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A bem da Nação

EFEITOS DO CICLONE IDAI

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ENG. MORENO FERREIRA

QUEM É E O QUE DIZ

 

Para além de portos, pontes, igrejas e edifícios de habitação, o Eng. Marcelo Moreno Ferreira, projectou e executou nas décadas de 1950/1970 em Moçambique grandes obras de engenharia, algumas delas hoje ícones nacionais moçambicanos como é o caso da famosa ESTAÇÃO DOS CAMINHOS DE FERRO DA BEIRA.

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Duas obras suas constam da publicação da Ordem dos Engenheiros "100 obras da Engenharia Portuguesa no século XX".

 

* * *

 

Das condições actuais da Beira e sua envolvente:

  • Foi por decisão de Marcelino dos Santos que, por receio de ataques inimigos, se destruiu o mangal na zona da Praia Nova, se autorizou a construção de casas (precárias) onde era o mangal e na própria Praia Nova, encerrando um curso de água;

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Zona destruída associada ao ciclone Idai

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A Praia Nova invadida por habitações (foto pós Idai)

  • Antes da independência, a municipalidade ia gradualmente eliminando os bairros degradados em redor da cidade;
  • À altura da independência, o sistema de saneamento da Beira era dos mais modernos de Moçambique.

 

Sobre se os esporões ao longo da praia na Beira foram construídos naquela posição (oblíqua) para conter as areias face à corrente do Rio Pungue no tempo das cheias, ficámos a saber que a corrente que faz o transporte das areias é chamada de deriva litoral. Na Beira ocorre de NE para SE, por isso a maioria dos esporões entre o Macuti e a Ponta Gea estão assim orientados para conter as areias dessa deriva. A areia que alimenta este troço costeiro da Beira vem do Rio Zambeze, a 300 km de distância.

 

As descargas do Rio Buzi não influenciam a erosão na praia da Beira.

 

Quando a amplitude das marés específicas da costa moçambicana é de cerca de 7 metros (na costa angolana é de cerca de 4 metros), provoca movimentações de grandes volumes de água e por certo que também influencia a erosão ao longo da praia. Que sim, a Beira tem as maiores marés de todo o continente Africano, em 25 mil km de costa, a grande amplitude de marés na Beira provoca vários efeitos na costa.

 

(NOTA – desde a Foz do Rovuma à Ponta do Ouro, a costa moçambicana tem cerca de 2770 kms)

 

A Praia Nova foi criada no final dos anos 60 para receber a areia das dragagens do canal de acesso ao porto e armazenar areia para posteriormente servir para fazer aterros na cidade bem como o prolongamento dos cais no porto, assim reforçando a função dos esporões sem interferir com o mangal. Os excedentes das dragagens eram vendidos para aterro e para a construção (fabrico de betão, etc.).

 

* * *

 

E a questão é: - E que tal chamar gente sabedora em vez de deixarem as decisões aos políticos ou a técnicos que desconhecem o local?

 

Abril de 2019

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Henrique Salles da Fonseca

POETA ESQUECIDO

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(1909–1943), o precursor da moderna poesia moçambicana, conhecido pelos seus sonetos

 

SURGE ET AMBULA (Levanta-te e anda)

 

Dormes! e o mundo marcha, ó pátria do mistério.

Dormes! E o mundo avança, o tempo vai seguindo…

O progresso caminha ao alto de um hemisfério

E no outro tu dormes o sono teu infindo…

 

A selva faz de ti sinistro eremitério,

onde sozinha, à noite, a fera anda rugindo.

A terra e a escuridão têm aqui o seu império

E tu, ao tempo alheia, ó África, dormindo…

 

Desperta. Já no alto adejam negros corvos

Ansiosos de cair e de beber aos sorvos

Teu sangue ainda quente, em carne de sonâmbula…

 

Desperta. O teu dormir já foi mais que terreno…

Ouve a voz do Progresso, este outro Nazareno

Que a mão te estende e diz – “África, surge et ambula”.

 

(Ruy de NORONHA, Sonetos, s/d [1943], In FERREIRA, Manuel - «No Reino de Caliban III», Lisboa, Plátano Editora,1984, p. 37)

 

 

ESTRATÉGIA ISLÂMICA

 

 

Os clérigos muçulmanos mais radicais decidiram que toda a África oriental, incluindo Madagáscar, deverá ser muçulmana num prazo tão curto quanto possível. Se necessário, aterrorizando as populações não muçulmanas.

 

As imagens que seguem foram-me enviadas de Moçambique tendo sido captadas durante o mês de Junho de 2018 em Cabo Delgado:

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Seria de esperar uma reacção rápida das Autoridades moçambicanas mas, até ao momento, as tropas continuam aquarteladas ou a guerrear a Renamo na zona da Gorongosa.

 

E a primeira pergunta é: será que as Autoridades moçambicanas concordam com esta estratégia dos clérigos muçulmanos?

 

A segunda pergunta é: será que o Exército da Frelimo tem medo de ir a Cabo Delgado?

 

A terceira e última pergunta: será que a autoridade do Estado Moçambicano se estende mesmo até às fronteiras internacionalmente reconhecidas?

 

Quem souber que responda…

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Henrique Salles da Fonseca

AS MEDALHAS QUE NÃO TIVE

 

 

 

 

O peito do herói soviético é um autêntico mar de medalhas. Deve-as tanto ao número de nazis ou chechenos que abateu nas guerras como ao modo eficaz que praticou ao varrer a parada do quartel ou à poupança registada no consumo do desinfectante dos urinóis do Metro de Moscovo. Recitar um poema de louvor ao camarada Secretário-geral do Soviete Supremo também era motivo para a condecoração do jovem Pioneiro da revolução socialista e a prática louvaminheira da hierarquia também ia sendo motivo para o soviético julgar que era herói só pela acumulação de medalhas que ia pendurando do pescoço à cintura passando por tudo quanto era peito.

 

Só o acto eminente merece destaque; o desempenho cuidadoso da vulgar missão é obrigação funcional e o desleixo é punível. A banalização da condecoração destrói a essência do realce e só se justificava num regime político e económico, o soviético, que nada mais tinha para dar a não ser a flatulência condecorativa.

 

Também nós, portugueses, estivemos quase a cair na “condecoratite” pois bastava ao militar em comissão no Ultramar não ser punido para ter automaticamente direito a uma medalha. E tanto fazia que se tratasse de operacional no mato em zona de combate como de administrativo em zona urbana sossegada e com turistas à volta. Saindo à Ordem da Região Militar que fulano ou beltrano cumprira a comissão de serviço sem punições, era-lhe automaticamente conferida a condecoração. Contudo, a medalha teria que ser comprada pelo condecorado.

 

Chegado aos 18 anos lá fui “dar o nome à tropa” e de então em diante lá fui todos os anos informando o Distrito de Recrutamento de que cumprira os estudos com aproveitamento, assim me sendo conferido o adiamento legal de incorporação nas fileiras. Até que cheguei ao fim do curso e me considerei em condições para “ir pr’à tropa”. Que não, que tinham economistas a mais.

 

- Então você não tem mais nada que fazer? - perguntou-me o Sargento lá de trás do guichet - Venha cá pr’ó ano!

- Muito bem, venho cá pr’ó ano mas, já agora, diga-me cá em que época é que é melhor eu cá vir.

- Olhe: vamos já tratar disso. Você nem cá volta ao Distrito de Recrutamento e vai directamente apresentar-se em Mafra na incorporação de Abril do ano que vem.

 

E assim foi que fiquei um ano em pseudo-férias ou em pseudo-trabalho (passados quase 40 anos continuo sem saber classificar aquele meu ano de espera) pois passei por uma empresa a que a família estava ligada mas montei a cavalo todos os dias e voltei à ginástica até que... lá fui “assentar praça” em Mafra.

 

Assim, contei até aqui sete actos voluntários de ingresso no Serviço Militar: dar o nome; confirmar o fim dos cinco adiamentos; apresentar-me no quartel para a recruta.

 

Não fora o caso de ter engordado cinco quilos durante o primeiro ciclo da recruta e nada de especial haveria para contar, a não ser o facto de ter estado na iminência de ser encaminhado para Infantaria a fim de frequentar o Curso de Comandantes de Companhia e passar a desempenhar as funções de Capitão daquela Arma. Mas à última hora, os Comandos decidiram que os economistas poderíamos optar entre o desempenho das funções de subalternos em Administração Militar (Contabilidade e Pagadoría) ou de Capitães de Infantaria.

 

Eis como todos os estudiosos de Adam Smith e Milton Friedman seguimos direitinhos para o segundo ciclo da recruta na Escola Prática de Administração Militar.

 

Se considerarmos cada regresso de fim-de-semana ao quartel (11, no primeiro ciclo da recruta) como um acto voluntário de construção do Mundo Lusófono, somo 18 até aqui, mais outros 11 durante o segundo ciclo da recruta e ainda mais 11 durante o estágio. Tudo, somando 40 vezes que concordei cumprir o Serviço Militar Obrigatório. E depois desta enorme quantidade de actos voluntários, eis-me mobilizado em rendição individual para Moçambique, terra que há muito ambicionava visitar.

 

Já ia no avião quando um companheiro de viagem me disse que nós, os de Contabilidade e Pagadoría, só tínhamos em Moçambique como colocações possíveis Nampula, Beira ou Lourenço Marques pois os Conselhos Administrativos das Unidades militares espalhadas pela quadrícula tinham sido extintos e a gestão fazia-se conjuntamente nos respectivos Comandos Territoriais. Assim foi que fiquei a saber que iria para uma cidade e não para o mato.

 

Como todos os que iam em rendição individual, fui ao Quartel-general em Nampula – capital militar de Moçambique – receber colocação e . . . fui colocado em Lourenço Marques. Bem sei que “a sorte protege os audazes” (1) mas a minha audácia ainda estava totalmente por provar.

 

Chegado a Lourenço Marques, fui colocado na Comissão de Apoio à Liquidação e Extinção dos Conselhos Administrativos a qual ocupava uma “flat” no bairro militar, mesmo junto ao Clube Militar que, por sua vez, se situava perto da Polana, zona chique da cidade.

 

Faço desde já notar que a documentação a classificar tinha certamente sido colocada na referida casa em conformidade com um processo muito expedito sob o ponto de vista logístico mas algo problemático na perspectiva administrativa: transportada a granel e despejada à pasada.

 

Não será necessário explicar por que é que nesta posição geográfica não utilizei arma de fogo mas o armamento químico a que recorri na primeira missão militar de que fui incumbido em Moçambique destinava-se a exterminar pretos rastejantes e saltitantes, dava pelo nome de “Dum-Dum” e com ele nos íamos libertando de baratas e pulgas.

 

Mas ao fim de três esforçados meses de relativamente pouca classificação documental, muito extermínio químico de elementos indesejáveis e com inesquecível convívio social militar e civil, eis que sou recambiado para o Quartel-general em Nampula no âmbito duma determinação de ali juntar todos os economistas em serviço militar.

 

Colocado na Chefia de Administração e Orçamento, integrei-me de imediato num grupo bem divertido de militares e raparigas (filhas de militares mais velhos que nós), comprávamos três filas do cinema e esgotávamos a capacidade hoteleira quando íamos à Ilha de Moçambique. O serviço era cumprido com a maior normalidade, sem esforço nem sequelas mas com um grande sentido de responsabilidade perante os que, no mato, garantiam o nosso conforto. E se nas horas vagas contribuíamos para que Nampula tivesse um pequeno ensaio de cosmopolitismo, isso era muito positivo para os operacionais que vinham à cidade descansar. Dentre nós, havia os que à noite davam aulas no liceu, os que colaboravam nas missões da Igreja e os que participávamos nas múltiplas actividades da sociedade civil, todos vivendo e deixando viver num espírito de missão histórica a que não conhecíamos o ponto de chegada mas que muito nos fez pensar quando acabou a guerra no Vietname: «Agora foram os americanos; os próximos somos nós» – e fomos mesmo!

 

Muitas foram as histórias que por lá tivemos mas a que mais carinhosamente recordo é a da minha dactilógrafa Claudina, nada e criada em Nampula, miscelânea de sangues macua e goês, a quem nunca fui capaz de convencer de que em Lisboa havia um comboio que circulava debaixo do chão: - Ah! O Senhor Alferes está a brincar comigo.

 

No seu percurso de casa para o escritório (oficialmente era um quartel mas de facto tratava-se de um prédio de escritórios), a Claudina encurtava caminho pela floresta de cajueiros mas depois de almoço não resistia a estender o braço e colher um ou dois frutos. Só que aquele fruto fermenta mesmo a sério quando comido assim em fresco e vai daí que a nossa amiga chegava ao serviço sempre com “um grãozinho na asa”. Era por essa hora que lhe apetecia dançar e vai daí tínhamos que lhe fazer a vontade mas púnhamos o Ázito, o soldado que fazia de contínuo da Chefia, de plantão à escada para nos prevenir da chegada do Coronel. Nunca fomos apanhados a dançar, nunca ninguém faltou ao respeito a ninguém e sempre fomos convidados para os casamentos e baptizados que iam ocorrendo entre o pessoal civil autóctone da cidade e suas redondezas. Quando era hora de trabalhar, trabalhava-se; quando havia menos pressão, podíamos descontrair. Fui fiador de um escriturário que precisava de um pequeno empréstimo bancário para fazer um telhado de zinco na sua casa nova. É claro que fui ao festim de inauguração da casa e ele pagou o empréstimo na íntegra antes da minha saída de Nampula. Gente séria nota-se à distância. Chamava-se Boaventura e tinha acabado de casar quando o conheci.

 

Foi ele que me indicou o Faria Dois Mil, famoso ourives que derretia as moedas de dez Escudos para fazer pulseiras e brincos. Deixava-nos assistir ao trabalho quase todo mas a dada altura voltava-nos as costas com um pedido de desculpas dizendo – Agora tem esperteza, meu Alferes não podes ver. E é claro que o Alferes, eu, nada fazia para ver, estava lá para comprar pulseiras e brincos para a namorada de circunstância e ainda hoje estou convencido de que se visse o que ele escondia não havia de perceber onde podia estar o segredo a que ele chamava “esperteza”.

 

Sentadas, da direita para a esquerda, a D. Glória cujo apelido esqueci e assessorava o Carlos Traguelho, a minha assessora Pedrina Pinto, a  «dançarina» Claudina e uma Senhora que já não identifico; nos militares, também a partir da direita, o 1º é o António Seruca Salgado, o 2º sou eu (não, não estou metido num buraco, sou mesmo mais baixo que os outros), o 3º é o Carlos Prieto Traguelho, todos Alferes Milicianos, a que se segue o nosso Comandante José Giro que então era Major, a seguir está o Capitão Melo, o Alf. Mil. Delmiro Carreira e o Sargento Ajudante de que também esqueci o nome; na varanda e sempre a contar da direita, começamos pelo famoso João Lacerda mas depois só identifico o 3º que é o Boaventura.

 

Um dia houve um forasteiro que, entre outras originalidades, terá limpado os sapatos à toalha das mãos e o funcionário da limpeza, que pomposamente se chamava João Lacerda, colou no autoclismo um escrito que rezava assim:

 

“É favor que não dêtas pabel zenigo nosão nem limpas zabato gom tualha”

 

No 14 de Julho de 1972 saí de Nampula no meu carro com destino a Lourenço Marques – para onde fora novamente transferido – fazendo-me acompanhar de dois amigos, o António Sousa Pires e o Miguel Lory. Tive despedida especialmente organizada por esses “nampulitanos” por quem criei amizade, organizou-se cortejo de carros até ao limite da cidade para nos desejarem boa viagem e houve alguma emoção na despedida final.

 

O meu revólver fez a viagem dentro duma mala e as balas noutra mala, ambas no porta-bagagens. Guerra? Mentira! (2)

 

Ao fim destes anos todos, que será feito da Claudina, do Boaventura e do João Lacerda? Terão sobrevivido ao comunismo? Temo que o cilindro revolucionário tenha feito das suas . . .

 

Passados trinta anos, voltei a Moçambique mas fiquei-me pelo sul e não fui a Nampula. Da próxima vez que lá voltar, hei-de procurá-los mas eventualmente terei que me limitar a encomendá-los. E não haverá por certo qualquer confusão uma vez que os macuas estão muito islamizados e o Allah deles é o nosso Deus: no acto da encomendação, é só uma questão de nome e de ritos. Mas irei à procura deles, ai isso é que vou!

 

Chegado a Lourenço Marques, passei a desempenhar as funções de Tesoureiro do Quartel-general do Comando Territorial do Sul e assim acabei a comissão de serviço na Região Militar de Moçambique: sem actos heróicos nem punições.

 

Duvido que a máquina militar tenha tido grandes ganhos com esta minha missão; limitou-se a ter algum controle orçamental e a ter quem pagasse alguns compromissos. Mas eu ganhei imenso em mundividência, em humanidade, em experiência.

 

Onde está o motivo para a condecoração a que por lei tive direito? Fiz a tropa porque quis; não fui operacional; na vida estritamente militar, nada mais fiz do que o que me cumpria – mas reconheço que o fiz empenhadamente e as punições eram tão raras que a sua ausência não se fazia notar.

 

Por todos estes motivos, entendo que se me dispusesse a receber as medalhas das Campanhas de 1971, 1972 e 1973 em Moçambique, isso seria uma afronta aos operacionais que garantiram o conforto de que usufrui. Por esse mesmo tipo de razões, não me sinto com direito a ombrear com os verdadeiros ex-combatentes nas comemorações do 10 de Junho. A eles, toda a honra.

 

Eis, portanto, as medalhas que não tive.

 

Por isso comprei agora a cópia em miniatura da da Ordem de Cristo editada por um jornal de Lisboa em colaboração com o Museu de Presidência. Como a condecoração verdadeira nunca me foi conferida, comprei a cópia sem a mais leve hipótese de impostura.

 

 

Tavira, Agosto de 2006

 

Henrique Salles da Fonseca

 

(1) - Lema dos Comandos do Exército Português

(2) - Sobre esta viagem bem como sobre a componente não militar da minha presença em Moçambique durante quase quatro anos, farei outras crónicas

ALFABETIZAÇÃO FALHADA!

 

Moçambique – 1973-74

 

Aí por 1973, em Lourenço Marques. Apareceu no banco onde eu trabalhava, o BCCI, um professor, cujo nome há muito esqueci, infelizmente, que há anos andava a estudar um método de alfabetização das massas populares, sem que estas tivessem necessidade de frequentar escolas. O ensino seria feito através da rádio!

 

Pela explicação que o professor deu, o método parecia extremamente bem arquitectado, o assunto mereceu o maior interesse do banco e começámos a discuti-lo com mais profundidade, para ver da possibilidade de pôr o plano em funcionamento.

 

Não me lembro que técnica o professor usaria, mas alguma coisa estaria baseada no que o missionário americano Franck C. Laubach (1884 – 1970), um missionário protestante conhecido nos EUA e nas Filipinas como "O apóstolo dos analfabetos", ensaiara com grande sucesso e o educador brasileiro Paulo Freire havia experimentado com muito êxito no Brasil, de onde, após a instalação da ditadura militar teve que sair para se exilar no exterior, por considerarem que o método era politicamente revolucionário. Também era, como é qualquer método que leve as populações a terem acesso à informação, ao conhecimento, à cultura, e saibam assim exigir aquilo a que têm direito.

 

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 Franck C. Laubach

 

Aprovado o projecto, que se deveria circunscrever inicialmente à capital e sua cintura populacional, para que se pudesse acompanhar a evolução do ensino e, eventualmente introduzir as necessárias alterações ou correcções, partimos para a sua execução.

 

Ficou bem assente que se os textos envolvessem tendências políticas, logo a PIDE, além de proibir a sua utilização, ainda nos trancafiava a todos atrás das grades. Tipo Inquisição perfeita e sofisticada, que lá mais nos antigamentes chegou até a querer destruir Luís de Camões, que esteve em risco de ser proibido de editar “Os Lusíadas”!

 

O sistema, ou método, compunha-se basicamente de três pontos:

- Impressão de um livro/caderno, e sua distribuição gratuita entre a população interessada;

- Programa de rádio, diário, que explicaria aos alunos como associar o que viam escrito nos cadernos a letras do alfabeto;

- Exames periódicos, sem a necessidade da presença do interessado, através de uma ou mais folhas destacáveis do caderno a serem entregues em locais pré-estabelecidos, as quais depois de analisadas informariam o aluno do seu aproveitamento.

 

Pelos cálculos do professor, cada turma não demoraria mais do que três meses a aprender a ler e começar a escrever. Era um método surpreendente! Num instante a grande maioria da população poderia estar, no mínimo, a ler!

 

Previa-se, para a primeira rodada a distribuição de uma ou duas dezenas de milhares de cadernos, calculando-se que de início o aproveitamento final seria de trinta a quarenta por cento.

 

As rádios contactadas puseram os seus microfones à disposição do programa, sem qualquer custo, o que não era nenhuma gentileza porque se previa que a grande maioria da população, pobre e/ou analfabeta, com uma imensa fome de aprender, ia sintonizar, de manhã bem cedo, os seus rádios na emissora escolhida!

 

Orçamentos de impressão e divulgação do programa, prontos. Os interessados só teriam que ir a uma das agências do nosso banco solicitar a entrega de um caderno, oferecido, como é óbvio, e deixar o seu nome inscrito para controle dos resultados. Podiam até dar nome falso que ninguém iria conferir.

 

O professor revisava os textos a serem entregues na gráfica, para não cair ingenuamente, ou quem sabe, deliberadamente, nas garras dos pides, e nós, no banco, entusiasmados com o resultado social que esperávamos alcançar.

 

Chegou a revolução dos cravos, e como se está mesmo a ver ficou tudo encravado! Suspendeu-se o programa até se poder ver um pouco do que estava à frente para vir. Não demorou que o governo, português, anunciasse que ia entrar um novo governo de transição, até à entrega definitiva do país após a sua independência.

 

Logo que assentou um pouco a poeira dos novos sovietizados governantes provisórios/transitórios, pedimos uma audiência ao provisório ministro da educação. Jovem, alto, quase não falava português, formado numa universidade de non whites em Durban, na África do Sul, compreensivelmente racista, encarando os brancos, todos, como inimigos, recebeu-me com uma frieza polar. A seu lado uma directora de serviços, moçambicana, formada na Universidade de Coimbra, cultura com que podíamos dialogar, jovem, bonita (já tinha marcado a sua bela presença na cidade!) e simpática. Mas o ministro não era ela.

 

Expus, detalhadamente o programa que tínhamos levado quase um ano a montar, e que estava pronto a ser posto em funcionamento.

 

Como era evidente o novo governo deveria rever os textos e dar-lhe o sentido que entendesse. O professor estava pronto a fazer as necessárias alterações. Tudo quanto faltava era mandar imprimir os cadernos, o que o banco continuava disposto a fazer a seu cargo, distribui-los e começar.

 

O ministro, ouviu, ouviu, sua cara imóvel como uma máscara maconde.

- Porque é que o banco, sendo uma empresa capitalista, quer alfabetizar as populações?

 

Já faltava mesmo uma perguntinha de caráter vermelhusco!

- O senhor sabe que em qualquer parte do mundo todas as empresas visam um lucro. Mesmo no bloco soviético. Se não tiverem lucro quem arca com as despesas é o povo! No mundo ocidental é o mesmo. A única coisa que há a fazer é controlar as margens para que não sejam abusivas. Além disso o banco ao pensar neste projecto, olhou para o futuro, e como tudo quanto um banco tem para oferecer, qualquer outro banco também tem, aos mesmos custos, imaginámos que este investimento nos poderia trazer um dia, bem mais tarde, a simpatia da população e assim termos mais facilidade em cativar clientes.

- Mas porque é que o banco, sendo uma empresa capitalista quer alfabetizar as populações?

 

A mesma pergunta! Ou estava a gozar comigo ou algo novo estava a aparecer-lhe pela frente, coisa que ele nem imaginava que pudesse existir.

 

Respondi dentro da mesma tónica e rebuscava no fundo das minhas capacidades, argumentos que o convencessem que, da parte do banco, não havia jogo escondido, político, de branco contra negro, ou anti independência, sei lá! Sei que suei para tentar arrancar daquela cara fechada a sete chaves algo que pudesse permitir uma troca de ideias mais normal.

 

A mocinha, lindona, de vez em quando, sem que o chefe visse, ia assentindo, naturalmente, com a cabeça, parecendo concordar que o programa só poderia trazer vantagens até para o novo governo, dentro da medida em que a revisão dos textos levasse a introduzir frases de nova mentalização, o que era fácil. Tudo isto expus ao ministro. Ao fim de uma hora de muita luta verbal aquela máscara moveu um pequeno músculo! Aleluia! Começava a sair detrás de todo aquele gelo e a ser só gente.

 

Nessa altura descontraí um pouco a conversa e, glória minha, desculpem a imodéstia, consegui fazer sorrir aquele homem, inteligente, mas certamente também traumatizado, o que permitiu que a troca de ideias fluísse mais naturalmente.

 

Saí de lá com a certeza de que o diálogo estava estabelecido. A primeira hora tinha sido unicamente um extenuante monólogo. À despedida disse-me que tinha pela frente uma tarefa imensa e dificílima, o que eu sabia ser verdade, ia pensar nisso e na próxima semana voltaríamos a falar.

- A doutora... lhe telefonará.

 

Aguardei, e lá veio um dia o telefonema marcando outra reunião. O ministro já não trouxe a máscara. Vinha com cara de gente. Infelizmente tantas eram as suas preocupações, e tão pouca a gente disponível para montar toda uma nova estrutura educacional, num país novo, não podiam comprometer-se em lançar esse programa durante os primeiros tempos.

- Talvez mais tarde.

 

Não houve, nunca mais, esse mais tarde. Tive muita pena que não tivessem aceite. Estava tudo feito, pronto, e teria sido uma tremenda ajuda ao novo país, totalmente desinteressada. O trabalho deve ter-se perdido, mas quem mais perdeu foram aqueles que não se alfabetizaram.

 

Escrito em 2001. Revisto em 5-nov-16

 

Francisco Gomes de Amorim, 2016

Francisco Gomes de Amorim

O PADRE JOSÉ MARIA

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Obra da Rua – Casa do Gaiato

 

 

Há já anos que a Obra da Rua procura canonizar o grande Homem que foi o Padre Américo Monteiro de Aguiar, o fundador desta Obra maravilhosa. E não tem conseguido.

 

Acabo de receber a notícia que outro dos Grandes Homens que abraçaram esta Obra, em idade avançada, e há vários anos a sofrer dum mal incurável, estaria deixando esta Terra onde tanto bem e tanto se dedicou sempre aos outros de forma integral, total, humilde.

 

O meu muito querido amigo, irmão, exemplo, o Padre José Maria que conheci em Lourenço Marques em 1971.

 

Fez uma grandiosa Obra em Moçambique. Há anos a sofrer, e conseguindo, Deus sabe com que sacrifício, esquecer as dores físicas, para continuar, simples como as criancinhas que Jesus chamou para o seu lado, a trabalhar arduamente para que a Obra da Rua não parasse e seguisse sempre em frente com a sua Casa do Gaiato, as creches, os postos de saúde, a construção de casas para velhinhos que tudo haviam perdido e com outras inúmeras acções e problemas.

 

Neste momento está, lá no altíssimo, o Cristo, de braços abertos, à espera da alma de um Homem que cumpriu, integralmente com o ensinamento: “amai aos outros como a ti mesmo... sobretudo as criancinhas”!

 

“Ninguém tem amor maior do que aquele que dá a vida por seus amigos”.

 

Além da muita admiração e profundo respeito pela sua dedicação, aliás doação total da sua vida, uma amizade muito profunda nos unia, certamente fruto da minha pequenez humana face à grandeza da alma deste irmão.

 

Lembro com imensa saudade ver o Padre Zé, aos Domingos, na linda capela que ele projectou e lá está na Casa de Moçambique, fazer a sua homilia para aqueles fiéis moçambicanos que mal falavam português. Padre Zé, sem nunca ter perdido o seu sotaque do norte de Portugal, voz baixa, sem microfone, seu ar humilde, sua imensa simplicidade, falava àquele povo que o ouvia em profundo e respeitoso silêncio, sem possivelmente entender o que ele dizia. Não precisavam entender. Na frente deles estava um homem de Deus, que os amava e daquela alma, daquela boca, só podiam sair palavras que os abraçava a todos, no mesmo abraço fraternal, no abraço do Cristo que os amava.

 

Outro homem que deveria ser canonizado.

 

A vida segue. Mas o Padre Zé vai fazer muita falta.

 

Até a mim que há anos estou a milhares de quilómetros de distância, mas não esqueço aquela figura amiga de Homem de Deus, do seu exemplo, da sua amizade.

Impossível não deixar rolar cara abaixo umas quantas lágrimas.

 

A verdade é que nos sentimos mais pobres.

 

De dor, saudade, ternura, e muito respeito.

 

Que o Senhor tenha piedade de nós, os egoístas.

 

À Irmã Quitéria, que admiro profundamente e que fica agora responsável por aquela admirável Obra em Moçambique, todo o meu carinho, amizade e respeito.

 

Que Deus a ampare, sempre.

 

25/09/2016

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Francisco Gomes de Amorim

 

 AS PESSOAS | Casa do Gaiato, Moçambique

Director – Pe. José Maria Ferreira Costa
Directora Adjunta – Irª Quitéria Paciência Torres

 

VOLTANDO A MOÇAMBIQUE

 

A aventura dos Optimist

1973

 

Por enquanto, história mais antiga de Moçambique, fica... de férias. Os últimos oito textos foram rebuscados em revistas moçambicanas, ali publicadas entre os anos 30 e 60, mas parece que só interessaram a quem conhece aquele país.

 

Escrevi ainda, e está neste blog, sobre uma visita a Maputo em 1991, sobre a estadia na Casa do Gaiato em 2001, alguma coisa sobre a confusa época anterior à independência, mas nada sobre o tempo tranquilo da estadia naquele país, de 1971 a 74.

 

Está na altura de relembrar alguns episódios ali vividos.

 

1973, sem lembrar já em qual o mês.

 

O BCCI – Banco de Crédito Comercial e Industrial (filho do defunto português Borges & Irmão que foi um grande banco e mal administrado no seu final) procurava, através de ações de Relações Públicas, cada vez mais expandir a sua influência nos meios financeiros locais, apesar de ser “obrigado” a fazer nos jornais uns anúncios institucionais que não tinham outro objetivo além de adoçar as boquinhas, sempre famintas, de uns quantos jornalistas, mas sem efeito prático algum.

 

Surgiu uma ideia.

 

Aquela linda baía de Lourenço Marques, a Delagoa Bay, tinha poucos barcos à vela, talvez não tivesse nenhum veleiro grande, e só o Club Marítimo era o lugar duns quantos apaixonados, talvez só com os pequenos “Vaurien”. Quarenta e três anos depois a memória não vai ao detalhe para saber quantos barcos havia e que tipo, mas vamos em frente.

 

Já não lembra como se soube que havia alguém habilitado em construir os ainda hoje famosos Optimist, o melhor barco já concebido para a iniciação à vela, e destinado a “atletas” até aos doze anos!

 

O banco gostou da ideia. Procurou o apoio do Fundo de Fomento Desportivo que abraçou o projeto. Mandou fazer uma dúzia daqueles barquinhos e anunciou pelos seus clientes que seriam vendidos em 6 ou 12 parcelas, sem juros.

 

Tudo combinado para o lançamento, com a presença do Secretário Provincial de Educação Física. Mesa de “honra”: o Diretor do Club Marítimo, o mencionado Secretário e o Administrador do banco.

 

E assim se fez a festa. Doze ou catorze atletas, dos nove aos doze anos, os pais, a maioria sem saber nada de vela, a ajudarem os jovens a aparelhar o “navio” e lá vai a grande regata, de que saiu vencer, um garoto, lourinho, promessa de marinheiro, já com doze anos que as meninas concorrentes achavam que era (era!) lindo: o Carlos Prista. A nossa Joana tinha nove anos e, sempre a rir, porque nunca tinha “governado” um barco, ficou brilhantemente em última. Mas adorou!

 

A seguir alguns pais, mais destemidos quiseram experimentar os veleiros.

 

Ficou na memória a figura de um deles, grande, pesado, que uma vez dentro do barco este ficou com o casco todo dentro de água! O “navegador” sorria mas só se via um meio corpo, um mastro e uma vela que mal se mexiam no mar. Fez enorme sucesso.

 

As fotos abaixo, recuperadas ao fim de todos estes anos de imagens do filme de 35 mmm que um jornalista filmou para ser passado nos cinemas, como um notável acontecimento desportiva para a então Lourenço Marques, têm uma qualidade muito fraca, mas quem as vir pode ser que se recorde de alguma coisa ou de alguém.

 

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 De cima para baixo: o cartaz de propaganda, o preparo dos barcos, “quase” prontos para a regata, o vencedor e algumas mães “nervosas” com a aventura.

 

Foi uma festa bonita, sobretudo para os “grandes atletas” que nela participaram. Há 43 anos!

 

Mas ainda há muito para contar sobre Moçambique. Atravessa agora uma fase difícil. Também o Brasil, toda a América Latina, Portugal, Espanha, Grécia e tantos outros.

 

Agosto de 2016

 

Francisco G. Amorim-IRA.bmp

Francisco Gomes de Amorim

MOÇAMBIQUE

 

SENA

FORTE DE S. MARÇAL


A data da edificação do forte de S. Marçal de Sena é desconhecida.

 

Alguns autores afirmam que o forte existia já ao tempo da expedição de Francisco Barreto. Porém, o jesuíta Monclaros, que acompanhava a expedição, apresenta-nos, na sua "Relação" da viagem, Sena como "povoação pequena de casas de palha ao longo do rio metida entre um mato". Não deixaria, certamente, de mencionar o forte, se já existisse. Esclarece, ainda, que a expedição conduzia, em carros, pedra para se edificar a fortaleza.

 

De positivo, sabe-se que Francisco Barreto levantou um forte de taipa, assim que chegou àquela povoação, "oito dias ante Natal".

 

Regressado em Outubro de 1572 das operações contra o Mongás, "determinou refazer o forte que tinha deixado de madeira de taipa qual lhe ficava por aposento e tinha dentro uma ermida de S. Marçal e a casa da feitoria". Monclaros, ao concluir a "Relação", diz:

"... e nos viemos a Moçambique ... deixando bem provido o forte de S. Marçal, assim de capitão e soldados, como das mais coisas necessárias".

 

Vasco Fernandes Homem, em 1576", só diz : ... neste forte, onde eu agora estou, que Francisco Barreto fez para guarda dele ...".

 

Outra notícia do forte dá Fr. João dos Santos. Em 1585, naufragou na costa de Quelimane a nau "Santiago". Manuel Godinho Cardoso escreveu a relação do nau­frágio e descreve a povoação :

"Sena é povoação de portugueses; nas terras de Inhamioy, tem um forte que se chama S. Marçal, com capitão, soldados e artilharia, e ainda que pequeno e de pouco presídio, basta com tudo para ter enfreados e sujeitos os negros, os quais cercando-o uma vez, desistindo da empresa se retiraram com muito dano seu".

 

Fr. João dos Santos em 1590 e deu a primeira notícia do forte de pedra:

"Sena é uma povoação situada junto do rio Zambeze, da parte do Sul nas terras da cidade Inhamioy, sujeita ao Manamotapa. N'esta povoação está um forte de pedra e cal, guarnecido de algumas peças de artilharia grossa e meuda, mui bastante para sua defensão, no qual mora o capitão posto da mão do capitão de Moçambique. Dentro neste forte está a egreja e a fei­toria ...".

 

Assim, a data da construção do forte pode situar-se entre 1572 a 1590.

 

Em começos de 1618, o forte estava arrui­nado. Devia está-lo desde longo tempo pois a sua ruína era já conhecida em Portugal em Março daquele ano, data do regimento dado a Nuno Álvares Pereira, promovido na capitania de Moçambique. O regimento man­dava :

"Depois de entrardes nos Rios, hireis visitando e provendo as aprovações e for­tes que nellas ha, e porque sou informado que havendo em Sena fortes de pedra e cal em sitio conveniente, e cô artilharia os portugueses casados que ali residam, o deixarão arruinar, e da pedra, que se hauia trazido de longe, fizeram outras obras em suas casas, e não ha quem dê razão da artelharia, e que convem reevdificar-se para segurança da fazenda que estiver na feitoria, e da mesma povoação".

 

A artilharia, segundo Pedro Barreto de Re­zende, numerava oito falcões e estava arreca­dada na feitoria, donde se conclui que em 1635 o forte não fora ainda reconstruído. Também não estava em 1667; Pe. Manuel Barreto de Goa, aos 11 de Dezembro desse ano, diz :

"Commumente se chama o forte e povoação de São Marçal; mas a povoação não tem forte algum, mais q as taipas das cazas, de que todas estão cercadas em roda com seus quintais: e fica cada caza um forte tão bom como se fosse chumbo, prin­cipalmente se os pontos da taipa se abri­rem em seteiras, e descortinarem com revevzes; no que se tem pouco cuidado, por que nunca Sena foi envestida de enimigo".

 

Fr. António da Conceição, em 1696, des­creve Sena como povoação "de trinta casas pouco mais ou menos de moradores graves, além de outros somenos". Nenhuma referência ao forte. No entanto, a povoação poderia "... fortificar-se belissimamente, porque de huma parte lhe fica o Rio e da outra huma serreta que parece poz Deos ali para um castello".

 

O forte foi, finalmente, reconstruído em 1704. A pedra sobre a porta de armas (única parte que resta do forte) diz:

"Sendo capitão geral desta conquista D. João Fernandes de Almeida mandou fazer esta fortaleza na era de 1704 contri­buindo para a sua despesa com muita parte da sua fazenda".

 

No regimento dado, em Goa, 1709 a António Simões Leitão, nomeado "te­nente general de Moçambique e Rios e Gover­nador deles", corfirma-se estar reconstruído o forte:

"Chegando a Senna vereis o es­tado em que se acha a Fortaleza que novamente se faça naquela Pouoação, e tendo já alguã danificação como tenho por notí­cia a mandareis reparar e aperfeiçoar os quartéis que nella se começarão para os soldados, e as mais offecinas competentes para o seu alojamento, e detença; e se he conveninete amurar se a Pouoação, e utilidade que se segue aos moradores de ser fortificada, e se poderá sem bem defen­dida com a gente que nella se acha.

Mandareis passar mostra a com­panhia que assiste da guarnição na dita Pouoação e acabarão os quartéis que para ela se começarão na Fortaleza que de novo se fabricou ...".

 

É este segundo forte de Sena que D. Fran­cisco de Melo e Castro, capitão general de Mo­çambique, descreve no seu relatório datado de 10 de Agosto de 1750:

"É a povoação de Sena a capital de toda a conquista aonde reside o General dela... A sua única defesa é o forte de S. Marçal, com quatro baluartes da figura e construção que se refere na explicação da sua planta, com catorze peças de arti­lharia dos calibres de oito, seis, quatro e três“.

 

Em 1758, o capitão general Pedro de Sal­danha de Albuquerque, em carta a El-Rei, da­tada de 30 de Dezembro, dizia:

"A Povoação de Senna tem huma For­taleza feita de Adobes de barro, coberta de palha, que hé bastante para o Inimigo do Paiz; tem de guarnição cincoenta Pra­ças, das quaes dez se destacão para Manica. O General me pede agora alguns Officiaes Carpinteiros, para fazer os repa­ros que faltão para a Artilharia della, que na seguinte monção os hei-de enviar, e ainda que o mesmo General me pede tam­bém setenta arrobas de ferro, na referida monção lhe mandarei parte desta quanti­dade, por q os Armazéns tem só pouco, q agora mandey comprar nesta Galeria de Bahia".

 

Jerónimo José Nogueira de Andrade dá a seguinte notícia do forte:

"Tem esta Villa [de Sena] hum Co­mandante e hum Feitor, e hum quadrado formado de terra e faxinas, ao qual reducto chamão a Fortaleza de S. Marçal de Senna, cuja guarnição consta de 38 praças a saber: um Sargento Mor, e hum Ajudante da Praça, hum Capitão, hum Tenente, hum Alferes, hum Sargento, hum Furriel dous Cabos hum Tambor e 28 soldados".

 

Em 1884, o l.° tenente da armada José Maria, apresentou ao governador geral um relatório da viagem que fizera pela Zambézia. Sobre o forte de S. Marçal:

"Não obstante [sofrer de febres] visitei a praça de S. Marçal da qual só posso dizer que está a cair. A cortina que deita para o lado do rio não existe; está substituída por paus a pique. No barracão a que chamam quartel chove por toda a parte, e os outros armazéns estão a desmoronar-se. A casa do Commandante da praça só tem as paredes.

Ha ainda uma porção importante de mate­rial de guerra da ultima expedição á Zam­bézia, mas uma parte está avariado princi­palmente devido ao desleixo com que tem sido tratado. A praça é um pântano; no tempo das chuvas junta-se a agua no meio da parada e ali espera que o sol a faça evaporar e o terreno a absorva. Ao actual Commandante militar incumbi a terrapla­nagem immediata da parada, o fabrico de 6 reparos sendo 4 de praça e 2 de flexa para montar a boa artellaria de 0,8 m raiada qua ali ha. Ordenei-lhe que remo­vesse todo o material para uma casa fora da praça onde não chove, que o inventa­riasse e beneficiasse remetendo-me uma copia do inventario e nota do que está inú­til. O destacamento tinha 10 soldados, que pediam esmola pela povoação porque há 8 meses não recebem pret, não obstante sair todos os meses do cofre de Delegação o pret na totalidade do effectivo do bata­lhão. Á vista de tal miséria, acceitei o offerecimento que me fez o Capitão Paiva d’Andrada de dinheiro para fazer um abono aos soldados e mandei pagar 1.200 reis por cada mez em atraso. Tornando a chamar a attenção de V. Exa. sobre a praça de S. Marçal direi que julgo, de summa importância o seu concerto porque tem bastante capacidade, está bem collocado e seguramente o que se poderá dispender com o seu arranjo, que ha-de ser muito, é muito menos do que o valor da porta que está de pé. Encarregou-se volun­tariamente o commandante militar de Sena de lhe levantar a planta e remetter-m'a".

 

Em Julho de 1896, o governador do distrito da Zambézia ordenou ao coman­dante da Praça, que procedesse "a um imediato concerto na face da praça que é feita em aringa” isto é, em estacaria. O comandante da Praça respondia, em 25 de Julho: "Afim de dar cumprimento ao tele­grama n. 317 de 22 do corrente, que em nome de V. Exa. me dirigio o chefe da repartição militar, sou a dizer o seguinte :

A Praça de S. Marçal é um quadrilá­tero que tem de perymetro aproximada­mente 700 metros e nos ângulos quatro baluartes: em pentágono, defendidos por 10 boccas de fogo de diferentes calibres. Como V. Ex.a vê é uma praça enorme e que só pode ser deffendida com grande numero de soldados. Ainda assim poder-se-hia deffender só com a guarnição dos baluartes (uns 20 homens para cada, que soubessem ao mesmo tempo manejar as peças) se não fosse a face do lado do rio, que está quasi completamente desguarne­cida, porque é uma espécie de estacaria cujos paus estão muito distanciados e que em vista do "muchem" é preciso está-los continuamente a renovar, o que eu tenho feito com alguns presos que a Intendência para aqui me manda, mas não é isto o sufficiente para a defeza, porque caso haja algum ataque, deve ser por este lado e não pelos outros, visto o grande campo que se avista e a altura da muralha destes. Cons­ta-me terem-se feito já diversos orçamentos para esta obra e hoje envio a V. Ex.a dois, porque se podem fazer n'aquella face duas defeza, e são ou de fortificação permanente, que é levantar um muro com banqueta igual ao que circunda o resto da praça, ou visto a inclinação que tem o tereno d'aquelle lado, aproveitar a estacaria que ha, fechando-a mais e fazer uma espécie de fortificação semi-permanente; mas esta obra apesar de ser milhor para defeza, requer mais gente para a mesma, não é tão solida e mesmo para embellezamento sou de oppinião que se acabe de fechar a praça como já é o resto.

Necessita também a praça de alguns pequenos reparos nos baluartes e rebocada com cimento toda em volta, por cima dos muros, afim de evitar que as chuvas as demullam".

 

Em 1899, a praça de S. Marçal foi entre­gue à Companhia de Moçambique. Lavrou-se auto da entrega, aos 7 dias de Setembro desse ano, e dele consta o estado em que se achava a Praça:"Uma face construída de paus estando já muitos deles apodrecidos. As outras três faces e os quatro baluartes são de pedra e terra amassada estando a esboraoar-se por toda a parte, achando-se nalguns pontos quase completamente caídas. As duas portas acham-se em mau estado. As edificações da praça são as seguintes:

Uma casa térrea com parede de pedra e terra amassada rebocada exterior e interior­mente, coberta a telha de Marselha e o chão ladrilhado, dividido interiormente em quartos, estando tudo em bom estado de conservação, serviu de paiol: Uma casa térrea com paredes de adobos coberta a zinco dividida em dois quartos, serviu em tempo de caserna, uma das paredes está fendida de alto a baixo, está no resto em regular estado de conservação. Uma casa térrea com paredes de adobos coberta de palha com três divisões serviu de residên­cia ao Comandante da praça, estão as pa­redes e cobertura em mau estado. Uma casa térrea, restos de uma casa maior, muito velha, paredes de pedra e terra amassada, coberta de telha ordinária, ser­viu de cadeia, está tudo em mau estado".

 

A Companhia de Moçambique obrigava-se à conservação da Praça e a reentregá-Ia ao Es­tado, logo que este dela precisasse, no mesmo estado em que a recebera. Em 1903, porém, ó conselho de administração da Companhia pedia dispensa da obrigação de conservar a Praça, visto o adiantado estado de ruína em que a recebera e a inutilidade da velha fortificação. A Praça foi, então, pretexto de longa discussão — que, ao fim de contas, a não salvou de total ruína.           

 

Permaneceu apenas o portal. Em 1902, o subintendente do governo em Sena comunicava que, achando-se o portal em risco de abater, apeara a lápide memorativa de construção em 1704, que foi reposta no portal, como ainda hoje (1969) se encontra.

 

Em 1905, o Governo do Território de Manica e Sofala dirigiu um ofício ao governador geral da Província, João António Azevedo Coutinho Fra­goso de Sequeira:

"Junto envio a V. Exa. um desenho representando o portal da praça de S. Marçal de Sena, restaurado e completado com os ornamentos e pyramides que actual­mente lhe faltam. ComoY. Exa. vê, o portal assim restaurado apresentaria um bello aspecto e constituiria um padrão ele­gante, fácil de conservar em bom estado, dispensando-se as ruínas das muralhas que actualmente tem aos lados e estão em der­rocada, visto que, como V, Exa. sabe, as muralhas são construídas de pedra e barro. Caso V. Exa. concordasse a Companhia de Moçambique procederia à restauração do portal, tal como se acha indicado na figura ficando por conta da Companhia de Mo­çambique todas as despezas futuras da sua conservação abandonando-se por completo as ruínas das muralhas, pois como V. Exa. bem sabe, a praça de S. Marçal, nenhum valor militar tem, nem mesmo se torna necessária n'uma região onde V. Ex.a ex­tinguiu em 1897 e depois em 1902, por completo, todo qualquer fermento de revolta. Lembraria também a V. Exa. caso concordasse com este processo de restau­ração do portal e criação do padrão, a collocação na parte posterior do dito portal,  em local correspondente a lapide actual, ou outra lapide idêntica a que se colocará no padrão commemorativo do forte de So­fala mencionando ter sido esta reparação mandada executar por V. Ex.a e demolido o forte por terem sido aquelas terras defi­nitivamente pacificadas por V. Ex.a, nos anos de 1897 e 1902 perpetuando assim o nome de V. Ex.a e os seus valiosos servi­ços n'aquella região. Pedia a V. Ex.a res­posta urgente para poder começar breve a reparação, pois acabo de ser informado pelo chefe da circumscripção de Sena, te­nente Manuel Monteiro Lopes, que a fenda existente ha muitos annos no arco do portal parece ter augmentado sensivelmente nes­tes últimos tempos e muito receio que as chuvas que estão próximas venham a pro­vocar o desabamento do portal".

 

O governador geral aprovou a proposta que diz :

"No reinado d'El-Rei D. Carlos sendo Governador Geral da Província de Moçambique João António d'Azevedo Coutinho Fragoso de Sequeira e Governador do Território de Manica e Sofala Alberto Celestino Ferreira Pinto Bastos mandou a Companhia de Moçambique recons­truir este padrão. Anno de 1906".

 

Do forte de S. Marçal, hoje apenas se man­tém de pé o portal, amparado pelas obras feitas em 1904 e 1905 com que se sustou o desabamento do arco.


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Montes de terra, pedra e tijolo demarcam ainda o contorno da Praça, definindo melhor ou pior os muros, os baluartes e os locais das dependências interiores.

* * *
 Pesquisado na Revista “Monumenta” Nr. 5 - 1969 - Moçambique – autor Caetano Carvalho Montez

 

 

Julho/2016

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Francisco Gomes de Amorim

MOÇAMBIQUE - INHAMBANE

 

PRAÇA DE NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO

 

E FORTE DE S. JOÃO DA BOA VISTA

 

 

Possui a Câmara Municipal de Inhambane uma cópia da "Planta da Fortificação de Inhambane 1821", que se reproduz neste apontamento. É do tempo do Governador Isidro Manuel de Carrezede, no cargo 1820 a 1825. Esta fortificação, diz respeito à praça de Nossa Senhora da Conceição, que era situada onde se encontram hoje os edifícios que instalam os Serviços da Administração do Concelho, o Governo do Distrito, os Serviços de Fazenda e a Capitania do Porto com suas oficinas. A Igreja, que aparece na planta da fortificação, é a mesma actual, depois da grande alteração que sofreu com os trabalhos de ampliação e construção da torre, trabalhos esses concluídos em Novembro de 1867 e começados em Junho de 1864.


O Forte de S. João da Boa Vista era situado num morro de areia, atrás do actual cemitério e do Hospital Regional, morro esse, desapareceu, por de lá se terem retirado muitas terras para todos os aterros de pântanos que, durante muitos anos se fizeram em Inhambane, e que em muito, vieram, beneficiar o estado sanitário da localidade.


"Por volta de 1760, tinha Inhambane um recinto defendido por estacaria, que podendo proporcionar abrigo contra os cafres, tinha pouca utilidade contra outro qualquer inimigo, e era guarnecido de 20 homens, comandados por um capitão".


António Guedes Monteiro de Matos que foi Capitão-mór de Inhambane, entre 1759 e 1763, achou a estacada em grande estado de ruína e as peças de artilharia numa incapacidade quase total. Isso o levou a escolher para edificar outra fortificação "um local próximo da Vila, donde se descobria a barra e que a este importante predicado reunia o de ter água boa e abundante, chão fértil e fartura de pedra para a construção". Mas não se devia ter construído nada, pois o Governador António José de Melo, descreve com cores negras, em 1765, o estado em que se encontrava a guarnição e a paliçada.


Em 1854, houve um grande incêndio, tendo ardido grande parte da Praça, a Igreja e muitas casas. De notar, que em 1853, Inhambane tinha 20 casas de pedra e cal, 27 de madeira, 81 sombreiros e 1350 palhotas, pertencentes aos nativos e tudo constituía 1470 fogos.


Em 1863, a 16 de Janeiro, a praça de Nossa Senhora da Conceição, é assim descrita pelo Governador de Inhambane, Major Guilherme Frederico de Portugal e Vasconcelos :

"A praça de Inhambane tem na frente para o mar (poente) huma bateria de 73 metros de comprimento e de 3 de altura que está completamente dominada pelas cazas mais próxi­mas e das ruas que tem do N ao Sul quatro espingardas à queima roupa impedem que os artilheiros facão uso das peças. Pela parte Sul he hum comprido e velho muro onde existe a porta principal da entrada, da bateria citada, a porta tem por dentro huns cazebres cobertos de palha que se vê de fora e que se servem de calabouço da Companhia, quartel do condestável, arrecadação do material e de caza da guarda. Da parte para o nascente segue o mesmo muro, tem por dentro hum paiol completamente arruinado hum barracão de palha meio queimado que serve para arrecadação e trabalharem os carpinteiros do Estado, ao fim deste muro ha huma couza a que o meu ante­cessor alcunhou de baluarte e que além de também estar completamente dominado por huma rua e que lhe passa ao Norte o está por todas as cazas próximas, e artilharia ali collocada não pode ser aplicável a não ser para derribar as cazas da Villa. Pelo Nascente se­gue-se hum igual muro com huma porta falça para a Praça, serventia particular dos Gover­nadores que habitão dentro, e no fim deste muro fazendo semetria com o referido baluarte he a Igreja Parochial por onde a Praça pode ser invadida sem obstáculo. Pela parte do Norte segue-se a parede da Igreja e depois hum velho muro de differentes alturas que vai fechar com a bateria do mar. Dentro desta Praça ha um barracão coberto de palha que he a Alfândega e por consequência durante as horas que está aberta he franca a entrada na Praça e ha dois cazebres idem que servem de arrecadação da Companhia e quarto de escripturação da mesma, ha dois outros cazebres que hum serve de prizão dos Gallés e outro de Thesouraria do Almoxarifado que pelos objectos que vende, impressos e papel sellado, torna a praça franca. Ha huma cazinhola pessimamente collocada a que se chama residência do Governador do Destricto tem huma caza de entrada captiva, porque em hum quarto a direita he a Secretaria da Praça em outro à esquerda a do Governador ficando para habitação do governador do destricto huma dispença dois quartos e huma pequena salla, tendo que estar sempre em contacto com os soldados e gallés ou privado de se aproximar de alguma janella e tendo que dormir o Official do Estado Maior na caza de entrada e por consequência as ordenanças na rua, motivo porque aluguei caza fora sobrecarregando-me "com a despeza de nove pezos mensais para sustentar o decoro e independência com que deve viver a primeira auctoridade do Destricto, despeza que continuarei a fazer por minha conta se V. Exa. não achar justo que me seja abonado pela Junta da Fazenda da Província.

"Passei a vizitar hum monte de área aces­sível por toda a parte com huma palhota no meio hum quadrado de meia braça de pedra e cal com um páo de bandeira espetado e seis peças d'artilharia e que ha séculos (sic) se chama Forte de S. João da Boa Vista. Aqui tem V. Exa. a exacta descripção das duas for­talezas desta boa Villa.

-"Em vista disto e dos poucos fundos pecu­niários com que me achava e sem autorização para os desviar da sua marcada aplicação vi que só me restava hum recurso para alguma couza fazer para satisfazer o meu génio traba­lhador e melhorar este Destricto. Mandei cha­mar o Digno Comandante das terras João Loforte e satisfazendo a sua requisição de doze picaretas o encarreguei de mandar fazer hum grande corte de pedra o que elle satifez com aquelle zello e promptidão com que se tem prestado a todos os mais serviços de que o tenho encarregado e que o torna digno da honra de estar na lembrança de V. Exa. pelos seus bons serviços. Tratei de grangear a sympathia dos meus governados fazendo-lhes ver que o meu programa governativo era igualdade, lei e justiça e logo que conheci poder contar com o auxílio d'elles dirigi-me ao sitio em S. João da Boa Vista, bella pozição para defesa desta villa marquei os alicerces que immeditamente fiz abrir e dirigi aos habitantes numa Circular pedindo-lhes que me auxiliassem com as suas lanchas para me conduzirem a pedra preciza para fazer em S. João da Boa Vista huma for­taleza regular para defeza da Villa ao que se promptificarão com a melhor vontade offerecendo-me logo o mencionado Commandante das terras da Coroa João Loforte quarenta barcadas de pedra que tinha no seu quintal e pedindo-me licença para elle fornecer com as suas lanchas toda a pedra preciza para o com­pleto d'huma das muralhas do Forte. O Cidadão Augusto Carlos dos Reys além de promptificar as suas lanchas para a condução da pedra me offereceo para o mesmo fim 100 barricas de cal, com esta e huma grande porção que achei na praça do tempo do meu antecessor comecei a obra collocando a primeira pedra no alicerce no dia 3 de Setembro de 1862. Mandei logo fazer três grandes fornos de cal, hum no sitio da Burra, na Machiche e em Linga-Linga e desta maneira tenho conseguuido ter hoje as quatro muralhas do forte concluídas no cumprimento cada huma de 48 metros e de 7,1/2 de altura incluindo os alicerces que tem 2 metros e de largura 5 palmos, estou concluindo a escada que como he de aboboda de tijolo mais algum tempo leva. Concluindo esta fortaleza para onde tenciono mudar os gallés e o paiol e não tendo esta grande obra custado á Fazenda Nacional mais que o jornal do Colono mestre Pedreiro e que só a condução da pedra pela distancia a que se vai buscar custaria huns poucos de contos de reis se fosse conduzida por conta do Estado e por isso rogo a V. Exa. auctorizar-me para que em nome de V. Exa. eu agra­deça a estes dignos moradores a boa vontade com que prestarão e se prestão a auxiliar-me e concluído o Forte de S. João da Boa Vista peço a V. Exa. hum voto de confiança para reformar a Praça de Nossa Senhora da Con­ceição aproveitando aquelle terreno fazendo uma boa Alfândega com portas independentes da Praça, huma caza decente para o Governa­dor do Destricto e hum bom quartel para quando se formar o 3.° Batalhão, tudo isto sem preju­dicar a Fazenda Nacional e com os mesmos recursos com que tenho feito o Forte de S. João da Boa Vista para que esta denominada Praça deixe de ser o escarneo de todo aquelle que alguma couza saiba de fortificação".
 

FGA-Inhambane, Rua da Rosa.jpg

 
 

Mais tarde, nos princípios de 1875, o Forte de S. João da Boa Vista é descrito, na "Noticia acerca dos edifícios e obras publicadas no Distrito de Inhambane", da seguinte maneira:

"É situado em um alto a pequena distancia ao Sul da Villa, o muro que o cerca é feito em quadrado, tendo por face 47, "W"', só se acham construídas as faces do Norte e Leste, tendo a altura do muro do lado N. 4,m85 c. e do lado de L. 3, as faces dó Sul e Oeste estão apenas principiadas, a espessura dos muros é de 1 m; o seu estado de conservação é mau, porque nunca chegaram a ser rebocados e já se acham rachados em duas partes, existem ali 4 peças de ferro montadas, sendo 2 de calibre 9, uma de calibre 12 e uma de 18, ha mais duas peças igualmente de ferro de calibre 3 que se acham apeadas; as quatro peças mon­tadas bem como os reparos estão em soffrivel estado de conservação; ha no forte uma casa redonda de madeira rebocada de pedra e cal e cuberta de palha, que serve de quartel de veteranos, no lado desta existe um pau para içar a bandeira nacional mettido em um pe­queno pedestal de pedra de cal. Foram as obras dos muros deste forte feitas em 1862 a expensas dos habitantes do districto e dirigidas pelo governo; a despeza feita pela fazenda publica foi insignificante, apenas o fornecimento de ferramenta para os trabalhos."


Como se verifica, o Governador Por­tugal e VasconceIIos, ao informar o Governo Geral da construção do forte, declarou que o mesmo já tinha as quatro muralhas concluídas, o que parece não ser verdade, conforme se constata pelo documento que transcrevi, e pelo que, mais adiante se transcreve.


Mas, também é verdade que, a população de Inhambane, agradecida pela obra do mesmo Governador, fez um abaixo assinado que lhe enviou, a 20 de Julho de Ï863, "querendo dar um testemunho de gratidão pelo Governo que adminitrou este districto, e pela boa justiça que fez sem fazer differença de classe ou reli­gião nem cathegorias, fazendo sempre igual justiça;o modo como procurou fazer a prosperidade d'este districto já fazendo obras que nunca nenhum Governador tem feito como foi a do forte de S. João da Boa Vista que d'um morro d'área acessível, por todos os lados, hoje se acha com boas muralhas, ainda que não concluídas, pouco lhe resta, e que já pode servir para a defeza da Villa" .

Parece incompreensível é que, 14 anos depois, a Câmara Municipal, enviasse ao Gover­nador do Distrito o seguinte ofício :

"Ilmo. Exmo. Snr.

Existem quasi no centro desta Villa pelo lado do Sul, no alto de Sam João da Boa Vista, umas muralhas, derrocadas e abertas nos angolos, sem importância nenhuma militar que se dominarão Forte de Sam João — em épocas remotas, quando a Villa não passava da lagoa Inhampossa, servio aquelle monte de defesa avansada da Villa e n'ella havião algumas peças d'artilharia e uma guarda, sendo guarnecido em occaziões de guerra pelos moradores, hoje de nada serve por estar cercado de plantações e arvoredos e no centro da povoação, as mura­lhas informes e por acabar foram principiadas pelo Governador Portugal e á expensas dos moradores deste município que liberalmente deram pedra, a cal e os obreiros — nunca se acabarão, porque o sucessor deste conhecendo o mal construído da obra e a pouca importância estratégica que ella teria mesmo que se con­cluísse, abandonou-a assim tem estado até hoje, deteriorando-se de dia a dia. O ma­terial também nos parece pouco aproveitável para novas construções; esta Câmara com muitos bons desejos de continuar a empedrar e macadanizar as ruas do Concelho faltão-lhe como V. Exa. bem sabe os meios, não a von­tade; esta Câmara pede a V. Exa. lhe con­ceda aquellas velhas muralhas, para as demolir e aproveitar o material para as ruas, única coiza para que pode servir no que V. Exa. pres­tava um grande serviço a este Município. Deus Guarde a V. Exa. Inhambane, 26 de Septembro de 1877.- Ilmo. Exmo. Snr. Governador do Districto

(assinados) João Loforte, Prezidente da Câmara - Frederico Leal de Souza, Vice-Presindente - Joaquim Augusto Guima­rães, António Pascoal Pinto e Egas Corrêa Mascarenhas Arouca."


Como se constata, era presidente da Câ­mara, João Loforte, que generosamente ofertara "quarenta barcadas de pedra e o transporte de toda a pedra preciza para o completo d'huma das muralhas do Forte", uns tantos anos atrás. Infelizmente, o pedido foi deferido, pelo Gover­nador Geral, conforme se verifica pelo seguinte ofício:

""Ilmo. Snr.

Tendo V. Sra pedido para que lhe fosse concedida a pedra do Forte de Sam João da Boa Vista, para o empedramento das ruas desta, cumpre-me participar-lhe que por determinação de Sua Exa o Governador Geral pode V. Sra. utilisar-se da mesma pedra para o indicado fim — Deus Guarde a V. Sra. — Secretaria do Go­verno do Districto de Inhambane, 21 de Janeiro de 1878 (assignado) o Governador António Maria Cardoso — Tenente d'Armada."


E assim desapareceu algo que hoje seria uma relíquia nesta linda terra de Inhambane.


Pesquisado na revista “Documenta”, Nr 4 – Moçambique – 1968 - Dr. Armando Maria Dionísio


Julho/2016

FGA-2OUT15.jpg

Francisco Gomes de Amorim

MOÇAMBIQUE – O TRILHO DAS PEDRAS

 

Vala comum em Moçambique

 

A estabilidade política em Moçambique pode estar em perigo com os atritos militares entre o Exército da FRELIMO e as forças da RENAMO. Bem sei que esses conflitos são consequência de desentendimentos políticos mas isso acontece porque em Moçambique não há um Exército a que se possa genuinamente chamar Nacional. Os militares estão ao serviço de cada uma das forças políticas e quando o diálogo político não existe, os confrontos militares são um cenário a não ignorar. E daí à guerra civil, é um passo muito curto. Pior: quando acontecem raptos e assassínios de personalidades ligadas à Oposição, todos acusam o Partido do Governo de criar Esquadrões da Morte e de não olhar a meios para se manter no Poder. «Se com o ferro matas, com o ferro morrerás».

 

O esmagamento político de uns por outros e as eternas dúvidas sobre a linearidade da prática política, não me permitem afirmar com plena confiança que a democracia moçambicana de jure tenha já alcançado o de facto.

 

E a questão também está em saber se o modelo político ocidental é genuinamente aplicável às Nações africanas e respectivos acervos culturais. Terão já os Chefes de Estado conseguido ultrapassar o tão enraizado conceito de Soba? Terão as Assembleias Nacionais conseguido granjear prestígio suficiente para suplantarem os Conselhos Tribais de Anciãos?

 

Estas minhas perguntas são claramente capciosas pelas maiores dúvidas que nelas encerro mas não posso também deixar de lembrar que faltam apenas 27 anos para que Portugal perfaça 900 anos de idade e apenas soma 158 de democracia. E mesmo assim, com uma guerra civil pelo meio (as lutas liberais) e uma mudança revolucionária de Regime (5 de Outubro de 1910).

 

A fragilidade cultural da democracia africana deveria induzir os actores a levarem a «peça» ainda mais a sério em vez de construírem figurinos ao estilo do «faz de conta» sob pena de deitarem tudo a perder, nomeadamente a credibilidade internacional que esse figurino – pelos vistos fictício – lhes tenha proporcionado.

 

Vai a RENAMO conseguir reunir hoje os apoios que em tempos lhe permitiram fazer a guerra à FRELIMO?

 

Está a FRELIMO disponível para se sanear dos gravíssimos males que lhe são lautamente apontados?

 

São negativas as minhas respostas a ambas as perguntas anteriores porque a África do Sul não é hoje o que já foi, a Rodésia já nem sequer existe e o «estilo» do exercício do Poder está agarrado a interesses muito enraizados na «Corte».

 

É claro que os actores em cena têm espelhos mágicos que lhes respondem o que eles próprios querem ouvir. É claro que estamos perante um grande problema posto por um trilho com muitas pedras que alguém se entretém a pôr lá para fazer a vida difícil a quem por ali quiser passar.

 

Mas eu tenho muita pena de ver Moçambique assim tratado como se fosse qualquer outro país africano, como se em vez de cidadãos iguais fosse de uns que se tomam por donos e de outros apenas destinados ao servilismo. Como no tempo da escravatura.

 

Eu sempre pensei que África era um continente problemático, Moçambique à parte. Parece que me enganei.

 

Henrique Salles da Fonseca, Barril-8AGO15-2.jpg

Henrique Salles da Fonseca

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