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A bem da Nação

ADIVINHOS E PROFETAS

Todos queremos mais do que temos e eu, entre outras queixas, tenho a de que na minha putativa longevidade não conseguirei encaixar tudo o que gostaria de estudar - por exemplo, aquela obra em dois tomos de Karl Popper “A sociedade aberta e os seus inimigos”. Já estive com ela várias vezes na mão mas são dois tomos e… afasto-me do escaparate às arrecuas.

Contudo, de forma totalmente inesperada, foi Raymond Aron que a págs. 116 da edição portuguesa das suas “Memórias” me facilitou a vida transcrevendo uma passagem do dito livro, logo da terceira página do primeiro tomo, em que Popper resume o que se propõe fazer com a dita obra: Este livro tenta mostrar que a sabedoria profética é nociva, que a metafísica da História obsta à aplicação do método científico, elemento por elemento, aos problemas das reformas sociais. E esforça-se também por mostrar como podemos tornar-nos fazedores do nosso destino quando pararmos de nos arrogar o papel de profetas.

Pela informação de Aron se fica a saber que Popper se referia com erudição ao falhanço já então previsível da profecia a que há quem chame o determinismo histórico marxista e nós, testemunhas da queda do muro de Berlim e do colapso da URSS, sem erudição, podemos afirmar que Marx foi, afinal, um adivinho que não acertou.

Julho de 2019

Henrique Salles da Fonseca

NEM NOS TEMPOS ESCATOLÓGICOS

 

Quod erat demonstrandum - Assim estava em demonstração – eis a expressão latina com que os matemáticos concluem as demonstrações e eis o que os engenheiros japoneses fizeram demonstrando que as estruturas flexíveis resistem melhor aos tremores de terra do que as rígidas que, vibrando, não se adaptam, racham e ruem. Por isso começaram por construir em madeira e bambu e nos tempos modernos inventaram sistemas que «encaixam» as vibrações a que aquela instável condição telúrica os sujeita.

 

Isto, tanto na engenharia civil como nas ciências sociais: um modelo social rígido, ao adaptar-se, deixa de ser esse modelo e passa a ser outro, o que politicamente pode ser complicado; um modelo flexível, ao adaptar-se, continua a ser isso mesmo, flexível.

 

Um modelo social rígido tem, pois, a característica fundamental para se transformar num drama político; um modelo social flexível, ao adaptar-se, demonstra a sua própria essência, a da adaptação; o que para o rígido é questão de morte, para o flexível é razão de vida.

 

lenin-marx-engels.jpg

 

Então, segundo o determinismo histórico de Marx, o capitalismo burguês nasceu a partir das contradições do sistema feudal e a burguesia, ao criar a sua oposição, o operariado, engendrou também o seu futuro extermínio cavando a sua própria cova.

 

Premissa correcta, prognóstico errado como historicamente se viu em 1989.

 

O modelo social rígido erigido pelos soviéticos na sequência da adopção da doutrina marxista não foi capaz de se adaptar às exigências da vida moderna e ao stress provocado pela «guerra das estrelas», vibrou, rachou e ruiu. Morreu em quase toda a parte, só sobrevive nas ditaduras que desprezam o humanismo e assentam no materialismo benéfico das respectivas nomenklaturas. E, mesmo essas «peças de Museu», têm, elas também, um determinismo histórico que as aguarda - creio que não na gloriosa falácia histórica conclusiva marxista mas sim no entulho social a que conduz os respectivos súbditos.

 

Em compensação, o modelo social flexível adoptado pelo Ocidente já hoje nada tem a ver com o capitalismo que no séc. XIX revoltou Marx, autocriticou-se, corrigiu-se e persiste num modo sempre flexível, alerta, autocrítico: criou e deixou criar instituições de segurança social, tributou, distribuiu, não se autofagiou.

 

Quod erat demonstrandum, modelos rígidos são perniciosos e mesmo perversos tanto em engenharia como na sociedade.

 

E quanto ao determinismo histórico marxista, cada vez mais me convenço de que nem nos tempos escatológicos e muito menos aquando da parúsia.

 

Abril de 2019

 

31DEZ18-Estocolmo.jpg

Henrique Salles da Fonseca

BIBLIOGRAFIA:

Wikipédia – determinismo histórico de Marx-Engels

AMNISTIA INTERNACIONAL

AMNESTY INDIA.jpg

 

A denúncia é internacional contra a limitação da liberdade de acção da Amnesty India por parte das Autoridades indianas.

 

Camuflada de nacionalismo, a proibição de as ONG’s operando na Índia se financiarem no estrangeiro e se deverem limitar aos financiamentos indianos. E como os financiamentos privados internos são extremamente escassos, a acção das ONG’s só se torna eficaz com o financiamento público. Então, todas aquelas que critiquem as Autoridades indianas, não recebem financiamento público e aproximam-se da extinção ou, pelo menos, da ineficácia.

 

Eis como o Governo Indiano castra muitas das vozes que se lhe opõem.

 

E por que é que se lhe opõem?

 

No caso da Amnesty India, porque denunciam os atropelos aos Direitos Humanos, prática muito mais vulgar na Índia do que a comunicação social deixa transparecer. Prática essa exercida tanto a nível das Autoridades centrais como das estaduais uma vez que tanto Delhi como muitos Estados da União são governados pelo mesmo Partido, esse para quem os Direitos Humanos parece terem que seguir um padrão que se molde aos interesses da nomenklatura no Poder.

 

Sim, em Portugal a Amnistia Internacional actua em total liberdade e também é por isso que eu prefiro ser cidadão duma pequena democracia que se constrói diariamente do que da «maior democracia do mundo» que se avilta a todo o momento.

 

Fevereiro de 2019

Tamil Nadu.png

Henrique Salles da Fonseca

(no Tamil Nadu, Maio de 2017)

Publicado também no «NIZ GOENKAR», Fevereiro de 2019

 

 

DA LIDERANÇA

 

Não se lidera batendo nas pessoas. Qualquer idiota o pode fazer e isso é 'assalto' e não 'liderança'. Liderança é persuasão, conciliação, educação e paciência. É um trabalho longo, lento e difícil.

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Dwight D. Eisenhower

* * *

Eu não tenho medo de um exército de leões liderado por uma ovelha; Eu tenho medo de um exército de ovelhas liderado por um leão.

Frase atribuída a

Alexandre o Grande.jpg

Alexandre o Grande

DEMOCRACIA E DOCILIDADE

 «Há que manter as pessoas amedrontadas e desmoralizadas para que fiquem mansas»

 

SNS.jpg

 

Foi numa entrevista que um súbdito britânico concedeu a um cidadão americano sobre as vantagens do Serviço Nacional de Saúde que ouvi esta frase mas, apesar de não se tratar do ponto fulcral da entrevista, foi nela que me fixei.

 

Para poder passar rapidamente ao que mais me interessa, despacho já a questão do SNS: a entrevista tinha como objectivo reunir argumentos em defesa do Obamacare contra a decisão do seu desmantelamento por Trump.

 

Então, o entrevistado lembrou que foi num período de grande solidariedade nacional que o Governo Britânico avançou para a criação do SNS, em 1948, depois dos horrores por que haviam passado durante a «batalha de Inglaterra». E resumiu os raciocínios de um modo bem curioso: «Então, quando estávamos falidos, arranjámos dinheiro para matar quem nos atacava e agora (1948), não arranjávamos dinheiro para tratar dos nossos?»

 

Foi, pois, a solidariedade nacional que levou os britânicos a tratarem de si próprios em vez de ficarem à espera de que alguém viesse de fora (seguradoras e outras entidades do género) tratar-lhes das feridas ainda muito evidentes e muito extensas. E, para além da solidariedade, tudo se fez no âmbito duma grande motivação e em plena democracia.

 

Eis o grande contraste com o que, entretanto, trama a «mão invisível» que, à boa maneira de Júlio César e de Maquiavel, «divide para governar». E daí vem a frase que retive e acima transcrevo cujas consequências têm tudo a ver com desmotivação, desinteresse, abstenção.

 

Sim, há quem pense ser muito mais fácil governar quem tenha medo, ande desmoralizado, desmotivado e se abstenha de participar em qualquer tema de interesse colectivo. Parece mesmo haver a intenção de constituir a discussão sobre o bem-comum em tabu inultrapassável quando, essa sim, deveria impor-se a todas as demais discussões.

 

Basta assistir a um telejornal para constatarmos que «aquele roubou», «aquela assassinou», «amanhã há raios e coriscos», «o mar estará bravo», «um estudo diz que comer feijão provoca miopia e caspa», etc. sempre a semear a ansiedade e a distrair o cidadão de temas que possam cultivar valores positivos. Para não referir a alienação futebolística, essa doença gravíssima que, para além do mais, se mistura com corrupção.

 

Já Karl Popper dizia que a televisão é a grande inimiga da democracia.

 

O desvirtuamento da democracia que passou a estar associada às hordas de abúlicos que só despertam quando uns quantos envergam coletes amarelos.

 

Dezembro de 2018

IMG_1020.JPG

Henrique Salles da Fonseca

(no Amazonas, Abril de 2016)

 

BIBLIOGRAFIA:

«TELEVISÃO: UM PERIGO PARA A DEMOCRACIA», Karl Popper – John Condry, ed. Gradiva, Fevereiro de 2007

CAÍDOS NO POPULISMO

REVENDO CAMUS E NIETZSCHE

Friedrich Nietzsche (1844 —1900)

«Uma vez que o velho Deus abdicou, governarei o mundo doravante»

- assim apregoava Nietzsche, o pai do niilismo.

 

A era niilista manifestou-se muito antes do que o filósofo imaginara: catorze anos depois da sua morte iniciou-se a Primeira Guerra Mundial e depois dela a Europa ficou nas garras do fascismo, do comunismo e do nazismo. E pouco tempo depois da primeira, sofreu outra guerra pior ainda que a anterior.

 

Desprezada a Civilização no que ela continha de valores perenes dando corpo à dignidade humana, a violência triunfou sobre a verdade e sobre a bondade. Dezenas de milhões de vidas foram aniquiladas sob o aplauso de dezenas de milhões de admiradores da violência. Sim, porque o niilismo só pode conduzir à ditadura, à violência e à aniquilação.

 

E como começou ele?

 

Perante o igualitarismo, todos têm razão, a ninguém é reconhecido o estatuto de sábio e tudo o que se apresente difícil é considerado antidemocrático; morto o conceito de que «o peso material determina o valor do oiro e o peso moral determina o valor do homem», a matéria reina e o dinheiro é a divindade suprema. Moral? A cada um, a sua.

 

- O que é bom para o oiro é bom para ti! Comercializa-te, adapta-te! Tudo o que te torna mais rico é útil; o que não for divertido é inútil e pode desaparecer.

 

Cada um que se valha a si próprio e os outros que «se virem» se conseguirem e, se não, tanto melhor pois mais fica para o vencedor entesourar.

 

Eis um conjunto de indivíduos que tudo fazem para vingar individualmente em prejuízo do próximo. A inveja ganha adeptos. Só que isto não é uma sociedade e muito menos uma Civilização. E onde não há coesão social, todos se sentem desamparados. Mas o desamparo é desconfortável. O desconforto gera a queixa e sempre acaba por conduzir à busca de soluções para se regressar a alguma situação assemelhável a conforto.

 

Assim se reúnem os ingredientes suficientes para que apareça um caudilho com promessas cujos méritos os desamparados não querem sequer questionar. E a ditadura, sempre radical, gera a violência e esta é a destruição.

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Albert Camus (Argélia, 1913 — França, 1960)

 

Foi depois de muita desgraça que na tarde de 29 de Outubro de 1946, Albert Camus perguntou ao anfitrião André Malraux e ao grupo de outros convidados em que se destacava Jean-Paul Sartre – todos nascidos no niilismo e no materialismo histórico - se não achavam serem eles próprios, naquela sala, os maiores responsáveis pela falta de valores na Europa ocidental e se não estaria na hora de declararem abertamente que estavam errados, que os valores morais existem realmente e que doravante tudo fariam para restabelecer e clarificar esses princípios perenes e quiçá eternos. «Não acham que seria o princípio para o regresso de alguma esperança?»

 

E hoje?

Ah!, hoje, a História é a mesma que há muito Camus descreveu.

 

SET18.JPG

Henrique Salles da Fonseca

 

 

BIBLIOGRAFIA:

Riemen, Rob – NOBREZA DE ESPÍRITO, UM IDEAL ESQUECIDO, Bizâncio, Lisboa, Abril 2011

Judt, Tony – O PESO DA RESPONSABILIDADE (Blum, Camus, Aron e o séc. XX francês), Edições 70, Maio de 2018

 

 

ECCE POPULISMUS – 5

 

ABAIXO O FASCISMO!

 

Fascismo de esquerda ou de direita é coisa horrível mas o populismo é um poderoso mecanismo de integração de toda a gente na vida política - uns como apoiantes e outros como críticos mas todos por claras motivações.

 

O populismo nasce por reacção contra uma sociedade cristalizada e, portanto, tem uma essência revolucionária independentemente de se tratar de bonapartismo esquerdino ou de direita.

 

O sistema de Partidos definidos numa base doutrinária cujas lideranças são democraticamente eleitas dentre um conjunto coeso de eleitores, é posto em causa pelo culto da personalidade de um caudilho com mais ou menos carisma que facilmente se pode transformar em ditador. A História está recheada de exemplos e como todos os meus leitores bem sabem, houve-os de esquerda e de direita mas todos obviamente fascistas.

Dino Grandi.jpg

E recordo as palavras atribuídas a Dino Grandi (Presidente do Grande Conselho Fascista e Ministro dos Negócios Estrangeiros do populista Mussolini) quando terá definido que «Fascismo é a prática do improviso resultante da prodigiosa imaginação do Duce».

 

Eis por que creio prudente pormos travão ao populismo seja ele de esquerda ou de direita e, para reforço do sistema partidário tradicional, tudo fazermos com vista ao regresso às respectivas bases doutrinárias em vez de quase todos os Partidos praticarem uma mesma política e apenas se distinguirem pelos interesses pessoais dos seus membros mais influentes. É que o caudilhismo dá asneira com muita probabilidade quer ele nos chegue pela esquerda como pela direita.

 

FIM

 

Outubro de 2018Holanda-JAN18.JPG

Henrique Salles da Fonseca

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