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A bem da Nação

ELA AÍ ESTÁ, A VACINA

ou

O VALOR DO DINHEIRO

 

Nas autocracias, o dinheiro vale o que é determinado por Decreto; nas democracias, o dinheiro vale tanto ou tão pouco quanto as pessoas acreditem mais ou menos nele.

Mas não só…

A política de emissão monetária, a política de taxas de juro, a política orçamental, eis alguns dos instrumentos ao dispor dos políticos que influenciam directamente o valor do dinheiro. De um modo algo simplista e grosseiro, quanto maior a emissão monetária, mais a tendência para a desvalorização se faz sentir; quanto mais altas as taxas de juro, maior a tendência para a valorização; quanto mais deficitárias forem as contas públicas (política orçamental), maior a tendência para a desvalorização.

* * *

Covidado o mundo, instalado o caos económico e elevada a mortalidade das gentes para níveis absurdos, todos esgotámos as preces e só nos resta a esperança na eficácia das vacinas anunciadas. E, umas mais cedo e outras logo depois, aí vêm elas… Aleluia!

Mas a crise económica devastadora em que nos encontramos é… economicamente absurda. Sim, esta crise foi gerada por um elemento exógeno a todas as políticas económicas e financeiras em curso em toda e qualquer parte do mundo antes da entrada em jogo desse elemento exógeno, o vírus. Ou seja, uma vez dominado (extinto, de preferência) esse elemento estranho, tudo tenderá a retomar o que estava em funcionamento antes da hecatombe. Assim sendo, esperemos por uma explosão das taxas de recuperação económica. Admito mesmo que essa explosão começará ainda antes da vacinação global da Humanidade e que não tardarão tensões típicas de variações bruscas.

As variações bruscas ocorrerão sobretudo no investimento para repor em funcionamento as empresas que hibernaram durante a crise e no consumo das famílias de todos os desempregados ou «layoffados» que regressam ao trabalho. Os juros dos empréstimos tenderão a subir, o nível de preços dos bens de consumo corrente tenderá a subir. Excluindo o drama das empresas que morreram por não terem sido atempadamente socorridas, as que hibernaram e sobreviveram foram aguentadas por fundos próprios e por alheios, nomeadamente por subsídios a fundo perdido, subsídios reembolsáveis e endividamento puro e simples.

A ironia do presente texto está no alerta para o que se vai seguir à presente situação de enorme dramatismo com o flagelo da morte empresarial, a acumulação de créditos incobráveis, o desemprego em níveis seguramente muito superiores ao que os números oficiais referem, com o «Banco Alimentar Contra a Fome» a fazer notícias nos telejornais… e venho eu aqui tratar das tensões geradas pelo desenvolvimento brusco.

Mas a crise só será eterna para quem morrer antes de ela acabar e uma vez vislumbrada a luz ao fundo do túnel, a vida retomará o seu curso… com défices públicos exorbitantes e com uma massa monetária extravagante em resultado da emissão «à la diable» sobretudo para os tais subsídios a fundo perdido. E essa extravagância ou é rapidamente reabsorvida ou corre-se o risco de ela provocar um tsunami inflacionista a nível mundial.

A questão é agora a de saber como se fará essa reabsorção. Pela via fiscal? Mas as famílias e as empresas ainda mal despertaram de regresso à vida e já o Fisco lhes bate à porta com carga acrescida? Solução de muito difícil digestão.

E o que se passará com os exorbitantes défices públicos? Alguém os há-de financiar mas as taxas de juro subirão a níveis há muito esquecidos no primeiro mundo. A menos que a Senhora Lagarde faça das tripas coração e puxe as taxas para baixo como fez o seu antecessor, nomeadamente metendo o BCE nos mercados primários e recorrendo às quantitative easies. Tudo, mantendo o Euro sustentadamente forte, herdeiro do Deutshe Mark federal para que as pessoas possam continuar a acreditar nele. Aliás, não por patriotismo monetário mas apenas porque as desvalorizações apenas servem para encobrir problemas de competitividade.

Conclusão: depois da crise pandémica, resta-nos a austeridade global ou as vagas sucessivas de tsunamis inflacionistas, o descalabro globalizado da qualidade de vida. E isso não augura nada de bom para a paz mundial.

Votos de boa vacinação.

Dezembro de 2020

Henrique Salles da Fonseca

DIA DE PORTUGAL

 

10 DE JUNHO D 2020

 

Na Festa Nacional, é suposto referir temas estruturais da Nação mas desta vez quase apetece perguntarmo-nos se a pandemia em curso pode ser citada como mera ocorrência conjuntural ou se, tendo efeitos tão profundos e muito mais perenes do que uma «simples gripezinha» ou se, pelo contrário, deve ser considerada um factor estrutural.

Deixando-me de discussões académicas de importância nula, tenho a pandemia como tema que não pode ser ignorado na nossa Festa Nacional. E peço a todos que leiam estas linhas que dirijam um pensamento a favor de todas as pessoas que o COVID 19 já vitimou.

Muitos óbitos, imprescindível confinamento, economia em colapso, é claro que se trata de ocorrência de efeitos perenes.  Mas a causa da crise é totalmente exógena ao modelo económico que funcionava antes do desastre mundial. Ou seja, logo que esse efeito externo seja neutralizado, o modelo pode retomar o funcionamento sem necessidade de correcções estruturais. Daqui resulta que a economia pode retomar plenamente tão rapidamente quanto se liberte dos condicionamentos sanitários. Este um pensamento positivo que aqui deixo nesta dia de festa.

Contudo, esta paragem forçada é uma boa oportunidade para revermos o modelo naquilo em que o devemos melhorar e isso, creio, passa pelo retorno ao Ocidente das empresas que ao longo dos anos foram sendo deslocalizadas para a China na ânsia do aproveitamento da mão de obra barata e da exploração daquele mercado potencialmente imenso.

 E a pergunta é: - Como fazer esse retorno se as empresas são privadas e as políticas públicas não mandam nelas?

A resposta vem nos livros: - Direitos aduaneiros sobre as importações com origem na causadora da pandemia, a China, bem como irrecusáveis incentivos ao investimento no processo de retorno.

O Ocidente tem necessariamente que regressar à produção de bens transacionáveis. Ou seja, o futuro do Ocidente está nas suas próprias mãos e, nesse enquadramento, o de Portugal. Assim tenhamos vontade para assentarmos num conceito de bem-comum que o seja efectivamente e não como estes  ensaios carnavalescos e folclórico-demagógicos de base leninisto-gramsciana que nos têm sucessivamente conduzido à bancarrota.

10 de Junho de 2020

Henrique Salles da Fonseca

SEM PÉS NEM CABEÇA

Anunciou o Ministro das Finanças um Orçamento para 2020 com um superávite de 0,12% do PIB e logo o BE exigiu o reforço de 800 milhões de Euros (M€) da verba destinada à Saúde; seguiu-se o pedido dos Liberais para que, prevendo-se um «lucro» do Estado, se procedesse à baixa dos impostos.

Onde já irá o «lucro»?

O que estava na génese desse «lucro» era a suborçamentação das despesas, nomeadamente da Saúde, ou seja, tratava-se de propaganda às capacidades gímnicas dos artistas em pista. Como assim? Muito simplesmente porque parece que a dívida a fornecedores do SNS ronda os 700M€ pelo que do reforço de 800M€ apenas sobrariam 100M€ se se pagasse tudo o que se deve. Mas o Governo já fez saber que desse reforço apenas 500M€ se destinam a fornecedores (há quem fique a «arder» em 200M€) e que o resto servirá para recrutamento de Pessoal.

Mas se o Governo não perder o tal superávite de vista, vai ter que gerir a execução orçamental com a finura de um violinista e não com a rudeza de um halterofilista. Ou seja, vai dizendo à esquerda que sim e mais que também mas não vai recrutar as hordas de «saudosos»[1] que o BE pretende e vai mesmo ter que dar umas marteladas por aqui e por ali pois não poderá aguentar a ira dos fornecedores se não quiser suportar as consequências de uma ruptura nos abastecimentos aos hospitais. O lençol é curto, ou tapa a cabeça e destapa os pés ou o contrário.

Seguindo-se o pedido dos Liberais para que se faça uma redução da carga fiscal, daqui lhes digo que muita sorte teremos se conseguirmos passar 2020 sem um agravamento dos impostos.

Superávite sem martelada? Isso só fazendo contas sem pés nem cabeça.

Dezembro de 2019

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Henrique Salles da Fonseca

 

 

[1] - Trabalhadores da Saúde

À MARTELADA

Naipe percussão.jpg

«Si j’avais un marteau» - assim cantava Claude François nos idos de já não sei quando do século passado. Mas o Dr. Centeno tem-no e martela que se farta nestes prolegómenos do Orçamento do Estado para 2020 que se prepara para convencer o Parlamento a dar à luz.

Foi logo aos primeiros alvores da «temporada orçamental» que gostei de saber que o Governo – pela boca do Ministro das Finanças - anunciava o objectivo de um saldo positivo de 0,12% mas, passada a primeira impressão, logo me perguntei até que ponto estava a ir com a minha candura. Estava a ser wishful thinking, a sonhar acordado.

Esquecia-me de que a esquerda – génese do Governo e de quem o apoia – pensa mais na distribuição da riqueza do que na sua produção, donde resulta que o equilíbrio das contas públicas se deve fazer sobretudo à custa da receita e nunca pela via da redução da despesa.

Estava-me a esquecer de que a suborçamentação da despesa é uma manobra incompatível com a verdade do azeite e, na conjuntura política, incompatível com o apoio parlamentar de que o Governo carece para ver o «seu» Orçamento passar.

Estava-me a esquecer de que os membros do Governo usam a boca para apregoarem políticas de esquerda mas que, confrontados com as realidades, lhes fogem as cabeças para a direita, ou seja, para a austeridade que dizem ser maligna mas que sabem ser imprescindível.

Estava-me a esquecer de que o Governo não tem base política para introduzir as correcções estruturais – que nega mas que sabe necessárias - no SNS nem acabar com a persistente sovietização da educação.

Por tudo isto e por mais alguns pontos em cujo esquecimento eu esteja a persistir, não vejo que o tal superávite de 0,12% se consiga alcançar do modo que eu gostaria, pela redução da despesa e pela redução da carga fiscal. A menos que os Partidos da não esquerda se decidissem por um posicionamento que, negociando a reversão das políticas que estão na calha, fosse efectiva alternativa ao cenário que se perspectiva.

Mas não. Estou mesmo a ser wishful thinking porque ao Ministro das Finanças não resta alternativa, terá que continuar à martelada no naipe da percussão desta orquestra desafinada entre políticas de esquerda e práticas de direita a que eufemisticamente o Dr. Costa chama «travões» e nós, os outros, chamamos cativações ou marteladas.

Dezembro de 2019

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Henre Salles da Fonseca

LÓGICA ARISTOTÉLICA

Uma das verdades mais axiomáticas que existe na lógica de inspiração aristotélica diz-nos que dos resultados das experiências nunca experimentadas, não se podem conhecer os resultados.

E a pergunta é: - Como teria sido o crescimento europeu caso a política monetária tivesse sido diferente da que o BCE praticou sob a égide de Mário Draghi?

 

crescimento-europeu-projetado.png

 

Ora, se em 2017 (e até mesmo em anos anteriores), os cenários que se perfilavam para 2018 e 2019 eram de clara redução das taxas de crescimento, fazía todo o sentido que se «alargassem os cordões à bolsa».

Foi perante perspectivas de abrandamento do crescimento que o BCE decidiu que a banca deveria pôr o dinheiro a circular em vez de o entesourar, nomeadamente em depósitos nele próprio, o BCE - daí, a redução drástica da remuneração desses depósitos até passar da remuneração à oneração (juros negativos). E para pôr a economia a mexer, nada melhor do que «secar» os mercados financeiros alimentados pelas dívidas soberanas para que a banca não se entretivesse com esse tipo de títulos e se encaminhasse mais determinantemente para a economia produtiva – daí, as quantitative easings, ou seja, a compra (de preferência à nascença, nos mercados primários) pelo próprio BCE das dívidas dos Estados. Como quem diz que o dinheiro é para circular, não para entesourar.

O que dizem os contrários?

Os contrários dizem que não haverá investimento se, antes, não houver poupanças e que, portanto, estas devem ser estimuladas por remunerações (juros) compensatórios, ou seja, sempre superiores à inflação. Por esta lógica, dizem que os juros negativos são absurdos. Pelo mesmo tipo de razões, são contrários aos quantitative easings pois estes secam um mercado em que a banca pode ter um meio de ganhar dinheiro e, daí, embaratecer o crédito que concede e não mais repercutir no vulgar depositante os custos que lhe são impostos pelo BCE.

Então, como dizia no início deste escrito, fica por saber o que teria acontecido se a política do BCE tivesse sido diferente da que efectivamente foi. Curiosamente, não ouvi críticas às quantitative easings como sendo um atestado indirecto de aprovação às políticas públicas a que há muito quem chame de perdulárias, as de esquerda. Mas, para mim, é óbvio que sim, são esse atestado integrando directamente as dívidas soberanas na política geral de juros baixos, quiçá negativos.

Com a saída de Mário Draghi da presidência do BCE e sua substituição por Christine Lagarde, admito que esta política de juros híper baixos (negativos) e de compra das dívidas soberanas vai chegar ao fim. Na dúvida, na sua última reunião sob a presidência de Draghi, o BCE decidiu comprar mensalmente até 20 mil milhões de euros de dívidas soberanas durante um prazo não definido e não mexeu nas taxas de juro. À saída, olhando para trás, dirá com aquele sorriso giocondesso que lhe conhecemos que, depois de morto, ainda vive.

Com Lagarde, os depósitos da banca no BCE voltarão a ser remunerados e ela, a banca, voltará a ter mão livre nos mercados das dívidas públicas. É claro que tudo servirá para embaratecer o crédito e para desonerar as poupanças do cidadão comum…

Aristote oblige.

Outubro de 2019

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Henrique Salles da Fonseca

O IMPÉRIO DO MEIO

As conversas são como as cerejas: agarrada a uma vem sempre outra e assim por aí além…

Já não sei como começou mas lembro-me de termos passado pela polémica marca chinesa de telemóveis e termos chegado ao valor real do Yuan.

E a questão a que chegámos, afinal, centra-se no conceito mais inesperado, na palavra «real», não no «valor». Que valor algum há-de ele ter, quanto mais não seja o que o Decreto determina.

Mas centremo-nos no que está em causa: quanto vale o Yuan?

E aqui se dividem as opiniões entre os que dizem que…

… está sobrevalorizado porque, depois de ter absorvido toda a massa quase incalculável das «senhas» (não convertíveis) que circulavam entre os chineses comuns, deveria ter-se desvalorizado para níveis certamente muito mais baixos do que o definido por Decreto;

… está subvalorizado para facilitar as exportações e dificultar as importações.

Desde já me coloco do lado dos que acusam o Yuan de estar sobrevalorizado.

Porquê?

Porque uma moeda cujo valor é definido por Decerto, não representa certamente uma economia transparente em que os preços se formem livremente. E isto mantém-se válido apesar de, entretanto, o Yuan ter sido indexado a um cabaz de moedas credíveis como são o Dólar americano, o Euro, o Yen e o Won da Coreia do Sul. Só que o valor de base é duvidoso pois ninguém me faz acreditar que a absorção de toda a massa monetária não convertível (o Renminbi não convertível) pelo sistema de uma única moeda em toda a República Popular da China, não tenha provocado grande mossa no valor da moeda que já então era convertível, o Yuan. E mais ainda, o «gato escondido com rabo de fora», revela-nos o Yuan, o Dólar de Hong Kong e a Pataca com o mesmo valor. Tudo cheira a artificial e, por causa da tal absorção da moeda não convertível, cheira a falsidade no sentido da sobrevalorização – o Yuan deveria ter um valor muito mais baixo.

Mas, para além destas anormalidades, há ainda outra que tem a ver com o volume de dinheiro anualmente lançado no mercado quando os orçamentos do Partido Comunista Chinês e das Forças Armadas chinesas são segredo de Estado. Qual a política monetária que sustenta uma tal opacidade orçamental? Sim, tudo me cheira a falso.

Quanto à hipótese de o Yuan já estar subvalorizado para sustentar as exportações e dificultar as importações, tenho a recordar que as desvalorizações…

… ou são discretas e decretadas depois do encerramento das grandes praças financeiras, de preferência ao final da tarde de 6ªs feiras para dar tempo à digestão do novo câmbio (até à 2ª feira seguinte) pelos mercados, ou…

… são deslizantes – o chamado «crawling peg» - de modo a que os preços se vão adaptando ao ritmo anunciado da própria desvalorização deslizante.

Em ambas as desvalorizações, os operadores económicos são beneficiados com a informação suficientemente atempada para se poderem adaptar aos novos câmbios e na respectiva correspondência a nível dos preços no mercado doméstico. E na actual sociedade da informação, é inútil pensar que o efeito surpresa exista.

Ora, se o instrumento da competitividade cambial era o efeito surpresa, então ele nunca existiu e actualmente, com a globalização, menos eficácia tal efeito poderia ter. A menos que haja preços tabelados e respectivo controlo policial, nessa situação, a ruptura dos abastecimentos só será evitada pelos mercados paralelos.

Eis por que cada vez mais tenho a política cambial por decreto como um bluff que, para além do mais, tenta esconder os factores da incompetitividade da economia cuja moeda é sujeita a tais desvalorizações. E a China tem outros motivos de salvaguarda da sua competitividade internacional a começar pela inexistência de sindicalismo livre e, consequentemente, pela prevalência de um mercado esclavagista de trabalho.

Então, se eu não acredito na política cambial que possa ou não estar subjacente ao Yuan, para quê preocupar-me com o tema?

Muito simplesmente porque a República Portuguesa se empenhou não há muito tempo em Yuans e o valor dessa moeda deixou de me ser indiferente: quanto mais desvalorizada, melhor para nós, seus devedores. É que eu, ao contrário de um tal que por aí anda, acho que as dívidas devem ser pagas – mas, se pudermos beneficiar de alguma desvalorização da dívida, tanto melhor.

15 de Outubro de 2019

Henrique Salles da Fonseca-16AGO16-2

Henrique Salles da Fonseca

MOEDERNIDADES - 3

Letras, livranças, cheques e outros títulos cambiários titulados em Bitcoins…  

Pergunta - Como é que uma moeda que se pretende imaterial assume a materialidade inerente àquele tipo de títulos?

Resposta – Não assume.

Conclusão – Até prova em contrário, as moedas virtuais serão, na sua funcionalidade, moedas de utilização parcial, moedas de segunda, moedas menores.

Pergunta – Como é feito o endosso inequívoco dos títulos cambiários caso também eles evoluam para a imaterialidade?

Resposta – Não se faz.

Conclusão – Chacota à parte, vinga a opinião daquele que dizia que «as dívidas não são para pagar».

Mas como não me quero pôr na posição de um «botas de elástico» e, pelo contrário, acho que se deve evoluir,  transcrevo o que ao Dr. Palhinha Machado parece necessário para que um novo sistema de pagamentos funcione:

[Tudo poderá funcionar] se a Base de Dados for consistente e se a sua consistência for testada movimento a movimento e a qualquer momento. Ora, a regra das “partidas dobradas” nos movimentos carregados, só por ela, não garante a ausência de discrepâncias e de erros (como a acção do BdP tem demonstrado à evidência). Outros testes de consistência bem mais robustos terão de ser adoptados, mas não tenho ouvido falar de quaisquer outros, para lá da prevista existência de imagens repetidas da Base de Dados (como se fossem múltiplos back-ups) por toda a rede (alguns outros testes de consistência vêm-me à ideia, mas talvez violem a legítima confiança dos utilizadores). E ficam sempre por saber duas coisas: (i) como serão corrigidos erros e discrepâncias que sejam detectados, uma vez que este “sistema de pagamentos” não está dotado de uma infra-estrutura institucional? (ii) como será possível proceder a auditorias independentes sem libertar a chave de desencriptação? No mundo da finança, estar convencido (como os promotores das Bitcoins parecem estar) de que erros e discrepâncias são de todo em todo impossíveis, é perigoso. E presumir que a ausência de uma infra-estrutura institucional torna supérfluos o dever de prestação de contas e o trabalho de auditores independentes não parece especialmente sensato.

Pois, como diz o Autor que vimos seguindo, «se»…

E pergunto-me se esta iniciativa inventiva de moedas descontroladas não terá apenas como objectivo lançar o caos global para, daí, sacarem tudo em proveito deles próprios, os inventores dessas moedernidades.

Setembro de 2019

Henrique Salles da Fonseca

BIBLIOGRAFIA:

«Bitcoin & Libra» - A. Palhinha Machado, Julho de 2019

MOEDERNIDADES - 2

 

 

Para além das funções descritas anteriormente de garante da confiança na moeda que emite, o Banco Central faz também (e passe o pleonasmo) de centro dos vários sistemas de pagamento que funcionam na sua zona monetária. E corresponde-se de igual para igual com os outros bancos centrais com quem constitui solidariamente uma rede que se pauta pelos mesmos princípios, os tais que pretendem garantir a idoneidade das moedas respectivas. No nosso caso, o Banco de Portugal faz parte do Sistema Europeu de Bancos Centrais cujo cume é, naturalmente, o Banco Central Europeu, o «dono» do Euro.

Super resumidamente em relação ao texto do Dr. Palhinha Machado que venho seguindo e que refiro na bibliografia, eis uma infraestrutura institucional cuja função mais importante (penso eu) consiste em nos permitir confiar na moeda com que nos pagam os nossos créditos.

Ora, se as criptomoedas – Bitcoins, Libras do Facebook e outras que tais – se vangloriam de dispensarem toda essa burocracia inerente à infraestrutura institucional, põe-se a questão de saber que confiança podemos ou não depositar nessas tais moedas encriptadas apenas registadas em computadores como mera Base de Dados. E se esses computadores forem «visitados» por hackers?

Do texto base que venho seguindo, transcrevo:

A ausência de uma infra-estrutura institucional suscita perguntas incómodas: (i) quem assegura a manutenção da Base de Dados? (ii) quem detecta, contraria e elimina tentativas de violação da Base de Dados e/ou de corrupção dos registos que dela constem? (iii) ou presume-se que os algoritmos de encriptação dos movimentos e dos próprios registos (daí a designação de “criptomoeda”) a tornam completamente invulnerável (santa ingenuidade)? (iv) quem submete a Base de Dados a testes de consistência (para verificar se tudo, nela, continua a bater certo, ou se há discrepâncias e/ou erros), quem avalia os resultados e quem corrige o que estiver mal? (v) quem faz back-ups e os repõe quando a Base de Dados colapsa? (vi) ou confia-se em que as imagens redundantes da Base de Dados espalhadas pela rede de computadores lhe conferem suficiente resiliência (eu não me fiaria muito nisso)?

Para já e até cabal esclarecimento destas dúvidas, manter-me-ei bem afastado dessas «moedernidades».

Setembro de 2019

Henrique Salles da Fonseca

BIBLIOGRAFIA:

«Bitcoin & Libra» - A. Palhinha Machado, Julho de 2019

MOEDERNIDADES – 1

Por alguma razão se diz que a moeda é fiduciária, que inspira confiança. E, para além de outras razões supervenientes, a causa estaminal do valor da moeda é a confiança que ela inspira.

O garante dessa confiança é, para cada moeda, o respectivo Banco Central cujas políticas devem ter como objectivo garantir que as pessoas e os agentes económicos possuam meios de pagamento fiáveis, que o volume de moeda em circulação é compatível com o PIB, que os preços se mantêm relativamente estáveis, que se consiga estabilidade cambial e que os demais operadores no mercado financeiro não actuam de modo incompatível com estes grandes objectivos.

SILOGISMO:

– Sem confiança não há moeda;

- O garante da confiança é o Banco Central;

- Sem Banco Central não há moeda.

 

Setembro de 2019

Henrique Salles da Fonseca

BIBLIOGRAFIA:

«Bitcoin & Libra» - A. Palhinha Machado, Julho de 2019

O ABSOLUTO E O RELATIVO

NA FILOSOFIA DO DESENVOLVIMENTO

Da edição portuguesa das “Memórias” de Raymond Aron, pág. 120 e seg., GUERRA & PAZ, Fevereiro de 2018, extraio a opinião de que…

(…) Entre uma sociedade comunitária que se dá a si mesma por valor absoluto e uma sociedade liberal que visa alargar a esfera da autonomia individual, não há medida comum. A sucessão de uma à outra não lograria ser apreciada se não por referência a uma norma que deveria ser superior às diversidades históricas mas tal norma é sempre a projecção hipoestagnada do que um colectivo particular é ou quereria ser. Ora, a nossa época conhece demasiado a diversidade que encontra nela própria para cair na ingenuidade dos grupos fechados, ou para se elevar à confiança daqueles que se comparam com o passado e com outrem na certeza da sua superioridade.

(…) o progresso só se aprecia em função de um critério trans-histórico. O «mais» do saber observa-se, o «melhor» das culturas julga-se – e que juiz é imparcial?

Destaques anteriores da minha responsabilidade.

* * *

Creio que a transcrição anterior é suficiente para evidenciar a diferença entre a Filosofia do Desenvolvimento e a Teoria do Desenvolvimento dado que aquela (a Filosofia) procura (pelos vistos, debalde) a norma que deveria ser superior ou o critério trans-histórico  que justificasse o processo de desenvolvimento enquanto esta (a Teoria), perante o impasse filosófico, avançou por raciocínios talvez de menor elevação mas muito mais pragmáticos, ou seja, pela discussão dos modelos (quiçá econométricos) e de concepção de estruturas sociais e mesmo políticas.

* * *

Primeira observação – O modelo comunitário que se autodefiniu como de mérito absoluto e definitivo, impediu adaptações às mudanças exógenas, petrificou, rachou e ruiu; o modelo liberal, descontente consigo próprio devido a méritos mutantes (e, portanto, relativos), procura adaptações constantes às mudanças endógenas e exógenas, flexibiliza-se, sobrevive e progride.

Segunda observação - Como somos diferentes, filósofos e economistas, quanto poderíamos aprender uns com os outros. O problema é que nunca sabemos onde está um filósofo e só os encontramos tarde, postumamente.

Setembro de 2019

Henrique Salles da Fonseca

 

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