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A bem da Nação

FOI-SE … O ANO…



De La Fontaine uma breve fábula
Para o ano terminar em parca graça,
Ano que se pautou pela chalaça
E a arruaça,
Muita trapaça,
Muita pirraça
Por cá, na praça.
Uma desgraça própria
Da nossa raça
Crassa,
O que muito
Me embaraça,
Por mais que faça
Por o ignorar
E erguer a taça.
Chiça!
Ou, como diria a nossa amiga:
“Minha nossa!”

Burro.jpg

 «O Burro condutor de relíquias»


«Um Burro de relíquias carregado
Imaginou ser adorado,
Pavoneando-se ante a convicção
De a si serem dirigidos o incenso e os cânticos
Da multidão.
Um dos que o erro detectou
Com calor lhe explicou:
- Sr. Burro, tão louca vaidade,
Do espírito afastai, rapidamente.
Digo-vos, sinceramente,
Que não é a vós mas sim aos ídolos
Que levais no dorso
Que as honras são declaradas
E a glória atribuída
Pela multidão.

Moral da história:
Dum magistrado ignorante
É a veste que se saúda, não a pessoa.»

Ora não é bem assim, por cá,
Está mais que visto.
Muita gente há
Que as honras que de outros são pertença
Por ela são usurpadas,
E sem escrúpulo concedidas
A Asnos vestidos das suas próprias relíquias
- As ideologias, que disfarçam
Ambições e aleivosias -
Que os idólatras admiram com muitas bazófias
E pífias
Próprias das suas muitas carências
No que concerne os feitos
E os certos direitos
Dos reais herdeiros
Disto.
Valha-nos Cristo!
Ou, como diria a minha irmã:
“Isto só visto!”

 

 

Berta Brás 2.jpgBerta Brás

A AMBIGUIDADE NA ETERNIDADE

 

 

A duplicidade é uma característica

Tão usual no homem

Que, sem perceber de Estatística,

O próprio Esopo,

Do mundo observador,

Com ela enfeitou

Uma hiena e a pintou

Transportando, traidora,

Ora um sexo ora outro,

Segundo lhe apetecesse,

Ou no bestunto lhe desse,

Para melhor conviver

A enganar, a torpedear,

A limpar velhas carcaças

Dos animais mortos na selva

E em seguida gargalhar

No banquete do seu apetite,

Mesmo sem doces passas,

A festejar:

 

BB-hiena.jpg

 

«A hiena e a raposa»

 

BB-raposa.png

 

 

Diz-se que as hienas,

Cuja natureza

Todos os anos muda,

Num hibridismo de fraca beleza,

Ora são machos ora são fêmeas.

Uma Hiena, encantada

À vista duma formosa Raposa,

Censurava-a por não ceder

Às suas tentativas para a seduzir,

Quando ela, Hiena, só desejava

Ser sua amiga dilecta.

“Não me censures tu a mim,

- A Raposa lhe respondeu,

Que não era nada pateta -

Mas sim,

À tua natureza dúbia

Que não me permite esclarecer

Se minha amiga ou meu amigo

Quererás ser!”

É a pessoa ambígua

Que a fábula pretende atingir.

 

Ora aqui está como se pode tão bem descrever

Uma sociedade de grande capacidade

Para a ambiguidade,

Sem citar nomes próprios,

Coisa que é mais da Justiça,

Ou dos Jornais, recolher!

Bem se diz, para resumir,

E isto sem contradições,

Que quem vê caras não vê corações.

Mas por isso mesmo vivemos

Numa época de muitas discussões,

As mais das vezes sem apelações.

Porque na pátria amada

A ambiguidade é protegida

Sobretudo se bem engravatada.

Seria já assim também

No tempo de Esopo,

Um homem tão de lá d’além,

De tempos tão recuados

Quando ainda não se haviam

Formado antepassados?

Mas estou em erro: Porque afinal

As sereias do Ulisses

Também estavam prontas

Para causar-lhe mal!

E a serpente bíblica

Fez-nos sair do Éden

Para o desterro terreal!

A ambiguidade, é verdade,

Nasceu

Sob a capa da suavidade

E nunca morreu.

Berta Brás 2.jpg Berta Brás

FABULÁRIO DE FÉRIAS – 2

 

Uma de dentes

 

Retomo o tema anterior

Sobre o hábito da crítica

Desta vez com uma fábula

De La Fontaine

Embora imitada

De Esopo e de Fedro.

É dirigida aos zoilos

Ferrenhos

Sempre prontos a denegrir

(- Ou a ignorar,

O que é bem pior

Segundo o meu parecer –)

Os que, não sendo da mesma confraria

Seguem o próprio caminho

Com energia,

Sem pedir licença

Ao vizinho.

Assim, La Fontaine se entretém

Contra a tal crítica dos zoilos

Como o nosso Garrett também faria

No seu «Ignoto Deo» de excelsa memória

Onde ele informa que o Poeta vai

Onde ninguém mais vai ou foi,

Cheio de reivindicações

De genialidade

E de explicitações

De originalidade,

Como se pode sempre na obra ler

De tão excelso escritor.

Conta, pois, La Fontaine,

A fábula da serpente

Que mata o seu voraz apetite

Roendo uma lima dura

À falta de melhor comida,

A qual só lhe partiria um dente

Sem outro grave incidente

- (Como os da Nau Catrineta

Que também Garrett cita) -

Segundo o sagaz fabulista

Às críticas indiferente:

 

serpente_e_a_lima.gif

 

«A Serpente e a Lima»

 

«Conta-se que havia uma Serpente

Vizinha de um Relojoeiro

- Má vizinhança, naturalmente –

Entrou na relojoaria,

Procurando por comida,

Meio espavorida.

Não encontrou para comer

Mais do que uma lima de ferro

Que logo tentou roer

- (Pior que as solas de molho,

Nem há que ver!) –

Sem se encolerizar

Esta Lima assim falou:

«- Pobre ignorante!

Que achas que estás a fazer?

Contra um mais forte do que tu

Só te estás a meter!

Pequena serpente de cabeça tonta

Antes que de mim levasses

A quarta parte dum óbolo

- (Peso que a quaisquer dez grãos

É correspondente

Leio na Internet) -

Partirias os teus

Dentes todos.

Ora eu só receio

Os dentes do tempo.»

 

Vê-se bem que La Fontaine

Estava escamado,

Que é como quem diz, irado,

Contra qualquer crítico

Dos de muito afã,

De muita veia,

Que às vezes até vêm

Com pezinhos de lã

Deitando abaixo,

Sem consideração,

Qualquer boa reputação.

Mas a fábula tem aplicação,

Ontem, hoje e amanhã

 

Berta Brás 2.jpgBerta Brás 2.jpgBerta Brás

FABULÁRIO DE FÉRIAS - 1

 

Deusa grega Momo

Momo, deusa grega

 

MOMICES

 

«Zeus, Prometeu, Atena e Momo»

 

Uma fábula de Esopo

Que me deu para traduzir

Em curta pausa de férias

Em vez de ler outras lérias

Tão sérias, Jesus, tão sérias!

É assim:

 

«Zeus, Prometeu e Atena

Tendo respectivamente criado

Um touro, um homem, uma casa,

Tomaram Momo por árbitro

Para que ela ajuizasse o valor

Das obras de cada um.

Invejosa e despeitada,

Momo declarou vivamente

Que Zeus fora desastrado

Senão mesmo estabanado

Ao não colocar os olhos

Nos cornos do touro,

Para que ele visse onde batia

Quando combatia.

A Prometeu condenou

Por o coração não ter posto

Do homem, na parte exterior

Do corpo,

Para o vício lhe impedir

De se dissimular

E assim patentear

Os vícios de cada um

No seu maior esplendor.

Concluiu

Que Atena deveria

Ter a sua moradia

Construído com patins

Para facilitar a mudança

Em caso de má vizinhança.

Indignado

Com tanto denegrimento

Zeus expulsou do Olimpo

Momo e o seu desbragamento

- E mesmo descaramento.

A fábula mostra com gana

Que ninguém nunca é tão perfeito

Que não dê azo à chicana.»

 

Foi isto que disse Esopo

Na fábula dos quatro deuses,

Deuses maiores ou menores

Sendo a Momo de menor topo

Mas não de menor topete.

Ainda hoje

Que vivemos em democracia

Verificamos

Diariamente

Que é dos seres inferiores

Na escala social

- Digo-o sem qualquer prevenção racista menos moral –

Que partem os falatórios

Provocatórios

Condenando os que governam,

- Quer governem bem ou mal -

De forma unilateral.

Parece-me bem bestial!

 

Berta Brás 2.jpgBerta Brás

Ai balancé, balancé…

 

A moral de Florian,

Nesta história de uma glória

Que vai seguir-se,

Aplica-se

À mocidade estouvada

Habituada a definir-se

Pela contestação,

Sem nas regras se apoiar

Como balancé desprezado

Que a farão ir ao chão

Se para longe o atirar.

Vejamos a fábula já,

Que nos mostra que, como outrora,

A juventude de agora

Não mudou tanto, afinal,

E se mais recuarmos ainda

Veremos que a coboiada

Já entre os clássicos se via,

Para arrelia

Da velharia:

Corda bamba.jpg

 

«O dançarino da corda bamba e o balancé»

Sobre a corda esticada

Um jovem volteador

Aprendia a dançar e já a sua habilidade

Os seus fortes volteios

Plenos de agilidade,

Faziam aparecer muito espectador.

No seu estreito caminho de corda,

Vêem-no avançar,

A mão no balancé, em liberdade,

Corpo direito, ousado,

Hábil e ligeiro;

Ele eleva-se, desce,

Vai, vem, mais alto se lança.

Volta a subir, volta a cair

Em cadência.

E semelhante a certos animais

Que rasam voando

A superfície das águas,

O seu pé toca, sem que se veja,

Na corda que verga

E no ar o relança.

O nosso jovem dançarino

Vaidoso do seu talento

Disse um dia:

Para quê

Este pesado balancé

Que me cansa e me embaraça?

Se eu dançasse sem ele

Teria muito mais graça

Ligeireza e força.

Dito e feito! O balancé

Ao chão atirado,

O nosso estouvado

Estendeu os braços

Partiu o nariz, caiu

E toda a gente se riu.

Mocidade, mocidade,

Ninguém te disse

Que sem regras nem freio

Cedo ou tarde se sucumbe?

A virtude, a razão, as leis, a autoridade

Nos vossos desejos fogosos

Causam-vos alguma pena;

É o balancé que vos cansa

Mas que vos dá segurança.

 

Sabemos que tem razão,

Florian

Na crítica à mocidade,

Na sua tola autoridade

De contestação

Que a maior parte das vezes

Vai ao chão.

Não se passa assim connosco,

De mocidade já perdida

Nos volteios da sua vida

Sem pontes nem horizontes,

A não ser lá para fora,

Sem demora.

Aqui,

Os que atiram o balancé

Com força ao chão,

Significando aquele

Vileza de corrupção

No abandono das regras

Da educação,

São antes os que vão singrando,

Nas rodas do seu fervor

Apenas ávido de lucro

E enriquecimento mor,

Não geral mas pessoal.

 

Berta Brás.jpg

Berta Brás

PAUL

 

 

O exemplo da fábula abaixo,

Do poeta La Fontaine,

Aplica-se perfeitamente,

Acho,

Ao Jardim da nossa Madeira,

Ou vice-versa

À Madeira do nosso Jardim,

Este, da Raposa afim,

Em subtileza e matreirice,

Com sua cauda protectora

Contra qualquer varejeira,

Que o sangue lhe cobice

O que é grande vigarice.

Quanto ao Ouriço dos picos,

Que se propõe ajudar

Os meneios ricos

Do Jardim sem escrúpulos,

Esse é qualquer um,

Cem mil, nenhum,

Dos bons samaritanos

Que os há sempre, nestes casos.

 

 

 

«A Raposa, as Moscas e o Ouriço»

No rasto do seu sangue, dos bosques hóspede antigo,

Raposa esperta, subtil e manhosa,

Por caçadores ferida, e caída na lama

Pegajosa,

Atraiu outrora o parasita alado

Que por nós foi Mosca chamado,

O qual logo a foi sugar

Sem se fazer rogar,

E lhe chamou um figo.

Ela acusava os Deuses, e achava indecoroso

Que a Sorte a tal ponto a quisesse afligir,

E a fizesse de pasto às Moscas servir.

“O quê! Lançar-se sobre mim, o mais hábil,

O mais asqueroso,

De todos os hóspedes da floresta mesma!

Desde quando as raposas são um tão bom repasto?

E de que me serve a cauda? Será um peso inútil?

Ou fútil?

Vamos, que o Céu te confunda, importuno animal!

Porque não te lanças tu sobre o trivial?”

Um Ouriço da vizinhança,

Nos meus versos personagem inédita,

Quis libertá-la da malvadez

De um povo tão cheio de avidez:

“Eu vou com os meus dardos enfiá-las às centenas,

Vizinha Raposa, e acabar com as tuas penas”.

“Livra-te, respondeu esta, amigo, de o fazer:

Deixa-as, suplico-te, acabar de comer.

Estes animais estão bêbados: um novo batalhão

Sobre mim se abateria, mais áspero e comilão.”

Demasiados comilões topamos cá na Terra:

Uns são cortesãos, outros magistrados.

Aristóteles aos homens este apólogo explicaria

Sem fantasia:

Os exemplos são vulgares,

Sobretudo num país como o nosso.

Quanto mais cheios os homens estão,

Menos importunos são.

 

É ou não verdade, sim,

Que o alegre Jardim

Anda mordido actualmente

Pelas Moscas impertinentes,

Absorventes,

Que o querem sugar avidamente

Zelosas dos bons costumes?

Ó Numes!

Pois não são também assim

Como o Jardim

As Moscas castigadoras,

Sugadoras,

Mistificadoras,

Com rabos-de-palha

Por onde calha?

E os Ouriços prestimosos

Querendo ajudar,

E apenas ajudando

A chafurdar,

A levantar mais poeira,

Rosnando, lembrando,

Qual curral de Augias a necessitar

De uma força hercúlea para o limpar…

Mas não há maneira.

Que quanto mais se chafurda na lama

Mais mal ela cheira,

Segundo a fama.

E segundo o fabulista francês,

Na sua moral de artista,

- De fadista se for português –

É melhor ignorar,

Deixar assentar,

Para assim impedir

Que os grandes comilões

Renovem os stocks das suas provisões.

Mas só para rir.

 

 Berta Brás

ENTRETENIMENTO DOMINGUEIRO

BOM SELVAGEM

 

 

Uma história mitológica

É a fábula de Florian que se segue,

Que conta do rei de Creta,

- Minos de sua graça -

Filho de Zeus e de Europa

E juiz no Hades tenebroso.

Um cargo bem espinhoso,

Já Salomão o sentia

Nos casos que resolvia.

Por aqui nem é tanto assim,

Que em vez do ver se te avias

Que Nino quis aplicar,

Os processos são acumulados

Sem embaraços madraços,

Para a Justiça se poder protelar

E os casos serem prescritos

Sem atritos.

Eis, pois, Nino a decidir

Sobre o castigo a aplicar

Duma assentada

A sete nomes do poder -

Maneira prática de decidir

Segundo a fórmula “todos à molhada”.

Mas não havendo peso possível

Para equilibrar a balança

Na dança de cada sentença,

Tantos eram os pecados

De tão finos pecadores,

Que desciam, não subiam

No seu prato.

A solução foi , pois,

Uma substituição de valores:

Nada de pesos prefabricados,

Para pôr na balança da Justiça.

O melhor, de facto,

É considerar

Que os pobrezinhos é que são os bem formados

Para contrabalançar com os dos pecados.

Não admira que Florian o consinta,

Vivendo numa época pré romântica,

 Sentimental com muita pinta,

Que Rousseau ajudou a promover

A valer.

A nossa Justiça hoje em dia

Também se fia

Nesses considerandos que faz que os maus

Sejam sempre os do poder e os bons

Os miserandos.

É fatal.

O próprio Cristo já o dizia,

Achando-os bem-aventurados

Por merecerem os Céus,

Juntos de Deus.

Fatal, sim, mas pouco crível

Num parecer menos sensível.

Porque, por mais que se pinte

Se ponha ou se diga,

Com mais ou menos ficção,

Em toda a parte há de tudo,

Como na botica.

E as classes sociais

Não são especiais

Nessa condição.

Eu, pelo menos,

Penso  que não.

 

«A balança de Minos»

 

Minos, não podendo mais bastar

Ao fatigante ofício de ouvir e de julgar

Cada sombra descida ao tenebroso  império

De um Hades de mistério,

Imaginou, como solução

Para tal confusão

De trabalho excessivo,

Mandar fazer uma balança

Onde, num dos pratos  colocaria

Cinco ou seis mortos, e no outro prato

Um certo peso que a sentença

Determinaria.

Se o peso subisse, então, com mais vagar,

Os casos examinaria;

Se o peso baixasse, pelo contrário,

Sem escrúpulo faria punir.

O método era seguro, decisivo e claro;

Minos estava feliz consigo próprio.

Num certo dia, pois,

A bordo do Estígio a morte reúne

Simultaneamente,

Dois reis, um ministro de peso, um herói, três sábios.

Minos fá-los pesar conjuntamente.

O peso sobe. Coloca dois,

E depois três, mas em vão os pôs;

Quatro não fazem melhor,

O prato  não há meio de descer.

Minos, surpreendido,

Tira da balança os inúteis pesos,

Outro meio experimenta, mais eficiente;

Vendo, perto dali, um pobre homem de bem

Que num canto escuro esperava em silêncio,

Coloca-o como contrapeso bastante:

Eis as sete sombras que sobem,

Imediatamente.

 

 Berta Brás

HOMENAGEM OLÍMPICA

 

 

Aqui está uma de Esopo

Que me deu no goto:

 

«A porca e a cadela (rivalizando em fecundidade)»

 

Uma porca e uma cadela

Disputavam entre si,

Com certa simplicidade,

O prémio da fecundidade.

A cadela afirmava que a camisola amarela

Na questão da maternidade

Devia ser para ela

Já que entre os quadrúpedes conhecidos dela

Nenhum, como ela,

Tinha tão rápidas ninhadas.

Em grandes risadas

A porca lhe replicou:

“Isso podes dizê-lo, minha bela,

Mas não te esqueças de acrescentar,

Se verdadeira quiseres parecer,

Que os teus filhotes nascem cegos

Sejam eles brancos ou negros

Ou mesmo furta-cores!”

A fábula mostra que os actos, as acções

Não se julgam, segundo gerais conceitos,

Pela velocidade no seu andamento,

Mas pelo seu grau de acabamento.

 

Isto contou Esopo

Sem nenhum logro,

Que ele tinha entendimentos especiais

Com os animais,

E sabia que em questão de fecundidade,

Há os que se podem gabar mais

Em relação aos acabamentos,

Até porque aprenderam a conquistar boas posições,

E assim considerem todos os mais, ceguinhos,

Só porque não seguem os mesmos caminhos.

Com efeito, o mundo é uma manta de retalhos

Em questão de posições e opiniões,

Os mais fecundos, espertalhões,

Os menos fecundos, mais iracundos

Contando tostões.

Não sejamos, porém, tão pessimistas

No que toca, pelo menos, à velocidade.

Citemos o nosso Carlos Lopes,

Rosa Mota e outros mais

Campeões da nossa e outras nações,

Provando que a velocidade

É uma forma de andamento

Que gera bons galardões,

E o nosso espanto.

 

 Berta Brás

VIVER É PRECISO

 

 

Já Esopo tinha focado,

Na fábula que La Fontaine glosou

- De forma muito mais divertida

E movimentada -

A história do Morcego “vira-lata”

Que muito bem se desenrasca

Quando cai nas armadilhas da vida,

- No seu caso, da Doninha -

Mudando de condição

Conforme a ocasião.

Dele retiro apenas a moral

Que é tão real,

Tão actual,

Que não necessita de nenhuma explicitação

Formal:

«Esta fábula mostra, disse Esopo,

No século sexto ou sétimo antes de Cristo,

Que não devemos utilizar sempre os mesmos meios,

Mas pensarmos que se às circunstâncias nos adaptarmos,

Aos perigos muitas vezes escaparemos».

Eu só acrescentaria

Que não só podemos escapar aos perigos

Como podemos aceder a honras, a riquezas, a esplendores

E a outros valores,

Se soubermos adaptar-nos às circunstâncias,

Mudando de condição

Conforme a ocasião.

Aliás, a questão do mimetismo

Já foi tratado por outros autores,

Entre os quais o nosso Vieira

Que no seu Polvo traçou

Impiedoso retrato potente e sombrio

Que não se equipara nem de longe nem de perto

À leveza

De um Morcego de pouca destreza

Mas muito esperto.

 

De La Fontaine vejamos

«O Morcego e as duas doninhas »

«Um morcego, que ia a voar, de cabeça baixada,

Contra a toca duma doninha embateu;

Logo que ali chegou , desastrado,

A outra, para o devorar, acorreu,

Há muito contra os ratos

Formalizada.

“O quê? Você ousa diante dos meus olhos aparecer

Quando a sua raça nunca parou de me molestar?

Você não é um rato? Confesse, sinceramente.

Sim, é, ou não serei eu Doninha.”

”Perdoe-me, disse o pobre,  com muita manha,

Não é esse o meu natural!

Rato, eu? Isso são balelas

De quem me deseja mal!

Graças ao Autor do Universo,

Eu sou um Pássaro, veja as minhas asas!

Vivam as gentes que os ares fendem,

Com as suas asas, como eu!”

A razão bastou, que boa pareceu.

De tal maneira, que a liberdade lhe foi dada

Para se ir embora, sem mais zaragata.

Dois dias depois o nosso desastrado,

Foi cair cegamente

Na toca de outra Doninha,

Dos pássaros inimiga.

Ei-lo, novamente, em perigo de vida.

A Dona da casa, com o seu longo focinho,

Ia engoli-lo julgando-o ave,

Quando aquele protestou contra o ultraje:

“Eu? Passar por isto? Você não está a ver!

O que distingue o pássaro? É a plumagem.

Eu sou um Rato! Vivam os Ratos!

Zeus confunda os Gatos!

Com esta hábil saída,

O Morcego salvou por duas vezes a vida.

 

Muitos se acharam

Que de echarpe mudaram

Perante os perigos, e assim se safaram,

Tal como o Morcego cego.

O sábio diz, segundo a circunstância da vida:

Viva o Rei! Viva a Liga!»

 

 Berta Brás

NO PASARÁN!

 

 

La Fontaine tem lições

Para todas as ocasiões.

Eis um exemplo na berra:

 

«O Leão, partindo para a guerra»

 

Rei Leão matutava com discernimento

Num certo empreendimento

Do seu entendimento.

Decretou um conselho de guerra

Lá na terra,

Enviou os seus chefes mores

Para avisar os demais animais

Da sua decisão,

Sem comiseração

Mas com modos sabedores.

E todos foram parte do projecto,

Cada um segundo os seus valores:

O Elefante devia no seu amplo dorso de paquiderme

Os aprestos guerreiros transportar

E ainda, conforme o seu costume,

Sem charme,

Pesadamente combater;

O Urso, os assaltos deveria preparar;

A Raposa, os serviços secretos organizar;

E o Macaco, com as suas macaquices,

O inimigo, sem chatices, distrair.

-“Despedi, disse um dos intervenientes,

Desses mais insinuantes

Na governação,

Que os há sempre,

Queiramos ou não –

Os Burros, que são bem broncos,

E as Lebres, sujeitas a pânicos.”

-“Nada disso, disse o Rei; eu quero-os a todos empregar:

A nossa tropa, sem eles, completa não iria estar.

O Burro assustará as gentes, servindo-nos de trombeta;

E a Lebre servir-nos-á de correio

Como estafeta.”

Um monarca prudente e sensato

Dos seus menores vassalos sabe tirar proveito,

E sabe reconhecer o talento e o jeito.

Não há ninguém inútil

Nem fútil

Para um governante experiente

E envolvente.

 

Assim disse La Fontaine,

Assim acha a minha amiga confiante,

E também eu, crente

Na verdadeira democracia,

Ao ouvir nas sessões do Parlamento,

Os novos ministros com muito tento

E galhardia,

Falando e dando

Lições de delicadeza

E de subtileza,

E de comedimento

Sem aquele arreganho

De antanho,

A todos amando

E respeitando,

Embora protelando

Algumas decisões,

Sem precipitações,

Para tratarem de tudo

Com muito estudo

Transmitindo confiança

Na sua promessa

De mudança.

O mal é que a maioria,

Impaciente,

E impertinente,

Sem cortesia,

Sempre com pressa,

Injecta, injecta

O discurso da treta,

Habituada que está

Ao improviso,

À imprevidência

À impaciência

À berraria,

À falta de estudo

Ignorando, afinal,

Que trabalho e estudo

São tudo,

Ou o principal,

Mais a hombridade,

E que é preciso saber esperar

Para poder observar

Resultados de qualidade

E talvez mesmo em quantidade

Como já mais que uma vez nos sucedeu,

Sei eu.

Por isso, talvez que o nosso rei

Mesmo tentando fazer o melhor,

Se fique no degrau inferior,

Porque ele deseja, sim, erguer a Nação,

Mas a sua Grei, não.

 

 Berta Brás

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