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A bem da Nação

HOSPITAIS PORTUGUESES NA ROTA DA ÍNDIA


  1. Tavira – 1430 (já existia neste ano mas não se sabe quando foi inaugurado; actualmente, pertence à Santa Casa da Misericórdia de Tavira)

  2. Safim (Marrocos) – 1486

  3. Tânger – 1516

  4. Arzila – 1516

  5. Santa Cruz do Cabo de Gué (Agadir, na actualidade) – 1505

  6. Ilha de Santiago (Cabo Verde) – 1497

  7. Jorge da Mina (actual Gana) – 1498

  8. São Tomé – 1504

  9. Bahia – 1510 (cerca de)

  10. Sofala (Moçambique) – 1505

  11. Ilha de Moçambique – 1507

  12. Quilôa (actual Tanzânia) – 1505

  13. Melinde (Zanzibar) – 1511

  14. Cochim (Índia – actual Estado de Kerala) – 1505

  15. Cananor (Índia – actual Estado de Kerala) – 1506

  16. Goa (Índia – actual Estado de Goa) – 1512

  17. Baçaim (Índia – actual Estado de Maharastra) – 1512

QUEM TAL DIRIA...???

O título deste texto esteve para ser «A atracção dos opostos» mas, pensando mais um pouco, achei que a essência do Poder autocrático gera solidariedades curiosas. Em alternativa, parece melhor enquadrar o texto num conjunto a que chamo «Curiosidades da História».

Então, o facto histórico que recentemente me foi contado por quem «in illo temporae» teve acesso à correspondente informação  no exercício das suas funções quando cumpriu o Serviço Militar Obrigatório, consistiu na vigilância que os Serviços Secretos portugueses antes de Abril de 1974, a PIDE, exerciam sobre certos refugiados lestian em Portugal (opositores ao comunismo no seu país) a troco de informações dos correspondentes serviços secretos lestianos sobre os movimentos do Dr. Cunhal e de outros comunistas portugueses  que andassem refugiados pelo lado de lá da Cortina de Ferro.

Não teço agora comentários à qualidade das informações transmitidas de lado a lado nem sobre a relevância que cada receptor (e inerente tratamento) deu às ditas informações. Apenas constato que umas não impediram a passagem do Império Português para a tutela do homólogo soviético assim como, no sentido contrário, não impediram a queda da Cortina de Ferro. O que me interessa, isso sim, é constatar uma colaboração – que considero totalmente absurda – entre serviços secretos de lados opostos da «barricada». E o que me causa maior espanto foi ter havido troca de informações entre os Regimes do «ultrarradical de esquerda» Jivkove do «ultra radical de direita» Salazar. Só consigo entender esta realidade como uma tentativa de cada um dos autocratas se manter no poder garantindo o máximo de «status quo». Ou seja, algo como uma solidariedade estabelecida sobre um estilo de exercício do poder – neste caso, o autocrata - e nada tendo a ver com as causas estratégicas, económicas ou sociais defendidas por cada um. Ainda admito uma outra hipótese: que exista uma solidariedade corporativa mundial entre os agentes secretos de modo a que todos tenham as «barbas de molho» quando o seu lado ruir. Será então verdade que, na queda de Ceaucescu, os chefes da «Securitate» se passaram directa e rapidamente para os serviços secretos de um país levantino amigo do Ocidente?

Diz-se, diz-se… mas se, por acaso, tiverem alguma ponta de verdade, imaginemos a distância que deve existir entre as conversações que realmente existem entre a Rússia e a Ucrânia e aquilo que nos é transmitido pelos noticiários, os que se dizem defensores da verdade. Quem tal diria…???

Mas, nesse espaço entre a verdade e a fantasia do que os «negociadores» atiram cá para fora, morre muita gente.

Lisboa, 19 de Abril de 2022

 

 

«PAZ» RUSSA

 

• Grande Guerra do Norte e Anexação da Estónia e da Letónia, 1700-1721

• Partilha da Polónia, 1772-1795

• Anexação da Crimeia, 1783

• Supressão da Polónia, 1794-1795

• Guerra Finlandesa e ocupação da Finlândia, 1808-1809

• Guerra Caucasiana e Genocídio dos Circassianos, 1817-1864

• Pogroms de 1821 (Império Russo) 

• Guerra Russo-Persa de 1826–1828 e A

anexação da Geórgia, Arménia e Azerbaijão

• Repressão da Polónia, 1830-1831

• Intervenção na Hungria, 1848-1849

• Guerra da Crimeia, 1853-1856

• Repressão da Polónia, 1863

• Pogroms de 1881–1884 (Império Russo)

• Pogroms anti-chineses do Amur (Império Russo), 1900  

• Pogroms de 1903–1906 (Império Russo)

• Guerra Soviético-Ucraniana, 1917-1921

• Deskulakização (Rússia Bolchevique e União Soviética), 1917-1933

• Terror Vermelho (Rússia Bolchevique), 1918-1922

• Intervenção na Guerra Civil da Finlândia, 1918

• Guerra Russo-Lituana, 1918-1919

• Guerra da Independência da Estónia, 1918-1920

• Guerra da Independência da Letónia, 1918-1920

• Guerra Polaco-Russa, 1919-1921

• Anexação da Íngria Finlandesa, 1919–1920

• Invasão e Ocupação do Azerbaijão, 1920##

• Invasão e ocupação da Arménia, 1920

• Invasão e ocupação da Geórgia, 1921

• Repressão da Karélia, 1921–1922

• Sistema do Gulag (União Soviética), 1923-1961

• Coletivização forçada (União Soviética), 1927-1940

• Deportação dos íngrios finlandeses (União Soviética), 1929-1944

• Holodomor (Ucrânia), 1932-1933

• Grande Terror (União Soviética), 1936-1938

• Invasão e ocupação soviética da Polónia, 1939-1941

• Guerra de Inverno (tentativa de invasão da Finlândia), 1939-1940

• Massacre de Katyn (União Soviética), 1940

• Ordens de pilhagem de artefactos culturais e infraestrutura industrial durante a ocupação soviética da Polónia e da Alemanha Oriental, (1940-1947)

• Ocupação da Bessarábia e Bucovina do Norte, 1940-1941

• Ocupação dos Países Bálticos, 1940-1941

• supressão da Insurgência da Tchetchénia, 1940-1944

• Deportações forçadas da Bessarábia e Bucovina do Norte, 1940-1951

• Guerra da Continuação (Segunda Guerra Soviético-Finlandesa), 1941-1944

• Massacre dos prisioneiros de guerra pelo NKVD (União Soviética), 1941

• Deportação dos Gregos Pônticos (União Soviética), 1942-1949

• Deportação dos Calmucos (União Soviética), 1943

• Operação Lentil (limpeza étnica da Tchetchénia e da Inguchétia), 1944

• Deportação dos Tártaros da Crimeia (União Soviética), 1944

• Deportação dos Turcos Mesquécios (União Soviética), 1944

• Deportação dos Bálcaros (União Soviética), 1944

• Transferência Forçada das Populações Alemãs (1944–1950)

• Massacres de civis durante o Cerco de Budapeste (Hungria), 1944-1945

• Ocupação da Roménia, 1944-1958

• Campanha de Violações de Mulheres (Polónia e Alemanha), 1945

• Caça ao Homem de Augustów (Polónia), 1945

• Bloqueio de Berlim (Alemanha Ocupada), 1948-1949

• Oposição ao Plano Marshall, 1948-1951

• Divisão da Alemanha, 1949-1990

• Organização da Greve Geral contra o governo da Áustria, 1950 

• Repressão de Berlim e Alemanha Oriental, 1953

• Massacre de 9 de Março (Geórgia), 1956

• Repressão dos Protestos de Poznan (Polónia), 1956

• Intervenção na Hungria, 1956

• Supressão dos Irmãos da Floresta (Países Bálticos), 1945–1956

• Muro de Berlim (Alemanha Oriental), 1961-1989

• Massacre de Novocherkassk (Rússia Soviética), 1962

• Repressão das Manifestações de Yerevan (Arménia), 1965

• Operação Danúbio (Invasão da Checoslováquia), 1968

• Repressão dos Protestos de Dezembro (Polónia), 1970 

• Repressão da Sublevação da Lituânia, 1972 

• Repressão dos Protestos de Junho (Polónia), 1976

• Repressão das Manifestações da Geórgia, 1978

• Invasão e Intervenção no Afeganistão, 1979-1989

• Lei Marcial na Polónia, 1981-1983

• Tragédia de 9 de Abril (Geórgia), 1989

• Tentativa de supressão da Revolução Romena, 1989

• Janeiro Negro (Azerbaijão), 1990

• Primeira Guerra da Tchetchénia, 1994-1996

• Segunda Guerra da Tchetchénia, 1999-2009

• Guerra do Daguestão, 1999

• Guerra Civil da Inguchétia, 2007-2015

• Invasão da Geórgia e Ocupação da Ossétia do Sul e da Abecásia, 2008-… 

• Anexação da Crimeia, 2014-…

• Intervenção em Donetsk e Lugansk (Ucrânia), 2014-…

• Invasão da Ucrânia, 2014 "

 

De governantes bélicos a Paz não tem qualquer valor, portanto os seus desejos de riqueza pessoal arrastam povos para a destruição, para assim 

poderem-se apropriar das riquezas criadas pelo povo! 

 

(Por gentileza do Coronel Manuel Neves Veloso)

 

EFEMÉRIDE CAMONEANA

A Sua Excelência a Ministra da Cultura

Na eventualidade de Vossa Excelência não ter sido atempadamente informada, comunico que a «Rede Camões na Ásia», constituída por estudiosos e investigadores da obra camoniana, se reuniu em Congresso no dia 12 de Março deste ano de 2022 em Jakarta com o intuito de celebrar o 450º aniversário da primeira edição d’«Os Lusíadas» e de lançar a respectiva tradução em indonésio.

Havendo quem defenda a tese de que Camões possa ter iniciado em Ternate a composição do nosso panegírico, compreende-se o interesse indonésio na celebração da obra, da efeméride e da respectiva tradução para a sua língua nacional.

E nós, Excelência?

Dando-se a provável eventualidade de a nossa sociedade civil estar atordoada com a pandemia e com a guerra da Rússia, compreende-se a falha na comemoração da efeméride mas, precisamente por isso, conta-se com a liderança de Vossa Excelência na necessária celebração.

Celebração cautelosa no que respeite à saúde pública, sem custos que agravem o défice das contas públicas mas, isso sim, com a solenidade que Camões merece.

E se deixámos passar a data em que «Os Lusíadas» saíram dos prelos de António Gonçalves, 12 de Marco de 1572, não deixemos escapar 2022 sem, pelo menos, uma Sessão Solene na Biblioteca Nacional e a deposição de coroa de flores junto ao túmulo do poeta. E que tudo decorra sob a égide de Sua Excelência o Presidente da República.

A bem dos Valores Nacionais,

Henrique Salles da Fonseca

REFLEXÃO COLONIAL - 4

O espírito desenvolvimentista que se vivia em Moçambique durante a minha comissão de serviço militar fez com que, uma vez passado à disponibilidade em Lisboa, me metesse num avião de regresso à Lourenço Marques (hoje, Maputo), já como civil.

E foi lá do fundo do mapa do Império que vi como a «evolução» do Professor Marcelo Caetano ia sendo torpedeada pela «continuidade» do Almirante Américo Tomás e seus apoiantes, o «Almirantado».

Numa primeira observação, levei a crédito as já referidas 800 toneladas de oiro e a débito uma tonelagem de inércia ultra conservadora que não consegui quantificar.

Mas – e lá vem o tal «mas» que nos baralha os parâmetros - em 1972 o oiro foi (internacionalmente) desmonetarizado, ou seja, deixou de servir para saldar contas entre Bancos Centrais passando a ser um activo em mercado livre (privado) controlado por relativamente poucos «especialistas» que não brincam em serviço. Quer isto dizer que ao primeiro sinal de que um banco pretende comprar oiro, a cotação sobe à estratosfera e ao primeiro sinal de que um banco quer vender oiro, a cotação desce às profundezas infernais. Daqui resultou que as tais reservas de oiro serviam para muito menos do que poderíamos imaginar e menos ainda do que poderíamos desejar. Portanto, mais valendo tê-lo do que não tê-lo, havia que encontrar soluções de viabilização do modelo económico sem chegarmos a insolvências e, se tal acontecesse mais uma vez, não contássemos com essa «pesada herança» amarela[1].

E se com o oiro as habilidades não seriam muitas, com o «deadweight» do Almirantado, a inércia faria esticar o reboque e a deriva passar a desnorte. Contudo e apesar do «deadweight» do Almirantado, Portugal conseguiu durante o consulado marcelista alcançar taxas de crescimento raras na nossa história económica e que deixariam saudades-

Entretanto, não tive a confirmação da notícia que então circulou de que o Professor Marcelo Caetano, já então Presidente do Conselho, tinha estado confinado durante uma semana no Palácio de Queluz às «ordens» de Américo Tomás[2].

A ideia da evolução controlada das colónias para uma autonomia progressiva e uma futura independência cordata com a Metrópole acabou por ser um fiasco depois dos entorces impostos pelo Almirantado e foi já em clima de pré-ruptura com o «Estado Novo» que o General Spínola, se montou na ideia do Professor Marcelo Caetano publicou esse sucesso editorial que foi «Portugal e o futuro».

A partir daqui, o «caldo entornou-se» cada vez mais e foi só esperar pelo golpe comunista em 25 de Abril de 1974.

Passadas as colónias portuguesas para o domínio soviético, cesso aqui este enquadramento e passo-me para uma reflexão pós-colonial.

Fevereiro de 2022

 

[1] - Um agradecimento especial ao meu colega António Palhinha Machado pela rememoriação deste ponto

[2] O Professor António Alves Caetano apenas me confirmou que o seu irmão gostava muito de trabalhar no Palácio de Queluz

REFLEXÃO COLONIAL - 3

Na sequência dos dois textos anteriores sob esta mesma epígrafe, fui perguntado sobre o que penso do regime de Salazar. Laconicamente, respondi como segue:

«Na minha opinião, o regime do Doutor Salazar era autoritário (como forma de impedir as discussões parlamentares que ele considerava estéreis e intermináveis), monástico-ruralista (a “felicidade” virtuosa da pobreza), conservador (do arcaísmo), inspirado na doutrina social da Igreja (nada tendo a ver com a Democracia Cristã pois não era democrata). O condicionamento industrial (só revogado por Maria de Lourdes Pintasilgo) foi o grande instrumento do antiliberalismo de Salazar.»

* * *

Reparou por certo quem me lê que não apliquei o erradíssimo adjectivo «fascista». É que Salazar era autoritário, sem dúvida, mas governava no âmbito de um quadro legal formalmente divulgado e de aplicação universal; fascismo é a governação ao sabor da vontade (caprichosa e de improviso) do ditador. A autocracia imobilista salazarista era, pois, o contrário das aventuras fascistas sob as quais ninguém sabia a quantas andava. São disto tristes exemplos Lenine, Mussolini, Hitler, Stalin, Franco (nos seus primeiros tempos), Péron, Mao Tsé Tung, Bocassa… (e Putin e Xi Jin Pin???)

Salazar era o contrário do cosmopolita, era socialmente reservado, sedentário, quase anacoreta, meditativo, não impulsivo, apologista da modéstia patrimonial, nostálgico do ruralismo da sua Santa Comba natal.

Deste conceito de modéstia e ruralismo resultava a política da modéstia do próprio programa de educação. «O povo quer-se ignaro, dócil, na horta» - crítica algo jocosa, irónica, mas que tudo tinha a ver com quem não queria que as empregadas domésticas aprendessem a ler.

Apesar de todos os esforços entretanto levados a cabo, o problema do baixo nível médio da instrução continua a ser uma realidade.

Deste imobilismo monástico-ruralista fazia parte a prudência aforradora do entesouramento por contraste do risco inerente ao investimento. O investimento público foi o permitido pelo equilíbrio das contas do Estado; o investimento privado foi submetido ao condicionamento industrial para, nomeadamente, limitar os riscos e evitar prejuízos resultantes de iniciativas menos felizes do que o desejado.

No entanto, do Governo do Doutor Salazar recordo alguns Ministros desenvolvimentistas que cito por ordem cronológica cujas acções mais emblemáticas resumo:

  • Duarte Pacheco – Ministro das Obras Públicas – primeira autoestrada portuguesa de Lisboa ao Estádio Nacional; edificação do «Instituto Superior Técnico» como hoje o conhecemos; …;
  • Ferreira Dias – Ministro da Economia – Plano de Electrificação Nacional (a começar pela barragem do Castelo do Bode); «Amoníaco Português»; …;
  • Adriano Moreira – Ministro do Ultramar - – revogação do «Acto Colonial» e do «Estatuto do Indigenato»; lançamento das futuras Universidades de Luanda e de Lourenço Marques; …;
  • Arantes e Oliveira – Ministro das Obras Públicas - construção dos primeiros troços da autoestrada Lisboa-Porto; construção da «Ponte Salazar» hoje «25 de Abril» …;
  • Correia de Oliveira – Ministro da Economia – medidas estruturais na economia leiteira, nas culturas cerealíferas, na produção de oleaginosas e na comercialização de peixe congelado em todo o território continental; …

Eis de quem me recordo sem consultar livros nem apontamentos.

Este, o desenvolvimento que Salazar ia autorizando e quando achava que o trabalho estava concluído, despedia o Ministro com um simples cartão de visita a agradecer a colaboração prestada.

Continuo hoje, passados mais de 50 anos, a crer que Salazar tinha medo do desenvolvimento e só pactuava com o que era imprescindível: grupos industriais «Melo» e «Champaçimaud» que supriam necessidades básicas da nossa economia em regime de substituição de importações. O sistema corporativo ia «gerindo» os excedentes de iniciativa que surgissem. Noto também que Salazar se viu obrigado a pactuar com realidades desenvolvimentistas que já existiam antes dele. Refiro-me, entre outras<, a empresas seguradoras e bancos fundados lá pelo séc. XIX (nomeadamente pelo Conde do Farrobo) que desempenhavam relevantes e inegáveis serviços.

Sempre temendo que a concorrência desgastasse recursos, a lógica económica assentou na produção de diamantes e café robusta em Angola, algodão, chá, sisal e açúcar em Moçambique, óleos alimentares na Guiné, cacau em São Tomé, café arábica em Timor e algum peixe em Cabo Verde. De Goa, Salazar esperava médicos para os Quadros do Ministério do Ultramar. E tudo quanto saísse desta matriz, bulia com a calma salazarista e arriscava um «não».

Convenhamos que todo o cenário era estático, incapaz de corresponder às aspirações de quem tivesse origens menis humildes que Salazar, não tivesse sido seminarista, quisesse constituir família a que quisesse criar vida de conforto, tivesse horizontes mais largos do que os da Calçada da Estrela, tivesse a coragem de lidar com o risco. Ou seja, nem todos os opositores a Salazar eram de esquerda.

Eis por que saudei a chegada do Professor Marcelo Caetano à chefia do Governo.

Fevereiro de 2022

 

REFLEXÃO COLONIAL - 2

Hoje refiro-me às famosas 800 toneladas de oiro que as casas fortes do «Banco de  Portugal» ciosamente guardavam ao 25 de Abril de 1974.

E a questão é a de saber como foi possível juntar tamanha fortuna.

Que eu saiba, por três causas.

  1. A política de entesouramento de Salazar como antídoto para eventuais situações de bancarrota como aquela que o levara ao poder. E esta política passava por três vectores: o estrito controlo da despesa pública de modo a sempre conseguir superávirtes nas contas do Estado; estrito controlo da dívida externa pública (Salazar não descansou enquanto não a domou); estrito controlo da dívida externa privada, nomeadamente pelo controlo administrativo do comércio externo e pela gestão rigorosa das demais componentes da Balança de Pagamentos;
  2. Todo o movimento cambial de Portugal e das colónias passava peloBanco de Portugal» e a todas as parcelas do espaço eram exigidos superávites cambiais sendo que o desenvolvimento era apenas aquele que o equilíbrio das contas públicas e os superávites cambiais permitissem;
  3. A avidez sulafricana por mão de obra moçambicana para as minas de oiro, conduziu ao estrito controlo dos «magaíças» pela Autoridades portuguesas de modo a impedir o tráfico humano, nomeadamente pelo controlo de passaportes (assim como controlo dacyiloscópico para ultrapassar a falsificação dos passaportes) e garantia de pagamentos dessa mão de obra pelas entidades patronais mineiras. Paralelamente, o Estado Sulafricano pagava periodicamente ao Estado Português uma certa quantidade de lingotes de oiro pela cooperação desenvolvida em todo o processo.

Eis como se amontoou tão pesada herança; eis como num ápice no Largo do Carmo em Lisboa em 1974 se foram os dedos e ficaram os anéis.

Fevereiro de 2022

REFLEXÃO COLONIAL - 1

Quem conheceu as zonas urbanas de Moçambique antes de 1974 ficou muito provavelmente encantado e quem voluntariamente viveu fora das cidades também terá hoje saudades de paisagens, gentes e condições gerais da vida.

Paisagens soberbas, inesquecíveis; gentes globalmente pacíficas, afáveis, cerimoniosas, civilizadas; condições confortáveis de vida..

«Vendo o filme ao contrário», creio que todos – de todas as cores e de todas as etnias – pensávamos (locais e «reinóis») que a independência era uma ocorrência natural num futuro não localizável mas para que não se previam turbulências… mas a História trocou-nos as voltas e a destabilização começou, cresceu, foi confinada e a vida retomou a tranquilidade anterior.

E foi nesta tranquilidade na maior parte do território que o grande desenvolvimento começou: Universidade, barragens, estradas, aeródromos, portos, substituição de importações, progressiva monetarização da economia… E foi neste desenvolvimento a ritmo inédito que muitos de nós, «reinóis», colaborámos activamente. Recordo vários amigos e camaradas de armas que davam aulas nos cursos nocturnos do nível secundário e mesmo no superior. Eu guardei-me para depois do serviço militar regressando a Moçambique como civil para o exercício das minhas habilitações profissionais.

Foi uma fase empolgante na construção do que ficara durante séculos por fazer tanto no físico como, sobretudo, no desenvolvimento humano.

Mas não seria pela vida contemplativa ou de ócio que serviríamos os moçambicanos. Daí, as autocríticas históricas e análises de estrutura que acabariam por desenhar muitas políticas dos Governos de Arantes e Oliveira e de Pimentel dos Santos.

A primeira crítica foi ao elevadíssimo grau de iliteracia das populações. Daqui resultaram duas decisões estruturais: o incentivo da formação e recrutamento de professores primários (não tivemos a força política necessária para levarmos por diante uma adaptação dos programas à realidade moçambicana e, por absurdo, as crianças do interior, do litoral e do topo ao fundo do mapa  moçambicano tinham que aprender o mesmo que se ensinava em Portugal); o adensamento da quadrícula de escolas primárias (se os condicionalismos orçamentais impedissem a construção de edifícios em alvenaria, pois que as escolas funcionassem em palhotas de pau a pique pois o importante era que as crianças aprendessem a ler, escrever e contar). E foi tanto o que ficou por fazer… Mas em Portugal chegámos ao 25 de Abril de 1974 com 25% de analfabetismo adulto.

No ensino secundário, a malha era muito mais larga pois só havia liceus (alunos maioritariamente brancos à semelhança do que acontecia em Portugal cuja população liceal era oriunda sobretudo de famílias instaladas no conforto) ou escolas técnicas (sobretudo alunos não brancos, à semelhança do que acontecia em Portugal cuja maioria dos alunos na via profissionalizante era oriunda de famílias laboriosas) nas capitais de Distrito. Manifestamente insuficiente mas em tudo semelhante ao que acontecia em Portugal. Não vingou o cabimento orçamental para intensificar a formação agrária mas sobraram verbas na formação de torneiros mecânicos. Contudo, ainda se deu início ao funcionamento em Inhambane do Centro de Formação Profissional das Comunicações onde se começaram a ministrar os cursos que as escolas técnicas não dispunham (lembro-me de várias especialidades na electrónica). O sonho era o de tudo aquilo poder vir a ser um Instituto Superior Técnico a integrar na Universidade de Moçambique.. Mas ficou-se pelo sonho. E se é sempre penoso interromper sonhos, neste caso ainda foi pior para a maioria não-branca que frequentava os cursos iniciados e não ministrados até final.

Naquela primeira metade da década de 70 do séc. XX, a maioria da população escolar universitária era branca.

Faltava fazer a democratização do acesso ao ensino e foi com o objectivo primordial de se fazer a tele-escola e a promoção do português como língua de comunicação inter-étnica que se tomou a decisão de cobrir todo o território por televisão. Feito o projecto, tudo pronto para se lançar os concursos para o equipamento e eis que de Lisboa chega o veto pois a RTP tinha equipamento (obsoleto, claro) de que se queria livrar. Passado pouco tempo, aconteceu o 25 de Abril de 1974 e este foi outro sonho interrompido.

Vizinho do «apartheid» sul africano, o regime português de Moçambique orgulhava-se do seu não racismo mas, há que reconhecer que o desenvolvimentismo foi tardio e que por isso mesmo os benefícios outorgados aos pretos também tardaram. O racismo real fazia-se pelo poder de compra: não passava pela cabeça de ninguém barrar o acesso a qualquer local ou situação com base na cor da pele. Bastava que se tivesse poder de compra e o acesso era livre a toda a parte e a todas as circunstâncias. Mas a pirâmide social não brancaa tinha uma amplíssima base e um topo afuniladíssimo mas, mesmo assim, alcançando níveis tão elevados como a homóloga branca. Nós, os desenvolvimentistas, não tivemos tempo de corrigir esta situação pela via da instrução e da formação profissional. Esta foi uma falha retumbante da nossa administração colonial – não muito diferente, aliás, do que se passava em Portugal.

Uma nota final que pode parecer menor tem a ver com a escassez de saneamento básico nas cidades em que prevaleciam as fossas em vez dos colectores com todo o inerente impacto ambiental. Sim, é verdade, um índice lastimável. Mas na Avenida da República, em Lisoa, as fossas assépticas só foram ligadas a colectores no início dos anos 80 do séc. XX e no país menos urbano, poucas eram as casas que tinham casas de banho.

O atraso era específico e generalizado, as políticas desenvolvimentistas foram tardias e nós, os seus executantes, fomos corridos e, infelizmente, seguiu-se-nos o dilúvio em Portugal e Colónias.

Fevereiro de 2022

 

LACRIMOSA - 3

Õ fenómeno migratório está directamente relacionado com a determinação de melhoria das condições de vida – da guerra para a paz, do locacionismo para a liberdade de escolha de assentamento, dos condicionalismos económicos para a liberdade de estabelecimento, da autocracia para a democracia, da corrupção para a transparência, das sociedades fracturadas para as solidárias. Em suma, sempre no sentido da liberdade e da solidariedade.

Se tomarmos em conta que o conceito de solidariedade corresponde à
miscigenação dos conceitos de igualdade e de fraternidade, lá estamos todos simbolicamente «virados» para a República Francesa que, grosso modo, é o modelo ocidental.

Independentemente da localização geográfica, o modelo ocidental é alvo de imigração; outros modelos são geradores de emigração.

* * *

Durante séculos, Portugal gerou grandes fluxos migratórios porque não proporcionava aos seus nacionais as condições por que muitos ambicionavam sobretudo no plano material, o palpável.

As questões relativas ao desenvolvimento facilmente formalizam extensos conteúdos (mesmo que abandonando o plano teórico e baixando a análises de casos concretos) pelo que, para o caso português, me limito a constatar que foi a progressiva atenção dada à melhoria das condições de vida da generalidade da população sem o equivalente zelo nas questões da produção, da produtividade e, sobretudo, da competitividade que vêm gerando sucessivos colapsos financeiros do país. Mas, paralelamente, o perfil do actual emigrante português é muito diferente do do emigrante de uma ou duas gerações anteriores: o actual emigrante português não busca a sobrevivência (emigrante definitivo), escolhe entre as várias opções que o livre estabelecimento europeu ou norte-americano proporciona ao nível mais ou menos sofisticado de uma determinada condição profissional (emigrante temporário).

Em paralelo, os imigrantes em Portugal são oriundos de países que não oferecem esperanças aos seus nacionais e vêm para cá em busca de segurança e de uma «tábua de salvação» sujeitando-se a fazer o que nós, já rodeados de mordomias, não queremos fazer. O quê? Todo o trabalho braçal ou cuja remuneração seja inferior aos subsídios públicos a mândria.

Sugiro aos meus leitores em «Portugal e nos Algerves d’Aquém e d’Além mar em África, na Guiné, Arábia, Pérsia e Índia…» que façam uma análise ao caso que se lhes aplique e tirem as consequentes conclusões já que toda a emigração é simultaneamente esperançosa e lacrimosa.

Dezembro de 2021

Henrique Salles da Fonseca

LACRIMOSA - 2

À VISTA DO IMPERADOR

ou

OS ANÉIS E OS DEDOS

Hoje, a questão é: - Por que razão terá Salazar abandonado o Estado Português da Índia à voracidade dos seus cobiçosos predadores?

Como antecedentes imediatos da volatilização do Estado Português da Índia, há a registar o ataque à Esquadra da Polícia em Luanda no dia 14 de Março de 1961 e o auto-incêndio seguido de abandono da Fortaleza de São João Baptista de Ajudá no dia 31 de Julho do mesmo ano. Esse primeiro «horribilis annus» da penúltima fase do processo da dolorosa descolonização portuguesa fechou com a desistência da preservação do Estado Português da Índia.

Não sei até que ponto Francisco da Costa Gomes, então Coronel e Subsecretário de Estado do Exército, já era (secretamente) simpatizante do sovietismo como se revelou após o 25 de Abril de 1974 mas, na verdade, foi sob a sua orientação que se realizou o desarmamento da frágil guarnição militar do Estado Português da Índia.

Em resultado desse desmantelamento, acentuou-se o contraste entre as Forças militares em presença num putativo teatro de operações. Sendo este, de problemática defesa tendo em conta a descontinuidade geográfica do território a defender e o tipo de armamento típico na segunda metade do séc. XX de que a União Indiana dispunha profusamente no próprio local das potenciais operações. As forças terrestres indianas especificamente afectas à extinção do Estado Português da Índia eram constituídas por um efectivo de 45 mil homens (contando com uma reserva próxima de 25 mil e um «back support» de um milhão)  contando com eficaz apoio aéreo e naval. Ao que Portugal tinha para opor 3500 homens (mal?) distribuídos por Goa, por Damão e por Diu. Devíamos ter pudor em referir o armamento de que dispunham as nossas tropas mas manda a verdade histórica que refiramos as espingardas Kropatschek adquiridas na década de 80 do séc. XIX, algumas Mauser que estavam desactualizadas desde finais da II Guerra Mundial, duas (ou três?) autometralhadoras, sem apoio aéreo e com apoio naval ao nível do simbolismo.

A frase de Salazar «para Angola rapidamente e em força» significou mais do que a mobilização huna a partir da Metrópole. Pelos vistos, tratou-se também de mobilizar tudo quanto pudesse ser material com algum interesse operacional. De Goa, para Angola rapidamente e em força!

Não é crível que Costa Gomes tivesse desarmado o Estado Português da Índia contra a orientação de Salazar e tivesse mantido os cargos militares e políticos que vinha desempenhando.

* * *

Só se pode concluir que…

- Salazar sacrificou o Estado Português da Índia para acudir a Angola; a ordem de rendição não foi oficialmente bradada em Lisboa mas estava implícita nas condições criadas pelo desarmamento intencional;

- Os discursos políticos que se seguiram, não passaram de bravata choramingosa para puxar pelo patriotismo dos desprevenidos e as punições militares não passaram de bravata fardada.

* * *

Eis, pois, a visão do «Imperador»: - Vão-se os anéis para que fiquem os dedos.

Dos «dedos» se encarregou Costa Gomes treze anos mais tarde e, talvez para alívio da consciência, mandou reintegrar o General Vassalo e Silva.

Dezembro de 2021

Henrique Salles da Fonseca

NOTA FINAL - Informação sobre efectivos militares por obséquio do Coronel Pedro Calado Gomes da Silva

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