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A bem da Nação

«FANIE» (conclusão)

Soe dizer-se «a pedido de várias famílias» quando já não conseguimos identificar todos os pedidos de… qualquer coisa. No caso presente, fica, pois, o registo do pedido do meu Amigo Carlos Prieto Traguelho quanto ao modo como o Sô Manel se desenrasca sozinho e ficam sem menção especial os relativos à situação actual da «Fanie». Mais aproveito para informar neste breve intróito que a fantasia ficou lá a trás no texto inicial.

* * *

Cego que se prese usa bengala como valiosa substituta dos olhos falidos. E foi isso mesmo que fez o Sô Maneç durante uns tempos depois de a «Fanie» ter regressado à escola de cães-guia mas, por alguma razão que me escapou, decidiu abandonar o «varapau». Passou então a aceitar a boleia de quem segue na direcção que ele quer. Mas – e há sempre algum «mas» - poucas são as pessoas que sabem conduzir cegos: ou andam muito depressa, ou pegam no braço do cego, ou se esquecem de avisar da presença de um degrau,… Uma molhada de bróculos. 

E, contudo, é muito fácil conduzir um cego:

1º- Deixe que seja o cego a pegar no seu braço ou ombro, não o contrário;

2º- Não puxe o cego, iguale a sua velocidade em relação à dele;

3º- Passe longe dos postes e outros obstáculos pois o cego vai ao seu lado e não a trás de si;

4º- Avise da existência de degraus.

Aos poucos, as pessoas da aldeia já vão sabendo destas normas e o Sô Manel já vai dando muito menos tropeções do que de início. Tout s’arrange…

E a «Fanie»?

Perguntei directamente ao Sô Manel quando, em Julho passado (2020)k também eu quase cego, nos encontrámos na esplanada.

- Mas que coincidência o Senhor perguntar-me por ela e eu ter telefonado ontem a saber se estava tudo bem. Que sim, tem estado como «mestra» de alunos cachorros mas há uma semana que está de licença de parto. Teve uma ninhada de seis canitos pretos, quatro meninos e duas meninas.

HAPPY END

Setembro de 2020

Henrique Salles da Fonseca

 

«FANIE»

 

Canez, a fala dos cães.

O Sô Manel é o cego da aldeia. Cegou já adulto tardio, está reformado com modesto conforto. Embarcadiço que foi, conheceu o mundo mas, agora, o seu mundo é a aldeia e, mesmo assim, nem toda – fica-se pelo parque central e respectivos limites pois mora do lado sul e o café a que vai diariamente fica no do norte. Não lhe conheço família mas pelo modo como veste, adivinho que tenha quem por ele veja e dele cuide – um cego não acerta nas cores nem engoma correctamente os vincos da roupa. Mas o que mais dá para ver na sua indumentária é o boné. Deve ter sido comprado nalgum porto inglês e estou mesmo a imaginar um Lord britânico gorducho e de grande bigodaça à caça do «famoso grouse» debaixo de um boné daqueles. Mas o Sô Manel não caça e limita-se a tomar um café simples, sem «mosca»[i] nem outros baptismos.

O seu luxo era «Fanie», a cadela guia que o levava de casa ao café e de volta[ii].

Preta, raça Labrador, de meia idade, bem tratada, lembrava-me o tal Lord da bigodaça, estava gorducha.  O seu trabalho diário limitava-se a conduzir o dono ao café e volta numa distância total de menos de trezentos metros. O resto do tempo passava-o a comer, a dormir e a fazer mimos ao dono. Pouco se mexia e o Sô Manel achava que a cadela estava a ficar farta daquela vida, vida estúpida para qualquer cão. E começou a pensar que não tinha o direito de submeter a cadela a tanta desmotivação. Pensou soltá-la no parque mas logo imaginou a canzoada labrega da aldeia à volta dela a tentar indecências na via pública e afastou a ideia. A «Fanie continuava a usar o quintal da casa para as suas precisões.  E de ideia em ideia, foi rejeitando todas as hipóteses sem descortinar uma que lhe agradasse e pudesse dar alguma alegria
a sua amiga. Sentia que a neura avançava pela vida da «Fanie» e desesperava-se com tentar retribuir a bondade da cadela. Ele não se dava ao direito de causar neura a quem só lhe fazia bem. E tomou a decisão: devolveria a «Fanie» à escola dos cães-guia se lhe garantissem que ela ficaria como «mestra» dos cães alunos e que não voltaria a ser submetida a um suplício neurótico a guiar algum cego de mau feitio. Ele próprio havia de se desenrascar sem guia. Já conhecia bem o caminho, tinha um ou outro ponto de referência pelo tacto, contava os passos, ia libertar a cadela.

Telefonou para a escola, obteve a garantia que pediu, combinaram a data e a hora em que estariam na esplanada do café para a «Fanie» regressar à sua origem dos tempos infantis.

Nessa tarde, como sempre, lá foram até à esplanada mas a certa altura, o Sô Manel ouve vozes desconhecidas e sente a cadela a mudar de rumo. Assusta-se e grita: -Fanie, Fanie, para onde vais que me desgraças? Mas logo uma das tais vozes desconhecidas lhe disse que não havia perigo, que o cão estava a desviar-se das obras que estavam a fazer no passeio para os carros não voltassem a estacionar ali e os peões pudessem deixar de andar na estrada.

-  E logo isto havia de acontecer no próprio dia em que combinei mandar a «Fanie» embora! – cogitava o Sô Manel  - Isto tem mensagem… deixa cá compensar o pobre animal pelo berro que lhe dei. – e assim foi que, chegados à esplanada, para além do seu café, encomendou um «bolo de arroz» para a sua amiga. Esta, gulosa, tragou-o num instante quase não dando tempo de abanar o rabo. Vai daí, regressou a rotina e, com ela, o seu par, o tédio. E a sempre presente paciênte bondade de «Fanie» com a mão mole do dono ao longo do dorso numa festa suave…

Até que chegou o dia combinado para a cadela mudar de vida.

Estranhamente, o dono metera quase todos os seus brinquedos (todos menos um dos mais pequenos) num saco grande de supermercado. Não percebia o que se estava a a passar mas lá cumpriu a sua missão até ao outro lado do parque. Lenta, paciente e bondosamente (sem bulhas com gentes nem cães), chegaram à esplanada, tomaram café e «bolo de arroz» sem perceber mas sem perguntas e ali ficaram com as pessoas do costume a dizerem as baboseiras do costume mas o saco dos brinquedos e o «bolo de arroz»…???

Foi então que chegou um carro com o escrito «Escola de cães-guia» que parou ali mesmo à frente. Um rapaz e uma rapariga apearam.se e, mesmo antes de cumprimentarfm o Sô Manel, a rapariga pôs um joelho no chão em frente da «Fanie», afagou-he a cabeça com as mãos por baixo das orelhas, deu-lhe uma pequena turra testa com testa, disse qualquer coisa e a cadela, como só as «mulheres»  sabem fazer, emitiu um gorjeio que toda a gente percebeu ser um choro de felicidade. Era a sua antiga dona nos tempos em que era cachorrinha. O rapaz deu-lhe uma bolacha daquelas de que os cães mais gostam e só então disseram ao Sô Manel que já ali estavam. Cumprimentos feitos, palavras de circunstância, troca dos documentos da identidade da cadela e despedidas rápidas. Ao Sô Manel tremeu-se-lhe o queixo, formou-se-lhe uma bola na garganta, engoliu um soluço e estendeu a mão para afagar o dorso da sua amiga preta mas a cadela já lá não estava. À janela traseira do carro, a «Fanie» sorria como só os cães felizes sabem sorrir.

O Sô Manel ainda sibilou «Fanie, Fanie», meteu a mão no bolso e afagou o pequeno brinquedo que cativara à sua amiga.

Na esplanada fez-se silêncio e naquele dia os donos do estabelecimento ofereceram o café e o «boço de arroz». É que, por ali, todos sabem que em canez, bondade se diz «Fanie».

~

Setembro de 2020

Henrique Salles da Fonseca

NOTA FINAL – Esta história é quase verdadeira; a fronteira com a fantasia situa-se onde o leitor quiser

 

[i] - Vinho moscatel de Setúbal

[ii] - Sugiro a quem ne lê que não se assuste com o tempo pretérito da frase

«EPPUR SI MUOVE»

Galileu.png

- E, contudo, ela move-se – disse Galileu depois de ter sido obrigado a abjurar a sua teoria de que a Terra gira em volta do Sol. Abjurou, sim, mas salvou a pele.

Conta-se a história de dois amigos que foram ao funeral de um terceiro e que, convidados a proferirem palavras de encómio ao defunto, concluíram que, com a morte do amigo, à Terra restava a hipótese da implosão. E, uma vez concluídas as exéquias, um deles pergunta ao outro o que é que ele gostaria que se dissesse quando morresse. A resposta foi imediata: - Mexeu-se!

* * *

Quem nasce, vive e morre. O nascimento é uma ocorrência partilhada com a mãe; a vida é eminentemente social; a morte é o único acontecimento exclusivo, não partilhado. A morte pode ser testemunhada mas não é partilhada. Pode haver várias mortes simultâneas mas cada uma é ocorrência exclusiva.

A vida para além da morte é matéria de fé, não é chamada para este escrito.

«Eppor», se o “A bem da Nação” tiver uma certidão de óbito, isso não impedirá que, esporadicamente, se mexa numa vida para além da morte. Mas disso dará sinal.

Como assim? Limitações de um amblíope.

A ver…

Janeiro de 2020

21ABR19.jpg

Henrique Salles da Fonseca

E PORQUE HOJE É DOMINGO…

… ouso discorrer sobre coisas acerca das quais pouco (ou nada) sei

 

  1. Diz Christine Lagarde que o BCE está a estudar o tema das criptomoedas a fim de saber quais as virtualidades e riscos da criação do Criptoeuro – mais correctamente, de uma criptomoeda denominada em Euros. Como quem diz, «se não os podes vencer, junta-te a eles». Sim, parece-me bem, até porque há que estudar para reduzir as probabilidades de erro aquando da tomada da decisão. Mas haveria alguém que pensasse decidir sem estudar?
  2. Joacine exaltou-se e, em bom português, parece que «atirou com os aparelhos ao ar» - que tudo são mentiras e que está a ser alvo de perseguição política. Também terá dito que «a renúncia ao mandato está fora de questão». Ora, sendo nominativo, o mandato de Deputado é dela e não do Partido com quem está cada vez mais de candeias às avessas. Confirmada a ruptura, o «Livre» perde a totalidade da representação parlamentar, sai de São Bento e vai lamber as feridas para outro lado. Quanto à Deputada Joacine, passa a independente ou integra-se nutra representação parlamentar que a queira aceitar. Por exemplo, se o «Chega» a aceitasse, veria a sua representação parlamentar crescer 100% e adquiria por módica quantia «uma molhada de brócolos».

Janeiro de 2020

Henrique Salles da Fonseca

COSIMA, A CRONISTA

Hans von Bülow deu-lhe três filhas e Richard Wagner mais duas e um filho, Siegfried. E isto, tendo o que à época se dizia uma «cara de cavalo». Teria por certo outras virtudes.

Cosima Wagner.jpg

 

Passou à História da Cultura Alemã como Cosima Wagner mas se não fosse a austeridade teutónica, teria por certo assumido o nome completo de Cosima Francesca Gaetana (nomes próprios), d’Agoult et Flavigny (da mãe), Liszt (do pai), von Bülow (do primeiro marido) e Wagner (do segundo marido). Com um nome desses, haveria de parecer espanhola ou viúva americana.

Nasceu em Bellagio, Itália, em 24 de Dezembro de 1837 e morreu aos 92 anos de idade em Bayreuth em 1 de Abril de 1930. Entre a morte de Richard Wagner em 1883 e 1914, assumiu a direcção do Festival anual no teatro que ajudou a erigir.

Não fora o seu diário e ter-se-ia perdido muita informação sobre si própria e, principalmente, sobre as personalidades que a rodearam ao longo da vida, nomeadamente Nietzsche. Ela terá sido a única pessoa por quem o filósofo se apaixonou. Não consta que o vice-versa tivesse fundamento. Mas foi ela que interpretou ao piano várias composições musicais de Nietzsche e estas não ficaram para a História se bem que uma ou outra tenha chegado a ser orquestrada.

No meio da paixão (não correspondida), Nietzsche decidiu fazer de Cosima uma escritora sugerindo-lhe que passasse a um estilo mais contido, sem tantas exclamações como Oh! e Ah! e construindo frases mais curtas. Ou seja, pedindo-lhe que deixasse de ser o que ela era. Felizmente, Cosima também não correspondeu a estas sugestões e manteve-se fiel a si própria até ao fim. Para o bem das crónicas que nos legou.

Cosima, a cronista de virtudes ocultas.

Novembro de 2019

Henrique Salles da Fonseca

NOTA: Para saber mais, ver, por exemplo, em

 http://www.archivowagner.com/indice-de-autores/93-indice-de-autores/k/kraft-zdenko-von-1886-1979/270-los-diarios-de-cosima-wagner

CONVERSAS DE ALDEIA – 6

 

A continuação da vida faz-se quando menos se espera e por caminhos desconhecidos de quem os vê trilhar.

Assim foi que do outro lado da rampa, para as bandas do Sul, nasceu vida nova, lúdica. Era para ser destinada aos residentes na Quinta da Aroeira mas os invejosos vermelhos não quiseram que assim fosse e tudo não passou de uma ideia de que hoje só restam ruinas. Algo que não aproveitou a ninguém. Como em tudo em que entra a inveja, só há a perder. E hoje, com os ambientalistas à solta, não vale sequer a pena pensar em perguntar se não seria de relançar a ideia de fazer na Fonte da Telha um resort de luxo como Francisco José Sousa Machado idealizou (e quase concretizou) nas vésperas do 25 de Abril de 1974.

A situação actual é vergonhosa com a autarquia (a Câmara de Almada) a ignorar e com o Ministério do Ambiente a tudo fazer para que nada se faça. Uns porque eram do contra político; outros porque são do contra tout court. Contudo, tendo os vermelhos dogmáticos sido substituídos pelos rosados, bem podiam estes ter feito entretanto alguma coisa. Aparentemente, nada fizeram. Limitam-se a recolher o lixo e, mesmo isso, às trangalhadanças, sem a mais pequena ponta de esmero.

A pergunta que apetece fazer: fará a Fonte da Telha parte de algum estudo académico sobre as virtudes do anarquismo e do laxismo?

Tudo definitivamente provisório, tudo precário, a incerteza administrativa a esbarrar com a determinação dos empreendedores, a Administração a mostrar as suas características mais perniciosas em que o bom não existe porque uns quantos lunáticos de gabinete exigem o óptimo que eles próprios não são capazes de definir.

Entretanto, apesar de tudo, o investimento vai fazendo «coisas» que só podem ser pequenas: um restaurante aqui, um bar ali, uma escola de surf mais à frente, tudo à custa de muita tenacidade em instalações teoricamente desmontáveis mas sempre com o Credo na boca não vá cair de repente a espada de Dâmocles sobre tudo isto.

Na Fonte da Telha, a Administração Pública (aquilo a que habitualmente se chama «o Estado») nada faz, só aparece quando se trata de proibir e por isso mesmo gera um sentimento de repulsa.

E, contudo, a solução está à vista com a definição inequívoca da Autoridade local a favor da Câmara de Almada e saída do Ministério do Ambiente como entidade tutelar sobre a actual malha urbana.

Tudo o resto virá por acréscimo e a vida há-de continuar com as «regaras do jogo» definidas como é próprio numa democracia.

Até porque a nova geração residente na aldeia já não é analfabeta, já não tem apenas a instrução elementar, já não tem apenas o ensino secundário, também ela sabe o que quer mas «com livros».

O futuro aí está, os «ditadorezinhos» que se cuidem!

FIM

Julho de 2019

Henrique Salles da Fonseca

CONVERSAS DE ALDEIA – 5

- Oh Ti João! O Senhor é cá da Fonte da Telha?

- Não, sou da Caparica mas vim para cá com quatro meses.

Esta conversa passou-se quando o Ti João já andava pelos 80 e tal anos. Criado na praia à volta das palhotas e desde a infância entrado nas artes da pesca, era mestre de redes (era ele que de início as fabricava e que, quando elas passaram a ser compradas feitas, as remendava e mantinha operacionais) desde que os filhos tinham assumido a liderança da pesca propriamente dita. Mas andara toda a vida ao mar nos barcos que, entretanto, conseguira comprar – dois, sendo um para a arte de Verão e outro para a de Inverno.

Analfabeto, casou com uma prima também ela completamente analfabeto e como ele criada ali na praia à volta das palhotas. O primeiro filho nasceu quando ela tinha 14 anos e ele 15. Depois desse, vingaram mais dois.

Esta, a do Ti João, a que é considerada a primeira geração da terra, a filha dos forasteiros fundadores. Foram eles que confirmaram o assentamento, transformaram as palhotas em casas, da vereda fizeram uma escada, puseram uma telha na fonte, escavaram a rampa, definiram a «rua» e… conseguiram mandar vir uma professora para ensinar a filharada a ler, escrever e contar.

E se a professora fez a diferença fundamental entre a geração do Ti João e a seguinte, a da filharada, a aldeia começou a ser visitada por turistas que se aventuravam pela embrionária rampa abaixo e acima.

Então, a «Taberna do Faustino» começou a não dar vazão ao serviço. E o Ti João apoiou a mulher no levantamento duma «coisa» que de início apenas pretendia ser uma sombra onde se pudessem dessedentar os sequiosos. E lá se fez a sombra com os barrotes da Mata dos Medos entrelaçados com os molhes de palha das dunas para fazer sombra e tapar da chuva, lá se ergueram as «paredes» de caniço que mais tarde foram de «pau a pique», chão de areia só muito mais tarde consolidada por terra (vinda sabe Deus donde) que pés calcantes bateram… Mas esta era actividade acessória, a principal era a pesca.

Do alto da falésia vinha a mão de obra para empurrar os barcos até ao mar, puxá-los na volta, remar, escolher o peixe, metê-lo nas caixas e alinhar tudo na lota que passou a ser feita na praia em vez de ter que se calcorrear tudo até à Caparica. Na aldeia moravam os empreendedores e suas famílias, uma dezena de armações que davam trabalho a duas centenas de charnequeiros (habitantes na zona da charneca, hoje a tão simpática e cada vez mais cosmopolita Charneca da Caparica).

Trabalho anual com uma arte de Verão, a da xávega, outra de Inverno, a das redes de emalhar, tudo foi evoluindo e a motorização veio substituir muita mão de obra entretanto a caminho da reforma. E a fibra de vidro substituiu a madeira e os calafates, as redes que se rompiam deixaram de ser arranjadas e foram substituídas por novas, só o espírito empreendedor se manteve, agora transbordando a pesca e agarrando o turismo com a dinâmica dos fundadores.

E a vida continua…

Julho de 2019

Henrique Salles da Fonseca

CONVERSAS DE ALDEIA – 4

A melhor maneira de chagar à aldeia era pelo mar mas a praia era a via mais usada. A vereda pela falésia era muito íngreme e as mulas tinham que a descer com as cargas à frente para poderem puxar para trás e não vir tudo de roldão por ali a baixo. Mas o Faustino da taberna não queria nada com as mulas e contratava os miúdos para descerem os barris que os fornecedores deixavam lá no cimo. Só que, se a descida dos barris cheios podia ser uma festa, subi-los vazios era um suplício e vá de pensar noutra solução. Foi assim que se começou a procurar modo de descer e subir a falésia em diagonal em vez de na quase vertical. Foi assim que nasceu a rampa, que a antiga vereda íngreme foi transformada em escada e em que a fonte de água doce ali logo à ilharga foi aprimorada com uma «bica» que, à falta de melhor, foi uma telha que de algures sobrara - a fonte da telha.

Dirá quem me lê que a água doce foi a razão determinante para o assentamento da aldeia no local em que se encontra ao que respondo que a água doce surge ao longo de toda a arriba fóssil proveniente dos lençóis freáticos que ela, arriba, corta pelo que, não fora a calmaria do mar e o assentamento poderia ter acontecido em qualquer outro ponto da praia.

E, apesar da rampa (de início estreita e agreste), a «rua» principal da aldeia foi naturalmente orientada em paralelo ao mar, direita à Caparica e não ao topo da falésia. Com toda a naturalidade, foi ao longo dessa «rua» que cada família pioneira foi construindo cada palhota. Ponto central, a «Taberna do Faustino» (established since 1942) à frente da qual acabou por se fazer um espaço que logo foi baptizado de «Largo dos Pescadores». Até hoje, tanto o largo quanto a taberna. A diferença é que hoje o largo está empedrado e tem uma construção central que há quem julgue ser um coreto (mas não, é a sede da Associação das Festas dos Santos) e a taberna perdeu a rusticidade primitiva sendo que actualmente anima as hostes locais e forasteiras com sessões de karaoke. E tem uns gelados magníficos. Creio que não vende vinho, sequer. Mas, verdade, verdadinha, nunca perguntei.

Outra diferença em relação aos tempos primitivos: a antiga estrada para a Caparica (ao longo da praia e no sopé da falésia) perde-se logo ali à frente numa picada florestal que, à boa maneira pública, parece ser intransitável. Dizem. Nunca lá fui.

Até que as palhotas de telhados feitos com a palha da praia entrelaçada em molhos muito apertados que garantiam protecção contra a chuva e paredes de caniço se começaram a pouco e pouco a transformar em casas. Começou a técnica do «pau a pique», lá foi aparecendo um tijolo ou outro, sempre à custa de muito trabalho e grande sentido de pioneirosmo. Telhado de telha (passe o pleonasmo) foi coisa relativamente recente, lá pelos anos 50 e tal…

Tudo feito por cada um, com total sentido de propriedade.

Está o Leitor a perceber por que é que os vermelhos do dogma não entram aqui?

Não entraram esses mas entraram aqueles de quem politicamente menos se esperava, os do camartelo que só a muito custo foram impedidos de levar tudo pela frente. Até ver, sobreviveram os pescadores mas já ninguém confia nos da política.

Ou será que é a democracia que não gosta de gente independente, de espírito pioneiro, de trabalho, não grevista e dona do seu próprio património desde há praticamente um século?

Julho de 2019

TABERNA DO FAUSTINO-2019-07-10.jpg

Henrique Salles da Fonseca

CONVERSAS DE ALDEIA – 3

A pergunta que pode ter ficado a pairar no espírito de quem leu a «Conversa - 1» poderá ser a da razão pela qual a aldeia nada tem a ver politicamente com o tom vermelho que a rodeou de 1974 até às passadas autárquicas (2017) em que os vermelhos foram destronados pelos rosados.

Então, há que andar um pouco até lá a trás no tempo para perceber que tudo começou pelo fundo do mar.

Como assim? Pois é exactamente como vou contar a quem me ler, Senhoras e Cavalheiros.

Assim como «Deus dá a roupa conforme o frio», também o mar dá as ondas conforme os fundos e os ventos. Ora, sendo os ventos praticamente os mesmos desde a Cova do Vapor até ao Cabo Espichel (salvo pormenores momentâneos), a grande diferença na ondulação resulta dos fundos, todos eles arenosos mas por isso mesmo sujeitos aos efeitos das correntes. E estas, tramadas, não deixam os créditos por mãos alheias sendo sabido que o mar passou a meter-se pela Costa de Caparica adentro quando foi construído o pontão na praia do Tamariz, ali ao Estoril. Problema este que sucedeu ao que foi o quase desaparecimento da Cova do Vapor quando dali foram retiradas as areias (que quase a ligavam ao Bugio) para a construção dos cais do resto do porto de Lisboa. E diz quem sabe que o problema (da Caparica) só será resolvido com o fecho da Golada do Tejo, ou seja, refazendo a ligação da Cova do Vapor ao Bugio. À custa de que novas mudanças? Eu não sei e temo que mais ninguém saiba – a menos que algum modelo já tenha sido ensaiado no LNEC-Laboratório Nacional de Engenharia Civil.

Todo este relambório (palavra, palavrinha que não sou professor de hidráulica e só sei o que me contaram os antigos) para dizer que as gentes desta costa há muito que andam à procura da serenidade dos elementos para que possam «ganhar a vidinha». E é da faina diária que cuidam, tudo o resto é acessório ou quase. Peixe, é o «pão deles de cada dia» e tentam pescá-lo nas melhores condições possíveis, como se compreende.

Vai daí, é sabido que frente à Costa de Caparica o mar nem sempre é tão benigno como pescadores e turistas gostariam e lá para as bandas da Aldeia do Meco pior ainda. Mas, a meio do caminho, há uma mudança importante nos fundos que passam de irregulares (com fundões e correntes extravagantes) a lisos e, em consequência, com o mar a apresentar uma ondulação regular, previsível e, diria mesmo, serena. Bom mar para banhista e determinante para a qualidade de vida de quem se dedica à pesca.

E como os antigos já sabiam disto, vai de fazerem umas palhotas nesta praia para poderem ir ao mar com a calma conveniente em vez de correrem perigo de vida nos outros locais desta mesma costa. Passavam então os anos 20 do século XX. Não esquecer que a faina se fazia (e continuaria a fazer por muito tempo) à força dos braços humanos agarrados aos remos como nos tempos megalíticos ou de Napoleão.

Mas se aqui se pescava, era na Caparica que se vendia o peixe pelo que a dúzia de quilómetros de praia tinha que ser percorrida diariamente por quem se dedicava ao comércio. Não havia estrada útil por cima da falésia e mesmo que houvesse, seria mais longa e não haveria dinheiro para pagar o transporte de carro ou sequer de carroça. Solução? A butes e pela praia. De preferência pela areia molhada que sempre é mais rijinha. Da Caparica, as mulheres (os homens andavam ao mar) traziam à cabeça (as mãos eram para dar aos filhos que se lhes colavam às saias) as precisões que os pescadores lhes encomendavam; daqui para a Caparica ia o peixe para o mercado. Lota? Qu’é isso? Se a havia, passavam-lhe à margem.

Os filhos nasciam na Caparica mas assim que andavam ficavam na praia à volta das palhotas e as mulheres escalavam-se nos cuidados ao «rancho» da criançada. Até que umas passaram a ficar e outras a ir e vir. E as palhotas começaram a ganhar maior solidez com barrotes que vinham da Mata dos Medos já puxados por uma ou outra mula falésia a baixo por vereda de metro e meio que os ecologistas hoje proibiriam.

Felizmente para a aldeia assim nascente – e para Lisboa na época dos primeiros assentamentos – naquela época não tinham ainda nascido as mães dos actuais ecologistas. E Portugal fez-se sem eles.

Julho de 2019

Henrique Salles da Fonseca

 

CONVERSAS DE ALDEIA - 2

A outra grande novidade – mas desta vez para a aldeia - foi a minha ambliopia.

- A sua quê, Senhor?

E lá tive que explicar… mas decidi encurtar explicações e passar a dizer que estou quase cego. Então, é aqui que aparece a grande diferença entre as pessoas da cidade a quem informo de chofre da minha situação que julgam – não sei por que motivo – que eu esteja a fazer humor e se põem a rir e as pessoas daqui, da aldeia, que de imediato se apercebem do meu problema e assumem a gravidade apropriada. Não há dúvida, as pessoas daqui são muito directas e as da cidade muito complicadas – sofisticadas, dirão elas próprias.

Para além da afabilidade dos anos anteriores, esta gente simples desdobra-se agora em manifestações de solidariedade comigo e lá vêm todas as histórias da saúde de todos e de cada um… o Zé está com um mialoma múltiplo, a mulher do hortelão já foi operada duas vezes aos olhos, a Ana anda às voltas com o bócio, o irmão da minha senhoria… um festival de maleitas distribuídas adrede e sem grande parcimónia. Como é que estas doenças estavam todas tão escondidas e só vieram à tona quando lhes contei da minha ambliopia? Deve ser como com as granadas que explodem por simpatia. E isto, já para não falar da mulher do Márinho que está toda tolhida com a ciática.

E assim começou a ronda dos jantares em que não podemos falhar um único restaurante sem que alguém imagine uma zanga que não existiu.

Ontem estava prevista uma chuvada mas, afinal, esteve um magnífico dia de praia e acabámos a jantar na esplanada do Bininho - as sardinhas estavam óptimas e o pôr-do-Sol anunciava-se deslumbrante mas as Senhoras da mesa a trás de mim estavam eufóricas com a aguardente velha com que fecharam a sessão delas e captaram a atenção de todas as mesas à volta da delas. Avó, mãe e neta a falarem como se não houvesse mais ninguém por ali e dizia a avó que a prima ou tia delas, a Alda, tinha casado aos 12 anos.

- Aos 12 anos, avó?

- Sim, aos 12 anos. Mas o marido era bem mais velho e adorava-a pelo que só consumou o casamento quando ela tinha 14 anos. O Xi nasceu quando ela tinha 15 anos.

- Tanto tempo casados para só consumarem o casamento dois anos depois…

- Ele sabia que tinha ali uma criança, não propriamente uma mulher.

- E casar com essa idade, era legal nessa época?

-Parece que sim, nunca ouvi dizer que tivesse havido algum problema. E foram muito felizes até que morreram.

- Morreram de quê?

- De gordos. Ele pesava 160 quilos e ela chegou aos 140.

- Credo! A mãe conheceu-os com esses pesos?

- Só os conheci mesmo com esses pesos. Não me lembro deles antes de serem umas avantesmas. Somavam «só» 300 quilos e depois de partirem não sei quantas camas, mandaram fazer uma de alvenaria. E já que passavam para os tijolos e argamassa, mandaram também fazer as mesas de cabeceira de tijolo e cimento, não fosse alguma coisa desconjuntar-se. Diziam que tinham regressado à Idade da Pedra e fartavam-se de rir com a ideia. Viviam numa gruta, eram trogloditas. E riam, riam…

E a cada explicação da senhora, a risota da filha e da neta contagiava as mesas à volta e a magnificência do pôr-do-Sol… foi-se.

- Oh mãe! E como é que eles chegaram a esses pesos?

- Gula, filha, gula! Parece que tinham um vizinho lá ao lado da quinta deles que era comerciante de porcos e quando era da matança, o tio reservava logo duas dúzias de chouriço de sangue para comer ao pequeno almoço.

Bem, aqui, com esta tirada, a esplanada do Bininho veio a baixo com a gargalhada geral. Mas o Sol pusera-se e nem todos tínhamos bebido aguardente velha. Começámos a sentir frio e tivemos que pedir a conta para regressarmos a penates. Com pena por perdermos a continuação… Já vínhamos perto do assador, à saída da esplanada, ainda andava risota lá para trás. O que teria sido que a avó contara?

Julho de 2019

Henrique Salles da Fonseca

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