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A bem da Nação

CHAU MIN – 5

 

DA GLOBALIZAÇÃO

 

Sim, reconheço que «cá fora»[1] também há casos lastimáveis de quem trabalha sem condições de dignidade, remuneração, higiene e segurança. Dizer o contrário seria mentir e ocultá-lo seria escandaloso.

 

No comentário de «Anónimo» no «CHAO-MIN – 3» a que ora me refiro, a crítica incide sobretudo na minha frase relativa aos produtos resultantes do trabalho prisional na China que concorrem com os "homólogos produzidos por quem tem direitos humanos".

 

Com diplomática ironia, o Comentador calcula que eu me esteja a referir à «civilizadíssima mercadoria com etiqueta "ocidental" (que concorre com a chinesa nos mercados mundiais), produzida em condições laborais fabulosas, com um não menos fabuloso respeito pelos direitos humanos, em países como o Vietname, Bangladesh, Paquistão, Tunísia, Marrocos e mais alguns felizardos, denodada e alegremente enquadrados e defendidos por organizações, sindicais e outras, que lhes conseguem gordíssimas remunerações e condições de vida absolutamente invejáveis».

 

A este cenário – lastimavelmente real - eu acrescentaria ainda a questão do trabalho infantil que a essa condição, a da infantilidade, soma todas as descritas acima.

 

Contra factos, os únicos argumentos que poderão vingar serão os que conduzam à correcção das ditas condições de miséria.

 

A diferença que existe entre a China e os outros países «cá de fora» nessas práticas vergonhosas é a de que na China se trata duma política de Estado enquanto, nos outros, se trata de desleixo de Estado.

 

Conheço uma parte da China onde não me foi possível verificar o que afirmo porque não é suposto os turistas sequer saberem dessas realidades e muito menos vê-las e conheço outros países «cá de fora», nomeadamente a Índia em grandíssimas extensões. Dos países citados acima, posso mesmo dizer que conheço a Índia, Marrocos e o Vietname melhor do que, respectivamente, a maior parte dos indianos, dos marroquinos e dos vietnamitas. Quanto à Indonésia, não me arrogo um conhecimento tão extenso mas, mesmo assim, pude conhecer a ilha de Java (assim como Bali) numa extensão apreciável, tanto urbana como rural e respectivos matizes intermédios.

 

Vamos por partes:

  • Na Indonésia não vi miséria e mais não me ocorre dizer nesta circunstância;
  • Em Marrocos vi uma sociedade medieval que como tal deve ser considerada, mas onde o investimento estrangeiro (nomeadamente português) vem criando condições de vida bastante mais favoráveis do que as que se imagina existissem anteriormente;
  • No Vietname, vi instalações industriais que me informaram serem o resultado da deslocalização da China mas como constatei um nível médio de vida muito superior ao chinês, presumo que a deslocalização não tenha ocorrido em busca de condições laborais mais abjectas do que no local de onde foram deslocalizadas.

Miséria na Índia.jpg

https://www.youtube.com/watch?v=OHuNE1P8S3s&feature=youtu.be

 

O problema «cá fora do Império do Meio» chama-se Índia onde, aí sim, tudo raia o abjecto. O cúmulo do desprezo dos políticos para com os respectivos «eleitores» verifica-se, dentre as amplas regiões que conheço, em Estados tão populosos como o Rajastão, o Uttar Pradesh e, sobretudo e no seu maior “esplendor”, no Tamil Nadu. Duvido que haja no resto do mundo locais onde o desprezo pela dignidade humana toque mais baixo na escala dos Valores concebidos por uma qualquer Civilização. Talvez só em Auschwitz ou em Treblinka tenham chegado a maior rigor.

 

E onde quero eu chegar com estes últimos considerandos? Muito simplesmente à constatação de que tudo o que o investimento – especialmente o estrangeiro - faça nessas zonas seja da maior importância para a sobrevivência imediata de alguns (sempre poucos) desgraçados que estavam encaminhados para a morte ao abandono nas lixeiras que são as ruas das cidades e aldeias indianas. Então, apesar de muito abaixo do que se exige nas sociedades ocidentais, os novos padrões de sobrevivência de que os funcionários dessas empresas estrangeiras na Índia passam a usufruir são tão melhores do que os que tinham antes, que tudo lhes parece um «el dorado» apesar de, para nós, tudo continuar a ser horrível.

 

Há quem diga que essas condições abjectas de sobrevivência resultam de conceitos civilizacionais, que não podemos fazer comparações com aquilo que a nós, ocidentais, nos parece correcto, desejável ou apenas razoável.

 

Não, eu creio que esse entendimento não corresponde à essência da questão pois, na mesma Índia, vamos por exemplo ao Estado do Kerala e não vemos um papel no chão, não vemos hordas de desamparados nem sequer de mendigos famintos, vemos as obras públicas em andamento e não paradas por falta de financiamento atempado como no Tamil Nadu, vemos uma classe média tranquila e firme.

 

Creio, pois, que a diferença não é civilizacional; à diferença chama-se corrupção dos políticos que desprezam os respectivos «eleitores» e não se cansam de enriquecer enquanto lhes dura o mandato. E, no final, não olham a meios para se eternizarem no Poder como acontece um pouco por toda a parte nessa a que há quem chame a maior democracia do planeta.

 

Exactamente: na Índia, o bem comum não é um conceito tão comum como o bem individual dos políticos e essa é uma questão que nada tem a ver com a Civilização mas sim com a qualidade da democracia que por lá dizem existir.

 

Finalmente, creio que o investimento, nomeadamente esse que por lá faz produtos de «etiquetas ocidentais», deve ser aplaudido por estar a minorar as condições degradantes daqueles desgraçados que, em alternativa, morreriam ao abandono no sítio onde deveria haver uma sargeta se, ao menos, houvesse saneamento básico.

 

Quanto ao trabalho infantil, por muito horrível que nos pareça, sempre são menos essas crianças destinadas à morte abjecta na selva humana.

 

Eu vi, sei do que falo.

 

E é para continuar assim? Sim, será, sobretudo se nós nada fizermos para mudar a condição que criticamos. Anjezë Gonxhe Bojaxhiu[2] não se ficou pela crítica, agiu.

 

Dezembro de 2018

Tamil Nadu.pngHenrique Salles da Fonseca

(Tamil Nadu, em Trichy, nas margens do rio Cauvery, local de peregrinação e purificação dos hindus na que é chamada de «a Varanasi do sul»)

 

[1] - Fora da China

[2] -Madre Teresa de Calcutá

CHAU MIN – 4

Nixon-Chou En Lai.jpg

THANK YOU, MR. NIXON!

 

Sim, reconheço que desde a queda do padrão ouro, todas as moedas são intrinsecamente falsas e a única verdade que as sustenta é a confiança que as pessoas nelas depositam – fiducia, como diziam os antigos.

Thank you again, Mr. Nixon!

Portanto, todas são falsas mas… há umas mais falsas que outras.

E se a confiança é o mais palpável que se encontra à volta duma moeda, reconheçamos que, para volatilidade, basta. Venha algo mais substancial que fundamente tanta espiritualidade.

O quê?

Várias coisas, de que destaco:

  • Política orçamental inclusiva, não parcial
  • Emissão monetária controlada, sem laxismos para cobertura de défices excessivos e descontrolados
  • Política cambial sem golpes baixos tais como as desvalorizações discretas
  • Banimento dos artificialismos na formação dos preços

Com este tipo de «coisas», acredito que se possa acreditar na moeda; sem elas, não!

É que se queremos que a confiança sustente a moeda, temos de evitar desvirtuamentos por via das intervenções administrativas.

Eu suma, temos que ser liberais.

Não estou a ver que nada disto aconteça na China nem que lhe seja possível imitar os EUA quando levaram o Dólar à liderança mundial.

E desde já declaro que não tenciono aplicar as minhas poupanças em títulos representativos de Yuans. Tenho mais confiança no BCE e no seu DM travestido em Euro do que na política de emissão americana e muitíssimo mais do que o que nestas matérias se passe em Pequim.

Enquanto escrevi as linhas que antecedem, lembrei-me de Varoufakis e do seu livro «O Minotauro global» onde disserta largamente sobre o tema relativamente aos EUA, donde resulta a minha convicção de que a China não possui a estrutura política (nem mental) para conseguir fazer algo semelhante e nem sequer parecido.

 

Dezembro de 2018

Barranco, Lima, Peru, 12 de Outubro de 2017.jpg

Henrique Salles da Fonseca

CHAU MIN – 3

TEMPOS TRAVESSOS

 

Humanismo chinês… o que é isso?

 

É sabido que já os chineses andavam vestidos de seda e bebiam chá com aromas diversos quando ainda nós na Europa andávamos mal cobertos com peles de animais mortos à paulada e bebíamos… mais vale não investigar.

 

Todos conhecemos Confúcio, Mêncio e muitos outros que da lei da morte se foram libertando mas basta sabermos que o taoismo enfatiza o anarquismo defendendo essencialmente a ideia de que não precisamos de nenhuma orientação centralizada para compreendermos como a revolução comunista provocou uma solução de continuidade civilizacional muito maior do que nos poderia passar pela imaginação não avisada. E por causa dessa tradição fundadora foram assassinados alguns milhões de civilizados, taoistas e confucionistas, que desagradavam a Mao Tsé Tung e aos seus guardas vermelhos.

 

A questão que hoje trago é: qual o conceito que os dirigentes chineses nossos contemporâneos fazem de humanismo quando eles próprios são os sucessores dos sobreviventes das purgas de Mao?

 

Não vale a pena especularmos sobre as consequências da ruptura provocada por Mao na civilização chinesa, basta constatarmos a realidade actual que transpira cá para fora do «Império do Meio», obra dos «netos da revolução»:

china-labor-camp001.jpg

  • Multidões de presos políticos submetidos a trabalhos forçados
  • Pena de morte por «dá cá aquela palha»
  • Inexistência de liberdade de opinião
  • Movimentação condicionada
  • Inexistência de liberdade de estabelecimento

 

Conclusão: niilismo humanista e, sim, continuam por lá os tempos travessos.

 

E em resultado do trabalho escravo - todo o prisional e mais aquele ferrenhamente controlado pelos «sindicatos» governamentais – que produtos vêm cá para fora concorrer com os homólogos produzidos por quem tem direitos humanos?

 

Humanismo chinês… não há!

 

Dezembro de 2018

Macau-DEZ06.jpgHenrique Salles da Fonseca

(Macau, Dezembro de 2005)

CHAU MIN – 2

tiro-no-pe.jpg

O TIRO NO PÉ

 

A grandeza da China deve-se, em primeiro lugar, ao facto de ela ser grande em termos absolutos e, em segundo lugar, ao outro facto de ter sido o Ocidente que a fez grande em termos relativos.

 

Cada um de nós, com mais de 60 anos, é um autêntico documento coevo do processo de deslocalização empresarial do centro civilizacional e de progresso formado pelo eixo Europa Ocidental-América do Norte para as respectivas periferias e para o Extremo Oriente. Bem nos lembramos como tudo começou com o encontro Nixon-Chu En Lai em 1972…

 

O objectivo imediato era o de ajudar a China a «dar o salto» por cima do atoleiro em que Mao Tsé Tung a metera e, numa fase posterior, o de a afastar progressivamente do vício comunista. O instrumento seria pela instalação na China de empresas que criassem novos postos de trabalho, introduzissem tecnologia moderna, formassem o pessoal e abastecessem o mercado doméstico chinês de modo a que a população pudesse ir ganhando melhores níveis de satisfação das respectivas necessidades.

 

E o que aconteceu?

 

Sim, aconteceu isso e muito mais. As empresas ocidentais gostaram de uma mão de obra muito barata, de um ambiente laboral avesso à contestação por estar domesticado por «sindicatos» fictícios e pela inexistência dessa maçada que é a legislação ambiental. De tal modo que começaram a pensar que a China poderia ser um antídoto contra os Sindicatos ocidentais e uma fuga aos maçadores do ozono e outras bexiguices quejandas. E se bem o pensaram, melhor o fizeram deslocalizando para a China não apenas as empresas destinadas ao abastecimento daquele mercado mas também as que tinham ficado na base. E o mercado mundial ficou espojado aos seus pés.

 

A consequência mais mediática foi a falência da Cidade de Detroit mas convenhamos que deve ser interessante trabalhar em capitalismo descontrolado, selvagem, com desobrigações sociais, mão de obra especialmente barata e dócil, em défice ambiental sem preocupações com efluentes gasosos, pastosos, sólidos ou…

 

A globalização é isto mesmo: o nivelamento por baixo, um tiro nos pés de quem estava habituado a mordomias que não existem em Xangai.

 

Dezembro de 2018

Xangai-DEZ06-1.jpg

Henrique Salles da Fonseca

(Xangai, Janeiro de 2006)

CHAU-MIN – 1

A BORRASCA

MEGA BORRASCA.jpg

 

Hoje trato do Petroyuan.

 

A ideia é a da desdolarização do comércio externo chinês passando a China a pagar as suas importações de ramas de crude em Yuans ficando os países seus fornecedores com Yuans suficientes para pagarem as importações de produtos chineses.

 

Muito bem, percebe-se facilmente que a China queira lançar a sua moeda no mercado internacional.

 

Pois! Só que o Yuan ainda é uma moeda falsa. E se os mercados internacionais passam a aceitar moeda falsa, então o FMI terá toda a razão ao prever que a borrasca está a chegar de novo.

 

E por que é que o Yuan é uma moeda falsa?

 

O Yuan é uma moeda falsa porque não é conhecida a política monetária que lhe está subjacente.

 

Como assim?

 

Muito simplesmente porque…

  • a política orçamental do Estado Chinês é opaca uma vez que…
  • o orçamento do Partido Comunista Chinês é segredo de Estado
  • o orçamento das Forças Armadas Chinesas é segredo de Estado
  • o Banco Central da China mais não é do que um «departamento» do Partido Comunista Chinês
  • a cotação do Yuan é definida por Decreto

 

Ou seja, tudo é falsidade e só acredita no Yuan quem não tenha alternativa, os próprios chineses.

 

E como é com as empresas?

 

A China não tem um POC e cada empresa apresenta as contas em conformidade com a liberdade imaginativa que o mesmo é dizer que tudo vale, talvez mesmo a famosa martelada. Eufemisticamente, as empresas chinesas são o «el dorado» da engenharia financeira. Nelas, tudo pode ser assim como assado.

 

Mas isto não seria perigoso se se tratasse de empresas domésticas. O problema está em que as cotadas em Bolsa também se regem pela putativa martelada.

 

Portanto, se não se pode acreditar na moeda chinesa nem no verdadeiro valor das empresas chinesas, quem pode acreditar na China e que futuro pode ter o Petroyuan?

 

Repare o Leitor que me ative apenas a matérias muito profanas e não abordei a outra questão maior, a política. Talvez um dia destes o faça se, entretanto, não estalar a borrasca.

 

Dezembro de 2018

Xangai-DEZ06-2.jpg

Henrique Salles da Fonseca

(em Xangai, Janeiro de 2006)

 

A VINGANÇA DE DETROIT

 

 

HSF-caos na bolsa de xangai.png

 

Quando o orçamento do Partido Comunista Chinês é segredo de Estado e o Orçamento das Forças Armadas é outro segredo de Estado, que sentido faz discutir a política monetária chinesa?

 

Quando as empresas cotadas na Bolsa de Xangai não têm contabilidade normalizada nem se aproximam sequer dos modelos internacionalmente aceites, que sentido faz atribuir um valor a uma empresa ali cotada?

 

Quando as moedas da China, de Hong Kong e de Macau têm o mesmo valor definido administrativamente, que credibilidade tem a política cambial chinesa?

 

 Que sentido faz a economia mundial dizer-se dependente dum conjunto de falsidades tão grande?

 

A China não passa de um bluff e todos os movimentos bolsistas no resto do mundo que agora se dizem em crise por contágio, não são mais do que pura especulação. As enormes perdas de quem agora vendeu, serão a breve trecho os enormes ganhos de quem comprou.

 

As enormes perdas no preço das commodities resultantes da redução da procura chinesa mais não foram do que pôr um travão à tensão especulativa a que esses preços vinham sendo submetidos; os mercados retomam assim alguma normalidade.

 

É tudo manipulação e só manipulação.

 

Na China só acredita quem quer e o Ocidente (Japão incluído) tem que deixar na China as fábricas cujas produções se destinem ao abastecimento do mercado chinês e mandar regressar à origem todas as outras fábricas que lá instalou para abastecimento do Ocidente. As «Detroit» espalhadas pelos EUA e Europa exigem-no (e os Sindicatos agradecem).

 

Agosto de 2015

Eu, Barril-8AGO15-2.jpg

Henrique Salles da Fonseca

MULHER COMPRA BRINQUEDO...

 ... E ENCONTRA CARTA DE ESCRAVO CHINÊS

 

Caro leitor, a história é tão boa que até parece mentira. Num dos Kansas desta vida, Oregon, uma americana comprou um brinquedo made in China e, entre o brinquedo e aquele irritante plástico que cobre todos os brinquedos, encontrou uma carta de um escravo chinês escrita em inglês partido. A carta denunciava um campo de trabalhos forçados (Masanjia), que, na verdade, é uma fábrica de brinquedos e demais bugigangas que compramos aos chineses. Nesta fábrica-prisão, os escravos do regime chinês (prisioneiros religiosos, sobretudo) têm de trabalhar quinze horas todos os dias e são submetidos a espancamentos, torturas e outras actividades lúdicas deste Gulag fabril. Como você pode calcular, caro leitor, cheguei a pensar que esta história só podia ser invenção de uma dona de casa desesperada, mas não é. Há dias, a CNN encontrou o homem que enviou a carta – o Senhor Zhang. Aliás, Zhang enviou vinte cartas em vinte brinquedos, como um náufrago a colocar vinte bilhetinhos no gargalo de vinte garrafas vazias.

 

Tudo isto é muito triste, sim senhora, mas vai mudar alguma coisa na nossa relação com a China? Não, não vai. E não me venha com o lero-lero do "capitalismo", do "sistema capitalista que provoca estas desumanidades". O "sistema capitalista" é V. Exa., caro leitor. É você que vê a indústria como uma actividade vil e mecânica, coisa de pobres mascarrados, coisa de chinocas, nós é mais bolos e serviços, não é verdade? É você que rejeita viver numa sociedade virada para a poupança e não para o consumo imediato. É você que vê a poupança como uma infracção intolerável ao seu modo de vida. É você que vê o crédito como uma espécie de direito adquirido. Sim, é você que alimenta as fábricas horrendas da China, não é o "capitalismo".

 

A conversa do boicote aos produtos chineses é uma ladainha inconsequente, porque você não mede aquilo que está a dizer. Quando quer uma televisão, o consumidor ocidental, no Oregon ou em Ourém, vai até à loja mais próxima e compra um aparelho ao preço da chuva. A televisão é barata porque foi produzida na China; se tivesse sido produzida no Ocidente, não custaria 300 euros mas sim 1000 euros. Ou seja, era necessário que a Keith de Oregon e a Cátia de Ourém aprendessem o conceito de poupança antes do lançamento do tal boicote à China.

 

Ora, como você bem sabe, meu caro leitor, poupar transformou-se num verbo maldito, quase proto-fascista. Eu estou pronto para boicotar os produtos chineses porque vivo em poupança, porque vivo em austeridade. E você? Está pronto?


Novembro de 2013
 

 Henrique Raposo

VERDADE E PROPAGANDA

 

 

 

 

Na sua edição de 11 de Janeiro de 2007, começava o “The Economist” um artigo com a afirmação de que na China a separação entre a verdade e a propaganda sempre foi um difícil exercício, mesmo quando se trata de números.

 

Tratava o referido artigo de saber qual a fiabilidade da contabilidade chinesa quando o Ministro das Finanças pediu às 1200 empresas cotadas na Bolsa de Xangai que seguissem o mais possível as normas internacionais de contabilidade e, mesmo assim, terá autorizado algumas importantes excepções. Às outras empresas, o Ministro pediu que se fossem adaptando voluntariamente a essas normas.

 

“Seguir o mais possível” pode significar uma total cedência às dificuldades, ou seja, um persistente afastamento das ditas regras; as “importantes excepções” querem claramente dizer que algumas das empresas com significativa relevância na economia chinesa se manterão oficialmente estranhas ao processo de adaptação à transparência internacional; um pedido pode não ser correspondido; o voluntarismo é sempre subjectivo.

 

Ou seja, é previsível que tudo continue na mesma, seguindo critérios contabilísticos típicos dos meandros do Yang-Tsé-Kiang e nada tendo a ver com o que nós, os outros, consideramos correcto. Por outras palavras, dá para crer que a informação financeira prestada pelas empresas chinesas tanto pode corresponder à verdade como à propaganda.

 

Nada disto seria relevante se a China continuasse isolada do mundo mas como todos sabemos, é precisamente o contrário que está a suceder e, pior, o mundo está a esvaziar-se a favor da China. Ora se nos estamos a perder por ali, então o mínimo que podemos pedir é que haja transparência. Ficámos a saber que não há.

 

Na sua edição de 30 de Dezembro de 2006, o “China Daily” tratou com enorme relevo o “5º Papel Branco da Defesa Nacional” apresentado poucos dias antes pelo Chefe do Departamento de Relações Exteriores do Ministério da Defesa aos 70 adidos militares de 45 países acreditados em Pequim.

 

Pesem embora as sucessivas afirmações de que a China tem uma política de defesa não agressiva, é recorrente a citação a Taiwan e à hipótese da sua secessão; os outros grandes desafios colocados à política chinesa de defesa referidos no resumo do jornal têm a ver com o reforço dos laços entre Washington e Tóquio e com os testes nucleares da Coreia do Norte.

 

Quando cerca de 5000 empresas em Xangai são de capitais de Taiwan, quando as relações de Hong Kong e Macau com Taiwan são de primordial importância, quando as zonas especiais envolventes de uma e outra são enormes receptáculos do investimento de Taiwan, não dá para compreender muito facilmente como é que se compatibiliza um modelo de desenvolvimento económico com uma política de defesa que cita o motor desse desenvolvimento como alvo prioritário. Poderá não passar de uma autêntica chinesice minha mas, na verdade, levantam-se-me sérias dúvidas sobre a congruência do documento.

 

No que respeita aos outros dois desafios, acho bem que lá estejam em paralelo pois que se trata de dar uma no cravo e outra na ferradura. Fico, contudo, mais sereno quando leio que no âmbito da questão nuclear, a China se compromete a seguir o princípio fundamental de nunca ser o primeiro utilizador. Como sabemos que os EUA e a Rússia seguem idêntico princípio, parece que a mensagem se destina à Coreia do Norte ou ao Irão ou a ambos. Oxalá que esta leitura esteja minimamente correcta. Caso contrário podemos a qualquer momento ter o caldo entornado.

 

E que mais nos diz o papel? Compara vários parâmetros, a saber:

 

Despesas totais com a Defesa em 2005 (biliões de $US)

§         EUA        =   495,33

§         UK          =    57,88

§         Japão      =    45,387

§         França     =    42,891

§         Alemanha =   31,139

§         China      =    30,646

§         Rússia     =    18,603

 

Despesas per capita/pessoal ao serviço em 2005 (milhares de $US)

§         EUA          =   356,61

§         UK           =    288,03

§         Japão       =    188,47

§         França      =    123,54

§         Alemanha  =    122,93

§         Rússia       =     16,39

  • China         =     13,32

 

Mais consta do documento que o Exército reduziu sucessivamente os efectivos humanos em 1 milhão de homens em 1985, em 500.000 homens em 1997, em 200.000 homens em 2003 e em 2005 outros 200.000 homens. Actualmente, os efectivos humanos do Exército Popular de Libertação serão de 2,3 milhões de homens.

 

 Estes não foram desmobilizados e por isso cantam...

 

 

Sucede que as despesas militares eram uma das matérias que mais me fazia temer que a China pudesse ser uma bolha a estoirar a qualquer momento, como já referi em “No caminho de Novosibirsk…”. Recordo que esse meu temor resultava da falta de credibilidade da política monetária e orçamental de um país onde as despesas militares eram segredo de Estado. Pelos vistos, já não são segredo. Serão verdadeiras? Será este papel verdadeiro ou propaganda?

 

Não me dei ao trabalho de ir verificar a informação estatística que deve estar disponível na Internet sobre os elementos relativos aos membros da NATO citados no documento em referência mas temo que a informação relativa à China seja estatisticamente tão credível como a contabilidade das empresas cotadas na Bolsa de Xangai . . .

 

Andam entretanto pela Internet umas “vozes” acerca de um míssil chinês que terá derrubado um satélite americano. A ser tecnicamente plausível e factualmente verídico, devia ser um satélite que andava a espionar – perdão, verificar – a diferença entre a propaganda e a verdade na política chinesa de defesa. Seria mesmo ?

 

Se não acreditamos nas estatísticas espanholas, porque é que havemos agora de acreditar nas chinesas?

 

Lisboa, Janeiro de 2007

 

 Henrique Salles da Fonseca

PORTO CHEIROSO

 

 

Cheguei a Hong Kong no dia 23 de Dezembro de 2006, em trânsito para Macau. Com o actual aeroporto já se perdeu aquela aventura que existiria nos tempos do antigamente de aterrar quase pelo meio dos prédios da cidade a ver as donas de casa a engomar a roupa.

 

Mal aterrámos e passámos a Alfândega, logo fomos detectados por quem a nossa Agência de Viagens encarregara de nos encaminhar ao destino. Afirmo categoricamente que se tratava de alguém que já não era jovem mas houve duas coisas que não lhe consegui detectar: idade aproximada e género. Situar-se-ia, talvez, entre os 40 e os 70 anos de idade mas, não sendo homem, também não me pareceu que fosse mulher. O que sei é que logo ali começou uma correria por uma auto-estrada moderníssima em direcção a uma enorme estação marítima repleta de gente a subir e descer escadas rolantes em direcção a locais enigmáticos com nomes nossos desconhecidos, comprando apressadamente bilhetes numa fila interminável que quem nos acompanhava ultrapassou sem a mais pequena cerimónia para não corrermos o risco de perder a carreira, maratona esta que só cessou quando finalmente nos sentámos no ferry catamaran que disparou por ali fora, também ele com medo de perder o destino. E este interminável parágrafo é bem pequeno quando comparado com a azáfama a que fomos obrigados depois de um entorpecedor voo de 11 horas. Passar num ápice do parado à correria até pode fazer mal à saúde. Não somos carros de corrida que façam poucos segundos dos zero aos cem quilómetros de velocidade. Mas sobrevivemos. Fique aqui o registo para memória futura de que o “jet lag” e o stress fazem uma salada de gosto amargo para quem nasceu há mais de 60 anos. E a propósito de salada, lembrei-me então do dito lisboeta de que a dita de alface “só fica a preceito quando temperada por um cego e mexida por um louco”. Nós íamos cegos de cansaço e doidos com a correria. Seguiu-se uma viagem de cerca de uma hora até Macau ao longo da costa cantonesa pejada de baías, promontórios e outras belas paisagens. Gostei, a salada saiu a preceito.

 

Andando pescadores e piratas nas respectivas fainas, todos invocando a protecção das Divindades dos mares do sul da China, recolhiam ao seu abrigo natural quando disso era mister ou os ventos se levantavam em tufões. Eram os rododendros a planta nativa mais abundante nas encostas circundantes daquelas águas calmas. O aroma suave chegava-lhes a ocultar os odores do peixe fora de água ou de outros mais típicos da espécie humana. Por isso lhe chamaram Hong Kong, o que no nosso linguajar significa Cheiroso Porto. Se aos súbditos britânicos não choca essa inversão dos factores, nós sempre preferimos chamar-lhe Porto Cheiroso. Mas como a colónia não foi lusa, prevaleceu o nome pela ordem cantonesa.

 

Nessa vida andaram séculos e mais séculos até que uma época chegou em que apareceram gentes de grandes narizes, pele rosada e . . . cheirando a mortos. Não eram os mesmos que viviam em A-Mah Gao; estes não vinham para viver e não faziam tantas rezas como os outros.

 

Aos outros, o Imperador Celestial oferecera A-Mah Gao como agradecimento pela ajuda no combate aos piratas; a estes, o Imperador tivera que conceder a ilha de Hong Kong e a península de Kowloon por ter perdido a Guerra da Ópio; os das rezas fizeram uma fronteira de pedra e cal, as Portas do Cerco; estes fizeram uma fronteira em tapume de madeira de modo a avançarem todas as noites alguns metros para dentro do Império do Meio; os outros perfilhavam os filhos que faziam às chinesas com quem viviam; estes não autorizavam que chineses e cães se aproximassem dos seus jardins; aqueles aprendiam a falar a língua do sul da China; estes obrigavam os chineses a falar a língua que traziam lá de longe, o “ínglixe”.

 

E havia mais uma diferença: quando alguém fugia do Império do Meio e chegava a Hong Kong a nado ou numa sampana, estes mandavam-no de volta e os mandarins cortavam-lhe o pescoço; os outros, os de A-Mah Gao, não recambiavam os fugitivos e, se bem que não lhes dessem cama nem roupa lavada, pelo menos deixavam-nos viver.

 

Foi por causa destas diferenças que aqueles narizes compridos de A-Mah Gao lá ficaram quase 450 anos e estes, os de Hong Kong, só cá ficaram 150. Todos têm narizes compridos, pele rosada e cheiram a mortos mas com uns pode-se viver e com os outros . . .

 

Terá certamente sido o pragmatismo britânico que induziu os chineses de Hong Kong a substituírem os rododendros por cebolas e assim foi que do aroma ficou o nome que quanto a rododendros, só estilizados aparecem na bandeira. As cebolas foram a boa desculpa para as muitas lágrimas vertidas pelo desprezo a que os da terra se sentiam votados pelos forasteiros.

 

Hong Kong é um centro comercial em ponto grande e parece que não dorme. Digo que parece pois não fui testemunha do que por lá se faz a horas menos cristãs. Fui dar um giro depois de jantar à zona em que há comércio daquelas bugigangas que as Senhoras tanto gostam de ver: barraquinhas ao longo do eixo da rua, de costas voltadas para as lojas de pedra e cal, mercadoria bem insinuada pelos olhos dentro de clientela menos mexedora que a espanhola, algum artefacto mais útil a constituir excepção à futilidade da regra definida. Mas ao longo de Nathan Road, aí sim, lojas de marca, luxo a sobrar. Deliciei-me ao ver a loja da portuguesíssima “Aerosoles” assim como já gostara de ver em Macau a da “Vista Alegre”. Afinal, não são só as lojas dos 300 em Portugal que pertencem a chineses, na China também há lojas portuguesas por muito mais que 300.

 

Basta reparar no tamanho dos edifícios dos inúmeros Bancos para se constatar que Hong Kong deve ser uma mega-praça financeira. Não dá para saber se a hegemonia regional se manterá por muito tempo pois está visto que Xangai quer subir ao pódio mas, de momento, a actividade parece ser febril com a Bolsa de Valores mais activa daquelas partes do mundo. Basta sabermos que em Dezembro de 2006 ali se movimentou algo como o equivalente a 1,71 triliões de Dólares americanos para podermos imaginar que o que por ali vai . . . não vai na rua: em número de empresas cotadas, é das maiores a nível mundial. Este, sim, o grande item do modelo local de desenvolvimento.


 O edifício da Bolsa tem mais de 50 pisos, o que é banal em Hong Kong

 

A super-dimensão do edifício que alberga a Bolsa é de facto impressionante mas como por lá todos os edifícios são muito altos, quase olhamos para ele com alguma indiferença. É que quem por lá tiver menos de 40 pisos, passa por abarracamento do Casal Ventoso. Edifícios com 50 pisos são banais e a competição está em curso para saber onde se constrói o prédio mais alto do mundo. De momento, o record está em Taipé mas Xangai já lhe vai no encalço. Os cálculos de engenharia devem ser notáveis mas temo que a sensatez não ande por ali ao rubro.

 

O Pico Vitória, na Ilha de Hong Kong propriamente dita, tem escassos 400 metros de altitude mas, um pouco além de meia-encosta, existem duas torres de apartamentos com 80 pisos. Quase no topo do Pico, existe um miradouro donde se desfruta uma vista deslumbrante mas . . . os últimos pisos de alguns dos prédios da cidade ultrapassam a altitude do miradouro. Exactamente no Pico Vitória existe uma antena de rádio ou televisão mas bem junto dessas instalações, uns bons metros acima do miradouro, há prédios de habitação com vários pisos. Se há ocasiões em que se diz que o Céu é o limite, creio que em Hong Kong só vão sossegar quando, do lado de fora da janela da cozinha de um desses apartamentos, se encontrar alguém a tocar harpa, sentado numa nuvem.

 

 A família Salles da Fonseca sentiu que era justo posar perante o valioso equipamento do fotógrafo chinês que ganha a vida no miradouro do Pico Vitória

 

A regra dos 45 graus vulgarmente aplicada em Portugal – e creio que na Europa, de um modo geral – diz que do topo de qualquer edifício deve poder extrair-se uma linha nesse ângulo que tem que chegar ao solo. Assim se definem as alturas máximas em função da distância às edificações circundantes. Pois bem, essa regra deve ser proibida naquelas paragens e quem a ela se referir, correrá certamente o risco de internamento em hospício para alienados mentais. É vulgar que a metade inferior de cada prédio nunca receba a luz directa do Sol e, em contrapartida, cada um fique na intimidade dos vizinhos da frente. Lúgubre é a palavra cuja sonoridade mais se aproxima desta realidade. Contudo, as populações continuam a querer afluir a estas condições de vida. Dá para imaginar como será o estilo de vida do outro lado da fronteira, na Província de Cantão...

 

Certa noite fomos jantar ao restaurante “Aqua” que se situa no 29º piso de um prédio perto do cais, em Kowloon. O luxo sóbrio da arquitectura do átrio prometia agradáveis surpresas e assim foi até ao topo, incluindo o próprio elevador. As recepcionistas do restaurante esperam os clientes à saída do elevador e logo nos encaminham para a sala através de uma porta que à nossa aproximação se abre automaticamente sobre uma plataforma em degraus até uma janela “de corpo inteiro” que nos apresenta uma paisagem deslumbrante de néons, navios acostados a nossos pés, a ilha de Hong Kong e seus arranha-céus piramidais, o Pico Vitória e as torres descomunais, a loucura transformada em paisagem num repente para que não estávamos preparados. Já conheço um pouco mais do mundo para além do meu bairro em Lisboa mas confesso que dei por mim extasiado, de boca aberta, feito saloio. Lindíssimo! O jantar foi bom mas quase nos esquecemos que lá íamos para isso. Passados os olhos pelo restaurante propriamente dito, éramos todos europeus com excepção de quem nos servia.

 

  Deslumbramento completo. Não me lembrei de perguntar como se diz "féerie" em cantonês

 

No território, à falta de um, há dois hipódromos de corridas de cavalos e as apostas são um negócio muito importante para milhões de apostadores e alguns milhares de correctores, jockeys, tratadores, proprietários de cavalos, etc. O vício do jogo está profundamente arreigado nos chineses e se não fosse conduzido para entretenimentos com alguma sanidade, certo seria que havia de degenerar para vias pecaminosas. Porque será que só o legislador português é que não vê esta evidência?

 

Deixo para o fim um mistério que propositadamente não esclareço: como é que na língua cantonesa falada em Macau “porto” se diz “gao” e no cantonês de Hong Kong se diz “kong”? Confesso que não me preocupo muito com a questão e atribuo a diferença a um qualquer sotaque regional semelhante à “vaca” no sul de Portugal e à “baca” lá no norte. Ou então foi a dureza de ouvido dos ingleses que levou a esta diferença; pela nossa parte fomos muito mais genuínos e só usámos apócopes e corruptelas . . .

 

Lisboa, Janeiro de 2007

 

 Henrique Salles da Fonseca

 

Deslumbrados e Sôfregos

 

Deusa da Fertilidade - último monumento erigido pelos portugueses

 

 

Cheguei a Macau no dia 23 de Dezembro de 2006 e passado pouco já me lembrava de Cristina Wasa, rainha da Suécia, que foi a primeira cabeça reinante a reconhecer a soberania portuguesa depois da expulsão dos Filipes. Por isso ainda hoje nós, os portugueses, damos “Vivas à Cristina!”.

 

Passados alguns séculos do seu passamento em Roma no ano de 1683 com a então razoável idade de 63 anos, continuamos sem saber se Cristina era uma mulher deslumbrante ou se deslumbrada. Para o Cardeal Dezio Azzolino, certamente uma mulher deslumbrante; por D. António Pimentel do Lago, o Amarante, certamente uma mulher deslumbrada. Mas sobre ela escrevo noutra sede pois que, por agora, me ocorre apenas a sua memória por causa dos chineses e de Macau: quem deslumbra quem? Macau deslumbra os chineses ou são estes que deslumbram Macau? Eis a questão.

 

Não vi em que condições se vive na vizinha Província de Cantão nem sequer dá para imaginar se por lá se vive ou se se sobrevive. O que dá para ver é o ar de extasiamento dos chineses acabados de chegar a este nosso antigo território. Mais: a correria em que fazem o percurso das Portas do Cerco aos autocarros que gratuitamente ligam a fronteira terrestre aos casinos, dá para imaginar que esta viagem se fazia ansiosamente esperar. Sim, cada casino tem um serviço gratuito de transporte nesse percurso para ter a certeza de que o dinheiro amealhado do lado de lá da fronteira não é desbaratado em bilhetes dos transportes públicos da cidade ao preço “astronómico” de 3 Patacas, o equivalente a € 0,30 !!! Mas, mesmo assim, alguns desses turistas escapam-se e vão ao templo da Deusa A-Mah pedir sorte ao jogo.

 

E quem é a Deusa A-Mah? Conta a tradição chinesa que, nos tempos mais antigos, uma frota de juncos foi apanhada por um tufão salvando-se apenas um único barco que com a força dos ventos foi atirado para cima de terra na zona que muito mais tarde receberia o nome de Porto Interior de Macau. Nesse barco fazia-se transportar A-Mah, concubina terrestre do Imperador Celestial e, desde que serenados os ventos, logo o povo lhe atribuiu o fim da tempestade e a deificou. Ao local passou a chamar-se “porto de A-Mah” o que em cantonês soaria a algo como “A-Mah Gao”. De apócope em corruptela e assim sucessivamente, eis que se chega ao nome de Macau.

 

Macau, a quem muitos fazem corresponder o extenso nome de “Cidade do Santo Nome de Deus”. Ora, é axiomático que Deus é Santo e, portanto, a expressão “Santo Nome de Deus” é um pleonasmo sem sentido teológico. Por isso, Macau assume o nome extenso de “Cidade do Nome de Deus” e não como é corrente afirmar.

 

No templo de A-Mah – apesar da agnóstica presença dos curiosos turistas – prevalece uma evidente religiosidade que nos faz recordar o princípio fundamental de que a Fé não se discute. Quem não souber respeitar a Fé alheia, mais vale que não ponha lá os pés. Os crentes locais vão lá pedir protecção nas pescarias; os forasteiros crentes vão lá pedir sorte antes de se abalançarem ao jogo e vão lá agradecer as graças recebidas quando disso tenha sido o caso.

 

Habituado que estou a falar em surdina sempre que visito algum lugar de oração, estranhei o meu guia turístico – macaense, cidadão português – falar connosco, a família Salles da Fonseca, como se fôssemos surdos, o que felizmente não somos nem ficámos apesar do barulho do fogo de artifício que estralejava entretanto na rua fronteira ao templo. É que, quanto maior a fortuna recebida no casino, maior a agradecimento no templo em oferendas e incenso e maior o espavento na rua provocado pelo fogo de artifício. Pululam no local as lojecas de pirotecnia cujos propagandistas chamam a potencial clientela com megafone ou, mais sofisticadamente, com microfone, alto-falante e sombrinha protectora da canícula ou da chuva, conforme as circunstâncias. Fizeram-me lembrar a Feira do Relógio ou a da Luz, em Lisboa . . . Gritaria incomoda sempre mas quando é tecnologicamente ampliada incomoda muito mais e isso tanto em Macau como em Lisboa ou em qualquer outra feira de atoalhados, vitualhas e bugigangas, bem à nossa moda. Restou-me a dúvida sobre como será possível orar no meio de tanta balbúrdia mas fui obrigado a reconhecer que a Fé move montanhas e, pelos vistos, silencia algazarras.

 

Frente ao templo de A-Mah, do outro lado da rua, existe a Capitania e o Museu Marítimo, local onde aportaram os primeiros portugueses nos idos de 500. Todo esse grande terreno e instalações vão ser doados ao Governo Português para aí instalar tudo o que lhe aprouver, nomeadamente a Escola Portuguesa de Macau que hoje se situa em local que certamente é super-cobiçado pela construção civil, bem perto do Hotel Lisboa e do Novo Casino Lisboa a inaugurar brevemente no próximo Ano Novo Lunar. O pudor estético impede-me de descrever esse futuro ex-libris de Macau; publico fotografia que dele fizemos e cada leitor que julgue por si.

 

 Afinal, tenho que explicar porque não se vê: a partir do polo superior deste esferóide desenvolve-se um edifício com qualquer coisa como 40 ou 50 pisos (ou mais ainda) em que a meia dúzia do topo parece formar uma banana descascada tendo cada um desses pisos maior área do que o que lhe está por baixo. Será o edifício mais alto de Macau...

Aportou Jorge Álvares em 1513 a esta terra a que hoje chamamos Macau, vindo da sua cabana em Sanchuan, também ali na costa cantonesa, onde em 2 de Dezembro de 1552 viria a morrer S. Francisco Xavier de febres para que então não havia cura ou que, no mínimo, o amável anfitrião desconhecia. Foi esse capitão-comerciante muito importante nos mares do sul da China não só como transportador de mercadoria própria e alheia mas também no comando de navios militares portugueses. Foram várias as batalhas navais que travou contra opositores locais à presença portuguesa e acabou mesmo por morrer na sequência de ferimentos recebidos na última peleja em que participou. Ferido e moribundo, recolheu-se à sua cabana em Sanchuan nas proximidades da qual erigira um padrão atribuindo o local à posse do Rei de Portugal. Cumpriram-lhe a vontade de sepultura junto ao padrão mas não lhe sobreviveu a posse portuguesa daquela terra.

 

Transportava Jorge Álvares nos seus navios lastro de pedra portuguesa mas quando deparou com a maravilha da porcelana chinesa, logo tratou de vender a pedra para calcetamento das veredas locais a troco dessa outra “pedra” por que ainda hoje bebemos o chá das 5. E o lucro que fez com a venda da porcelana foi tal que, descoberta a origem da preciosa mercadoria, despertou a cobiça de muitos mais portugueses que de imediato rumaram ao Oriente. O mais curioso é que a calçada frente ao templo da Deusa A-Mah, do Museu Marítimo e da Capitania de Macau é suposto ser feita com essa pedra oriunda de Portugal. Mesmo que não seja verdade, é uma história bem apanhada. Mais: foi-me contada com uma enorme simpatia e até mesmo paixão por tudo que respeita a Portugal.

 

  Ruínas da Igreja de S. Paulo, actual ex-libris de Macau, antiga glória da Província do Oriente da Companhia de Jesus

 

E que resta em Macau de Portugal? Muito e pouco, simultaneamente.

 

Todos os escritos públicos são bilingues em chinês (presumo que mandarim pois ouvi dizer que o cantonês não tem escrita oficialmente reconhecida na China) e em português. As viaturas da Polícia identificam-se como “Polícia de Segurança Pública”, os autocarros dos transportes urbanos afirmam que “existimos para melhor servir” ou outra expressão equivalente, a toponímia mantém os nomes que a Administração Portuguesa definiu mas... quase ninguém fala português.

 

Contudo, nada melhor do que apurar da verdade dessa afirmação – de que nem os polícias falam português apesar do distintivo escrito na nossa língua. O nosso hotel era bem próximo de um grande aquartelamento da PSP pelo que sempre passávamos à porta de armas quando nos dirigíamos no sentido de um conjunto de quarteirões muito comercial, pejado de restaurantes. Decidimos inventar um pretexto para fazermos uma pergunta ao polícia de plantão e perguntei-lhe em português pausado mas fluente qual a melhor carreira de autocarros para a Ilha da Taipa. Felizmente, não precisávamos da resposta para nada porque, se não, ainda hoje lá estaríamos à espera da alguma indicação válida. O encolher desculposo de ombros que o polícia me fez implicou que eu repetisse a pergunta em inglês e foi então que me regalei ao constatar que a tradição da rainha Vitória também ali não criou quaisquer raízes, apesar do sistemático assédio que historicamente fizeram às colónias portuguesas. O diligente agente da Autoridade com que eu tentava comunicar pediu ajuda a um colega que estava para lá da porta de armas mas o resultado foi igual, ou seja, zero. Será mais simpático concluirmos que os polícias de Macau não andam de autocarro...

 

Não andam de autocarro mas é imprescindível que falem cantonês, língua usada pelos “clientes” que eles possam ter que meter no calabouço. É para mim claro que seria muito simpático que articulassem alguns sons na língua em que estão escritos os distintivos da farda que usam e que algum domínio do português – uma das duas línguas oficiais do território que policiam – fosse critério preferencial para as promoções na carreira.

 

Mas, para além do motivo algo artificial das promoções, há todo o interesse prático em falar português em Macau pois a medicina chinesa não é exímia em cirurgia e são os médicos portugueses muito solicitados para todos os casos que não se resolvam com a simplesmente analgésica acupunctura. Sucede também que o Direito em Macau é o que Portugal lá deixou e tudo é gerido com uma forte componente de Advogados portugueses. Não seria complicado arregimentar mais alguns argumentos a favor da aprendizagem da nossa língua mas nada apurei sobre se a Escola Portuguesa de Macau – com escassos 180 alunos diurnos – ministra cursos para adultos em horário post-laboral, não só para polícias mas também para bancários ligados às instituições de capital português, tão importantes naquela praça.

 

Finalmente, os arranha-céus em construção sugerem-me que Macau poderá ser um bom local para os nossos recém-licenciados em Arquitectura fazerem uma “comissão” de um ou dois anos em regime de profissão liberal ou vinculados a alguma instituição ligada ao “métier” e não sei mesmo se outras profissões actualmente em menos bons lençóis por cá não deveriam encarar igual hipótese. Não há quem diga que em Portugal temos Advogados a mais? Alguém conhece lugar mais aprazível para ganhar curriculum?

 

Em Macau vemos gente deslumbrada com os feéricos e profusos néons, gente apressada para não perder um certo momento de sorte que ninguém sabe quando acontece num dos 25 casinos em funcionamento e deparamos com esses sôfregos locais de alguma sorte e muito azar a não perderem um único Yuan poupado do outro lado das Portas do Cerco. Fico mesmo sem saber se são os chineses que se deslumbram com os casinos ou se são os casinos que se deslumbram com as poupanças dos chineses assim como me restam todas as dúvidas sobre se prevalece a sofreguidão chinesa pelo dinheiro fácil ou a sofreguidão dos patrões dos croupiers pela cupidez dos jogadores.

 

Fica a pergunta sobre o que diria o Herói do Passaleão a este vibrante e inebriante estilo de vida e fica também a questão de saber durante quanto tempo a febre construtora de casinos, hotéis e outras piramidais estruturas permitirá a manutenção dos traços arquitectónicos que Portugal ali edificou durante quase 450 anos.

 

  No Largo do Leal Senado, um dos edifícios de que mais gostei

 

 

Lisboa, 5 de Janeiro de 2007

 

Henrique Salles da Fonseca

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