Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

A bem da Nação

CONVERSAS DE ALDEIA – 6

 

A continuação da vida faz-se quando menos se espera e por caminhos desconhecidos de quem os vê trilhar.

Assim foi que do outro lado da rampa, para as bandas do Sul, nasceu vida nova, lúdica. Era para ser destinada aos residentes na Quinta da Aroeira mas os invejosos vermelhos não quiseram que assim fosse e tudo não passou de uma ideia de que hoje só restam ruinas. Algo que não aproveitou a ninguém. Como em tudo em que entra a inveja, só há a perder. E hoje, com os ambientalistas à solta, não vale sequer a pena pensar em perguntar se não seria de relançar a ideia de fazer na Fonte da Telha um resort de luxo como Francisco José Sousa Machado idealizou (e quase concretizou) nas vésperas do 25 de Abril de 1974.

A situação actual é vergonhosa com a autarquia (a Câmara de Almada) a ignorar e com o Ministério do Ambiente a tudo fazer para que nada se faça. Uns porque eram do contra político; outros porque são do contra tout court. Contudo, tendo os vermelhos dogmáticos sido substituídos pelos rosados, bem podiam estes ter feito entretanto alguma coisa. Aparentemente, nada fizeram. Limitam-se a recolher o lixo e, mesmo isso, às trangalhadanças, sem a mais pequena ponta de esmero.

A pergunta que apetece fazer: fará a Fonte da Telha parte de algum estudo académico sobre as virtudes do anarquismo e do laxismo?

Tudo definitivamente provisório, tudo precário, a incerteza administrativa a esbarrar com a determinação dos empreendedores, a Administração a mostrar as suas características mais perniciosas em que o bom não existe porque uns quantos lunáticos de gabinete exigem o óptimo que eles próprios não são capazes de definir.

Entretanto, apesar de tudo, o investimento vai fazendo «coisas» que só podem ser pequenas: um restaurante aqui, um bar ali, uma escola de surf mais à frente, tudo à custa de muita tenacidade em instalações teoricamente desmontáveis mas sempre com o Credo na boca não vá cair de repente a espada de Dâmocles sobre tudo isto.

Na Fonte da Telha, a Administração Pública (aquilo a que habitualmente se chama «o Estado») nada faz, só aparece quando se trata de proibir e por isso mesmo gera um sentimento de repulsa.

E, contudo, a solução está à vista com a definição inequívoca da Autoridade local a favor da Câmara de Almada e saída do Ministério do Ambiente como entidade tutelar sobre a actual malha urbana.

Tudo o resto virá por acréscimo e a vida há-de continuar com as «regaras do jogo» definidas como é próprio numa democracia.

Até porque a nova geração residente na aldeia já não é analfabeta, já não tem apenas a instrução elementar, já não tem apenas o ensino secundário, também ela sabe o que quer mas «com livros».

O futuro aí está, os «ditadorezinhos» que se cuidem!

FIM

Julho de 2019

Henrique Salles da Fonseca

CONVERSAS DE ALDEIA – 5

- Oh Ti João! O Senhor é cá da Fonte da Telha?

- Não, sou da Caparica mas vim para cá com quatro meses.

Esta conversa passou-se quando o Ti João já andava pelos 80 e tal anos. Criado na praia à volta das palhotas e desde a infância entrado nas artes da pesca, era mestre de redes (era ele que de início as fabricava e que, quando elas passaram a ser compradas feitas, as remendava e mantinha operacionais) desde que os filhos tinham assumido a liderança da pesca propriamente dita. Mas andara toda a vida ao mar nos barcos que, entretanto, conseguira comprar – dois, sendo um para a arte de Verão e outro para a de Inverno.

Analfabeto, casou com uma prima também ela completamente analfabeto e como ele criada ali na praia à volta das palhotas. O primeiro filho nasceu quando ela tinha 14 anos e ele 15. Depois desse, vingaram mais dois.

Esta, a do Ti João, a que é considerada a primeira geração da terra, a filha dos forasteiros fundadores. Foram eles que confirmaram o assentamento, transformaram as palhotas em casas, da vereda fizeram uma escada, puseram uma telha na fonte, escavaram a rampa, definiram a «rua» e… conseguiram mandar vir uma professora para ensinar a filharada a ler, escrever e contar.

E se a professora fez a diferença fundamental entre a geração do Ti João e a seguinte, a da filharada, a aldeia começou a ser visitada por turistas que se aventuravam pela embrionária rampa abaixo e acima.

Então, a «Taberna do Faustino» começou a não dar vazão ao serviço. E o Ti João apoiou a mulher no levantamento duma «coisa» que de início apenas pretendia ser uma sombra onde se pudessem dessedentar os sequiosos. E lá se fez a sombra com os barrotes da Mata dos Medos entrelaçados com os molhes de palha das dunas para fazer sombra e tapar da chuva, lá se ergueram as «paredes» de caniço que mais tarde foram de «pau a pique», chão de areia só muito mais tarde consolidada por terra (vinda sabe Deus donde) que pés calcantes bateram… Mas esta era actividade acessória, a principal era a pesca.

Do alto da falésia vinha a mão de obra para empurrar os barcos até ao mar, puxá-los na volta, remar, escolher o peixe, metê-lo nas caixas e alinhar tudo na lota que passou a ser feita na praia em vez de ter que se calcorrear tudo até à Caparica. Na aldeia moravam os empreendedores e suas famílias, uma dezena de armações que davam trabalho a duas centenas de charnequeiros (habitantes na zona da charneca, hoje a tão simpática e cada vez mais cosmopolita Charneca da Caparica).

Trabalho anual com uma arte de Verão, a da xávega, outra de Inverno, a das redes de emalhar, tudo foi evoluindo e a motorização veio substituir muita mão de obra entretanto a caminho da reforma. E a fibra de vidro substituiu a madeira e os calafates, as redes que se rompiam deixaram de ser arranjadas e foram substituídas por novas, só o espírito empreendedor se manteve, agora transbordando a pesca e agarrando o turismo com a dinâmica dos fundadores.

E a vida continua…

Julho de 2019

Henrique Salles da Fonseca

CONVERSAS DE ALDEIA – 4

A melhor maneira de chagar à aldeia era pelo mar mas a praia era a via mais usada. A vereda pela falésia era muito íngreme e as mulas tinham que a descer com as cargas à frente para poderem puxar para trás e não vir tudo de roldão por ali a baixo. Mas o Faustino da taberna não queria nada com as mulas e contratava os miúdos para descerem os barris que os fornecedores deixavam lá no cimo. Só que, se a descida dos barris cheios podia ser uma festa, subi-los vazios era um suplício e vá de pensar noutra solução. Foi assim que se começou a procurar modo de descer e subir a falésia em diagonal em vez de na quase vertical. Foi assim que nasceu a rampa, que a antiga vereda íngreme foi transformada em escada e em que a fonte de água doce ali logo à ilharga foi aprimorada com uma «bica» que, à falta de melhor, foi uma telha que de algures sobrara - a fonte da telha.

Dirá quem me lê que a água doce foi a razão determinante para o assentamento da aldeia no local em que se encontra ao que respondo que a água doce surge ao longo de toda a arriba fóssil proveniente dos lençóis freáticos que ela, arriba, corta pelo que, não fora a calmaria do mar e o assentamento poderia ter acontecido em qualquer outro ponto da praia.

E, apesar da rampa (de início estreita e agreste), a «rua» principal da aldeia foi naturalmente orientada em paralelo ao mar, direita à Caparica e não ao topo da falésia. Com toda a naturalidade, foi ao longo dessa «rua» que cada família pioneira foi construindo cada palhota. Ponto central, a «Taberna do Faustino» (established since 1942) à frente da qual acabou por se fazer um espaço que logo foi baptizado de «Largo dos Pescadores». Até hoje, tanto o largo quanto a taberna. A diferença é que hoje o largo está empedrado e tem uma construção central que há quem julgue ser um coreto (mas não, é a sede da Associação das Festas dos Santos) e a taberna perdeu a rusticidade primitiva sendo que actualmente anima as hostes locais e forasteiras com sessões de karaoke. E tem uns gelados magníficos. Creio que não vende vinho, sequer. Mas, verdade, verdadinha, nunca perguntei.

Outra diferença em relação aos tempos primitivos: a antiga estrada para a Caparica (ao longo da praia e no sopé da falésia) perde-se logo ali à frente numa picada florestal que, à boa maneira pública, parece ser intransitável. Dizem. Nunca lá fui.

Até que as palhotas de telhados feitos com a palha da praia entrelaçada em molhos muito apertados que garantiam protecção contra a chuva e paredes de caniço se começaram a pouco e pouco a transformar em casas. Começou a técnica do «pau a pique», lá foi aparecendo um tijolo ou outro, sempre à custa de muito trabalho e grande sentido de pioneirosmo. Telhado de telha (passe o pleonasmo) foi coisa relativamente recente, lá pelos anos 50 e tal…

Tudo feito por cada um, com total sentido de propriedade.

Está o Leitor a perceber por que é que os vermelhos do dogma não entram aqui?

Não entraram esses mas entraram aqueles de quem politicamente menos se esperava, os do camartelo que só a muito custo foram impedidos de levar tudo pela frente. Até ver, sobreviveram os pescadores mas já ninguém confia nos da política.

Ou será que é a democracia que não gosta de gente independente, de espírito pioneiro, de trabalho, não grevista e dona do seu próprio património desde há praticamente um século?

Julho de 2019

TABERNA DO FAUSTINO-2019-07-10.jpg

Henrique Salles da Fonseca

CONVERSAS DE ALDEIA – 3

A pergunta que pode ter ficado a pairar no espírito de quem leu a «Conversa - 1» poderá ser a da razão pela qual a aldeia nada tem a ver politicamente com o tom vermelho que a rodeou de 1974 até às passadas autárquicas (2017) em que os vermelhos foram destronados pelos rosados.

Então, há que andar um pouco até lá a trás no tempo para perceber que tudo começou pelo fundo do mar.

Como assim? Pois é exactamente como vou contar a quem me ler, Senhoras e Cavalheiros.

Assim como «Deus dá a roupa conforme o frio», também o mar dá as ondas conforme os fundos e os ventos. Ora, sendo os ventos praticamente os mesmos desde a Cova do Vapor até ao Cabo Espichel (salvo pormenores momentâneos), a grande diferença na ondulação resulta dos fundos, todos eles arenosos mas por isso mesmo sujeitos aos efeitos das correntes. E estas, tramadas, não deixam os créditos por mãos alheias sendo sabido que o mar passou a meter-se pela Costa de Caparica adentro quando foi construído o pontão na praia do Tamariz, ali ao Estoril. Problema este que sucedeu ao que foi o quase desaparecimento da Cova do Vapor quando dali foram retiradas as areias (que quase a ligavam ao Bugio) para a construção dos cais do resto do porto de Lisboa. E diz quem sabe que o problema (da Caparica) só será resolvido com o fecho da Golada do Tejo, ou seja, refazendo a ligação da Cova do Vapor ao Bugio. À custa de que novas mudanças? Eu não sei e temo que mais ninguém saiba – a menos que algum modelo já tenha sido ensaiado no LNEC-Laboratório Nacional de Engenharia Civil.

Todo este relambório (palavra, palavrinha que não sou professor de hidráulica e só sei o que me contaram os antigos) para dizer que as gentes desta costa há muito que andam à procura da serenidade dos elementos para que possam «ganhar a vidinha». E é da faina diária que cuidam, tudo o resto é acessório ou quase. Peixe, é o «pão deles de cada dia» e tentam pescá-lo nas melhores condições possíveis, como se compreende.

Vai daí, é sabido que frente à Costa de Caparica o mar nem sempre é tão benigno como pescadores e turistas gostariam e lá para as bandas da Aldeia do Meco pior ainda. Mas, a meio do caminho, há uma mudança importante nos fundos que passam de irregulares (com fundões e correntes extravagantes) a lisos e, em consequência, com o mar a apresentar uma ondulação regular, previsível e, diria mesmo, serena. Bom mar para banhista e determinante para a qualidade de vida de quem se dedica à pesca.

E como os antigos já sabiam disto, vai de fazerem umas palhotas nesta praia para poderem ir ao mar com a calma conveniente em vez de correrem perigo de vida nos outros locais desta mesma costa. Passavam então os anos 20 do século XX. Não esquecer que a faina se fazia (e continuaria a fazer por muito tempo) à força dos braços humanos agarrados aos remos como nos tempos megalíticos ou de Napoleão.

Mas se aqui se pescava, era na Caparica que se vendia o peixe pelo que a dúzia de quilómetros de praia tinha que ser percorrida diariamente por quem se dedicava ao comércio. Não havia estrada útil por cima da falésia e mesmo que houvesse, seria mais longa e não haveria dinheiro para pagar o transporte de carro ou sequer de carroça. Solução? A butes e pela praia. De preferência pela areia molhada que sempre é mais rijinha. Da Caparica, as mulheres (os homens andavam ao mar) traziam à cabeça (as mãos eram para dar aos filhos que se lhes colavam às saias) as precisões que os pescadores lhes encomendavam; daqui para a Caparica ia o peixe para o mercado. Lota? Qu’é isso? Se a havia, passavam-lhe à margem.

Os filhos nasciam na Caparica mas assim que andavam ficavam na praia à volta das palhotas e as mulheres escalavam-se nos cuidados ao «rancho» da criançada. Até que umas passaram a ficar e outras a ir e vir. E as palhotas começaram a ganhar maior solidez com barrotes que vinham da Mata dos Medos já puxados por uma ou outra mula falésia a baixo por vereda de metro e meio que os ecologistas hoje proibiriam.

Felizmente para a aldeia assim nascente – e para Lisboa na época dos primeiros assentamentos – naquela época não tinham ainda nascido as mães dos actuais ecologistas. E Portugal fez-se sem eles.

Julho de 2019

Henrique Salles da Fonseca

 

CONVERSAS DE ALDEIA - 2

A outra grande novidade – mas desta vez para a aldeia - foi a minha ambliopia.

- A sua quê, Senhor?

E lá tive que explicar… mas decidi encurtar explicações e passar a dizer que estou quase cego. Então, é aqui que aparece a grande diferença entre as pessoas da cidade a quem informo de chofre da minha situação que julgam – não sei por que motivo – que eu esteja a fazer humor e se põem a rir e as pessoas daqui, da aldeia, que de imediato se apercebem do meu problema e assumem a gravidade apropriada. Não há dúvida, as pessoas daqui são muito directas e as da cidade muito complicadas – sofisticadas, dirão elas próprias.

Para além da afabilidade dos anos anteriores, esta gente simples desdobra-se agora em manifestações de solidariedade comigo e lá vêm todas as histórias da saúde de todos e de cada um… o Zé está com um mialoma múltiplo, a mulher do hortelão já foi operada duas vezes aos olhos, a Ana anda às voltas com o bócio, o irmão da minha senhoria… um festival de maleitas distribuídas adrede e sem grande parcimónia. Como é que estas doenças estavam todas tão escondidas e só vieram à tona quando lhes contei da minha ambliopia? Deve ser como com as granadas que explodem por simpatia. E isto, já para não falar da mulher do Márinho que está toda tolhida com a ciática.

E assim começou a ronda dos jantares em que não podemos falhar um único restaurante sem que alguém imagine uma zanga que não existiu.

Ontem estava prevista uma chuvada mas, afinal, esteve um magnífico dia de praia e acabámos a jantar na esplanada do Bininho - as sardinhas estavam óptimas e o pôr-do-Sol anunciava-se deslumbrante mas as Senhoras da mesa a trás de mim estavam eufóricas com a aguardente velha com que fecharam a sessão delas e captaram a atenção de todas as mesas à volta da delas. Avó, mãe e neta a falarem como se não houvesse mais ninguém por ali e dizia a avó que a prima ou tia delas, a Alda, tinha casado aos 12 anos.

- Aos 12 anos, avó?

- Sim, aos 12 anos. Mas o marido era bem mais velho e adorava-a pelo que só consumou o casamento quando ela tinha 14 anos. O Xi nasceu quando ela tinha 15 anos.

- Tanto tempo casados para só consumarem o casamento dois anos depois…

- Ele sabia que tinha ali uma criança, não propriamente uma mulher.

- E casar com essa idade, era legal nessa época?

-Parece que sim, nunca ouvi dizer que tivesse havido algum problema. E foram muito felizes até que morreram.

- Morreram de quê?

- De gordos. Ele pesava 160 quilos e ela chegou aos 140.

- Credo! A mãe conheceu-os com esses pesos?

- Só os conheci mesmo com esses pesos. Não me lembro deles antes de serem umas avantesmas. Somavam «só» 300 quilos e depois de partirem não sei quantas camas, mandaram fazer uma de alvenaria. E já que passavam para os tijolos e argamassa, mandaram também fazer as mesas de cabeceira de tijolo e cimento, não fosse alguma coisa desconjuntar-se. Diziam que tinham regressado à Idade da Pedra e fartavam-se de rir com a ideia. Viviam numa gruta, eram trogloditas. E riam, riam…

E a cada explicação da senhora, a risota da filha e da neta contagiava as mesas à volta e a magnificência do pôr-do-Sol… foi-se.

- Oh mãe! E como é que eles chegaram a esses pesos?

- Gula, filha, gula! Parece que tinham um vizinho lá ao lado da quinta deles que era comerciante de porcos e quando era da matança, o tio reservava logo duas dúzias de chouriço de sangue para comer ao pequeno almoço.

Bem, aqui, com esta tirada, a esplanada do Bininho veio a baixo com a gargalhada geral. Mas o Sol pusera-se e nem todos tínhamos bebido aguardente velha. Começámos a sentir frio e tivemos que pedir a conta para regressarmos a penates. Com pena por perdermos a continuação… Já vínhamos perto do assador, à saída da esplanada, ainda andava risota lá para trás. O que teria sido que a avó contara?

Julho de 2019

Henrique Salles da Fonseca

CONVERSAS DE ALDEIA – 1

TUFA-1.jpg

 

 

Na aldeia, os cães têm um elevado estatuto mas, mesmo assim, algumas coisas os distinguem dos humanos. Por exemplo, os cães andam quase sempre com as mãos no chão enquanto os humanos só de vez em quando, em especial depois duma noitada; os cães são alimentados pelos humanos e não o contrário; os cães nunca votaram mas há humanos que o fazem, uns mais do que outros desde o quase nunca até ao quase sempre – e como a aldeia é na praia, creio que a ida às urnas depende muito da maré. A maré dá peixe, há dinheiro, há voto; a maré não dá peixe, não há voto para ninguém. Encravada em «terra do dogma vermelho», a aldeia não é dessa côr (passa muito pela côr parecida mas sem dogma) pelo que os da militância férrea há muito que a desprezam e, vai daí, não os vêm buscar para os levar a votar. Ainda se enganavam e levavam os cães…

E voltando aos canídeos, este ano, à minha chegada à aldeia, a grande novidade foi a «comissão de recepção» que era composta pela “Nina”, pelo “Tufa” e pelo “Lucky”. Porquê novidade? Porque nos anos anteriores não seria hora de eles andarem a cheirar pelo parque de estacionamento onde deixo o meu carro. Mas desta vez, também novidade, a “Nina” cumprimentou-me cheirando-me a mão que lhe apresentei e abanou o rabo. O “Tufa” e o “Lucky” cumprimentaram-me como sempre fazem quando apareço quer me tenham visto há cinco minutos, na véspera ou há um ano, com simpatia ao modo canino. O “Lucky” envelheceu e disseram-me depois que o “Tufa” está surdo mas que continua a ladrar à Lua cheia. O “Amarelo” teve que ser posto a dormir porque estava em grande sofrimento e o “Lake”, que tanto gostava de furar as ondas na praia à compita com o dono, acordou morto. Ninguém ainda me falou dos canzarrões que antigamente viviam no parque de estacionamento mas, na verdade, levaram sumiço. Não eram de ninguém, eram de toda a aldeia, eram os verdadeiros guarda-nocturnos contra forasteiros de intenções duvidosas como os cães tão bem sabem farejar. Devem ter emigrado para a outra ponta da aldeia onde os restaurantes têm ementas mais variadas. E, para além do mais, em Portugal vigora a lei do livre estabelecimento e lá na outra ponta também deviam estar precisados de renovar o quadro de guarda-nocturnos. Agora percebo por que é que a «comissão de recepção» estava no parque de estacionamento - os grandelas tinham sumido.

E chega de canzoada!

Amanhã trato dos bípedes.

Julho de 2019

Henrique Salles da Fonseca

BOM VERÃO!

Solstício de Verão em Stonehenge.jpg

 

Será que a comunicação é viciante?

Já tive mais certezas negativas sobre essa hipótese; há tempos negaria a pés juntos que o fosse; hoje, estou em crer que a comunicação é algo mais do que um gosto ou mesmo mais do que um hábito (virtuoso, claro). Mas admito que possa criar dependência e, em consequência, deixar de olhar para a qualidade dos conteúdos e passar para a preocupação de assegurar uma visibilidade constante. Só que isso pode arrastar o comunicador para aquilo a que vulgarmente se chama «encher chouriços», ou seja, publicar «coisas» só para não perder o «tempo de antena», mesmo que nada de especial tenha para dizer.

São vários os políticos que parece assim agirem no pressuposto de que «o fundamental é aparecer» para que o eleitor os não esqueçam. Sofisma, claro. Aparecer por aparecer só para não ser esquecido pode muito naturalmente levar à criação da ideia de que esse tal comunicador não passa de um «fala barato», de alguém que «não interessa nem ao Menino Jesus».

É, pois, evidente o prejuízo que a ânsia da comunicação pode provocar a quem não se sabe conter, a quem padece de verborreia ou de excesso de ego.

Até porque «quem muito fala pouco acerta», «pela boca morre o peixe» e ao abrir muito a boca «ou entra mosca ou sai asneira».

Portanto, na mente senso, na língua tento.

Votos de bom Verão para quem me lê!

 

No dia do Solstício de Verão de 2019

Henrique Salles da Fonseca

«LUCKY», O CÃO

Todo o cristão de qualquer religião sabe que cão pequeno se amofina com cão maior e que com cães à bulha sempre pode dar mau resultado alguém meter-se lá pelo meio. Não é por mal, mas na refrega sempre há uma dentuça que roça a pele e lá vem um rasgo a merecer pontuação.

O «Lucky» é um canzarrão tão manso quanto o seu tamanhão e o «Farrusco» um meia-tigela com bigodaças que não gosta de carros nem de «colegas» da sua espécie.

E por qualquer razão menos explicada em canês, eis que o «Farrusco» se amofina com o «Lucky», o leva ao desespero e sofre as consequências que também David não temeu com Golias. E, como nos homens, não se metam com pachorrentos… e eis que o «Farrusco» deu duas voltas pelo ar depois de ter andado de rojo. Vieram os donos mas só o da parte do calmeirão se aventurou lá pelo meio. Isso não o livrou da tal dentuça que rasgou sem deixar assinatura.

- Quantos pontos?

- Talvez uns 3 ou 4 mas antes deles lá estarem, muito foi o sangue que jorrou. E foi de esguicho, lá isso foi.

Grande alvoroço na aldeia com rosnadelas, latidos, brados dos homens a tentarem pôr ordem na desordem e, mais do que tudo, a gritaria das mulheres que, só elas, suplantavam todos os decibéis. E foram elas que me sugeriram estar a passar-se alguma calamidade de amanhã vir nos jornais e que me fizeram assomar à varanda.

A cena acabou com os dois lutadores apartados «a pontapé sabe Deus em quem» e em reclusão nas respectivas casotas, em casa de cada dono. E o meu vizinho, o do calmeirão, a caminho do Posto de Saúde para a apropriada cozedura.

Só uns 20 minutos depois é que as mulheres serenaram e deixaram de gritar com os cães, já eles por certo não se lembrando de quê. Mas elas, sim, lembravam-se e vão ter conversa para um bom par de horas. Aí isso é que vão!

Faz anos que o calmeirão chegou à aldeia. Ninguém sabe donde veio mas há quem diga que as cadelas grandes que vivem ao pé do «Boina Verde» e lá almoçam e jantam, vão parir à Mata dos Medos e que, a partir de certa altura, mandam os filhos embora pois o restaurante não está ali para abrir falência com tanta boca a alimentar. E o calmeirão deve ter descido a encosta e apareceu na aldeia a dar ao rabo, todo satisfeito por lhe cheirar a gente boa. E foi aceite como novo aldeão. Dormia aqui, almoçava ali, todos lhe falavam, nada lhe faltava.

Um dia, brincando com a «Nina», a cadela da minha vizinha, à porta do café central, não percebeu que vinha lá um carro e foi atropelado. Espatifaram-lhe a mão esquerda e o pobre bicho entrou em desespero sem perceber por que lhe tinham feito tanto mal. O dono do café agarrou-o ao colo, pôs a mulher (a minha vizinha) ao volante e foram a correr para o hospital veterinário onde o calmeirão foi atendido imediatamente. A cirurgia passava bastante além do orçamento do meu vizinho pelo que sedaram o calmeirão, lhe puseram os ossos tão no sítio quanto possível, cozeram-no e puseram-lhe uma tala. Que ia ficar manco. E isso, se não gangrenasse e se não tivessem que o amputar.

E foi assim, entalado, que o conheci. As dores já tinham desaparecido, não houve gangrenas, os ossos lá foram soldando e o cão foi assim baptizado de «Lucky».

- Eh pá! Tiveste muita sorte!

É claro que a partir daí, o «Lucky» foi adoptado pelo meu vizinho sem discussão do resto da aldeia. Mas o dono só o podia passear ao raiar do Sol e à noitinha, depois de regressado da lota. Então, dispus-me a passear o calmeirão que já me conhecia das visitas regulares que lhe fazia e das lambarices que lhe levava. Fiz um amigo que me reconhece de ano para ano e abana o rabo cada vez que o visito no Inverno.

É claro que andou entalado só uns meses e, afinal, tendo ficado com um aprumo esquisito, corre e brinca na perfeição. De tal modo bem que atirou com o metediço «Farrusco» ao chão e depois ao ar, pôs os homens aos pontapés e as mulheres a gritar.

É mesmo um canzarrão.

Lucky.jpg

Henrique Salleda Fonseca

(com o «Lucky» a lamber-se e com o braço esquerdo todo torto)

E, ENTÃO, FOI ASSIM…

Silêncio!!!

 

Pois…! Lá por Évora já há cinquenta anos era assim - ouviam-se as pégadas dos gatos nas pedras das calçadas e nos canteiros dos jardins.

 

Um silêncio minguante das euforias soalheiras, de meditação, de afago, emotivo, do cheiro a carvão quente no ferro de engomar, da sombra do saguão nas costas da casa pequena naquela rua estreita a descer para as Portas de Avis…

 

Sim, é com poesia e em poesia que entro em Évora. Foi desse modo que há mais de cinquenta anos lá entrei pensando que às portas da cidade deveria haver guarda-roupas para que, entrando, nos pudéssemos mudar para trajes medievais e foi assim ontem quando «ouvi» as pégadas dos gatos.

 

- E o que foste lá fazer?

 

- Não, não fui ouvir as pégadas dos gatos nos canteiros do jardim da Celeste, não! Fui comemorar os cinquenta anos da licenciatura em Economia que lá obtive no então Instituto Superior Económico e Social, o ISESE, célula estaminal da actual Universidade.

 

- E comemoraram bem?

Páteo de São Miguel, Évora.jpg

 

- Creio que sim. Começámos por celebrar os que já cá não estão e agradecemos por ainda cá estarmos. Fizemo-lo numa orada que foi da Ordem de Avis no Páteo de S. Miguel, o Arcanjo protector de Portugal e daí rumámos ao afago do esófago no restaurante de um hotel magnífico que não existia quando por lá andei a estudar os da Escola de Chicago (exactamente, o Stigler mas sobretudo o Friedman que é de quem me lembro melhor) e outros da de Viena (para já, lembro-me bem do Hayek e do von Mises).

ÉVORA-19-05-03.jpg

 

- E eram muitos, ao fim de cinquenta anos?

 

- Fomos menos do que gostaríamos de ter estado. Uma trintena, mais um, menos outro. De Economia só estávamos nove. Mas é claro que sempre há quem não possa ir porque a mulher está com o joelho partido, a outra que tem o marido entrevado, o achaque nas costas não o deixa conduzir… e há sempre aqueles que nem respondem aos e-mails a dizer se sim ou sopas. Mas estivemos bem. E, sobretudo, achei que todos transbordávamos de serenidade. Mais achaque, menos achaque, mas de sabedoria confirmada, firme e serena. Bem sei que estou quase cego, preciso de ajuda nas escadas, pelo que talvez tenha sido por isso que não vi rugas - Senhoras bem apresentadas, homens lustrosos.

- E houve discursos?

 

- Palavras breves de homenagem aos fundadores do Instituto, os Condes de Vill’Alva que, bem vistas as coisas, foi quem deu o «pontapé de saída» para a transformação de Évora de um burgo adormecido para ser reposta no mapa do futuro.

 

- Como assim?

 

- Estou a falar da Évora até aos anos 50-60 do século passado que, desde a extinção da Universidade por ordem do Marquês de Pombal, se limitava a ter um ensino truncado no 7º ano do Liceu, tinha a Escola de Regentes Agrícolas, uma Escola Comercial e uma Escola Salesiana que ensinava as artes e ofícios da nossa tradição. E quem chegasse ao final do Liceu, tinha três hipóteses: ou ficava amorfo por ali em redor a vegetar com conhecimentos gerais mas impróprios para qualquer utilidade, ou se dedicava à frustração ou, podendo, emigrava para continuar a estudar. E quem emigra, só regressa no final da vida para entregar os ossos à terra ou nem sequer isso. Era, pois, um ensino promotor do nada ou quase nada e, pior, de um ambiente depressivo, sem esperança. O inverso quase perfeito do que se pretende com as mais elementares políticas de desenvolvimento local e regional. E os Condes de Vill’Alva, ao reintroduzirem os estudos superiores com o objectivo de promoverem a reabertura de uma Universidade, transformaram a frustração em virtualidade positiva, deram aos locais a oportunidade de continuarem a estudar até ao topo das suas aspirações sem necessidade de emigrarem, de se estabelecerem utilmente na sua própria terra. E essa foi uma revolução fantástica que é frequentemente esquecida e raramente comemorada. Esse foi o primeiro tópico da homenagem que lhes prestámos.

 

Nascida a esperança, foi preciso organizar um corpo docente e o processo foi entregue à Companhia de Jesus que se encarregou de trazer para a cidade os seus membros apropriados à função lectiva nos cursos de Economia e de Sociologia. Mas não se limitaram aos seus próprios membros pois foram por esses montes além à procura da intelectualidade que por lá estava escondida e quase-improdutiva. E assim renasceu mais esperança por ali fora… e apareceu o embrião de uma «academia» como não havia em Évora desde há dois séculos.

 

Mas não só. Fomos alguns escorraçados pelas greves académicas que grassavam em 62 e 63 em Lisboa que rumámos a Évora para calmamente estudarmos ao som das pégadas dos gatos nas calçadas.

 

E assim nasceu o futuro em Évora, este que agora está. E por isso achamos que deve ser resgatada a memória dos Condes de Vill’Alva.

 

- Muito bem! E que mais disseram?

 

- De substantivo, mais nada. Mas ficou muito por dizer porque nós todos, na casa dos 70, já somos como a Nau Catrineta, «temos muito que contar» mas, para não corrermos o risco de nos tornarmos uns maçadores, moderamos a palavra e ficam as memórias para cada um saborear a seu modo. Mas há uma memória enigmática que há mais de cinquenta anos carece de explicação e que vou agora, só agora, lembrar aos que me lerem: «E São Pedro e São Paulo?»

 

E, então, foi assim.

 

Maio de 2019

Henrique Salles da Fonseca

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2006
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2005
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2004
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D