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A bem da Nação

ESTA HISTÓRIA QUE VOS CONTO…

Dr. Ruy d'Andrade.jpg

O dr. Ruy D’Andrade montando o seu cavalo «Vulcano» em “piaffer” e seguido pelo seu galgo «Talego»

 

 

O Dr. Ruy d'Andrade foi o último Presidente da Câmara Municipal de Elvas no período monárquico. Como se compreende, tinha muitos conhecidos na região (a sua propriedade mais conhecida é «Font'Alva» onde ainda hoje vive o neto José Luís) e foi um desses conhecidos que o informou de que se preparava o assassinato do Rei D. Carlos aquando do desembarque em Lisboa daí a poucos dias.

 

O Dr. Ruy pôs-se de imediato a galope (neste cavalo???) de Elvas a Vila Viçosa para avisar o Rei do que acabara de saber e, uma vez chegado, foi ter com D. Carlos e transmitiu-lhe a informação. E o Rei, pondo-lhe uma mão num ombro, respondeu: - Oh Ruy! Já viste que bonito está o tempo?

 

Esta história foi-me contada pelo próprio Dr. Ruy que, comentando, reconheceu que o Rei lhe cortou a conversa como se já soubesse de tudo. O Dr. Ruy entendeu que o Rei se queria imolar. Porquê, para quê? Respostas que estão no túmulo de D. Carlos no Panteão Nacional.

 

Março de 2018

Buenos Aires, 2012.jpg

Henrique Salles da Fonseca

HISTÓRIA VIVIDA - 1

 

COEVOS E COESOS

 

Coevo é sinónimo de contemporâneo e os historiadores estão sempre a procurar documentos coevos do acontecimento que querem historiar porque os consideram as fontes verdadeiramente fidedignas, credíveis; que tudo o mais é susceptível de dúvidas, de interpretações.

 

Ora, se ser contemporâneo é prova historicamente reconhecida de fidelidade ao acontecimento, então nós próprios – os que vivemos certos acontecimentos – somos esses «documentos» coevos historicamente reconhecidos como válidos. Ou seja, os nossos relatos pessoais são tão válidos (ou mesmo mais) do que as crónicas de Fernão Lopes relativas a D. Pedro I e a D. Fernando ou de Gomes Eanes de Zurara relativamente a D. João I. Estes cronistas relataram o que presenciaram mas também dá para crer que escreveram o que os respectivos «patrões» lhes mandaram escrever. E nós, que vivemos os acontecimentos de que falamos e não temos «patrões», não somos credíveis, porquê?

Fernão Lopes.jpgFernão Lopes

 

Zurara.jpgGomes Eanes de Zurara

 

Coeso é aquele em que há coesão, o que une, liga; o que é fiel à verdade dos acontecimentos a que se sente ligado.

 

E a questão é a de saber por que razão Fernão Lopes e Zurara hão-de ser mais credíveis que nós, os que vivemos nos tempos dos Consulados do Doutor Salazar e do Professor Marcello Caetano.

 

Nós, sendo coevos e coesos, somos provavelmente mais credíveis que esses afamados cronistas pois nós assistimos às ocorrências e não nos submetemos a quem nos queira dizer o que devemos escrever.

 

E quem são esses «nós»? Não sei. Falo por mim e digo o que penso. Eu sou o tal «documento» coevo e coeso porque assisti a muitos acontecimentos das épocas relativas aos Consulados que refiro e não tenciono escrever de modo diferente ao que observei.

 

Janeiro de 2018

Dubrovnik-réveillon 2016-17 (2).jpg

 Henrique Salles da Fonseca

ACADEMIA PORTUGUESA DE HISTÓRIA

Marcello Caetano.jpg

 

Marcello Caetano, Historiador e a Academia Portuguesa da História

 

OradorAntónio Alves Caetano, Professor Doutor

Local – Lisboa, sala de actos da sede da Academia

Data – 24 de Janeiro de 2018 (15,00 h.)

 

* * *

 

Nota prévia – fui marcelista por quase todas as razões que me tinham feito não salazarista, o que explicarei noutra ocasião. Por agora, basta dizer que considero importante fazer justiça a Marcello Caetano. Também para isso, fui à conferência.

 

* * *

 

Sala tão cheia que foi necessário ir não sei onde arrebanhar cadeiras para que não fossem muitos assistentes a ficar de pé. A coxia central quase desapareceu; as coxias laterais já lá não estavam quando entrei.

 

O orador tinha sido meu Professor na minha efémera passagem pelo ISCEF em 1962/3 (donde zarpei enxotado pelo famigerado ambiente das greves académicas) e dele guardava uma ideia que confirmo passados todos estes anos: a de quem, com toda a naturalidade, se dá ao respeito, sabe do que fala, ensina com método.

 

Hoje, para além das características anteriores, falou com erudição.

 

O tema geral era meu desconhecido pois sabia que o Professor Marcello Caetano fora doutrinador de Direito mas não sabia que tinha sido historiador. E, pelos vistos, com vastíssima obra - desde os temas relativos às estruturas económicas medievais na cidade de Lisboa e as questões legais e políticas abordadas nas Cortes de Leiria em 1254 até às «manigâncias» manuelinas contra os judeus, tudo foram novidades para mim. E muitos mais temas que não fixei porque erradamente não tomei notas.

 

Recordei que a Academia Portuguesa de História, instituída em 1936, é a sucessora da Academia Real da História Portuguesa instituída no reinado de D. João V e fiquei hoje a saber que o Professor Marcello Caetano fez parte do grupo de refundadores ocupando a cadeira 24 até que faleceu em 1980. Apesar de academicamente ser de ramo diferente, foi reconhecido como historiador e teve cargos relevantes na estrutura da Academia.

 

Debalde, procurei o seu retrato numa das paredes da sala de actos mas concluo que deve estar exposto nalguma outra dependência a que o público anónimo não tem acesso…

 

Resta-me a esperança de que o Professor Alves Caetano autorize que a Academia publique o texto da sua conferência. Comprarei com todo o interesse.

 

No final, houve um simpático período de comentários, perguntas e respostas de que fixei o pedido de alguém na assistência no sentido de se organizar outra conferência em que se aborde o tema de «Marcello Caetano como pedagogo».

 

Em vez de pedir a palavra nesse período, aproveito agora este espaço que o éter me oferece aqui para pedir que se realize ainda uma outra conferência que aborde o tema «Marcello Caetano como actor na História de Portugal».

 

É que só assim se começará a fazer a justiça que tarda.

 

Janeiro de 2018Barranco, Lima, Peru, 12 de Outubro de 2017.jpg

 Henrique Salles da Fonseca

RESTAURADORES DA SOBERANIA NACIONAL EM 1 DE DEZEMBRO DE 1640

 

Restauracao-Tapecaria_Portalegre.jpg

 

 

Afonso de Menezes, D.

Álvaro Coutinho da Câmara, D.

Antão Vaz d’Almada, D.

António de Alcáçova Carneiro, D. – Alcaide-mor de Campo Maior

António Álvares da Cunha, D. – 17º Senhor de Tábua

António da Costa, D.

António Luís de Menezes, D. – 1º Marquês de Marialva

António de Mascarenhas, D.

António de Melo e Castro

António de Saldanha – Alcaide-mor de Vila Real

António Teles da Silva – Governador do Brasil

António Telo, D.

Carlos de Noronha, D.

Estêvão da Cunha

Fernando Teles de Faro, D.

Fernão Teles de Menezes – 1º Conde de Vilar Maior

Francisco Coutinho, D.

Francisco de Melo

Francisco de Melo e Torres – 1º Marquês de Sande

Francisco de Noronha, D.

Francisco de São Paio

Francisco de Sousa, D. – 1º Marquês das Minas

Gaspar de Brito Freire

Gastão Coutinho, D.

Gomes Freire de Andrade

Gonçalo Tavares de Távora

Jerónimo de Ataíde, D. – 6º Conde de Atouguia

João da Costa, D. – 1º Conde de Soure

João Pereira, D.

João Pinto Ribeiro, Dr.

João Rodrigues de Sá

João Rodrigues de Sá e Menezes, D. – 3º Conde de Penaguião

João de Saldanha da Gama

João de Saldanha e Sousa

Jorge de Melo

Luís Álvares da Cunha

Luís da Cunha

Luís da Cunha de Ataíde, D. – Senhor de Povolide,

Luís de Melo, Alcaide-mor de Serpa

Manuel Rolim, D. – Senhor de Azambuja

Martim Afonso de Melo – Alcaide-mor de Elvas

Miguel de Almeida, D. – 4º Conde de Abrantes

Miguel Maldonado

Nuno da Cunha de Ataíde, D. – 1º Conde de Pontével

Paulo da Gama, D.

Pedro de Mendonça Furtado – Alcaide-mor de Mourão

Rodrigo da Cunha, D. – Arcebispo de Lisboa

Rodrigo de Menezes, D.

Rodrigo de Resende Nogueira de Novais

Rui de Figueiredo – Senhor do morgado da Ota

Sancho Dias de Saldanha

Tomás de Noronha, D. - 3º Conde dos Arcos

Tomé de Sousa - Senhor de Gouveia

Tristão da Cunha e Ataíde - Senhor de Povolide

Tristão de Mendonça

 

TOTAL = 55

CARTA DE UN MINISTRO AL REY FELIPE IV

          Philip_IV_of_Spain (D. Velásquez).jpg

"Dicen a Vuestra Magestad que Portugal no tiene dinero, no tiene navíos, no tiene gente: traidores son los que lo dicen. Pues con qué nos tienen destruidos? Sin gente nos tienen tantas veces desbaratados; Válgame Dios, que fuera con gente! Sin dinero lloramos nuestras ruinas, qué lloráramos si tuvieran dinero? Señor: Portugal nos desbarató en Montijo [batalla de Montijo, 1644], nos destruyó en Yelbes [batalla de Elvas, 1659], Luis Méndez de Haro [Valido de Felipe IV] huyó dejando caballos, artillería, infantes y bagajes.

 

Portugal en Évora [batalla de Estremoz o de Ameixial, 1663] destruyó la Flor de España, lo mejor de Flandres, lo lucido de Milán, lo escogido de Nápoles y lo granado de Extremadura.

 

Vergonzosamente se retiró S.A [El Príncipe D. Juan José de Austria, hijo de Felipe IV] dejando ocho millones que costó la empresa, ocho mil muertos, seis mil prisioneros, cuatro mil caballos, veinticuatro piezas de artillería, y lo más lastimoso fue que, de ciento veinte títulos y cabos, no escaparon sino cinco (...). Cada día espera Vuestra Magestad que se gane, y cada día sepa Vuestra Magestad que se pierde, y que es mucha la pérdida de cada día."

 

[Poco después de estas palabras, tuvo lugar la derrota de Castelo Rodrigo en 1664, y la aplastante derrota de Villaviciosa o Montes Claros en 1665].

LIDO COM INTERESSE - 19

 
 
 
 
Título«Diário de Leal Marques sobre a formação do primeiro
                 Governo de Salazar»

Fátima Patriarca.jpg

AutoraFátima Patriarca

 
Editora – Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa
              
Edição – “Análise Social” – Vol. XLI, 1º Trimestre 2006, pág. 169 e seg.
 
 
 

Antero_Leal_Marques_1930_1941.jpg

 

 
Poucos serão os portugueses actualmente vivos que já tenham ouvido falar de Antero Leal Marques e ficarão por certo espantados ao saberem que este farmacêutico foi Chefe do Gabinete de Salazar durante uma dúzia de anos, entre 1928 e 1940.
 
Dá para imaginar, num país com 900 anos de História, quantas personalidades ainda estarão envoltas nas brumas da nossa ampla e faustosa ignorância …
 
Pois foi esse desbrumar que a Dr.ª Fátima Patriarca, Investigadora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, nos proporcionou com este trabalho.
 
Trata-se da explicação do manuscrito do «Diário» em apreço que abarca o período compreendido entre os dias 28 de Junho e 11 de Julho de 1932, ou seja, o relativo à formação do primeiro Governo do Doutor Salazar e nele se compreende como foi complicado gerir um processo cheio de nuances.As subtilezas tinham muito a ver com o regime – República ou Monarquia – mas também havia que considerar a indisciplina que grassava no Exército, na Marinha e na Guarda Nacional Republicana.
 
A mudança de regime foi claramente um processo de transição morosa e traumática em que o alevantamento dos espíritos era frequentemente fomentado por quem pretendia ver satisfeitas mordomias a que se habituara ou a que se queria habituar. O jogo de interesses e a “prestação de serviços” está claramente exposto neste «Diário»: por ele se vê como os quartéis tiveram que “ser postos em sentido” e como foi necessário induzir o “sentido de Estado” a todos aqueles que se queriam manter na política.
 
Transparece como evidente que a preparação do terreno que o Doutor Salazar pisou em muito se deveu ao trabalho do General Domingos de Oliveira que não contou com polícias secretas nem terá recorrido a procedimentos democraticamente menos deontológicos. O autor do «Diário» tece-lhe mesmo assinaláveis encómios com os quais o General se comoveu e … comover um General não será uma tarefa de cumprimento diário, presumo.
 
O «Diário» é antecedido de uma breve apresentação em que a Autora resume a biografia de Antero Leal Marques, nomeadamente nos períodos anterior e posterior à época em que trabalhou directamente com o Doutor Salazar e ao longo do texto do documento transcrito vai produzindo Notas do maior interesse identificando as personalidades amiúde nomeadas de tal forma que o leitor se consegue integrar no ambiente descrito.
 
Para além do mérito científico que o trabalho evidencia, trata-se de uma leitura muito agradável que nos faz compreender os acontecimentos sem a influência da actual propaganda política e que nos incentiva à descoberta de outras personalidades ocultas que nos espreitem lá dos recantos em que se encontrem na História de Portugal.
 
 
Tavira, 10 de Agosto de 2007
 
Henrique Salles da Fonseca

PELA ROTA DA ÍNDIA

MOGADOR-ESSAOUIRA.jpg

 

 

Pela rota de Índia se foi fazendo Portugal e disso é prova que foi com os dinheiros realizados na Europa com mercadorias exóticas, tais como o açúcar madeirense, que se financiou o início da construção em Lisboa do Hospital de Todos os Santos. Corria o ano de 1498.

 

Mas foi bem antes disso, em 1430, que os monges da Ordem da Trindade se instalaram definitivamente em Tavira ali construindo o Hospital do Espírito Santo para apoio aos navegantes e combatentes no norte de África. De tal modo a sua acção se destinava a apoiar os agentes da conquista que há quem considere este o primeiro hospital do ultramar português.

 

Dará para imaginar no que nessas épocas remotas consistiam os hospitais e que medicina neles se praticava?

 

Fossem quais fossem, eram os tratamentos que à época se conheciam mas a higiene devia ser bem duvidosa. Normalmente, aproveitavam-se umas casas que estivessem livres e de que o Alcaide ou Governador militar pudessem dispor nelas autorizando a entrada de doentes que se recolhiam a montes de trapos a que chamavam enxerga. Era sobre esses trapos que se derramavam os humores sempre fétidos só que alguns purulentos e outros apenas orgânicos. Dá para imaginar . . .

 

Quem desses doentes tratava eram religiosos que tudo faziam por amor a Deus pois outro sentimento não poderá ser invocado no meio de tanta pústula, escara, febre e gemido. Era pois necessário que os religiosos seguissem os mareantes. Sobretudo a partir do momento em que pelo ano de 1434 Gil Eanes dobrou o Cabo Bojador e em que a evacuação de doentes para Portugal deixava de ser possível sem acrescidos riscos na sobrevivência do infeliz. A expansão da Fé passou a ser anunciada como um objectivo das descobertas portuguesas mas não restam muitas dúvidas de que só assim é que se conseguiria convencer a Igreja a acompanhar esses meio azougados aventureiros que estavam certamente muito mais interessados no ouro da Mina e nos curativos hospitalares do que na piedade inspirada no crucifixo.

 

Apesar da relativa proximidade, em 1486 foi instalado em Safim um local de acolhimento dos doentes enquanto não eram evacuados para Tavira. Acabou este local por desempenhar as funções de verdadeiro hospital pois chegou a ter físico, cirurgião e boticário. A terra era pobre naquelas paragens mas o mar, esse, era pródigo em pescarias e era nessa faina que os portugueses lá andavam por longos períodos. O pretexto para se instalar este hospital foi o do apoio aos nossos pescadores mas acabou por servir toda a população indígena que muito beneficiou com a situação. Datam de muito mais tarde, 1516, os hospitais de Tânger e Arzila e é incerta no tempo a fundação do Hospital de Santa Cruz do Cabo de Gué, hoje Agadir, que foi praça portuguesa entre 1505 e 1541.

 

Mas se a rota do Algarve d’além-mar (Marrocos) para Portugal se fazia em linha recta e o porto de chegada era algures no Algarve d’aquém-mar, quando a origem da viagem era a sul do Cabo Bojador, a rota era circular zarpando as caravelas para o mar alto rumo à Madeira e Açores, daí tomando o nascente até Lisboa. Eis a razão pela qual foi necessário edificar em Lisboa o Hospital de Todos os Santos e não mais no sul do reino. Só que o hospital de Lisboa nunca foi considerado afecto ao ultramar pois atendia sobretudo às populações residentes na cidade e cercanias.

 

O mais antigo hospital situado além do Bojador foi mandado erigir em 1497 pelo Rei D. Manuel na Ilha de Santiago, em Cabo Verde, a que se seguiu o de S. Jorge da Mina (actual Gana) em 1498. Foi ainda o Rei D. Manuel que em 1504 mandou instalar o hospital em S. Tomé para apoio aos mareantes que demandavam o Manikongo mas que acabou por se destinar sobretudo às populações residentes em clima tão inóspito como aquele que hoje sabemos ser sobretudo palustre.

 

... e assim foi que Bartolomeu Dias dobrou o Cabo das Tormentas.

 

Chegados ao Índico, havia que prover aos cuidados nessa banda já tão longínqua e nada menos do que dois hospitais foram instalados em 1505 em Sofala e Quilôa e o da Ilha de Moçambique em 1507. Foi este último que passou a assumir a liderança no sistema de saúde português na costa oriental de África dadas as condições de salubridade do local e a afabilidade dos povos indígenas.

 

Mas a navegação no Atlântico sul deixou em 1500 de se fazer ao longo da costa africana passando a fazer-se pelo recém-descoberto Brasil com aproveitamento total dos alísios e evitando as calmarias namibianas. Eis como se tornou necessário e possível instalar um hospital na resguardada Bahia de Todos os Santos. Contando com o de Tavira, foi este o 9º na sucessão.

 

Data de 1511 a instalação do hospital em Melinde, não longe de Zanzibar, onde os portugueses largavam habitualmente a navegação costeira para se fazerem à travessia do Índico rumo a Chaul, já na costa do Malabar.

 

A amizade estabelecida por Vasco da Gama com o Rei de Cochim facilitou a instalação naquele porto em 1505 do mais antigo hospital português naquela costa, a que se seguiu em 1506 o de Cananor. São incertas as datas em que se edificaram os hospitais em Goa e Baçaim mas em 1512 Afonso de Albuquerque vê-se obrigado a expulsar os falsos doentes que se recolhiam em mendicidade no hospital de Goa e por carta datada de 31 de Outubro de 1548 da Misericórdia de Baçaim se ficou a saber que “(…) porque serteficamos a Vossa Alteza, que o ano em que sercarão Dio (1546), forão tantas as necessidades desta terra de feridos e doentes e pobres, que a elle della vyeram que nem ho espritall, nem a misericordia, nem o capitão nem outras nenhumas pessoas erão poderosas pera os agasalhar, nem curar, nem respairar, como hera necessaryo, se não forão os moradores desta terra que, ainda que são pobres, vendo quanto compria ao serviço de Deus e de Vossa Alteza, faziãm de suas casas espritais, e gastavão o seu, e davam muita conssolação dos ferydos e doentes que de Dio vynhão, que herão muytos”.

 

Assim contamos 17 hospitais entre Tavira e Baçaim. Ficam por contar os que se instalaram para lá da Índia. Mas disso tratarei alhures quando o Sol cair em terra e se puser por trás de Madurai e Pondicherry.

 

Lisboa, 28 de Março de 2006

 

Buenos Aires, 2012.jpg

Henrique Salles da Fonseca

 

 

BIBLIOGRAFIA:

ARMADAS PORTUGUESAS – apoio sanitário na época dos Descobrimentos

Autor: Médico Capitão-de-mar-e-guerra José de Vasconcellos e Menezes

Editor: Academia de Marinha, Lisboa, 1987

O CULTO AO ESPÍRITO SANTO EM PORTUGAL E AÇORES

 

Arcada 1941-Igreja e Hospital do Espírito Santo,

 

Dizia Marcelino Lima, através do livro do picoense Tomaz Duarte Jr. que ..."A rainha Isabel de Aragão introduziu em Portugal o culto do Espírito Santo, sob a égide espiritual e os ideais escatológicos do Abade Joaquim de Flora". O que levou em 1323 à fundação da primeira Igreja do Espírito Santo e respectivo hospital no nosso país (Vila de Alenquer).

 

À exemplo das Associações alemãs e francesas medievais (1160) que sob a invocação do Espírito Santo se dedicavam ao auxílio indigentes, pobres e doentes, depois da sua expansão em Portugal com a fundação de Confrarias, Irmandades e Casas do Espírito Santo, no século XV chegou com os franciscanos aos Açores. Hoje as festividades do Espírito Santo são uma força que marca a cultura e o turismo religioso no Arquipélago e na diáspora açoriana, apesar da sua decadência no Continente Português.

MADUFA-Procissão Açores.jpg

Procissão das Rosquilhas, Vila da Madalena (Pico)

 

Maria Eduarda Fagundes

 Maria Eduarda Fagundes

Fonte: O Culto do Espírito Santo (Tomaz Duarte Jr.) 2001

FUGA OU SALVAÇÃO DO ESTADO?

 

D. João VI

 

 

Na Escola, nem sempre foi essa a interpretação. Na década de 60 do século passado, aprendi que o Príncipe Regente, D. João, era um fraco comilão de frango que fugiu covardemente para o Brasil quando Portugal foi invadido pelas tropas de Napoleão Bonaparte. Só que a História contada, pela maneira que interessava, não explicava qual era o contexto político europeu naquela ocasião... Fuga simplesmente ou estratégia para escapar das forças militares francesas, que já tinham submetido boa parte das nações da Europa? Este texto de Miguel Castelo-Branco dá seu ponto de vista.

 

Nota curiosa:

Segundo o relato do despacho do almirante inglês Sidney Smith, a 29 de Novembro de 1807, enquanto a esquadra se afastava no horizonte, levando rumo ao Brasil a Coroa Portuguesa, em terra, a força francesa, que acabara de invadir Lisboa, se apinhava nos morros para contemplar impotente e raivosa a escapada da sua presa mais cobiçada!. (pg 54 D. João VI no Brasil)


Não foi fuga, foi a salvação do Estado

 

Mais de 200 anos decorridos sobre a invasão franco-espanhola, ainda se discute a conveniência ou o acerto da transferência do governo e corte para o Brasil, apodando-a muitos – os mesmos de sempre – como fuga. Não se foge quando a bordo da quase totalidade esquadra real parte o governo em peso, a rainha e o Regente com a família, o tesouro do Estado, a biblioteca real (que ficou para sempre no Rio de Janeiro), documentos e bens de toda a espécie.

 

Acompanhada por muitas dezenas de navios de comércio, a esquadra de guerra furtou-se à sua utilização por Napoleão. O Príncipe Regente e a família, símbolos da soberania, não vão negociar nem se espoliar aos pés do Corso. Chegado ao Rio, o soberano tem como primeira medida declarar guerra à França, guerra esta que se prolongará até à entrada do exército português em Toulouse (1814). Em toda a Europa, o ditador coroado Napoleão I tinha manipulado, ofendido e humilhado os soberanos e as nações. Retalhara impérios seculares, criara novos Estados à medida dos seus interesses e da sua família. Espezinhara direitos adquiridos e violara todas as regras da diplomacia, levando Talleyrand a pronunciar a célebre frase …”o que é excessivo torna-se insignificante”…

 

Bonaparte estabeleceu uma tirania em todo o continente, impondo pautas aduaneiras abusivas, saqueando recursos dos países ocupados e estabelecendo a desigualdade como base de consolidação da França imperial. A política de destruição e de saque, acompanhada por todo o tipo de atrocidades sobre as populações era o quadro geral que se oferecia. Contudo, sempre houve quem entendesse ir ao encontro do invasor, procurando o entendimento possível que permitisse o exercício de um qualquer tipo de poder, por muito ilusório que fosse. Assim aconteceu com a deputação enviada à pressa a Baiona, prestando vassalagem ao conquistador que já tinha como refém o sogro do Príncipe Regente, o rei Carlos IV de Espanha. Cedendo e negociando, a Espanha sujeitou-se a todas as arbitrariedades inimagináveis, tendo mesmo que suportar a colocação no trono de José Bonaparte, arvorado em simples Maire de Madrid com o pomposo título de rei da Espanha e das Índias.

 

Numa época em que a honra ainda contava no âmbito das relações internacionais, o futuro D. João VI poupou-nos a tudo isto. No memorial de Santa Helena, Bonaparte acabou por reconhecer o fracasso da sua política no ocidente europeu, quando viu frustrado o seu projecto de capitulação portuguesa.

 

Nada surpreendente é a posição da generalidade dos académicos brasileiros, que julgam esta transferência da corte e governo de uma forma absolutamente positiva. Não se encontrando comprometidos com os interesses e “legitimações” dos regimes que têm vigorado em Lisboa, estabelecem a partida da família real como um marco imprescindível para a compreensão dos acontecimentos que, tendo garantido a sobrevivência de um Portugal independente, conduziram também à pacífica independência do Brasil.

Miguel Castelo-Branco

 

PS: A quem interessar, o livro D. João VI no Brasil de Oliveira Lima (escritor e diplomata recifense), um dos maiores estudiosos de D. João, mostra parte dessa história!

 

Maria Eduarda Fagundes

Maria Eduarda Fagundes

O TÚMULO DO REI D. DINIS...

Tumulo de D. Dinis.jpg

 


... foi aberto em 1938

 

O Rei D. Dinis escolheu a Igreja do Mosteiro Cisterciense de Odivelas para sua última morada. Indicou mesmo o local: a meio, entre a capela-mor e o coro.

 

Para que a sua vontade fosse cumprida, fez essa declaração no seu testamento.

 

Assim se cumpriu.

 

Naquele local e naquele Igreja foi depositado o seu corpo quando o cortejo fúnebre chegou, vindo de Santarém. Era um mausoléu majestoso. O primeiro a ter uma estátua jacente. O primeiro a ficar dentro de um lugar sagrado.

 

Estava cercado de grades altas de ferro terminando em escudetes nas pontas dos balaústres com as armas de Portugal e cruzes da Ordem de Cristo. Um dossel cobria-o em toda a sua dimensão.

 

O sismo de 1755 precipitou sobre o túmulo a abóbada da igreja, deixando-o gravemente arruinado.

 

Reconstruída a Igreja, foi o túmulo encostado à teia do corredor lateral direito e ali esteve até 1938, ano em que se fizeram novamente obras na Igreja.

 

Em consequência dessas obras, foi necessário mudá-lo de lugar e para facilitar o trabalho transportaram primeiro a tampa, pelo que, logo que a levantaram, ficaram à vista os restos mortais do Rei. Viu-se então um manto de brocado vermelho a cobrir o corpo do Rei, da cabeça aos pés. Este manto era tecido com fios de ouro.

 

A todo o cumprimento tinha faixas alternadas, separadas com fios dourados e onde se tinham executado bordados com os seguintes motivos: numa das faixas estavam bordadas pinhas em toda a sua extensão; na faixa seguinte bordaram açores e na última viam-se flores de Liz.

 

Na opinião dos que assistiram a este acontecimento, as pinhas são uma referência ao pinhal de Leiria; os açores, sendo o Rei um amante da caça de volataria[1], lembram-nos as aves de caça que muito estimava (conta-se que até mandou construir uma capela a São Luís em Beja porque este santo lhe ressuscitou um falcão); as flores de Liz são uma afirmação da sua ascendência real francesa.

 

Retirado o manto, ficou à vista o esqueleto do Rei, que estava completo e coberto pela pele ressequida. Tinha vestido um colete de lã branca muito macia, sobre a túnica. A cabeça repousava numa almofada e estava inclinada como quem dorme sobre o lado esquerdo, posição que o corpo acompanhava ligeiramente. O braço direito dobrado sobre o peito e o esquerdo descaído ao longo do corpo. Apenas os ossos dos pés estavam separados uns dos outros. Nos maxilares, a pele estava um pouco separada e apresentava uma longa barba ruiva. Na cabeça, a pele não se apresentava solta do crânio e tinha tufos de cabelos ruivos.

 

O Rei tinha 64 anos quando faleceu, o que para a época era uma idade avançada.

 

Apesar da idade, conservava todos os dentes.

 

Perante os restos mortais do Rei, os pintores dos seus retratos não se podiam ter enganado mais. Foi uma surpresa a verificação que era ruivo, o que se deve ao facto de ter antecedentes germânicos.

Afirma-se que soldados franceses terão tentado profanar o túmulo pensando que o Rei teria sido sepultado com esporas de ouro. De facto, alguém partiu o túmulo no sítio dos pés e terá introduzido um objecto que puxasse as esporas.

 

Não garanto que tivesse sido assim, mas o facto de os ossos dos pés estarem espalhados, pode ter essa explicação.

 

Não há sinais de o túmulo ter sido aberto antes de 1938 nem notícia de ter sido aberto depois.

 

Posteriormente, por decisão dos técnicos das obras, foi levado para o segundo absidíolo esquerdo, decisão que não foi aprovada pelo Presidente do Conselho que ordenou a sua remoção para dentro da Igreja por saber que essa era a vontade do Monarca. Foi então colocado onde hoje se encontra – na capela do lado do Evangelho.

 

"Estes são conhecimentos porque uma pessoa com saber e responsável soube transmitir-nos o que viu. Era então Director do Instituto de Odivelas um grande Militar e Pedagogo, Coronel Ferreira Simas. Assistiu à abertura e ordenou a uma professora de desenho que reproduzisse os bordados do manto.

 

Mais tarde, teve conhecimento de um artigo que fazia uma descrição cheia de atropelos. Então ele fez um relatório dos factos, com a descrição do que viu. Merece todo o crédito a sua descrição e foi aí que obtive as informações que aqui vos deixo com enorme satisfação."

 

Maria Máxima Vaz.jpg

 Maria Máxima Vaz

 

[1] - arte de caçar com falcões ou outras aves; altanaria

 

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