Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

A bem da Nação

A HISTÓRIA RECENTE SEGUNDO VAROUFAKIS

Varoufakis.jpg

 

As taxas de câmbio podem constituir um mecanismo de reciclagem de excedentes pois a acumulação dos défices tende a levar à desvalorização cambial, esta pode acabar por ser um estímulo às exportações e desestímulo das importações, além de contribuir para atrair outros capitais excedentes graças às taxas de juros mais elevadas.

 

Eis como tanto o “Plano Global” como o “Minotauro” são, na verdade, arranjos sustentados em formas distintas do Mecanismo Geral de Reciclagem de Excedentes (MGRE) com o primeiro a ter nos Estados Unidos um imenso polo superavitário e no segundo, pelo contrário, um polo deficitário.

 

* * *

Do Plano Global

 

 

A Conferência de Bretton Woods deu nascimento a um sistema de governança económica global que levou à criação do Fundo Monetário Internacional (FMI), do Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD) e à constituição de um sistema de administração cambial que fixava, dentro duma determinada variação percentual, a flutuação das taxas de câmbio das moedas em relação ao Dólar e ao ouro– com a consequente convertibilidade directa do Dólar em ouro.

 

Entretanto, os défices americanos apareceram devido à

  • Rápida recuperação com ganhos de competitividade e produtividade dos outrora “pupilos” do pós-guerra (Alemanha e Japão);
  • Com a queda de competitividade relativa dos Estados Unidos;
  • Com a abertura do seu mercado à entrada de produtos desses concorrentes, em especial o Japão;
  • Com os crescentes gastos do Governo, especialmente com guerras, como a do Vietname.

 

Mas os Estados Unidos queriam ser eles mesmos a gerir a nova ordem económica mundial através do Dólar pelo que romperam unilateralmente o acordo de Bretton Woods, puseram fim à conversibilidade ouro/Dólar e avançaram para a desvalorização da sua própria moeda.

 

A depreciação do Dólar representou um duro golpe nas exportações japonesas e europeias para os EUA mas dado que todos estavam já presos ao Dólar como moeda de reserva global, pouco restava a fazer. A posição privilegiada que os americanos haviam construído estava garantida e agora em bases renovadas. “A moeda é nossa. O problema é vosso”.

 

A expansão monetária resultante do aumento de gastos do Governo redundou também na desvalorização do Dólar.

 

Mas, diante de novas e sonoras contestações à sua posição “privilegiada”, os Estados Unidos responderam com acções enérgicas e medidas drásticas que Paul Volcker, Presidente do Reserva Federal durante os governos Jimmy Carter e Ronald Reagan, mais tarde denominou “a desintegração planeada da economia mundial”.

 

Eis o “Minotauro Global

 

Funcionando como uma espécie de “consumidor de primeira instância”, o enorme corpo gravitacional dos défices gémeos (comercial e orçamental) americanos serviu como força de atracção para o investimento dos excedentes acumulados noutras regiões do globo.

 

Resumidamente: enquanto os persistentes saldos comerciais negativos dos EUA suscitavam o avanço da produção noutros países, os défices orçamentais serviam para transformar os excedentes comerciais desses outros países em títulos da dívida norte-americana. E à medida que o mundo acumulava tais títulos, o capital mundial fluía inadvertidamente para o mercado financeiro americano. Para se ter uma ideia da dimensão desse movimento, no início dos anos 2000, pouco antes da crise, mais de 70% dos movimentos globais de capitais tinham os Estados Unidos como destino final.

 

As taxas de juros foram paulatinamente elevadas ao longo da década até alcançarem níveis recordes em 1979 – uma verdadeira catástrofe para países endividados em Dólares, como os latino-americanos e leste-europeus. A metamorfose havia sido concluída.

 

Enquanto absorvia uma imensidão de capitais vindos de todas as partes, Wall Street, livre das regulamentações, barreiras e constrangimentos políticos de outrora, encarregava-se de activar uma verdadeira farra desvairada de criação de dinheiro privado por meio de activos, nomeadamente os tóxicos (entre os quais estão as famigeradas classes de derivados bizarros que o mundo veio a conhecer). Fusões e aquisições alavancadas por bolhas financeiras, a produção e a circulação de capital fictício em quantidade inimaginável encontram- se, especialmente ao longo das últimas duas décadas, com a concessão de hipotecas e enorme expansão de crédito pessoal para aqueles mesmos trabalhadores que não recebiam aumento real de salários desde 1973.

 

Incentivado pela espantosa criação de dinheiro privado, o consumo sustentado parecia indicar que tudo estava muito bem, florescente mesmo.

 

Até às vésperas da crise, Wall Street, com todas as suas gambiarras outrora eufemisticamente conhecidas como “inovações financeiras”, atraiu não só capital mundial suficiente para reciclar a contento os excedentes obtidos pelos demais países e até mesmo sustentar certa reconversão destes em mais investimentos produtivos, mas também novas vendas para os Estados Unidos, o que provocava novos superávites daqueles países e, assim, a continuidade, em dimensão ampliada, da mesma roda-viva.

 

Entretanto, os desequilíbrios no comércio internacional continuavam a crescer.

 

Quando a música parou, o número de cadeiras era pequeno demais para aqueles que circulavam freneticamente à volta. O dinheiro privado evaporou-se e o sistema bancário quebrou.

 

O resto é a História divulgada pelos jornais…

 

Fevereiro de 2019

Henrique em Praga.jpg

Henrique Salles da Fonseca

 

FONTES:

http://www.scielo.br/pdf/ts/v29n2/1809-4554-ts-29-02-0014.pdf

https://outraspalavras.net/mundo/varoufakis-e-o-mundo-parasitado-pelos-eua/

https://abemdanacao.blogs.sapo.pt/mitologia-grega-2-1488256

 

 

CHAU MIN – 5

 

DA GLOBALIZAÇÃO

 

Sim, reconheço que «cá fora»[1] também há casos lastimáveis de quem trabalha sem condições de dignidade, remuneração, higiene e segurança. Dizer o contrário seria mentir e ocultá-lo seria escandaloso.

 

No comentário de «Anónimo» no «CHAO-MIN – 3» a que ora me refiro, a crítica incide sobretudo na minha frase relativa aos produtos resultantes do trabalho prisional na China que concorrem com os "homólogos produzidos por quem tem direitos humanos".

 

Com diplomática ironia, o Comentador calcula que eu me esteja a referir à «civilizadíssima mercadoria com etiqueta "ocidental" (que concorre com a chinesa nos mercados mundiais), produzida em condições laborais fabulosas, com um não menos fabuloso respeito pelos direitos humanos, em países como o Vietname, Bangladesh, Paquistão, Tunísia, Marrocos e mais alguns felizardos, denodada e alegremente enquadrados e defendidos por organizações, sindicais e outras, que lhes conseguem gordíssimas remunerações e condições de vida absolutamente invejáveis».

 

A este cenário – lastimavelmente real - eu acrescentaria ainda a questão do trabalho infantil que a essa condição, a da infantilidade, soma todas as descritas acima.

 

Contra factos, os únicos argumentos que poderão vingar serão os que conduzam à correcção das ditas condições de miséria.

 

A diferença que existe entre a China e os outros países «cá de fora» nessas práticas vergonhosas é a de que na China se trata duma política de Estado enquanto, nos outros, se trata de desleixo de Estado.

 

Conheço uma parte da China onde não me foi possível verificar o que afirmo porque não é suposto os turistas sequer saberem dessas realidades e muito menos vê-las e conheço outros países «cá de fora», nomeadamente a Índia em grandíssimas extensões. Dos países citados acima, posso mesmo dizer que conheço a Índia, Marrocos e o Vietname melhor do que, respectivamente, a maior parte dos indianos, dos marroquinos e dos vietnamitas. Quanto à Indonésia, não me arrogo um conhecimento tão extenso mas, mesmo assim, pude conhecer a ilha de Java (assim como Bali) numa extensão apreciável, tanto urbana como rural e respectivos matizes intermédios.

 

Vamos por partes:

  • Na Indonésia não vi miséria e mais não me ocorre dizer nesta circunstância;
  • Em Marrocos vi uma sociedade medieval que como tal deve ser considerada, mas onde o investimento estrangeiro (nomeadamente português) vem criando condições de vida bastante mais favoráveis do que as que se imagina existissem anteriormente;
  • No Vietname, vi instalações industriais que me informaram serem o resultado da deslocalização da China mas como constatei um nível médio de vida muito superior ao chinês, presumo que a deslocalização não tenha ocorrido em busca de condições laborais mais abjectas do que no local de onde foram deslocalizadas.

Miséria na Índia.jpg

https://www.youtube.com/watch?v=OHuNE1P8S3s&feature=youtu.be

 

O problema «cá fora do Império do Meio» chama-se Índia onde, aí sim, tudo raia o abjecto. O cúmulo do desprezo dos políticos para com os respectivos «eleitores» verifica-se, dentre as amplas regiões que conheço, em Estados tão populosos como o Rajastão, o Uttar Pradesh e, sobretudo e no seu maior “esplendor”, no Tamil Nadu. Duvido que haja no resto do mundo locais onde o desprezo pela dignidade humana toque mais baixo na escala dos Valores concebidos por uma qualquer Civilização. Talvez só em Auschwitz ou em Treblinka tenham chegado a maior rigor.

 

E onde quero eu chegar com estes últimos considerandos? Muito simplesmente à constatação de que tudo o que o investimento – especialmente o estrangeiro - faça nessas zonas seja da maior importância para a sobrevivência imediata de alguns (sempre poucos) desgraçados que estavam encaminhados para a morte ao abandono nas lixeiras que são as ruas das cidades e aldeias indianas. Então, apesar de muito abaixo do que se exige nas sociedades ocidentais, os novos padrões de sobrevivência de que os funcionários dessas empresas estrangeiras na Índia passam a usufruir são tão melhores do que os que tinham antes, que tudo lhes parece um «el dorado» apesar de, para nós, tudo continuar a ser horrível.

 

Há quem diga que essas condições abjectas de sobrevivência resultam de conceitos civilizacionais, que não podemos fazer comparações com aquilo que a nós, ocidentais, nos parece correcto, desejável ou apenas razoável.

 

Não, eu creio que esse entendimento não corresponde à essência da questão pois, na mesma Índia, vamos por exemplo ao Estado do Kerala e não vemos um papel no chão, não vemos hordas de desamparados nem sequer de mendigos famintos, vemos as obras públicas em andamento e não paradas por falta de financiamento atempado como no Tamil Nadu, vemos uma classe média tranquila e firme.

 

Creio, pois, que a diferença não é civilizacional; à diferença chama-se corrupção dos políticos que desprezam os respectivos «eleitores» e não se cansam de enriquecer enquanto lhes dura o mandato. E, no final, não olham a meios para se eternizarem no Poder como acontece um pouco por toda a parte nessa a que há quem chame a maior democracia do planeta.

 

Exactamente: na Índia, o bem comum não é um conceito tão comum como o bem individual dos políticos e essa é uma questão que nada tem a ver com a Civilização mas sim com a qualidade da democracia que por lá dizem existir.

 

Finalmente, creio que o investimento, nomeadamente esse que por lá faz produtos de «etiquetas ocidentais», deve ser aplaudido por estar a minorar as condições degradantes daqueles desgraçados que, em alternativa, morreriam ao abandono no sítio onde deveria haver uma sargeta se, ao menos, houvesse saneamento básico.

 

Quanto ao trabalho infantil, por muito horrível que nos pareça, sempre são menos essas crianças destinadas à morte abjecta na selva humana.

 

Eu vi, sei do que falo.

 

E é para continuar assim? Sim, será, sobretudo se nós nada fizermos para mudar a condição que criticamos. Anjezë Gonxhe Bojaxhiu[2] não se ficou pela crítica, agiu.

 

Dezembro de 2018

Tamil Nadu.pngHenrique Salles da Fonseca

(Tamil Nadu, em Trichy, nas margens do rio Cauvery, local de peregrinação e purificação dos hindus na que é chamada de «a Varanasi do sul»)

 

[1] - Fora da China

[2] -Madre Teresa de Calcutá

CHAU MIN – 4

Nixon-Chou En Lai.jpg

THANK YOU, MR. NIXON!

 

Sim, reconheço que desde a queda do padrão ouro, todas as moedas são intrinsecamente falsas e a única verdade que as sustenta é a confiança que as pessoas nelas depositam – fiducia, como diziam os antigos.

Thank you again, Mr. Nixon!

Portanto, todas são falsas mas… há umas mais falsas que outras.

E se a confiança é o mais palpável que se encontra à volta duma moeda, reconheçamos que, para volatilidade, basta. Venha algo mais substancial que fundamente tanta espiritualidade.

O quê?

Várias coisas, de que destaco:

  • Política orçamental inclusiva, não parcial
  • Emissão monetária controlada, sem laxismos para cobertura de défices excessivos e descontrolados
  • Política cambial sem golpes baixos tais como as desvalorizações discretas
  • Banimento dos artificialismos na formação dos preços

Com este tipo de «coisas», acredito que se possa acreditar na moeda; sem elas, não!

É que se queremos que a confiança sustente a moeda, temos de evitar desvirtuamentos por via das intervenções administrativas.

Eu suma, temos que ser liberais.

Não estou a ver que nada disto aconteça na China nem que lhe seja possível imitar os EUA quando levaram o Dólar à liderança mundial.

E desde já declaro que não tenciono aplicar as minhas poupanças em títulos representativos de Yuans. Tenho mais confiança no BCE e no seu DM travestido em Euro do que na política de emissão americana e muitíssimo mais do que o que nestas matérias se passe em Pequim.

Enquanto escrevi as linhas que antecedem, lembrei-me de Varoufakis e do seu livro «O Minotauro global» onde disserta largamente sobre o tema relativamente aos EUA, donde resulta a minha convicção de que a China não possui a estrutura política (nem mental) para conseguir fazer algo semelhante e nem sequer parecido.

 

Dezembro de 2018

Barranco, Lima, Peru, 12 de Outubro de 2017.jpg

Henrique Salles da Fonseca

CHAU MIN – 3

TEMPOS TRAVESSOS

 

Humanismo chinês… o que é isso?

 

É sabido que já os chineses andavam vestidos de seda e bebiam chá com aromas diversos quando ainda nós na Europa andávamos mal cobertos com peles de animais mortos à paulada e bebíamos… mais vale não investigar.

 

Todos conhecemos Confúcio, Mêncio e muitos outros que da lei da morte se foram libertando mas basta sabermos que o taoismo enfatiza o anarquismo defendendo essencialmente a ideia de que não precisamos de nenhuma orientação centralizada para compreendermos como a revolução comunista provocou uma solução de continuidade civilizacional muito maior do que nos poderia passar pela imaginação não avisada. E por causa dessa tradição fundadora foram assassinados alguns milhões de civilizados, taoistas e confucionistas, que desagradavam a Mao Tsé Tung e aos seus guardas vermelhos.

 

A questão que hoje trago é: qual o conceito que os dirigentes chineses nossos contemporâneos fazem de humanismo quando eles próprios são os sucessores dos sobreviventes das purgas de Mao?

 

Não vale a pena especularmos sobre as consequências da ruptura provocada por Mao na civilização chinesa, basta constatarmos a realidade actual que transpira cá para fora do «Império do Meio», obra dos «netos da revolução»:

china-labor-camp001.jpg

  • Multidões de presos políticos submetidos a trabalhos forçados
  • Pena de morte por «dá cá aquela palha»
  • Inexistência de liberdade de opinião
  • Movimentação condicionada
  • Inexistência de liberdade de estabelecimento

 

Conclusão: niilismo humanista e, sim, continuam por lá os tempos travessos.

 

E em resultado do trabalho escravo - todo o prisional e mais aquele ferrenhamente controlado pelos «sindicatos» governamentais – que produtos vêm cá para fora concorrer com os homólogos produzidos por quem tem direitos humanos?

 

Humanismo chinês… não há!

 

Dezembro de 2018

Macau-DEZ06.jpgHenrique Salles da Fonseca

(Macau, Dezembro de 2005)

CHAU MIN – 2

tiro-no-pe.jpg

O TIRO NO PÉ

 

A grandeza da China deve-se, em primeiro lugar, ao facto de ela ser grande em termos absolutos e, em segundo lugar, ao outro facto de ter sido o Ocidente que a fez grande em termos relativos.

 

Cada um de nós, com mais de 60 anos, é um autêntico documento coevo do processo de deslocalização empresarial do centro civilizacional e de progresso formado pelo eixo Europa Ocidental-América do Norte para as respectivas periferias e para o Extremo Oriente. Bem nos lembramos como tudo começou com o encontro Nixon-Chu En Lai em 1972…

 

O objectivo imediato era o de ajudar a China a «dar o salto» por cima do atoleiro em que Mao Tsé Tung a metera e, numa fase posterior, o de a afastar progressivamente do vício comunista. O instrumento seria pela instalação na China de empresas que criassem novos postos de trabalho, introduzissem tecnologia moderna, formassem o pessoal e abastecessem o mercado doméstico chinês de modo a que a população pudesse ir ganhando melhores níveis de satisfação das respectivas necessidades.

 

E o que aconteceu?

 

Sim, aconteceu isso e muito mais. As empresas ocidentais gostaram de uma mão de obra muito barata, de um ambiente laboral avesso à contestação por estar domesticado por «sindicatos» fictícios e pela inexistência dessa maçada que é a legislação ambiental. De tal modo que começaram a pensar que a China poderia ser um antídoto contra os Sindicatos ocidentais e uma fuga aos maçadores do ozono e outras bexiguices quejandas. E se bem o pensaram, melhor o fizeram deslocalizando para a China não apenas as empresas destinadas ao abastecimento daquele mercado mas também as que tinham ficado na base. E o mercado mundial ficou espojado aos seus pés.

 

A consequência mais mediática foi a falência da Cidade de Detroit mas convenhamos que deve ser interessante trabalhar em capitalismo descontrolado, selvagem, com desobrigações sociais, mão de obra especialmente barata e dócil, em défice ambiental sem preocupações com efluentes gasosos, pastosos, sólidos ou…

 

A globalização é isto mesmo: o nivelamento por baixo, um tiro nos pés de quem estava habituado a mordomias que não existem em Xangai.

 

Dezembro de 2018

Xangai-DEZ06-1.jpg

Henrique Salles da Fonseca

(Xangai, Janeiro de 2006)

CHAU-MIN – 1

A BORRASCA

MEGA BORRASCA.jpg

 

Hoje trato do Petroyuan.

 

A ideia é a da desdolarização do comércio externo chinês passando a China a pagar as suas importações de ramas de crude em Yuans ficando os países seus fornecedores com Yuans suficientes para pagarem as importações de produtos chineses.

 

Muito bem, percebe-se facilmente que a China queira lançar a sua moeda no mercado internacional.

 

Pois! Só que o Yuan ainda é uma moeda falsa. E se os mercados internacionais passam a aceitar moeda falsa, então o FMI terá toda a razão ao prever que a borrasca está a chegar de novo.

 

E por que é que o Yuan é uma moeda falsa?

 

O Yuan é uma moeda falsa porque não é conhecida a política monetária que lhe está subjacente.

 

Como assim?

 

Muito simplesmente porque…

  • a política orçamental do Estado Chinês é opaca uma vez que…
  • o orçamento do Partido Comunista Chinês é segredo de Estado
  • o orçamento das Forças Armadas Chinesas é segredo de Estado
  • o Banco Central da China mais não é do que um «departamento» do Partido Comunista Chinês
  • a cotação do Yuan é definida por Decreto

 

Ou seja, tudo é falsidade e só acredita no Yuan quem não tenha alternativa, os próprios chineses.

 

E como é com as empresas?

 

A China não tem um POC e cada empresa apresenta as contas em conformidade com a liberdade imaginativa que o mesmo é dizer que tudo vale, talvez mesmo a famosa martelada. Eufemisticamente, as empresas chinesas são o «el dorado» da engenharia financeira. Nelas, tudo pode ser assim como assado.

 

Mas isto não seria perigoso se se tratasse de empresas domésticas. O problema está em que as cotadas em Bolsa também se regem pela putativa martelada.

 

Portanto, se não se pode acreditar na moeda chinesa nem no verdadeiro valor das empresas chinesas, quem pode acreditar na China e que futuro pode ter o Petroyuan?

 

Repare o Leitor que me ative apenas a matérias muito profanas e não abordei a outra questão maior, a política. Talvez um dia destes o faça se, entretanto, não estalar a borrasca.

 

Dezembro de 2018

Xangai-DEZ06-2.jpg

Henrique Salles da Fonseca

(em Xangai, Janeiro de 2006)

 

EURO - MOEDA COMUM?

EURO ZERO.jpg

 

Acho uma certa graça ouvir os que se referem ao Euro como a moeda comum aos países da chamada «eurolândia». Será que acreditam mesmo no que dizem?

 

É que o Euro só é comum no nome por que optaram os países que a ele aderiram pois, quanto ao mais, cada país vale por si e não pode contar com mais nada para além das obrigações que com a adesão assumiu. Refiro-me à paridade perante moedas terceiras, o que implica uma política monetária e cambial praticada pelo Banco Central Europeu e não mais pelos ex-bancos centrais. E quase só isso.

 

É que no relacionamento inter-pares, tudo funciona como se cada um valesse por si. E é isso mesmo, cada um vale mesmo só por si. Ou tem crédito sobre os demais ou não tem esse crédito e tudo falha no que se refere à «solidariedade financeira».

 

Se um banco do país A esgotar o crédito que tenha sobre os bancos do país B, C ou D, deixa de ter capacidade de financiamento das transacções que os seus clientes queiram fazer com origem nesse país B, C ou D, importações nomeadamente. Mesmo que o cliente lhe tenha depositado os Euros (internos) para financiamento da operação em causa. É que os Euros cá de dentro não significam crédito lá fora, em Euros de lá.

 

Ou seja, tudo se assemelha ao antigamente: ou o nosso banco tem crédito sobre os seus parceiros externos ou não o tem. E não o tendo, tudo cessa se o nosso banco não se quiser expor de tal modo que a solução seja do tipo da absorção do devedor pelo credor.

 

Portanto, chamar moeda comum ao Euro pouco menos é do que mero bluff. É, sim, uma moeda com nome comum e quase só isso mesmo.

 

20 de Outubro de 2018

Henrique Salles da Fonseca.png

Henrique Salles da Fonseca

PENSANDO…

grafico-dinheiro.jpg

 

Numa época em que os juros estão a subir nos mercados financeiros internacionais, lembro-me do tal «figurão» que dizia que as dívidas não são para pagar.

 

E apesar do título do presente escrito inspirar racionalidade, começo com um dogma que, por definição, dispensa racionalidade:

 

Uma pessoa de bem, paga o que deve

 

Este dogma aplica-se tanto na dimensão micro como na macro, ou seja, às pessoas e aos Estados. Porque, ao contrário do que disse esse tal «figurão», as dívidas são mesmo para pagar.

 

Então, deixando a questão da dívida micro ao cuidado dos contabilistas, a nível macro a dívida global tem duas componentes: a pública e a privada, ambas com as vertentes interna e externa.

 

A dívida pública é a que vem sendo mais referida pela comunicação social mas a privada também tem que se lhe diga – e muito.

 

A dívida pública, constituída para financiar os défices públicos, só pode ser reduzida na medida dos superávites públicos; a dívida privada externa– a que mais me preocupa - só pode ser reduzida na medida dos saldos positivos da balança de transacções correntes.

 

Enquanto não tivermos saldos positivos nas contas públicas, não reduziremos o stock da dívida pública; se não tivermos saldos positivos na balança de transacções correntes, o sistema bancário nacional continuará a endividar-se sobre o exterior persistindo na via da falência ou, no mínimo, da absorção pela banca estrangeira.

 

Temo que o Orçamento de Estado para 2019 nada tenha muito a ver com este tipo de preocupações. É claro que se trata de um Orçamento folclórico para entreter a esquerda caviar e a ferrugenta na certeza, porém, de que as «centenárias» cativações o vão pôr nos conformes com as necessidades da redução do stock da dívida pública. Sim? A ver vamos por causa das eleições…

 

E quanto à dívida externa privada? Ah! Aí pia muito mais fininho e o problema só se resolve com mais falências bancárias. Qual será o próximo?

 

19 de Outubro de 2018

037.JPG

Henrique Salles da Fonseca

(Setembro de 2018, algures na Indonésia)

A CAMINHO DO CÉU… (7)

Caos e ordem.jpg

 

DO CAOS E DA ORDEM

ou

«DA FINNE AL CAPO»

 

A aculturação das populações pelos grandes meios de comunicação a um modelo standard e globalizado corta o acesso às raízes culturais mais endógenas e isso anula qualquer ética étnica, essência da cultura mais genuína dos povos.

 

Uma vez desenraizadas e fidelizadas a novas «divindades» tão motivadoras como as telenovelas (e seus complementos, os telejornais), às legiões pseudo desportivas ou aos clubes políticos, as multidões deixam-se esmagar pelo stress publicitário, acreditam na demagogia partidária e sindical que as convence de que a tudo têm direito, usam e abusam do crédito que a banca lhes apresenta como se de mais um direito se tratasse, endividam-se para além dos limites do razoável e, quando menos esperam, vêem-se falidas e perseguidas pelos algozes ao serviço dos «deuses» em que foram induzidas a acreditar.

 

Se a todo este absurdo somarmos a mentira institucionalizada a que está na moda chamar-se a «pós-verdade» e eufemizarmos a realidade acima descrita chamando-lhe «cenário quântico», então continuaremos na fuga para a frente rumo à completa irracionalidade.

 

Colhe, assim, perguntarmo-nos como estaríamos agora se as multidões já se tivessem apercebido do ocaso dessa «religião» que dá pelo nome de Hedonismo e do respectivo «deus», o Prazer.

 

E a questão é: - Como hão-de as multidões erguer-se acima do caos e emergir à luz do Sol?

 

Então, a resposta é: - Pela reintrodução de significados tão antigos como o bem e o mal.

 

E lendo D. Manuel Clemente no seu livro “1810-1910-2010 DATAS E DESAFIOS” (pág. 121), «as coisas não são boas ou más porque Deus as mande ou as proíba; antes as manda porque são boas e as proíbe porque são más».

 

Ou seja, tanto o bem como o mal existem fora da discussão teológica e por isso também é possível erigirmos uma Ética laica. Não ser religioso não é, portanto, desculpa.

 

E onde está o mal?

 

O mal está no contrário do bem. Assim, basta encontrarmos o bem para que, no seu oposto, encontremos o mal.

 

E o que é o bem?

 

O bem é o que está conforme à ética e à moral sendo esta a questão dos princípios e aquela a dos factos.

 

A proposta laica (mas enquadrável religiosamente) que aqui endereço a todas as pessoas de boa vontade é a condição ética definida pela síntese do «eu, tu, ele»: o que é que eu quero, posso e devo fazer por ti sem o prejudicar a ele, esse terceiro que pode nem sequer ser nosso conhecido?

 

Uma atitude inicial que parte do voluntarismo traduzido pelo «quero», que reconhece – com mais ou menos humildade – as limitações pessoais através do «posso» e que se auto impõe o «dever»: altruísmo, humildade, sentido do dever.

 

E aí está ele, o contrário do bem, o mal representado pelo egoísmo, pela arrogância e pela irresponsabilidade.

 

Então, passando do singular ao plural na síntese do «nós, vós, eles», chegamos ao bem-comum (a que também poderemos chamar «Sentido de Estado»): o que é que nós podemos fazer por vós sem os prejudicar a eles, esses terceiros que não sabemos sequer quem são.

 

E assim regressamos à questão estaminal da distinção entre o bem e o mal.

 

Estes são temas sobre que nunca é demais pensar e sem o que nunca chegaremos ao Céu.

 

E foi preciso andar tanto para, afinal, regressarmos aos primórdios da Civilização?

 

Sim, é que, como dizia Hölderlin, o poeta atacado de mansa loucura, «somos originais porque não sabemos nada».

 

FIM

 

O caos e a ordem.jpg

 Henrique Salles da Fonseca

(Setembro de 2018, em Bali, frente ao caos e à ordem)

 

A CAMINHO DO CÉU… (6)

 

THE POWER “OR” THE GLORY[1]

MAGNATA.png

 

Hoje, escolho “O crepúsculo do dever”[2] como o livro de Gilles Lipovetsky que me parece mais apropriado para o tema que me move neste escrito, o da morte prematura da moral e da ética.

 

(...) A sociedade post-moderna ou post-moralista designa a época em que o dever se adocicou e tornou anémico, em que a ideia do sacrifício pessoal se ilegitimou socialmente, em que a moral já não exige que as pessoas se devotem a uma causa superior, em que os direitos subjectivos dominam os mandamentos. Na sociedade post-dever, o mal transformou-se em espectáculo, o ideal pouco engrandecido. Se perdura a crítica do vício, o heroísmo do bem enfraquece. Os valores que reconhecemos são mais tidos como negativos do que como positivos. Por trás de uma falsa revitalização ética, triunfa uma moral indolor, último estádio da cultura individualista democrática. (...) [pág. 57 op. cit.]

 

Na sequência do que chegámos à filosofia do poder, aquela em que o grande objectivo é o poder e que resulta claramente de um espírito de permanente competição. Como cada vitória tenderá a elevar o nível dessa mesma competição, o final lógico de tal filosofia é o poder ilimitado e absoluto. Aqueles que buscam o poder podem não aceitar as regras éticas definidas pelos costumes, a tradição e, pelo contrário, adoptam outras normas e regem-se por outros critérios que os ajudam a obter o triunfo. Tentam mesmo convencer as outras pessoas de que são éticos no sentido do objectivo supremo por eles definido tentando conciliar o poder e o reconhecimento da moralidade.

 

Assim foi que se sentaram na cadeira do poder muitos daqueles para quem a ética dos costumes virtuosos, das leis naturais, da fé, do voluntarismo e da disciplina são palavra vã. Daí ao poder absoluto, à ausência de regras consensualmente construídas, ao Direito «pret à porter» e à dissolução do Estado de Direito, vulgo o fascismo, não dista muito ou não dista mesmo nada. Ignorados os princípios que definem o bem-comum, instala-se o “salve-se quem puder”, instala-se a razão da força em oposição à força da razão.

 

Globalizado e sacralizado o império da competição desenfreada, não mais resta qualquer esperança de sobrevivência aos que não sejam campeões. E a alternativa para os não campeões – em que o 2º classificado mais não é do que o 1º vencido – é unicamente a de serem servos. Servos mais ou menos mitigados, mais ou menos engravatados, numa gaiola mais ou menos doirada mas servos e apenas servos.

 

O poder mal alcançado é o oposto da glória e por isso me apetece voltar a Popper para, com ele, lastimar que, perante tanta desgraça, «só nos reste ir para o Inferno».

 

Mas não, pelo contrário, opto pelo título verdadeiro do romance de Graham Greene, «THE POWER AND THE GLORY».

Yoguakarta-templo hindu.JPG

 Henrique Salles da Fonseca

(templo hindu, Yogyakarta)

 

[1] - Corruptela do título do livro de Graham Greene, “THE POWER AND THE GLORY”

[2] D. QUIXOTE, 4ª edição, Maio de 2010

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2006
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2005
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2004
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D