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A bem da Nação

A PARTICULAR BELEZA DO TEMPO

Dalì-la-persistenza.jpg

 

The chief beauty about time is that you cannot waste it in advance.


The next year, the next day, the next hour are lying ready for you, as perfect as unspoiled, as if you had never wasted or misapplied a single moment in all your life.


You can turn over a new leaf every hour if you choose.

Arnold Bennett.jpg

Arnold Bennett

(1867, UK- 1931, UK)

 

ESCRITORES QUASE ESQUECIDOS - 8

Poilão.jpg

 

UM VELHO POILÃO

 

O tempo fez-me vergar

E as minhas raízes saltar,

Agarro-me ao que de mim resta

E tento reconhecer a minha geração

Neste carnaval de extrema solidão.

No meu reino, tenho pesadelos:

Tractores de dentes aguçados;

Ávidos lenhadores de machado em punho.

Meus adoradores

Miram o meu tronco carcomido pelo tempo

À espera da queda fatal.

Angustiado sonho como os belos tempos,

Vejo os meus braços verdes,

O meu tronco firme

Ostentando uma cabeça frondosa

De cabelos encarapinhados

Simulando perfis ocos

De rostos apinhados.

Ainda recordo

As sombras que dei,

Histórias de amor, noites de fogueira...

Quantas não assisti?

Fui símbolo de amor proibido

 

Odete Semedo.jpg

Odete Semedo

(Guiné-Bissau)

 

LOULÉ NO PERÍODO MUÇULMANO

Loulé árabe.png

Al-'Ulya' »»» Loulé

 

Com a chegada dos Muçulmanos no século VIII, nasce a urbe que virá a gerar a cidade histórica actual. Al-'Ulya' (Loulé) é-nos descrita, pela primeira vez, nas vésperas da reconquista cristã, nas crónicas árabes de Ibne Saíde e Abd Aluhaid como sendo uma pequena Almedina (Cidade) fortificada e próspera, pertencendo ao Reino de Niebla, sob o comando do Taifa Ibne Mafom.

 

Esta descrição não deixa de ser relevante apesar dos cronistas, na alusão à Al-'Ulya', se terem preocupado em focar aspectos do estatuto urbano e valor estratégico da Almedina omitindo por completo qualquer tipo de menção sobre o traçado urbano e arquitectónico.

 

A segunda metade do século XII e princípios do século XIII foi uma época marcada por grande instabilidade política e militar no mundo islâmico com dissensões internas que se reflectem em todo o Garb Andaluz, assistindo-se a um movimento generalizado de construções militares.

 

É bem possível que Al-'Ulya' tenha sido fortificada durante este período.

 

Autores de renome como David Lopes, seguido por Garcia Domingues e José Pedro Machado identificaram o topónimo com uma origem árabe que se radica em significados que remetem para altura, como elevação, colina ou outeiro, donde as formas atestadas no árabe Al-‘Ulyã e Al-‘Ulya teriam evoluído até à forma actual Loulé.

 

(gentileza de Margarida Castro e Álvaro José Ferreira)

 

 

RUI KNOPFLI - AUTO-RETRATO

Rui Knopfli.jpg

 

De português, tenho a nostalgia lírica de coisas passadistas,

de uma infância amortalhada entre loucos girassóis e folguedos,

a ardência árabe dos olhos, o pendor para os extremos:

da lágrima pronta à incandescência súbita das palavras contundentes,

do riso claro à angústia mais amarga.

De português, a costela macabra, a alma enquistada de fado,

resistente a todas as ablações de ordem cultural

e o saber que o tinto, melhor que o branco, há-de atestar a taça na ortodoxia

de certas vitualhas de consistência e paladar telúrico.

De português, o olhinho malandro, concupiscente e plurirracial,

lesto na mirada ao seio entrevisto, à nesga de perna, à fímbria de nádega,

a resposta certeira e lépida a dardejar nos lábios,

o prazer saboroso e enternecido da má-língua.

De suíço tenho, herdados de meu bisavô, um relógio de bolso antigo

e um vago, estranho nome.

 

RUI KNOPFLI

(1932–1997), viveu em Moçambique até 1975, um dos nomes mais importantes da vida cultural moçambicana. Consciente do labor poético, nunca cedeu a imediatismos portadores de ideologias, mantendo a sua independência artística, autonomia e, decerto, exclusividade. Autor bipátrida, cuja obra, para além de outros temas, denuncia uma procura sempre aflita de raízes e identidade (a nível pessoal e literário). Hoje em dia recuperado pela voz de novas gerações de poetas. Dentro da sua obra destacam-se as coletâneas «O País dos Outros» (1959), «Mangas Verdes Com Sal» (1969), «Memória Consentida», «20 Anos de Poesia – 1959/1979» (1979), «O Monhé das Cobras» (1997).

 

ANONIMANDO…

CARNAVAL DE VENEZA

 

carnaval-veneza.jpg

 

O rosto da mulher estava tapado por uma máscara, mas a minha imaginação desenhava-lhe as feições. Mascaradas, todas as mulheres se transformam em beldades famosas que todos os homens conquistam pelo seu encanto. A mulher com quem dançava pôs-se a fazer-me perguntas em italiano. Se eu dissesse uma palavra, todo o país ficaria ao corrente de que eu era americano.

- Ah! – exclamou ela numa voz cantante. – Esperava que fosse chinês.

- Então, sou chinês – disse eu em italiano.

- Sou condessa – disse com orgulho. – A minha família descende do décimo segundo Doge.

- É verdade? – perguntei.

- Esta noite, tudo é verdade. No Carnaval, todas as mulheres são condessas.

O meu italiano tinha chegado aos seus limites, assim, falei-lhe em inglês.

- A máscara torna a mentira mais fácil?

- A máscara torna a mentira necessária – respondeu-me.

- Então, não é condessa.

- Sou condessa, todos os anos, na mesma noite. E espero que toda a gente me preste as homenagens que mereço.

Dei um passo atrás e fiz-lhe uma profunda vénia.

- Minha condessa adorada.

- Meu servo – disse ela e, fazendo uma reverência, desapareceu na multidão.

 

MÚSICA DE PRAIAPat Conroy - Círculo de Leitores, ed. Setembro de 1996, pág. 62

 

 

ESCRITORES QUASE ESQUECIDOS - 5

 

 

Violante do Céu.jpg

Violante do Céu

(Lisboa, 30 de Maio de 1601 (07?) – Lisboa, 28 de Janeiro de 1693)

 

Um de seus poemas já conhecidos (outros haverá por descobrir…) intitula-se abreviadamente «Vozes de uma dama defunta» mas por extenso é…

Vozes de uma dama desvanecida de dentro de uma sepultura que fala a outra dama que, presumida, entrou numa igreja com os cuidados de ser vista e louvada de todos; e se sentou junto a um túmulo que tinha esse epitáfio que leu curiosamente:

 

Ó tu, que com enganos divertida

Vives do que hás-de ser tão descuidada,

Aprende aqui lições de escarmentada,

Ostentarás acções de prevenida.

 

Considera que em terra convertida

Jaz aqui a beleza mais louvada,

E que tudo o da vida é pó, é nada,

E que menos que nada a tua vida.

 

Considera que a morte rigorosa

Não respeita beleza nem juízo

E que, sendo tão certa, é duvidosa.

 

Admite deste túmulo o aviso

E vive do teu fim mais cuidadosa,

Pois sabes que o teu fim é tão preciso.

 

* * *

 

Para saber mais, ver por exemplo em

http://alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/violante.htm

 

Dezembro de 2018

Jakarta - 3 (SET18).jpg

Henrique Salles da Fonseca

(Jakarta, SET18)

 

CAÍDOS NO POPULISMO

REVENDO CAMUS E NIETZSCHE

Friedrich Nietzsche (1844 —1900)

«Uma vez que o velho Deus abdicou, governarei o mundo doravante»

- assim apregoava Nietzsche, o pai do niilismo.

 

A era niilista manifestou-se muito antes do que o filósofo imaginara: catorze anos depois da sua morte iniciou-se a Primeira Guerra Mundial e depois dela a Europa ficou nas garras do fascismo, do comunismo e do nazismo. E pouco tempo depois da primeira, sofreu outra guerra pior ainda que a anterior.

 

Desprezada a Civilização no que ela continha de valores perenes dando corpo à dignidade humana, a violência triunfou sobre a verdade e sobre a bondade. Dezenas de milhões de vidas foram aniquiladas sob o aplauso de dezenas de milhões de admiradores da violência. Sim, porque o niilismo só pode conduzir à ditadura, à violência e à aniquilação.

 

E como começou ele?

 

Perante o igualitarismo, todos têm razão, a ninguém é reconhecido o estatuto de sábio e tudo o que se apresente difícil é considerado antidemocrático; morto o conceito de que «o peso material determina o valor do oiro e o peso moral determina o valor do homem», a matéria reina e o dinheiro é a divindade suprema. Moral? A cada um, a sua.

 

- O que é bom para o oiro é bom para ti! Comercializa-te, adapta-te! Tudo o que te torna mais rico é útil; o que não for divertido é inútil e pode desaparecer.

 

Cada um que se valha a si próprio e os outros que «se virem» se conseguirem e, se não, tanto melhor pois mais fica para o vencedor entesourar.

 

Eis um conjunto de indivíduos que tudo fazem para vingar individualmente em prejuízo do próximo. A inveja ganha adeptos. Só que isto não é uma sociedade e muito menos uma Civilização. E onde não há coesão social, todos se sentem desamparados. Mas o desamparo é desconfortável. O desconforto gera a queixa e sempre acaba por conduzir à busca de soluções para se regressar a alguma situação assemelhável a conforto.

 

Assim se reúnem os ingredientes suficientes para que apareça um caudilho com promessas cujos méritos os desamparados não querem sequer questionar. E a ditadura, sempre radical, gera a violência e esta é a destruição.

Camus.png

Albert Camus (Argélia, 1913 — França, 1960)

 

Foi depois de muita desgraça que na tarde de 29 de Outubro de 1946, Albert Camus perguntou ao anfitrião André Malraux e ao grupo de outros convidados em que se destacava Jean-Paul Sartre – todos nascidos no niilismo e no materialismo histórico - se não achavam serem eles próprios, naquela sala, os maiores responsáveis pela falta de valores na Europa ocidental e se não estaria na hora de declararem abertamente que estavam errados, que os valores morais existem realmente e que doravante tudo fariam para restabelecer e clarificar esses princípios perenes e quiçá eternos. «Não acham que seria o princípio para o regresso de alguma esperança?»

 

E hoje?

Ah!, hoje, a História é a mesma que há muito Camus descreveu.

 

SET18.JPG

Henrique Salles da Fonseca

 

 

BIBLIOGRAFIA:

Riemen, Rob – NOBREZA DE ESPÍRITO, UM IDEAL ESQUECIDO, Bizâncio, Lisboa, Abril 2011

Judt, Tony – O PESO DA RESPONSABILIDADE (Blum, Camus, Aron e o séc. XX francês), Edições 70, Maio de 2018

 

 

NIETZSCHE DIXIT

 

Até aqui, as nossas crenças e os conceitos usados para as formular foram o esteio transcendental da fé religiosa.

(…) Hoje, todavia, tudo está a mudar. As pessoas nascem num mundo onde não há certezas; e, por entre os farrapos da herança que recebemos, o abismo está sempre à vista. Em tais circunstâncias a vida humana torna-se problemática; sem uma reconstrução radical da nossa visão do mundo que torne possível a vontade de poder da qual as nossas iniciativas dependem, entraremos num estranho deserto espiritual no qual nada tem significado ou valor – [será] o mundo do último homem.

Friedrich Nietzsche

in «Breve história da filosofia moderna», Roger Scruton, “Guerra e Paz, Editores”, 1ª edição, Junho 2010 (pág. 249)

 

HISTÓRIA DE PORTUGAL

mapa mais antigo.jpg

Portugal não foi formado através da união de reinos ou unidades políticas estabilizadas e preexistentes, mas da conquista de territórios a partir de um núcleo político de raiz (…) foi sempre um único reino e não uma monarquia compósita.

 

(…) no princípio do século XX, a população do Estado Português deverá ter sido das mais homogéneas de qualquer Estado europeu no sentido em que não havia identidades concorrentes – étnicas, religiosas, regionais – que pusessem em causa a comum identidade nacional (…)

 

In «HISTÓRIA DE PORTUGAL», de Rui Ramos, Bernardo Vasconcelos e Sousa e Nuno Gonçalves Monteiro, edição de «A Esfera Dos Livros», 8ª edição – Abril de 2015 - pág. XIII

 

 

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