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A bem da Nação

DAS MALHAS DO IMPÉRIO

Quem constrói Impérios, tece histórias – umas mais heroicas que outras, umas mais risonhas que outras…

* * *

A história que hoje vos trago, fui busca-la às malhas do nosso Império no Oriente e foi-me contada por antigos alunos do «Liceu Nacional Afonso de Albuquerque» que existiu em Pangim, Goa. Não me peçam detalhes, que os não tenho, deixemos a beleza vogar por aí além, quase incógnita porque aqui uso nomes fictícios, pela imaginação…

* * *

 

Jovens e solteiros, Felícia e Bernardo ter-se-ão conhecido como professores no «Liceu Nacional Afonso de Albuquerque», em Pangim, Goa.

Conhecidos, amaram-se e casaram. E ensinaram... até que se impôs o Rubicão e tudo acabou em 19 de Dezembro de 1961.

Decidiram sair de Goa e vir para a Metrópole, Portugal.

Vieram e presumo que continuaram a ensinar até que Felícia morreu. E Bernardo não suportou o luto.

Esta história pode ter décadas mas também isso deixo na penumbra do imaginário.

Julho de 2021

Henrique Salles da Fonseca

POR CEUTA E MAIS ALÉM... (2)

GOA, BASE DO IMPÉRIO PORTUGUÊS NO ORIENTE

Como informei no preâmbulo do texto anterior sob a mesma epígrafe, este texto também se enquadra no pedido que me foi feito em nome d’«O Heraldo», jornal de Pangim, Goa, onde aguarda publicação…

* * *

Em relação a Macau basta recordar que foi numa ilha na foz do Rio das Pérolas que faleceu São Francisco Xavier que dali foi trasladado para Malaca e, mais tarde, para Goa.

Em Macau fala-se português mas… Os polícias, com fardas absolutamente iguais às dos seus colegas em Lisboa, ouviram a minha pergunta (uma qualquer que improvisei e já esqueci) com ar enigmático e de perda total. Repeti em inglês e o ar de perdição manteve-se. Fiz um gesto de agradecimento e fui para outro lado lamber as feridas quanto ao fiasco relativo à minha língua e a rir-me secretamente quanto ao inglês.

* * *

Em 1513, quatro navios portugueses chegaram a Kalapa (ilha de Java), o porto principal do reino hindu de Sunda. Vinham de Malaca, portuguesa havia dois anos, à procura de especiarias, principalmente de pimenta. As relações de comércio desenvolveram-se com normalidade e no dia 21 de Agosto de 1522 foi firmado um Tratado de Amizade entre Sunda e Portugal.

Contudo, em 1527 Kalapa foi assaltada e destruída por Fatahilaha Kahn, muçulmano, que era inimigo tanto dos portugueses como do Rei de Sunda.

Reconstruída pelos conquistadores, a cidade recebeu o nome do terceiro Sultão de Banten, Pangeran Sungrasa Jayawikarta III, longo nome este que, abreviado, deu em Jakarta. E se os religiosos e militares portugueses saíram, os nossos comerciantes voltaram a frequentar o novo burgo e suas cercanias com grande utilidade para vendedores e compradores das especiarias que por ali abundavam.

O prestígio de Portugal (leia-se “utilidade comercial e militar”) e a influência religiosa eram tantos naquela região que em 1573 o Sultão de Ternate (Molucas) doou toda a ilha de Amboíno ao seu padrinho de baptismo, Jordão de Freitas, indo morrer a Malaca não sem antes ter deixado em testamento todo o reino de Ternate ao Rei de Portugal. Contudo, D. António de Noronha, Vice-Rei da Índia, terá entendido que seria mais útil um fantoche no trono de Ternate que seguisse docilmente as orientações portuguesas do que assumir directamente os constantes conflitos na região pelo que não aceitou a doação e instalou Hairum, irmão do Sultão defunto, no trono que estava de facto vago.

E parece que a decisão foi acertada pois o novo Sultão seguiu o exemplo do seu irmão e antecessor consolidando a amizade com os portugueses a quem convidou em 1578 para construírem uma fortaleza. E o comércio continuou...

Mas o Sol não foi doirado por muito mais tempo para nós pois, entre espanhóis e holandeses, o «destino» quis que saíssemos em 1605 dessas paragens. Saímos oficialmente mas ficámos escondidos dos calvinistas.

Foi em 1610 que o general holandês Petrus Bothe fundou Batávia para apagar a antiga Jakarta sendo necessário esperar pela total independência da Indonésia em 1949 para que o nome holandês desaparecesse e Jakarta retomasse o seu lugar nos mapas.

Contudo, os holandeses não conseguiram apagar-nos por completo pois permanecem vestígios significativos um pouco por todo o lado. Por exemplo, na ilha das Flores a norte de Timor, ainda hoje a fórmula de proclamação dos rajás de Sikka reza que:

«Viva Altíssimo Senjor Don [o actual é Dom Joze Thomaz Ximenes da Silva], sei boa saudi, El Quam Deos Nossa Senjor dê longa vida permanosa El-Rei reinjho de Sikka. De baixo de Lisboa».

Esta última expressão “De baixo de Lisboa” significa que, mesmo decorridos tantos séculos, os rajás de Sikka se consideram súbditos do Rei ou Presidente de Portugal. Eles ainda hoje nos tratam assim e nós, esquecidos, que fazemos por eles?

* * *

Corria o ano de 1543 quando os portugueses puseram pé em solo japonês, na ilha de Tanegaxima. Quem? Pois nem mais nem menos do que o famoso Fernão Mendes Pinto na companhia de Diogo Zeimoto e de Cristóvão Borralho. Todos os seus companheiros entraram no rol dos esquecidos.

E que foram lá fazer? Comerciar, claro está; mas também evangelizar.

O comércio era fundamental para a viabilização de todos os empreendimentos ao estilo imperial e mesmo quando não se pretendia assentar arraiais pela posse, esse comércio era necessário para benesse dos cabedais de quem se aventurava mares adentro.

Foi então o espírito empreendedor dos portugueses que promoveu o estabelecimento de relações com o Japão de modo que o chamado «navio negro» (porque revestido de breu como isolante contra as moléstias que dão às madeiras) usava as monções para levar sedas e porcelanas chinesas até ao Japão para, na volta, trazer prata para a China. E foi por causa deste trato que ao «navio negro» se passou a chamar «a nau do trato». Então, o negócio sendo de tal modo rendoso, a Coroa – a nossa, claro está – chamou-lhe seu (ao dito negócio) e passou a adjudicá-lo a quem melhor a remunerasse. A licitação era feita em Macau que arrecadava uma parcela da renda, mas fazia as adjudicações por ordem do nosso Vice-Rei da Índia que amealhava outra parcela. Quanto chegava a Lisboa? Não tenho esses registos à mão de semear mas tempos houve em que essa Lisboa se chamava Madrid.

Depois de feras quezílias entre os muitos Senhores feudais japoneses disputando a parceria com os portugueses e depois de muitos incómodos religiosos durante o consulado de Toyotomi Hideyoshi que governava de facto o Japão em nome do meramente simbólico Imperador, Nagasaki foi o porto que a «nau do trato» passou a usar e foi a cidade em que a Companhia de Jesus estabeleceu a sua missão mais oriental. Nagasaki foi entreposto português durante anos de grande lucro para todas as partes

Sabe-se que Toyotomi Hideyochi perguntou certa vez ao padre jesuíta português João Rodrigues (“o intérprete”) se o seu Rei gostaria que os japoneses fossem para lá combater a religião católica fazendo o proselitismo do xintuismo; então, o seu Imperador também não queria que os portugueses andassem pelo Japão a minar a religião nacional e, portanto, ele, Toyotomi, que governava em nome do Imperador, não permitiria que os portugueses continuassem a pregar a sua religião – comércio, sim; religião, não.

Seguiram-se as chacinas de mais de duzentos católicos portugueses e japoneses que a Santa Sé vem beatificando e canonizando.

E, dentre estes, faço notar que os mais celebrizados são aqueles a quem a Santa Sé chama os «26 Mártires do Japão» que, curiosamente, são 28. Mistério que não é dogma de fé mas apenas erro de aritmética. O 9º mártir é S. Gonçalo Garcia, natural de Baçaim onde é alvo de veneração.

Tudo isto e muito mais tinha a sua génese em Goa, o comando oriental do Império Português nas bandas do Sol nascente, a «Goa Doirada». E porque foi base de império, foi doirada. Hoje é colónia.

Abril de 2021

Henrique Salles da Fonseca

POR CEUTA E MAIS ALÉM... (1)

Este texto foi solicitado pelo jornal «O Heraldo», de Pangim, Goa, onde aguarda publicação.

* * *

 Leão e Castela nunca viram com bons olhos a independência de Portugal e desde o bafordo do vale do Vez, de tudo têm feito para acabar com essa «rebeldia». Já do mesmo se tinham queixado os romanos relativamente aos lusitanos e tal qual se diga dos soviéticos em relação às colónias portuguesas.

À falta de dimensão local, ibérica, impunha-se o alargamento da área de influência e o inerente ganho de recursos que permitissem suportar a sempre latente necessidade de enfrentamento da agressão castelo-leonesa.

E foi assim e por essa causa que nasceu a «aventura» ultramarina portuguesa iniciada por D. João I em Ceuta no já distante dia 21 de Agosto de 1415 e com epílogo no Largo do Carmo, em Lisboa, no dia 25 de Abril de 1974.

De início, a mistificação foi pelo encapotamento da aquisição de dimensão política pelo alargamento da fé no âmbito da Cruzada do Ocidente; no final, a mistificação foi pelo encobrimento da entrega das remanescentes colónias portuguesas ao Império Soviético pela conquista das falaciosas «mais amplas liberdades».

Mas, entretanto, ocorreram «coisas» interessantes, umas, importantes, outras…

O início da «aventira» fez-se a partir de Tavira (e não de Sagres) onde em 1430 já existia o «Hospital do Espírito Santo» (ainda hoje formalmente existente) cuja principal missão consistiu na assistência a quem andava em campanha no norte de África. Mas a partir do momento em que as navegações se começaram a estender para além do Cabo Bojador, deixou de ser útil transportar os doentes para Tavira e assim foi que começou a instalação de hospitais de proximidade em relação às ocorrências que geravam necessidades de assistência clínica ou mesmo cirúrgica. E foi desse modo que foram instalados 17 hospitais entre Tavira e Baçaim cuja missão principal foi a de prestar assistência aos tripulantes e passageiros na «rota da Índia» mas também dispensando cuidados aos nativos de cada uma das ditas 17 localidades.

Assente pé em Goa e desenvolvido o comércio até então exclusivo de muçulmanos, foi fácil dar a volta até Coromandel onde se deparou a riqueza fantástica do Estreito das Pérolas e sua base logística no extremo norte do Ceilão, a Península de Jafna, ou seja, o Jafanapatão na linguagem típica dos portugueses de então. E o comércio das pérolas mudou de intermediários, no que foi um rude golpe em inúmeros interesses até então por ali estabelecidos. A missão evangelizadora foi entregue a franciscanos e jesuítas no que se revelou um processo de conversões em massa como não se esperava nem se julgava possível. Era um povo dócil que a nada opunha resistência e que os portugueses tomaram por indolência congénita. As querelas – e houve-as várias a ponto de termos sido «obrigados» a depor um Rei e a colocar outro no trono – eram instigadas por povos vindos do centro da ilha mas, a pouco e pouco, fomos nós, os portugueses a adoptar a indolência e quando os holandeses chegaram para nos tirarem o negócio das mãos, fomos evacuados de padiola e muitos morreram na viagem até Goa. Passado o tempo que a História narra, foram os holandeses que não opuseram resistência aos ingleses e estes levaram o gin que tomavam com quinino e não foram apanhados pela indolência. O preço das perolas media-se em doses letais de paludismo. Entretanto, chegáramos ao extremo sul do Ceilão em busca de mais comércio e não tardou muito para nos vermos envolvidos na política local com reinos agredidos a pedirem-nos protecção contra reinos agressores. Eis como o Rei de Candi, D. Filipe Jamasinha Bandara, nos pede protecção, nós lha dispensamos, ele assegura o trono mas morre logo de seguida de causas tidas por naturais. O filho e sucessor natural, D. João de Áustria Cândia, sendo criança, não foi confirmado no trono pelo Conselho do Reino e foi substituído pelo tio, irmão do Rei acabado de morrer. E, para aplanar problemas sucessórios no reino, foi D. Lourenço de Almeida, «o gigante loiro», filho do Vice-Rei D. Francisco de Almeida e que viria a morrer em Diu, que foi encarregado pelo Conselho de Estado de levar o não-Rei para longe. Para Goa onde a vida continuou. Mas essa é outra história…

No Sri Lanka actual, fala-se uma certa forma de português na costa leste, em Trincomalee e em Batticaloa.

Chegara, entretanto, a hora de «passar além  da Taprobana», a hora de o comércio florescer entre todas as partes banhadas pelo Mar de Andaman, de o português ter passado a ser a língua franca de toda aquela vastíssima zona e de Filipe de Brito e Nicote, natural de Lisboa, ter sido eleito Rei da zona central da Birmânia, ter governado durante 12 anos com grande proveito para os seus súbditos e ter sido morto à frente das suas tropas em defesa da sua capital contra o tradicional inimigo a norte de cujo temor popular resultara a sua eleição.

Estava Portugal a braços com a Guerra da sua própria Restauração contra os Habsburdos de Espanha quando os holandeses tomaram Malaca e escravizaram os portugueses lá residentes e os deportaram para Batávia (Jakarta) com o intuito de os fazer de capatazes dos sub-escravos locais nas plantações de seringueiras, as árvores da borracha. Mas os escravos portugueses solidarizaram-se com os  escravos indonésios e os holandeses não encontraram outra solução que não a de negociarem a alforria dos portugueses. Assim foi que estes reconquistaram a liberdade, ganharam um território próprio que passaram a habitar e a administrar, onde se fala português e que ainda hoje, plenamente integrado na bela malha urbana de Jakarte, continua a ser o «bairro dos portugueses», Tugu. Curiosamente, tanto em Malaca como em Jacarta ainda hoje se falam formas específicas de português enquanto que de holandês pesa a memória.

Entretanto, os comerciantes portugueses haviam navegado pelo Golfo do Sião, subido o rio Praia e feito comércio em Ayutaiah e em Bangkok. Os proveitos bilaterais desse comércio e relações de amizade levaram o Rei do Sião a oferecer ao seu «irmão», o Rei de Portugal, ali representado por Afonso de Albuquerque, um local fronteiro a Bangkok para instalação duma feitoria. As relações entre os dois países têm sido de tal modo exemplares que nesse local ainda hoje se localiza a Embaixada de Portugal junto do Rei da Tailândia.

(continua)

Henrique Salles da Fonseca

 

COISAS QUE POUCOS SABEM

O elmo de D. Sebastião regressou a Portugal no início de 2011

O préstito fúnebre que acompanhou o corpo do Rei D. Sebastião de Faro até ao Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, sob a direcção do vedor Francisco Barreto de Lima, era composto pelos seguintes fidalgos nomeados por Filipe I:

  • Diogo da Silva
  • Francisco de Castelo Branco
  • Henrique Correia da Silva
  • Jerónimo Moniz de Luziñano
  • João de Castro
  • Lourenço de Almada
  • Lucas de Portugal
  • Ruy Lourenço de Távora

Resta agora saber se o corpo transportado e homenageado era efectivamente o do jovem Rei D. Sebastião ou se tudo não passou duma fantochada para justificar a subida de Filipe II de Espanha ao trono de Portugal.Será então o corpo do Rei, o que está no túmulo? Será mesmo um corpo humano?

E que tal uma exumação para que se dissipem dúvidas?

Não é que isso dê um novo rumo à História mas de certeza que ajudará a esclarecer sobre o caracter do rei espanhol, seja pela positiva ou pela negativa.

Henrique Salles da Fonseca

 

OS MOÇÁRABES

A palavra «moçárabe» é uma corruptela de «mostarib» ,

nome dado pelos árabes aos estrangeiros que viviam entre eles.

Os moçárabes eram os cristãos que permaneceram com os árabes continuando com a sua administração vivendo em bairros separados. 

A sua condição foi agravada a partir dos reinos da taifa e ainda mais com os Almorávidas sendo objecto de perseguições por parte de Abderramão II. 

Os Almóadas foram ainda mais intolerantes com estas comunidades demolindo igrejas cristãs e expulsando os moçárabes sobretudo os de Marrocos que se refugiaram em Castela. À medida que as conquistas cristãs avançavam, a vida dos moçárabes nos territórios muçulmanos tornava-se mais difícil levando-os a refugiarem-se em praças cristãs.

* * *

O Norte e o Sul da Península Ibérica, separados pela Meseta Central, para além de um relacionamento natural mútuo, mantêm contactos com zonas afins numa corrente migratória constante que acabou por acentuar dependências étnicas e civilizacionais. Enquanto que o Norte, desde muito cedo, se liga à Galiza, o Sul prolonga-se para a África do Norte e, de uma maneira geral, para as rotas do mar interior.

A partir do século IV d. C., as estruturas políticas do Império Romano começam a desvanecer-se e as funções urbanas são completamente reorganizadas por mercadores de origem oriental criando novos polos de atracção em detrimento da antiga cidade do poder romano.

Esta nova reorganização traz uma nova dinâmica social e económica a Lisboa e Coimbra e esvazia as antigas cidades de Scalabis e Conímbriga. Começam a esboçar-se os mecanismos de uma autarcia urbana, cuja tradição se perde no Mediterrâneo e que irá atingir o seu apogeu na época islâmica. São estas comunidades urbanas, islamizadas desde muito cedo, que irão introduzir a nova religião muçulmana, que afinal é a que melhor se molda aos seus interesses internacionais e aos circuitos de mercados.

A grande massa humana que enche as ruas das cidades é formada, na sua maioria, por uma diversidade de mercadores, artesãos e antigos camponeses que passaram a hortelãos-jardineiros, vindos dos locais mais diversos e de diferentes etnias. As ruas e bairros encontravam-se organizados em comunidades sendo estas as responsáveis pelo carácter único da cidade mediterrânica. São cristãos moçárabes, são cristãos de culto oriental, são judeus ortodoxos ou já convertidos, são sírios, alexandrinos, sicilianos ou malteses de culto muçulmano que participam com regularidade nos ritos e festividades da sua paróquia.

No decorrer do século VIII, quando surgem os primeiros sintomas de arabização no Garb-al-Andaluz, em quase toda a Península Ibérica falava-se o latim. No entanto, o crescente prestígio árabe e o simultâneo enfraquecimento das autoridades eclesiásticas levam a uma imposição gradual no mundo urbano da nova língua.

Até há bem pouco tempo, considerava-se que a ocupação em massa da Península Ibérica pelos exércitos árabes, iemenitas, sírios e berberes tinha contribuído para uma rápida imposição da lei de Maomé através de massacres ou empurrando para Norte os cristãos. Hoje, pelo contrário, dá-se pouca importância à contribuição das forças militares na islamização do Andaluz salientando-se o contributo dos caminhos e rotas do comércio oriental no estabelecimento da religião muçulmana que foi, no entanto, de progressão lenta e gradual. Só nos finais do século X os muçulmanos terão ultrapassado mais de metade de toda a população andaluza.

Se até meados do século X a maioria da população andaluza era não muçulmana e a comunidade judaica não excedia as 10 mil pessoas, é fácil concluir da importância e da extensão do fenómeno moçárabe na história andaluza. Do ponto de vista religioso, interessa destacar duas facetas principais: a ortodoxia urbana exacerbada no choque ideológico com o adversário; uma proliferação de cultos regionais arreigados num meio rural ainda mal cristianizado e votado ao abandono pela Igreja que perdera o poder secular.

Nas grandes extensões interurbanas, onde se tinham enraizado os dialectos moçárabes, permaneceu também uma pesada tradição cristã na sua vertente mais profunda, isto é, o culto dos mortos. Existiam cultos regionais em que era notória a sacralização cristã dos sítios e locais anteriormente habitados por outros deuses. Existiam pequenos mosteiros instalados em antigas villae romanas.

A velha Igreja visigótica, adaptando-se à nova ordem, dispersa-se por alguns poderosos bispados que, durante séculos, vão ser os mediadores das comunidades moçárabes no diálogo com os alcaides e autoridades muçulmanas. Contestando um justificado isolamento perante as outras igrejas cristãs e o papado, em 924 o Papa João X enviou um representante à Espanha muçulmana, que reconheceu a ortodoxia e a legitimidade cristã da liturgia visigótica preservada pelos moçárabes.

Num outro sentido, existem notícias de outro tipo de simbioses e integração no mundo muçulmano. O monge João de Gorze, embaixador em Córdova de Otão, o Grande, em meados do século X, constata que os cristãos do al-Andaluz não comiam carne de porco.

Tudo indica que no Garb-al-Andaluz, a proporção de moçárabes no seio das populações urbanas era bastante elevada, à imagem do que se passava no al-Andaluz. E em Coimbra, a sua presença era largamente maioritária embora o seu culto em nada se assemelhasse àquele que os bispos do Norte impuseram depois de ocupar a cidade em 1064. Nesta altura, durante os confrontos e as negociações para entregar a cidade, os moçárabes foram apelidados de traidores por se terem posto ao lado dos muçulmanos. Os confrontos serão ainda mais exacerbados quando o Concílio de Burgos, em 1080, abule o rito moçárabe. Os conflitos irão reacender-se ciclicamente até se tornarem nas revoltas generalizadas de 1111.

As comunidades moçárabes eram muito poderosas nas cidades do Algarve que eram geridas por famílias locais. A capital da região é referida no século XI como "Santa Maria", denominação que evidencia a presença poderosa de uma comunidade cristã. No extremo da terra, sobre o promontório sagrado dos antigos, encontrava-se a igreja do Corvo (Vila do Bispo), citada pelos cronistas árabes como símbolo do moçarabismo ocidental.

O Islão, última grande civilização mediterrânica, com todos os seus saberes milenares e culturais, foi não só o transmissor do mundo clássico para os tempos modernos mas também o agente activo de uma síntese artística e estética inovadora, ainda hoje dominante nos países muçulmanos e marcou durante vários séculos a produção artística do Ocidente em geral e da Península Ibérica em particular. Os melhores exemplos desta produção artística podem, ainda hoje, ser admirados no Sul de Espanha.

 

Texto adaptado a partir de: https://www.infopedia.pt/$os-mocarabes

(gentileza de Engª Margarida Castro)

FERIADO DE 8 DE DEZEMBRO

Aquando da inauguração do Observatório de Greenwich, da medição da velocidade da luz e da descoberta do espermatozoide, em Coimbra, na única Universidade portuguesa então existente, era proibido dissecar cadáveres para se ter a certeza de não esquartejar a alma e o Rei D. João V teve que ordenar por Decreto à dita Universidade que defendesse o dogma da Imaculada Conceição.

8 de Dezembro de 2020

Henrique Salles da Fonseca

 

UM MINUTO D SILÊNCIO

Sabia que o minuto de silêncio foi inventado em Portugal?

 De todas as “invenções” portuguesas, a mais uiversal e mais difundida é, sem dúvida, o minuto de silêncio. O minuto de silêncio com o qual  se presta homenagem a um morto ilustre ou a mortos em catástrofes.

Tudo começou em 1912 com a morte do Barão do Rio Branco, ministro dos Negócios Estrangeiros do Brasil e pessoa muito querida em Portugal por ter sido um dos primeiros estadistas a patrocinar o reconhecimento da República Portuguesa em 1910.

José Maria da Silva Paranhos Júnior nasceu no Rio de Janeiro a 20 de Abril de 1845, filho do também diplomata que se tornou famoso sob o título de Visconde do Rio Branco.

Político competente, o barão foi ministro dos Negócios Estrangeiros durante os governos presidenciais de 1901 até à data da sua morte em 10 de Fevereiro de 1912. Antes da República, Paranhos Júnior servira com igual empenho a causa da monarquia.

A sua morte teve tal repercussão no Brasil que o governo fez um decreto adiando o Carnaval, para que esse período de festas não coincidisse com o luto nacional. Como ministro dos Negócios Estrangeiros, Rio Branco foi o responsável pela demarcação das fronteiras, trabalho que executou com engenho e arte, dilatando ainda mais o já vasto território brasileiro com a anexação do actual Estado do Acre, que pertencia à Bolívia (1904), uma área em litígio com a Guiana Francesa, que abrangia quase todo o atual Estado do Amapá e resolvendo em favor do Brasil um litígio fronteiriço com a Argentina, incorporando em definitivo uma área territorial de 30 621 km2.

Em Portugal, havia um verdadeiro culto pelo Barão do Rio Branco, o estadista ilustre que o Brasil perdeu e o seu nome era entre nós tão querido e tão espalhado que raros portugueses de uma certa cultura o desconheciam. Todos os que amavam o Brasil e seguiam atentamente os seus movimentos políticos e literários, os que lá iam em busca de um pouco de bem-estar, os artistas que viajavam anualmente na terra nossa irmã, os comerciantes que regressavam com o seu pecúlio e iam instalar-se nas suas províncias, todos recordavam com admiração o nome do ilustre homem de Estado”, como ficou registrado na Ilustração Portuguesa, de 26 de Fevereiro de 1912, lamentando a sua morte e noticiando a missa de sétimo dia em sufrágio da sua alma.

A morte do Barão do Rio Branco causou um forte impacto em Portugal. O Parlamento Português na sua reunião do dia 13 de Fevereiro, sob a presidência de Aresta Branco, em homenagem ao morto ilustre, suspendeu a sessão por meia hora – como era tradicional. Já na reunião do Senado no dia seguinte, sob a presidência de Anselmo Braamcamp e secretariada por Bernardino Roque e Paes de Almeida, inovou e revolucionou. “O Presidente, aludindo ao falecimento do Sr. Barão do Rio Branco, recordou que os altos serviços por aquele estadista prestados ao seu país e a circunstância de ser ele ministro quando o Brasil reconheceu a República Portuguesa”, escrevia o Diário de Notícias sobre a sessão.

Continuando com a evocação do DN: “Honrou também o Barão do Rio Branco as tradições lusitanas da origem da sua família e por tudo isso propôs que durante dez minutos, e como homenagem à sua memória, os Senhores Senadores se conservassem silenciosos nos seus lugares. Assim se fez…”. Cumpriu-se, assim, o primeiro momento de silêncio de que se tem notícia, numa sucessão que se vem prolongando até aos nossos dias.

Depois deste dia, todas as vezes que morria alguém passível de homenagem, o Parlamento Português repetia o gesto. Com o tempo, de dez minutos passou a cinco, depois a um, como actualmente. Em seguida, as Casas Legislativas europeias copiaram o modelo português e daí para o resto do mundo, ganhando visibilidade sobretudo nos estádios desportivos.

 

Autor não identificado

A LINFA DA HISTÓRIA

  • Na actualidade, não me consta que haja uma fórmula obrigatória para as mensagens emitidas pelos diversos Departamentos oficiais mas no tempo do Estado Novo, os ofícios da Administração Pública encerravam com a fórmula «A bem da Nação»;
  • Durante a 1ª República, a fórmula equivalente era «Saúde e fraternidade».

A questão que aqui deixo aos Leitores monárquicos, aos historiadores e aos curiosos é:

  • Tendo havido, qual era a fórmula protocolarmente definida para encerramento das comunicações oficiais escritas no tempo da Monarquia constitucional?

Claro está que se trata de um tema menor, literalmente, quase de pé de página mas que dá uma ideia sobre o tom genérico da alma de um Regime. Não é o sangue das grandes proclamações, não, mas é por certo a linfa dos pequenos momentos que ajudam a roda da vida a girar.

Aguardemos pela ajuda de quem saiba…

Novembro de 2020

Henrique Salles da Fonseca

EFEMÉRIDE

25 DE NOVEMBRO DE 1975

Faz hoje 45 anos que a democracia chegou a Portugal derrubando o comunismo que desde o 25 de Abril de 1974 tentava destruir a Nação pondo o país ao serviço da União Soviética.

Foi um punhado de valentes sob a liderança do então Coronel Jaime Neves que tomou a iniciativa de pôr fim ao desmando total a que estávamos a ser submetidos e de proclamar que estava na hora de se estabelecer efectivamente uma democracia de base pluripartidária, parlamentar.

Passadas as colónias portuguesas para a esfera do Império Soviético, estava cumprido o maior desígnio da “revolução dos cravos” perpetrada por uns quantos “anjinhos” e minada por alguns traidores. Eis por que o Dr. Álvaro Cunhal foi condecorado herói soviético já depois de 25 de Novembro de 1975.

No que então restava de Portugal, resolveu-se o problema com meia dúzia de sopapos bem dados em alguns adeptos do totalitarismo mas nas antigas colónias portuguesas começavam os sovietizados as chacinas contra as populações que queriam submeter pelo terror. Assim começaram as guerras civis em Angola e em Moçambique. Mas o sangue também jorrou – e muito - na Guiné e em Timor.

Passados estes 45 anos, eis-nos em Portugal numa democracia parlamentar consolidada e cheia de problemas conhecidos de toda a gente, discutidos por todos em público e sem constrangimentos.  Esta, sim, a liberdade real, não a da propaganda com que os abrilistas nos enchem as parangonas dos jornais. Mas a tranquilidade destes 45 anos levou-nos ao doce remanso das águas planas. E tudo é vida corrente, sem mais objectivos do que ultrapassar a pandemia e regressar ao bem-estar, ao enriquecimento tão rápido quanto cada um consiga mesmo que sem olhar a meios; liberdade económica tão desregulamentada quanto os princípios do liberalismo sugerem, o crédito como um direito a dar suporte ao hedonismo, o género humano a apregoar que é híbrido, o vazio quanto a valores colectivos, nacionais, desígnios superiores.

Chegados ao deserto ideológico, à “vidinha” corriqueira, onde está quem nos sugira um sonho?

Eis o desígnio a que os políticos se deveriam dedicar durante os próximos 45 anos, sob pena de descrédito pessoal se o não fizerem e de diluição da Nação na voragem chinesa de mando no mundo.

25 de Novembro de 2020

Henrique Salles da Fonseca

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