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A bem da Nação

CONVERSAS SOLTAS - 5

Personagens:

  • Rei D. Manuel II
  • Presidente Manuel Teixeira Gomes
  • Rainha D. Maria Pia

Cenário – passeio sobranceiro à «Praia dos Pescadores» na Ericeira

* * *

MTG – Boa tarde, Majestade! Cá estamos nós prontos para espantar os nossos colegas, os fantasmas que nos atazanam.

R – Como as outras, a conversa de hoje também fica exclusivamente entre nós, nem às paredes a confessaremos porque as paredes têm ouvidos e os ouvidos têm pernas.

MTG – Às ordens de um Rei sereno até um Presidente sereno obedece. – ambos riram -  Mas é claro que manterei segredo do que Vossa Majestade disser. Ouso pedir reciprocidade de tratamento.

R – Os pedidos de um Presidente sereno são facilmente satisfeitos por um Rei sereno. Tratemos, pois, de afastar os nossos fantasmas…

MTG – Quem começa?

R – Posso começar eu. E, para já, não vou afastar os meus fantasmas mais antigos. Fico-me só pelo que aconteceu em 5 e 6 de Outubro de 1910: a viagem de Lisboa a Mafra e o embarque aqui na Ericeira. Como se imagina, nas Necessidades, toda a gente estava de cabeça perdida, desde os criados que se viam sem emprego até às Rainhas mas a carruagem apareceu a horas de viajarmos para Mafra, quando lá chegámos tudo estava preparado para nos receber durante a noite, na manhã seguinte viemos até aqui sem correrias de quem foge, tínhamos um bote à nossa espera e o yacht «Amélia» ancorado ao largo. Até mesmo o percurso de Lisboa a Mafra pareceu um passeio de Domingo. A República tinha sido proclamada em Loures no dia 4, não devíamos passar por lá; a viagem por Cheleiros seria impossível para os cavalos e, contudo, sem que eu desse uma única ordem, saímos calmamente das Necessidades, rumámos a Queluz, tomámos o caminho de Pêro Pinheiro e Negrais, Malveira e Mafra, tudo isto sem subidas nem descidas difíceis. Estava tudo pensado por alguém, tudo aconteceu sem atropelos. Este é o meu primeiro enigma. O segundo, o ambiente em Mafra onde parecia que nada se estava a passar no resto do país e, finalmente, o que aconteceu à chegada ao yacht quando, esperando nós que rumaríamos ao Porto, o Comandante me declarou – sem me pedir licença nem qualquer hesitação – que rumaríamos a Gibraltar e não a qualquer outro destino. Pura e simplesmente, estávamos a ser raptados e o rapto começara no preciso momento em que subíramos para a carruagem no pátio das Necessidades. E quando chegámos a Gibraltar, já estava tudo arranjado para a minha avó seguir para Génova e não nos acompanhar até ao nosso destino final que, entretanto, já sabíamos que seria Londres. Tudo excessivamente sincronizado para se poder assemelhar a uma fuga.

MTG – Eu não lhe chamaria rapto mas sim uma acção que visava pôr a Família Real portuguesa a recato, em condições que garantissem a sua própria segurança física.

R – E a minha avó?

MTG – Vim a saber mais tarde que Londres não queria que a Casa de Sabóia se imiscuísse nos assuntos do Império Britânico.

R – E o que é que Portugal tem a ver com o Império Britânico?

MTG – Formalmente, nada. Mas a antiga Aliança dá aos ingleses um sentido de obrigação de protecção de Portugal que não sentem com outros países.

R – A Aliança ou os vinhos do Porto e da Madeira, as possessões ultramarinas e mais não sei quê?

MTG – Pois… E quando Vossas Majestades chegaram a Londres e se instalaram no mesmo palácio em que a Senhora D. Amélia nascera (estava então a Família Real francesa também em exílio), houve que procurar um Embaixador português que «falasse» bem inglês…

R – A bon entendeur! Quer isso dizer que os ingleses já tinham ligações com os republicanos?

MTG – Manda a prudência ao cavaleiro que mantenha um pé em cada estribo.

R – Agora sou eu que digo «Pois…». Realmente, com a sua chegada a Londres, sentimos uma certa segurança. Mas o fim da sua comissão foi um tanto repentinoa.

TG – O Presidente Sidónio Paes era da linha dura. Recebi ordem de regresso imediato a Portugal. Despedi-me do Rei Jorge V e da Rainha Alexandra que me receberam à pressa e, por amizade, fora das normas do protocolo. Despedi-me do Primeiro Ministro e segui no primeiro barco que arranjei. Passei por Lisboa para tratar de assuntos administrativos e recolhi-me a Vila Nova de Portimão e às minhas adoradas amêndoas, as minhas filhas, entretanto adolescentes. E assim fiquei em recato enquanto o Capitão Agostinho Lourenço punha a Marinha Grande na ordem sidonista. Com o fim do Consulado Sidonista, Lourenço desaparece da cena portuguesa durante 15 anos para só reaparecer em 1933 para instalar a PVDE. Ele e eu fomos como os alcartruzes mas em 1925 fartei-me de tudo, desmoralizei e exilei-me. Deixei os bens às minhas filhas e fui para longe da confusão que só com mão de ferro assentaria. E como não sou dos da «hard glove», auto-exilei-me  na Argélia francesa onde encontrei estalajadeiras amáveis e deixei-me por lá ficar à espera que o Capitão Agostinho Lourenço fizesse o que fez e que não era do meu estilo «soft glove».

R – E os «Serviços» abandonaram-no?

MTG – Bem, Majestade, digamos que as minhas modestas despesas foram sempre atempadamente liquidadas. Mas o meu funeral em Bougie foi pago pelo nosso Governo.

R – E com esta conversa, o Senhor afugenta algum fantasma?

MTG – Sim, Majestade. Estava muito necessitado de contar tudo a quem merecesse saber e me desse garantias de segredo absoluto. É o caso de Vossa Majestade.

Foi então que, no seu passo miúdo, vinda do «Passeio Marítimo», surgiu a Rainha D. Maria Pia que, passando junto do Rei e do Presidente, lhes fez saber que – Ho sentito tutto quello che hai detto e penso che, se non è vero, è ben trovaato – e, sempre no seu passo miúdo, seguiu até à porta da «Casa da Fernanda» onde se esfumou… Iria comer um «ouriço»? Que disparate! Quando é que já se viu um fantasma a comer?

Outubro de 2020

Henrique Salles da Fonseca

CONVERSAS SOLTAS - 4

Personagens:

  • Rei D. Manuel II
  • Presidente Manuel Teixeira Gomes

Cenário – varanda do hotel em que o Presidente viveu de 1925 a 1941 frente ao Mediterrâneo na cidade de Bougies, leste da Argélia.

* * *

 *

MTG – Majestade, é uma honra recebê-lo no meu local de exílio. E, sobretudo, tão longe de Lisboa.

R – Ora, ora, Senhor Presidente, como sabe, nesta nossa condição, tanto nos faz a distância de Lisboa ao Porto como de Portimão a Bougies. E, curiosamente, estas são paragens que conheci na infância.

MTG – Ah! Desconhecia por completo.

R – Sim, sim. Na minha infância, fizemos um cruzeiro no yacht «Amélia» até ao Egipto. No regresso, se bem me lembro, percorremos vários portos nesta costa. Mas do que melhor me lembro é da entrada em Valeta, a imponência das muralhas do porto… E é claro que, do Egipto, me lembro das pirâmides e duma volta que dei num camelo.

MTG – Também conheci muitas destas paragens. Não na infância mas já como jovem adulto quando andei ao serviço da casa comercial do meu pai, a comprar e vender frutos secos. Sobretudo, amêndoa do Algarve. Mas o mercado era maior do que a produção e tínhamos que comprar noutras fontes. Viajei muito e ganhámos muito dinheiro. Mas… «nem só de pão vive o homem» e tive que enveredar por outros caminhos.

R - Os da literatura e da política?

MTG – Exacto. E assim foi que me vi em Londres como Embaixador.

 R – E que balanço faz dessa missão? Se não me engano, foram sete anos, ou seja, muito mais do que o habitual.

MTG – Era uma missão que a todos parecia impossível. Levar a Inglaterra a reconhecer a República sob a presença da Família Real acabada de chegar em exílio forçado, com laços familiares e de amizade pessoal com a Família Real inglesa… Bem, reconheço que a atitude serena da Família Real Portuguesa me facilitou enormemente a missão. Os ingleses fizeram-me saber muitas vezes que admiravam a serenidade do relacionamento de Vossa Majestade com o representante da República e – não deveria ser eu a dizê-lo – também apreciavam a atitude serena da representação diplomática. Tiveram sempre a delicadeza de nunca referirem que parecia sermos amigos. Ainda bem que tiveram esse cuidado. Evitaram problemas políticos que Vossa Majestade dispensava e a República, ali representada por mim, também não queria de modo nenhum.

R – Gosto de confirmar que não fui motivo de preocupação. O Senhor devia ter muito mais com que se preocupar…

MTG – … o problema da dívida portuguesa, a ultrapassagem das sequelas políticas do «Ultimatum» que continuavam a azedar as relações bilaterais e, mais tarde, a pré-Grande Guerra, a nossa participação nos combates integrados nas Forças Britânicas, o nosso desempenho militar em África e mais um ror de temas que na altura pareciam relevantes mas que hoje dão vontade de rir.

R - Lembra-se de algum?

MTG - O empenho que coloquei na satisfação do pedido que a rainha Alexandra me fez de lhe redecorar o seu gabinete de trabalho com prejuízo de tempo na análise de informações mais ou menos relevantes que os Serviços de cada lado me iam transmitindo para eu enviar ou não à outra parte.

R – Os ingleses enviavam-lhe informações?

MTG – Informações classificadas que eu deveria analisar e encaminhar para quem eu considerasse conveniente. Nem sempre são as vias habituais, Majestade.

R – Pois, pois… Nem todos estão nos cargos certos, nem todos são merecedores das informações, nem todos percebem o que elas significam…

MTG -Nem todos os políticos ou funcionários se interessam pelo fim da História.       O fim da História – não o fim cronológico nem biológico mas, sim, o do alcance dos grandes objectivos da Humanidade tais como o equilíbrio económico estrutural, a harmonia social, a abastança cultural e moral – é nisso que o animal histórico, o homem, não pensa tão frequentemente quanto devia; dedica-se a questões menores, à análise conjuntural e perde o sentido dos grandes objectivos da Humanidade, o fim da História. Como Hegel diria, «a verdade que os homens demandam».

R - Sim, Senhor Presidente, concordo, mas já os latinos diziam «primum vivere, deinde philosofari» e nós, em vida, ainda estávamos na fase de tentarmos alcançar a primeira etapa, a do conforto material. Certa vez, tive conhecimento de uma discussão sobre o local politicamente mais apropriado para construir um simples chafariz para dar de beber a cavalos e azémolas. Um «Sentido de Estado muar».

MTG – E quando eu fui Presidente, as discussões não seriam muito diferentes dessa. Tudo tem a ver com os modos de satisfazer eleitorados, de ganhar votos nas eleições seguintes. E um Rei é deposto e um Presidente é levado ao desespero por causa da aguada de burros e mulas…

R – E por quê este exílio em Bougies?

MTG – Porque naquela época, aqui era a França exótica onde podia entregar-me tranquilamente à escrita e onde encontrei quem cuidasse de mim.

R – Senhor Presidente, fiquemos por aqui. Acho que continua a não querer contar tudo mas não se esqueça de que, para nós, «tudo o vento levou». O nosso próximo encontro vai ser na Ericeira onde espero espantar alguns colegas nossos.

MTG – Que colegas, Majestade?                                               

R – Fantasmas.

Outubro de 2020

Henrique Salles da Fonseca  

CONVERSAS SOLTAS - 3

Personagens:

  • Rei D. Manuel II
  • Presidente Manuel Teixeira Gomes

Cenário – Sala de música do Palácio da Ajuda, Lisboa

No meio da cena, o violoncelo do Rei D. Luís com uma poltrona de cada lado

* * *

R – Senhor Presidente, seja bem vindo à casa dos meus avós.

MTG – Obrigado, Majestade! A casa que, durante muitos anos, foi a «Real Barraca», de madeira.

R – Dá para imaginar o susto que o meu tetravô, o Rei D. José, apanhou no Paço da Ribeira com tudo a desmoronar-se e com o tsunami que alagou de enxurrada a baixa de Lisboa. Também eu nunca mais voltaria a entrar numa casa de pedra e cal.

MTG – Mas aqui estamos nós no cimo da Calçada da Ajuda, a recato de tsunamis e junto do violoncelo do Senhor D. Luís. Chegou alguma vez a ouvi-lo tocar?

R – Não. Eu nasci cerca de um mês depois da sua morte mas a minha avó dizia que em Portugal havia quem tocasse melhor violoncelo do que ele e que em Itália, então, muito melhor.

MTG – Ah, sim, a Côrte de Sabóia devia ser um centro cultural de primeira grandeza.

R – Era isso que a minha avó dizia. E foi lá que cumpriu o exílio. Exilou-se no seu próprio país. Teve mais sorte que nós.

MTG – E, contudo, ambos tivemos exílios dignos. Vossa Majestade teve um ambiente acolhedor e eu tive o ambiente que eu próprio escolhi.

R – Ainda hoje estou convencido de que o ambiente acolhedor que nos rodeou, à minha mãe e a mim, se ficou muito a dever a si, Senhor Presidente, enquanto Embaixador em Inglaterra.

MTG – A minha preocupação era a de que ninguém importunasse Vossas Majestades. A República nunca me deu ordens para hostilizar a Família Real exilada. Foi-me fácil actuar pela positiva. Na maior parte das vezes, bastou-me não fazer nada.

R – Mas houve ocasiões em que teve que agir.

MTG – Admirei muito o oferecimento de Vossa Majestade para integrar o Corpo Expedicionário Português na Flandres. Apoiei a ideia mas Lisboa não deu seguimento ao meu apoio e recusou a ideia. Embaixador não se enfurece mas lastimei-me à Raínha Alexandra. Terá sido ideia dela a integração de Vossa Majestade como Oficial da Cruz Vermelha britânica.

R – Adivinhei que tinha havido alguma actuação do então Embaixador de Portugal junto de alguém que nunca identificara até agora.

MTG –  Soube então que Vossa Majestade ficou zangado por não ter sido aceite a sua generosidade mas, perante a recusa, não consegui fazer grande coisa.

R – Mais do que zangado, fiquei triste. De princípio, fiquei desiludido com a nomeação inglesa para a Cruz Vermelha mas, passados uns dias, pensando mais serenamente, concluí que só podia ter sido obra do Senhor Embaixador. E foi esse o sentido do meu super-discrteto cumprimento em Ascot quando o Senhor, à distância, tirou o chapéu e eu fingi dizer que sim à minha mãe que, a meu lado, nada dissera. Ela percebeu tudo e limitou-se a dizer «Vaut mieux comme ça», discretamente e à distância. Espero que tenha percebido o meu agradecimento.

MTG – Sim, percebi e foi essa afabilidade que me deu alguma tranquilidade no desempenho das minhas funções. E foi também com entusiasmo que anunciei a iniciativa de Vossa Majestade de oferecer a sala de operações ortopédicas ao Hospital Português em Paris. Quando me chumbaram a ideia de colocar uma placa a referir que fora Vossa Majestade que oferecera a sala, tive que puxar pela cabeça e acabar por mandar escrever aquela ignomínia que lá foi colocada «Oferta de um português em Londres». Peço que me desculpe.

R – É claro que desculpo! Na altura, achei mal mas, face às circunstâncias, não vejo hoje que melhor solução houvesse. Sobretudo com o jacobino que então representava Portugal em França. Quem era ele?

MTG – Já não me lembro mas não era por certo alguém que gostássemos de ter nestas nossas conversas.

R – Claro que não! É isso que admiro em si, Senhor Presidente: o Senhor não é jacobino e tem uma concepção serena da República, deseja para Portugal o mesmo que eu. Como tudo poderia ter sido diferente se nos tivéssemos conhecido no início do meu reinado…

MTG – Como se viu, também eu não fui capaz de fazer grande «coisa». A insubordinação que vigorava entre as elites nos finais da Monarquia era a mesma que me levou ao desespero como Presidente da República. Só uma mão pesada que se abatesse sobre essa balbúrdia poderia resolver o problema mas nem Vossa Majestade nem eu eramos filosoficamente capazes disso. As elites portuguesas encarregam-se ciclicamente de fazer esboroar as intenções inocentes dos democratas liberais.

R – Não merecem a liberdade que lhes demos a servir. E que me conta do seu exílio?

MTG – Contarei com o maior gosto numa próxima oportunidade porque o pessoal da limpeza está a entrar ao serviço e não convém que nos confundam com alguma nuvem de pó.

R – Muito bem, o nosso próximo encontro vai ser em Bougie. A nós, o Governo da Argélia não exige Passaportes nem Vistos.

Outubro de 2020

Henrique Salles da Fonseca

CONVERSAS SOLTAS – 1

 

Personagens:

  • Rei D. Manuel II - 1889 – 1932 (exílio em Inglaterra, 1910-1932)
  • Presidente Manuel Teixeira Gomes - 1860 – 1941 (Embaixador em Inglaterra, 1911-1918; PR, 1923-1925)

* * *

Os espíritos vagueiam pelos lugares dos respectivos afectos, não pelos cemitérios.

Nascido no palácio de Belém, D. Manuel II vagueava pelo jardim e parou junto ao gradeamento olhando o Tejo que naquele dia estava azul. Como sempre, cruzara-se com quem não o via nem sequer o sentia mas, desta vez, foi ele próprio que sentiu que quem estava a seu lado também se encontrava nessa tal outra dimensão, a volátil…

MTG - Creio, Majestade, que, finalmente, podemos conversar sem que rebente algum escândalo político.

R - Ah! Senhor Embaixador, sim, finalmente. Mas ao Senhor também coube a amarga tarefa de chefiar este Estado. Tratá-lo-ei por Presidente e não mais por Embaixador.

MTG - Sim, amarga tarefa, essa, a de se ser Chefe de Estado constitucional em Portugal. Constitucionalmente, nada se pode fazer mas, afinal, é ao Chefe de Estado que todas as explicações são exigidas.

R - Exacto! Mas mais vale assim do que o tratamento dado aos déspotas em final de carreira a quem cortam o pescoço. E nem sequer foi preciso a Luís XVI de França ser déspota – que nem sequer o foi de modo evidente - para o «despentearem».

MTG – O Senhor seu Pai não era déspota e…

R – O meu Pai nomeou um Chefe de Governo que bulia com os Partidos (tanto monárquicos como com o Republicano) que se consideravam os «donos» do País. Mexeu num ninho de vespas ou, como dizem os brasileiros, «cutucou a onça com vara curta». Desequilibrou um equilíbrio muito instável para tentar sair de um caminho que não levava a lado nenhum e…

MTG - … e aqui estamos nós a recordar situações aparentemente diferentes – uma em Monarquia e a outra em República – para concluirmos que, afinal, o problema português tem mais a ver com as elites do que com o tipo de Regime. Estamos sempre a esbarrar na gestão da «coisa pequena», na falta de grandes rasgos de imaginação, de quem lance o trampolim para o meio do ginásio.

R - … e se alguém o faz, logo os medíocres se assanham em denegrir essa iniciativa.

MTG – Exactamente, Majestade! O nosso problema fundamental é a mediocridade polvilhada de inveja. Sacrificam-se os homens em nome de fins históricos apregoados como sublimes e, afinal, esses fins encontram-se ao nível das couves e das batatas a que os arautos da História se dedicam mal saem dos focos que inundam a ribalta. O juízo moral que incide sobre o Chefe e a sua obra é condicionado por essas couves e batatas, é tão fino que dá para lhe chamarmos grosseiro. Foi esse o julgamento que produziu o regicídio, foi esse o julgamento que levou Vossa Majestade
a Ericeira no dia 6 de Outubro de 1910, foi o desespero pela obra imperfeita que me levou a embarcar no navio «Zeus» em Dezembro de 1925 com destino ao norte de África. Porque a minha sorte teria sido igual à de Vossa Majestade caso eu tivesse deixado a iniciativa por mãos alheias. Dá para revermos o que fizemos enquanto passámos pelo «activo»?

R – Sim, claro que dá! Pela minha parte, mantive-me fiel à Carta Constitucional que jurei defender aquando da minha entronização perante as Cortes.

MTG - …ocasião em que baniu a cerimónia do «beija-mão real». Vendo a História ao contrário, apetece perguntar se valeu a pena. Nós, republicanos, achámos bem e houve quem aplaudisse a abolição de um cerimonial anacrónico mas não foi isso que levou a que se desistisse da mudança de Regime; em simultâneo, poderá ter acontecido que alguns monárquicos se sentissem menos vinculados ao Rei.

R – Obediências servis, dispensei-as porque não as tenho como seguras nem compatíveis com a dignidade humana. Isso era tipicamente medieval. Apesar das fragilidades que aponta, acho que fiz bem ao abolir uma cerimónia abjecta aos olhos do século XX. Quando o Senhor assumiu a Presidência, achar-se-ia mais confortável com algo semelhante por parte das Ordens profissionais ou de outros importantões da sociedade civil?

MTG – Claro que não! Mas, em República, não há juras dessas…

R – Pois! Há outras, daquelas que não se fazem às claras.

MTG – Como no tempo da Monarquia.

R - …mais a Carbonária. Mas tanto o Senhor como eu, já não estamos em condições de corrigir a História. Fica a conclusão de que ambos fizemos o melhor que pudemos pelo nosso querido país.

MTG – Tiro também outra conclusão: Vossa Majestade e eu estávamos, afinal, do mesmo lado da barricada, o da democracia, ambos opostos aos totalitarismos.

R – Senhor Presidente, agradeço ter vindo conversar. Acho que ainda temos mais coisas a dizer mas terá que ficar para uma próxima oportunidade pois estão a chegar vivos que querem ver o Tejo.

O Presidente Marcelo chegou-se à grade da varanda para fazer uma selfie com Ursula von der Leien mas não viram os espíritos que se esfumaram.

 

Mais do que solta, esta é uma conversa improvável

Outubro de 2020

Henrique Salles da Fonseca

EFEMÉRIDE – 27 DE SETEMBRO DE 1810

BATALHA DO BUÇACO

A Batalha do Buçaco foi travada na Serra do Buçaco durante a Terceira Invasão Francesa a Portugal, no decorrer da Guerra Peninsular, a 27 de Setembro de 1810. De um lado, em atitude defensiva, encontravam-se as forças anglo-lusas sob o comando do Tenente-general Arthur Wellesley, visconde Wellington. Do outro lado, em atitude ofensiva, as forças francesas lideradas pelo Marechal André Massena. No fim da batalha, a vitória mostrava-se nitidamente do lado anglo-luso.

Passam hoje 210 anos.

Para saber mais, continuar a ler em «Batalha do Buçaco – Wikipédia»

 

27 de Setembro de 2020

Henrique Salles da Fonseca

AREIAS DO GUADIANA

Espanha nunca aceitou de bom grado a conquista portuguesa do Algarve com base numa herança de um avoengo qualquer

. Mas a «uti possidetis» vingou por antecipação à inclusão dessa figura (posse efectiva de uma região) no Direito Internacional e o Algarve é português e ponto final na discussão.

Contudo, durante o Consulado Pombalino, correram ruimores de que os espanhóis se preparavam para tomar conta de toda a foz do Guadiana. E o Marquês mandou construir à pressa uma cidade sobre as areias da nossa margem do Guadiana. Chamou-lhe Vila Real de Santo António e mandou os habitantes de Monte Gordo transferirem-se para a nova cidade. As hesitações foram dirimidas com espingardas apontadas às costas.

Antes desta tomada de posse pela força, aquelas areias na margem direita do Guadiana eram esparsamente ocupadas por choupanas de pescadores que tanto podiam ser portugueses como não. Eram transfronteiriços e viviam onde melhor lhes aprouvesse. As areias eram conhecidas por «arenillas» (areiazinhas), nome que, uma vez aportuguesado, se transformou em «arenilhas». Mas o povo logo se encarregou de deitar a baixo o «e» e o nome do local passou a ser Arnilhas.

Nome bem mais apropriado que Vila Real de Santo António que ali foi pespegado por Decreto, não por sentimento. E o sentimento é tal que os vila-realenses ainda hoje se auto denominam arnilhas.

Bem seria que as placas toponímicas nas entradas da cidade ostentassem essa designação entre parênteses por baixo do nome oficial.

Setembro de 2020

Henrique Salles da Fonseca

FONTE – José Pedro Queioga, Tavira

EFEMÉRIDE

 

24 DE JULHO DE 1833

 

Vindas dos Açores e desembarcadas no Mindelo, as forças liberais entrincheiraram-se no Porto dando os miguelistas início ao duro e prolongado Cerco da cidade. Mas, conseguindo furar o bloqueio naval da barra do Douro, uma frota liberal fez-se ao mar e seguiu até ao Algarve onde defrontou uma esquadra miguelista que rapidamente se entregou.

 

Batalha Naval no Cabo de S. Vicente, 5 de Julho de 1833

 

Feitas as pazes localmente, as forças liberais e miguelistas uniram-se em Cacela (hoje, Cacela Velha) sob o comando do Marechal Duque da Terceira que rumou a Lisboa não mais pelo mar mas sim por terra ludibriando o bloqueio que os miguelistas faziam da barra do Tejo.

 

Chegados a Cacilhas, atravessaram o Tejo em todos os barcos, pequenos e grandes, que encontraram e desembarcaram em Lisboa no dia 24 de Julho tomando a cidade que se entregou sem resistência.

 

 

Henrique Salles da Fonseca

O MARTELO DOS HEREJES

Nascido em Lisboa no ano de 1195, morreu em Vercelli no dia 13 de Junho de 1231; baptizado Fernão, ficou na História para nós, portugueses, como Santo António de Lisboa e de Pádua para os italianos.

Ficheiro:Santo Antonio 01b.jpg Santo António pregando aos peixes - mural de azulejos, Guimarães

Historiadores do séc. XV admitiram a possibilidade de o seu pai, Martim de Bulhões, ser descendente de Godofredo de Bulhão, comandante da Primeira Cruzada e a sua mãe, Teresa Taveira, descendente de Fruela I, quarto rei das Astúrias e Leão que governou entre 757 e 768. Contudo, a genealogia completa ainda é incerta; tudo o que se sabe é que os seus pais eram nobres, ricos e tementes a Deus. Fernão nasceu rico numa casa próxima da Sé de Lisboa, com pais relativamente jovens.

Educado na escola da Sé, ingressou em 1210, aos 15 anos, no convento de Lisboa da Ordem de Santo Agostinho, o de S. Vicente. Dois anos depois e para evitar as frequentes visitas de amigos e familiares, pediu e obteve dos seus superiores a transferência para o Convento de Santa Cruz em Coimbra onde permaneceu oito anos. Muito estudioso e dotado de grande inteligência e excelente memória, cedo obteve um grande conhecimento das Sagradas Escrituras.

Em 1220, assistindo na Igreja de Santa Cruz aos actos fúnebres dos primeiros mártires Franciscanos mortos em Marrocos em 16 de Janeiro desse mesmo ano, optou pela via do sacrifício e eventual martírio e decidiu tornar-se Frade Menor de modo a pregar a Fé aos sarracenos. Tendo confidenciado as suas intenções a alguns membros do Convento dos Olivais, então arrabaldes de Coimbra, recebeu deles o hábito franciscano. Assim foi como Fernão deixou a Ordem dos Cónegos Regulares de Santo Agostinho para ingressar na Ordem dos Frades Menores, Franciscanos, onde tomou o nome de António. Este, o nome que o Convento dos Olivais viria em sua memória a adoptar também.

Pouco depois do seu ingresso na Ordem Franciscana, António seguiu para Marrocos mas adoeceu gravemente durante todo o Inverno e foi obrigado a regressar a Portugal na Primavera de 1221. Contudo, o barco em que navegava foi apanhado por forte tempestade e acostou involuntariamente à Sicília onde António permaneceu o tempo suficiente para se recompor dos problemas de saúde. Tendo entretanto ouvido dizer que um Capítulo Geral se reuniria em Assis a 30 de Maio, para lá se dirigiu a tempo de participar nos trabalhos. Concluída a reunião, António permaneceu no silêncio sem que mais se tenha ouvido falar dele.

“Não disse uma palavra sobre os seus estudos”, escreveu um dos seus primeiros biógrafos, “nem sobre os serviços que já prestara; o seu único desejo consistindo em seguir Jesus Cristo até um eventual martírio”. Assim, pediu para ser colocado num lugar em que pudesse viver em isolamento e penitência com vista a entrar mais profundamente no espírito e disciplina da vida franciscana. Foi então colocado no Eremitério de Montepaolo (próximo de Forli) onde passou a celebrar Missa para os irmãos leigos ali residentes.

Certo dia reuniram-se em Forli inúmeros frades franciscanos e dominicanos para receberem a ordenação sendo que António estava presente apenas como acompanhante do seu Provincial. A certo momento, concluiu-se que ninguém fora indigitado para fazer a Homilia e o Provincial Franciscano convidou o Superior Dominicano ali presente para indigitar algum dos seus para fazer a prática. Contudo, todos declinaram dizendo que não estavam devidamente preparados. Na emergência, coube a indigitação a António a quem todos julgavam apenas capaz de ler o Missal e o Breviário. Foi-lhe assim ordenado que dissesse o que o Espírito de Deus pusesse na sua boca.

Compelido pelo voto de obediência a que estava obrigado, António começou por falar lenta e timidamente mas depressa se entusiasmou e passou a explicar os mais recônditos significados das Santas Escrituras com tal erudição, profundidade e de tão sublime doutrina que todos os presentes se encheram de espanto. Aquele, o momento em que começou a carreira pública de António.

Informado da ocorrência, o futuro São Francisco de Assis dirigiu-lhe a seguinte carta:

Ao Irmão António, meu Bispo (i.e. Professor de Ciências Sagradas)o Irmão Francisco envia as suas saudações. Será do meu agrado que vós ensinais Teologia à nossa irmandade considerando, contudo, que o espírito de oração e devoção não se extinga. Adeus. (1224)

Seguiu-se o ensino em Bolonha, Montpellier e Toulouse.

No entanto, foi sobretudo como orador – mais do que como Professor – que António fez a sua grande colheita. Num grau perfeitamente eminente, possuía todas as qualidades de um pregador eloquente: voz forte e clara, porte de ganhador, memória prodigiosa e os mais profundos e amplos conhecimentos da Doutrina. A estas características há a crescentar o espírito profético e um extraordinário dom miraculoso. Com o zelo de um apóstolo, iniciou uma reforma da moralidade então vigente combatendo especialmente os vícios da luxúria, avareza e tirania. Distinguiu-se igualmente no combate aos hereges mais importantes naquela época, os Cátaros e os Patarinos que «infestavam» o centro e norte de Itália e os Albigenses no sul de França.

Dentre os muitos milagres que lhe são atribuídos, os mais referidos pelos seus biógrafos são:

O de um cavalo em Rimini que não comia havia já três dias recusando qualquer comida que lhe pusessem à frente, até que se ajoelhou em adoração perante as Sagradas Escrituras que Santo António lhe colocou à frente comendo então umas avelãs que lhe apresentaram;

• O da comida envenenada que uns herétics italianos lhe apresentaram e que ele, com o sinal da cruz, transformou em inofensiva;

• O do famoso sermão aos peixes que ele proferiu nas margens do rio Brenta, próximo de Pádua.

Eis por que tanto o zelo no combate às heresias como as inúmeras conversões que fez lhe renderam o glorioso título de Malleus hereticorum, o Martelo dos Heréticos.

 

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Henrique Salles da Fonseca

«RESSENTIMENT» - NIETZSCHE

Hoje, 28 de Maio de 2020, lembrei-me do conceito nietzschiano de ressentiment (que ele usa na grafia francesa) e que liga ao sentimento de superação de uma situação de constrangimento associada à inveja e à necessidade de culpabilização de alguém por esse sofrimento.

Historicamente, entre nós, temos duas formas de sublimação desse ressemtiment: a emigração, nomeadamente aquela que erigiu o Império; as revoluções, de que destaco as mais recentes, a da implantação da República, a do 28 de Maio de 1926 e a do 25 de Abril de 1974, uma sucessão ao estilo dos alcatruzes – alarga, aperta, alarga.

A Monarquia, tipicamente o regime em que uns nasciam destinados ao mando e os outros à obediência, foi substituída por um outro em que todos se achavam com direito ao mando, a sublimação do ressentiment numa explosão dos recalcamentos acumulados e de vingança pelas expectativas frustradas´- daí, a instabilidade social, as constantes revoltas de facção, os Governos de curta duraçã0o, a ausência de soluções sensatas ou eficazes, a bancarrota, a criação da ansiedade e da aspiração por uma paz entretanto perdida.

Foram os militares humilhados na Flandres, no norte de Moçambique e no sul de Angola que decidiram «pôr ordem no quartel» e em 28 de Maio de 1926 disseram que, a partir dali, eram eles que mandavam. Mas os traumas eram muitos e também eles não se entenderam como queriam. Lá tiveram que ser «arrumados» Gomes da Costra e Mendes Cabeçadas até que Carmona se sentou na poltrona. E foi depois duma negaça que tiveram que ir de novo pedir-lhe que regressasse. A quem? Àquele que definiria a vida portuguesa de 1933 a 1974, o Doutor Salazar.

E foram duas as missões que o levaram a agir: o reequilíbrio das Finanças Públicas e a oposição à determinação dos soviéticos de tomarem conta da Península Ibérica para subjugarem a Europa entre os Pirinéus e a futura cortina de ferro e, simultaneamente, tomarem conta das colónias portuguesas.

O desenvolvimento económico foi nesse longuíssimo período apenas o que o equilíbrio financeiro permitisse e as frustrações políticas dos que se sentiam constrangidos criaram tensões que a PIDE ia «gerindo» mas que, acumuladas, não podiam ser contidas.

O 28 de Maio perdurou tempo demais, não quis evoluir e quando o Proifessor Marcelo Caetano o tentou fazer, foi boicotado pelos «ultras» e viu-se apeado por um golpe comunista no dia 25 de Abril de 1974.

E aí, novamente, o povo saiu às ruas a berrar nem ele próprio sabia para quê e vá de se ver envolto num processo revolucionário soviético que só tardiamente derrubou. E só então é que o ressentiment pôde dar largas às invejas, às frustrações.

E já lá vão 46 anos em que a bancarrota regressou repetidamente, a bagunça alternou com a austeridade até que Stalin foi claramente substituído por Gramci na viabilização de uma geringonça governativa.

Segue-se o quê? Não sei mas gostaria que não fosse algo parecido com o que aconteceu ao inspirador destas linhas, Friedrich Nietzsche, a loucura.

Eis do que,  «sans ressentiments», me lembrei hoje.

28 de Maio de 2020

Henrique Salles da Fonseca

ENIGMAS DA HISTÓRIA – 2

Antes do mais, recordo que todas as informações contidas no texto anterior resultam do esforço alheio de investigação, sendo que eu me limito a fazer como o cuco que usa o ninho laboriosamente feito por outros. Mas, já que não estou em condições de investigar (forte ambliopia), posso especular e tentar extrair conclusões mais ou menos certas mas plausíveis, pelo menos.

* * *

Então, o que me parece ter acontecido foi que na guerra de 14-18, Agostinho Lourenço terá sido integrado na 2ª Repartição do Comando Português, a da informação e contrainformação e, daí, foi um instante até se aproximar dos homólogos ingleses – não esqueçamos que a Força Expedicionária Portuguesa estava enquadrada no Sector Britânico – que, por sua vez, estavam próximos ou eram membros do MI6. Parece-me que foi aqui que se encurtaram as distâncias entre Agostinho Lourenço e o MI6, se é que as distâncias não se anularam mesmo.

De seguida, «o homem do bigode» veio de licença a Portugal e não voltou para o cenário da guerra.

É aqui que faço entrar Sidónio Paes na cena deste folhetim nomeando Agostinho Lourenço para o cargo de Governador Civil de Leiria a fim de extirpar os movimentos grevistas na Marinha Grande. Mas, feito o «serviço», não aqueceu o lugar pois foi nomeado Director da Polícia Preventiva a qual, segundo informam os nossos investigadores, terá sido instalada à imagem e semelhança do MI6, nomeadamente nas técnicas de «convite dos prisioneiros à fala».

Fim do Consulado Sidonista em 1918 e «o homem do bigode» desaparece da circulação. E desaparece durante 15 anos, o que não é brincadeira. Se me disserem que ele foi «estagiar» no MI6, eu acredito – tempo mais do que suficiente para confirmar fidelidades.

Reaparece em 1933 como Director, o primeiro, da PVDE – Polícia de Vigilância e Defesa do Estado que em 1945 mudou de nome (mas creio que de mais nada) para PIDE – Polícia Internacional e de Defesa do Estado. Lourenço manteve-se no cargo de 1933 a 1956, quando atingiu o limite de idade e se aposentou do serviço ao Estado Português. Depois de aposentado, por empenho do MI6, foi Director da Interpol durante cinco anos. De tudo, para concluir que Agostinho Lourenço era homem de confiança dos serviços de segurança britânicos.

E terá já sido nessa posição de confiança que actuou enquanto foi Director da PVDE/PIDE. Por alguma razão, era o único não-Ministro que acedia directamente ao Presidente do Conselho de Ministros e com ele despachava semanalmente.

Ora, tendo o Doutor Salazar desempenhado o cargo de Ministro dos Negócios Estrangeiro de 1936 a 1947, foi a Sevilha também nessa qualidade, o que lhe poupou imenso trabalho não tendo que instruir intermediários. E fez-se acompanhar pelas únicas pessoas da sua especial confiança: o motorista, o Embaixador Pedro Theotónio Pereira, seu braço direito para casos bicudos e Agostinho Lourenço como seu contacto directo com os «bas fonds» dos Aliados. Lourenço foi a Sevilha como membro relevante da comitiva do Doutor Salazar, não como Oficial de Segurança que, aliás, nunca foi. Da segurança do Presidente do Conselho e sua comitiva encarregaram-se dois Oficiais que a História apagou.

Sob a influência diplomática de Ramon Serrano Súñer (pela calada, o «Jamon Serrano») – que até então já tinha sido ministro seis vezes – a Espanha estava prestes a quebrar a neutralidade para alinhar militarmente com o Eixo.

Ora, em Sevilha, o Doutor Salazar garantiu a Franco que o embargo internacional a Espanha seria atenuado com a passagem dos abastecimentos dos Aliados através do território português desde que a Espanha mantivesse a neutralidade. Franco agarrou a ideia e, passado pouco tempo, dispensou Súñer de quaisquer funções ministeriais. Realmente, nunca mais Súñer voltou a ser ministro até que, com 102 anos de idade, se entregou ao Criador.

Se quiséssemos fazer humor, diríamos que o Doutor Salazar fizera uma mexida fundamental no Governo Espanhol. Mas, sem humor, temos que reconhecer que naquele encontro secreto em Sevilha aconteceram coisas importantes:

  • A neutralidade espanhola foi muito prejudicial ao Eixo que já não contava com a Itália para nada;
  • O Doutor Salazar demonstrou estar claramente do lado dos Aliados evitando que estes invadissem os nossos «portaviões» Açores e Cabo Verde;
  • Que três cérebros bem ginasticados valem bastante mais do que algumas Divisões Blindadas.

* * *

Acabo como comecei: os factos são fruto de investigação alheia; a especulação é minha. Esta, pode servir para alguém, com mais imaginação, escrever folhetins «à la façon de James Bond» ou para servir de sugestão a investigadores nas suas teses académicas. Nem a uns nem a outros cobrarei direitos de especulação.

FIM

Maio de 2020

Henrique Salles da Fonseca

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