De La Fontaine uma breve fábula Para o ano terminar em parca graça, Ano que se pautou pela chalaça E a arruaça, Muita trapaça, Muita pirraça Por cá, na praça. Uma desgraça própria Da nossa raça Crassa, O que muito Me embaraça, Por mais que faça Por o ignorar E erguer a taça. Chiça! Ou, como diria a nossa amiga: “Minha nossa!”
«O Burro condutor de relíquias»
«Um Burro de relíquias carregado Imaginou ser adorado, Pavoneando-se ante a convicção De a si serem dirigidos o incenso e os cânticos Da multidão. Um dos que o erro detectou Com calor lhe explicou: - Sr. Burro, tão louca vaidade, Do espírito afastai, rapidamente. Digo-vos, sinceramente, Que não é a vós mas sim aos ídolos Que levais no dorso Que as honras são declaradas E a glória atribuída Pela multidão. Moral da história: Dum magistrado ignorante É a veste que se saúda, não a pessoa.» Ora não é bem assim, por cá, Está mais que visto. Muita gente há Que as honras que de outros são pertença Por ela são usurpadas, E sem escrúpulo concedidas A Asnos vestidos das suas próprias relíquias - As ideologias, que disfarçam Ambições e aleivosias - Que os idólatras admiram com muitas bazófias E pífias Próprias das suas muitas carências No que concerne os feitos E os certos direitos Dos reais herdeiros Disto. Valha-nos Cristo! Ou, como diria a minha irmã: “Isto só visto!”
Berta Brás
A duplicidade é uma característica
Tão usual no homem
Que, sem perceber de Estatística,
O próprio Esopo,
Do mundo observador,
Com ela enfeitou
Uma hiena e a pintou
Transportando, traidora,
Ora um sexo ora outro,
Segundo lhe apetecesse,
Ou no bestunto lhe desse,
Para melhor conviver
A enganar, a torpedear,
A limpar velhas carcaças
Dos animais mortos na selva
E em seguida gargalhar
No banquete do seu apetite,
Mesmo sem doces passas,
A festejar:
«A hiena e a raposa»
Diz-se que as hienas,
Cuja natureza
Todos os anos muda,
Num hibridismo de fraca beleza,
Ora são machos ora são fêmeas.
Uma Hiena, encantada
À vista duma formosa Raposa,
Censurava-a por não ceder
Às suas tentativas para a seduzir,
Quando ela, Hiena, só desejava
Ser sua amiga dilecta.
“Não me censures tu a mim,
- A Raposa lhe respondeu,
Que não era nada pateta -
Mas sim,
À tua natureza dúbia
Que não me permite esclarecer
Se minha amiga ou meu amigo
Quererás ser!”
É a pessoa ambígua
Que a fábula pretende atingir.
Ora aqui está como se pode tão bem descrever
Uma sociedade de grande capacidade
Para a ambiguidade,
Sem citar nomes próprios,
Coisa que é mais da Justiça,
Ou dos Jornais, recolher!
Bem se diz, para resumir,
E isto sem contradições,
Que quem vê caras não vê corações.
Mas por isso mesmo vivemos
Numa época de muitas discussões,
As mais das vezes sem apelações.
Porque na pátria amada
A ambiguidade é protegida
Sobretudo se bem engravatada.
Seria já assim também
No tempo de Esopo,
Um homem tão de lá d’além,
De tempos tão recuados
Quando ainda não se haviam
Formado antepassados?
Mas estou em erro: Porque afinal
As sereias do Ulisses
Também estavam prontas
Para causar-lhe mal!
E a serpente bíblica
Fez-nos sair do Éden
Para o desterro terreal!
A ambiguidade, é verdade,
Nasceu
Sob a capa da suavidade
E nunca morreu.
Berta Brás
Uma de dentes
Retomo o tema anterior
Sobre o hábito da crítica
Desta vez com uma fábula
De La Fontaine
Embora imitada
De Esopo e de Fedro.
É dirigida aos zoilos
Ferrenhos
Sempre prontos a denegrir
(- Ou a ignorar,
O que é bem pior
Segundo o meu parecer –)
Os que, não sendo da mesma confraria
Seguem o próprio caminho
Com energia,
Sem pedir licença
Ao vizinho.
Assim, La Fontaine se entretém
Contra a tal crítica dos zoilos
Como o nosso Garrett também faria
No seu «Ignoto Deo» de excelsa memória
Onde ele informa que o Poeta vai
Onde ninguém mais vai ou foi,
Cheio de reivindicações
De genialidade
E de explicitações
De originalidade,
Como se pode sempre na obra ler
De tão excelso escritor.
Conta, pois, La Fontaine,
A fábula da serpente
Que mata o seu voraz apetite
Roendo uma lima dura
À falta de melhor comida,
A qual só lhe partiria um dente
Sem outro grave incidente
- (Como os da Nau Catrineta
Que também Garrett cita) -
Segundo o sagaz fabulista
Às críticas indiferente:
«A Serpente e a Lima»
«Conta-se que havia uma Serpente
Vizinha de um Relojoeiro
- Má vizinhança, naturalmente –
Entrou na relojoaria,
Procurando por comida,
Meio espavorida.
Não encontrou para comer
Mais do que uma lima de ferro
Que logo tentou roer
- (Pior que as solas de molho,
Nem há que ver!) –
Sem se encolerizar
Esta Lima assim falou:
«- Pobre ignorante!
Que achas que estás a fazer?
Contra um mais forte do que tu
Só te estás a meter!
Pequena serpente de cabeça tonta
Antes que de mim levasses
A quarta parte dum óbolo
- (Peso que a quaisquer dez grãos
É correspondente
Leio na Internet) -
Partirias os teus
Dentes todos.
Ora eu só receio
Os dentes do tempo.»
Vê-se bem que La Fontaine
Estava escamado,
Que é como quem diz, irado,
Contra qualquer crítico
Dos de muito afã,
De muita veia,
Que às vezes até vêm
Com pezinhos de lã
Deitando abaixo,
Sem consideração,
Qualquer boa reputação.
Mas a fábula tem aplicação,
Ontem, hoje e amanhã
Berta Brás
Momo , deusa grega
MOMICES
«Zeus, Prometeu, Atena e Momo»
Uma fábula de Esopo
Que me deu para traduzir
Em curta pausa de férias
Em vez de ler outras lérias
Tão sérias, Jesus, tão sérias!
É assim:
«Zeus, Prometeu e Atena
Tendo respectivamente criado
Um touro, um homem, uma casa,
Tomaram Momo por árbitro
Para que ela ajuizasse o valor
Das obras de cada um.
Invejosa e despeitada,
Momo declarou vivamente
Que Zeus fora desastrado
Senão mesmo estabanado
Ao não colocar os olhos
Nos cornos do touro,
Para que ele visse onde batia
Quando combatia.
A Prometeu condenou
Por o coração não ter posto
Do homem, na parte exterior
Do corpo,
Para o vício lhe impedir
De se dissimular
E assim patentear
Os vícios de cada um
No seu maior esplendor.
Concluiu
Que Atena deveria
Ter a sua moradia
Construído com patins
Para facilitar a mudança
Em caso de má vizinhança.
Indignado
Com tanto denegrimento
Zeus expulsou do Olimpo
Momo e o seu desbragamento
- E mesmo descaramento.
A fábula mostra com gana
Que ninguém nunca é tão perfeito
Que não dê azo à chicana.»
Foi isto que disse Esopo
Na fábula dos quatro deuses,
Deuses maiores ou menores
Sendo a Momo de menor topo
Mas não de menor topete.
Ainda hoje
Que vivemos em democracia
Verificamos
Diariamente
Que é dos seres inferiores
Na escala social
- Digo-o sem qualquer prevenção racista menos moral –
Que partem os falatórios
Provocatórios
Condenando os que governam,
- Quer governem bem ou mal -
De forma unilateral.
Parece-me bem bestial!
Berta Brás
A moral de Florian,
Nesta história de uma glória
Que vai seguir-se,
Aplica-se
À mocidade estouvada
Habituada a definir-se
Pela contestação,
Sem nas regras se apoiar
Como balancé desprezado
Que a farão ir ao chão
Se para longe o atirar.
Vejamos a fábula já,
Que nos mostra que, como outrora,
A juventude de agora
Não mudou tanto, afinal,
E se mais recuarmos ainda
Veremos que a coboiada
Já entre os clássicos se via,
Para arrelia
Da velharia:
«O dançarino da corda bamba e o balancé»
Sobre a corda esticada
Um jovem volteador
Aprendia a dançar e já a sua habilidade
Os seus fortes volteios
Plenos de agilidade,
Faziam aparecer muito espectador.
No seu estreito caminho de corda,
Vêem-no avançar,
A mão no balancé, em liberdade,
Corpo direito, ousado,
Hábil e ligeiro;
Ele eleva-se, desce,
Vai, vem, mais alto se lança.
Volta a subir, volta a cair
Em cadência.
E semelhante a certos animais
Que rasam voando
A superfície das águas,
O seu pé toca, sem que se veja,
Na corda que verga
E no ar o relança.
O nosso jovem dançarino
Vaidoso do seu talento
Disse um dia:
Para quê
Este pesado balancé
Que me cansa e me embaraça?
Se eu dançasse sem ele
Teria muito mais graça
Ligeireza e força.
Dito e feito! O balancé
Ao chão atirado,
O nosso estouvado
Estendeu os braços
Partiu o nariz, caiu
E toda a gente se riu.
Mocidade, mocidade,
Ninguém te disse
Que sem regras nem freio
Cedo ou tarde se sucumbe?
A virtude, a razão, as leis, a autoridade
Nos vossos desejos fogosos
Causam-vos alguma pena;
É o balancé que vos cansa
Mas que vos dá segurança.
Sabemos que tem razão,
Florian
Na crítica à mocidade,
Na sua tola autoridade
De contestação
Que a maior parte das vezes
Vai ao chão.
Não se passa assim connosco,
De mocidade já perdida
Nos volteios da sua vida
Sem pontes nem horizontes,
A não ser lá para fora,
Sem demora.
Aqui,
Os que atiram o balancé
Com força ao chão,
Significando aquele
Vileza de corrupção
No abandono das regras
Da educação,
São antes os que vão singrando,
Nas rodas do seu fervor
Apenas ávido de lucro
E enriquecimento mor,
Não geral mas pessoal.
Berta Brás
O exemplo da fábula abaixo,
Do poeta La Fontaine,
Aplica-se perfeitamente,
Acho,
Ao Jardim da nossa Madeira,
Ou vice-versa
À Madeira do nosso Jardim,
Este, da Raposa afim,
Em subtileza e matreirice,
Com sua cauda protectora
Contra qualquer varejeira,
Que o sangue lhe cobice
O que é grande vigarice.
Quanto ao Ouriço dos picos,
Que se propõe ajudar
Os meneios ricos
Do Jardim sem escrúpulos,
Esse é qualquer um,
Cem mil, nenhum,
Dos bons samaritanos
Que os há sempre, nestes casos.
«A Raposa, as Moscas e o Ouriço»
No rasto do seu sangue, dos bosques hóspede antigo,
Raposa esperta, subtil e manhosa,
Por caçadores ferida, e caída na lama
Pegajosa,
Atraiu outrora o parasita alado
Que por nós foi Mosca chamado,
O qual logo a foi sugar
Sem se fazer rogar,
E lhe chamou um figo.
Ela acusava os Deuses, e achava indecoroso
Que a Sorte a tal ponto a quisesse afligir,
E a fizesse de pasto às Moscas servir.
“O quê! Lançar-se sobre mim, o mais hábil,
O mais asqueroso,
De todos os hóspedes da floresta mesma!
Desde quando as raposas são um tão bom repasto?
E de que me serve a cauda? Será um peso inútil?
Ou fútil?
Vamos, que o Céu te confunda, importuno animal!
Porque não te lanças tu sobre o trivial?”
Um Ouriço da vizinhança,
Nos meus versos personagem inédita,
Quis libertá-la da malvadez
De um povo tão cheio de avidez:
“Eu vou com os meus dardos enfiá-las às centenas,
Vizinha Raposa, e acabar com as tuas penas”.
“Livra-te, respondeu esta, amigo, de o fazer:
Deixa-as, suplico-te, acabar de comer.
Estes animais estão bêbados: um novo batalhão
Sobre mim se abateria, mais áspero e comilão.”
Demasiados comilões topamos cá na Terra:
Uns são cortesãos, outros magistrados.
Aristóteles aos homens este apólogo explicaria
Sem fantasia:
Os exemplos são vulgares,
Sobretudo num país como o nosso.
Quanto mais cheios os homens estão,
Menos importunos são.
É ou não verdade, sim,
Que o alegre Jardim
Anda mordido actualmente
Pelas Moscas impertinentes,
Absorventes,
Que o querem sugar avidamente
Zelosas dos bons costumes?
Ó Numes!
Pois não são também assim
Como o Jardim
As Moscas castigadoras,
Sugadoras,
Mistificadoras,
Com rabos-de-palha
Por onde calha?
E os Ouriços prestimosos
Querendo ajudar,
E apenas ajudando
A chafurdar,
A levantar mais poeira,
Rosnando, lembrando,
Qual curral de Augias a necessitar
De uma força hercúlea para o limpar…
Mas não há maneira.
Que quanto mais se chafurda na lama
Mais mal ela cheira,
Segundo a fama.
E segundo o fabulista francês,
Na sua moral de artista,
- De fadista se for português –
É melhor ignorar,
Deixar assentar,
Para assim impedir
Que os grandes comilões
Renovem os stocks das suas provisões.
Mas só para rir.
Berta Brás
BOM SELVAGEM
Uma história mitológica
É a fábula de Florian que se segue,
Que conta do rei de Creta,
- Minos de sua graça -
Filho de Zeus e de Europa
E juiz no Hades tenebroso.
Um cargo bem espinhoso,
Já Salomão o sentia
Nos casos que resolvia.
Por aqui nem é tanto assim,
Que em vez do ver se te avias
Que Nino quis aplicar,
Os processos são acumulados
Sem embaraços madraços,
Para a Justiça se poder protelar
E os casos serem prescritos
Sem atritos.
Eis, pois, Nino a decidir
Sobre o castigo a aplicar
Duma assentada
A sete nomes do poder -
Maneira prática de decidir
Segundo a fórmula “todos à molhada”.
Mas não havendo peso possível
Para equilibrar a balança
Na dança de cada sentença,
Tantos eram os pecados
De tão finos pecadores,
Que desciam, não subiam
No seu prato.
A solução foi , pois,
Uma substituição de valores:
Nada de pesos prefabricados,
Para pôr na balança da Justiça.
O melhor, de facto,
É considerar
Que os pobrezinhos é que são os bem formados
Para contrabalançar com os dos pecados.
Não admira que Florian o consinta,
Vivendo numa época pré romântica,
Sentimental com muita pinta,
Que Rousseau ajudou a promover
A valer.
A nossa Justiça hoje em dia
Também se fia
Nesses considerandos que faz que os maus
Sejam sempre os do poder e os bons
Os miserandos.
É fatal.
O próprio Cristo já o dizia,
Achando-os bem-aventurados
Por merecerem os Céus,
Juntos de Deus.
Fatal, sim, mas pouco crível
Num parecer menos sensível.
Porque, por mais que se pinte
Se ponha ou se diga,
Com mais ou menos ficção,
Em toda a parte há de tudo,
Como na botica.
E as classes sociais
Não são especiais
Nessa condição.
Eu, pelo menos,
Penso que não.
«A balança de Minos »
Minos, não podendo mais bastar
Ao fatigante ofício de ouvir e de julgar
Cada sombra descida ao tenebroso império
De um Hades de mistério,
Imaginou, como solução
Para tal confusão
De trabalho excessivo,
Mandar fazer uma balança
Onde, num dos pratos colocaria
Cinco ou seis mortos, e no outro prato
Um certo peso que a sentença
Determinaria.
Se o peso subisse, então, com mais vagar,
Os casos examinaria;
Se o peso baixasse, pelo contrário,
Sem escrúpulo faria punir.
O método era seguro, decisivo e claro;
Minos estava feliz consigo próprio.
Num certo dia, pois,
A bordo do Estígio a morte reúne
Simultaneamente,
Dois reis, um ministro de peso, um herói, três sábios.
Minos fá-los pesar conjuntamente.
O peso sobe. Coloca dois,
E depois três, mas em vão os pôs;
Quatro não fazem melhor,
O prato não há meio de descer.
Minos, surpreendido,
Tira da balança os inúteis pesos,
Outro meio experimenta, mais eficiente;
Vendo, perto dali, um pobre homem de bem
Que num canto escuro esperava em silêncio,
Coloca-o como contrapeso bastante:
Eis as sete sombras que sobem,
Imediatamente.
Berta Brás
Aqui está uma de Esopo
Que me deu no goto:
«A porca e a cadela (rivalizando em fecundidade)»
Uma porca e uma cadela
Disputavam entre si,
Com certa simplicidade,
O prémio da fecundidade.
A cadela afirmava que a camisola amarela
Na questão da maternidade
Devia ser para ela
Já que entre os quadrúpedes conhecidos dela
Nenhum, como ela,
Tinha tão rápidas ninhadas.
Em grandes risadas
A porca lhe replicou:
“Isso podes dizê-lo, minha bela,
Mas não te esqueças de acrescentar,
Se verdadeira quiseres parecer,
Que os teus filhotes nascem cegos
Sejam eles brancos ou negros
Ou mesmo furta-cores!”
A fábula mostra que os actos, as acções
Não se julgam, segundo gerais conceitos,
Pela velocidade no seu andamento,
Mas pelo seu grau de acabamento.
Isto contou Esopo
Sem nenhum logro,
Que ele tinha entendimentos especiais
Com os animais,
E sabia que em questão de fecundidade,
Há os que se podem gabar mais
Em relação aos acabamentos,
Até porque aprenderam a conquistar boas posições,
E assim considerem todos os mais, ceguinhos,
Só porque não seguem os mesmos caminhos.
Com efeito, o mundo é uma manta de retalhos
Em questão de posições e opiniões,
Os mais fecundos, espertalhões,
Os menos fecundos, mais iracundos
Contando tostões.
Não sejamos, porém, tão pessimistas
No que toca, pelo menos, à velocidade.
Citemos o nosso Carlos Lopes,
Rosa Mota e outros mais
Campeões da nossa e outras nações,
Provando que a velocidade
É uma forma de andamento
Que gera bons galardões,
E o nosso espanto.
Berta Brás
Já Esopo tinha focado,
Na fábula que La Fontaine glosou
- De forma muito mais divertida
E movimentada -
A história do Morcego “vira-lata”
Que muito bem se desenrasca
Quando cai nas armadilhas da vida,
- No seu caso, da Doninha -
Mudando de condição
Conforme a ocasião.
Dele retiro apenas a moral
Que é tão real,
Tão actual,
Que não necessita de nenhuma explicitação
Formal:
«Esta fábula mostra, disse Esopo,
No século sexto ou sétimo antes de Cristo,
Que não devemos utilizar sempre os mesmos meios,
Mas pensarmos que se às circunstâncias nos adaptarmos,
Aos perigos muitas vezes escaparemos».
Eu só acrescentaria
Que não só podemos escapar aos perigos
Como podemos aceder a honras, a riquezas, a esplendores
E a outros valores,
Se soubermos adaptar-nos às circunstâncias,
Mudando de condição
Conforme a ocasião.
Aliás, a questão do mimetismo
Já foi tratado por outros autores,
Entre os quais o nosso Vieira
Que no seu Polvo traçou
Impiedoso retrato potente e sombrio
Que não se equipara nem de longe nem de perto
À leveza
De um Morcego de pouca destreza
Mas muito esperto.
De La Fontaine vejamos
«O Morcego e as duas doninhas »
«Um morcego, que ia a voar, de cabeça baixada,
Contra a toca duma doninha embateu;
Logo que ali chegou , desastrado,
A outra, para o devorar, acorreu,
Há muito contra os ratos
Formalizada.
“O quê? Você ousa diante dos meus olhos aparecer
Quando a sua raça nunca parou de me molestar?
Você não é um rato? Confesse, sinceramente.
Sim, é, ou não serei eu Doninha.”
”Perdoe-me, disse o pobre, com muita manha,
Não é esse o meu natural!
Rato, eu? Isso são balelas
De quem me deseja mal!
Graças ao Autor do Universo,
Eu sou um Pássaro, veja as minhas asas!
Vivam as gentes que os ares fendem,
Com as suas asas, como eu!”
A razão bastou, que boa pareceu.
De tal maneira, que a liberdade lhe foi dada
Para se ir embora, sem mais zaragata.
Dois dias depois o nosso desastrado,
Foi cair cegamente
Na toca de outra Doninha,
Dos pássaros inimiga.
Ei-lo, novamente, em perigo de vida.
A Dona da casa, com o seu longo focinho,
Ia engoli-lo julgando-o ave,
Quando aquele protestou contra o ultraje:
“Eu? Passar por isto? Você não está a ver!
O que distingue o pássaro? É a plumagem.
Eu sou um Rato! Vivam os Ratos!
Zeus confunda os Gatos!
Com esta hábil saída,
O Morcego salvou por duas vezes a vida.
Muitos se acharam
Que de echarpe mudaram
Perante os perigos, e assim se safaram,
Tal como o Morcego cego.
O sábio diz, segundo a circunstância da vida:
Viva o Rei! Viva a Liga! »
Berta Brás
La Fontaine tem lições
Para todas as ocasiões.
Eis um exemplo na berra:
«O Leão, partindo para a guerra»
Rei Leão matutava com discernimento
Num certo empreendimento
Do seu entendimento.
Decretou um conselho de guerra
Lá na terra,
Enviou os seus chefes mores
Para avisar os demais animais
Da sua decisão,
Sem comiseração
Mas com modos sabedores.
E todos foram parte do projecto,
Cada um segundo os seus valores:
O Elefante devia no seu amplo dorso de paquiderme
Os aprestos guerreiros transportar
E ainda, conforme o seu costume,
Sem charme,
Pesadamente combater;
O Urso, os assaltos deveria preparar;
A Raposa, os serviços secretos organizar;
E o Macaco, com as suas macaquices,
O inimigo, sem chatices, distrair.
-“Despedi, disse um dos intervenientes,
Desses mais insinuantes
Na governação,
Que os há sempre,
Queiramos ou não –
Os Burros, que são bem broncos,
E as Lebres, sujeitas a pânicos.”
-“Nada disso, disse o Rei; eu quero-os a todos empregar:
A nossa tropa, sem eles, completa não iria estar.
O Burro assustará as gentes, servindo-nos de trombeta;
E a Lebre servir-nos-á de correio
Como estafeta.”
Um monarca prudente e sensato
Dos seus menores vassalos sabe tirar proveito,
E sabe reconhecer o talento e o jeito.
Não há ninguém inútil
Nem fútil
Para um governante experiente
E envolvente.
Assim disse La Fontaine,
Assim acha a minha amiga confiante,
E também eu, crente
Na verdadeira democracia,
Ao ouvir nas sessões do Parlamento,
Os novos ministros com muito tento
E galhardia,
Falando e dando
Lições de delicadeza
E de subtileza,
E de comedimento
Sem aquele arreganho
De antanho,
A todos amando
E respeitando,
Embora protelando
Algumas decisões,
Sem precipitações,
Para tratarem de tudo
Com muito estudo
Transmitindo confiança
Na sua promessa
De mudança.
O mal é que a maioria,
Impaciente,
E impertinente,
Sem cortesia,
Sempre com pressa,
Injecta, injecta
O discurso da treta,
Habituada que está
Ao improviso,
À imprevidência
À impaciência
À berraria,
À falta de estudo
Ignorando, afinal,
Que trabalho e estudo
São tudo,
Ou o principal,
Mais a hombridade,
E que é preciso saber esperar
Para poder observar
Resultados de qualidade
E talvez mesmo em quantidade
Como já mais que uma vez nos sucedeu,
Sei eu.
Por isso, talvez que o nosso rei
Mesmo tentando fazer o melhor,
Se fique no degrau inferior,
Porque ele deseja, sim, erguer a Nação,
Mas a sua Grei, não.
Berta Brás