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A bem da Nação

COISAS QUE POUCOS SABEM

O elmo de D. Sebastião regressou a Portugal no início de 2011

O préstito fúnebre que acompanhou o corpo do Rei D. Sebastião de Faro até ao Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, sob a direcção do vedor Francisco Barreto de Lima, era composto pelos seguintes fidalgos nomeados por Filipe I:

  • Diogo da Silva
  • Francisco de Castelo Branco
  • Henrique Correia da Silva
  • Jerónimo Moniz de Luziñano
  • João de Castro
  • Lourenço de Almada
  • Lucas de Portugal
  • Ruy Lourenço de Távora

Resta agora saber se o corpo transportado e homenageado era efectivamente o do jovem Rei D. Sebastião ou se tudo não passou duma fantochada para justificar a subida de Filipe II de Espanha ao trono de Portugal.Será então o corpo do Rei, o que está no túmulo? Será mesmo um corpo humano?

E que tal uma exumação para que se dissipem dúvidas?

Não é que isso dê um novo rumo à História mas de certeza que ajudará a esclarecer sobre o caracter do rei espanhol, seja pela positiva ou pela negativa.

Henrique Salles da Fonseca

 

OS MOÇÁRABES

A palavra «moçárabe» é uma corruptela de «mostarib» ,

nome dado pelos árabes aos estrangeiros que viviam entre eles.

Os moçárabes eram os cristãos que permaneceram com os árabes continuando com a sua administração vivendo em bairros separados. 

A sua condição foi agravada a partir dos reinos da taifa e ainda mais com os Almorávidas sendo objecto de perseguições por parte de Abderramão II. 

Os Almóadas foram ainda mais intolerantes com estas comunidades demolindo igrejas cristãs e expulsando os moçárabes sobretudo os de Marrocos que se refugiaram em Castela. À medida que as conquistas cristãs avançavam, a vida dos moçárabes nos territórios muçulmanos tornava-se mais difícil levando-os a refugiarem-se em praças cristãs.

* * *

O Norte e o Sul da Península Ibérica, separados pela Meseta Central, para além de um relacionamento natural mútuo, mantêm contactos com zonas afins numa corrente migratória constante que acabou por acentuar dependências étnicas e civilizacionais. Enquanto que o Norte, desde muito cedo, se liga à Galiza, o Sul prolonga-se para a África do Norte e, de uma maneira geral, para as rotas do mar interior.

A partir do século IV d. C., as estruturas políticas do Império Romano começam a desvanecer-se e as funções urbanas são completamente reorganizadas por mercadores de origem oriental criando novos polos de atracção em detrimento da antiga cidade do poder romano.

Esta nova reorganização traz uma nova dinâmica social e económica a Lisboa e Coimbra e esvazia as antigas cidades de Scalabis e Conímbriga. Começam a esboçar-se os mecanismos de uma autarcia urbana, cuja tradição se perde no Mediterrâneo e que irá atingir o seu apogeu na época islâmica. São estas comunidades urbanas, islamizadas desde muito cedo, que irão introduzir a nova religião muçulmana, que afinal é a que melhor se molda aos seus interesses internacionais e aos circuitos de mercados.

A grande massa humana que enche as ruas das cidades é formada, na sua maioria, por uma diversidade de mercadores, artesãos e antigos camponeses que passaram a hortelãos-jardineiros, vindos dos locais mais diversos e de diferentes etnias. As ruas e bairros encontravam-se organizados em comunidades sendo estas as responsáveis pelo carácter único da cidade mediterrânica. São cristãos moçárabes, são cristãos de culto oriental, são judeus ortodoxos ou já convertidos, são sírios, alexandrinos, sicilianos ou malteses de culto muçulmano que participam com regularidade nos ritos e festividades da sua paróquia.

No decorrer do século VIII, quando surgem os primeiros sintomas de arabização no Garb-al-Andaluz, em quase toda a Península Ibérica falava-se o latim. No entanto, o crescente prestígio árabe e o simultâneo enfraquecimento das autoridades eclesiásticas levam a uma imposição gradual no mundo urbano da nova língua.

Até há bem pouco tempo, considerava-se que a ocupação em massa da Península Ibérica pelos exércitos árabes, iemenitas, sírios e berberes tinha contribuído para uma rápida imposição da lei de Maomé através de massacres ou empurrando para Norte os cristãos. Hoje, pelo contrário, dá-se pouca importância à contribuição das forças militares na islamização do Andaluz salientando-se o contributo dos caminhos e rotas do comércio oriental no estabelecimento da religião muçulmana que foi, no entanto, de progressão lenta e gradual. Só nos finais do século X os muçulmanos terão ultrapassado mais de metade de toda a população andaluza.

Se até meados do século X a maioria da população andaluza era não muçulmana e a comunidade judaica não excedia as 10 mil pessoas, é fácil concluir da importância e da extensão do fenómeno moçárabe na história andaluza. Do ponto de vista religioso, interessa destacar duas facetas principais: a ortodoxia urbana exacerbada no choque ideológico com o adversário; uma proliferação de cultos regionais arreigados num meio rural ainda mal cristianizado e votado ao abandono pela Igreja que perdera o poder secular.

Nas grandes extensões interurbanas, onde se tinham enraizado os dialectos moçárabes, permaneceu também uma pesada tradição cristã na sua vertente mais profunda, isto é, o culto dos mortos. Existiam cultos regionais em que era notória a sacralização cristã dos sítios e locais anteriormente habitados por outros deuses. Existiam pequenos mosteiros instalados em antigas villae romanas.

A velha Igreja visigótica, adaptando-se à nova ordem, dispersa-se por alguns poderosos bispados que, durante séculos, vão ser os mediadores das comunidades moçárabes no diálogo com os alcaides e autoridades muçulmanas. Contestando um justificado isolamento perante as outras igrejas cristãs e o papado, em 924 o Papa João X enviou um representante à Espanha muçulmana, que reconheceu a ortodoxia e a legitimidade cristã da liturgia visigótica preservada pelos moçárabes.

Num outro sentido, existem notícias de outro tipo de simbioses e integração no mundo muçulmano. O monge João de Gorze, embaixador em Córdova de Otão, o Grande, em meados do século X, constata que os cristãos do al-Andaluz não comiam carne de porco.

Tudo indica que no Garb-al-Andaluz, a proporção de moçárabes no seio das populações urbanas era bastante elevada, à imagem do que se passava no al-Andaluz. E em Coimbra, a sua presença era largamente maioritária embora o seu culto em nada se assemelhasse àquele que os bispos do Norte impuseram depois de ocupar a cidade em 1064. Nesta altura, durante os confrontos e as negociações para entregar a cidade, os moçárabes foram apelidados de traidores por se terem posto ao lado dos muçulmanos. Os confrontos serão ainda mais exacerbados quando o Concílio de Burgos, em 1080, abule o rito moçárabe. Os conflitos irão reacender-se ciclicamente até se tornarem nas revoltas generalizadas de 1111.

As comunidades moçárabes eram muito poderosas nas cidades do Algarve que eram geridas por famílias locais. A capital da região é referida no século XI como "Santa Maria", denominação que evidencia a presença poderosa de uma comunidade cristã. No extremo da terra, sobre o promontório sagrado dos antigos, encontrava-se a igreja do Corvo (Vila do Bispo), citada pelos cronistas árabes como símbolo do moçarabismo ocidental.

O Islão, última grande civilização mediterrânica, com todos os seus saberes milenares e culturais, foi não só o transmissor do mundo clássico para os tempos modernos mas também o agente activo de uma síntese artística e estética inovadora, ainda hoje dominante nos países muçulmanos e marcou durante vários séculos a produção artística do Ocidente em geral e da Península Ibérica em particular. Os melhores exemplos desta produção artística podem, ainda hoje, ser admirados no Sul de Espanha.

 

Texto adaptado a partir de: https://www.infopedia.pt/$os-mocarabes

(gentileza de Engª Margarida Castro)

FERIADO DE 8 DE DEZEMBRO

Aquando da inauguração do Observatório de Greenwich, da medição da velocidade da luz e da descoberta do espermatozoide, em Coimbra, na única Universidade portuguesa então existente, era proibido dissecar cadáveres para se ter a certeza de não esquartejar a alma e o Rei D. João V teve que ordenar por Decreto à dita Universidade que defendesse o dogma da Imaculada Conceição.

8 de Dezembro de 2020

Henrique Salles da Fonseca

 

UM MINUTO D SILÊNCIO

Sabia que o minuto de silêncio foi inventado em Portugal?

 De todas as “invenções” portuguesas, a mais uiversal e mais difundida é, sem dúvida, o minuto de silêncio. O minuto de silêncio com o qual  se presta homenagem a um morto ilustre ou a mortos em catástrofes.

Tudo começou em 1912 com a morte do Barão do Rio Branco, ministro dos Negócios Estrangeiros do Brasil e pessoa muito querida em Portugal por ter sido um dos primeiros estadistas a patrocinar o reconhecimento da República Portuguesa em 1910.

José Maria da Silva Paranhos Júnior nasceu no Rio de Janeiro a 20 de Abril de 1845, filho do também diplomata que se tornou famoso sob o título de Visconde do Rio Branco.

Político competente, o barão foi ministro dos Negócios Estrangeiros durante os governos presidenciais de 1901 até à data da sua morte em 10 de Fevereiro de 1912. Antes da República, Paranhos Júnior servira com igual empenho a causa da monarquia.

A sua morte teve tal repercussão no Brasil que o governo fez um decreto adiando o Carnaval, para que esse período de festas não coincidisse com o luto nacional. Como ministro dos Negócios Estrangeiros, Rio Branco foi o responsável pela demarcação das fronteiras, trabalho que executou com engenho e arte, dilatando ainda mais o já vasto território brasileiro com a anexação do actual Estado do Acre, que pertencia à Bolívia (1904), uma área em litígio com a Guiana Francesa, que abrangia quase todo o atual Estado do Amapá e resolvendo em favor do Brasil um litígio fronteiriço com a Argentina, incorporando em definitivo uma área territorial de 30 621 km2.

Em Portugal, havia um verdadeiro culto pelo Barão do Rio Branco, o estadista ilustre que o Brasil perdeu e o seu nome era entre nós tão querido e tão espalhado que raros portugueses de uma certa cultura o desconheciam. Todos os que amavam o Brasil e seguiam atentamente os seus movimentos políticos e literários, os que lá iam em busca de um pouco de bem-estar, os artistas que viajavam anualmente na terra nossa irmã, os comerciantes que regressavam com o seu pecúlio e iam instalar-se nas suas províncias, todos recordavam com admiração o nome do ilustre homem de Estado”, como ficou registrado na Ilustração Portuguesa, de 26 de Fevereiro de 1912, lamentando a sua morte e noticiando a missa de sétimo dia em sufrágio da sua alma.

A morte do Barão do Rio Branco causou um forte impacto em Portugal. O Parlamento Português na sua reunião do dia 13 de Fevereiro, sob a presidência de Aresta Branco, em homenagem ao morto ilustre, suspendeu a sessão por meia hora – como era tradicional. Já na reunião do Senado no dia seguinte, sob a presidência de Anselmo Braamcamp e secretariada por Bernardino Roque e Paes de Almeida, inovou e revolucionou. “O Presidente, aludindo ao falecimento do Sr. Barão do Rio Branco, recordou que os altos serviços por aquele estadista prestados ao seu país e a circunstância de ser ele ministro quando o Brasil reconheceu a República Portuguesa”, escrevia o Diário de Notícias sobre a sessão.

Continuando com a evocação do DN: “Honrou também o Barão do Rio Branco as tradições lusitanas da origem da sua família e por tudo isso propôs que durante dez minutos, e como homenagem à sua memória, os Senhores Senadores se conservassem silenciosos nos seus lugares. Assim se fez…”. Cumpriu-se, assim, o primeiro momento de silêncio de que se tem notícia, numa sucessão que se vem prolongando até aos nossos dias.

Depois deste dia, todas as vezes que morria alguém passível de homenagem, o Parlamento Português repetia o gesto. Com o tempo, de dez minutos passou a cinco, depois a um, como actualmente. Em seguida, as Casas Legislativas europeias copiaram o modelo português e daí para o resto do mundo, ganhando visibilidade sobretudo nos estádios desportivos.

 

Autor não identificado

A LINFA DA HISTÓRIA

  • Na actualidade, não me consta que haja uma fórmula obrigatória para as mensagens emitidas pelos diversos Departamentos oficiais mas no tempo do Estado Novo, os ofícios da Administração Pública encerravam com a fórmula «A bem da Nação»;
  • Durante a 1ª República, a fórmula equivalente era «Saúde e fraternidade».

A questão que aqui deixo aos Leitores monárquicos, aos historiadores e aos curiosos é:

  • Tendo havido, qual era a fórmula protocolarmente definida para encerramento das comunicações oficiais escritas no tempo da Monarquia constitucional?

Claro está que se trata de um tema menor, literalmente, quase de pé de página mas que dá uma ideia sobre o tom genérico da alma de um Regime. Não é o sangue das grandes proclamações, não, mas é por certo a linfa dos pequenos momentos que ajudam a roda da vida a girar.

Aguardemos pela ajuda de quem saiba…

Novembro de 2020

Henrique Salles da Fonseca

EFEMÉRIDE

25 DE NOVEMBRO DE 1975

Faz hoje 45 anos que a democracia chegou a Portugal derrubando o comunismo que desde o 25 de Abril de 1974 tentava destruir a Nação pondo o país ao serviço da União Soviética.

Foi um punhado de valentes sob a liderança do então Coronel Jaime Neves que tomou a iniciativa de pôr fim ao desmando total a que estávamos a ser submetidos e de proclamar que estava na hora de se estabelecer efectivamente uma democracia de base pluripartidária, parlamentar.

Passadas as colónias portuguesas para a esfera do Império Soviético, estava cumprido o maior desígnio da “revolução dos cravos” perpetrada por uns quantos “anjinhos” e minada por alguns traidores. Eis por que o Dr. Álvaro Cunhal foi condecorado herói soviético já depois de 25 de Novembro de 1975.

No que então restava de Portugal, resolveu-se o problema com meia dúzia de sopapos bem dados em alguns adeptos do totalitarismo mas nas antigas colónias portuguesas começavam os sovietizados as chacinas contra as populações que queriam submeter pelo terror. Assim começaram as guerras civis em Angola e em Moçambique. Mas o sangue também jorrou – e muito - na Guiné e em Timor.

Passados estes 45 anos, eis-nos em Portugal numa democracia parlamentar consolidada e cheia de problemas conhecidos de toda a gente, discutidos por todos em público e sem constrangimentos.  Esta, sim, a liberdade real, não a da propaganda com que os abrilistas nos enchem as parangonas dos jornais. Mas a tranquilidade destes 45 anos levou-nos ao doce remanso das águas planas. E tudo é vida corrente, sem mais objectivos do que ultrapassar a pandemia e regressar ao bem-estar, ao enriquecimento tão rápido quanto cada um consiga mesmo que sem olhar a meios; liberdade económica tão desregulamentada quanto os princípios do liberalismo sugerem, o crédito como um direito a dar suporte ao hedonismo, o género humano a apregoar que é híbrido, o vazio quanto a valores colectivos, nacionais, desígnios superiores.

Chegados ao deserto ideológico, à “vidinha” corriqueira, onde está quem nos sugira um sonho?

Eis o desígnio a que os políticos se deveriam dedicar durante os próximos 45 anos, sob pena de descrédito pessoal se o não fizerem e de diluição da Nação na voragem chinesa de mando no mundo.

25 de Novembro de 2020

Henrique Salles da Fonseca

CONVERSAS SOLTAS - 5

Personagens:

  • Rei D. Manuel II
  • Presidente Manuel Teixeira Gomes
  • Rainha D. Maria Pia

Cenário – passeio sobranceiro à «Praia dos Pescadores» na Ericeira

* * *

MTG – Boa tarde, Majestade! Cá estamos nós prontos para espantar os nossos colegas, os fantasmas que nos atazanam.

R – Como as outras, a conversa de hoje também fica exclusivamente entre nós, nem às paredes a confessaremos porque as paredes têm ouvidos e os ouvidos têm pernas.

MTG – Às ordens de um Rei sereno até um Presidente sereno obedece. – ambos riram -  Mas é claro que manterei segredo do que Vossa Majestade disser. Ouso pedir reciprocidade de tratamento.

R – Os pedidos de um Presidente sereno são facilmente satisfeitos por um Rei sereno. Tratemos, pois, de afastar os nossos fantasmas…

MTG – Quem começa?

R – Posso começar eu. E, para já, não vou afastar os meus fantasmas mais antigos. Fico-me só pelo que aconteceu em 5 e 6 de Outubro de 1910: a viagem de Lisboa a Mafra e o embarque aqui na Ericeira. Como se imagina, nas Necessidades, toda a gente estava de cabeça perdida, desde os criados que se viam sem emprego até às Rainhas mas a carruagem apareceu a horas de viajarmos para Mafra, quando lá chegámos tudo estava preparado para nos receber durante a noite, na manhã seguinte viemos até aqui sem correrias de quem foge, tínhamos um bote à nossa espera e o yacht «Amélia» ancorado ao largo. Até mesmo o percurso de Lisboa a Mafra pareceu um passeio de Domingo. A República tinha sido proclamada em Loures no dia 4, não devíamos passar por lá; a viagem por Cheleiros seria impossível para os cavalos e, contudo, sem que eu desse uma única ordem, saímos calmamente das Necessidades, rumámos a Queluz, tomámos o caminho de Pêro Pinheiro e Negrais, Malveira e Mafra, tudo isto sem subidas nem descidas difíceis. Estava tudo pensado por alguém, tudo aconteceu sem atropelos. Este é o meu primeiro enigma. O segundo, o ambiente em Mafra onde parecia que nada se estava a passar no resto do país e, finalmente, o que aconteceu à chegada ao yacht quando, esperando nós que rumaríamos ao Porto, o Comandante me declarou – sem me pedir licença nem qualquer hesitação – que rumaríamos a Gibraltar e não a qualquer outro destino. Pura e simplesmente, estávamos a ser raptados e o rapto começara no preciso momento em que subíramos para a carruagem no pátio das Necessidades. E quando chegámos a Gibraltar, já estava tudo arranjado para a minha avó seguir para Génova e não nos acompanhar até ao nosso destino final que, entretanto, já sabíamos que seria Londres. Tudo excessivamente sincronizado para se poder assemelhar a uma fuga.

MTG – Eu não lhe chamaria rapto mas sim uma acção que visava pôr a Família Real portuguesa a recato, em condições que garantissem a sua própria segurança física.

R – E a minha avó?

MTG – Vim a saber mais tarde que Londres não queria que a Casa de Sabóia se imiscuísse nos assuntos do Império Britânico.

R – E o que é que Portugal tem a ver com o Império Britânico?

MTG – Formalmente, nada. Mas a antiga Aliança dá aos ingleses um sentido de obrigação de protecção de Portugal que não sentem com outros países.

R – A Aliança ou os vinhos do Porto e da Madeira, as possessões ultramarinas e mais não sei quê?

MTG – Pois… E quando Vossas Majestades chegaram a Londres e se instalaram no mesmo palácio em que a Senhora D. Amélia nascera (estava então a Família Real francesa também em exílio), houve que procurar um Embaixador português que «falasse» bem inglês…

R – A bon entendeur! Quer isso dizer que os ingleses já tinham ligações com os republicanos?

MTG – Manda a prudência ao cavaleiro que mantenha um pé em cada estribo.

R – Agora sou eu que digo «Pois…». Realmente, com a sua chegada a Londres, sentimos uma certa segurança. Mas o fim da sua comissão foi um tanto repentinoa.

TG – O Presidente Sidónio Paes era da linha dura. Recebi ordem de regresso imediato a Portugal. Despedi-me do Rei Jorge V e da Rainha Alexandra que me receberam à pressa e, por amizade, fora das normas do protocolo. Despedi-me do Primeiro Ministro e segui no primeiro barco que arranjei. Passei por Lisboa para tratar de assuntos administrativos e recolhi-me a Vila Nova de Portimão e às minhas adoradas amêndoas, as minhas filhas, entretanto adolescentes. E assim fiquei em recato enquanto o Capitão Agostinho Lourenço punha a Marinha Grande na ordem sidonista. Com o fim do Consulado Sidonista, Lourenço desaparece da cena portuguesa durante 15 anos para só reaparecer em 1933 para instalar a PVDE. Ele e eu fomos como os alcartruzes mas em 1925 fartei-me de tudo, desmoralizei e exilei-me. Deixei os bens às minhas filhas e fui para longe da confusão que só com mão de ferro assentaria. E como não sou dos da «hard glove», auto-exilei-me  na Argélia francesa onde encontrei estalajadeiras amáveis e deixei-me por lá ficar à espera que o Capitão Agostinho Lourenço fizesse o que fez e que não era do meu estilo «soft glove».

R – E os «Serviços» abandonaram-no?

MTG – Bem, Majestade, digamos que as minhas modestas despesas foram sempre atempadamente liquidadas. Mas o meu funeral em Bougie foi pago pelo nosso Governo.

R – E com esta conversa, o Senhor afugenta algum fantasma?

MTG – Sim, Majestade. Estava muito necessitado de contar tudo a quem merecesse saber e me desse garantias de segredo absoluto. É o caso de Vossa Majestade.

Foi então que, no seu passo miúdo, vinda do «Passeio Marítimo», surgiu a Rainha D. Maria Pia que, passando junto do Rei e do Presidente, lhes fez saber que – Ho sentito tutto quello che hai detto e penso che, se non è vero, è ben trovaato – e, sempre no seu passo miúdo, seguiu até à porta da «Casa da Fernanda» onde se esfumou… Iria comer um «ouriço»? Que disparate! Quando é que já se viu um fantasma a comer?

Outubro de 2020

Henrique Salles da Fonseca

CONVERSAS SOLTAS - 4

Personagens:

  • Rei D. Manuel II
  • Presidente Manuel Teixeira Gomes

Cenário – varanda do hotel em que o Presidente viveu de 1925 a 1941 frente ao Mediterrâneo na cidade de Bougies, leste da Argélia.

* * *

 *

MTG – Majestade, é uma honra recebê-lo no meu local de exílio. E, sobretudo, tão longe de Lisboa.

R – Ora, ora, Senhor Presidente, como sabe, nesta nossa condição, tanto nos faz a distância de Lisboa ao Porto como de Portimão a Bougies. E, curiosamente, estas são paragens que conheci na infância.

MTG – Ah! Desconhecia por completo.

R – Sim, sim. Na minha infância, fizemos um cruzeiro no yacht «Amélia» até ao Egipto. No regresso, se bem me lembro, percorremos vários portos nesta costa. Mas do que melhor me lembro é da entrada em Valeta, a imponência das muralhas do porto… E é claro que, do Egipto, me lembro das pirâmides e duma volta que dei num camelo.

MTG – Também conheci muitas destas paragens. Não na infância mas já como jovem adulto quando andei ao serviço da casa comercial do meu pai, a comprar e vender frutos secos. Sobretudo, amêndoa do Algarve. Mas o mercado era maior do que a produção e tínhamos que comprar noutras fontes. Viajei muito e ganhámos muito dinheiro. Mas… «nem só de pão vive o homem» e tive que enveredar por outros caminhos.

R - Os da literatura e da política?

MTG – Exacto. E assim foi que me vi em Londres como Embaixador.

 R – E que balanço faz dessa missão? Se não me engano, foram sete anos, ou seja, muito mais do que o habitual.

MTG – Era uma missão que a todos parecia impossível. Levar a Inglaterra a reconhecer a República sob a presença da Família Real acabada de chegar em exílio forçado, com laços familiares e de amizade pessoal com a Família Real inglesa… Bem, reconheço que a atitude serena da Família Real Portuguesa me facilitou enormemente a missão. Os ingleses fizeram-me saber muitas vezes que admiravam a serenidade do relacionamento de Vossa Majestade com o representante da República e – não deveria ser eu a dizê-lo – também apreciavam a atitude serena da representação diplomática. Tiveram sempre a delicadeza de nunca referirem que parecia sermos amigos. Ainda bem que tiveram esse cuidado. Evitaram problemas políticos que Vossa Majestade dispensava e a República, ali representada por mim, também não queria de modo nenhum.

R – Gosto de confirmar que não fui motivo de preocupação. O Senhor devia ter muito mais com que se preocupar…

MTG – … o problema da dívida portuguesa, a ultrapassagem das sequelas políticas do «Ultimatum» que continuavam a azedar as relações bilaterais e, mais tarde, a pré-Grande Guerra, a nossa participação nos combates integrados nas Forças Britânicas, o nosso desempenho militar em África e mais um ror de temas que na altura pareciam relevantes mas que hoje dão vontade de rir.

R - Lembra-se de algum?

MTG - O empenho que coloquei na satisfação do pedido que a rainha Alexandra me fez de lhe redecorar o seu gabinete de trabalho com prejuízo de tempo na análise de informações mais ou menos relevantes que os Serviços de cada lado me iam transmitindo para eu enviar ou não à outra parte.

R – Os ingleses enviavam-lhe informações?

MTG – Informações classificadas que eu deveria analisar e encaminhar para quem eu considerasse conveniente. Nem sempre são as vias habituais, Majestade.

R – Pois, pois… Nem todos estão nos cargos certos, nem todos são merecedores das informações, nem todos percebem o que elas significam…

MTG -Nem todos os políticos ou funcionários se interessam pelo fim da História.       O fim da História – não o fim cronológico nem biológico mas, sim, o do alcance dos grandes objectivos da Humanidade tais como o equilíbrio económico estrutural, a harmonia social, a abastança cultural e moral – é nisso que o animal histórico, o homem, não pensa tão frequentemente quanto devia; dedica-se a questões menores, à análise conjuntural e perde o sentido dos grandes objectivos da Humanidade, o fim da História. Como Hegel diria, «a verdade que os homens demandam».

R - Sim, Senhor Presidente, concordo, mas já os latinos diziam «primum vivere, deinde philosofari» e nós, em vida, ainda estávamos na fase de tentarmos alcançar a primeira etapa, a do conforto material. Certa vez, tive conhecimento de uma discussão sobre o local politicamente mais apropriado para construir um simples chafariz para dar de beber a cavalos e azémolas. Um «Sentido de Estado muar».

MTG – E quando eu fui Presidente, as discussões não seriam muito diferentes dessa. Tudo tem a ver com os modos de satisfazer eleitorados, de ganhar votos nas eleições seguintes. E um Rei é deposto e um Presidente é levado ao desespero por causa da aguada de burros e mulas…

R – E por quê este exílio em Bougies?

MTG – Porque naquela época, aqui era a França exótica onde podia entregar-me tranquilamente à escrita e onde encontrei quem cuidasse de mim.

R – Senhor Presidente, fiquemos por aqui. Acho que continua a não querer contar tudo mas não se esqueça de que, para nós, «tudo o vento levou». O nosso próximo encontro vai ser na Ericeira onde espero espantar alguns colegas nossos.

MTG – Que colegas, Majestade?                                               

R – Fantasmas.

Outubro de 2020

Henrique Salles da Fonseca  

CONVERSAS SOLTAS - 3

Personagens:

  • Rei D. Manuel II
  • Presidente Manuel Teixeira Gomes

Cenário – Sala de música do Palácio da Ajuda, Lisboa

No meio da cena, o violoncelo do Rei D. Luís com uma poltrona de cada lado

* * *

R – Senhor Presidente, seja bem vindo à casa dos meus avós.

MTG – Obrigado, Majestade! A casa que, durante muitos anos, foi a «Real Barraca», de madeira.

R – Dá para imaginar o susto que o meu tetravô, o Rei D. José, apanhou no Paço da Ribeira com tudo a desmoronar-se e com o tsunami que alagou de enxurrada a baixa de Lisboa. Também eu nunca mais voltaria a entrar numa casa de pedra e cal.

MTG – Mas aqui estamos nós no cimo da Calçada da Ajuda, a recato de tsunamis e junto do violoncelo do Senhor D. Luís. Chegou alguma vez a ouvi-lo tocar?

R – Não. Eu nasci cerca de um mês depois da sua morte mas a minha avó dizia que em Portugal havia quem tocasse melhor violoncelo do que ele e que em Itália, então, muito melhor.

MTG – Ah, sim, a Côrte de Sabóia devia ser um centro cultural de primeira grandeza.

R – Era isso que a minha avó dizia. E foi lá que cumpriu o exílio. Exilou-se no seu próprio país. Teve mais sorte que nós.

MTG – E, contudo, ambos tivemos exílios dignos. Vossa Majestade teve um ambiente acolhedor e eu tive o ambiente que eu próprio escolhi.

R – Ainda hoje estou convencido de que o ambiente acolhedor que nos rodeou, à minha mãe e a mim, se ficou muito a dever a si, Senhor Presidente, enquanto Embaixador em Inglaterra.

MTG – A minha preocupação era a de que ninguém importunasse Vossas Majestades. A República nunca me deu ordens para hostilizar a Família Real exilada. Foi-me fácil actuar pela positiva. Na maior parte das vezes, bastou-me não fazer nada.

R – Mas houve ocasiões em que teve que agir.

MTG – Admirei muito o oferecimento de Vossa Majestade para integrar o Corpo Expedicionário Português na Flandres. Apoiei a ideia mas Lisboa não deu seguimento ao meu apoio e recusou a ideia. Embaixador não se enfurece mas lastimei-me à Raínha Alexandra. Terá sido ideia dela a integração de Vossa Majestade como Oficial da Cruz Vermelha britânica.

R – Adivinhei que tinha havido alguma actuação do então Embaixador de Portugal junto de alguém que nunca identificara até agora.

MTG –  Soube então que Vossa Majestade ficou zangado por não ter sido aceite a sua generosidade mas, perante a recusa, não consegui fazer grande coisa.

R – Mais do que zangado, fiquei triste. De princípio, fiquei desiludido com a nomeação inglesa para a Cruz Vermelha mas, passados uns dias, pensando mais serenamente, concluí que só podia ter sido obra do Senhor Embaixador. E foi esse o sentido do meu super-discrteto cumprimento em Ascot quando o Senhor, à distância, tirou o chapéu e eu fingi dizer que sim à minha mãe que, a meu lado, nada dissera. Ela percebeu tudo e limitou-se a dizer «Vaut mieux comme ça», discretamente e à distância. Espero que tenha percebido o meu agradecimento.

MTG – Sim, percebi e foi essa afabilidade que me deu alguma tranquilidade no desempenho das minhas funções. E foi também com entusiasmo que anunciei a iniciativa de Vossa Majestade de oferecer a sala de operações ortopédicas ao Hospital Português em Paris. Quando me chumbaram a ideia de colocar uma placa a referir que fora Vossa Majestade que oferecera a sala, tive que puxar pela cabeça e acabar por mandar escrever aquela ignomínia que lá foi colocada «Oferta de um português em Londres». Peço que me desculpe.

R – É claro que desculpo! Na altura, achei mal mas, face às circunstâncias, não vejo hoje que melhor solução houvesse. Sobretudo com o jacobino que então representava Portugal em França. Quem era ele?

MTG – Já não me lembro mas não era por certo alguém que gostássemos de ter nestas nossas conversas.

R – Claro que não! É isso que admiro em si, Senhor Presidente: o Senhor não é jacobino e tem uma concepção serena da República, deseja para Portugal o mesmo que eu. Como tudo poderia ter sido diferente se nos tivéssemos conhecido no início do meu reinado…

MTG – Como se viu, também eu não fui capaz de fazer grande «coisa». A insubordinação que vigorava entre as elites nos finais da Monarquia era a mesma que me levou ao desespero como Presidente da República. Só uma mão pesada que se abatesse sobre essa balbúrdia poderia resolver o problema mas nem Vossa Majestade nem eu eramos filosoficamente capazes disso. As elites portuguesas encarregam-se ciclicamente de fazer esboroar as intenções inocentes dos democratas liberais.

R – Não merecem a liberdade que lhes demos a servir. E que me conta do seu exílio?

MTG – Contarei com o maior gosto numa próxima oportunidade porque o pessoal da limpeza está a entrar ao serviço e não convém que nos confundam com alguma nuvem de pó.

R – Muito bem, o nosso próximo encontro vai ser em Bougie. A nós, o Governo da Argélia não exige Passaportes nem Vistos.

Outubro de 2020

Henrique Salles da Fonseca

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