PARÚSIA
No fim da História reinará a paz entre os povos, chegaremos ao pleno equilíbrio económico global e à harmonia social, haverá abastança cultural e moral e ocorrerá a Parúsia.
Novembro de 2020
Henrique Salles da Fonseca
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No fim da História reinará a paz entre os povos, chegaremos ao pleno equilíbrio económico global e à harmonia social, haverá abastança cultural e moral e ocorrerá a Parúsia.
Novembro de 2020
Henrique Salles da Fonseca
Fulano - Olá, ainda bem que chega!
Eu - Obrigado.
Beltrana – Olá! Estávamos aqui a falar sobre coisas etéreas.
Eu – Ena! A esta hora tão matutina?
Beltrana – E por que não? É uma hora tão boa como outra qualquer…
Eu – Sim, sim. Então, do que falavam?
Fulano – Não se assuste! Estávamos a falar de Metafísica.
Eu – Boa! E que diziam?
Fulano – O que é a Metafísica?
Eu – É o que está fora da Física.
Beltrana – Eu bem dizia que estávamos a falar de coisas etéreas…
Fulano – Pode dar um exemplo?
Eu – Uma ideia, um princípio, um conceito…
Fulano – Uma ideia? Como é isso?
Eu – Sim, qualquer coisa imaterial.
Beltrana – Assim, tão simplesmente? Então, o «hardware» dos computadores é físico e o «software» é metafísico.
Eu – AHAH! Bem visto. Quase me apanhou. Sim, o «hardware» é físico mas o «soft» não é metafísico porque é… electricidade. E porque nem tudo o que lá circula é doutrinário, genérico, conceito. Esses conceitos, sim, são metafísicos mas são-no por si próprios e não por circularem numa via «soft».
Beltrana – Mas assim, não é nenhum bicho de sete cabeças como parece com as explicações complicadas que por aí andam…
Fulano – E era sobre essas explicações complicadas que estávamos a partir pedra.
Eu – Complicar é fácil. Mas se a definição é simples, tudo o que lá cabe pode não ser assim tão simples.
Beltrana – Como por exemplo…?
Eu – Desde o conceito aritmético mais simples (2+2) até Deus.
Fulano – Deus, uma ideia?
Eu – Sim, uma ideia… «e no princípio era o Verbo»…
Beltrana – Está a dizer que Deus não é mais do que uma ideia?
Eu – Deus é uma ideia que se explica pelos chamados Argumenrtos Ontológicos.
Betrana – Os argumentos quê?
Eu – Ontológicos do grego «onthos» que significa «ser». Os argumentos pelos quais se chega à existência de Deus.
Fulano – Isto, sim, é conversa boa para servir como aperitivo para o almoço. E pode dar um exemplo desses argumentos?
Eu – Sim, claro! Há muitos mas eu tenho sempre três na ponta da língua – o de Santo Anselmo, o de Pascal e o de Einstein.
Fulano – Eh caramba! Assim de enxurrada?
Eu – Bem, não propriamente de enxurrada. Posso dizê-los calmamente.
Beltrana – E, então, que disseram eles?
Eu – O mais progressista foi o mais antigo destes três, Santo Anselmo. À nossa semelhança quando hoje dizemos que «o que não está na Internet é como se não existisse», ele disse que «as coisas só existem se nós as imaginarmos; se não as imaginarmos, é como se não existissem». Então, imaginemos algo que está mais a cima do que qualquer outra coisa que possamos imaginar, que seja inultrapassável. Esse «algo» é Deus.
Beltrana – É curioso dá que pensar. Não é de repente que se percebe. OK! Fica o registo para mas amadurecer. E o Pascal?
Eu – Cito-o mais por curiosidade do que pela elevação do raciocínio que não passa de um exercício de contabilidade de «Ganhos e Perdas»:
- se acreditas em Deus e ele existe, depois da morte terás todas as recompensas;
- se não acreditas mas ele existe, perdes tudo;
- se acreditas e ele não existe, não ganhas nada;
- se não acreditas e ele não existe, não ganhas nem perdes.
Portanto, o melhor é acreditares.
Fulano – Fico na dúvida sobre se Pascal está gozar connosco ou…
Beltrana – Não gosto desse raciocínio.
Eu – Einstein é mais interessante. Começa por uma afirmação, faz uma pergunta e responde:
- O Universo começou com o «big bang»;
- Quem deu a ordem para que essa mega explosão ocorresse?;
- A única resposta possível, Deus.
Fulano – Prefiro este.
Beltrana – Também eu.
Eu – Parece que estamos todos de acordo. Mas há muitos mais argumentos ontológicos. Normalmente, agrupam-se em conjuntos mais ou menos homogéneos.
Beltrana – Grupos de argumentos? Que grupos são esses?
Eu – Religiões.
Fulano – Então, as religiões são grupos de argumentos?
Eu – Sim, mas não só.
Fulano - Mais quê?
Eu – Fé.
Beltrana – Ah, claro! E tudo isso é Metafísica.
Eu – Exacto! Mas agora são horas de almoço, tenho que ir andando.
Fulano – E vamos continuar esta conversa noutra ocasião?
Eu – Por mim, encantado. E deixo já um mote para que, entretanto, vão vendo o que diz o Google sobre «Exegese». Até breve!
Fulano – Até brreve!
Beltrana – Beijinhos!
Outubro de 2020
Henrique Salles da Fonseca
Enviaram-me há dias um vídeo em que um cavalheiro formal e pesaroso anunciava a morte de um seu amigo, o «bom-senso». Sem paciência para figuras de retórica nem para falsos rasgos humorísticos, desliguei.
Mas fiquei a pensar naquilo e quando procurei o vídeo, já não o encontrei. Resta a solução de pensar por mim próprio.
* * *
Na gíria, há uma certa tendência para associar - se não mesmo para confundir - «bom-senso», «senso-comum» e «bem comum» mas desde já faço notar que o «bom» pode não ser «comum» e, vice-versa, o «comum» pode não ser «bom».
Comecemos pelo Dicionário Priberam:
Bastou, pois, o recurso ao dicionário para pormos o «senso-comum» fora de jogo – honi soit qui mal y pense – no que respeita à questão do vídeo.
Assim sendo, ficam em apreciação o «bom-senso» e o «bem comum», sempre na perspectiva social, substantiva, de «bom» (daí, o hífen) e de «bem», expressões não adjectivantes.
Estas expressões estão directamente vinculadas ao conceito positivo de «bem social», substantivo, por contraste com «mal social». Mais especificamente, a boa conduta social e à sua oposta, o mau comportamento.
Portanto, o que é a boa atitude social que tem por génese o bom senso?
É aquela que é conforme à harmonia social e se configura pelo altruísmo, pela humildade e pelo sentido do dever[i].
Mas se o pacifismo implícito na harmonia (a da concertação social) for posta em causa pelas doutrinas que têm como base de actuação a luta de classes, o que é bom para uns é mau para os outros e vice-versa. Ou seja, o «bom» transforma-se de substantivo em adjectivo e as características acima referidas transformam-se em egoísmo (vs. altruísmo), em arrogância (vs. humildade) e em irresponsabilidade (vs. sentido do dever), pedras estas que cada facção arremessa à outra.
Isto significa que a cada projecto político corresponde um conceito de bem comum e que a cada um destes corresponde um quadro específico de «bom-senso».
E em democracia pluripartidária é assim mesmo: periodicamente, o modelo de «bem comum» é referendado e ganha aquele a que corresponde a maioria de um certo «bom senso».
Ou seja, o «bom-senso» não morreu, ele apenas é diferente (eventualmente, muito diferente) do da opção do cavalheiro formal e pesaroso do vídeo que não vi na íntegra. Mas, adivinhando, sou capaz de lhe dar alguma da minha simpatia.
Maio de 2020
Henrique Salles da Fonseca
[i] - O que é que eu posso fazer por ti sem o prejudicar a ele, esse terceiro que até pode não estar identificado?
No seu livro «O mundo como vontade e representação», Schopenhauer considera que o que conhecemos através dos nossos sentidos, o conhecimento empírico, é a simples representação das coisas mas que a realidade dessas mesmas coisas é praticamente inacessível ao comum dos mortais.
Daí, Sue Prideaux, na sua biografia sobre Nietzsche intitulada «EU SOU DINAMITE» afirmar no final da pág. 69 que…
Toda a vida é anseio por um estado impossível [o da compatibilização entre a representação e a realidade] e, por conseguinte, toda a vida é sofrimento. Kant escreve de um ponto de vista cristão que tornava suportável o estado sempre imperfeito e sempre desejoso do mundo empírico porque seria possível esperar uma espécie de final feliz, caso se fizesse o esforço suficiente. A redenção era sempre possível através de Cristo.
* * *
Esta «saída» kantiana faz-me lembrar que só a fé move montanhas.
Julho de 2019

Henrique Salles da Fonseca
Na minha busca das causas do modo alemão e do nosso, dei por mim a pensar se os filósofos são causa ou consequência do comportamento dos povos a que pertencem. E cheguei à conclusão de que começam por ser consequência, passam a influenciar as classes letradas e daí - mais geração, menos geração - chegam à generalidade da sociedade.
Nestas deambulações, «encontrei-me» com os hiperbóreos, com a mitologia nórdica (a que, por redução, há quem chame germânica), com Lutero, Göthe, Nietzsche, Wagner, Schopenhauer… e, de toda esta erudição, cheguei à boçalidade hitleriana.
E se a minha grande motivação era a de perceber menos superficialmente por que é que a Alemanha se recompôs rapidamente de derrotas militares devastadoras enquanto nós, em paz, temos ciclicamente que recorrer à esmola internacional das Troikas, acabei por dar um ar jocoso à causa através das condições climáticas que induzem os alemães a trabalhar (é claro que não e que aqui impera a fé inicialmente calvinista e depois luterana de que o trabalho serve Deus) e as doces praias atlânticas nos induzem a folgar (é claro que não, o analfabetismo é a causa mais clamorosa do nosso subdesenvolvimento). Neste interim dei por mim a vasculhar outros Autores que me trouxessem a filosofia devidamente «empacotada» para eu não ter que ler montanhas de livros e, no final, ter baralhado tudo e continuado na grande ignorância. Assim encontrei Peter Sloterdejk e o seu pequeno livro «Temperamentos filosóficos» sobre que escrevi em https://abemdanacao.blogs.sapo.pt/temperamentos-filosoficos-1702900
E, de conversa em conversa, referi este livro à Dr.ª. Maria Emília Gonçalves, nossa «colega» de blog, que assim me respondeu:
Estimado Dr. Henrique Salles da Fonseca,
Fiquei de tal forma entusiasmada com o excerto que transcreveu no seu blog, relativamente aos prefácios de Peter Sloterdijk, que já encomendei o livro na FNAC. Tenho sempre um grande interesse por esta temática.
Entretanto e enquanto não leio o livro, e mais uma vez recorrendo aos meus apontamentos, “atrevo-me” a deixar algo do que aprendi, sobre alguns dos filósofos que citou.
A ordem pela qual me refiro aos filósofos é absolutamente aleatória.
PLATÃO
Filósofo idealista , discípulo de Sócrates, Platão defendia uma concepção idealista do mundo e lutou activamente contra as teorias materialistas do seu tempo.
O homem para Platão é dualista ( corpo e alma ) sua filosofia não se interessa pelo homem em sociedade e sim o divino no homem.
O mundo das ideias, o mundo das formas e o mundo dos conceitos passam a serem primordiais em sua filosofia.
Sua crítica à democracia ateniense e a procura de soluções políticas do mundo grego foram preocupações centrais da vida e da obra daquele que é por muitos o maior pensador da Antiguidade.
Achei muito interessante o que diz Peter Sloterdijk: que a tradição platónica concorda com a doutrina estóica , posteriormente, com a epicurista no facto de definir o filósofo como aquele que é versado na pesquisa da paz das almas.
Sobre Aristóteles também achei muito curiosa a referência que faz, dizendo que o cérebro de Aristóteles era como que o senado de uma universidade rica de faculdades.
Quanto a Descartes diz ele no seu livro que “a filosofia moderna de tipo cartesiano permanece caracteristicamente suspensa entre a teologia e a teoria das máquinas, não tendo sido em vão que os grandes arquitectos de sistemas do Idealismo alemão celebraram em Descartes o seu predecessor.
DESCARTES
Descartes julgava necessário colocar previamente em dúvida tudo quanto existe. Este principio, é aquele de que “Penso, logo existo”. Desta tese, Descartes tentava também inferir a existência de Deus e depois a convicção de que o mundo exterior é real.
Descartes é o fundador do racionalismo que se formou como consequência de entender o carácter lógico do conhecimento matemático.
LEIBNIZ
No seu discurso da Metafísica, Leibniz refere-se a: “fazer sempre o que for mais perfeito e realizar o que parecer ser o melhor. À razão cabe, como regra, a escolha do melhor, que será reconhecido pelos homens segundo o bem aparente, segundo o que parece ser o melhor”.
O racionalismo de Leibniz muito difundido no séc. XVII tornou-se a filosofia academicamente mais influente da época.
Refere Peter Sloterdijk, que o seu papel intelectual é de uma ponta à outra o do diplomata hábil na palavra, do cortesão na teoria e conselheiro do príncipe(…)
Igualmente interessante a referência a Schelling. Diz-nos que o rei Maximiliano da Baviera, que foi aluno dele, mandou colocar no monumento de 1854 ao filósofo as seguintes palavras: “Ao primeiro pensador da Alemanha”.
Quase no final do livro, Peter Sloterdijk ,referindo-se a Marx, Nietzsche e Freud, diz que os três desangelistas parecem proclamar um e o mesmo destino, quando referiram “A verdade avassalar-vos-á”.
E refere ainda que todos eles procuraram e acharam leitores ágeis que reconheceram nos seus escritos as palavras –chave para carreiras, e até pretextos para golpes de estado, fundações de sociedades e revoluções radicais do modo de pensar e viver.
HEGEL
Para Hegel, não existe algo que seja impossível de ser pensado. Ele afirma que o real é racional e o racional é real. Não é possível separar o mundo do sujeito, o objecto e o conhecimento, o universal e o particular.
A sua dialéctica é fundamentada na tese e na antítese.
MARX
Se Hegel era um idealista em termos filosóficos, Marx era um materialista, ou seja, para Hegel as ideias vêm antes das coisas, para Marx, as relações sociais é que precedem as ideias.
Para Marx, a história humana desenvolve-se a partir da acção concreta dos seres humanos em sociedade. Por isso Marx é um materialista, ao contrário de Hegel .
Marx inspirou-se na dialéctica de Hegel para propor os possíveis caminhos revolucionários. A contradição existente entre a classe dominante (burguesa) e a classe proletária, deve fazer surgir uma nova síntese.
O Estado e o capital fazem parte do sistema dominante.
SARTRE
Existe uma certa ligação entre a sua filosofia e a de Kierkegaard. Tem sido escrito que Freud também o influenciou.
Sartre empreende a tentativa de demonstrar o existencialismo recorrendo à filosofia do marxismo. Ele participou na Resistência francesa durante a Segunda Guerra Mundial e lutou activamente contra o renascimento do fascismo, em defesa da paz.
É um representante do existencialismo “ateu”.
SCHELLING
Aproveitou as ideias de Kant e a teoria de Leibniz tendo introduzido o conceito de desenvolvimento na interpretação da natureza. Tentou combinar o idealismo subjectivo de Fichte com o idealismo do seu próprio sistema.
Schelling, tal como Fichte, concebia a liberdade como necessidade; não via a liberdade para o individuo isolado, mas a conquista da sociedade.
SANTO AGOSTINHO
A filosofia agostiniana é uma constante busca da verdade, que culmina na Verdade, em Cristo. É um movimento incessante, uma paixão, e, precisamente, a paixão principal: o amor.
“O amor é o peso que dá sentido à minha vida. Verdade e Amor.“Fizeste-nos, Senhor, para Ti e o nosso coração estará inquieto enquanto não descansar em Ti”, diz nas Confissões.
Em Santo Agostinho, não existem provas formais para demonstrar a existência de Deus. Ainda que toda a sua obra seja uma espécie de itinerário em direção a Deus. Tudo fala de Deus.
Já no final da sua vida, diz que o homem tem em si, enquanto é capaz, “a luz da razão eterna, na qual vê as verdades imutáveis”.
KANT
A filosofia Transcendental de Kant delimitou o conhecimento científico, tal como era entendido à época (Aritmética, Geometria e Física), fundamentando-o nas estruturas do sujeito. Portanto, tudo aquilo que tais estruturas não abrangessem estaria fora dos domínios do saber legítimo.
Kant tentou aliar o racionalismo ao empirismo, para ele não haveria conhecimento sem percepção sensível e, tampouco, sem entendimento. Em termos kantianos, o filósofo estaria muito longe de ser aquele que sobre tudo indaga, como se julgava em tempos remotos. Legitimamente, o filósofo investigaria as condições de possibilidade do conhecimento e também os fundamentos do dever moral.
Kant ensina-nos que o nosso conhecimento tem a base da sua validade na razão. O factor “a priori” não procede, segundo ele, da experiência mas sim do pensamento, da razão, pelo que foi o fundador do apriorismo.
Kant mostra ao longo da sua crítica quais são as condições para qualquer experiência possível, na "Estética Transcendental", analisando quais são as condições a priori para que um dado fenómeno possa ser dado na intuição, chegando às condições de "espaço", para as intuições externas, e "espaço" e "tempo" para as intuições internas.
Após a Estética, Kant prossegue para a análise da forma pela qual aquilo que é dado na experiência é organizado em relações que constituem conhecimento. Estas são as categorias do entendimento, determinadas pela razão pura e que, sendo preenchidas pela matéria proveniente da experiência, podem formar um conhecimento. Ambas as análises são feitas na chamada "Analítica Transcendental".
Em seguida ele segue para a "Dialéctica Transcendental", parte do livro na qual ele usa esse pensamento elaborado na analítica para mostrar erros de raciocínio impregnados no modo de pensar filosófico de então.
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Sinta-se, por favor, perfeitamente à vontade, para publicar (ou não) o que entender, até porque o mail é longo e será cansativo lê-lo.
Os meus melhores cumprimentos
Mª Emília Gonçalves
* * *
Agradeço à Dr.ª Maria Emília Gonçalves pois assim ficamos com um interessante resumo do que cada um foi pensando e influenciando, sendo consequência do que aprendeu e viu e causa de evolução.
Continuemos…
Novembro de 2019

Henrique Salles da Fonseca
«Considerações Intempestivas» é o título geral de um conjunto de textos de Nietzsche e que, sob a forma de opúsculos, ele foi publicando à medida que os ia considerando concluídos[1] e em condições de divulgação.
A segunda Consideração tem a ver com a historiografia, ou seja, com a ciência e com a filosofia da História e intitula-se Da utilidade e das desvantagens da História para a vida.
A título de curiosidade, Nietzsche destrinça três tipos de interventores na História: o “antiquário” que procura preservar o passado; o “monumental” que procura emular o passado; o “crítico” que procura libertar o presente do passado.
Neste texto, Nietzsche disseca a realidade alemã do seu tempo alertando para que a obsessão das elites pelo passado estava a obstar à construção racional do presente.
Tomando em conta que o filósofo morreu no dia 25 de Agosto de 1900, temos que reconhecer que a «adivinhação» das dificuldades alemãs na construção de um presente racional se repercutiu muito para além do seu desaparecimento físico entre os homens conferindo-lhe uma efectiva capacidade de antevisão dos problemas por que a Alemanha haveria de passar. Por outras palavras, a loucura colectiva que assolou os alemães através do nazismo, tem raízes bem mais antigas do que aquelas que habitualmente se referem.
E estou mesmo em crer que Wagner tem algumas culpas no Cartório. Voltarei ao tema.
Novembro de 2019

Henrique Salles da Fonseca
[1]- Para saber mais, ver em «Considerações intempestivas – F. Nietzsche»
[Na década de 30 do séc. XX] os sociólogos, democratas, livre-pensadores, partidários da liberdade individual, confirmavam com a sua ciência os valores aos quais espontaneamente aderiam. Aos seus olhos, a estrutura da civilização presente (densidade ou solidariedade orgânica) exigia de algum modo as ideias igualitárias, a autonomia das pessoas. Os juízos de valor ganhavam, mais do que perdiam em dignidade, ao tornarem-se juízos colectivos. Substituía-se com toda a confiança a sociedade de Deus. Aliás, o termo «sociedade» não deixa de ser equívoco pois ora designa os colectivos reais, ura a ideia ou o ideal destes colectivos. Na verdade, só se aplica aos agrupamentos particulares, fechados sobre si mesmos, mas menos do que as palavras «pátria» ou «nação» e recorda as rivalidades e as guerras (não se imagina facilmente uma sociedade alargada aos limites da humanidade inteira). Dissimula os conflitos que assolam todas as comunidades humanas. Permite subordinar à unidade social as classes opostas e conceber uma moral nacional que seria sociológica sem ser política.
Ora, se este conceito designar o geral parcialmente incoerente dos factos sociais, desprovido de todo o prestígio emprestado, pergunto: não parece assim que o “sociologismo” junta, com uma relatividade sem limites, a redução dos valores a uma realidade mais natural do que espiritual, submetida a um determinismo e não aberta à liberdade?

In «Memórias» - ed. Guerra & Paz, Fevereiro de 2018, pág. 122
Virtude é conhecimento; todos os pecados provêm da ignorância; o homem feliz é o homem virtuoso
In “Eu sou dinamite – a vida de Friedrich Nietzsche”, Sue Prideaux, Círculo Leitores, 1ª edição, Abril de 2019, pág. 115
NA FILOSOFIA DO DESENVOLVIMENTO
Da edição portuguesa das “Memórias” de Raymond Aron, pág. 120 e seg., GUERRA & PAZ, Fevereiro de 2018, extraio a opinião de que…
(…) Entre uma sociedade comunitária que se dá a si mesma por valor absoluto e uma sociedade liberal que visa alargar a esfera da autonomia individual, não há medida comum. A sucessão de uma à outra não lograria ser apreciada se não por referência a uma norma que deveria ser superior às diversidades históricas mas tal norma é sempre a projecção hipoestagnada do que um colectivo particular é ou quereria ser. Ora, a nossa época conhece demasiado a diversidade que encontra nela própria para cair na ingenuidade dos grupos fechados, ou para se elevar à confiança daqueles que se comparam com o passado e com outrem na certeza da sua superioridade.
(…) o progresso só se aprecia em função de um critério trans-histórico. O «mais» do saber observa-se, o «melhor» das culturas julga-se – e que juiz é imparcial?
Destaques anteriores da minha responsabilidade.
* * *
Creio que a transcrição anterior é suficiente para evidenciar a diferença entre a Filosofia do Desenvolvimento e a Teoria do Desenvolvimento dado que aquela (a Filosofia) procura (pelos vistos, debalde) a norma que deveria ser superior ou o critério trans-histórico que justificasse o processo de desenvolvimento enquanto esta (a Teoria), perante o impasse filosófico, avançou por raciocínios talvez de menor elevação mas muito mais pragmáticos, ou seja, pela discussão dos modelos (quiçá econométricos) e de concepção de estruturas sociais e mesmo políticas.
* * *
Primeira observação – O modelo comunitário que se autodefiniu como de mérito absoluto e definitivo, impediu adaptações às mudanças exógenas, petrificou, rachou e ruiu; o modelo liberal, descontente consigo próprio devido a méritos mutantes (e, portanto, relativos), procura adaptações constantes às mudanças endógenas e exógenas, flexibiliza-se, sobrevive e progride.
Segunda observação - Como somos diferentes, filósofos e economistas, quanto poderíamos aprender uns com os outros. O problema é que nunca sabemos onde está um filósofo e só os encontramos tarde, postumamente.
Setembro de 2019
Henrique Salles da Fonseca
«FIA-TE NA VIRGEM, NÃO CORRAS E VERÁS O TRAMBOLHÃO QUE DÁS» - eis a apologia popular do livre arbítrio que…
No Ocidente, crentes, agnósticos e ateus fazem o mundo pelas suas próprias mãos em plena liberdade e assumindo completa responsabilidade.
* * *
O Islão diz o que segue:
Destino e Decreto Divino
Acreditamos no destino, ainda que seja agradável ou desagradável, o qual Allah tem medido e ordenado para todas as criaturas de acordo com o Seu conhecimento prévio e que considera adequado por Sua sabedoria.
Nós acreditamos que Allah sabe de tudo. Ele sabe o que aconteceu e o que vai acontecer e como irá acontecer. Seu conhecimento é eterno. Ele não adquire novo conhecimento nem esquece aquilo que sabe.
Nós acreditamos que Allah tenha gravado numa Tábua Segura tudo o que vai acontecer até ao Dia do Julgamento:
“Vós não sabeis que Allah sabe de tudo o que existe nos Céus e na Terra? Certamente que estará num livro. Certamente para Allah é uma tarefa fácil” (22:70)
Nós acreditamos que Allah tenha desejado tudo o que está nos Céus e na Terra. Nada acontece excepto por Sua vontade. O que quer que Ele deseja, terá lugar e o que quer que Ele não deseja, não terá lugar.
Allah é o Criador de todas as coisas; Ele é o Guardião de todas as coisas e a Ele pertencem as chaves dos Céus e da Terra” (39:62-63). Este nível inclui o que quer que o próprio Allah faça e o que quer que suas criaturas façam. Assim, cada dizer, acção ou omissão das criaturas é conhecido por Allah, que tem gravado, desejado e criado (63’62):
“Allah criou você e o que você faz” (37:96).
A livre vontade do ser humano:
Acreditamos, porém, que Allah concedeu ao homem um poder e uma livre vontade pelos quais ele executa as suas acções. Que as acções desses homens são feitas por sua livre e espontânea vontade e poder, pode comprovar-se por meio do seguinte ponto:
Allah diz - “Abordem os vossos campos (esposas) quando e como desejarem” (2:223)
“Allah não impõe a ninguém obrigação para além das suas capacidades” (2:286)
In http://www.luzdoislam.com.br/br/a-cren%C3%A7a-no-destino-a18.htm
* * *
Numa próxima oportunidade vou abordar a questão do carma budista.
Julho de 2019
Henrique Salles da Fonseca
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