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A bem da Nação

MOVENDO MONTANHAS

No seu livro «O mundo como vontade e representação», Schopenhauer considera que o que conhecemos através dos nossos sentidos, o conhecimento empírico, é a simples representação das coisas mas que a realidade dessas mesmas coisas é praticamente inacessível ao comum dos mortais.

Daí, Sue Prideaux, na sua biografia sobre Nietzsche intitulada «EU SOU DINAMITE» afirmar no final da pág. 69 que…

Toda a vida é anseio por um estado impossível [o da compatibilização entre a representação e a realidade] e, por conseguinte, toda a vida é sofrimento. Kant escreve de um ponto de vista cristão que tornava suportável o estado sempre imperfeito e sempre desejoso do mundo empírico porque seria possível esperar uma espécie de final feliz, caso se fizesse o esforço suficiente. A redenção era sempre possível através de Cristo.

* * *

Esta «saída» kantiana faz-me lembrar que só a fé move montanhas.

 

Julho de 2019

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Henrique Salles da Fonseca

 

DA CAUSA E DO EFEITO

Na minha busca das causas do modo alemão e do nosso, dei por mim a pensar se os filósofos são causa ou consequência do comportamento dos povos a que pertencem. E cheguei à conclusão de que começam por ser consequência, passam a influenciar as classes letradas e daí - mais geração, menos geração - chegam à generalidade da sociedade.

Nestas deambulações, «encontrei-me» com os hiperbóreos, com a mitologia nórdica (a que, por redução, há quem chame germânica), com Lutero, Göthe, Nietzsche, Wagner, Schopenhauer… e, de toda esta erudição, cheguei à boçalidade hitleriana.

E se a minha grande motivação era a de perceber menos superficialmente por que é que a Alemanha se recompôs rapidamente de derrotas militares devastadoras enquanto nós, em paz, temos ciclicamente que recorrer à esmola internacional das Troikas, acabei por dar um ar jocoso à causa  através das condições climáticas que induzem os alemães a trabalhar (é claro que não e que aqui impera a fé inicialmente calvinista e depois luterana de que o trabalho serve Deus) e as doces praias atlânticas nos induzem a folgar (é claro que não, o analfabetismo é a causa mais clamorosa do nosso subdesenvolvimento). Neste interim dei por mim a vasculhar outros Autores que me trouxessem a filosofia devidamente «empacotada» para eu não ter que ler montanhas de livros e, no final, ter baralhado tudo e continuado na grande ignorância. Assim encontrei Peter Sloterdejk e o seu pequeno livro «Temperamentos filosóficos» sobre que escrevi em https://abemdanacao.blogs.sapo.pt/temperamentos-filosoficos-1702900

E, de conversa em conversa, referi este livro à Dr.ª. Maria Emília Gonçalves, nossa «colega» de blog, que assim me respondeu:

Estimado Dr. Henrique Salles da Fonseca,

Fiquei de tal forma entusiasmada com o excerto que transcreveu no seu blog,  relativamente aos prefácios de Peter Sloterdijk, que já encomendei  o livro na FNAC. Tenho sempre um grande interesse por esta temática.

Entretanto e enquanto não leio o livro, e  mais uma vez recorrendo  aos meus apontamentos,  “atrevo-me” a deixar  algo do que aprendi,  sobre alguns dos filósofos que citou.

A ordem pela qual me refiro aos filósofos é absolutamente aleatória.

PLATÃO

Filósofo idealista , discípulo de Sócrates,  Platão defendia uma concepção idealista do mundo e lutou activamente contra  as teorias materialistas do seu tempo.

O homem para Platão é dualista ( corpo e alma ) sua filosofia não se interessa pelo homem em sociedade e sim o divino no homem.

O mundo das ideias, o mundo das formas e o mundo dos conceitos passam a serem primordiais em sua filosofia.

Sua crítica à democracia ateniense e a procura de soluções políticas do mundo grego foram preocupações centrais da vida e da obra daquele que é por muitos o maior pensador da Antiguidade.

Achei muito interessante o que diz  Peter Sloterdijk:  que a tradição platónica  concorda com a doutrina estóica , posteriormente, com a epicurista no facto de definir o filósofo como aquele que é versado na pesquisa da paz das almas.

 

Sobre Aristóteles também achei muito curiosa a referência que faz, dizendo que o cérebro de Aristóteles era como que o senado de uma universidade rica de faculdades.

 

Quanto a Descartes diz ele no seu livro  que “a filosofia moderna de tipo cartesiano permanece caracteristicamente suspensa entre a teologia e a teoria das máquinas, não tendo sido em vão que os grandes arquitectos de sistemas do Idealismo alemão celebraram em Descartes o seu predecessor.

 

DESCARTES

Descartes julgava necessário colocar  previamente em dúvida tudo quanto existe. Este principio, é aquele de que “Penso, logo existo”. Desta tese, Descartes tentava também inferir a existência de Deus  e depois a convicção de que o mundo exterior é real.

Descartes é o fundador do racionalismo que se formou como consequência de entender o carácter lógico do conhecimento matemático.

LEIBNIZ

No seu discurso da Metafísica, Leibniz refere-se a: “fazer sempre o que for mais perfeito e realizar o que parecer ser o melhor. À razão cabe, como regra, a escolha do melhor, que será reconhecido pelos homens segundo o bem aparente, segundo o que parece ser o melhor”.

O racionalismo de Leibniz muito difundido no séc. XVII  tornou-se a filosofia  academicamente mais influente da época.

Refere  Peter Sloterdijk,   que o seu papel intelectual é de uma ponta à outra o do diplomata hábil na palavra, do cortesão na teoria e conselheiro do príncipe(…)

 

Igualmente  interessante a referência  a Schelling.  Diz-nos que o rei Maximiliano da Baviera, que foi aluno dele, mandou colocar no monumento de 1854 ao filósofo as seguintes palavras: “Ao primeiro pensador da Alemanha”.

 

Quase no final do livro, Peter Sloterdijk ,referindo-se a Marx, Nietzsche e Freud, diz que os três desangelistas parecem proclamar  um e o mesmo destino, quando referiram “A verdade avassalar-vos-á”.

E refere ainda que todos eles procuraram e acharam leitores ágeis que reconheceram nos seus escritos as palavras –chave para carreiras, e até pretextos para golpes de estado, fundações de sociedades e revoluções radicais do modo de pensar e viver.

HEGEL

Para Hegel, não existe algo que seja impossível de ser pensado. Ele afirma que o real é racional e o racional é real. Não é possível separar o mundo do sujeito, o objecto e o conhecimento, o universal e o particular.

A sua dialéctica é fundamentada na tese e na antítese.

MARX

Se Hegel era um idealista em termos filosóficos, Marx era um materialista, ou seja, para Hegel as ideias  vêm antes das coisas, para Marx, as relações sociais é que precedem as ideias.

Para Marx, a história humana desenvolve-se a partir da acção concreta dos seres humanos em sociedade.  Por isso Marx é um materialista, ao contrário de Hegel .

Marx inspirou-se na dialéctica de Hegel para propor os possíveis caminhos revolucionários. A contradição existente entre a classe dominante (burguesa) e a classe proletária, deve fazer surgir uma nova síntese.

O Estado e o capital fazem parte do sistema dominante.

SARTRE

Existe uma certa ligação entre  a sua filosofia e a de Kierkegaard. Tem sido escrito que Freud também o influenciou.

Sartre empreende a tentativa de demonstrar o existencialismo recorrendo à filosofia do marxismo. Ele participou na Resistência francesa durante a Segunda Guerra Mundial  e lutou activamente contra o renascimento do fascismo, em defesa da paz.

É um representante do existencialismo “ateu”.

SCHELLING

Aproveitou as ideias de Kant e a teoria de Leibniz tendo introduzido o conceito de desenvolvimento  na interpretação da natureza. Tentou combinar o idealismo subjectivo de Fichte com o idealismo do seu próprio sistema.

Schelling, tal como Fichte, concebia a liberdade como necessidade; não via a liberdade para o individuo isolado, mas a conquista da sociedade.

SANTO AGOSTINHO

A filosofia agostiniana é uma constante busca da verdade, que culmina na Verdade, em Cristo. É um movimento incessante, uma paixão, e, precisamente, a paixão principal: o amor.

“O amor é o peso que dá sentido à minha vida. Verdade e Amor.“Fizeste-nos, Senhor, para Ti e o nosso coração estará inquieto enquanto não descansar em Ti”, diz nas Confissões.

Em Santo Agostinho, não existem provas formais para demonstrar a existência de Deus. Ainda que toda a sua obra seja uma espécie de itinerário em direção a Deus. Tudo fala de Deus.

Já no final da sua vida, diz que o homem tem em si, enquanto é capaz, “a luz da razão eterna, na qual vê as verdades imutáveis”.

 KANT

A filosofia Transcendental de Kant delimitou o conhecimento científico, tal como era entendido à época (Aritmética, Geometria e Física), fundamentando-o nas estruturas do sujeito. Portanto, tudo aquilo que tais estruturas não abrangessem estaria fora dos domínios do saber legítimo.

Kant tentou aliar o racionalismo ao empirismo, para ele  não haveria conhecimento sem percepção sensível e, tampouco, sem entendimento. Em termos kantianos, o filósofo estaria muito longe de ser aquele que sobre tudo indaga, como se julgava em tempos remotos. Legitimamente, o filósofo investigaria as condições de possibilidade do conhecimento e também os fundamentos do dever moral.

Kant ensina-nos que o nosso conhecimento tem a base da sua validade na razão. O factor “a priori” não procede, segundo ele, da experiência mas sim do pensamento, da razão, pelo que foi o fundador do apriorismo.

Kant mostra ao longo da sua crítica quais são as condições para qualquer experiência possível, na "Estética Transcendental", analisando quais são as condições a priori para que um dado fenómeno possa ser dado na intuição, chegando às condições de "espaço", para as intuições externas, e "espaço" e "tempo" para as intuições internas.

Após a Estética, Kant prossegue para a análise da forma pela qual aquilo que é dado na experiência é organizado em relações que constituem conhecimento. Estas são as categorias do entendimento, determinadas pela razão pura e que, sendo preenchidas pela matéria proveniente da experiência, podem formar um conhecimento. Ambas as análises são feitas na chamada "Analítica Transcendental".

Em seguida ele segue para a "Dialéctica Transcendental", parte do livro na qual ele usa esse pensamento elaborado na analítica para mostrar erros de raciocínio impregnados no modo de pensar filosófico de então.

===================================

Sinta-se, por favor, perfeitamente à vontade, para publicar (ou não) o que entender, até porque  o mail é longo e será cansativo lê-lo.

Os meus melhores cumprimentos

Mª Emília Gonçalves

* * *

Agradeço à Dr.ª Maria Emília Gonçalves pois assim ficamos com um interessante resumo do que cada um foi pensando e influenciando, sendo consequência do que aprendeu e viu e causa de evolução.

Continuemos…

Novembro de 2019

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Henrique Salles da Fonseca

CONSIDERAÇÃO INTEMPESTIVA

«Considerações Intempestivas» é o título geral de um conjunto de textos de Nietzsche e que, sob a forma de opúsculos, ele foi publicando à medida que os ia considerando concluídos[1] e em condições de divulgação.

A segunda Consideração tem a ver com a historiografia, ou seja, com a ciência e com a filosofia da História e intitula-se Da utilidade e das desvantagens da História para a vida.

A título de curiosidade, Nietzsche destrinça três tipos de interventores na História: o “antiquário” que procura preservar o passado; o “monumental” que procura emular o passado; o “crítico” que procura libertar o presente do passado.

Neste texto, Nietzsche disseca a realidade alemã do seu tempo alertando para que a obsessão das elites pelo passado estava a obstar à construção racional do presente.

Tomando em conta que o filósofo morreu no dia 25 de Agosto de 1900, temos que reconhecer que a «adivinhação» das dificuldades alemãs na construção de um presente racional se repercutiu muito para além do seu desaparecimento físico entre os homens conferindo-lhe uma efectiva capacidade de antevisão dos problemas por que a Alemanha haveria de passar. Por outras palavras, a loucura colectiva que assolou os alemães através do nazismo, tem raízes bem mais antigas do que aquelas que habitualmente se referem.

E estou mesmo em crer que Wagner tem algumas culpas no Cartório. Voltarei ao tema.

Novembro de 2019

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Henrique Salles da Fonseca

[1]- Para saber mais, ver em «Considerações intempestivas – F. Nietzsche»

DETERMINISMO OU LIBERDADE

[Na década de 30 do séc. XX] os sociólogos, democratas, livre-pensadores, partidários da liberdade individual, confirmavam com a sua ciência os valores aos quais espontaneamente aderiam. Aos seus olhos, a estrutura da civilização presente (densidade ou solidariedade orgânica) exigia de algum modo as ideias igualitárias, a autonomia das pessoas. Os juízos de valor ganhavam, mais do que perdiam em dignidade, ao tornarem-se juízos colectivos. Substituía-se com toda a confiança a sociedade de Deus. Aliás, o termo «sociedade» não deixa de ser equívoco pois ora designa os colectivos reais, ura a ideia ou o ideal destes colectivos. Na verdade, só se aplica aos agrupamentos particulares, fechados sobre si mesmos, mas menos do que as palavras «pátria» ou «nação» e recorda as rivalidades e as guerras (não se imagina facilmente uma sociedade alargada aos limites da humanidade inteira). Dissimula os conflitos que assolam todas as comunidades humanas. Permite subordinar à unidade social as classes opostas e conceber uma moral nacional que seria sociológica sem ser política.

 Ora, se este conceito designar o geral parcialmente incoerente dos factos sociais, desprovido de todo o prestígio emprestado, pergunto: não parece assim que o “sociologismo” junta, com uma relatividade sem limites, a redução dos valores a uma realidade mais natural do que espiritual, submetida a um determinismo e não aberta à liberdade?

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In «Memórias» - ed. Guerra & Paz, Fevereiro de 2018, pág. 122

 

O ABSOLUTO E O RELATIVO

NA FILOSOFIA DO DESENVOLVIMENTO

Da edição portuguesa das “Memórias” de Raymond Aron, pág. 120 e seg., GUERRA & PAZ, Fevereiro de 2018, extraio a opinião de que…

(…) Entre uma sociedade comunitária que se dá a si mesma por valor absoluto e uma sociedade liberal que visa alargar a esfera da autonomia individual, não há medida comum. A sucessão de uma à outra não lograria ser apreciada se não por referência a uma norma que deveria ser superior às diversidades históricas mas tal norma é sempre a projecção hipoestagnada do que um colectivo particular é ou quereria ser. Ora, a nossa época conhece demasiado a diversidade que encontra nela própria para cair na ingenuidade dos grupos fechados, ou para se elevar à confiança daqueles que se comparam com o passado e com outrem na certeza da sua superioridade.

(…) o progresso só se aprecia em função de um critério trans-histórico. O «mais» do saber observa-se, o «melhor» das culturas julga-se – e que juiz é imparcial?

Destaques anteriores da minha responsabilidade.

* * *

Creio que a transcrição anterior é suficiente para evidenciar a diferença entre a Filosofia do Desenvolvimento e a Teoria do Desenvolvimento dado que aquela (a Filosofia) procura (pelos vistos, debalde) a norma que deveria ser superior ou o critério trans-histórico  que justificasse o processo de desenvolvimento enquanto esta (a Teoria), perante o impasse filosófico, avançou por raciocínios talvez de menor elevação mas muito mais pragmáticos, ou seja, pela discussão dos modelos (quiçá econométricos) e de concepção de estruturas sociais e mesmo políticas.

* * *

Primeira observação – O modelo comunitário que se autodefiniu como de mérito absoluto e definitivo, impediu adaptações às mudanças exógenas, petrificou, rachou e ruiu; o modelo liberal, descontente consigo próprio devido a méritos mutantes (e, portanto, relativos), procura adaptações constantes às mudanças endógenas e exógenas, flexibiliza-se, sobrevive e progride.

Segunda observação - Como somos diferentes, filósofos e economistas, quanto poderíamos aprender uns com os outros. O problema é que nunca sabemos onde está um filósofo e só os encontramos tarde, postumamente.

Setembro de 2019

Henrique Salles da Fonseca

 

DO LIVRE ARBÍTRIO – 1

 

«FIA-TE NA VIRGEM, NÃO CORRAS E VERÁS O TRAMBOLHÃO QUE DÁS» - eis a apologia popular do livre arbítrio que…

  • Na versão religiosa, cristã, corresponde à liberdade que Deus concedeu ao homem de optar livremente pelas alternativas que se lhe vão apresentando ao longo da vida assumindo a plena responsabilidade dos actos praticados e pelos quais há-de responder perante Ele, Deus;
  • Na versão laica, sem preocupação de buscas transcendentais, corresponde à biunivocidade entre a liberdade de escolha entre as várias opções e a responsabilidade cívica pelos actos praticados.

No Ocidente, crentes, agnósticos e ateus fazem o mundo pelas suas próprias mãos em plena liberdade e assumindo completa responsabilidade.

* * *

O Islão diz o que segue:

Destino e Decreto Divino

Acreditamos no destino, ainda que seja agradável ou desagradável, o qual Allah tem medido e ordenado para todas as criaturas de acordo com o Seu conhecimento prévio e que considera adequado por Sua sabedoria.

Nós acreditamos que Allah sabe de tudo. Ele sabe o que aconteceu e o que vai acontecer e como irá acontecer. Seu conhecimento é eterno. Ele não adquire novo conhecimento nem esquece aquilo que sabe.

Nós acreditamos que Allah tenha gravado numa Tábua Segura tudo o que vai acontecer até ao Dia do Julgamento:

“Vós não sabeis que Allah sabe de tudo o que existe nos Céus e na Terra? Certamente que estará num livro. Certamente para Allah é uma tarefa fácil” (22:70)

Nós acreditamos que Allah tenha desejado tudo o que está nos Céus e na Terra. Nada acontece excepto por Sua vontade. O que quer que Ele deseja, terá lugar e o que quer que Ele não deseja, não terá lugar.

Allah é o Criador de todas as coisas; Ele é o Guardião de todas as coisas e a Ele pertencem as chaves dos Céus e da Terra” (39:62-63). Este nível inclui o que quer que o próprio Allah faça e o que quer que suas criaturas façam. Assim, cada dizer, acção ou omissão das criaturas é conhecido por Allah, que tem gravado, desejado e criado (63’62):

“Allah criou você e o que você faz” (37:96).

A livre vontade do ser humano:

Acreditamos, porém, que Allah concedeu ao homem um poder e uma livre vontade pelos quais ele executa as suas acções. Que as acções desses homens são feitas por sua livre e espontânea vontade e poder, pode comprovar-se por meio do seguinte ponto:

Allah diz - “Abordem os vossos campos (esposas) quando e como desejarem” (2:223)

“Allah não impõe a ninguém obrigação para além das suas capacidades” (2:286)

In http://www.luzdoislam.com.br/br/a-cren%C3%A7a-no-destino-a18.htm

* * *

Numa próxima oportunidade vou abordar a questão do carma budista.

Julho de 2019

Henrique Salles da Fonseca

HAJA ESPERANÇA!

ou

O DIVINO E O PROFANO

 

Lutero e Kant

 

Lutero responsabilizou os seus seguidores directamente perante Deus, sem a intermediação do confessor nem bulas remissoras dos pecados, no cumprimento dos ditames bíblicos a cuja exegese incitou; Kant definiu o imperativo categórico em cumprimento do qual o indivíduo tem a obrigação ética de servir o bem comum.

 

Olhemo-nos de frente, nós somos os Hiperbóreos e sabemos muito bem como vivemos distantes, dizia Nietzsche, recordando o substantivo adjectivante grego em relação aos que viviam para lá do sítio onde nascia Boreal, o vento, com isso significando os que tinham condicionantes climáticas que lhes tiravam o bom humor, os confinavam a espaços fechados, os induziam à meditação, ao estudo e ao trabalho, Para além do Norte, dos gelos, da morte – a nossa vida, a nossa felicidade… Descobrimos a felicidade, conhecemos o caminho que a ela conduz, encontramos a saída após milhares de anos de labirinto.

 

Eis como, após gerações e gerações, os sisudos alemães vivem para trabalhar.

 

* * *

Al Wahhab e Ibn Saud

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Al Wahhab condenou à morte quem traduzisse o Corão e fizesse qualquer exegese do respectivo conteúdo; Ibn Saud, rei da Arábia, conservou o poder temporal porque anuiu à exigência de reservar a Al Wahhab o poder espiritual e de viabilizar materialmente os seus mandamentos.

 

O cumprimento literal do Corão, eis do que o mundo hoje padece à mão do Sunismo Wahhabita, esse mesmo que é financiado pelos petrodólares sauditas.

 

Corão- Capítulo 191 – Surata 2 - Matai os infiéis onde quer que os encontreis e expulsai-os de onde vos expulsaram, porque a perseguição é mais grave do que o homicídio. Não os combatais nas cercanias da Mesquita Sagrada, a menos que vos ataquem. Mas, se ali vos combaterem, matai-os. Tal será o castigo aos incrédulos.

 

5:33 - O castigo para aqueles que lutam contra Deus e contra o Seu Mensageiro e semeiam a corrupção na terra, é que sejam mortos, ou crucificados, ou lhes seja decepada a mão e o pé opostos, ou banidos. Tal será, para eles, um aviltamento nesse mundo e, no outro, sofrerão um severo castigo.

 

Uma vez que a sociedade muçulmana se considera unicitária relativamente à religião, não há um mundo profano e um outro que se deva considerar apenas do foro espiritual. E isto, apesar da separação inicial de poderes entre Al Wahhab e Ibn Saud. De facto, foi o modo que Al Wahhab teve de assegurar a posição que pretendia. Contudo, na actualidade, o guardião da fé wahhabita é o Rei saudita.

 

* * *

 

Curiosidade histórica: Immanuel Kant (1724-1804) e Ibn Al Wahhab (1703-1791) foram contemporâneos mas em mundos tão diferentes que parecem separados por séculos de iluminismo e de obscurantismo.

 

O pensamento de Kant trouxe motivos de reflexão que foram globalmente incentivadores da nossa Civilização; Al Wahhab, proibindo a exegese dos textos sagrados do Islão, conseguiu de um só golpe sequestrar o Sunismo anulando 14 séculos de uma Civilização que até então era pujante.

 

* * *

 

Tenho por relevante referir que o Cristianismo tem o amor e o perdão como formas essenciais de expressão da sua fé, o mesmo sucedendo com o Budismo cuja compaixão (equivalente ao amor cristão) é sua prática essencial mas o Islão tem a Lei de Talião como tom geral da sua filosofia na célebre expressão do «olho por olho, dente por dente». Sim, mesmo a versão mais exegética e de concórdia do Sunismo, o Ibadismo cujo guardião é o Sultão de Omã, é taliónica.

 

* * *

 

À guisa de conclusão, ocorre-me reconhecer que a influência religiosa foi e continua a ser essencial às sociedades por ser a partir dos seus preceitos que se constroem os códigos morais e éticos donde resultam os quadros jurídicos e regulamentares. Ou seja, cada Civilização tem na sua génese uma Religião mas persistem regimes políticos que assentam no dogmatismo religioso ou profano de um modo inequivocamente hierocrático, dogmático, rígido e, no mínimo, severo só sobrevivendo sob uma vigilância policial férrea, nomeadamente as Polícias Religiosas e outras mais ou menos secretas mas todas elas inibidoras da dignidade humana.

 

E se quanto ao dogmatismo marxista ele vem caindo de maduro, no que se refere ao Islão, ele poderá vir a ter a sua revolução que será feminina ou não será.

 

Haja esperança!

 

Maio de 2019

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Henrique Salles da Fonseca

PALAVRAS SÁBIAS

Se a felicidade residisse nos prazeres do corpo, deveriam chamar-se felizes os bois quando encontram ervilhas para comer.

 

Heráclito de Éfeso.jpg

HERÁCLITO DE ÉFESO

In A FILOSOFIA NO SÉCULO XX, Fritz Heinemann, ed. Fundação Calouste Gulbenkian, 7ª edição, Outubro de 2010, pág. 72

 

 

CULTURA – O QUE É?

 

Cultura.jpg

 

Quando em 1938 Thomas Mann chegou aos Estados Unidos, fugindo ao nazismo, deu uma conferência de imprensa em que disse: «Onde eu estiver, está a cultura alemã».

 

Logo houve quem atribuísse esta frase a uma grande dose de arrogância e a simpatia com que foi recebido ficou claramente moldada pela impressão assim causada. Foi necessário esperar alguns anos para que essa frase fosse explicada pelo seu irmão mais velho, Henrique, quando nas suas memórias se refere ao episódio e o explica com a frase de Fausto: «Aquilo que de teus pais herdaste, merece-o para que o possuas».

 

Não fora, pois, arrogância mas sim um profundo sentido de responsabilidade que levara o escritor a identificar-se daquele modo com a sua própria cultura. O conhecimento do que outros fizeram antes de si já levara Hölderlin (1770 - 1843), o poeta atacado de mansa loucura, a afirmar que «Somos originais porque não sabemos nada».

 

Em 1518, Ulrich von Hütten (1488-1523), companheiro de Lutero, escrevia a um amigo que, embora fosse de origem nobre, não desejava sê-lo sem o merecer: «A nobreza de nascimento é puramente acidental e, por conseguinte, insignificante para mim. Procuro noutro local as fontes da nobreza e bebo dessa nascente. A verdadeira nobreza é a do espírito por via das artes, das humanidades e da filosofia que permitem à humanidade a descoberta e reivindicação da sua forma mais elevada de dignidade, aquela que faz distinguir a pessoa daquilo que também é: um animal

 

Ou seja, a nobreza conquista-se, não se adquire por via hereditária. Afinal, era isso que Mann significava quando chegou à América …

 

E o que é, então, a essência da cultura? É o conjunto das obras intemporais, as perenes, as que não passam de moda, as grandes obras humanistas, as que desenvolvem o pensamento especulativo. É a conjugação lógica de axiomas para a construção de novos silogismos e para a definição de doutrinas inovadoras. Eis o âmago da cultura, de uma qualquer cultura: o raciocínio especulativo, a independência relativamente à letra, a interpretação dessa mesma letra, a busca do significado. Quanto mais uma cultura se identificar com os valores humanistas e os promover, quanto mais convidar ao significado, mais elevada é essa cultura.

 

E o que é ser culto? Será saber muitas coisas? Não, isso é uma enciclopédia. O conhecimento dos factos não define a cultura mas apenas a dimensão do conhecimento. O culto é aquele que está aberto à nova interpretação, o que busca o significado.

 

E o que é ser educador? É «convidar os outros para o significado».

 

Eis ao que as elites devem andar: a transmitir o significado das coisas;

eis ao que elas têm andado: a imprimir um cunho pessoal aos acontecimentos.

 

Assim não se transmite o significado;

Assim se esmaga quem apenas serve para servir;

Assim se espanta quem vale.

 

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Henrique Salles da Fonseca

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