Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

A bem da Nação

QUEM DIRIA…

Manuel_Teixeira_Gomes.png

Manuel Teixeira Gomes

(Portimão, 1862 – Argel, 1941)

(7ª Presidente da República – 6/10/1923 – 11/12/1925)

Principais obras literárias (in Wikipédia):

* * *

Membro de família abastada, Manuel Teixeira Gomes nasceu em Portimão no ano de 1862 e pelos 10 anos ingressou no seminário de Coimbra até que passou para a Universidade a fim de cursar medicina. Mas a boémia foi mais forte do que o rigor científico e assim foi que o jovem se passou a dedicar mais às artes, ou seja, à estroina.

O abastado pai convenceu-se então de que mais valia continuar a dar-lhe a mesada e deixá-lo viver a sua vida de rapaz, já então com mesclas de literatura, pintura e escultura. Mudando-se para Lisboa, optou pela literatura e passou a colaborar em revistas e jornais… até que o pai o conseguiu atrair para os negócios da família (frutos secos, nomeadamente algarvios) e o fez viajar pelo Mediterrâneo e Europa firmando contratos um pouco por toda a parte. O próprio escreveu na sua “Miscelânea”: Fiz-me negociante, ganhei bastante dinheiro e durante quase vinte anos viajei, passando em Portugal poucos meses.

Foi neste período que ganhou mais mundo do que aquele que já de cá levava, passou por experiências que lhe proporcionaram grandes recordações e nos facultaram a nós, seus leitores, páginas admiráveis. Senhor de vasta cultura, pôs no papel episódios rocambolescos e de muito outras ordens, por exemplo, aqueles que nos deixou intitulados “Duas novelas eróticas”. Quem diria…

Republicano, a sua vida política ao serviço do novo regime começou logo em 1911 e prolongou-se até 1918 no espinhoso cargo de Embaixador em Londres. Levar a Velha Albion a reconhecer a jovem e ainda pouco estável República Portuguesa não era tarefa fácil uma vez que os monarcas britânicos tinham laços familiares com os depostos monarcas portugueses que viviam exilados em Inglaterra. Mas conseguiu insinuar-se de tal modo que ao fim de alguns anos a família real o passou a convidar para o palácio com toda a naturalidade. Sabe-se, por exemplo, que a rainha Alexandra lhe pediu para lhe decorar o gabinete oriental no Palácio de Buckingham.

Normalizadas as relações diplomáticas entre Portugal e a Grã-Bretanha, foi a vez de em 1918 Sidónio Paes subir ao Poder demitindo o Embaixador em Londres que regressou ao Algarve para gerir directamente as suas propriedades.

Contudo, o fim do consulado sidonista fez com que logo em 1919 Teixeira Gomes fosse novamente chamado à diplomacia, desta feita em Madrid e em Londres.

Como Presidente da República, ocupou o cargo entre 5 de Outubro de 1923 e 11 de Dezembro de 1925 mas demitiu-se antes do fim do mandato deixando-nos com o seu conhecido desabafo: A política, longe de me oferecer encantos ou compensações, converteu-se para mim, talvez por exagerada sensibilidade minha, num sacrifício inglório. Dia-a-dia, vejo desfolhar, de uma imaginária jarra de cristal, as minhas ilusões políticas; sinto uma necessidade, porventura fisiológica, de voltar às minhas preferências, às minhas cadeiras e aos meus livros.

Com o advento do Estado Novo em 1926, auto-exilou-se em Argel onde retomou a escrita dos seus livros até que morreu em 1941. O seu corpo foi trasladado para Portugal em 1950 mas os seus escritos já cá estavam. Por exemplo, esses contos eróticos.

É de nos perguntarmos sobre o que será mais estranho: se um escritor do erotismo chegar a Presidente da República; se um Presidente da República divagar pelo erotismo.

Ainda estou na minha: quem diria…

Claramente, uma personalidade sobre que falamos de menos e que lemos de menos. Pela minha parte, sinto que devia lê-lo mais se houvesse onde encontrar os seus livros. Na falta de novas edições, penso nele de cada vez que sobrevoo Argel e faço o gesto simbólico de o cumprimentar levando a mão esquerda ao chapéu (que não uso nos aviões) libertando a direita para um aperto de mão a «quem a levou bem levada» e deixou uma ou duas filhas pela calada das noites algarvias…

Henrique Salles da Fonseca

 

BIBLIOGRAFIA:

Manuel Teixeira Gomes, DUAS NOVELAS ERÓTICAS – Contexto Editora – Lisboa, 1995

UMA MÃO CHEIA DE PROBLEMAS

Em 1750, mais de 200 anos após o Tratado de Tordesilhas, é assinado o «Tratado de Madrid» ou «Tratado dos Limites» como também ficou conhecido, que, mais uma vez, procurou resolver pela via diplomática os problemas de fronteiras entre os territórios pertencentes à Coroa portuguesa e aos domínios espanhóis, constituindo uma nova etapa na trajectória das missões jesuítas.

TRATADO DOS LIMITES-1750.jpg

A Colónia de Sacramento passou de novo para a posse de Espanha em troca dos Sete Povos das Missões, da margem esquerda do rio Uruguai. Os índios deveriam abandonar as suas terras, retirando-se do actual Rio Grande do Sul para a margem ocidental do rio Uruguai, hoje território argentino e paraguaio. É decretado o gradual desmantelamento das missões.

Os guaranis não acolheram bem a decisão da entrega das terras e das aldeias edificadas ao longo de décadas. O abandono das terras representava a ruína total dos povoados e a destruição de toda as actividades económicas, sociais, políticas e religiosas vividas naqueles espaços. Os guaranis resistiram às determinações régias e o contingente militarizado das reduções passou a representar uma ameaça aos intentos das potências ibéricas que decidiram invadir as missões. Para a Europa, era inconcebível que os indígenas não fossem súbditos fiéis e obedientes, comportando-se de acordo com as monarquias ibéricas. Em Maio de 1754, dois exércitos vão contra os redutos: um português vindo de Norte por mar; outro espanhol vindo do Sul pelo rio Uruguai. A 12 de Fevereiro de 1761, optou-se pela substituição do «Tratado de Madrid» pelo «Tratado do Prado», que estatuía a entrega dos Sete Povos das Missões e da Colónia do Sacramento aos antigos donos. Novos conflitos eclodiram e a paz só viria a ser restabelecida em 1777 com o «Tratado de Santo Ildefonso». Durante todo este percurso, a indefinição de fronteiras na região platina foi uma constante.

O «Tratado de Madrid» representa o início de uma série de transformações que viriam a comprometer as relações entre a Igreja e o Estado, com incidência na América do Sul. A guerra guaranítica e a ocupação dos Sete Povos pelos Exércitos ibéricos acabaram por provocar o declínio demográfico, a dispersão dos índios e por pôr fim à comunidade de jesuítas e guaranis. O período que decorreu entre 1753 e 1769 caracterizara-se por uma significativa dispersão populacional. Neste processo, não podem ser só considerados os factores externos mas também factores de ordem interna, como a rigorosa disciplina imposta na sequência da ocidentalização e as contendas entre chefes locais desejosos de manter a supremacia na região.

Vencidos, destroçados e espoliados das terras onde viviam, os índios abandonaram as aldeias – uns regressaram aos matos, outros foram para junto das cidades dos colonos, outros, ainda, acompanharam os luso-brasileiros, povoando as primeiras vilas do Rio Grande do Sul.

Novos aldeamentos indígenas surgiram com uma administração secular, baseada em modelos de organização social e política, ajustados a outros princípios.

* * *

 E a pergunta que resta colocar é: e que danos foram provocados aos portugueses por ali abandonados?

21ABR19.jpgHenrique Salles da Fonseca

BIBLIOGRAFIA:

HISTÓRIA DA COMPANHIA DE JESUS EM PORTUGAL, Maria de Deus Beites Manso, EDIÇÕES PARSIFAL, 1ª edição, Setembro de 2016, pág. 163 e seg.

DAS MINHAS NAVEGAÇÕES E ALHEIAS

SOCOTORÁ

 

Verás defronte estar do Roxo estreito

Socotorá, com o amaro Aloé famosa.

(Os Lusíadas - Canto X - estrofe 137)

 

Antiguidade

Na Antiguidade, a ilha encontra-se referida no "O périplo do mar Eritreu" (manuscrito, século I) como "Dioskouridou" em alusão ao autor greco-romano Dioscórides. Entretanto, nos nossos dias, o arqueólogo e antropólogo G. W. B. Huntingford, assinala que a toponímia "Socotorá" é de origem grega, mas que procede do sânscrito "dvipa sukhadhara" ("ilha da felicidade").

No século X, o geógrafo árabe Almaçudi comentou que a maioria dos habitantes das ilhas eram cristãos.

 

Descobrimentos portugueses

À época dos Descobrimentos portugueses, é provável que o primeiro navegador a alcançar a ilha tenha sido Vicente Sodré, tio de Vasco da Gama, que ali terá feito aguada antes de se perder nas ilhas de Curia Muria (atual Omã) em 1503. No entanto, essa primeira descoberta é disputada por Diogo Fernandes Piteira (ou Pereira), segundo Damião de Góis e João de Barros que, de regresso ao reino, dele deu notícia a D. Manuel I. O navegador e militar António de Saldanha, que navegara na região rumo ao estreito do Mar Vermelho, confirmou em Lisboa a bondade da ilha em portos e quanto à provável existência de cristãos descendentes dos habitantes que o apóstolo São Tomé doutrinara aquando do seu naufrágio no local a caminho da Índia.

Para além da aparente população cristã que a Coroa Portuguesa considerou urgente libertar da servidão imposta pelo rei muçulmano de Fartaque (atual cabo Fartak, no Iémen), Socotorá, localizada à "mão esquerda entrando para o estreito, junto ao cabo Guardafui", aparentava ser uma peça-chave para o controle do Mar Vermelho. Por essa razão, D. Manuel traçou um plano de conquista da ilha incumbindo Tristão da Cunha e Afonso de Albuquerque dessa missão e de nela instalarem uma fortaleza. Para esse fim, fez embarcar uma estrutura de madeira prefabricada em Lisboa. A conquista da ilha teve lugar em 1507, sob o comando de Tristão da Cunha, após a tomada da Fortaleza de Soco (à época, escrita Çoco), guarnecida por 120 homens sob o comando do "mui valente cavaleiro e sem medo nenhum" Coje Abrahem, filho do rei de Caxem (atual Qishn), cidade a alguns quilómetros do cabo Fartak.

 

O Forte de São Miguel de Socotorá

As obras da fortificação ficaram a cargo do mestre de pedraria Tomás Fernandes. Sob a invocação de São Miguel, ficou sob o comando do capitão D. Afonso de Noronha tendo a mesquita local sido convertida em igreja sob a invocação de Nossa Senhora da Vitória e a orientação de Frei António do Loureiro, guardião do mosteiro franciscano de São Tomé, o primeiro fundado extramuros e também o primeiro fundado no Estado Português da Índia.

 

Do século XVI ao XIX

A infertilidade da terra e o isolamento da praça em pleno território controlado pelo inimigo, levou a que, tanto a guarnição militar quanto os religiosos, fossem assolados pela fome, pelas doenças e pelos levantamentos dos muçulmanos, recebendo socorro apenas após a conquista de Ormuz por Afonso de Albuquerque (1507). Em pouco tempo, entretanto, a tese de que era essencial a ocupação de ilhas para o controle das rotas marítimas, começou a perder peso na estratégia portuguesa na região. A Fortaleza de Angediva havia sido abandonada (1506) e assim o seria o Forte de Socotorá (1511) e o Forte de Quíloa (1512).

A evacuação de Socotorá fez-se com o recurso às naus de Diogo Fernandes de Beja que não apenas fez demolir a fortificação até aos alicerces como transportou toda a sua guarnição para reforço de Goa e mais de duzentas mulheres e demais cristãos da terra, assim como a artilharia e demais apetrechos.

Com a retirada portuguesa, o arquipélago passou para o controle dos sultões Mahra.

A ilha continuou a servir de ponto de aguada aos portugueses tendo nela permanecido sempre um ou dois missionários. Alguns dos cristãos no local foram catequizados por São Francisco Xavier aquando da sua passagem para a Índia (1542), que descreveu a ilha como "(...) terra desamparada e pobre, não crescendo nela nem trigo, nem arroz, nem milho, nem vinha, nem fruta: é muito estéril e seca".

Entre 1540 e 1541 foi descrita por D. João de Castro, que registou: "(...) em todo o circuito da ilha não há porto nem outra alguma estância onde possa algum navio invernar seguramente". Em suas águas várias embarcações naufragaram, sendo a mais famosa o galeão Santo António, sob o comando do capitão Manuel Pais da Veiga, tendo como piloto Aleixo da Mota, em 1601.

Em termos económicos, os portugueses extraíam poucas matérias-prima, essencialmente o "sangue de dragão" (seiva de dragoeiro) e o aloé, este último utilizado como adstringente e purgante intestinal.

 

Do século XIX aos nossos dias

Devido à sua posição estratégica, passou a ser um protectorado britânico em 1886 controlando o estreito de Áden.

Com a independência do Iémen (1967), passou à sua soberania.

 

(Da Internet, Autor não identificado)

Por ali naveguei em Março de 2019 com piratas a bombordo e uma guerra civil (no Iémen) a estibordo. Mas passámos incólumes.

 

Junho de 2019

Henrique Salles da Fonseca

REPESCADO DO TINTEIRO

«USQUE AD NAUSEUM»

 

Ouço rádio no carro e é frequente deixar um programa a meio porque, entretanto, chego ao destino. Só me aguento um pouco desde que seja alguma música de que esteja a gostar muito e queira ouvir até ao fim. Mas, sendo conversa, corto-lhes o pio.

Então, nestes últimos dias, a conversa é sempre a mesma: Maio de 68 usque ad nauseum que é como quem diz até à náusea. E como o tema já é nauseante desde há muito, para além do ad, ele já é mesmo ex nauseum que em linguagem comum significa desde a náusea.

Creio mesmo que a maior parte das intelectualidades que falam do Maio de 68 ainda não eram gente em Maio de 1968 mas falam com muita sabedoria porque julgam que quem os ouve sabe ainda menos que eles. Enganam-se. Muitos de nós já eramos gente naquela época e vivemos tudo com alguma intensidade.

Então, o que foi o Maio de 68?

Tenho várias hipóteses de resposta…

  • Uma carnavalada;
  • Uma tentativa de revolução anarquista;
  • Uma tentativa de golpe de Estado comunista;
  • Uma revolta contra De Gaule…

… mas fico-me por uma mistura delas todas pois admito que de tudo por lá havia desde a carnavalada até à vontade de se verem livres da preponderância autoritária do «velho».

A sociedade francesa estava já muito igualitária, não admitia que alguém pudesse preponderar; o individualismo não queria orientações de classe; o marxismo queria impor uma orientação da sua classe, a proletária; o anarquismo não admitia peias à liberdade; os carnavalescos não quiseram perder a oportunidade.

E a pergunta permanece: - O que foi o Maio de 68?

A minha resposta é: - Um grande fiasco de revolta anti burguesa em que, felizmente para os burgueses, os seus adversários não se entenderam porque tinham (e têm) pressupostos incompatíveis.

Isto, o que penso de Maio de 68 tanto porque o vivi à distância geográfica duma Península Ibérica como à distância política de quem vivia num regime autocrático «proteccionista contra novidades». Mas a informação circulava e uma tia minha foi para Paris em Maio de 68 para ser operada ao coração. Foi operada, tudo correu bem, regressou a Portugal perfeitamente «recauchutada» e perguntou se era verdade que durante a estadia dela em Paris tinha acontecido alguma sarrafusca política. Ao que alguém lhe respondeu que tinha havido uma zanga entre o Sartre e o Aron. E ela respondeu que a Simone era danada para pôr o marido à zaragata.

Pois é, afinal houve mais França para além do «Maio de 68», esse tema que fede usque ad nauseum.

Maio de 2019

Henrique Salles da Fonseca

NÓS, OS FILHOS DOS VENTOS CÁLIDOS – 12

Eu às vezes temo ...

Eu às vezes temo que as pessoas pensem que o fascismo chega em trajes extravagantes usados por personagens grotescas e monstros como actores em peças teatrais nazis. O fascismo chega como se fosse um amigo, dizendo que restaurará a honra, fará sentirmo-nos orgulhosos, protegerá as nossas casas, dará empregos, limpará a vizinhança, lembrar-nos-á de quão grandes já fomos, escorraçará os corruptos, removerá qualquer coisa que nos incomode. Mas certamente não dirá que "O nosso programa significa milícias, prisões em massa, deslocação de populações, guerra”.

23 de Abril de 2014

Michael Rosen

Minha tradução a partir do original inglês em

https://michaelrosenblog.blogspot.com/2014/04/i-sometimes-fear.html

* * *

«Uma vez que o velho Deus abdicou, governarei o mundo doravante» - assim apregoava Nietzsche, o pai do niilismo.

* * *

A era niilista manifestou-se muito antes do que o filósofo imaginara: catorze anos depois da sua morte iniciou-se a Primeira Guerra Mundial e depois dela a Europa ficou nas garras do fascismo, do comunismo e do nazismo. E pouco tempo depois da primeira, sofreu outra guerra pior ainda que a anterior.

Desprezada a Civilização no que ela continha de valores perenes dando corpo à dignidade humana, a violência triunfou sobre a verdade e sobre a bondade. Dezenas de milhões de vidas foram aniquiladas sob o aplauso de dezenas de milhões de admiradores da violência. Sim, porque o niilismo só pode conduzir à ditadura, à violência e à aniquilação.

E como começou ele?

Perante o igualitarismo, todos têm razão, a ninguém é reconhecido o estatuto de sábio e tudo o que se apresente difícil é considerado antidemocrático; morto o conceito de que «o peso material determina o valor do oiro e o peso moral determina o valor do homem», a matéria reina e o dinheiro é a divindade suprema. Moral? A cada um, a sua.

- O que é bom para o oiro é bom para ti! Comercializa-te, adapta-te! Tudo o que te torna mais rico é útil; o que não for divertido é inútil e pode desaparecer.

Cada um que se valha a si próprio e os outros que «se virem» se conseguirem e, se não, tanto melhor pois mais fica para o vencedor entesourar.

Eis um conjunto de indivíduos que tudo fazem para vingar individualmente em prejuízo do próximo. A inveja ganha adeptos. Só que isto não é uma sociedade e muito menos uma Civilização. E onde não há coesão social, todos se sentem desamparados. Mas o desamparo é desconfortável. O desconforto gera a queixa e sempre acaba por conduzir à busca de soluções para se regressar a alguma situação assemelhável a conforto.

Assim se reúnem os ingredientes suficientes para que apareça um caudilho com promessas cujos méritos os desamparados não querem sequer questionar. E a ditadura, sempre radical, gera a violência e esta é a destruição.

Foi depois de muita desgraça que na tarde de 29 de Outubro de 1946, Albert Camus perguntou ao anfitrião André Malraux e ao grupo de outros convidados em que se destacava Jean-Paul Sartre – todos nascidos no niilismo e no materialismo histórico - se não achavam serem eles próprios, naquela sala, os maiores responsáveis pela falta de valores na Europa ocidental e se não estaria na hora de declararem abertamente que estavam errados, que os valores morais existem realmente e que doravante tudo fariam para restabelecer e clarificar esses princípios perenes e quiçá eternos. «Não acham que seria o princípio para o regresso de alguma esperança?»

E hoje?

Ah!, hoje, a História é a mesma que há muito Camus descreveu, a do triunfo do niilismo a que muito provavelmente se poderá seguir o fascismo. E isso, nós, os filhos dos ventos cálidos, não queremos. Cumpre-nos evitá-lo meditando…

* * *

Com a História aprende-se, mas é preciso conhecê-la; quem não conhece a História, corre o risco de repetir os erros do passado em vez de os evitar.

E o que nos conta a História?

Conta-nos que à amoralidade se segue a brutalidade, à lassidão se segue o aperto, ao esbanjamento se segue a austeridade, à autocracia se segue a volúpia populista.

E se de todos estes parâmetros já temos que baste, atentemos nas soluções que se impõem:

  • Reponhamos a formação política como missão essencial dos Partidos democráticos se não quisermos cair no fascismo;
  • Ponhamos à prova o que cada Partido (democrático) entende ser o bem-comum se não quisermos continuar a entediar os cidadãos e a engrossar a abstenção;
  • Reponhamos a ética da compaixão nas relações individuais e a de sentido de Estado nas relações colectivas se não quisermos cair nalguma sharia que nos seja imposta por estranhos radicais;
  • Criemos uma democracia muito mais directa nos Partidos do arco democrático se não quisermos dar força ao populismo.

* * *

Nós, os filhos dos ventos cálidos, nascidos na paz e criados no sonho, não estamos preparados para a queda de mais um ideal e já não temos idade para nos envolvermos directamente nas cenas de estalada brava se aí vier o fascismo, mas…

TENHO DITO!

(por enquanto…)

 

Junho de 2019

Henrique Salles da Fonseca

 

NÓS, OS FILHOS DOS VENTOS CÁLIDOS – 11

Depois de tanta manipulação de opiniões e de tantos actos sujeitos à investigação policial, a questão agora é a de saber como se pode confiar num político profissional. E a resposta é:

- Não pode!

Culpemos o pós-modernismo, o agnosticismo, o hedonismo, o que cada um por aí mais encontrar nas prateleiras da erudição mas não se esqueça o Caro Leitor de também apontar o dedo à ganância dos gatunos.

Contudo, eu creio que a maioria da classe política é constituída por gente honrada mas basta uma nódoa para podermos dizer que o pano está sujo. E quando a comunicação social empola as notícias, nós, os eleitores consumidores da informação, somos induzidos à generalização da tragédia da corrupção e para nos convencermos de que político é corrupto por definição e que político sério é excepção. E não faltam aqueles imbecis proto-gatunos (ou amigos de gatunos encartados) a dizer estupidezes tão horríveis como «Ele rouba mas faz obra, voto nele». E quem diz uma barbaridade destas, continua a não ter o seu direito ao voto sacado sine die por incrível que pareça.

Assim, se eu estou pessoalmente convencido da honradez da generalidade dos políticos, o Sr. Zé da Rua que vê telejornais, garante a pés juntos que a realidade é negativa. E o meu frio positivismo derrete-se perante o calor da refrega contra o establishment. O que eu penso não interessa; o que interessa é a opinião do Sr. Zé da Rua.

Estará alguém por trás da comunicação social a manipular a informação para que o eleitor seja conduzido ao descrédito no sistema democrático?

Estará alguém por trás de não sei que bastidores a manipular não sei o quê para que a liberdade da imprensa seja questionada?

Estará alguém a tentar convencer-nos de que não temos maturidade para nos governarmos soberanamente pois somos uma corja de gatunos?

Meditemos…

(continua)

Junho de 2019

Henrique Salles da Fonseca

NÓS, OS FILHOS DOS VENTOS CÁLIDOS – 10

Foi pouco depois da consolidação do pluripartidarismo que os Partidos políticos portugueses se definiram como clubes de pertença, mais do que como centros de discussão política.

Alienadas as cabeças das bases, ficaram os dirigentes com pulso livre para administrarem com folga os temas que mais lhes interessavam. Política feita «de cima para baixo» ao invés da Democracia representativa apregoada; representativa dos dirigentes, sim, não das bases. Viveu o clubismo, feneceu a formação política, cresceu o desinteresse, a abstenção transformou-se no maior «partido» português.

É a Democracia que periga, não por outra golpada militar mas sim endogenamente pelo desencanto do eleitor que de um momento para o outro passa a dar ouvidos a um qualquer gauleiter que por aí se apresente como «salvador da Pátria enganada». E esses já andam por aí a farejar e a alçar a perna nas urnas de voto ou apenas exibindo carismáticas «carinhas larocas» com discursos populistas de esquerda.

Só que os dirigentes dos Partidos estruturais ou não percebem ou – pior ainda – fingem que não percebem.

Sim, Caro Leitor, sou de opinião que se torna imprescindível dizer aos políticos profissionais portugueses que estamos fartos deles, que queremos uma democracia muito mais directa, a «de baixo para cima» e que o sentido ascendente deve começar dentro dos Partidos mesmo antes de chagar à rua. E mais do que uma escolha democrática de representantes, trata-se da identificação dos temas a debater e sobre que cada Partido se deve pronunciar depois de democraticamente definido o sentido da pronúncia.

Para já, até prova em contrário, a minha geração prepara-se para mais um balde de água fria, o terceiro sonho a ruir, mais um.

(continua)

Junho de 2019

Henrique Salles da Fonseca

NÓS, OS FILHOS DOS VENTOS CÁLIDOS – 9

Assentes na democracia pluripartidária, foi tempo de descansar.

Sim? Não, é claro!

Acabara o tempo hard, da traulitada; começavam os tempos da discussão sobre o que cada um entendia acerca do bem comum.

Era o tempo dos fundadores - Mário Soares, Francisco Sá Carneiro, Adelino Amaro da Costa.

E os outros? Os outros ou não eram democratas ou não «davam uma para a caixa», não entram no grupo dos que fizeram doutrina.

Excluído o absurdo, as alternativas de bem comum que se perfilaram no arco democrático foram o socialismo apresentado pelo PS, a social democracia apresentada pelo PPD (que mais tarde se passaria a chamar PSD) e a democracia cristã apresentada pelo CDS. De notar que todas estas alternativas apresentavam pontos comuns que passaram a constituir a base mais alargada das grandes opções políticas nacionais. Refiro-me ao pluripartidarismo, à subordinação das Forças Armadas em relação ao poder legislativo, à independência do Poder Judicial relativamente aos demais órgãos de soberania, à opção europeia.

Eis como, excluindo casos de lógica perturbada, a minha geração em Portugal optou livremente por um modelo que reservava para a propriedade pública os sectores estratégicos (o do PS), alargava praticamente toda a propriedade ao privado ressarcindo o interesse público pela forte tributação (o modelo social democrata do PPD-PSD) e o modelo da economia social de mercado (o do CDS) com a democratização do acesso dos privados aos meios de produção.

E foi essa a discussão que se seguiu?

Bem… talvez tenha sido um pouco diferente mas não me apetece concluir este texto em lágrimas e não vejo motivos para a alternativa alacre.

Fico-me hoje por aqui e vou ver como hei-de retomar o fio da História amanhã.

(continua)

Henrique Salles da Fonseca

NÓS, OS FILHOS DOS VENTOS CÁLIDOS – 8

Foi com a implantação da democracia que respirámos fundo e nos dedicámos à construção do novo velho Portugal. Mas ainda sob a tutela do Conselho da Revolução, esse órgão espúrio que só por existir nos passava a todos os civis um atestado de menoridade e ao país um caracter terceiro-mundista, uma vergonha, um quisto purulento no tecido da civilização ocidental.

A segunda prova da nossa sabedoria burguesa e cosmopolita foi a de fazermos saber ao Conselho da Revolução que ninguém, cá dentro ou lá fora, lhe reconhecia qualquer papel de garante absolutamente de nada, que estarem ali ou se dissolverem era precisamente o mesmo para a legitimidade legislativa da Assembleia da República, essa sim, democraticamente eleita. Não «comprámos» uma guerra inútil, deixámo-lo cair faisandé como se diria no meu liceu.

Na saída, garantimos-lhes que não os iríamos levar a Juízo pelas tropelias que tinham feito à democracia de que diziam ser garantes.

- Vão-se embora, desapareçam das nossas vistas, fiquem com as vossas pensões de reforma e não voltem a incomodar-nos.

Saídos os militares pela porta dos fundos, consolidou-se a democracia pluri-partidária por que nós, os filhos dos ventos cálidos, há muito assumíramos como o único modelo político que nos convinha.

E como a nossa filosofia assenta na liberdade de pensamento, lógico foi que não integrássemos apenas um Partido e nos espalhássemos ao longo do leque de opções que tinha aparecido logo em 1974, leque esse que se manteve como matriz até hoje, salvo algumas oscilações comandadas por modas, pessoas mais ou menos carismáticas ou circunstâncias mais ou menos conjunturais. Mas a estrutura tem-se revelado sólida.

Problemas?

Sim, muitos mas a democracia constrói-se diariamente, é um modelo dinâmico. Como se diz que Churchill disse, «a democracia é o pior dos sistemas políticos com excepção de todos os outros».

(continua)

Junho de 2019

Henrique Salles da Fonseca

NÓS, OS FILHOS DOS VENTOS CÁLIDOS – 7

 Sabedoria - característica de uma pessoa sábia, com um conhecimento extenso de várias coisas, instruída, que tem senso comum e se comporta conformemente ao que a sociedade dela espera.[i]

* * *

Da vulgata dos ditos populares, extraio que «viver não custa, o que custa é saber viver».

Mais rebuscadamente, diz-se que, quando não se pode discutir uma situação, a sabedoria aconselha a extrair dela o melhor partido possível.

* * *

Era a débâcle, chegara a hora de mostrarmos se eramos dignos do epíteto grego, era agora ou nunca que mostraríamos se tínhamos ou não sabedoria e se ela serviria ao cenário da sovietização de Lisboa. Ainda a palavra não estava no nosso léxico mas o stress já por cá andava aos gritos dos funcionários do Partido Comunista trajando à proletária, ao sequestro da Assembleia da República lembrando o incêncio do Reichstag e equivalente significado político, a ditadura, a reivindicação da unicidade sindical, as nacionalizações sequentes a inventonas sobre inventonas, o aviltamento dos valores burgueses, a glória dos do proletariado, o nivelamento por baixo naquilo a que só os comunistas chamam «democracia». Tudo, com o apoio duma facção militar em que uns tantos não queriam reconhecer que tinham cavado a tumba da Nação e por outros que estavam mesmo convencidos da validade da traição. Os dessa facção ainda hoje, passados 40 e tal anos, continuam a não perceber que a alternativa era a de se considerarem traidores ou marionetas - mas é claro que ainda estão a tempo de fazerem a opção que melhor lhes sirva. E não venham para cá com a desculpa de que tinham que assumir a missão que cabia aos políticos encontrando uma solução para o problema colonial porque era sabido que essa discussão estava em curso à escala nacional dentro e fora dos círculos oficiais. Simplesmente, o golpe de Estado comunista não era compatível com essa espera, havia que precipitar os acontecimentos e foi isso que essa facção fez. E não venham também com essas loas da «liberdade, liberdade» porque ao 25 de Abril de 1974 a liberdade conquistada foi a que os comunistas adquiriram para poderem mandar prender quem se lhes opunha.

A liberdade, essa sim, é um conceito unicitário mas só chegou a Portugal em 25 de Novembro de 1975 depois da facção dos traidores ter sido neutralizada por militares não traidores nem imbecis e depois de nós, os burgueses cosmopolitas, termos assumido que não nos competia temer.

Este avanço para a luta política foi a primeira prova da nossa sabedoria não olhando a pormenores e juntando-nos todos do lado ocidental da barricada da Democracia; os detalhes ficariam para quando Portugal estivesse a salvo da garra soviética. E foi em torno de Mário Soares que fizemos frente à opressão e a vencemos.

Mário Soares poderá ter tido muitos pontos de vista diferentes de muitos de nós mas que ninguém lhe negue esta «paternidade da Democracia» em Portugal. Nós demos a presença do corpo mas foi ele que deu a cara.

Mesmo assim, a sabedoria continuaria à prova…

(continua)

Maio de 2019

Henrique Salles da Fonseca

 

 

 

 

 

[i] - Por adaptação de https://www.significados.com.br/sabedoria/

 

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2006
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2005
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2004
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D