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A bem da Nação

LÓGICA ARISTOTÉLICA

Uma das verdades mais axiomáticas que existe na lógica de inspiração aristotélica diz-nos que dos resultados das experiências nunca experimentadas, não se podem conhecer os resultados.

E a pergunta é: - Como teria sido o crescimento europeu caso a política monetária tivesse sido diferente da que o BCE praticou sob a égide de Mário Draghi?

 

crescimento-europeu-projetado.png

 

Ora, se em 2017 (e até mesmo em anos anteriores), os cenários que se perfilavam para 2018 e 2019 eram de clara redução das taxas de crescimento, fazía todo o sentido que se «alargassem os cordões à bolsa».

Foi perante perspectivas de abrandamento do crescimento que o BCE decidiu que a banca deveria pôr o dinheiro a circular em vez de o entesourar, nomeadamente em depósitos nele próprio, o BCE - daí, a redução drástica da remuneração desses depósitos até passar da remuneração à oneração (juros negativos). E para pôr a economia a mexer, nada melhor do que «secar» os mercados financeiros alimentados pelas dívidas soberanas para que a banca não se entretivesse com esse tipo de títulos e se encaminhasse mais determinantemente para a economia produtiva – daí, as quantitative easings, ou seja, a compra (de preferência à nascença, nos mercados primários) pelo próprio BCE das dívidas dos Estados. Como quem diz que o dinheiro é para circular, não para entesourar.

O que dizem os contrários?

Os contrários dizem que não haverá investimento se, antes, não houver poupanças e que, portanto, estas devem ser estimuladas por remunerações (juros) compensatórios, ou seja, sempre superiores à inflação. Por esta lógica, dizem que os juros negativos são absurdos. Pelo mesmo tipo de razões, são contrários aos quantitative easings pois estes secam um mercado em que a banca pode ter um meio de ganhar dinheiro e, daí, embaratecer o crédito que concede e não mais repercutir no vulgar depositante os custos que lhe são impostos pelo BCE.

Então, como dizia no início deste escrito, fica por saber o que teria acontecido se a política do BCE tivesse sido diferente da que efectivamente foi. Curiosamente, não ouvi críticas às quantitative easings como sendo um atestado indirecto de aprovação às políticas públicas a que há muito quem chame de perdulárias, as de esquerda. Mas, para mim, é óbvio que sim, são esse atestado integrando directamente as dívidas soberanas na política geral de juros baixos, quiçá negativos.

Com a saída de Mário Draghi da presidência do BCE e sua substituição por Christine Lagarde, admito que esta política de juros híper baixos (negativos) e de compra das dívidas soberanas vai chegar ao fim. Na dúvida, na sua última reunião sob a presidência de Draghi, o BCE decidiu comprar mensalmente até 20 mil milhões de euros de dívidas soberanas durante um prazo não definido e não mexeu nas taxas de juro. À saída, olhando para trás, dirá com aquele sorriso giocondesso que lhe conhecemos que, depois de morto, ainda vive.

Com Lagarde, os depósitos da banca no BCE voltarão a ser remunerados e ela, a banca, voltará a ter mão livre nos mercados das dívidas públicas. É claro que tudo servirá para embaratecer o crédito e para desonerar as poupanças do cidadão comum…

Aristote oblige.

Outubro de 2019

Dubrovnik-réveillon 2016-17 (2).jpg

Henrique Salles da Fonseca

O IMPÉRIO DO MEIO

As conversas são como as cerejas: agarrada a uma vem sempre outra e assim por aí além…

Já não sei como começou mas lembro-me de termos passado pela polémica marca chinesa de telemóveis e termos chegado ao valor real do Yuan.

E a questão a que chegámos, afinal, centra-se no conceito mais inesperado, na palavra «real», não no «valor». Que valor algum há-de ele ter, quanto mais não seja o que o Decreto determina.

Mas centremo-nos no que está em causa: quanto vale o Yuan?

E aqui se dividem as opiniões entre os que dizem que…

… está sobrevalorizado porque, depois de ter absorvido toda a massa quase incalculável das «senhas» (não convertíveis) que circulavam entre os chineses comuns, deveria ter-se desvalorizado para níveis certamente muito mais baixos do que o definido por Decreto;

… está subvalorizado para facilitar as exportações e dificultar as importações.

Desde já me coloco do lado dos que acusam o Yuan de estar sobrevalorizado.

Porquê?

Porque uma moeda cujo valor é definido por Decerto, não representa certamente uma economia transparente em que os preços se formem livremente. E isto mantém-se válido apesar de, entretanto, o Yuan ter sido indexado a um cabaz de moedas credíveis como são o Dólar americano, o Euro, o Yen e o Won da Coreia do Sul. Só que o valor de base é duvidoso pois ninguém me faz acreditar que a absorção de toda a massa monetária não convertível (o Renminbi não convertível) pelo sistema de uma única moeda em toda a República Popular da China, não tenha provocado grande mossa no valor da moeda que já então era convertível, o Yuan. E mais ainda, o «gato escondido com rabo de fora», revela-nos o Yuan, o Dólar de Hong Kong e a Pataca com o mesmo valor. Tudo cheira a artificial e, por causa da tal absorção da moeda não convertível, cheira a falsidade no sentido da sobrevalorização – o Yuan deveria ter um valor muito mais baixo.

Mas, para além destas anormalidades, há ainda outra que tem a ver com o volume de dinheiro anualmente lançado no mercado quando os orçamentos do Partido Comunista Chinês e das Forças Armadas chinesas são segredo de Estado. Qual a política monetária que sustenta uma tal opacidade orçamental? Sim, tudo me cheira a falso.

Quanto à hipótese de o Yuan já estar subvalorizado para sustentar as exportações e dificultar as importações, tenho a recordar que as desvalorizações…

… ou são discretas e decretadas depois do encerramento das grandes praças financeiras, de preferência ao final da tarde de 6ªs feiras para dar tempo à digestão do novo câmbio (até à 2ª feira seguinte) pelos mercados, ou…

… são deslizantes – o chamado «crawling peg» - de modo a que os preços se vão adaptando ao ritmo anunciado da própria desvalorização deslizante.

Em ambas as desvalorizações, os operadores económicos são beneficiados com a informação suficientemente atempada para se poderem adaptar aos novos câmbios e na respectiva correspondência a nível dos preços no mercado doméstico. E na actual sociedade da informação, é inútil pensar que o efeito surpresa exista.

Ora, se o instrumento da competitividade cambial era o efeito surpresa, então ele nunca existiu e actualmente, com a globalização, menos eficácia tal efeito poderia ter. A menos que haja preços tabelados e respectivo controlo policial, nessa situação, a ruptura dos abastecimentos só será evitada pelos mercados paralelos.

Eis por que cada vez mais tenho a política cambial por decreto como um bluff que, para além do mais, tenta esconder os factores da incompetitividade da economia cuja moeda é sujeita a tais desvalorizações. E a China tem outros motivos de salvaguarda da sua competitividade internacional a começar pela inexistência de sindicalismo livre e, consequentemente, pela prevalência de um mercado esclavagista de trabalho.

Então, se eu não acredito na política cambial que possa ou não estar subjacente ao Yuan, para quê preocupar-me com o tema?

Muito simplesmente porque a República Portuguesa se empenhou não há muito tempo em Yuans e o valor dessa moeda deixou de me ser indiferente: quanto mais desvalorizada, melhor para nós, seus devedores. É que eu, ao contrário de um tal que por aí anda, acho que as dívidas devem ser pagas – mas, se pudermos beneficiar de alguma desvalorização da dívida, tanto melhor.

15 de Outubro de 2019

Henrique Salles da Fonseca-16AGO16-2

Henrique Salles da Fonseca

MOEDERNIDADES - 3

Letras, livranças, cheques e outros títulos cambiários titulados em Bitcoins…  

Pergunta - Como é que uma moeda que se pretende imaterial assume a materialidade inerente àquele tipo de títulos?

Resposta – Não assume.

Conclusão – Até prova em contrário, as moedas virtuais serão, na sua funcionalidade, moedas de utilização parcial, moedas de segunda, moedas menores.

Pergunta – Como é feito o endosso inequívoco dos títulos cambiários caso também eles evoluam para a imaterialidade?

Resposta – Não se faz.

Conclusão – Chacota à parte, vinga a opinião daquele que dizia que «as dívidas não são para pagar».

Mas como não me quero pôr na posição de um «botas de elástico» e, pelo contrário, acho que se deve evoluir,  transcrevo o que ao Dr. Palhinha Machado parece necessário para que um novo sistema de pagamentos funcione:

[Tudo poderá funcionar] se a Base de Dados for consistente e se a sua consistência for testada movimento a movimento e a qualquer momento. Ora, a regra das “partidas dobradas” nos movimentos carregados, só por ela, não garante a ausência de discrepâncias e de erros (como a acção do BdP tem demonstrado à evidência). Outros testes de consistência bem mais robustos terão de ser adoptados, mas não tenho ouvido falar de quaisquer outros, para lá da prevista existência de imagens repetidas da Base de Dados (como se fossem múltiplos back-ups) por toda a rede (alguns outros testes de consistência vêm-me à ideia, mas talvez violem a legítima confiança dos utilizadores). E ficam sempre por saber duas coisas: (i) como serão corrigidos erros e discrepâncias que sejam detectados, uma vez que este “sistema de pagamentos” não está dotado de uma infra-estrutura institucional? (ii) como será possível proceder a auditorias independentes sem libertar a chave de desencriptação? No mundo da finança, estar convencido (como os promotores das Bitcoins parecem estar) de que erros e discrepâncias são de todo em todo impossíveis, é perigoso. E presumir que a ausência de uma infra-estrutura institucional torna supérfluos o dever de prestação de contas e o trabalho de auditores independentes não parece especialmente sensato.

Pois, como diz o Autor que vimos seguindo, «se»…

E pergunto-me se esta iniciativa inventiva de moedas descontroladas não terá apenas como objectivo lançar o caos global para, daí, sacarem tudo em proveito deles próprios, os inventores dessas moedernidades.

Setembro de 2019

Henrique Salles da Fonseca

BIBLIOGRAFIA:

«Bitcoin & Libra» - A. Palhinha Machado, Julho de 2019

MOEDERNIDADES - 2

 

 

Para além das funções descritas anteriormente de garante da confiança na moeda que emite, o Banco Central faz também (e passe o pleonasmo) de centro dos vários sistemas de pagamento que funcionam na sua zona monetária. E corresponde-se de igual para igual com os outros bancos centrais com quem constitui solidariamente uma rede que se pauta pelos mesmos princípios, os tais que pretendem garantir a idoneidade das moedas respectivas. No nosso caso, o Banco de Portugal faz parte do Sistema Europeu de Bancos Centrais cujo cume é, naturalmente, o Banco Central Europeu, o «dono» do Euro.

Super resumidamente em relação ao texto do Dr. Palhinha Machado que venho seguindo e que refiro na bibliografia, eis uma infraestrutura institucional cuja função mais importante (penso eu) consiste em nos permitir confiar na moeda com que nos pagam os nossos créditos.

Ora, se as criptomoedas – Bitcoins, Libras do Facebook e outras que tais – se vangloriam de dispensarem toda essa burocracia inerente à infraestrutura institucional, põe-se a questão de saber que confiança podemos ou não depositar nessas tais moedas encriptadas apenas registadas em computadores como mera Base de Dados. E se esses computadores forem «visitados» por hackers?

Do texto base que venho seguindo, transcrevo:

A ausência de uma infra-estrutura institucional suscita perguntas incómodas: (i) quem assegura a manutenção da Base de Dados? (ii) quem detecta, contraria e elimina tentativas de violação da Base de Dados e/ou de corrupção dos registos que dela constem? (iii) ou presume-se que os algoritmos de encriptação dos movimentos e dos próprios registos (daí a designação de “criptomoeda”) a tornam completamente invulnerável (santa ingenuidade)? (iv) quem submete a Base de Dados a testes de consistência (para verificar se tudo, nela, continua a bater certo, ou se há discrepâncias e/ou erros), quem avalia os resultados e quem corrige o que estiver mal? (v) quem faz back-ups e os repõe quando a Base de Dados colapsa? (vi) ou confia-se em que as imagens redundantes da Base de Dados espalhadas pela rede de computadores lhe conferem suficiente resiliência (eu não me fiaria muito nisso)?

Para já e até cabal esclarecimento destas dúvidas, manter-me-ei bem afastado dessas «moedernidades».

Setembro de 2019

Henrique Salles da Fonseca

BIBLIOGRAFIA:

«Bitcoin & Libra» - A. Palhinha Machado, Julho de 2019

MOEDERNIDADES – 1

Por alguma razão se diz que a moeda é fiduciária, que inspira confiança. E, para além de outras razões supervenientes, a causa estaminal do valor da moeda é a confiança que ela inspira.

O garante dessa confiança é, para cada moeda, o respectivo Banco Central cujas políticas devem ter como objectivo garantir que as pessoas e os agentes económicos possuam meios de pagamento fiáveis, que o volume de moeda em circulação é compatível com o PIB, que os preços se mantêm relativamente estáveis, que se consiga estabilidade cambial e que os demais operadores no mercado financeiro não actuam de modo incompatível com estes grandes objectivos.

SILOGISMO:

– Sem confiança não há moeda;

- O garante da confiança é o Banco Central;

- Sem Banco Central não há moeda.

 

Setembro de 2019

Henrique Salles da Fonseca

BIBLIOGRAFIA:

«Bitcoin & Libra» - A. Palhinha Machado, Julho de 2019

O ABSOLUTO E O RELATIVO

NA FILOSOFIA DO DESENVOLVIMENTO

Da edição portuguesa das “Memórias” de Raymond Aron, pág. 120 e seg., GUERRA & PAZ, Fevereiro de 2018, extraio a opinião de que…

(…) Entre uma sociedade comunitária que se dá a si mesma por valor absoluto e uma sociedade liberal que visa alargar a esfera da autonomia individual, não há medida comum. A sucessão de uma à outra não lograria ser apreciada se não por referência a uma norma que deveria ser superior às diversidades históricas mas tal norma é sempre a projecção hipoestagnada do que um colectivo particular é ou quereria ser. Ora, a nossa época conhece demasiado a diversidade que encontra nela própria para cair na ingenuidade dos grupos fechados, ou para se elevar à confiança daqueles que se comparam com o passado e com outrem na certeza da sua superioridade.

(…) o progresso só se aprecia em função de um critério trans-histórico. O «mais» do saber observa-se, o «melhor» das culturas julga-se – e que juiz é imparcial?

Destaques anteriores da minha responsabilidade.

* * *

Creio que a transcrição anterior é suficiente para evidenciar a diferença entre a Filosofia do Desenvolvimento e a Teoria do Desenvolvimento dado que aquela (a Filosofia) procura (pelos vistos, debalde) a norma que deveria ser superior ou o critério trans-histórico  que justificasse o processo de desenvolvimento enquanto esta (a Teoria), perante o impasse filosófico, avançou por raciocínios talvez de menor elevação mas muito mais pragmáticos, ou seja, pela discussão dos modelos (quiçá econométricos) e de concepção de estruturas sociais e mesmo políticas.

* * *

Primeira observação – O modelo comunitário que se autodefiniu como de mérito absoluto e definitivo, impediu adaptações às mudanças exógenas, petrificou, rachou e ruiu; o modelo liberal, descontente consigo próprio devido a méritos mutantes (e, portanto, relativos), procura adaptações constantes às mudanças endógenas e exógenas, flexibiliza-se, sobrevive e progride.

Segunda observação - Como somos diferentes, filósofos e economistas, quanto poderíamos aprender uns com os outros. O problema é que nunca sabemos onde está um filósofo e só os encontramos tarde, postumamente.

Setembro de 2019

Henrique Salles da Fonseca

 

A HISTÓRIA RECENTE SEGUNDO VAROUFAKIS

Varoufakis.jpg

 

As taxas de câmbio podem constituir um mecanismo de reciclagem de excedentes pois a acumulação dos défices tende a levar à desvalorização cambial, esta pode acabar por ser um estímulo às exportações e desestímulo das importações, além de contribuir para atrair outros capitais excedentes graças às taxas de juros mais elevadas.

 

Eis como tanto o “Plano Global” como o “Minotauro” são, na verdade, arranjos sustentados em formas distintas do Mecanismo Geral de Reciclagem de Excedentes (MGRE) com o primeiro a ter nos Estados Unidos um imenso polo superavitário e no segundo, pelo contrário, um polo deficitário.

 

* * *

Do Plano Global

 

 

A Conferência de Bretton Woods deu nascimento a um sistema de governança económica global que levou à criação do Fundo Monetário Internacional (FMI), do Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD) e à constituição de um sistema de administração cambial que fixava, dentro duma determinada variação percentual, a flutuação das taxas de câmbio das moedas em relação ao Dólar e ao ouro– com a consequente convertibilidade directa do Dólar em ouro.

 

Entretanto, os défices americanos apareceram devido à

  • Rápida recuperação com ganhos de competitividade e produtividade dos outrora “pupilos” do pós-guerra (Alemanha e Japão);
  • Com a queda de competitividade relativa dos Estados Unidos;
  • Com a abertura do seu mercado à entrada de produtos desses concorrentes, em especial o Japão;
  • Com os crescentes gastos do Governo, especialmente com guerras, como a do Vietname.

 

Mas os Estados Unidos queriam ser eles mesmos a gerir a nova ordem económica mundial através do Dólar pelo que romperam unilateralmente o acordo de Bretton Woods, puseram fim à conversibilidade ouro/Dólar e avançaram para a desvalorização da sua própria moeda.

 

A depreciação do Dólar representou um duro golpe nas exportações japonesas e europeias para os EUA mas dado que todos estavam já presos ao Dólar como moeda de reserva global, pouco restava a fazer. A posição privilegiada que os americanos haviam construído estava garantida e agora em bases renovadas. “A moeda é nossa. O problema é vosso”.

 

A expansão monetária resultante do aumento de gastos do Governo redundou também na desvalorização do Dólar.

 

Mas, diante de novas e sonoras contestações à sua posição “privilegiada”, os Estados Unidos responderam com acções enérgicas e medidas drásticas que Paul Volcker, Presidente do Reserva Federal durante os governos Jimmy Carter e Ronald Reagan, mais tarde denominou “a desintegração planeada da economia mundial”.

 

Eis o “Minotauro Global

 

Funcionando como uma espécie de “consumidor de primeira instância”, o enorme corpo gravitacional dos défices gémeos (comercial e orçamental) americanos serviu como força de atracção para o investimento dos excedentes acumulados noutras regiões do globo.

 

Resumidamente: enquanto os persistentes saldos comerciais negativos dos EUA suscitavam o avanço da produção noutros países, os défices orçamentais serviam para transformar os excedentes comerciais desses outros países em títulos da dívida norte-americana. E à medida que o mundo acumulava tais títulos, o capital mundial fluía inadvertidamente para o mercado financeiro americano. Para se ter uma ideia da dimensão desse movimento, no início dos anos 2000, pouco antes da crise, mais de 70% dos movimentos globais de capitais tinham os Estados Unidos como destino final.

 

As taxas de juros foram paulatinamente elevadas ao longo da década até alcançarem níveis recordes em 1979 – uma verdadeira catástrofe para países endividados em Dólares, como os latino-americanos e leste-europeus. A metamorfose havia sido concluída.

 

Enquanto absorvia uma imensidão de capitais vindos de todas as partes, Wall Street, livre das regulamentações, barreiras e constrangimentos políticos de outrora, encarregava-se de activar uma verdadeira farra desvairada de criação de dinheiro privado por meio de activos, nomeadamente os tóxicos (entre os quais estão as famigeradas classes de derivados bizarros que o mundo veio a conhecer). Fusões e aquisições alavancadas por bolhas financeiras, a produção e a circulação de capital fictício em quantidade inimaginável encontram- se, especialmente ao longo das últimas duas décadas, com a concessão de hipotecas e enorme expansão de crédito pessoal para aqueles mesmos trabalhadores que não recebiam aumento real de salários desde 1973.

 

Incentivado pela espantosa criação de dinheiro privado, o consumo sustentado parecia indicar que tudo estava muito bem, florescente mesmo.

 

Até às vésperas da crise, Wall Street, com todas as suas gambiarras outrora eufemisticamente conhecidas como “inovações financeiras”, atraiu não só capital mundial suficiente para reciclar a contento os excedentes obtidos pelos demais países e até mesmo sustentar certa reconversão destes em mais investimentos produtivos, mas também novas vendas para os Estados Unidos, o que provocava novos superávites daqueles países e, assim, a continuidade, em dimensão ampliada, da mesma roda-viva.

 

Entretanto, os desequilíbrios no comércio internacional continuavam a crescer.

 

Quando a música parou, o número de cadeiras era pequeno demais para aqueles que circulavam freneticamente à volta. O dinheiro privado evaporou-se e o sistema bancário quebrou.

 

O resto é a História divulgada pelos jornais…

 

Fevereiro de 2019

Henrique em Praga.jpg

Henrique Salles da Fonseca

 

FONTES:

http://www.scielo.br/pdf/ts/v29n2/1809-4554-ts-29-02-0014.pdf

https://outraspalavras.net/mundo/varoufakis-e-o-mundo-parasitado-pelos-eua/

https://abemdanacao.blogs.sapo.pt/mitologia-grega-2-1488256

 

 

CHAU MIN – 5

 

DA GLOBALIZAÇÃO

 

Sim, reconheço que «cá fora»[1] também há casos lastimáveis de quem trabalha sem condições de dignidade, remuneração, higiene e segurança. Dizer o contrário seria mentir e ocultá-lo seria escandaloso.

 

No comentário de «Anónimo» no «CHAO-MIN – 3» a que ora me refiro, a crítica incide sobretudo na minha frase relativa aos produtos resultantes do trabalho prisional na China que concorrem com os "homólogos produzidos por quem tem direitos humanos".

 

Com diplomática ironia, o Comentador calcula que eu me esteja a referir à «civilizadíssima mercadoria com etiqueta "ocidental" (que concorre com a chinesa nos mercados mundiais), produzida em condições laborais fabulosas, com um não menos fabuloso respeito pelos direitos humanos, em países como o Vietname, Bangladesh, Paquistão, Tunísia, Marrocos e mais alguns felizardos, denodada e alegremente enquadrados e defendidos por organizações, sindicais e outras, que lhes conseguem gordíssimas remunerações e condições de vida absolutamente invejáveis».

 

A este cenário – lastimavelmente real - eu acrescentaria ainda a questão do trabalho infantil que a essa condição, a da infantilidade, soma todas as descritas acima.

 

Contra factos, os únicos argumentos que poderão vingar serão os que conduzam à correcção das ditas condições de miséria.

 

A diferença que existe entre a China e os outros países «cá de fora» nessas práticas vergonhosas é a de que na China se trata duma política de Estado enquanto, nos outros, se trata de desleixo de Estado.

 

Conheço uma parte da China onde não me foi possível verificar o que afirmo porque não é suposto os turistas sequer saberem dessas realidades e muito menos vê-las e conheço outros países «cá de fora», nomeadamente a Índia em grandíssimas extensões. Dos países citados acima, posso mesmo dizer que conheço a Índia, Marrocos e o Vietname melhor do que, respectivamente, a maior parte dos indianos, dos marroquinos e dos vietnamitas. Quanto à Indonésia, não me arrogo um conhecimento tão extenso mas, mesmo assim, pude conhecer a ilha de Java (assim como Bali) numa extensão apreciável, tanto urbana como rural e respectivos matizes intermédios.

 

Vamos por partes:

  • Na Indonésia não vi miséria e mais não me ocorre dizer nesta circunstância;
  • Em Marrocos vi uma sociedade medieval que como tal deve ser considerada, mas onde o investimento estrangeiro (nomeadamente português) vem criando condições de vida bastante mais favoráveis do que as que se imagina existissem anteriormente;
  • No Vietname, vi instalações industriais que me informaram serem o resultado da deslocalização da China mas como constatei um nível médio de vida muito superior ao chinês, presumo que a deslocalização não tenha ocorrido em busca de condições laborais mais abjectas do que no local de onde foram deslocalizadas.

Miséria na Índia.jpg

https://www.youtube.com/watch?v=OHuNE1P8S3s&feature=youtu.be

 

O problema «cá fora do Império do Meio» chama-se Índia onde, aí sim, tudo raia o abjecto. O cúmulo do desprezo dos políticos para com os respectivos «eleitores» verifica-se, dentre as amplas regiões que conheço, em Estados tão populosos como o Rajastão, o Uttar Pradesh e, sobretudo e no seu maior “esplendor”, no Tamil Nadu. Duvido que haja no resto do mundo locais onde o desprezo pela dignidade humana toque mais baixo na escala dos Valores concebidos por uma qualquer Civilização. Talvez só em Auschwitz ou em Treblinka tenham chegado a maior rigor.

 

E onde quero eu chegar com estes últimos considerandos? Muito simplesmente à constatação de que tudo o que o investimento – especialmente o estrangeiro - faça nessas zonas seja da maior importância para a sobrevivência imediata de alguns (sempre poucos) desgraçados que estavam encaminhados para a morte ao abandono nas lixeiras que são as ruas das cidades e aldeias indianas. Então, apesar de muito abaixo do que se exige nas sociedades ocidentais, os novos padrões de sobrevivência de que os funcionários dessas empresas estrangeiras na Índia passam a usufruir são tão melhores do que os que tinham antes, que tudo lhes parece um «el dorado» apesar de, para nós, tudo continuar a ser horrível.

 

Há quem diga que essas condições abjectas de sobrevivência resultam de conceitos civilizacionais, que não podemos fazer comparações com aquilo que a nós, ocidentais, nos parece correcto, desejável ou apenas razoável.

 

Não, eu creio que esse entendimento não corresponde à essência da questão pois, na mesma Índia, vamos por exemplo ao Estado do Kerala e não vemos um papel no chão, não vemos hordas de desamparados nem sequer de mendigos famintos, vemos as obras públicas em andamento e não paradas por falta de financiamento atempado como no Tamil Nadu, vemos uma classe média tranquila e firme.

 

Creio, pois, que a diferença não é civilizacional; à diferença chama-se corrupção dos políticos que desprezam os respectivos «eleitores» e não se cansam de enriquecer enquanto lhes dura o mandato. E, no final, não olham a meios para se eternizarem no Poder como acontece um pouco por toda a parte nessa a que há quem chame a maior democracia do planeta.

 

Exactamente: na Índia, o bem comum não é um conceito tão comum como o bem individual dos políticos e essa é uma questão que nada tem a ver com a Civilização mas sim com a qualidade da democracia que por lá dizem existir.

 

Finalmente, creio que o investimento, nomeadamente esse que por lá faz produtos de «etiquetas ocidentais», deve ser aplaudido por estar a minorar as condições degradantes daqueles desgraçados que, em alternativa, morreriam ao abandono no sítio onde deveria haver uma sargeta se, ao menos, houvesse saneamento básico.

 

Quanto ao trabalho infantil, por muito horrível que nos pareça, sempre são menos essas crianças destinadas à morte abjecta na selva humana.

 

Eu vi, sei do que falo.

 

E é para continuar assim? Sim, será, sobretudo se nós nada fizermos para mudar a condição que criticamos. Anjezë Gonxhe Bojaxhiu[2] não se ficou pela crítica, agiu.

 

Dezembro de 2018

Tamil Nadu.pngHenrique Salles da Fonseca

(Tamil Nadu, em Trichy, nas margens do rio Cauvery, local de peregrinação e purificação dos hindus na que é chamada de «a Varanasi do sul»)

 

[1] - Fora da China

[2] -Madre Teresa de Calcutá

CHAU MIN – 4

Nixon-Chou En Lai.jpg

THANK YOU, MR. NIXON!

 

Sim, reconheço que desde a queda do padrão ouro, todas as moedas são intrinsecamente falsas e a única verdade que as sustenta é a confiança que as pessoas nelas depositam – fiducia, como diziam os antigos.

Thank you again, Mr. Nixon!

Portanto, todas são falsas mas… há umas mais falsas que outras.

E se a confiança é o mais palpável que se encontra à volta duma moeda, reconheçamos que, para volatilidade, basta. Venha algo mais substancial que fundamente tanta espiritualidade.

O quê?

Várias coisas, de que destaco:

  • Política orçamental inclusiva, não parcial
  • Emissão monetária controlada, sem laxismos para cobertura de défices excessivos e descontrolados
  • Política cambial sem golpes baixos tais como as desvalorizações discretas
  • Banimento dos artificialismos na formação dos preços

Com este tipo de «coisas», acredito que se possa acreditar na moeda; sem elas, não!

É que se queremos que a confiança sustente a moeda, temos de evitar desvirtuamentos por via das intervenções administrativas.

Eu suma, temos que ser liberais.

Não estou a ver que nada disto aconteça na China nem que lhe seja possível imitar os EUA quando levaram o Dólar à liderança mundial.

E desde já declaro que não tenciono aplicar as minhas poupanças em títulos representativos de Yuans. Tenho mais confiança no BCE e no seu DM travestido em Euro do que na política de emissão americana e muitíssimo mais do que o que nestas matérias se passe em Pequim.

Enquanto escrevi as linhas que antecedem, lembrei-me de Varoufakis e do seu livro «O Minotauro global» onde disserta largamente sobre o tema relativamente aos EUA, donde resulta a minha convicção de que a China não possui a estrutura política (nem mental) para conseguir fazer algo semelhante e nem sequer parecido.

 

Dezembro de 2018

Barranco, Lima, Peru, 12 de Outubro de 2017.jpg

Henrique Salles da Fonseca

CHAU MIN – 3

TEMPOS TRAVESSOS

 

Humanismo chinês… o que é isso?

 

É sabido que já os chineses andavam vestidos de seda e bebiam chá com aromas diversos quando ainda nós na Europa andávamos mal cobertos com peles de animais mortos à paulada e bebíamos… mais vale não investigar.

 

Todos conhecemos Confúcio, Mêncio e muitos outros que da lei da morte se foram libertando mas basta sabermos que o taoismo enfatiza o anarquismo defendendo essencialmente a ideia de que não precisamos de nenhuma orientação centralizada para compreendermos como a revolução comunista provocou uma solução de continuidade civilizacional muito maior do que nos poderia passar pela imaginação não avisada. E por causa dessa tradição fundadora foram assassinados alguns milhões de civilizados, taoistas e confucionistas, que desagradavam a Mao Tsé Tung e aos seus guardas vermelhos.

 

A questão que hoje trago é: qual o conceito que os dirigentes chineses nossos contemporâneos fazem de humanismo quando eles próprios são os sucessores dos sobreviventes das purgas de Mao?

 

Não vale a pena especularmos sobre as consequências da ruptura provocada por Mao na civilização chinesa, basta constatarmos a realidade actual que transpira cá para fora do «Império do Meio», obra dos «netos da revolução»:

china-labor-camp001.jpg

  • Multidões de presos políticos submetidos a trabalhos forçados
  • Pena de morte por «dá cá aquela palha»
  • Inexistência de liberdade de opinião
  • Movimentação condicionada
  • Inexistência de liberdade de estabelecimento

 

Conclusão: niilismo humanista e, sim, continuam por lá os tempos travessos.

 

E em resultado do trabalho escravo - todo o prisional e mais aquele ferrenhamente controlado pelos «sindicatos» governamentais – que produtos vêm cá para fora concorrer com os homólogos produzidos por quem tem direitos humanos?

 

Humanismo chinês… não há!

 

Dezembro de 2018

Macau-DEZ06.jpgHenrique Salles da Fonseca

(Macau, Dezembro de 2005)

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