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A bem da Nação

LIDO COM INTERESSE – 77

Stendhal-Vermelho e Negro.png

 

Título – O VERMELHO E O NEGRO

Autor – Stendhal

Tradutor – Maria Manuel e Branquinho da Fonseca

Editor – Abril Controljornal Edipress

Edição – Junho de 2000

 

 

Sobre esta obra já terá havido recensões mais do que suficientes para que eu possa agora referir alguma perspectiva que tivesse passado despercebida à multidão de eruditos que a leram antes de mim. E lendo-a na tradução, muito provavelmente me poderá escapar a pureza do estilo literário do Autor, Stendhal.

 

Perguntar-se-á então o meu leitor, por que razão venho aqui tratar de algo sobre que já tudo foi dito e cujo estilo original pode não estar preservado.

 

Muito bem, venho apenas ler a tradução e quase dispensaria o original de cujo enredo me permitiria prescindir se ele não fosse fundamental para o que me interessa que, como já disse, é o trabalho dos tradutores.

 

Então, foi assim: João Gaspar Simões disse ao meu tio António José Branquinho da Fonseca que não gostara nada da tradução que por aí andava e que seria bom tratar de arranjar nova versão portuguesa que não achincalhasse Stendhal. Se ele, o meu tio, sabia de quem pudesse deitar mãos a uma nova tradução. Era óbvia a «cunha» que Gaspar Simões estava a meter ao meu tio para ser ele a fazer o trabalho. Mas, entre gerir as Bibliotecas Itinerantes da Gulbenkian e escrever obra nova, o meu tio tinha muito mais que fazer e ficou de pensar em alguém que pudesse fazer o trabalho. E, sim, lembrou-se. Lembrou-se da mulher dele, a minha tia Maria Manuel.

Maria Manuel Branquinho da Fonseca.jpg

 

Eis como se chegou a um compromisso de a obra ser traduzida (claro que a partir do original e não da má tradução anterior), por ela, a minha tia, com a supervisão do meu tio. A função de cada um ficando previamente definida cabendo a Maria Manuel o grosso do trabalho e a ele a garantia da maior fidelidade ao estilo de Stendhal.

 

Eis por que na ficha técnica vem referido que a tradução é de Maria Manuel e Branquinho da Fonseca.

 

E eu, que já sabia disto tudo há mais de 50 anos, nunca lera o livro quer em francês (em casa dos meus pais havia um exemplar em francês que desapareceu na voragem das mudanças póstumas) quer nesta tradução. A outra, a chamada má por Gaspar Simões, nem sei qual era. Até que há dias deparei com esta edição relativamente recente numa prateleira da biblioteca da casa que tomo de renda numa praia próxima de Lisboa.

 

Suspendi as leituras que trazia e dediquei-me a esta com o à-vontade que me dá a certeza de uma obra notável traduzida por quem não trabalhava ao cronómetro e sabia ser fiel ao estilo do Autor traduzido.

 

E só para dar um cheirinho do que tenho estado a ler entre dois mergulhos nas salsas atlânticas, passo a transcrever pequenos trechos que chamaram a minha atenção. São só três citações e não maço mais.

 

«Para se obter a consideração pública em Verrières é preciso não adoptar (…) qualquer plano trazido de Itália (…). Tal inovação acarretaria sobre o imprudente a eterna reputação de má cabeça, ficando perdido para sempre no conceito das pessoas sensatas e moderadas que distribuem a consideração no Franco Condado. Com efeito, essas pessoas exercem ali o mais aborrecido dos despotismos; e por causa desta feia palavra é que a vida nas cidades pequenas se torna insuportável para quem viveu na grande república que se chama Paris. A tirania da opinião – e que opinião! – é tão estúpida nas pequenas cidades de França como nos Estados Unidos da América.» (pág. 8)

 

Fala o Presidente da Câmara de Verrières à «esposa»:

«- Eu falo, Senhora, como o falecido Senhor Príncipe de Condé, apresentando os camaristas à sua nova esposa: Todos estes homens, disse ele, são nossos criados. (…) Todos os que não são fidalgos e vivem em nossa casa recebendo um salário, são nossos criados.» (pág. 46)

 

«Desde a queda de Napoleão, todas as aparências de galanteria foram severamente banidas dos costumes da província. Receia-se ser-se demitido. Os patifes procuram apoio na congregação; a hipocrisia fez os maiores progressos, mesmo nas classes liberais. O tédio aumenta. Os únicos prazeres que restam são a leitura e a agricultura.» (pág. 50)

 

E muito mais haveria a referir mas o meu leitor tem muito mais que fazer como o meu tio também tinha quando Gaspar Simões lhe «encomendou um sermão» que ele não queria proferir.

 

Continuemos…

 

Fonte da Telha, Julho de 2018

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 Henrique Salles da Fonseca

(lendo por osmose ao estilo do Facebook)

HUMOR PAPAL

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Francisco, o Papa a que me refiro; José Tolentino Mendonça, o Padre a quem o Papa agradece a orientação espiritual durante o retiro quaresmal de 2018 que toda a Cúria Romana e o próprio Papa realizaram; «ELOGIO DA SEDE», o livro de cuja pág. 166 retiro a frase que chamou a minha atenção.

 

“(…) Como dizia a madre superiora [da congregação] às suas irmãs, «Somos homens, pecadores, todos»”.

 

Gosto de um Papa que tem sentido de humor.

 

29 de Junho de 2018

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Henrique Salles da Fonseca

A ESTÁTUA DE LENINE

Estátua de Lenine.jpg

 

 

Ainda havia uma estátua de Lenine em cada povoação russa. A de Arcangel representava o Dirigente, com quinze metros de altura, a sair de um bloco de granito, de rosto determinado, sobretudo a esvoaçar, um rolo de papéis na mão estendida. Parecia estar a chamar um táxi.

 

In «ARCANGEL», Robert Harris, Livros Condensados das Selecções do Reader’s Digest, Dezembro de 1999, pág. 380

 

NOTA: Imagem da estátua de Arcangel não disponível na Internet; a imagem apresentada é a de São Petersburgo

RESPIGANDO… - 1

Brian Haig.jpg

 

SANÇÃO SECRETA Brian Haig – Livros condensados, Selecções do Reader’s Digest, Fevereiro de 2003

 

Os representantes do Ministério Público são os enteados mimados da lei. Têm sempre a possibilidade de escolher que casos é que vão levar a julgamento. Se os factos não lhes são favoráveis ou se detectam alguma infracção aos direitos do acusado, passam ao lado. Os advogados de defesa, pelo contrário, são os eternamente prejudicados. São nomeados apenas despois de um magistrado do Ministério Público ter concluído que existem pelo menos noventa e nove por cento de hipóteses de condenação. Há uma imensidão destes magistrados que ganham constantemente as suas causas enquanto, por outro lado, se contam pelos dedos de uma mão os advogados de defesa que conseguem ganhar metade das respectivas causas.

(pág. 328)

 

A Albânia é um pequeno país muito pobre, habitado por gente de roupas muito simples e onde os edifícios e monumentos, de inspiração estalinista, se encontram seriamente degradados.

 

Os albaneses são um povo muito aguerrido e muito determinado. Não se metem com os outros e esperam, em troca, que não se metam com eles. Sendo a história agitada dos Balcãs aquilo que se conhece, muitos albaneses acabaram por ir viver para outros locais, como a Macedónia e o Kosovo.

 

O Kosovo é assim como que uma Jerusalém dos sérvios, recheado de velhas igrejas ortodoxas e lugares de importância histórica e embora apenas uns dez por cento da gente que lá vive possam reclamar ter, quando muito, uma gota de sangue sérvio, o velho e egoísta Milosevic resolvera varrer de lá os albaneses matando-os ou obrigando-os a deslocarem-se para lá das montanhas, para as vizinhas Macedónia ou Albânia.

(pág. 356)

 

Maio de 2018

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 Henrique Salles da Fonseca

ESCRITORES ESQUECIDOS

 

 

Boileau.jpgNICOLAS BOILEAU

 

Nicolas Boileau-Despréaux (Paris, 1636 — Paris, 1711) jurista, crítico e poeta francês. Publicou o seu primeiro volume de sátiras em 1666. Foi apresentado na corte em 1669 após a publicação de seu Discurso sobre a sátira.

 

Desde cedo aprendeu a não ter qualquer ilusão e cresceu com "o desprezo pelos livros estúpidos". Foi educado no Colégio de Beauvais e continuou os seus estudos de Teologia na Sorbonne. Mudou de curso, para Direito. Seguiu-se breve carreira como advogado. O pai morreu em 1657 deixando-lhe uma pequena fortuna, de forma que se pôde dedicar às letras.

 

PAROLES DU POÈTE À SON JARDINIER, ANTOINE

Antoine, de nous deux, tu crois donc, je le vois,

Que le plus occupé dans ce jardin, c’est toi.

Oh! Que tu changerais d’avis et de langage,

Si, deux jours seulement, libre du jardinage,

Tout à coup devenu poète et bel esprit,

Tu t’allais engager à polir un écrit

Qui dît, sans s’avilir, les plus petites choses,

Fît des plus secs chardons des oeillets et des roses…

 

* * *

 

Sim, eu também não duvido que os trabalhos braçal e intelectual produzem cansaços bem diferentes.

 

Setembro de 2017

 

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Henrique Salles da Fonseca

 

 

BIBLIOGRAFIA

  • Wikipédia
  • «Anthologie de la poésie française», Annie Collognat-Barès, LE LIVRE DE POCHE, Libretti, 1ª edição, Setembro de 1998

LIDO COM INTERESSE – 73

História da Companhia de Jesus.png

 

Título – «HISTÓRIA DA COMPANHIA DE JESUS EM PORTUGAL»

Autora – Maria de Deus Beites Manso

Editora – EDIÇÕES PARSIFAL

Edição – 1ª, Setembro de 2016

 

Da badana se extrai que, fundada por Inácio de Loyola, a Companhia de Jesus tornou-se numa das principais ordens religiosas no combate ao Protestantismo, na aplicação das determinações do Concílio de Trento e no estabelecimento de missões fora da Europa.

Com uma responsabilidade maior na doutrinação, desde a sua implementação ao nosso país, a Companhia de Jesus foi um dos agentes centrais da expansão portuguesa revelando, desde sempre, uma notável capacidade de adaptação aos remotos lugares onde chegava com recurso a múltiplas formas de evangelização – adoptando na Ásia costumes locais perante civilizações e religiões complexas; defrontando-se no Brasil com práticas ancestrais de antropofagia, onde seria edificada uma notável rede de ensino.

A Autora é professora na Universidade de Évora, tem escrita enxuta e produziu um livro de verdadeiro interesse para quem gosta de perceber como fizemos um Império.

Descontando anexos, notas, agradecimentos e referências bibliográficas, são 203 páginas de texto que transmitem uma ideia inesperada sobre a dimensão de Portugal ao longo da vida da Companhia desde que para cá veio no reinado de D. João III até à actualidade: a página 199 inaugura a história jesuíta no território a que actualmente estamos confinados porque nas páginas antecedentes tudo era Império. Mais: enquadrada no Padroado Português, a Província do Oriente da Companhia chegou a ter jurisdição desde o Cabo da Boa Esperança até Nagasáqui sendo também «nossas» as Províncias jesuítas do Brasil e a da África Ocidental.

Sim, Portugal foi grande e, em consequência, a Companhia de Jesus também. A Companhia tem, entretanto, um Papa; nós, não.

Setembro de 2017

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 Henrique Salles da Fonseca

(no Sri Lanka, 2015)

ARENDT E MARX

 

 

O trabalho é a actividade que corresponde ao artificialismo da existência humana (...) porque (...) produz um mundo artificial de coisas nitidamente diferentes de qualquer ambiente natural.

 

Hannah Arendt.jpgHanna Arendt, in The Human Condition, University of Chicago Press, ed. 1984, pág. 7

 

 

É claro que não preconizo o ócio, esse que considero o «pai» de todos os vícios, mas dá gosto comparar esta frase arendtiana com a alienação marxista sobre o que ela escreve a páginas 253-254 da mesma obra:

 

A moderna perda de fé não é de ordem religiosa na sua origem e o seu alcance não se limita à esfera religiosa. Pelo contrário, a evidência histórica demonstra que os homens modernos não foram arremessados de volta a este mundo, mas para dentro de si mesmos. O que distingue a era moderna é a alienação em relação ao mundo e não, como pensava Marx, a alienação em relação ao ego.

 

 

HSF-AGO16-Tavira

Henrique Salles da Fonseca

LIDO COM INTERESSE – 72

O SAMURAI NEGRO-JPOCosta.jpg

 

Título – O SAMURAI NEGRO

Autor – João Paulo Oliveira e Costa

Editora – Temas e Debates - Círculo de Leitores

Edição – 1ª, Maio de 2016

 

Romance histórico escrito por um Professor (universitário) de História, tem naturalmente fundamento histórico relevante. Envolto em trama romanesca, faz com que a leitura seja menos académica, mais leve.

 

A componente romanesca consiste na história de Carlos, um príncipe do Congo, de Pedro, um luso-brasileiro e de Ana, uma japonesa. No Japão, os dois amigos deparam-se com uma civilização diferente mas que os atrai, em especial por causa de Ana.

 

A componente histórica refere-se aos negócios que correm pela feitoria portuguesa de Nagasáqui, base a partir da qual os jesuítas espalham a religião católica sob o olhar algo apreensivo de Roma devido às adaptações introduzidas nos ritos para melhor compreensão dos japoneses. Ao Padre Visitador Alessandro Valignano, incumbido pelo Geral jesuíta de verificar se havia desvios de doutrina, o Autor chama Giuseppe para que se não diga que está aqui a debitar uma aula de História. E é dali, Nagasáqui, que parte a «nau do trato» com prata para ser vendida na China e ali aporta a mesma nau com sedas e porcelanas chinesas para serem vendidas no Japão.

 

De volta à «capa e espada», são os piratas cruéis, os mercadores gananciosos, as mulheres enigmáticas, os samurais disciplinados, os missionários e espiões, os grandes generais e os poderosos senhores feudais que se cruzam com crentes de todas as religiões vivendo paixões intensas, ambições e ciúmes, desejos de vingança e tudo o mais que possa interessar numa história romanceada baseada na História. Interessante, sem dúvida, para quem queira dar um giro pelo entrelaçamento que efectivamente houve entre Lisboa, Goa, o Sul da China e todo o Japão.

 

Foi aqui que fiquei a saber da «ilha dos coelhos gigantes». Se o leitor quiser saber do que se trata, leia o livro.

 

Julho de 2017

071.JPG

Henrique Salles da Fonseca

LIDO COM INTERESSE – 17

 

 

 Amos Oz - Contra o fanatismo.jpg

Título: Contra o Fanatismo

Autor: Amos Oz

Tradutor: Henrique Tavares e Castro

Editores: ASA Editores; PÚBLICO, Comunicação Social

Edição: 1ª, Abril de 2007

 

 

Pequeno livro para meter num bolso sem deformar a vestimenta, consta de três conferências proferidas pelo Autor em 2002, tudo em 95 páginas de leitura muito fácil e agradável.

 

Nunca tinha ouvido falar deste escritor israelita mas uma coisa tenho desde já por certa: não me vão escapar os próximos livros dele com que me cruze.

 

Se me ponho a dissertar sobre o livro, corro o risco de produzir um texto mais longo que o original e com a diferença de que serei enfadonho onde o Autor é interessante, vago onde ele é preciso. Portanto, opto por algumas transcrições que me parecem elucidativas da qualidade do escritor.

 

Da contracapa extraio que Amos Oz nasceu em Jerusalém numa época em que a cidade estaria dilacerada pela guerra e que por isso mesmo observou em primeira mão as consequências nefastas do fanatismo. Neste livro oferece-nos uma visão única sobre a verdadeira natureza do fanatismo e propõe uma abordagem racional que permita resolver o conflito israelo-palestiniano.

 

Da natureza do fanatismo – conferência proferida em 23 de Janeiro de 2002 em local não identificado

 

(…) Conheço bastantes não-fumadores que o queimariam vivo por acender um cigarro ao pé deles! Conheço muitos vegetarianos que o comeriam vivo por comer carne! Conheço pacifistas (…) desejosos de dispararem directamente à minha cabeça só por eu defender uma estratégia ligeiramente diferente da sua para conseguir a paz com os Palestinianos. (…) a semente do fanatismo brota ao adoptar-se uma atitude de superioridade moral que impeça a obtenção de consensos. (…) o culto da personalidade, a idealização de líderes políticos ou religiosos, a adoração de indivíduos sedutores, podem muito bem constituir (…) formas disseminadas de fanatismo. (…) A essência do fanatismo reside no desejo de obrigar os outros a mudar. (…) O poeta israelita Yehuda Amijai (…) afirma: «Onde temos razão não podem crescer flores.» (…) julgo ter inventado o remédio contra o fanatismo. O sentido de humor é uma grande cura. Jamais vi (…) um fanático com sentido de humor (…) Ter sentido de humor implica a capacidade de se rir de si próprio. (…) Todo o sistema político e social que converte cada um de nós numa ilha (…) e o resto da humanidade em inimigo ou rival é uma monstruosidade. (…)

 

Da necessidade de chegar a um compromisso e da sua natureza – conferência proferida em data e local não identificados

 

(…) O conflito israelo-palestiniano não é um filme do Faroeste selvagem. Não é uma luta entre o Bem e o Mal, mas antes (…) um choque entre quem tem razão e quem tem razão (…) (…) luto como um demónio pela vida e pela liberdade. Por nada mais. (…) isto me distingue do pacifista europeu normal que insiste em que o Mal supremo do mundo é a guerra. (…) a guerra é terrível se bem que o Mal supremo não seja a guerra mas a agressão. (…) quando percebemos a agressão, temos de lutar contra ela, venha de onde vier. Mas só pela vida e pela liberdade, não por territórios extra ou recursos extra. (…) Não acredito que o amor seja a virtude com a qual se resolvem os problemas internacionais. Precisamos de outras virtudes. (…) sentido de justiça, (…) senso comum, (…) imaginar o outro (…).

 

Do prazer de escrever e do compromisso – conferência proferida em 17 de Janeiro de 2002 em local não identificado

 

(…) se eu sou de um país em que toda a gente discute sobre tudo, porque não poderei eu fazê-lo também? (…) (…) Israel não é um país nem uma nação. É uma feroz e vociferante colecção de discussões, um eterno seminário na via pública. (…) Existe um impulso anárquico, não só em Israel, mas julgo que também na herança cultural judaica. Por alguma razão os judeus nunca tiveram Papa (…) esta veia anárquica de discussão é a cruz da nossa civilização (…) (…) O contrário de comprometer-me a chegar a um acordo é fanatismo e morte. (…) E quando digo acordo não quero dizer capitulação (…) quero dizer procurar encontrar-se com o outro em algum ponto a metade do caminho. (…) Se há uma mensagem metapolítica nos meus romances (…) é a necessidade de optar pela vida rejeitando a morte, pela imperfeição da vida rejeitando as perfeições da morte gloriosa.

 

Lisboa, Maio de 2007

 

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 Henrique Salles da Fonseca

ENCONTRO DE ESCRITORES – 5 –

 

 

- Eis-me, humildemente, a pedir a intercessão de Santo Ambrósio – rezei eu.

- Aqui estou, meu «filho» – disse de seguida o Santo – Então já sabes quem queres, quando e onde?

- Bem, vejo que não se esqueceu da nossa conversa anterior.

- No Céu, temos o dom da memória total.

- Então, quer isso dizer que o Dr. Alzheimer não está no Céu.

- Vá! Deixa-te de desconversas e vamos ao que interessa.

E fomos...

- Então, é assim, Santo Ambrósio: quanto ao «onde», já tenho tudo combinado para o Paço dos Duques de Bragança, em Guimarães; quanto ao «quando», pode ser logo que eu lá chegue; quanto ao «quem», deixo ao seu critério a escolha dos «reciclados».

- Ah! Essa dos «reciclados» é muito boa! Sim, estão totalmente recuperados dos venenos que os infestaram na Terra. Muito bem, vai tu andando para o dito Paço e quando lá chegares, diz-me. Olha! Nem precisas de mo dizer porque no Céu sabemos tudo e quando eu te vir no local, logo te envio os «reciclados». OHOHOH!!! Essa é muito boa!

E assim foi que me meti ao caminho... chegando nervoso ao grande salão dos banquetes ducais. Quem iria o Santo enviar-me???

Paço dos Duques de Bragança, Guimarães.jpg

 

Foi nessa dúvida que vi a enorme tapeçaria da parede abanar ligeiramente e uma sombra inconfundível a passar junto das garrafas de branco e tinto abertas sobre a grande mesa, como que a medir as saudades dos vapores. Vapor que agora era ele próprio...

 

Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,

Triste de facha, o mesmo de figura,

Nariz alto no meio, e não pequeno;

 

Incapaz de assistir num só terreno, 

Mais propenso ao furor do que à ternura;

Bebendo em níveas mãos, por taça escura, 

De zelos infernais letal veneno;

 

Devoto incensador de mil deidades

(Digo, de moças mil) num só momento,

E somente no altar amando os frades,

 

Eis Bocage em quem luz algum talento;

Saíram dele mesmo estas verdades,

Num dia em que se achou mais pachorrento.

 

Eu próprio me esquecera por completo de pedir copos e, sobretudo, a tal «taça escura» pois bem sabia que ninguém tocaria em nada do que lá pusesse. Inconsequente esquecimento, até porque admito que a passagem pelo Purgatório o tenha desintoxicado dos vapores e da doentia apetência etílica. Poderia ter sido o maior poeta português mas deixou-se rodear por um anedotário de fábula burlesca e até pornográfica que nada terá a ver com ele. Mas pôs-se a jeito e aí está o povo para lhe torcer a fama.

 

Distraído com Bocage, não sei por onde entrou o seguinte que já vinha a declamar com voz tonitruante quando se aproximou de mim, apresentando-se...

 

Sonho que sou um cavaleiro andante. 

Por desertos, por sóis, por noite escura, 

Paladino do amor, busco anelante 

O palácio encantado da Ventura! 


Mas já desmaio, exausto e vacilante, 

Quebrada a espada já, rota a armadura... 

E eis que súbito o avisto, fulgurante 

Na sua pompa e aérea formosura! 


Com grandes golpes bato à porta e brado: 

- Eu sou o Vagabundo, o Deserdado... 

Abri-vos, portas de ouro, ante meus ais! 


Abrem-se as portas d'ouro com fragor... 

Mas dentro encontro só, cheio de dor, 

Silêncio e escuridão – e nada mais! 

 

- Oh Mestre, então veio directamente dos Açores ou do Casino? – perguntei eu.

- Do Céu, meu Caro, do Céu!

Sorri-lhe por fora mas temi-o por dentro. Aquela falta de serenidade não fora muito benéfica no banco do jardim público de Ponta Delgada... à bons entendeurs. E foi por causa desse episódio que teve que passar pelo Purgatório. Pena, tanta perturbação por coisas que estavam fora do seu controlo. Mas, pelo menos, sempre nos explicou algumas das causas da decadência dos povos peninsulares. E essa angústia não poderia dar bons resultados numa mente clinicamente perturbada. Eis por que Deus, por certo, lhe perdoou acto tão desconforme com a esperança.

 

Tive que interromper a conversa com Antero para dar as boas vindas ao barbudo seguinte que trazia um melro poisado no ombro da sobrecasaca. E fui eu que me lembrei dos primeiros versos d’«A velhice do Padre Eterno» e lhos recitei como que a dizer que o reconhecera...

 

O melro, eu conheci-o:

Era negro, vibrante, luzidio,

Madrugador, jovial;

Logo de manhã cedo

Começava a soltar d'entre o arvoredo

Verdadeiras risadas de cristal.

(...)

- Desculpará, Mestre, mas mais não digo porque mais não tenho de cor.

- Ah, Henrique! Não imagina com quem tenho estado...

- Não imagino.

- Com o seu avô.

- Que boa notícia me traz o Mestre! Mas não me surpreende assim tanto como muita gente poderia esperar. Lembro-me perfeitamente da sua frase relativamente a ele de que se tratava de «um Santo que diz não acreditar em Deus». Eu sou testemunha de que ele era um verdadeiro Santo, não no sentido religioso mas sim no da ética e da moral. E a moral e a ética que ele professava eram as cristãs e mais nenhumas. Continuo a não crer que só vai para o Céu quem diz acreditar em Deus; quem diz que não acredita, se tiver tido na Terra um comportamento exemplar na perspectiva moral e ética cristãs, não tem que ser impedido da salvação eterna. Não é por alguém dizer que não acredita em Deus que Ele deixa de existir.

- Exacto! Concordo totalmente com essa perspectiva. Eu próprio O reconheci na hora da morte mas se não tivesse tido bom comportamento durante a vida, poderia muito bem ter passado pela reciclagem (como você diz) do Purgatório e correr o risco de passar de seguida à condenação eterna. Mas é com muito gosto que lhe digo que o seu avô está muito bem. E o seu tio também, lá por isso.

- O meu tio também se dizia ateu. Mas essa é uma questão menor para Deus.

- Bem. Agora vou ali dar uma palavrinha ao folgazão sadino para ele me contar o que fez lá pelo Oriente. Só não sei é se terei muita pachorra para o açoriano trombudo com quem ele está a conversar. Lá terei que os interromper.

E foi...

Então, como no Céu o tempo não conta e nenhum dos etéreos compinchas dava mostras de cansaço, dei por mim a imaginar como haveria de os aproveitar ao máximo sem cansar os leitores destes escritos. Só que eu me comprometi com Santo Ambrósio que todos eles voltavam o mais tardar à meia-noite terrena pois é então que as portas celestiais se fecham e toca a silêncio até às 6 da manhã terrenas. Fácil: deixo-os continuar até à hora limite, registo tudo com pormenor e conto amanhã ou depois aos leitores.

 

(continua)

Henrique em Praga.jpg

Henrique Salles da Fonseca

(Praça Venceslau, Praga)

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