domingo, 4 de Fevereiro de 2018
AFINAL, SOMOS UNS GAJOS

 

Numa palestra que proferi há tempos, comecei por abordar o tema de identificação da génese do desenvolvimento duma Nação afirmando que, naturalmente, todos ambicionamos pertencer a uma sociedade desenvolvida mas que é importante sabermos como se alcança esse desenvolvimento para que não corramos o risco de algum retrocesso.

 

Quais, então, as condições necessárias para que o desenvolvimento ocorra?

 

Logo afirmei de seguida que isso se consegue com um elevado sentido de independência individual e colectiva, com muita gente a trabalhar para si própria demonstrando grandes doses de empreendedorismo, elevado nível de auto-estima, assumindo com orgulho as tradições culturais sem submissão a estrangeirismos e com um elevado sentido de auto-suficiência.

 

Perguntei aos meus ouvintes se estavam de acordo com as premissas enunciadas e, como previra, quase não tive tempo de chegar ao fim da pergunta porque a resposta foi imediata com uma aprovação unânime.

 

Então, sugeri que todos se sentassem confortavelmente, o que fizeram de imediato porque, efectivamente, a plateia estava cheia mas não havia ninguém de pé. E assim foi que lhes disse que quando estava a definir as premissas, eu estava a pensar nos ciganos. A desilusão que senti na audiência nada teve a ver com racismo mas apenas com alguma revolta contra mim, o orador, que os levara ao engano. Com a verdade os enganara.

 

Para não deixar a desilusão assentar praça, avancei de imediato para a fase seguinte do meu raciocínio, aquela em que lhes provaria que as premissas enunciadas eram necessárias, sim, mas estavam longe da suficiência.

 

Então, qual é a génese do desenvolvimento?

 

E aqui seguiu-se o resto da palestra em que comparei o Afeganistão com a Suíça, Angola com o Japão, a Cisjordânia com Israel,… até demonstrar que o desenvolvimento é consequência directa, não das riquezas naturais dos territórios ocupados por uma Nação mas sim do elevado nível de educação, instrução e formação.

 

Assim, as premissas que eu enunciara no início da palestra são claramente importantes mas estão longe da suficiência.

 

A educação que se obtém na família induz a civilização; a instrução que se obtém na escola induz a cultura; a formação profissional que se obtém nas Universidades e noutras instituições equiparáveis induz os conhecimentos para se ganhar a vida, a independência material. Se a isto tudo se juntar um elevado sentido de independência individual e colectiva, se houver muita gente a trabalhar para si própria demonstrando grandes doses de empreendedorismo, se se tiver um elevado nível de auto-estima, se se assumir com orgulho a tradição cultural sem submissão a estrangeirismos e se se tiver um elevado sentido de auto-suficiência, então, sim, alcança-se o desenvolvimento por todos ambicionado e ninguém «agarra» essa Nação.

 

gente_normal.jpg

 

Seremos, então, ciganos? Não, somos apenas «gajins», os não-ciganos, esses que, na terminologia cigana, deram origem aos gajos.

 

Bom. Mas se para progredirmos nos resta a solução de sermos uns gajos, então que o sejamos com classe, com ética.

 

Só que isto da ética vai dar para mais umas quantas palestras. Lá iremos…

 

Fevereiro de 2018

Barranco, Lima, Peru, 12 de Outubro de 2017.jpg

 Henrique Salles da Fonseca



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 13:12
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Terça-feira, 10 de Janeiro de 2017
OS HIPERBÓREOS

Wotan.jpg

 

Presidindo ao Walhala, Wotan é o deus da guerra e envia as suas filhas valquírias para recolher os corpos dos heróis mortos em combate. Só morrendo em combate se garante a vida eterna – eis a fé dos hiperbóreos, aquela raça que se crê superior e que vive para lá das neves sopradas por Boreas, o vento do Norte.

 

Foi Umberto Ecco que me apresentou os hiperbóreos[1] por intermédio de Nietzsche que me disse, referindo-se à sua própria Nação, que...

 

hiperboreos.png

 

... bastante ousados, não poupámos os outros nem a nós mesmos; mas, por longo tempo, não soubemos onde ir com a nossa bravura; tornámo-nos sombrios, chamaram-nos fatalistas. O nosso «fatum» era a plenitude, a tensão, a acumulação de forças. Tínhamos sede de relâmpagos e de actos, mantínhamo-nos o mais longe possível da felicidade dos fracos, da resignação. Pairava a tempestade da nossa atmosfera; a natureza que nós somos obscurecia-se pois não tínhamos senda alguma. Eis a fórmula da nossa felicidade: um sim, um não, uma linha recta, uma finalidade. O que é bom? Tudo o que aumenta no homem o sentimento do poder, a vontade do poder, o próprio poder. O que é mau? Tudo o que nasce da fraqueza. O que é a felicidade? O sentimento de que o poder cresce, de que uma resistência foi vencida. Não o contentamento, mas mais poder. Não a paz, finalmente, mas a guerra; não a virtude, mas a excelência isenta de moralismos.

 

General Ludendorff e Hitler.jpg

Ludendorff e Hitler, auto-enviados de Wotan

 

Destaco: (...) não soubemos onde ir com a nossa bravura; tornámo-nos sombrios (...)

 

E hoje?

 

Hoje, os descendentes dos hiperbóreos – a que actualmente chamamos alemães – ainda lambem as feridas que sofreram por terem ido à glória duas vezes em menos de 100 anos. E, ao contrário do que dão a entender, não esqueceram Wotan e a ideia de superioridade em relação aos soalheiros povos do Sul que tomam por carnavalescos.

 

Como assim? É que também contaram com Lutero que os incitou à justificação da fé pela fé, sem intermediários com o Deus único. Dessa relação directa resulta um grande sentido de responsabilidade e, portanto, ainda mais sisudez e maior convicção de superioridade em relação aos que carecem de intermediários para obterem o perdão divino. O luterano é directamente responsável pelos seus actos perante Deus e não há bula que lhe valha.

 

Desta responsabilidade individual resulta uma Ética também sisuda, austera, que induz os descendentes dos hiporbóreos a servirem o bem comum da sua Nação, atitude que os faz viverem para trabalhar e para aforrar.

 

Pelo contrário, os meridionais acham muito mais graça ir para as praias gozar dos mares aquecidos e, se pecarem, logo pedem a absolvição. Entretanto, os subsídios de sobrevivência que os endividados Estados Providência lhes concedem, não deixam margem para dúvidas: não há vida mais bela que a das férias permanentes.

 

Então, os setentrionais poupam e os meridionais gastam.

 

São estas as duas perspectivas, totalmente antagónicas, que fazem os Varoufakis e outros causídicos das «cigarras» dizerem mal de Schäuble e de outros defensores das «formigas». Mas mais valia que se queixassem a Wotan.

 

Janeiro de 2017

Dubrovnik-réveillon 2016-17 (2).jpg

Henrique Salles da Fonseca

 

BIBLIOGRAFIA:

Umberto Ecco – «História das Terras e dos Lugares Lendários», Gradiva, 1ª edição, Outubro de 2015

Max Weber – «A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo», Editorial Presença, 8ª edição, Setembro de 2015

 

 

[1] - «História das Terras e dos Lugares Lendários», Ed. Gradiva, 1ª edição, Outubro de 2015, pág. 241 e seg.



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 07:25
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Quarta-feira, 28 de Setembro de 2016
SÔR HENRIQUE

 

Fulano de Tal.jpg

 

Todos nós já passámos pela desgraça de sermos tratados pelo nome próprio quando abordados pelos profissionais dos call centers ou equivalentes.

 

Foi o caso, ontem, quando uma diligente menina da oficina do meu carro me tratou por «Sôr Henrique». Imediatamente antes de lhe desligar o telefone, mandei-a aprender a lidar com os clientes. Ainda lhe ouvi de raspão um «An?» de espanto.

 

Reconheço que não fui um exemplo da boa educação mas o serafismo não é propriamente uma característica latina e há coisas com que me «passo». E esta do «Sôr Henrique» é uma delas. O mais triste é que essas pessoas nem sequer percebem a razão do meu agastamento.

 

O conhecido de um amigo meu, posto perante tal tratamento, responde com uma fleuma que eu não consigo assumir perguntando, muito “inocentemente”, algo como «não me lembro da escola em que andámos para me tratar pelo nome próprio...». Mas na escola e na tropa o tratamento entre iguais é por «tu» e não por «Você» pelo que eu acho que a pergunta do conhecido do meu amigo é cínica de mais para poder ser considerada subtil.

 

Bimbismo à parte, continuo a achar que o tratamento pelo nome próprio é monárquico – o Senhor D. Henrique, por exemplo – e que o tratamento republicano é pelo apelido – o Senhor Fonseca. Em casos mais identificados, os republicanos portugueses gostamos de ser tratados pelo título académico – o Senhor Engenheiro, o Senhor Doutor, o Senhor Arquitecto, etc. Reminiscências monárquicas resultantes da falta de condados e marquesatos a que nós, plebeus, não podemos recorrer (não que nos importassemos...).

 

Mas a menina do call center nada sabe sobre o meu título académico porque, no acto de inscrição do meu carro lá na oficina eu nada disse sobre essa questão (nem ninguém me perguntou porque não vinha de todo a propósito). Mas «Sôr Henrique» é que não!

 

Contudo, eu conheço alguém que sabe «a potes» destas coisas do protocolo e do atendimento e daqui peço ajuda ao meu Amigo Embaixador José de Bouza Serrano para que me ensine o que lhe aprouver acerca disto tudo e, sobretudo, em relação à questão mais importante que é a de como havemos de resolver esta matéria que tanto incomoda quem leva carros às oficinas.

 

Lisboa, Setembro de 2016

 

Henrique-piscina dos monges em Kandy, Sri Lanka.JP

Henrique Salles da Fonseca



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 14:29
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Quarta-feira, 21 de Setembro de 2016
AFINAL, O QUE SOMOS?

 

 

 

«A ultrapassagem do metafísico pelo positivo só se sustentou enquanto este último viveu da herança dos estádios anteriores (teológico e metafísico). Porém, o sucessivo afastamento e descuido em relação àquelas fontes deixou-o animicamente esvaído e eticamente desamparado».

 

D. Manuel Clemente.jpg

 

Este raciocínio de D. Manuel Clemente a págs.40 e seg. do seu livro “PORQUÊ E PARA QUÊ – Pensar com esperança o Portugal de hoje” assenta como uma luva à geração pós-moderna actual.

 

Contudo, a ética cristã de solidariedade e benevolência para com o próximo, de honradez e de trabalho, tem uma versão laica que pergunta, com enorme simplicidade, «o que é que eu posso fazer por ti sem o prejudicar a ele, esse terceiro que nem sequer conheço?». E esta atitude não carece de fundamento teológico.

 

No início do século XX, a sociedade portuguesa vivia numa quase hierocracia e foi contra esse domínio que a laicização da ética tentou abrir caminho. Mas não terá conseguido vingar no ambiente de iliteracia que então reinava e hoje, passado um século, continuamos a padecer as consequências desse desencontro.

 

Uma população tutelada pela ameaça da ira divina, não teve arcaboiço para se harmonizar eticamente sem tutela num espaço que se pretendia republicano, responsável. Aos portugueses, iletrados e habituados a uma estrutura social muito parametrizada, foi então pedido que assumissem uma plena cidadania. Mas, na verdade, nada lhes foi pedido: foi-lhes consumado o facto e, desenquadrados, deixados entregues a si próprios.

 

E como as elites republicanas se limitaram a copiar as homólogas monárquicas que as tinham antecedido digladiando-se em lutas renhidas pelo Poder, o vulgo continuou ignaro, não opôs resistência quando o mandaram morrer na Flandres e não fez «cara feia» quando apareceu alguém disposto a pôr ordem onde se instalara a desavença constante, o «tira-te tu para me pôr eu», a falência.

 

Seguiu-se nova parametrização social, rigor financeiro, resfriamento das vontades que se apresentavam aquecidas.

 

Essa parametrização durou 40 anos. Tantos como agora levamos de militância pós moderna.

 

Teremos entretanto conseguido fundamentar a liberdade de que queremos usufruir empreendendo uma síntese do que aprendemos entretanto para nos retomarmos como humanidade? Tenho esta como a questão portuguesa historicamente mais pertinente.

 

Ou será que não aprendemos nada? E andará por aí alguém com poder de síntese?

 

Henrique Salles da Fonseca, 2007, jpg

Henrique Salles da Fonseca



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 15:00
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Domingo, 19 de Junho de 2016
O PRECEITO DO PRECONCEITO...

... NA DISCRIMINAÇÃO DO GÉNERO GRAMATICAL E DO SEXO

 

Da “Linguagem sexista” ao Domínio da Consciência social através da Novilíngua

 

Cada época, cada grupo, cada pessoa, quer possuir uma identidade própria e para tal constituir a sua narrativa como se só ela fosse a norma; para tal tenta afirmar os próprios vestígios na discrição ou na forma de interpretar e apresentar os mesmos fenómenos da vida humana que se repetem ao longo da sociedade e da História. É uma tendência natural confirmada na natureza ao observarmos cada planta a afirmar-se na procura do seu sol. O mesmo se observa na selva da polis, onde cada grupo pretende colocar o outro debaixo da sua sombra. Se outrora se vivia mais ao sol de Deus-Pátria-Família, hoje procura viver-se ao soalheiro de Dinheiro-Mercado-Ego sexual. Num tempo em que a justiça social e a democracia política e económica já ultrapassaram o seu zénite a luta das reivindicações passa a ser no campo da gramática.

 

No Brasil, a presidente Dilma, para granjear algumas almas com asas da cor do seu género, determinou ser chamada, senhora “presidenta”! Às vezes parece que o erro vale como trunfo, não fosse o português brasileiro!...

 

Neste sentido, a 13 de Abril, mas de forma mais moderada, o Bloco de Esquerda (BE) recomendou ao Governo a mudança do nome do documento de identidade “Cartão do Cidadão” para “Cartão da Cidadania”. Para o BE, a expressão Cartão do cidadão pertence à “linguagem sexista” (1).

 

Para os lutadores do género, a palavra “Cidadão” no cartão de identidade, torna-se desconfortável, porque favorece um sexo ao apontar para o apêndice terminal masculino da palavra, o que fere a sensibilidade de certas almas habituadas a ver tudo sob o ângulo do sexo, o que as predestina a terem de andar à espreita dele também na morfologia gramatical. Então, porque não voltar à designação “Bilhete de Identidade” por ser de dimensão mais aberta e de forma mais ambígua, dado a terminação da palavra em “e” não ser de provocação tão “sexista” como as terminações em “a” ou em “o” (2)?

 

Frustrados do Homem e da economia aproveitam-se da sociedade para criarem um novo indivíduo e, com ele, uma “novilíngua”; já que o povo não se muda, tenta mudar-se-lhe a gramática! Vai-se tendo a impressão de não nos quererem cidadãos, apenas nos quererem imaginar indivíduos abúlicos, portadores da sua cidadania. Sabem como é que se faz História e que para tal é necessária a mostrar a consciência disso. Por outro lado, que seria dos culpados se não houvesse os inocentes?

 

A prova de que o que está em jogo para o BE, não é o preconceito nem a discriminação mas sim a conversa em torno deles, vem do facto de não advertirem também para o caso de, no Cartão do Cidadão, se encontrarem registados outros dados ainda mais propícios ao preconceito e à discriminação; entre outros: a idade, o sexo, a medida, a assinatura, a fotografia, o nome, todos eles potenciam o preconceito.

 

Cartao de cidadao em branco.jpg

 

Registos a evitar para obstar à discriminação/preconceito

 

Abula-se a data de nascimento no cartão: a idade é um dos grandes factores de preconceitos e de discriminação; até o comércio e a indústria já se servem da idade para fazerem a sua propaganda adequada à idade.

 

Abula-se o uso da fotografia: através da foto pode-se deduzir qualidades temperamentais e tendenciais da pessoa para quem sabe um pouco de fisionomia. Através da análise do rosto pode-se chegar ao conhecimento de características psicológicas e seus traços de génio. Até a pele, mais ou menos bronzeada, também pode ser indicativo de pessoa mais ou menos sexy, o que também pode fomentar prejuízo ou discriminação.

 

Abula-se a assinatura: a escrita à mão também sofre da mesma peçonha porque quem tiver conhecimentos de grafologia pode usá-la como método de interpretação temperamental e de diagnóstico psíquico, podendo descobrir, através da assinatura, indicadores de personalidade. O manuscrito torna-se num factor de discriminação e preconceito.

 

Abula-se o nome: pelo nome pode chegar-se à etnia, religião e, por vezes, até à classe social.

 

Abula-se a indicação da nacionalidade: é factor de discriminação e de preconceito atendendo à escala do prestígio e de diferentes direitos dos Estados. Além disso os polipátricos ficam na indefinição entre o jus soli e o jus sanguinis.

 

Abula-se o registo do número do contribuinte: permite o controlo do cidadão e o registo dos três números (n° de identidade, do contribuinte e da saúde) facilitaria um governo espia.

 

Não falo já de fomentadores especiais de preconceito e discriminação que se escondem atrás do porte e do trajo, devido às consequências que poderiam levar ao estabelecimento do nudismo. Também a indicação de pertença religiosa ou partidária se torna, cada vez mais, num alimento do preconceito a que se pode seguir discriminação positiva ou negativa.

 

Uma consequência lógica passível de compromisso para o registo civil: substituição de todo o nome por números; seria a medida mais lógica contra o preconceito e a discriminação e o mesmo pacote legislativo teria a vantagem de unificar também o sexo. Depois poder-se-ia passar ao nome de ruas e de monumentos! Mãos à obra, trabalho não falta para os iconoclastas de uma sociedade egoísta e narcisista que só reconhece a própria imagem como ícone. Se continuamos a acção radical do neo-marxismo, a solução será irradiar a pessoa para acabarmos com as máscaras e todos os vestígios culturais.

 

Neste sentido, seria mais adequado apressar-se a abolição da linguagem e do pensamento; então encontrar-nos-íamos no paraíso terreal sem discriminações percebíveis entre todos os animais; sim, até porque na realidade não há conceito sem preconceito e aqui é que está o busílis de toda a questão! (3)

 

Conclusão

 

Fora de brincadeiras, o que aqui está em via é uma estratégia para reinterpretar o mundo e impor um discurso e uma lógica ao povo, para lá do senso comum e de maneira aldrabada; como o neo-marxismo já não tem mão sobre a economia procura tomar conta da arena pública assenhorar-se da linguagem do povo e, com ela, da sua consciência. Partem do princípio de que quem tem o poder da interpretação é senhor!

 

Tornou-se moderno ter à mão o sexo para chamar as pessoas ao regaço da ponderação moderna. Quem tiver mão nele tem mão em toda a sociedade. Assim, para quem quer poder, não há nada mais recomendável do que tornar-se senhor do sexo, servindo-se também da sexualização do género gramatical. Trata-se aqui de usar, para o público em geral, o outro pendente da sua doutrinação sexual nas escolas, nas tais aulas de “inocência” sexual para crianças ainda verdes que devem aprender a não ter preferências e assim formem uma sociedade despersonalizada sem preferências que esteja preparada para só preferir o que os que dominam a ribalta pública lhes apresentarem.

 

A sabedoria portuguesa costuma recomendar: „nem tanto ao mar nem tanto à terra” e a sabedoria europeia ensina: A virtude está no meio e não se encontra nos extremos! Relevante na discussão será ir ao encontro do Homem para que ele se ajude a poder vestir-se melhor. É certo que no uso da linguagem deveria haver mais equidade e ponderação; para levar isto avante, o melhor meio seria a arte e a cultura em geral mais que as terapias políticas de choque.

 

ACDJ-Prof. Justo-3.jpg

António da Cunha Duarte Justo

 

1. Agradeço ao BE a oportunidade que me dá para reflectir um pouco sobre um aspecto da problemática do Gender (género) tão cara ao BE e deste espalhar um pouco de nevoeiro com a minha nortada.

 

2. A lógica do género sofre de antropocentrismo em questões do trato do género gramatical não tendo em conta, animais, plantas e coisas!... Não perscrutam a injustiça no caso dos sobrecomuns, só com um género gramatical: a pessoa, a criança, a vítima, a criatura, a esquerda… Em tempos de esquisitices também não tratam bem os nomes “comuns de dois” : o/a jovem, o/a artista, o/a presidente, o/a fã, o/a turista, o/a imigrante.

 

Também os há, os nomes epicenos, com um só género gramatical, e sem diferenciação de sexos: será de obstar ao mal da cobra e do jacaré que englobam na mesma palavra o macho e a fémea; na cobra (macho ou cobra fémea) é discriminado o macho e no jacaré é discriminada a fémea.

 

Mais uma questão para os advogados do género resolverem: Nota-se grande falta de lógica do género           no emprego do masculino para a palavra tinteiro e o uso do feminino para a palavra caneta, já que, do             ponto de vista da “linguagem sexista”, o pormenor está na tinta!…

 

Na mesma ordem de ideias será de preparar uma moção para o próximo congresso do BE: A mudança do nome             “Bloco de Esquerda” para “Bloco do Esquerdo e da Esquerda” para que no partido o sexo feminino não bloqueie o         sexo masculino.

 

O uso do pleonasmo “queridos portugueses (os) e queridas portuguesas” vai ganhando terreno usando-se mais e         em deferências de cortesias pessoais mas que não fazem parte do uso gramatical

 

3. bula-se o prejuízo da discriminação baseada no preconceito da anti-discriminação!



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 13:56
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Sexta-feira, 27 de Novembro de 2015
AS RAÍZES DO MAL SOCIAL

 

Boko Haram.png

 

Porquê de tanta violência? Porquê de tanto fanatismo, pergunto-me quando vejo jovens e até crianças de armas em punho, aliciadas por gente que se diz religiosa, mas que no fundo quer é dominar o Homem através do medo e do terror à sua presença. O que faz essa juventude transviada se bandear para o lado escuro da alma humana?

 

Em geral, o que se percebe ao se ouvir os noticiários sobre o terrorismo que atinge actualmente Europa e África, é que quem executa esses actos bárbaros de violência são jovens potencialmente agressivos emergidos de ambiente ou história conflituantes, onde a sociedade de alguma maneira lhes bloqueia oportunidades ou desempenhos.

 

Procuramos entender; será que toda essa insatisfação pessoal/social encontra na violência das acções terroristas a válvula de escape, visível e contundente, que todos os dias nos jogam na cara? Será que essas criaturas encontram nas drogas ou nas promessas religiosas a recompensa de um mundo quimérico, após a morte, de sensações compensatórias que as impedem de se comunicar de uma maneira real e normal com o mundo que as cercam? Ou será que são pessoas portadoras de um desequilíbrio da função psíquica entre o ego-superego-id, onde o instinto não encontra repressão e o comportamento moral é tolhido ou simplesmente ignorado? Ou ainda será que existe nessas gentes uma conjugação de factores que, mentalmente trabalhados, se tornam veículo de manobras intimidatórias de poder de mentes doentias? Não é simples responder a tanta loucura que destrói e mata sem sentimento culpa.

 

Combater o terrorismo é uma luta inglória, pois mesmo que se acabe com este grupo que agora nos assombra, à força de armas e de retaliação responsiva, outro virá como outros no passado.

 

Combater o mal não é apenas fazer repressão à violência, com violência, é um acto diário de paciência e tolerância, diálogo, acordo e inclusão social.

 

Combater o mal social é acima de tudo respeitar o Homem nas suas múltiplas diferenças.

 

Maria Eduarda Fagundes Maria Eduarda Fagundes



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 22:56
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Domingo, 18 de Outubro de 2015
TEMÁTICAS PARA TODOS OS GOSTOS

 

 

Françoise Sagan.jpg

 

Releio livros antigos, aparentemente ligeiros, de Françoise Sagan, que, desde o seu «Bonjour tristesse», imediatamente desencadeador de escândalo e admiração, (esta última causada pela precocidade da escritora) protagonizaram um piparote nos costumes burgueses, encarcerados nos convencionalismos das chamadas hipocrisias sociais, impeditivas da transparência nas acções do foro pessoal e familiar. Estas, acondicionadas na ciência das conveniências, não impediram nunca, contudo, tantas das tais violências que uma sociedade machista possibilitou - e, ao que parece, continua a possibilitar, mau grado o travão que a defesa dos direitos humanos instituídos propõe.

 

As liberdades concedidas com o desenvolvimento cultural, as permissividades que as acompanharam, nos capítulos do feminismo, da prostituição, da homossexualidade, do desgaste das relações humanas, tudo isso perpassa sem convicção na obra de Sagan, em que, muitas vezes ela é figura principal, que encara cinicamente todas as questões morais ou amorais, na consciência da sua irrisão. Admiro-lhe, pois, o estilo, onde a psicologia se casa com o conhecimento humano resultante de experiência de vida, sem dogmas de verdades absolutas E as personagens surgem leves, sedutoras, ingénuas ou grotescas, e simultaneamente indiferentes, na sua intelectualidade que põe em causa todos os princípios da racionalidade, o ser afirmando-se superior a quaisquer princípios – caso dos irmãos suecos Sébastien e Eléonore, cínicos e belos e parasitas, tanto na comédia “Château en Suède” , como na novela “Des bleus à l’âme” traduzida em português como “Viver não custa”, em que surgem como cúmplices na procura de quem os sustente momentaneamente, aliciado pela sedução e indiferença que ambos revestem.

 

Estes e outros livros – “Aimez-vous Brahms?”, “Dans un mois, dans un an”, li-os há muito, como algo de novo que varreu concepções antigas e me ajudou a pensar, a voz da narradora, presente ou não, que se afirma na solidão irreparável da miséria humana, que as filosofias existencialistas tornaram mais percucientes. Vou-os relendo, sempre no mesmo encantamento, a “pobreza” não aparecendo entre as suas temáticas, na intelectualidade e bem-estar das sociedades que transpõe aos seus livros, desde os tempos recuados do seu “Bonjour tristesse”, no local paradisíaco da Côte d’Azur.

 

Pobreza é tema que amam os nossos escritores neo-realistas, na tristeza de uma pátria pobre e pouco intelectual, que amam os nossos deputados da esquerda com fins revestidos de uma generosidade ambígua, pobreza, o tema escolhido por Vasco Pulido Valente para a sua crónica de 11/10, clarificadora de mensagem e história. “A natureza da coisa”, assim se chama. Não mostra quanto é obscena, de facto, a pobreza, que, apesar dos tais direitos constitucionais, invade o mundo, com cada vez maior amplitude, lembrando o universo em expansão, de galáxias afastando-se. A riqueza em expansão, a pobreza em expansão. Tal o universo e as suas galáxias. Não deixa de ser obsceno, pese embora a nossa descrença nas intenções desses tais deputados da esquerda. Porque não atentam no facto de os que governaram quererem eliminar isso, tanto quanto possível.

 

Em minha humilde opinião, esses tais de que fala Vasco Pulido Valente estão ansiosos por generalizarem a pobreza a todo o país, quais galáxias expandindo-se no espaço.

 

Berta Brás 2.jpg Berta Brás

 

A natureza da coisa

Vasco Pulido Valente.png Vasco Pulido Valente

Público, 11/10/2015

 

A pobreza foi descoberta pelos filhos da burguesia no século XIX. Até ali não era visível, como hoje ainda em grande parte não é, ou era considerada uma característica geral da criminalidade.

 

Foi já em 1958 que o historiador Louis Chevalier escreveu um livro em que distinguia as “classes laboriosas” das “classes criminosas” e explicou ao mundo essa particular cegueira da civilização ocidental. Houve, evidentemente, desde o princípio da Restauração dos Bourbons (1815-1830) uma espécie de literatura que explorava o equívoco entre o “povo” bom e o “povo” mau, que a gente “com qualquer coisinha de seu” lia com delícia, cujo exemplo mais conhecido é “Os Mistérios de Paris” de Eugène Sue, mil vezes copiado e recopiado, mesmo por Vítor Hugo na obra épica “Os Miseráveis”, que continua a ser na forma de opereta ou na forma de filme um sucesso contemporâneo.

 

No século XIX descobrir a pobreza (como descobrir o sexo) mudou a vida a muita gente. Não só essa estranha revelação abria o caminho para a idade adulta e para a cidadania, mas porque o adolescente “rico” se sentia por uma vez parte da humanidade e frequentemente com a missão de a reformar. Claro que primeiro vinham os sentimentos: a indignação, a fúria, a tristeza, o ódio por uma sociedade que permitia aquela atroz miséria. Mas, com o tempo, esses sentimentos cristalizavam numa vontade de acção: ou se trepava para uma barricada ou se escreviam utopias “socialistas”, para inquietar os poderes do dia e aliviar os remorsos. E aqui nesta luta pela transformação do mundo, que se achava radical e definitiva, nasceu um equívoco perene.

 

Do genuíno sofrimento pela pobreza não derivam conclusões seguras sobre a natureza da história ou sobre o regime em que a humanidade deve viver. Pelo contrário, o sofrimento leva quase sempre a ideias que não têm um uso prático ou a planos que escondem ou ignoram a realidade. Basta ver a nossa extrema-esquerda. Não nego que andem por lá pessoas bem-intencionadas. Sucede que a noção de que os sentimentos chegam para reformar a sociedade e o fanatismo em que a acção de costume se perde e se transforma podem quanto muito produzir alguma destruição sem nexo, não podem mudar nada duradouramente. Não por acaso a extrema-esquerda (de qualquer pinta ou nascimento) se parece toda com uma igreja, com o seu zelo e o seu ódio teológico. São pássaros da mesma pena.

 

 

 

 



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 12:53
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Terça-feira, 1 de Setembro de 2015
MISÉRIA ENVERGONHADA

 

Banco Alimentar.png

 

 

Uma das tónicas das campanhas demolidoras a que os noticiários já nos habituaram é a da miséria envergonhada e nós, ouvintes ou telespectadores, cá estamos, passivos, a tomar em conta tudo o que nesses oragos as pitonisas de ambos os sexos propalam. As misérias envergonhadas acontecem sobretudo naqueles que, até recentemente auto-sustentados, foram entretanto atacados por problemas de sobrevivência e envergonhadamente recorrem à caridade. E por que é que tal aconteceu? Porque estávamos a viver na mentira, os balões de oxigénio rebentaram e claudicaram os que não estavam preparados para a verdade.

 

Dito assim, com esta rudeza, até parece que estou a querer obter audiências como afanosamente fazem os jornalistas. Mas há modos menos grosseiros de dizer o mesmo, não procurando aplausos nem picos de audiência.

 

Recorrendo ao «economês», poderá dizer-se que o modelo de desenvolvimento baseado no consumo falhou e está agora a instalar-se um novo modelo baseado na produção de bens transaccionáveis. Mas, entretanto, a elasticidade da mão-de-obra não é suficiente para que os empregados nas empresas «viciosas» do velho modelo migrem directamente para as «virtuosas» do novo modelo; o desemprego aumenta e as novas situações de desamparo tentam passar despercebidas.

 

Recorrendo a linguagem mais sintética, dir-se-ia que, num modelo, a dívida infinita de cada um perante uma acolhedora sociedade envolvente define um dever absoluto que molda o comportamento individual e garante a homogeneidade social; por contraste, quando o bem se resume aos prazeres e ao útil, o egocentrismo privilegia-se e vinga o «sauve qui peut». Porque o que está em causa é a fricção entre o modelo moralista e o do pós-dever, o do dever perante o bem comum e o individualismo egoísta, do hedonismo e do desprendimento de toda e qualquer definição ética.

 

Baixando aos cenários noticiosos, eis o contraste entre a democracia cristã segundo a filha de um Pastor luterano criada na rude escassez comunista e o socialismo ocidental que floresceu na abundância materialista e que agora, exaurida a espiral consumista, cai na insustentabilidade por via da falência pura.

 

Numa época de ruptura do modelo hedonista em que o endividamento das famílias ultrapassara todos os limites definidos pela razoabilidade, em que mais valia ter do que ser e em que no futuro da despesa pública vingava o slogan «os ricos que paguem a crise», a solidariedade orçamental na União, afinal, não passava duma falácia dos propagandistas. E as dívidas devem agora ser pagas por cada devedor seja ele micro ou macro.

 

Tudo ficou assim subjugado ao pontual cumprimento do serviço das dívidas públicas de cada Estado e privadas de cada falido, sob pena de brusca cessação das ajudas externas entretanto obtidas e da ilusão criada pelos políticos adventistas do paraíso na Terra. E mais: no ponto a que se tinha chegado, a alternativa à austeridade seria o racionamento. Mas isso é uma evidência que os demagogos escondem dos seus eleitores.

 

Então, as mudanças estruturais trazem à evidência o engano que reinava pela mão de quem apregoava que o consumo gerava riqueza e os novos pobres têm agora vergonha das mentiras em que se tinham deixado cair. Mas os telejornais encarregam-se de evidenciar estas novas aflições cumprindo a saga que se auto-outorgaram de relatarem exaustivamente a objectividade dos factos eximindo-se a qualquer juízo moral. E os novos pobres são incentivados a ultrapassarem a vergonha e a gritarem contra os «maus da fita», os credores.

 

Será este o estertor do espectáculo pós-moralista e o anúncio duma nova ética do dever, mesmo que light? Não se trata duma aporia, apenas chegou a hora da verdade.

 

Eis a guerra em que todos hoje participamos e em que cada um é livre de escolher a sua própria barricada, a da verdade ou a outra.

 

Agosto de 2015

 

Eu, Barril-8AGO15-2.jpg

 Henrique Salles da Fonseca



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 00:06
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