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A bem da Nação

A FÉ E A RAZÃO

Desta vez, dedico-me a matéria de grande elevação e recorro a pensadores que me merecem todo o respeito.

Começo por colocar a tónica na formação racionalista como fundamental para a tomada de consciência e para o reconhecimento dos limites da liberdade, ou da autenticidade do sentido de democracia.

Cito Karl Popper a págs. 32 da sua autobiografia intelectual, «BUSCA INACABADA» (edição ESFERA DO CAOS, 1ª edição, Fevereiro de 2008) em que ele afirma que “a teologia (...) é devida à falta de fé”, conceito com que concordo plenamente pois quem tem fé não precisa de explicações e a quem a não tem, pode não haver explicações que bastem. Foi para estes últimos que a Teologia foi edificada.

Compreendo perfeitamente que D. Manuel Clemente, Cardeal Patriarca de Lisboa, faça prevalecer o “espiritualismo apoiado nos valores transcendentais” precisamente por ser homem de fé; eu não sou Cardeal.

Mas a Igreja há muito que se fez evoluir por caminhos complementares ao da fé com vista à ultrapassagem de erros históricos (os episódios de Galileu e de Darwin) e de resposta a movimentos políticos e sociais tão significativos como a Revolução Francesa e o cenário social da revolução industrial. Não era mais possível manter a nostalgia duma cristandade assente apenas no poder da fé; havia que atrair os adeptos da razão, atracção que não repudio liminarmente.

Foi também nesta senda complementar à da fé que se reuniu em Roma nos anos de 1869-70 o Concílio Vaticano I que foi abruptamente interrompido com a invasão do que restava dos Estados Papais pelas forças de Garibaldi. Contudo, tiveram ainda os Padres conciliares tempo para aprovarem um documento de tal modo importante que obteve a classificação mais elevada dos produzidos pela Igreja, uma Constituição. Mais: obteve a classificação de Constituição Dogmática. Recebeu o título Dei Filius a partir das primeiras palavras do seu texto “O Filho de Deus e redentor...”

A ideia central e fundamental do documento diz que há duas possibilidades de conhecimento: a razão natural e a fé divina. Mais diz que estas duas ordens do conhecimento são distintas não só no seu princípio como também no seu objecto, onde fica claro que sem fé a razão não consegue alcançar os mistérios escondidos de Deus e “jamais poderá haver verdadeira desarmonia entre a fé e a razão porque o mesmo Deus que revela os mistérios e comunica a fé, também colocou no espírito humano a luz da razão”.

E foi por caminhos assim que a Igreja evoluiu... e o Papa João Paulo II pediu desculpas pelo erro cometido contra Galileu referindo em 1998 na sua encíclica Fides et Ratio que “O homem encontra-se num caminho de busca humanamente infindável”.

Concluindo, regresso a Karl Popper quando ele afirma que na sucessão contínua de tentativa-erro-correcção-tentativa-erro-correcção-tentativa... do método científico, a verdade é um ponto no infinito.

Como muito provavelmente terá dito Santo Anselmo na formulação das premissas racionais que levaram à construção do seu argumento ontológico e antecederam a publicação do seu Prologion, “Haja Deus!”

 

 

 Henrique Salles da Fonseca

 

BIBLIOGRAFIA

Nuno Santos – Fé e Razão, um mútuo reconhecimento desde o Concílio Vaticano I – Dei Filius, BROTÉRIA, Fevereiro de 2013, pág. 125 e seg.

 

OS GRANDES FILÓSOFOS

Hoje, ouvi alguém proferir uma frase que me parece absurda: - Tento compreender os grandes filósofos.

Como os pode o personagem classificar de grandes se não os compreende? E, no entanto, bastaria que atribuísse a outrem a tal grandeza para que a afirmação deixasse de me parecer absurda. Algo como: - Tento compreender os filósofos que se diz serem grandes.

Para já, a pergunta que me ocorre é: - O que é um grande filósofo?

Mas, afinal, ainda faço outra pergunta: - O que é um filósofo?

Antes de uma resposta, avanço com a afirmação de que não reconheço qualquer relação biunívoca entre ser-se licenciado em filosofia e ser-se filósofo.

Como assim?

Exactamente assim: ser-se licenciado em filosofia é saber mais ou menos extensivamente ou mais ou menos especificamente o que outros filosofaram; doutos em filosofias alheias, não necessariamente pensadores de produção própria.

E, deste modo, já estou a avançar para a resposta sobre o que é ser-se filósofo: é ter ideias próprias sobre temas a que tradicionalmente se dá enquadramento na Filosofia. Tantas são estas áreas do pensamento que não vou aqui enumera-las. Pareceria o índice duma enciclopédia e isso está disponível à distância de poucos cliques.

Então, nesta pertença, o que é ser grande?

Considero algumas características cumulativas fundamentais:

  • Ser lógico;
  • Ser original;
  • Saber escrever;
  • Ser democrata.

Qualquer pensamento, não sendo lógico, é anedótico ou absurdo, o que exclui o seu autor da classificação de filósofo e, por maioria de razão, do direito ao epíteto «grande»

Se o raciocínio não for original, o seu autor será um papagaio plagiador mas não um filósofo e nem sequer «grande».

Um pensamento lógico e original que não seja bem descrito (escrito) pode transformar-se num enredo de compreensão difícil ou impossível o que conduzirá o seu autor à classe dos labirintistas mas não á de filósofo e muito menos à de «grande».

Se a boa escrita não for clara e simples e, daí, acessível ao comum dos mortais e só destinada aos «iniciados», o seu autor poderá ser filósofo, sim, mas seguramente sem grande utilidade para os comuns e, portanto, não «grande».

CONCLUSÃO:                                                                                   

A frase «Tento compreender os grandes filósofos» é absurda.

Março de 2021

Henrique Salles da Fonseca

IGNORÂNCIA HERMÉTICA

Assim como que à laia de convite, fui há dias avisado da realização de um colóquio sobre «Filosofia Hermética».

Filosofia quê?

Vai daí, desperta a curiosidade, lembrei-me de que «plutocracia»[i] nada tem a ver com o cão “Pluto” da Disney e de imediato concluí que esta filosofia hermética também nada teria a ver com escafandrismo nem com outras actividades em que os equipamentos devem ser herméticos sob pena de fatalidade dos respectivos utilizadores. Então, como diz Augusto Gil na famosa «Balada da neve», fui ver

E aí estou eu a caminho do meu amigo que sabe tudo, o Google, que dá guarida a uma grande amiga minha, a Wikipédia.

E fiquei a saber que…

 Hermes Trismegisto ("Hermes, o três vezes grande") era um legislador egípcio e filósofo, que viveu na região de Ninus por volta de 1.330 a.C. Teve a sua contribuição registada através de trinta e seis livros sobre teologia e filosofia, além de seis sobre medicina. O estudo sobre a sua filosofia é denominado hermetismo.

Pela diversidade de temas, é pouco provável que todos esses livros tenham sido escritos por uma única pessoa, mas representam o saber acumulado pelos egípcios ao longo do tempo.

A literatura Hermética hoje em dia foi quase perdida. Estima-se que Hermes Trismegisto fora a inspiração para diversos pensadores da Antiguidade que o sucederam, como Sócrates, Platão e Aristóteles.

Hermetismo é o estudo e prática da filosofia oculta e da magia associados a escritos atribuídos a Hermes Trismegisto, uma deidade sincrética que combina aspectos do deus grego Hermes e do deus egípcio Thoth.

Os escritos mais importantes atribuídos a Hermes são a Tábua de Esmeralda e os textos do Corpus Hermeticum. Estas crenças tiveram influência na sabedoria oculta europeia, desde a Renascença, quando foram reavivadas por figuras como Giordano Bruno e Marsilio Ficino. A magia hermética passou por um renascimento no século XIX na Europa Ocidental, onde foi praticada por nomes como os envolvidos na Ordem Hermética do Amanhecer Dourado e Eliphas Levi. No século XX foi estudada por Aleister Crowley, entre outros.

Recentes estudos associam a filosofia de Hegel com o hermetismo.

* * *

Agora, sim, começo a perceber por que tipo de razões a Igreja levou Giordano Bruno a «passar pelas brasas». Mas esse é estudo que vai mais lá para a frente…

A ver se reduzo a minha ignorância, nomeadamente a hermética.

 

Fevereiro de 2021

Henrique Salles da Fonseca

BIBLIOGRAFIA:

https://pt.wikipedia.org/wiki/Hermes_Trismegisto

https://pt.wikipedia.org/wiki/Hermetismo#Hermes_Trismegisto

 

[i] - Governo dos ricos, pelos ricos e para os ricos

PARÚSIA

No fim da História reinará a paz entre os povos, chegaremos ao pleno equilíbrio económico global e à harmonia social, haverá  abastança cultural e moral e ocorrerá a Parúsia.

Novembro de 2020

Henrique Salles da Fonseca

CONVERSAS SOLTAS - 2

Fulano - Olá, ainda bem que chega!

Eu - Obrigado.

Beltrana – Olá! Estávamos aqui a falar sobre coisas etéreas.

Eu – Ena! A esta hora tão matutina?

Beltrana – E por que não? É uma hora tão boa como outra qualquer…

Eu – Sim, sim. Então, do que falavam?

Fulano – Não se assuste! Estávamos a falar de Metafísica.

Eu – Boa! E que diziam?

Fulano – O que é a Metafísica?

Eu – É o que está fora da Física.

Beltrana – Eu bem dizia que estávamos a falar de coisas etéreas…

Fulano – Pode dar um exemplo?

Eu – Uma ideia, um princípio, um conceito…

Fulano – Uma ideia? Como é isso?   

Eu – Sim, qualquer coisa imaterial.

Beltrana – Assim, tão simplesmente? Então, o «hardware» dos computadores é físico e o «software» é metafísico.

Eu – AHAH! Bem visto. Quase me apanhou. Sim, o «hardware» é físico mas o «soft» não é metafísico porque é… electricidade. E porque nem tudo o que lá circula é doutrinário, genérico, conceito. Esses conceitos, sim, são metafísicos mas são-no por si próprios e não por circularem numa via «soft».

Beltrana – Mas assim, não é nenhum bicho de sete cabeças como parece com as explicações complicadas que por aí andam…

Fulano – E era sobre essas explicações complicadas que estávamos a partir pedra.

Eu – Complicar é fácil. Mas se a definição é simples, tudo o que lá cabe pode não ser assim tão simples.

Beltrana – Como por exemplo…?

Eu – Desde o conceito aritmético mais simples (2+2) até Deus.

Fulano – Deus, uma ideia?

Eu – Sim, uma ideia… «e no princípio era o Verbo»…

Beltrana – Está a dizer que Deus não é mais do que uma ideia?

Eu – Deus é uma ideia que se explica pelos chamados Argumenrtos Ontológicos.

Betrana – Os argumentos quê?

Eu – Ontológicos do grego «onthos» que significa «ser». Os argumentos pelos quais se chega à existência de Deus.

Fulano – Isto, sim, é conversa boa para servir como aperitivo para o almoço. E pode dar um exemplo desses argumentos?

Eu – Sim, claro! Há muitos mas eu tenho sempre três na ponta da língua – o de Santo Anselmo, o de Pascal e o de Einstein.

Fulano – Eh caramba! Assim de enxurrada?                                  

Eu – Bem, não propriamente de enxurrada. Posso dizê-los calmamente.

Beltrana – E, então, que disseram eles?

Eu – O mais progressista foi o mais antigo destes três, Santo Anselmo. À nossa semelhança quando hoje dizemos que «o que não está na Internet é como se não existisse», ele disse que «as coisas só existem se nós as imaginarmos; se não as imaginarmos, é como se não existissem». Então, imaginemos algo que está mais a cima do que qualquer outra coisa que possamos imaginar, que seja inultrapassável. Esse «algo» é Deus.

Beltrana – É curioso dá que pensar. Não é de repente que se percebe. OK! Fica o registo para mas amadurecer. E o Pascal?

Eu – Cito-o mais por curiosidade do que pela elevação do raciocínio que não passa de um exercício de contabilidade de «Ganhos e Perdas»:

- se acreditas em Deus e ele existe, depois da morte terás todas as recompensas;

- se não acreditas mas ele existe, perdes tudo;

- se acreditas e ele não existe, não ganhas nada;

- se não acreditas e ele não existe, não ganhas nem perdes.

Portanto, o melhor é acreditares.

Fulano – Fico na dúvida sobre se Pascal está gozar connosco ou…

Beltrana – Não gosto desse raciocínio.

Eu – Einstein é mais interessante. Começa por uma afirmação, faz uma pergunta e responde:

- O Universo começou com o «big bang»;

- Quem deu a ordem para que essa mega explosão ocorresse?;

- A única resposta possível, Deus.

Fulano – Prefiro este.

Beltrana – Também eu.

Eu – Parece que estamos todos de acordo. Mas há muitos mais argumentos ontológicos. Normalmente, agrupam-se em conjuntos mais ou menos homogéneos.

Beltrana – Grupos de argumentos? Que grupos são esses?

Eu – Religiões.

 

Fulano – Então, as religiões são grupos de argumentos?

Eu – Sim, mas não só.

Fulano - Mais quê?

Eu – Fé.

Beltrana – Ah, claro! E tudo isso é Metafísica.

Eu – Exacto! Mas agora são horas de almoço, tenho que ir andando.

Fulano – E vamos continuar esta conversa noutra ocasião?

Eu – Por mim, encantado. E deixo já um mote para que, entretanto, vão vendo o que diz o Google sobre «Exegese». Até breve!

Fulano – Até brreve!

Beltrana – Beijinhos!

Outubro de 2020

Henrique Salles da Fonseca

NA MORTE DO «BOM-SENSO»

Enviaram-me há dias um vídeo em que um cavalheiro formal e pesaroso anunciava a morte de um seu amigo, o «bom-senso». Sem paciência para figuras de retórica nem para falsos rasgos humorísticos, desliguei.

Mas fiquei a pensar naquilo e quando procurei o vídeo, já não o encontrei. Resta a solução de pensar por mim próprio.

* * *

Na gíria, há uma certa tendência para associar - se não mesmo para confundir - «bom-senso», «senso-comum» e «bem comum» mas desde já faço notar que o «bom» pode não ser «comum» e, vice-versa, o «comum» pode não ser «bom».

Comecemos pelo Dicionário Priberam:

  • Bom-senso – Equilíbrio nas decisões ou nos julgamentos em cada situação que se apresenta;
  • Senso comum –Conjunto de opiniões ou ideias que são geralmente aceites numa época e num local determinados.

Bastou, pois, o recurso ao dicionário para pormos o «senso-comum» fora de jogo – honi soit qui mal y pense – no que respeita à questão do vídeo.

Assim sendo, ficam em apreciação o «bom-senso» e o «bem comum», sempre na perspectiva social, substantiva, de «bom» (daí, o hífen) e de «bem», expressões não adjectivantes.

Estas expressões estão directamente vinculadas ao conceito positivo de «bem social», substantivo, por contraste com «mal social». Mais especificamente, a boa conduta social e à sua oposta, o mau comportamento.

Portanto, o que é a boa atitude social que tem por génese o bom senso?

É aquela que é conforme à harmonia social e se configura pelo altruísmo, pela humildade e pelo sentido do dever[i].

Mas se o pacifismo implícito na harmonia (a da concertação social) for posta em causa pelas doutrinas que têm como base de actuação a luta de classes, o que é bom para uns é mau para os outros e vice-versa. Ou seja, o «bom» transforma-se de substantivo em adjectivo e as características acima referidas transformam-se em egoísmo (vs. altruísmo), em arrogância (vs. humildade) e em irresponsabilidade (vs. sentido do dever), pedras estas que cada facção arremessa à outra.

Isto significa que a cada projecto político corresponde um conceito de bem comum e que a cada um destes corresponde um quadro específico de «bom-senso».

E em democracia pluripartidária é assim mesmo: periodicamente, o modelo de «bem comum» é referendado e ganha aquele a que corresponde a maioria de um certo «bom senso».

Ou seja, o «bom-senso» não morreu, ele apenas é diferente (eventualmente, muito diferente) do da opção do cavalheiro formal e pesaroso do vídeo que não vi na íntegra. Mas, adivinhando, sou capaz de lhe dar alguma da minha simpatia.

Maio de 2020

Henrique Salles da Fonseca

 

 

[i] - O que é que eu posso fazer por ti sem o prejudicar a ele, esse terceiro que até pode não estar identificado?

MOVENDO MONTANHAS

No seu livro «O mundo como vontade e representação», Schopenhauer considera que o que conhecemos através dos nossos sentidos, o conhecimento empírico, é a simples representação das coisas mas que a realidade dessas mesmas coisas é praticamente inacessível ao comum dos mortais.

Daí, Sue Prideaux, na sua biografia sobre Nietzsche intitulada «EU SOU DINAMITE» afirmar no final da pág. 69 que…

Toda a vida é anseio por um estado impossível [o da compatibilização entre a representação e a realidade] e, por conseguinte, toda a vida é sofrimento. Kant escreve de um ponto de vista cristão que tornava suportável o estado sempre imperfeito e sempre desejoso do mundo empírico porque seria possível esperar uma espécie de final feliz, caso se fizesse o esforço suficiente. A redenção era sempre possível através de Cristo.

* * *

Esta «saída» kantiana faz-me lembrar que só a fé move montanhas.

 

Julho de 2019

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Henrique Salles da Fonseca

 

DA CAUSA E DO EFEITO

Na minha busca das causas do modo alemão e do nosso, dei por mim a pensar se os filósofos são causa ou consequência do comportamento dos povos a que pertencem. E cheguei à conclusão de que começam por ser consequência, passam a influenciar as classes letradas e daí - mais geração, menos geração - chegam à generalidade da sociedade.

Nestas deambulações, «encontrei-me» com os hiperbóreos, com a mitologia nórdica (a que, por redução, há quem chame germânica), com Lutero, Göthe, Nietzsche, Wagner, Schopenhauer… e, de toda esta erudição, cheguei à boçalidade hitleriana.

E se a minha grande motivação era a de perceber menos superficialmente por que é que a Alemanha se recompôs rapidamente de derrotas militares devastadoras enquanto nós, em paz, temos ciclicamente que recorrer à esmola internacional das Troikas, acabei por dar um ar jocoso à causa  através das condições climáticas que induzem os alemães a trabalhar (é claro que não e que aqui impera a fé inicialmente calvinista e depois luterana de que o trabalho serve Deus) e as doces praias atlânticas nos induzem a folgar (é claro que não, o analfabetismo é a causa mais clamorosa do nosso subdesenvolvimento). Neste interim dei por mim a vasculhar outros Autores que me trouxessem a filosofia devidamente «empacotada» para eu não ter que ler montanhas de livros e, no final, ter baralhado tudo e continuado na grande ignorância. Assim encontrei Peter Sloterdejk e o seu pequeno livro «Temperamentos filosóficos» sobre que escrevi em https://abemdanacao.blogs.sapo.pt/temperamentos-filosoficos-1702900

E, de conversa em conversa, referi este livro à Dr.ª. Maria Emília Gonçalves, nossa «colega» de blog, que assim me respondeu:

Estimado Dr. Henrique Salles da Fonseca,

Fiquei de tal forma entusiasmada com o excerto que transcreveu no seu blog,  relativamente aos prefácios de Peter Sloterdijk, que já encomendei  o livro na FNAC. Tenho sempre um grande interesse por esta temática.

Entretanto e enquanto não leio o livro, e  mais uma vez recorrendo  aos meus apontamentos,  “atrevo-me” a deixar  algo do que aprendi,  sobre alguns dos filósofos que citou.

A ordem pela qual me refiro aos filósofos é absolutamente aleatória.

PLATÃO

Filósofo idealista , discípulo de Sócrates,  Platão defendia uma concepção idealista do mundo e lutou activamente contra  as teorias materialistas do seu tempo.

O homem para Platão é dualista ( corpo e alma ) sua filosofia não se interessa pelo homem em sociedade e sim o divino no homem.

O mundo das ideias, o mundo das formas e o mundo dos conceitos passam a serem primordiais em sua filosofia.

Sua crítica à democracia ateniense e a procura de soluções políticas do mundo grego foram preocupações centrais da vida e da obra daquele que é por muitos o maior pensador da Antiguidade.

Achei muito interessante o que diz  Peter Sloterdijk:  que a tradição platónica  concorda com a doutrina estóica , posteriormente, com a epicurista no facto de definir o filósofo como aquele que é versado na pesquisa da paz das almas.

 

Sobre Aristóteles também achei muito curiosa a referência que faz, dizendo que o cérebro de Aristóteles era como que o senado de uma universidade rica de faculdades.

 

Quanto a Descartes diz ele no seu livro  que “a filosofia moderna de tipo cartesiano permanece caracteristicamente suspensa entre a teologia e a teoria das máquinas, não tendo sido em vão que os grandes arquitectos de sistemas do Idealismo alemão celebraram em Descartes o seu predecessor.

 

DESCARTES

Descartes julgava necessário colocar  previamente em dúvida tudo quanto existe. Este principio, é aquele de que “Penso, logo existo”. Desta tese, Descartes tentava também inferir a existência de Deus  e depois a convicção de que o mundo exterior é real.

Descartes é o fundador do racionalismo que se formou como consequência de entender o carácter lógico do conhecimento matemático.

LEIBNIZ

No seu discurso da Metafísica, Leibniz refere-se a: “fazer sempre o que for mais perfeito e realizar o que parecer ser o melhor. À razão cabe, como regra, a escolha do melhor, que será reconhecido pelos homens segundo o bem aparente, segundo o que parece ser o melhor”.

O racionalismo de Leibniz muito difundido no séc. XVII  tornou-se a filosofia  academicamente mais influente da época.

Refere  Peter Sloterdijk,   que o seu papel intelectual é de uma ponta à outra o do diplomata hábil na palavra, do cortesão na teoria e conselheiro do príncipe(…)

 

Igualmente  interessante a referência  a Schelling.  Diz-nos que o rei Maximiliano da Baviera, que foi aluno dele, mandou colocar no monumento de 1854 ao filósofo as seguintes palavras: “Ao primeiro pensador da Alemanha”.

 

Quase no final do livro, Peter Sloterdijk ,referindo-se a Marx, Nietzsche e Freud, diz que os três desangelistas parecem proclamar  um e o mesmo destino, quando referiram “A verdade avassalar-vos-á”.

E refere ainda que todos eles procuraram e acharam leitores ágeis que reconheceram nos seus escritos as palavras –chave para carreiras, e até pretextos para golpes de estado, fundações de sociedades e revoluções radicais do modo de pensar e viver.

HEGEL

Para Hegel, não existe algo que seja impossível de ser pensado. Ele afirma que o real é racional e o racional é real. Não é possível separar o mundo do sujeito, o objecto e o conhecimento, o universal e o particular.

A sua dialéctica é fundamentada na tese e na antítese.

MARX

Se Hegel era um idealista em termos filosóficos, Marx era um materialista, ou seja, para Hegel as ideias  vêm antes das coisas, para Marx, as relações sociais é que precedem as ideias.

Para Marx, a história humana desenvolve-se a partir da acção concreta dos seres humanos em sociedade.  Por isso Marx é um materialista, ao contrário de Hegel .

Marx inspirou-se na dialéctica de Hegel para propor os possíveis caminhos revolucionários. A contradição existente entre a classe dominante (burguesa) e a classe proletária, deve fazer surgir uma nova síntese.

O Estado e o capital fazem parte do sistema dominante.

SARTRE

Existe uma certa ligação entre  a sua filosofia e a de Kierkegaard. Tem sido escrito que Freud também o influenciou.

Sartre empreende a tentativa de demonstrar o existencialismo recorrendo à filosofia do marxismo. Ele participou na Resistência francesa durante a Segunda Guerra Mundial  e lutou activamente contra o renascimento do fascismo, em defesa da paz.

É um representante do existencialismo “ateu”.

SCHELLING

Aproveitou as ideias de Kant e a teoria de Leibniz tendo introduzido o conceito de desenvolvimento  na interpretação da natureza. Tentou combinar o idealismo subjectivo de Fichte com o idealismo do seu próprio sistema.

Schelling, tal como Fichte, concebia a liberdade como necessidade; não via a liberdade para o individuo isolado, mas a conquista da sociedade.

SANTO AGOSTINHO

A filosofia agostiniana é uma constante busca da verdade, que culmina na Verdade, em Cristo. É um movimento incessante, uma paixão, e, precisamente, a paixão principal: o amor.

“O amor é o peso que dá sentido à minha vida. Verdade e Amor.“Fizeste-nos, Senhor, para Ti e o nosso coração estará inquieto enquanto não descansar em Ti”, diz nas Confissões.

Em Santo Agostinho, não existem provas formais para demonstrar a existência de Deus. Ainda que toda a sua obra seja uma espécie de itinerário em direção a Deus. Tudo fala de Deus.

Já no final da sua vida, diz que o homem tem em si, enquanto é capaz, “a luz da razão eterna, na qual vê as verdades imutáveis”.

 KANT

A filosofia Transcendental de Kant delimitou o conhecimento científico, tal como era entendido à época (Aritmética, Geometria e Física), fundamentando-o nas estruturas do sujeito. Portanto, tudo aquilo que tais estruturas não abrangessem estaria fora dos domínios do saber legítimo.

Kant tentou aliar o racionalismo ao empirismo, para ele  não haveria conhecimento sem percepção sensível e, tampouco, sem entendimento. Em termos kantianos, o filósofo estaria muito longe de ser aquele que sobre tudo indaga, como se julgava em tempos remotos. Legitimamente, o filósofo investigaria as condições de possibilidade do conhecimento e também os fundamentos do dever moral.

Kant ensina-nos que o nosso conhecimento tem a base da sua validade na razão. O factor “a priori” não procede, segundo ele, da experiência mas sim do pensamento, da razão, pelo que foi o fundador do apriorismo.

Kant mostra ao longo da sua crítica quais são as condições para qualquer experiência possível, na "Estética Transcendental", analisando quais são as condições a priori para que um dado fenómeno possa ser dado na intuição, chegando às condições de "espaço", para as intuições externas, e "espaço" e "tempo" para as intuições internas.

Após a Estética, Kant prossegue para a análise da forma pela qual aquilo que é dado na experiência é organizado em relações que constituem conhecimento. Estas são as categorias do entendimento, determinadas pela razão pura e que, sendo preenchidas pela matéria proveniente da experiência, podem formar um conhecimento. Ambas as análises são feitas na chamada "Analítica Transcendental".

Em seguida ele segue para a "Dialéctica Transcendental", parte do livro na qual ele usa esse pensamento elaborado na analítica para mostrar erros de raciocínio impregnados no modo de pensar filosófico de então.

===================================

Sinta-se, por favor, perfeitamente à vontade, para publicar (ou não) o que entender, até porque  o mail é longo e será cansativo lê-lo.

Os meus melhores cumprimentos

Mª Emília Gonçalves

* * *

Agradeço à Dr.ª Maria Emília Gonçalves pois assim ficamos com um interessante resumo do que cada um foi pensando e influenciando, sendo consequência do que aprendeu e viu e causa de evolução.

Continuemos…

Novembro de 2019

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Henrique Salles da Fonseca

CONSIDERAÇÃO INTEMPESTIVA

«Considerações Intempestivas» é o título geral de um conjunto de textos de Nietzsche e que, sob a forma de opúsculos, ele foi publicando à medida que os ia considerando concluídos[1] e em condições de divulgação.

A segunda Consideração tem a ver com a historiografia, ou seja, com a ciência e com a filosofia da História e intitula-se Da utilidade e das desvantagens da História para a vida.

A título de curiosidade, Nietzsche destrinça três tipos de interventores na História: o “antiquário” que procura preservar o passado; o “monumental” que procura emular o passado; o “crítico” que procura libertar o presente do passado.

Neste texto, Nietzsche disseca a realidade alemã do seu tempo alertando para que a obsessão das elites pelo passado estava a obstar à construção racional do presente.

Tomando em conta que o filósofo morreu no dia 25 de Agosto de 1900, temos que reconhecer que a «adivinhação» das dificuldades alemãs na construção de um presente racional se repercutiu muito para além do seu desaparecimento físico entre os homens conferindo-lhe uma efectiva capacidade de antevisão dos problemas por que a Alemanha haveria de passar. Por outras palavras, a loucura colectiva que assolou os alemães através do nazismo, tem raízes bem mais antigas do que aquelas que habitualmente se referem.

E estou mesmo em crer que Wagner tem algumas culpas no Cartório. Voltarei ao tema.

Novembro de 2019

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Henrique Salles da Fonseca

[1]- Para saber mais, ver em «Considerações intempestivas – F. Nietzsche»

DETERMINISMO OU LIBERDADE

[Na década de 30 do séc. XX] os sociólogos, democratas, livre-pensadores, partidários da liberdade individual, confirmavam com a sua ciência os valores aos quais espontaneamente aderiam. Aos seus olhos, a estrutura da civilização presente (densidade ou solidariedade orgânica) exigia de algum modo as ideias igualitárias, a autonomia das pessoas. Os juízos de valor ganhavam, mais do que perdiam em dignidade, ao tornarem-se juízos colectivos. Substituía-se com toda a confiança a sociedade de Deus. Aliás, o termo «sociedade» não deixa de ser equívoco pois ora designa os colectivos reais, ura a ideia ou o ideal destes colectivos. Na verdade, só se aplica aos agrupamentos particulares, fechados sobre si mesmos, mas menos do que as palavras «pátria» ou «nação» e recorda as rivalidades e as guerras (não se imagina facilmente uma sociedade alargada aos limites da humanidade inteira). Dissimula os conflitos que assolam todas as comunidades humanas. Permite subordinar à unidade social as classes opostas e conceber uma moral nacional que seria sociológica sem ser política.

 Ora, se este conceito designar o geral parcialmente incoerente dos factos sociais, desprovido de todo o prestígio emprestado, pergunto: não parece assim que o “sociologismo” junta, com uma relatividade sem limites, a redução dos valores a uma realidade mais natural do que espiritual, submetida a um determinismo e não aberta à liberdade?

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In «Memórias» - ed. Guerra & Paz, Fevereiro de 2018, pág. 122

 

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