Quinta-feira, 8 de Fevereiro de 2018
CABO DA ROCA

 

OU

O FIM DA PICADA – 2

 

E a palestra continuou depois de um mini intervalo para dar entrada a mais ouvintes que vinham sabe-se lá donde.

 

Retomada a palavra, avancei para a solução dos problemas até ali enunciados que, como tinha dito, é a Ética cuja reposição me parece imperiosa.

 

E a questão estaminal da nossa conversa é a de saber o que é a Ética. Então, para desfazer muita confusão que por aí navega, comecei por afirmar simplisticamente que a Moral é a questão dos princípios enquanto a Ética é a questão dos factos.

 

Muito resumidamente, disse que todas as religiões têm as suas escrituras sagradas as quais, criando a respectiva Teologia, deram origem a verdadeiros códigos de conduta que definiram os grandes princípios da Moral correspondente e foi a partir daí que cada sociedade, descendo aos factos reais da vida quotidiana, criou a sua Ética; assumindo a obrigatoriedade do cumprimento, cada Ética vestiu o figurino de quadro jurídico.

 

Breve, a lógica descendente tem origem nas Sagradas Escrituras que definem a Moral que, por sua vez, induz a Ética e é esta que fundamenta o quadro jurídico.

 

Exemplos? Muitos. Mas basta referir a Bíblia cujo Antigo Testamento fundamenta o Judaísmo, os Vedas que são a base do Hinduísmo, os Ensinamentos de Buda que deram origem ao Budismo, o Novo Testamento que, em conjunto com o Antigo, fundamenta o Cristianismo, o Corão que é a Sagrada Escritura do Islão.

 

Contudo, como vimos de início, o homem pós-moderno extremou a sua própria laicização donde resulta que a inspiração divina nada lhe diz e ele se desliga de tudo que tenha origem nesse tipo de Valores. Não vale, portanto, a pena invocarmos princípios religiosos – venham eles donde vierem – para levarmos o pós-moderno convicto a aceitar um quadro jurídico que se inspire numa Ética que por sua vez se fundamente numa Moral de origem divina.

 

Então, como havemos de sair deste beco?

 

A questão pode-se resolver a partir duma frase que cito muitas vezes que, apesar de ser da autoria de um Cardeal, pode ser laicizada com toda a facilidade pois ela própria a isso conduz: «as coisas não são boas ou más porque Deus as mande ou as proíba; antes as manda porque são boas e as proíbe porque são más»[i].

 

Ou seja, tanto o bem como o mal existem fora da discussão teológica e por isso é possível erigirmos uma Ética laica que se fundamente na «Declaração Universal dos Direitos do Homem»[ii] e na «Declaração de Ética Mundial»[iii]

 

Para não cansar a assistência, referi apenas as linhas gerais deste último documento que começa por condenar a usurpação dos ecossistemas do planeta, o abandono dos miseráveis, o recrutamento forçado de crianças como soldados, a agressão e o ódio cultivados em nome das religiões.

 

E depois deste posicionamento crítico, passa para a positiva afirmando haver uma reserva de valores fundamentais comuns a toda a Humanidade que constituem a base para uma ética que fundamente uma ordem mundial duradoira, nomeadamente pelo reconhecimento de alguns princípios:

  • Há que respeitar a comunidade dos seres viventes (humanos, animais e plantas) preocupando-nos com a conservação da Terra, do ar, da água e do solo – princípio ecológico;
  • Todas as nossas acções e omissões têm consequências que devemos ponderar – princípio da responsabilidade;
  • Devemos dar aos outros o tratamento que deles queremos receber - princípio da equidade;
  • Temos que nos encher de paciência;
  • Nos cumpre servir o bem comum;
  • Deve prevalecer uma relação de companheirismo entre homem e mulher com igualdade de direitos – princípio da dignidade humana;
  • Temos o direito de combater a ânsia pelo poder – princípio da democracia política.

 

Estas, algumas das bases que devem servir para a construção de uma ética laica mundial na qual se revejam os pós-modernos que por aí pululam à nossa volta.

 

Concluí a palestra com a revelação de um segredo (pedindo que não o revelassem aos pós-modernos): esta ética laica mundial pode na perfeição ser considerada ecuménica pois resulta de um longo diálogo inter-religioso e o documento em apreço tem origem, afinal, nas confabulações desenvolvidas no seio do Parlamento das Religiões Mundiais.

 

Então, o que menos importa será saber se a origem da Ética Mundial tem ou não uma génese religiosa; basta saber que ela nasceu para servir a Humanidade.

 

Cabo_da_Roca_sunset.jpg

 

É que, assim não sendo, nos resta constatar que chegámos ao Cabo da Roca onde a terra acaba, onde é o fim da picada e onde, portanto, só poderemos optar entre atirarmo-nos ao mar ou darmos meia volta e meditarmos ponderadamente sobre o que queremos fazer da vida.

 

* * *

 

Dei por finda a palestra e não apanhei mocadas na cabeça. Mas passadas as portas do anfiteatro, retomaram pela certa aqueles finalistas a dinâmica das festas da queima das fitas arquivando algures numa dobra recôndita do cérebro as coisas que o tipo do bigode disse desejando que ele se coce com urtigas pois «nós somos hedonistas felizes como o cão dele».

 

Fevereiro de 2018

Henrique em Praga.jpg

 Henrique Salles da Fonseca

 

[i] - D. Manuel Clemente, Cardeal Patriarca de Lisboa, então Bispo do Porto, no seu livro “1810-1910-2010 DATAS E DESAFIOS”, pág. 121

 

[ii] - 1948

[iii] - Assinada em Chicago em 1993



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 16:01
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Terça-feira, 6 de Fevereiro de 2018
CABO DA ROCA

 

OU

O FIM DA PICADA -1

Sé-de-Braga.jpg

 

Fui há tempos palestrar a uma «queima de fitas» no norte de Portugal e pediram-me previamente que abordasse o tema do futuro deles, os então finalistas daquela Universidade.

 

Nunca eu falara para plateia tão grande e tão apinhada em que não dava para perceber onde estavam os sentados, os de pé e os «sabe Deus como».

 

Então, se me queriam ouvir falar do futuro, teriam que ter uns minutos de paciência para me ouvirem falar do passado. Do recente, sim, mas passado na mesma. O passado imediato relativamente ao presente, este que antecede imediatamente o futuro. E como o presente é o instante que separa o grande passado e o futuro que temos por infinito, vejamos no que estamos metidos. E esse «caldinho» chama-se pós-modernidade.

 

A pós-modernidade designa a condição sócio-cultural dominante após a queda do Muro de Berlim (1989), o colapso da União Soviética e a crise das ideologias nas sociedades ocidentais no final do século XX, sobretudo pela dissolução da referência a esquemas totalizantes - o fascismo, o nazismo e o comunismo - fundados na crença no progresso mas que, por sua vez, já eram a negação dos ideais iluministas de igualdade, liberdade e fraternidade.

 

E aqui chegados, disse-lhes que me parece imprescindível pensarmos na questão da ética e seus fundamentos precisamente porque estamos a viver num mundo sem conceitos superiores uma vez que nos tempos que correm só se pensa na competitividade. E esta, sim, é fruto do pós-modernismo em toda a sua pujança, é a sacralização do profano.

 

Então, avancei com a afirmação de que o cidadão do Mundo, pós-moderno, é ateu ou, no mínimo, agnóstico; para ele a vida é esta em que estamos e mais nenhuma. Por isso mesmo quer TUDO, e JÁ! E como não se sente vinculado a uma Moral, também ignora a correspondente Ética. Ou seja, tudo vale para que alcance imediatamente a sua própria felicidade sem sacrifícios pessoais (mas talvez à custa dos alheios). Egocêntrico, assume o egoísmo como algo de natural e fá-lo de consciência tranquila, sem sentimento de culpa, porque amoral e aético. Assim se confunde com hedonista sem sequer saber que o é nem o que tal palavra significa.

 

Com risco de não sair dali sem umas mocadas na cabeça, eu disse-lhes que o meu cão também é hedonista: quer todo o prazer de imediato; não gere a sorte da fortuna. Ninguém levantou a voz em protesto mas fiquei convencido de que muitos daqueles jovens reconheceram os paizinhos no que eu acabara de dizer. Mas, educadamente, «enfiaram o barrete» e calaram.

 

Onde estamos, então, depois de derrubado o muro das ideologias? Na arena nihilista e em mais nenhuma. Um BRAVO a Nietzsche que se suicidou em vão.

 

Sobrevivente do frisson quase ofensivo, mais lhes disse que, chegados ao ponto em que não se olha a meios para atingir o objectivo que cada um se auto-atribui sem querer minimamente saber se tal desiderato corresponde ou não ao bem-comum, a desorientação global resulta da abdicação que os governos fizeram de muitos conceitos entretanto considerados caducos para apenas alcandorarem a competitividade ao estatuto de quase sacralização. Foi assim que nos vimos chegados a uma sociedade de quase Partido Único em que todos os grupos seguem políticas liberais e apenas diferem nas cores das camisolas que vestem. Aliás, todos sabemos por experiência própria que a definição do bem-comum é pouco ou nada referida nas campanhas eleitorais e os votos definem-se com frequência por claques de simpatia. Vacuidade ideológica, política liberal por quase todos e por toda a parte, gestão de favores de classe ou, pior, individuais.

 

E, então, eu disse-lhes como foi na época em que eles estavam a concluir o ensino secundário e a entrar na Universidade: quando a inovação tecnológica deixou de proporcionar as margens de lucro ambicionadas pelos vorazes pós-modernos, restou-lhes a matéria-prima alvo da sua cobiça, o dinheiro. Foram então os «capitães de indústria» substituídos pelos magnatas da finança e do investimento produtivo se passou à especulação bolsista em que se vende «gato por lebre» (os famigerados «produtos tóxicos») sendo que até vendem o gato mesmo antes de o comprarem ou até mesmo antes dele nascer.

 

E de tanto por ela puxarem, a corda da sorte rebentou e ficámos a braços com a bancarrota mundial… As poucas lebres andavam perdidas no meio de muitos gatos e saíram da cena todas arranhadas.

 

- Eis o cenário que se vos depara – disse-lhes eu e notei algum desconforto na plateia.

 

Que fazer? Eis a questão cuja resposta não passa pelo encarceramento do todos os culpados pois não há grades suficientemente grandes para aprisionar meio mundo. E a reciclagem de mentalidades vai demorar...

 

A palestra continuou mas eu acho que este escrito vai ficar por aqui para não cansar quem me lê. No próximo número vou então continuar a contar como decorreu a palestra da queima das fitas e tratar da solução, a Ética.

 

(continua)

 

Fevereiro de 2018

Dubrovnik-réveillon 2016-17 (2).jpg

 Henrique Salles da Fonseca



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 18:44
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Domingo, 4 de Fevereiro de 2018
AFINAL, SOMOS UNS GAJOS

 

Numa palestra que proferi há tempos, comecei por abordar o tema de identificação da génese do desenvolvimento duma Nação afirmando que, naturalmente, todos ambicionamos pertencer a uma sociedade desenvolvida mas que é importante sabermos como se alcança esse desenvolvimento para que não corramos o risco de algum retrocesso.

 

Quais, então, as condições necessárias para que o desenvolvimento ocorra?

 

Logo afirmei de seguida que isso se consegue com um elevado sentido de independência individual e colectiva, com muita gente a trabalhar para si própria demonstrando grandes doses de empreendedorismo, elevado nível de auto-estima, assumindo com orgulho as tradições culturais sem submissão a estrangeirismos e com um elevado sentido de auto-suficiência.

 

Perguntei aos meus ouvintes se estavam de acordo com as premissas enunciadas e, como previra, quase não tive tempo de chegar ao fim da pergunta porque a resposta foi imediata com uma aprovação unânime.

 

Então, sugeri que todos se sentassem confortavelmente, o que fizeram de imediato porque, efectivamente, a plateia estava cheia mas não havia ninguém de pé. E assim foi que lhes disse que quando estava a definir as premissas, eu estava a pensar nos ciganos. A desilusão que senti na audiência nada teve a ver com racismo mas apenas com alguma revolta contra mim, o orador, que os levara ao engano. Com a verdade os enganara.

 

Para não deixar a desilusão assentar praça, avancei de imediato para a fase seguinte do meu raciocínio, aquela em que lhes provaria que as premissas enunciadas eram necessárias, sim, mas estavam longe da suficiência.

 

Então, qual é a génese do desenvolvimento?

 

E aqui seguiu-se o resto da palestra em que comparei o Afeganistão com a Suíça, Angola com o Japão, a Cisjordânia com Israel,… até demonstrar que o desenvolvimento é consequência directa, não das riquezas naturais dos territórios ocupados por uma Nação mas sim do elevado nível de educação, instrução e formação.

 

Assim, as premissas que eu enunciara no início da palestra são claramente importantes mas estão longe da suficiência.

 

A educação que se obtém na família induz a civilização; a instrução que se obtém na escola induz a cultura; a formação profissional que se obtém nas Universidades e noutras instituições equiparáveis induz os conhecimentos para se ganhar a vida, a independência material. Se a isto tudo se juntar um elevado sentido de independência individual e colectiva, se houver muita gente a trabalhar para si própria demonstrando grandes doses de empreendedorismo, se se tiver um elevado nível de auto-estima, se se assumir com orgulho a tradição cultural sem submissão a estrangeirismos e se se tiver um elevado sentido de auto-suficiência, então, sim, alcança-se o desenvolvimento por todos ambicionado e ninguém «agarra» essa Nação.

 

gente_normal.jpg

 

Seremos, então, ciganos? Não, somos apenas «gajins», os não-ciganos, esses que, na terminologia cigana, deram origem aos gajos.

 

Bom. Mas se para progredirmos nos resta a solução de sermos uns gajos, então que o sejamos com classe, com ética.

 

Só que isto da ética vai dar para mais umas quantas palestras. Lá iremos…

 

Fevereiro de 2018

Barranco, Lima, Peru, 12 de Outubro de 2017.jpg

 Henrique Salles da Fonseca



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 13:12
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Domingo, 10 de Setembro de 2017
ARENDT E MARX
 

 

O trabalho é a actividade que corresponde ao artificialismo da existência humana (...) porque (...) produz um mundo artificial de coisas nitidamente diferentes de qualquer ambiente natural.

 

Hannah Arendt.jpgHanna Arendt, in The Human Condition, University of Chicago Press, ed. 1984, pág. 7

 

 

É claro que não preconizo o ócio, esse que considero o «pai» de todos os vícios, mas dá gosto comparar esta frase arendtiana com a alienação marxista sobre o que ela escreve a páginas 253-254 da mesma obra:

 

A moderna perda de fé não é de ordem religiosa na sua origem e o seu alcance não se limita à esfera religiosa. Pelo contrário, a evidência histórica demonstra que os homens modernos não foram arremessados de volta a este mundo, mas para dentro de si mesmos. O que distingue a era moderna é a alienação em relação ao mundo e não, como pensava Marx, a alienação em relação ao ego.

 

 

HSF-AGO16-Tavira

Henrique Salles da Fonseca



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 13:07
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Segunda-feira, 9 de Janeiro de 2017
TRETAS # 19

 

QUO VADIS, TEORIA?

 

  • As teorias económicas (as boas, que das más nem vale a pena falar) são ferramentas preciosas – e perigosas. As que reflectem sobre o comércio transfronteiriço – e, com mais generalidade, as que abordam as relações económicas internacionais – são disso bom exemplo.

 

  • O caso que nos toca mais de perto é, talvez, o do Tratado de Methuen (1703), pelo qual, nem os vinhos portugueses poderiam ser objecto de discriminação fiscal no mercado inglês, nem os tecidos ingleses poderiam ser fiscalmente prejudicados no mercado português.

 

  • Por esse tempo, o vinho era um dos produtos mais apreciados no comércio intra-europeu - e os vinhos franceses os mais valorizados. Graças ao Tratado, os vinhos portugueses passavam a concorrer no apetecível mercado inglês em condições excepcionalmente favoráveis – únicas, mesmo.

 

  • O que, de início, foi visto como um golpe de génio da diplomacia económica portuguesa veio a revelar-se uma vitória pírrica. A dinâmica económica que começava a esboçar-se iria abandonar a agricultura (que nos calhou em sorte) e apostaria tudo na indústria manufactureira (dada de bandeja a Inglaterra). Uma dinâmica que, após a Conferência de Berlim (1884-5), desencadeou a corrida aos impérios coloniais e teve por epílogo duas guerras mundiais (1914-18 e 1939-45).

 

  • Adam Smith (n. 1723) e David Ricardo (n. 1772) terão sido os primeiros de uma longa plêiade de ilustres pensadores (entre os quais o nosso tão esquecido Frederico de La Figanière, n. 1827) a reflectir sobre os efeitos do comércio internacional no desenvolvimento económico, no bem-estar das populações – e, acima de tudo, na promoção da paz.

 

  • Reflexões que não tardaram a ser contaminadas pelo veneno ideológico que, desde o final do séc. XIX, tem infectado a dismal science – a saber: o “postulado da optimalidade”. Trocado por miúdos: o modelo de mercado (com maior rigor, a economia de base contratual), mais que gerar benefícios visíveis, é visto como o óptimo absoluto – o nec plus ultra. Dali, por definição, nenhum mal poderá advir. Só o bem, a prosperidade e a harmonia – e é dever primeiro da teoria revelar isso mesmo.

 

Robert Mundell.jpg Marcus Fleming.jpg

  • O modelo de Mundell (n. 1932) e Fleming (n. 1911) veio navegar nestas águas teóricas: a economia de mercado, argumenta, pode evoluir para zonas monetárias onde todos os que nela participem sairão de certeza (teoria dixit) a ganhar – por isso, “óptimas”. Com um pequeno senão (conhecido como o “trilema de Mundell”): não é possível prosseguir uma política monetária independente se as taxas de câmbio estiverem fixadas e os movimentos transfronteiriços de capitais, liberalizados.

 

  • Este senão deveria abalar a fé dos teóricos na “optimalidade” do modelo de mercado (no sentido que acima referi). Mas não. Apesar de Mundell-Fleming, ao pressupor a plena mobilidade das populações no interior do território convertido em zona monetária “óptima”, não ter como garantir a ocupação racional desse território (o que é politicamente desconfortável); e apesar de a “optimalidade” não ser um conceito absoluto, antes relativo – dependendo da variável que for seleccionada como objectivo (o que é ideologicamente irritante).

 

  • Ora isto tem consequências directas na estabilidade da Zona Euro (que não vêm agora ao caso) e nos previsíveis efeitos da globalização (que é o que aqui interessa).

 

  • Inicialmente, a base teórica para a “optimalidade” do comércio internacional eram as vantagens comparativas, pondo-se no mesmo plano o que a Natureza dá (matérias primas, clima) e o que o Homem cria (o saber fazer, as tecnologias).

 

  • O vinho ia de Portugal – porque o solo e o clima da ilha britânica só davam vinhos medíocres; os tecidos vinham de Inglaterra – onde a lã era abundante e de boa qualidade e a tecnologia textil estava mais avançada. Tudo, nesta Europa do séc. XVIII, decorria de igual para igual, com o comércio a transformar em complementaridades virtuosas o que sempre tinham sido incómodas limitações locais.

 

  • Complementaridade seria um modo mais prosaico, mas igualmente apropriado, de referir as vantagens comparativas com que a teoria continuava a explicar o comércio transfronteiriço, decorrido século e meio. Complementaridades entre as economias tecnologicamente avançadas – as quais toleravam mal a concorrência que umas às outras movessem nos respectivos mercados domésticos. Complementaridades com territórios periféricos, mais ou menos distantes, vistos como fontes abundantes de matérias-primas e mercados cativos para o escoamento de produtos manufacturados.

 

  • Longe das páginas dos manuais teóricos, porém, as vantagens comparativas eram não só aproveitadas, mas também disputadas com crescente agressividade. A chave para a compreensão desta nova realidade (a expansão colonial e a luta pelo “espaço vital”) era a palavra “cativo” – que a teoria tardou em interpretar. Não bastavam já as vantagens comparativas. Havia que impedir que outras economias avançadas viessem explorar em proveito próprio toda e qualquer complementaridade.

 

  • O período post-guerra ficou caracterizado por um forte movimento no sentido da reintrodução da livre concorrência no comércio internacional (com o GATT, hoje WTO). Livre concorrência não já circunscrita a matérias primas, bens manufacturados e a alguns serviços, mas estendida também às tecnologias – o que arrastou a livre movimentação transfronteiriça de capitais, mas não de pessoas.

 

  • Era ainda o quadro mental das vantagens comparativas que a teoria tinha para oferecer quando as economias mais avançadas começaram a exportar tecnologias já “maduras” (por isso sujeitas a forte concorrência no contexto do comércio transfronteiriço), a fim de libertarem recursos internos para novas tecnologias, novos produtos e novos serviços que criassem, por sua vez, novas complementaridades - e que lhes conferissem novas vantagens comparativas no plano internacional.

 

  • É claro que a exportação de tecnologias, num primeiro momento, gerava turbulência e desemprego nas economias de origem. Mas a livre movimentação transfronteiriça de mercadorias e de serviços mantinha aí a oferta sem rupturas – e as novas tecnologias rapidamente absorviam esse desemprego. Para mais, custos de produção substancialmente mais baixos nas economias de destino ajudavam a estabilizar os rendimentos reais nos mercados internos das economias avançadas.

 

  • Os movimentos transfronteiriços de capitais é que iam causando, aqui ou ali, crises, por vezes profundas, por vezes prolongadas. Mas a teoria não se detinha em tais ninharias: a movimentação de capitais e os efeitos que essa movimentação poderia causar eram-lhe estranhos. Os Bancos Centrais que tratassem disso – assim rezava a teoria.

 

  • A globalização baseada em complementaridades (tal como, antes, os impérios coloniais alicerçados em complementaridades), agora no quadro liberal de GATT/WTO, era algo que muito interessava às economias tecnologicamente avançadas: (i) viam renovadas e, quantas vezes, reforçadas as suas vantagens comparativas; (ii) viam estabilizados os rendimentos reais no interior das suas fronteiras; (iii) viam sustentado o nível de emprego das suas populações activas.

 

  • O problema era a restrição externa (possíveis deficits das BTC) e a imprevisibilidade do caudal de movimentos transfronteiriços de capitais - que só a focagem das tecnologias (tanto das novas, como daquelas que eram deslocalizadas) no comércio internacional permitia solucionar capazmente.

 

  • A realidade é que o comércio entre países, alicerçado em complementaridades, foi capaz de, num curto espaço de tempo, retirar da pobreza - não à custa de subsídios estatais, não há custa de donativos internacionais, mas através do trabalho remunerado e da movimentação transfronteiriça de capitais - centenas de milhões de pessoas. Que melhor prova da “optimalidade” do modelo de mercado!

 

  • E, no entanto, quando a “livre concorrência” defendida por GATT/WTO começou a ocupar o papel das “complementaridades” no comércio transfronteiriço, o caso mudou de figura. É que as vantagens comparativas em ambiente de concorrência são radicalmente diferentes das vantagens comparativas em ambiente de complementaridade, sobretudo quando os custos de produção reflectem culturas completamente diferentes. E a teoria foi assim apanhada em contra-pé.

 

  • Com a globalização em ambiente de concorrência as vantagens comparativas passam a depender não só das tecnologias (logo, da inovação) e da procura solvente no espaço global, mas também da cultura que dê forma à economia de onde provêm os bens e serviços transaccionados.

 

  • Os rendimentos reais (ou seja, a inflação) até podem continuar bem ancorados. Mas o comércio transfronteiriço deixa de rimar espontaneamente com pleno emprego urbi et orbi– e os movimentos transfronteiriços de capitais ficam emaranhados, não mais fluindo todos no mesmo sentido.

 

  • Voltando ao princípio, o Tratado de Methuen, fruto temporão das complementaridades geradoras de comércio transfronteiriço, jamais poderia ter visto a luz do dia num ambiente de livre concorrência: nem nunca se colocou a hipótese de Portugal celebrar com a França um tratado semelhante para o vinho; nem a Inglaterra viu alguma vez interesse em celebrar com a Flandres um tratado para o comércio de tecidos.

 

  • Forçoso é concluir, então, que a livre concorrência no comércio internacional põe frontalmente em causa a pretensa “optimalidade” do modelo de mercado. Só em circunstâncias muito especiais (ex: a complementaridade no comércio transfronteiriço) é que todos poderão sair a ganhar, como a teoria ainda hoje pretende.

 

  • Em ambiente de concorrência, porém, para que o pleno emprego e a estabilidade dos rendimentos reais sejam, pelo menos no plano teórico, possíveis, as preferências individuais e as tecnologias aptas a satisfazê-las terão de conhecer uma diversificação rápida e extensa. Desde que a restrição externa não estrague a festa – está bem de ver.

 

JANEIRO de 2017

António Palhinha Machado

 A. Palhinha Machado



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 05:38
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Segunda-feira, 26 de Setembro de 2016
DIZ-SE QUE HERR SCHÄUBLE É MAU!

 

 

Schäuble.png

 

 

Corria o ano de 2013 e dizia-se que «O ministro alemão das Finanças ignora de modo grotesco a crise social europeia»;

 

Herr Schäuble afirmava então: “Ignorem os profetas da desgraça. A Europa está a ser consertada.”

 

E mais se dizia que «O mundo, visto de Berlim, é quase perfeito: “A receita está a funcionar, para desgosto dos numerosos críticos nos media, nas universidades e nas organizações políticas internacionais. O ajustamento era ambicioso e, por vezes, doloroso, mas a sua implementação é flexível e adaptável. As redes de segurança europeias providenciaram uma mistura bem calibrada de incentivos e solidariedade para amortecer o sofrimento.”


O texto de Herr Schäuble é assustador porque é um dogma de fé. As “organizações internacionais” e as “universidades” bem podem produzir estudos – que, entretanto, se têm vindo a comprovar – sobre os riscos da política económica seguida pela Alemanha que, do alto do seu poder e da sua religiosidade intrínsecas, Schäuble ignora-os. A crise social nos países do Sul, os 27,8% da população grega sem emprego, os 16,5% de portugueses sem emprego, os 26,3% de espanhóis sem emprego e os 17,3% de cipriotas sem emprego não entram nas contas de Herr Schäuble.


O ministro alemão das Finanças ignora, de um modo grotesco, a mais grave crise social depois do fim da Segunda Guerra, afirmando que, “em apenas três anos, os custos unitários de trabalho e a competitividade estão rapidamente a ajustar-se (...) e os défices a desaparecerem”. A recessão na zona euro acabou.


O mais traumático no texto de Herr Schäuble, mesmo que tenha sido escrito na semana decisiva de uma campanha eleitoral onde o seu posto está a votos, é que ele despreza ostensivamente a realidade e, nomeadamente, os números. O final do texto é particularmente esclarecedor da arrepiante mistura de fé com bruxaria: “Os sistemas adaptam-se, as tendências mudam. Por outras palavras, o que foi partido pode ser reparado. A Europa de hoje é a prova.”


É extremamente grave o delírio de Herr Schäuble. Mas o mais grave ainda é que ele se pega.»

 

Assim dissertava Ana Sá Lopes no jornal «i» em 18 Set. 2013 – http://www.ionline.pt/iopiniao/herr-schauble-delirio-pega-se


E, contudo, sou da opinião de que Schäuble estava dentro da razão.

Porquê?

Porque:

  • A Europa do Sul foi tomada por uma classe de políticos que não hesitou em «comprar» votos usando a demagogia paga com dinheiros públicos e daí surgiram os gigantescos défices;
  • A Europa do Sul sempre gostou muito mais de folgar nas belas praias (o famoso licenciado em «5º ano de praia») do que estudar nos livros, daí a grande deficiência na instrução e formação e, daí, a pobreza estrutural dos PIB's com inerente dependência económica externa e consequentes dívidas privadas;
  • Os políticos da Europa do Sul convenceram as suas populações de que é aos ricos que cumpre pagar a crise travestindo esse conceito marxista na famosa «solidariedade europeia»;
  • A Europa do Sul contou com todos esses ovos na cloaca da galinha e agora diz que os culpados são os ricos que não querem pagar a factura dos seus dislates, da sua «dolce vita»;
  • O escol de cada povo da Europa do Sul (não confundir com Governos nem com políticos demagogos) já percebeu que a mudança era inevitável e urgente;
  • O escol de cada povo da Europa do Sul rapidamente se apercebeu de que ele próprio teria que ser o agente dessa mudança não esperando pelas medidas de política sempre emperradas por Tribunais Constitucionais e organizações quejandas;
  • O escol de cada povo da Europa do Sul não perguntou aos Governos o que deveria fazer: fez!

Schäuble tinha razão quando proferiu aquelas afirmações: a Europa do Sul estava a safar-se, a modificar estruturalmente os «modelos de desenvolvimento» que a tinham atirado para o abismo, acabando com as actividades que se tinham revelado perniciosas e a desenvolver as que são efectivamente virtuosas, a substituir inaptos por gente profissionalmente competente, a exportar em vez de chorar sobre a ruína dos respectivos mercados domésticos.

 

Mas, entretanto, concertaram-se pérfidas «geringonças» e a evolução sã corre agora o risco de ruir. E depois dessa hecatombe virá por certo à tona o populismo de direita de que a «Alternative für Deutschland» e o «Front National» são meros exemplos.


O drama está em que, à falta de hábitos de estudo e da preferência pela «dolce vita», o escol de cada povo da Europa do Sul não conta com quaisquer ovos na cloaca das galinhas. E, se necessário, o populismo há-de inventar galinhas sem cloaca!


A demagogia tanto saúda de punho erguido como de braço estendido. É uma chatice!

 

Henrique Salles da Fonseca-16AGO16-2

Henrique Salles da Fonseca



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 09:58
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Quinta-feira, 22 de Setembro de 2016
TEORIA ECONÓMICA APLICADA

 

Circulação monetária.jpg

 

É um dia calmo numa pequena cidade da Irlanda. Está a chover e as ruas estão desertas. Os tempos são de crise, toda a gente deve dinheiro e vive a crédito. Chega à cidade um rico turista alemão, dirige-se ao único hotel e põe uma nota de 100 dólares[1] em cima do balcão, dizendo ao proprietário que deseja inspeccionar os quartos para escolher um para passar a noite.

 

O dono do hotel entrega-lhe as chaves de vários quartos e assim que o visitante sobe as escadas, o hoteleiro pega na nota de 100 dólares e vai à loja ao lado para pagar a sua dívida ao dono do talho. Este, pega na nota e corre rua abaixo para pagar o que deve ao Criador de porcos, seu fornecedor. Este, por sua vez, pega na mesma nota e vai a correr pagar a sua dívida ao fornecedor de rações. Este, pega nos 100 dólares e corre para pagar a sua conta no pub da terra. O dono do bar, discretamente, entrega a nota à prostituta que frequenta o bar que, também vivendo tempos difíceis, tinha sido obrigada a fazer uns “servicinhos” a crédito. Esta corre para o hotel e paga a conta do quarto que habitualmente utiliza.

 

O dono do hotel volta a colocar a nota de 100 dólares em cima do balcão quando, momentos depois, o turista alemão desce as escadas dizendo que os quartos que viu não lhe agradam, pelo que vai seguir viagem. Apanha a nota de 100 dólares e deixa a cidade.

 

* * *

 

Ninguém produziu nada, ninguém ganhou nada. Contudo, todos pagaram as suas dívidas e encaram o futuro com muito mais optimismo!

 

Eis a circulação monetária no seu melhor!

 

Autor Anónimo.png

 

(recebido por e-mail, Autor não identificado)

 

[1] Para evitar qualquer conflito cambial, podem substituir dólares por euros, ienes, rublos ou yuans.



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 13:19
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Sábado, 3 de Setembro de 2016
CASSANDRA

 

 

Cassandra.jpg

 

Sacerdotisa de Apolo, Cassandra era bela a ponto

 

de o próprio deus por ela se apaixonar e de lhe

 

conferir o dom da profecia. Mas recusando-se ela

 

a ceder aos avanços do apaixonado, este lançou

 

-lhe a maldição de ninguém acreditar nas

 

profecias que fizesse.

 

 

Assim estão os econometristas que se entretêm a construir modelos matemáticos que supostamente representam a economia de um país e com base nos quais profetizam o que vai suceder no futuro económico. Só que a distância entre as previsões e a realidade medida quando o futuro se transforma em presente é vulgarmente tão grande que já pertence à gíria dizer-se que «os econometristas são muito bons a prever... o passado». Cassandras em toda a linha!

 

E para que servem então essas declarações tão solenes em periódicas conferências de imprensa de que o PIB de tal país vai crescer tantos por cento ou o emprego vai decrescer outros tantos pontos percentuais? A resposta só deveria ser uma: para nada! Mas infelizmente não é assim. Na realidade, servem para justificar a manipulação da informação e esta serve para provocar oscilações bolsistas tanto em títulos de rendimento variável ou fixo como nas taxas de juro dos mercados de capitais, etc. E se a especulação é a base natural do funcionamento bolsista, a manipulação da informação é uma infâmia.

 

E onde está a origem do mal? Nas profecias em que ninguém de boa-fé acredita: acabemos com a manipulação; acabemos com a má fortuna de Cassandra.

 

Sim, os modelos econométricos são muito interessantes como instrumentos académicos mas muito perniciosos cá fora das Universidades.

 

Mandemos calar quem se puser por aí a dizer que a economia vai crescer, decrescer ou manter-se porque seguramente não sabe o que diz e pode não ser tão bem intencionado como nós gostaríamos que fosse.

 

Henrique Salles da Fonseca, Curaçao (2011)Henrique Salles da Fonseca



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 00:40
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Sábado, 13 de Agosto de 2016
MENTES BRILHANTES

 

 

 

Sempre gostei de assistir ao espectáculo que as mentes brilhantes exibem ao exporem o resultado das suas confabulações mas confesso que sempre lhes troquei as voltas preferindo lê-las a ouvi-las. Lendo-as, tenho tempo; ouvindo-as, temo perder o fio à meada e correr o risco de ser enrodilhado. Lembro-me da história que ouvi em criança daquele cigano que falava muito depressa quando queria vender uma certa mula manca – pensaria ele que o comprador teria que dar muita atenção ao discurso e ficava sem tempo para observar a mula com o cuidado conveniente. Contavam-me que nunca chegara a vendê-la.

 

Portanto, gosto de mentes brilhantes lidas, não ouvidas.

 

Varoufakis.jpg

 

A super pausada leitura que venho fazendo vai já para um ano do livro de Yanis Varoufakis, «O MINOTAURO GLOBAL»1, leva-me a pensar que desta vez o cigano foi o Tsipras que arranjou um galã para encantar as grandes credoras na Alemanha e no FMI e lhe encomendou o encantamento suficiente para lhe dar tempo - a ele, o cigano - de consolidar a maluqueira sobre as ruínas de Atenas. Mas o encantamento não produziu quaisquer efeitos junto da «angélica teutónica» e diz-se que foi fogo fátuo na «charmante gauloise». E como o cigano não ia ficar para sempre com a mula manca, empandeirou-a para qualquer lado e mudou de discurso.

 

Pois. Mas eu hoje não quero saber do discurso do cigano e interesso-me sobretudo pelo relinzurro (nem relincho nem zurro) da mula.

 

E porquê nem relincho nem zurro? Porque Varoufakis zurze no capitalismo mas não lhe apresenta uma alternativa credível. Pior: aponta críticas aos credores mas não acha necessário corrigir sequer um pequeno vício nos devedores. Ficamos a saber do que ele se queixa mas sem que nos aponte uma solução.

 

Assim, não vale. E não vale porque não conduz a qualquer parte; constrói um beco sem saída. E como o mundo não acaba no fundo desse beco, é a construção desse «cul de sac» que não faz sentido.

 

A sua tese contra a austeridade também não faz sentido se nos lembrarmos de que foram os países devedores que foram aos mercados de capitais pedir dinheiro emprestado, não foram os detentores desses capitais que impuseram aos perdulários receberem os seus capitais. E a única forma de servir a dívida é deixar de gastar mais do que se produz – a isso chama-se anular défices – e passar a gerar poupanças, sendo que ambos os patamares se alcançam pela redução da despesa (a tal austeridade) e pela produção de bens e serviços transaccionáveis, nunca pela manutenção de défices nem pelo incentivo ao consumo.

 

Mas é claro que Varoufakis tem razão em várias coisas e, dentre essas, realço o absurdo em que se transformou a utilização dos modelos macroeconómicos e o «gato por lebre» dos produtos financeiros tóxicos. De ambas, tratarei futuramente num outro pequeno texto em que resumirei o que Varoufakis delas conta e com que – desde já aviso - eu concordo.

 

Se a estes absurdos juntarmos a manipulação dos mercados em vez da normal especulação bolsista, temos que reconhecer que o Poder do Mundo foi tomado por loucos se não mesmo por criminosos. E neste particular, também tenho que concordar com ele.

 

Sim, gosto de mentes brilhantes mas Deus nos livre das que são marotas.

 

Tavira, Agosto de 2016

 

 

HSF-AGO16-Tavira

Henrique Salles da Fonseca

 

 

1 - BERTRAND EDITORA, Lisboa, 1ª edição, Junho de 2015



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 17:31
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Sábado, 6 de Agosto de 2016
OS XICOS'PERTOS

Chico esperto.png 

 

Sim, eles andam por aí… São os Xicos’Pertos.

 

 

Todos os conhecemos - cheios de si, ignorando que os outros não são tão burros como eles julgam, ambiciosos fulgurantes mas que frequentemente nem sequer sabem o significado do seu próprio hedonismo; adulando o ter que tomam por ser, quanto menos letrados, mais audaciosos e menos cautelosos.

 

 

Sim, eles andam por aí e, aos boçais, nós topamo-los à distância. Mas há outros que se dissimulam e, quando menos esperamos, já fizeram das suas e meteram alguém nos mais ensarilhados sarilhos - são os inteligentes e cultos mas Xicos’Pertos também.

 

 

Exemplos? Muitos e variados desde o simples trafulha que tenta vender gato por lebre – todos esses que cá pela nossa «santa terrinha» inventaram cursos universitários sem qualquer saída profissional e mais não são do que passaportes para o desemprego mas que entretanto sacaram lautas propinas aos paizinhos quase analfabetos de estudantes chumbões que não tiveram média para aceder a cursos sérios, até àqueles que não passam de impostores ao deixarem que lhes chamem «engenheiros» ou «doutores» com licenciaturas concluídas ao Domingo, com passagens administrativas ou com equivalências de legitimidade super duvidosa… até aos que acabam a trás das grades porque acharam que os outros eram todos burros e não topavam que «quem cabritos vende e cabras não tem, de algum lado lhe vem».

 

 

Varoufakis.png

 

Mas se todos estes não passam de simples trapaceiros, outros há que são mesmo sofisticados e até merecem que os cumprimentemos com algumas chapeladas. Por exemplo, refiro-me a Yanis Varoufakis que tentou driblar toda a Europa e demais credores da Grécia, com grande mediatismo meteu o seu país em mais sarilhos ainda do que aqueles em que ele já estava, acabou corrido com um pontapé no «sim senhor» e foi substituído por um Euclides qualquer coisa1 sem carisma de espécie nenhuma e que só deve querer que se esqueçam que ele existe.

 

 

Mas o «encantador de Senhoras» escreveu um livro que venho lendo nos intervalos de outras leituras mais caducáveis e que tem muito que se lhe diga. Trata-se de «O Minotauro global»2 e só lhe pego quando tenho a certeza de que não terei nenhum ataque de azia. Foi-me oferecido por quem me quis lançar um desafio com vista a saber se as nossas (do Autor e minha) inconciliáveis posições políticas seriam de algum modo conciliáveis no plano da doutrina económica.

 

 

E então, a primeira apreciação que me ocorre tem a ver com o prazer de ler algo escrito por um Fulano inteligente e culto, apesar de me ter munido de toneladas de cautelas e desconfianças para não me deixar enlear nalgum «conto de Vigário»; sim, porque os «assobios de Fauno» podem seduzir as mais belas Lagardières mas por mim passam a galáxias de distância.

 

 

Em escritos posteriores contarei sobre esse tal Minotauro, sobre um Plano Global americano que o Autor descreve de modo discutível mas verdadeiramente interessante, sobre o «lago dos derivados tóxicos» e sobre muitos outros temas que fazem do livro uma leitura interessante para quem gosta deste género de temas, todos os da infindável história da economia política.

 

 

Mas hoje deixo apenas uma referência a George Soros quando este grande «Xico’sperto» em 2009 refere em The crash of 2008 and what it means: the new paradigm for finantial markets, Nova Iorque, Public Affairs, que Varoufakis refere em nota ao seu Capítulo 5 a páginas 261: A crença de que os mercados tendem para o equilíbrio, é directamente responsável pela perturbação actual encorajando os reguladores a abandonar a responsabilidade e a dependerem do mecanismo de mercado para corrigir os seus excessos.

 

 

Confesso que por esta é que eu não esperava vinda de quem vem, esse que sempre tomei por ser o maior inimigo de toda e qualquer entidade reguladora em qualquer ponto do nosso planeta e que eu presumira fiel adepto do princípio da autoregulação dos mercados no sentido do equilíbrio.

 

 

Como diriam dos franceses, fiquei de «bouche bée».

 

 

Estou sempre a aprender e assim espero continuar per secula seculorum...

 

 

Tavira, 3 de Agosto de 2016

 

 

Henrique Salles da Fonseca

Henrique Salles da Fonseca

(por Francisco Gomes de Amorim)

 

1- Euclide Tsakalotos

2- Bertrand Editora, 1ª edição portuguesa de Junho de 2015



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 10:25
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