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A bem da Nação

CHURCHILL - HERÓI, PRÉMIO NOBEL E…

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Há acções que nos surpreendem pela positiva, como prova de coragem, de paciência, de sentido de missão ou de sangue-frio; justamente por isso os seus autores se tornam heróis aos nossos olhos. E gostaríamos de os ver sempre assim, heróis! Sem baixezas… ou abstraindo mesmo das pequenas escorregadelas.

 

A não ser que tenha havido um esforço sério por praticar o bem, para fazer o que é correcto, arraigando virtudes no proceder habitual, eles não estarão isentos de deslizes, alguns fortes, cedendo a paixões, à sêde do poder ou a mesquinhas vinganças.

 

Ao ler o livro The end of poverty, de Jeffrey Sachs, tinha-me chamado a atenção, esta frase: “A maior ilustração da irresponsabilidade imperial britânica foi a sua resposta às repetidas fomes e doenças epidémicas durante a segunda metade do século XIX e a primeira metade do século XX” (Penguin Books, pg. 174). Que exagero, pensava eu, ou apenas força de expressão.

 

Alguns autores britânicos como William Darlymple ou Angus Maddison, nos seus estudos histórico-económicos tinham evidenciado como a riqueza que a Índia produzia fôra sendo destruída abruptamente a ponto de passar de mais de 24% antes da colonização, para menos de 4% na retirada dos ingleses. É muito de louvar que os investigadores britânicos não se tenham deixado levar por fábulas e superficialidades, na linha da exaltação nacionalista tão frequente na Europa, muitas vezes fomentadas pelo governo ou algum sector fascista. Intrigado com as afirmações de Sachs, tentei saber do alcance de tal ‘irresponsabilidade’.

 

Na verdade, segundo relatos históricos, na 2ª parte do século XIX e na 1ª do século XX, entre 15 a 29 milhões de pessoas terão morrido de fome e epidemias na Índia, sem que os dominadores colonialistas tenham mexido um dedo! E só no ano de 1943, quando Churchill era primeiro ministro, a situação era muito grave, com extrema falta de mantimentos na região de West Bengal, de capital em Kolkota. A fome apertava e os chefes colonizadores locais mandaram telegramas urgentes a Churchill chamando a atenção para a gravíssima situação e queriam proceder à distribuição de mantimentos armazenados para o efeito. Churchill opôs-se, com veemência, alegando uma justificação, que nada justifica, senão um ódio mal-contido aos indianos: ‘que poderiam fazer falta aos britânicos’, anafados e bem-alimentados.

 

E no papel do telegrama recebido anotou esta frase cínica e cruel: ‘Como é que Gandhi não morreu ainda?’ (de fome, por suposto). Impediu que se acudisse à fome. Deixou que morressem, em consequência, 4 milhões de cidadãos Indianos, em 1943 (cfr. Shashi Tharoor, https://www.youtube.com/watch?v=f7CW7S0zxv4 at Oxford Union)

 

Desenterrar atrocidades coloniais? Sim, para reavivar a memória e aprender dos erros do passado e, no mínimo, para se ter a humildade de os reconhecer e pedir desculpas! ‘Purificar a memória’, chamou o Santo Papa João Paulo II. Foram 4 milhões de vidas humanas ceifadas pelo capricho de um ‘herói’, com poder e com armas! Qualquer juiz sensato classificaria, sem hesitar, de crime com premeditação.

Desgraçadamente, na colonização britânica na Índia, estes casos macabros nem foram um acto isolado, nem infrequente… O desrespeito pelos cidadãos indianos foi acompanhado de ódio mal contido; talvez por os ingleses se sentirem humilhados com a superioridade moral e intelectual dos indianos que não davam importância ao colonizador. Recorde-se o massacre de Jallianwalla Bagh, no Amritsar, em que centenas de indianos foram mortos a sangue-frio e muitos mais feridos quando se manifestavam pacíficamente, sem nenhumas armas na sua posse!

 

As seguintes palavras pronunciadas no Parlamento britânico, são atribuídas a Lord Macaulay, proferidas em 2 de Fevereiro de 1835 (ele foi membro do Supreme Council of India, quando W. Bentick era Governador-Geral): “Viajei ao longo da Índia e tomei o pulso: não vi nenhum mendigo ou ladrão. Vi tal riqueza no país, tais valores morais, pessoas de tal calibre que não penso que alguma vez consigamos conquistar este país se não partimos a coluna vertebral desta Nação, que é a sua herança espiritual; por isso, proponho substituir o seu velho e antigo sistema de educação e a sua cultura…”

 

Churchill é um herói para os europeus. Mas como pessoa de forte personalidade não admitirá que não seja recordado com todos os seus atributos, em corpo inteiro, sem camuflagens, como sempre foi: herói e assassino de 4 milhões de indianos!

 

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Eugénio Viassa Monteiro

FORTES E DÉBEIS…

 

 

 

Quando comentava a grande eficiência do funcionamento do ‘número de emergência’, EMRI (108), que é um sucesso na Índia, pelo alívio que leva a quem está em apuros, veio-me ao pensamento uma frase de André Maurois, respeitante a si próprio, que li há tempos: “Não digais que sou forte ou fraco; realmente sou forte e fraco.” (Diálogos sobre o mundo – André Maurois, membro da Academia Francesa).

 

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Quem criou o EMRI? Foi iniciativa pessoal de Ramalinga Raju, empresário, fundador da Satyam, empresa de TI, que chegou a ser a 4ª maior empresa de Tecnologias de Informação da Índia, em faturação. Convidou Changavalli para ser o Director Geral e concretizar a ideia do EMRI - Emergency Management and Research Institute, financiado por Ramalinga Raju, em 2005.

 

Depressa o 108 demonstrou ser a resposta ansiada pelo cidadão, tão necessária, operando em parceria público-privada nos diferentes Estados (da Índia). Em menos de 6 anos, prestava serviço a uma população de 400 milhões; hoje, na Índia, mais de 900 milhões têm o benefício da sua acção rápida, no local da emergência.

 

Em 2009, Changavalli recebeu uma chamada urgente de Ramalinga Raju. Pedindo desculpas, anunciava que se iria demitir de Presidente; havia convocado uma conferência de imprensa para denunciar a sua fraude de ter criado $1.000 milhões fictícios na contabilidade da Satyam, empresa cotada na bolsa. E pedia que Changavalli continuasse no seu posto, procurando novo financiador, para que a EMRI não se desmoronasse e continuasse a expandir-se pelo país, com serviços tão apreciados, em especial pelos mais pobres.

 

De facto, dois dias depois, Raju era preso. Dada a dimensão da Satyam e da fraude, o Governo nomeou uma Comissão gestora, para que a empresa não se desfizesse com a deserção de clientes e colaboradores.

 

Era uma situação única: Raju, transbordante de iniciativas, cria um conglomerado valioso, no qual brilha a Satyam; promove uma ‘entidade social’, público-privada, para acudir às emergências, algo que ninguém se lembrara de fazer, nem o Governo, que tinha tal obrigação!

 

Dado o vibrante espírito empreendedor, Raju necessitou de dinheiro para entrar em novos negócios que criariam mais riqueza e trabalho no país. Se fosse um burocrata sem iniciativa a administrar um bem privado ou público, poderia viver sossegado e ser condecorado.

Tudo o que Raju fizera de grandioso, num instante se desvaneceu… Raju é um escroque! – disseram muitos… Pouco antes, era um herói!

 

Raju foi condenado a 7 anos de prisão, donde saiu sob fiança.

 

É certo que só o empreendedor cria riqueza. Quando a iniciativa é muita, a ponto de ultrapassar a linha divisória, para procurar dinheiro, ele não mereceria ser desculpado, face ao bem feito antes? Talvez… Mas, se assim fosse, não se estaria a dar asas à corrupção? Por causa dela, há países onde o dispêndio de enormes recursos para elevar a vida dos pobres redunda em nada. Veja-se o Brasil…

 

Em contraste, Singapura tem ‘corrupção zero’, dizem; e progrediu da situação miserável no fim da colonização inglesa até ser hoje um dos países mais ricos e organizados, com regras que todos cumprem com rigor; parece um exagero, mas é um sucesso, pois é muito rica!

 

Singapura e Brasil mostram como não é nada indiferente conviver com a fraude; ela tem altíssimos custos: o país fica encalhado e os pobres ficam mais pobres ainda!

 

A fraude impune cria um ambiente de pirataria: tudo está a saque e é ‘inteligente’ quem mais rouba! Espalha-se como uma gota de óleo à superfície da água e pode fazer esquecer as exigências éticas, generalizando um clima permissivo.

 

Pelo contrário, a justiça célere reforça a ideia de que não compensa tomar decisões incorretas. Na Índia ou na Europa…

 

Há quem tenha prestado grandes serviços à Sociedade, dignos de louvar. Se teve debilidades, nada mais natural do que responder por elas… e arcar com as responsabilidades todas. A vontade deve ser educada pelo cultivo das virtudes, para se decidir mais facilmente por aquilo que é correto fazer, sempre. E evitar o que atrai e dá vantagens materiais, sacrificando o que é justo.

 

Decisões injustas prejudicam muito mais o seu autor, em primeiro lugar; mas também os outros e a sociedade inteira.

 

2 Agosto, 2016

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EugÉnio Viassa Monteiro

O CICLO DO DIAMANTE

 

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A exportação de jóias e pedras preciosas da Índia representou 16.7% do total das exportações, ou $43.000 milhões no Ano 2011/12. A Índia exportou 95% dos diamantes polidos do mundo, no valor de $ 28,300 milhões. Com alta probabilidade o cliente final poderá ser uma mulher da diáspora indiana. Diversas marcas nacionais estão a emergir neste domínio, mas a que prende a atenção é a India.


A Bharat Diamond Bourse, instituída em 2011, representa um notável upgrade à antiquíssima arte de lapidar e polir diamantes, na Índia, tão conseguida mercê do manuseio exclusivo do diamante desde a sua descoberta, vários séculos antes da nosso era (séc. 9 aC) até à sua redescoberta no Brasil, no século XVIII. A Bolsa de diamantes da Índia, situada em Mumbai, na zona de Bandra-Kurla, zona amplamente ‘semeada’ de nomes portugueses, em particular nas pedras tumulares das antigas e majestosas Igrejas, que recordam os primórdios da fundação de Bombaim, há cerca de 3 séculos.


A Bolsa espraia-se numa área de oito hectares, com nove torres interligadas, onde se albergam mais de 2.500 escritórios para importadores/exportadores de diamantes brutos e polidos, amplas áreas de exposição e montras, auditórios, restaurantes, etc., com uma área construída de 220,000 m2, num ambiente de alta segurança.


Há 26 bolsas de diamantes registadas no mundo. Elas correspondem ao estádio final da cadeia de fornecimento, fortemente controlada, onde os grossistas e retalhistas podem comprar lotes muito limitados de diamantes –para os preparar para a venda ao comprador final–, como forma de manter os preços ‘artificialmente altos’. Por si só, a de Beers de Joanesburgo e Londres, controla uma fatia importante do comércio.


Impressionante e triste era a sorte das centenas de milhar que trabalham na lapidação e polimento, recebendo em troca umas migalhas, quando os que dominavam o comércio, incluindo os intermediários, ficavam com a parte de leão. Mais de 850,000 trabalham nos variados centros de polimento, em Surat, Coimbatore e Mumbai.

A bolsa é o ponto de encontro de comerciantes, que tem um grande impacte nas vendas, com mais de 30.000 visitantes diários, por variados motivos.

Os diamantes foram descobertos na Índia, nos depósitos aluviais do Rio Krishna, no século IX aC. Hoje, cerca da metade dos diamantes em bruto vem da África Central e do Sul e o remanescente do Canada, Índia, Russia, Brazil e Australia.

As grandes empresas comercializadoras – Rio Tinto (Austrália), De Beers (Inglaterra e Africa do Sul), Alrosa (Russia) –, decidiram participar no Indian Diamond Trading Centre (IDTC), que é uma Zona Especial Notificada. Esta adesão vem na sequência do empenhamento pessoal do PM Modi em dar vida ao Programa ‘Make in India’, para facilitar a criação de postos de trabalho. Aquelas empresas realizaram variados testes, que foram plenamente satisfatórios, para depois decidirem sobre as suas transacções através da bolsa de Mumbai. O IDTC vai reduzir/eliminar a intermediação e permitir aos industriais negociar directamente com os mineiros.


Para se ter uma ideia, o Grupo Rio Tinto produziu e entregou ao mercado, em 2002, diamantes em bruto valorizados em US$9.000 milhões; depois de lapidados e polidos valiam US$14.000 milhões; quando vendidos por grosso nas joalharias de diamantes, alcançavam US$28.000 milhões; e US$57.000 milhões na venda a retalho.

Atualmente a mina indiana de diamantes mais importante é a de Panna, no Estado de Madya Pradesh. E o diamante mais antigo e famoso é o Koh-i-Noor, indiano, ‘subtraído’ pela Corôa Britânica.

Deveria investigar-se mais nas técnicas de lapidação, com aplicação dos conhecimentos avançados de cristalografia, para se valorizar ainda mais o diamante em bruto, e também para dar mais conteúdo ao trabalho dos lapidadores e polidores. A bolsa de diamantes de Mumbai e a sua afirmação gradual parecem a via natural de completar o ciclo do diamante, interrompido e mesmo desfeito pelos colonizadores britânicos.

 

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Eugénio Viassa Monteiro

PASSEANDO PELA ÍNDIA

 

 

Akbar, o grande.png Akbar (1542-1605), terceiro Imperador mogul da Índia (1556-1605), geralmente considerado o verdadeiro fundador do Império Mogul era filho do Imperador Humayun, nasceu em Umarkot, Sind (no actual Paquistão), subiu ao trono com 13 anos de idade e começou por ter um Regente, Bairam Kahn. Este regente reconquistou para o jovem Imperador grande parte dos territórios que tinham sido usurpados pelos vizinhos aquando da morte do seu pai até que em 1560 Akbar assumiu o poder de facto.

 

Compreendendo que a heterogeneidade e a cooperação seriam fundamentais para o governo e consolidação de um Império, obteve a colaboração dos rajputanos – que eram os mais belicosos de todos os hindus – utilizando uma sagaz mistura de tolerância, generosidade e força. Ele próprio tomou a iniciativa de casar com duas princesas de Rajput.

 

Assegurando a lealdade dos hindus, pôde então prosseguir para o alargamento do seu reino até que alcançou uma extensão tão vasta quanto a que vai do actual Afeganistão até à baía de Bengala e até ao rio Godavari, no sul.

 

Contudo, o seu maior feito foi o estabelecimento de um sistema administrativo que conseguiu manter o Império uno e que estimulou o comércio e o desenvolvimento económico.

 

Notável foi também a promulgação que fez de uma nova religião, a Dini-Ilahi (Fé Divina) que consistiu na tentativa de conciliação do Islão com o Bramanismo, Cristianismo e Zoroastrismo. Apesar de este seu projecto ter falhado, Akbar fez-se rodear de sábios dessas religiões e, se bem que ele próprio fosse quase analfabeto, fez da sua corte um centro de artes e letras.

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E, contudo, recordamo-lo hoje pelo Taj Mahal, obra muito vistosa, sem dúvida, mas bem pequena perante a grandeza do seu trabalho mais importante, a consolidação do Império que, com algumas variantes, corresponde grosso modo à actual Índia.

 

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 Henrique Salles da Fonseca

(à porta do palácio de Samode nos arredores de Jaipur, Rajastan)

 

BIBLIOGRAFIA: Wikipédia

TURISMO DE SAÚDE, ECONOMIA E SABER

 

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Há abordagens inteligentes que mostram o profundo entendimento das realidades humanas. A Gilead Sciences Inc descobriu um remédio eficaz e curativo em 90% dos casos da hepatite C. O seu custo para um tratamento completo de 12 semanas à razão de um comprimido diário ronda os 94 500 dólares.

 

Cerca de 54% dos que têm este tipo de hepatite vivem nos países pobres com um rendimento per capita de 1900 dólares. Só na Índia, cerca de 4,5 milhões estão infectados com a hepatite C, genotipo 1, para o qual aquele remédio é indicado.

 

Laboratórios indianos recorrem às cláusulas da OMC (Organização Mundial do Comércio) para terem autorização de fabricar produtos genéricos com os mesmos princípios activos a um custo muito baixo, acessível aos utilizadores locais. Antes da adesão à OMC, a cópia só se podia fazer ao expirar a patente. Antes disso, parte dos doentes pobres estaria condenada sem esperança de cura a não ser que algum laboratório não respeitasse a patente por respeito aos doentes.

 

Em 2001 Yussuf Hamied presidente da CIPLA, laboratório indiano de grande prestígio, convocou uma conferência de imprensa em Londres para anunciar que o seu laboratório iria vender o genérico para o HIV por 350 dólares a dose para o ano

Inteiro. Só ouviu protestos dos laboratórios ocidentais que tinham descoberto o remédio pois eles vendiam-no por 10 000 dólares a dose para um ano. Hamied foi para a frente com a sua pois eram muitos os doentes dos países pobres que poderiam sucumbir a breve trecho sem o remédio.

 

A decisão da Gilead foi de dar licença de fabricação não exclusiva a mais de dez laboratórios indianos pagando estes um royalty de 7% das vendas podendo distribui-lo na Índia e em mais 91 países pobres especificados.

 

É uma decisão muito esclarecida e felicito o seu presidente. Não cria atritos nem uma detestação por parte dos pobres e ao mesmo tempo revela um grande sentido de justiça.

 

Não vai agradar o que digo mas pense-se quais são os países pobres. São quase toda a Ásia espoliada pelos colonizadores ingleses, franceses e holandeses, a África despedaçada pela colonização europeia e a América Latina e do Sul, colónias sempre pobres. Daí que os países ricos, em geral colonizadores com meios para investigar, devam no mínimo ter em conta o passado para actuarem como o fez agora a Gilead. Esta abriu um novo caminho cooperante e de compreensão que espero venha a ter seguidores. Merecerá o reconhecimento de todos os pobres e pode ser que a desconfiança gananciosa dos laboratórios ocidentais face aos indianos venha a esbater-se, confrontados com a generosidade da Gilead.

 

O preço de venda do genérico desse produto na Índia é de 1000 dólares. É muito tentador mesmo nos países com um Sistema Nacional de Saúde que paga parte dos custos mas não tudo ou nos países ricos onde há uma faixa de pessoas sem cobertura dos custos de saúde nem seguros à altura e mesmo havendo se eles têm um tecto muito baixo para ir à Índia comprar ou tratar-se localmente.

 

Na pior hipótese de ter de passar as 12 semanas na Índia confirmado que os genéricos são de alta qualidade e eficácia, as pessoas de reduzidos rendimentos dos países ricos poderão ter os custos totais abaixo de 12 000 dólares incluindo viagens para o próprio doente e cônjuge, estadia e alimentação num bom hotel de três ou quatro estrelas e o custo dos remédios.

 

Se a escolha for Goa, terá ainda vantagens adicionais de estar num local paradisíaco onde cada recanto recorda factos históricos, um destino privilegiado de turistas indianos e ocidentais, de ocupar o tempo em algo interessante como aperfeiçoar o inglês, recordar a história de Goa e em especial aprender o manejo de computadores e da Internet. Tudo isso com lições particulares a bons preços.

 

Um complemento à estadia pode ser um check up completo nos modernos hospitais de Goa e eventualmente adquirir óculos novos com lentes das melhores marcas e tratar dos dentes ou pôr implantes, tudo a preços muito bons - menos de 50% dos

Europeus.

 

27JAN16

Eugénio Viassa Monteiro

Eugénio Viassa Monteiro

Professor da AESE – Business School

Dirigente da AAPI-Associação de Amizade Portugal-Índia

MUITAS E DESVAIRADAS GENTES – 17

 

 

 

«Não há bem que não acabe nem mal que sempre dure» – assim reza o ditado. E a viagem tinha mesmo que chegar ao fim. Eis-nos, pois, na última etapa, a de Bombaim a que agora está na moda chamar Mumbai.

 

Meia dúzia de horas, apenas, o suficiente para uma volta pela cidade. Guia turística castelhanófona, ao que já nos vimos habituando apesar de Espanha nada ter a ver com a Índia e nós, Portugal, sim, termos muito. Mas é claro que a culpa é das nossas Agências de Viagens que nada fazem para dar emprego a tanta gente que na Índia (ainda e já) fala português.

 

Um guia turístico é, por definição, um Embaixador do país em que reside e que o exibe a forasteiros. É, portanto, um agente cultural da maior importância que se deve adaptar aos interesses dos clientes, esses tais forasteiros, turistas.

 

No caso particular de Bombaim, aos turistas portugueses poderiam os guias turísticos apresentar locais e factos históricos que tivessem algo a ver com os tantos anos que por lá andámos mas, na realidade, passamos ao largo de toda essa temática e só por acaso nos apontam um ou outro edifício com características especiais a que chamam «estilo colonial» ou qualquer outra designação a atirar para o imbecil.

 

Por exemplo, a nossa guia local, que não deve sequer saber quem foi Garcia de Orta nem Catarina de Bragança, dissertou longamente sobre os lavadores de roupa, a «Porta do Oriente» por onde entraram e saíram os ingleses, os edifícios de estilo gótico, as praias ao pôr-do-sol e... mais não sei pois desliguei-me da conversa.

 

Mas Bombaim deve ser uma cidade bem boa para se viver, sobretudo se se puder ter um daqueles apartamentos miríficos numa das avenidas marginais com o Mar Arábico a dançar ali à frente.

 

Contudo, numa panorâmica geral, a Índia ainda tem os seus quês...

 

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A fechar esta série de crónicas, resta a certeza de que muito ficou por referir mas também não era minha intenção escrever algum «Colóquio da Índia e do Sri Lanka». Até porque sempre esteve longe de mim a ideia de fazer sombra ao «Colóquio dos simples e drogas e coisas medicinais da Índia».

 

Finalmente, uma curiosidade: na Índia, os motoristas conduzem descalços mantendo as chanatas ali ao lado dos pedais para a eventualidade de terem que se apear sobre alguma cama de picos à moda dos faquires. Então, foi em Madurai, no Tamil Nadu, que a certa altura vimos o Director do hotel vir todo engravatado e pressuroso até ao hall receber um importantão (parece que era o Chefe da Polícia do Estado que se fazia acompanhar de dois polícias paralelipipédicos empunhando metralhadoras e de duas mulheres-polícia de beleza quase deslumbrante) cujo motorista, “vestido de ponto em branco” como soe dizer-se, se apresentava descalço no que, para todos eles, era a coisa mais natural da vida.

 

Aqui fica uma sugestão aos nossos industriais de calçado: não percam muito tempo com os motoristas na Índia.

 

De Bombaim voámos até ao Dubai e daí a Lisboa onde chegámos em condições de curar a constipação que o ar condicionado do autocarro nos pregou na viagem entre o Tamil Nadu e o Kerala. E os micróbios indianos devem estar cheios de piri-piri pelo que foi difícil dar-lhes cabo.

 

E não esquecer que o título desta série de crónicas é de inspiração medieval no sentido de que então se considerava desvairado todo aquele que agia segundo padrões diferentes dos do observador. E nesta viagem, para além de muita, vi gentes desvairadas.

 

E pronto, até à próxima que, parece, vai ser navegando pelo Amazonas...

 

Lisboa, 15 de Dezembro de 2015

 

Bombaim-2008.JPG

Henrique Salles da Fonseca

            (Bombaim, 28JAN08)

MUITAS E DESVAIRADAS GENTES – 7

 

Foi logo à entrada do Kerala que começámos a ver bandeirolas comunistas engalanando as ruas e, começando por ficar estupefacto, passei-me depois para a apreensão logo que me informaram de que naquele Estado a governação alterna tradicionalmente entre o Partido do Congresso e o Partido Comunista. Pensei – mas não disse – que os gatunos de esquerda alternam com os gatunos de direita. Ainda bem que calei esse meu pensamento pois já não estava no Tamil Nadu onde, aí sim, o raciocínio poderia ter algum fundamento. No Kerala não vi vergonhas dessas. Pelo contrário, fiquei a saber que é o Estado com o segundo mais elevado PIB per capita da União (o primeiro continua a ser Goa) e, por contraste com o Inferno de que acabáramos de sair, as ruas estavam limpas e as obras públicas em andamento. Por coincidência, a obra mais emblemática por que passámos foi a do metro aéreo de Cochim com trabalhos numa enorme extensão a contrastar com a paralisação do homólogo de Chennai.

 

Claramente contrário ao comunismo e a todas as demais formas de ditadura, abri bem os olhos a ver se via alguma coisa que me fizesse lembrar a Cortina de Ferro. Mas não vi nada que me chocasse e lá fomos todos navegar na baía de Cochim em barcos privados que antigamente devem ter tido alguma função no transporte de mercadorias mas que agora estão muito bem adaptados ao turismo. No que usei, havia dois belos quartos com casa de banho privativa para além, claro está, da sala de estar e de refeições que era o deck da vante. A cozinha e instalações da tripulação eram na ré e tivemos todos muito mais que fazer do que ir até lá.

 

Barco da baía de Cochim-2.jpg

 

Bela passeata que deu para lembrar o delta do Paraná, junto a Buenos Aires, com belas casas ao longo das margens a fazer lembrar uma muito boa qualidade de vida, «vaporetti» a lembrar Veneza e calor a fazer-nos lembrar que estávamos mesmo no sul da Índia.

 

Calecute foi o porto de chegada de Vasco da Gama em 17 de Maio de 1498 e Cochim foi a localização, em 1505, do 14º hospital de apoio às nossas navegações na rota entre Tavira (cujo hospital já existia em 1430) e Goa (hospital já existente em 1512) num total de 17 estabelecimentos.

 

E porquê a substituição de Calecute por Cochim nas preferências portuguesas? Porque o rei de Cochim pediu a ajuda portuguesa contra o seu rival tradicional de Calecute a cuja jurisdição se abrigaram entretanto todos os descontentes com a nossa chegada, ou seja, os mouros que até então dominavam o comércio entre a Índia e Alexandria, porto onde os venezianos iam buscar as mercadorias orientais. Pois bem, todos esses viram as barbas a arder e procederam com a maior hostilidade contra o rei de Cochim por este nos ter abrigado. Esta inimizade perdurou até recentemente e não podemos esquecer que Krishna Menon, ministro de Nehru em 1961 e grande entusiasta da extinção do Estado Português da Índia, era natural de Calecute.

 

Recordemos que Cochim acabou por ser integrada no Estado Português da Índia entre 1503 e 1663 e que foi lá que Vasco da Gama morreu aos 55 anos de idade no dia 25 de Dezembro de 1524 ficando enterrado na igreja de S. Francisco donde acabou por ser trasladado para a Vidigueira em 1539. Contudo, as populações acorrem à campa, onde sabem que o seu corpo já não está, com a maior solenidade e tocam na laje como num talismã. E a intensidade das emoções é ainda hoje tão visível que eu não tive coragem de perturbar ninguém perguntando o que os leva a tanta veneração pelo nosso primeiro Vice-rei da Índia.

 

A malha urbana de Cochim conta actualmente com cerca de milhão e meio de habitantes sendo que mais de metade professa o catolicismo.

 

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Irmã Carmo de Jesus e alunos-Cochim.jpg

 

É no Instituto Vasco da Gama, sedeado na Diocese de Cochim, às portas do Museu Indo-Português, que a Irmã Carmo de Jesus (ao centro na foto) ministra aulas de português desde 2008. Eis mais uma heroína da lusofonia que emocionadamente saúdo. Pena que lá não estivesse quando por lá passei. Mas deixei um recado ao porteiro para que lhe dissesse que um turista tinha perguntado por ela. Fui eu, Irmã!

 

(continua)

 

Lisboa, 5 de Dezembro de 2015

 

Henrique junto à que foi a sepultura de Vasco da

Henrique Salles da Fonseca

(junto à que foi a sepultura de Vasco da Gama em Cochim)

ÍNDIA - LIDERANÇA FEMININA NAS TECNOLOGIAS DE INFORMAÇÃO

 

Tecnologias de informação.png

 

Mesmo para quem conhece a Índia, causa surpresa que seis dos maiores grupos de Tecnologias de Informação com vastas operações na Índia tenham no topo uma Mulher.

 

Citando nomes, a Accenture nomeou há semanas Rekha Menon para chairperson da Índia que tem lá mais de 110 000 trabalhadores do total mundial de 330 000; Vanita Narayanan é directora geral da IBM Índia com mais de 130 000 na Índia de um total de 380 000; Neelam Dhawan é DG da HP Índia, 30 000 na Índia do total de 302 000; Aruna Jayanthi é a CEO da Capgemini actualmente com quase 100 000 na Índia após a aquisição da iGate cujo total mundial poderá ser de 150 000; Kumud Srinivasan é presidente da Intel India mais de 6000 na Índia; Kirthiga Reddy é DG do Facebook Índia mais de 10 000 na Índia de um total de 55 000.

 

Não é que o mérito não contasse pois sempre houve mulheres em grande destaque na Índia. Mas há um dado cultura: a mulher é insubstituível no âmbito familiar e na educação dos filhos e talvez por isso as famílias eram unidas e os filhos com óptima

formação e bons hábitos de trabalho.

 

Assim, a sociedade protegia-a para que fizesse aquilo em que é perita e sábia. Mesmo assim, havia muitas mulheres no topo das empresas indianas.

 

Há uns meses, o Financial Times referia que 40 dos activos financeiros de instituições que dão empréstimos no país estavam sob a alçada de mulheres e não há outro sistema financeiro em parte alguma com uma presença feminina tão destacada.

 

A presidente da NSE – National Stock Exchange da Índia é Chitra Ramkrishna. Um dos melhores bancos privados da Índia, o ICICI, equivalente ao BCP nos tempos áureos, tem Chanda Kochhar como CEO. Também a CEO do UBI, a chairperson do SBI, a CEO do Allabadh Bank, a CEO do AXIS Bank, a CEO do HSBC Ásia, etc. são um escol de dirigentes mulheres da primeira linha.

 

No governo das autarquias, distritos e Estados ou no Governo Central deseja-se que haja no mínimo um terço de presença feminina.

 

Todos coincidem em que elas são prácticas e não descansam com os problemas por resolver, não se perdem em inutilidades como os políticos homens, vão à essência.

 

Nas TI e finanças nem se pode pensar que subiram por favor. Só por mérito e mais em oposição às ideias sociais dominantes.

 

Na Índia, hoje, quer-se presença feminina nos conselhos de administração e nos níveis hierárquicos superiores das empresas. Há metas para se ir alcançando.

 

O actual Governo Central tem sete ministras fazendo um bom trabalho de casa. Aliás, o PM Modi é implacável, não tem tempo a perder com atrasos ou incompetências que sabe bem prejudicam o país e muito em especial os mais vulneráveis. E a Índia tem muito por onde escolher pessoas de alta competência.

 

As ministras têm pastas importantes: Negócios Estrangeiros, Recursos Humanos (equivalente à nossa Educação e Ciência), Assuntos das Minorias, Assuntos da Mulher e da Criança, Indústria de Processamento de Alimentos, Recursos Aquáticos,

Desenvolvimento dos Rios e Recuperação da Bacia do Ganga, Comércio, Indústria e Finanças Corporativas.

 

São de constatar os esforços e as boas classificações das raparigas à entrada na Universidade com predominância clara nas faculdades mais selectivas. Estão a notabilizar-se em todos os domínios: na ciência, na política, na Medicina, em Finanças, nos negócios em TI, etc.

 

A par das multinacionais de TI no nos EUA as grandes empresas estão numa afanosa procura de cérebros indianos para as dirigir. Depois de Satya Nadella CEO da Microsoft, Indra Nooyi da Pepsico e muitas outras, foi a vez de a Google nomear seu CEO um jovem de 42 anos de Chennai, Sunda Pichai.

 

Nos próximos tempos mais surpresas são de esperar.

 

Eugénio Viassa Monteiro

Eugénio Viassa Monteiro

Professor da AESE

MUITAS E DESVAIRADAS GENTES – 6

 

 

 

Entrámos no Kerala por Kumily, no alto duma estrada de montanha que nos levou da planície tamil a um planalto que só lá mais para a frente se desfaz na planície keraliana, já na Costa do Malabar.

 

Uma mulher que fuja com o amante não abandona o marido, livra-o de uma mulher infiel.

 

Diz-se que o dinheiro não faz a felicidade: evidentemente alude-se ao dinheiro dos outros.

 

Sacha Guitry.png

 

Sim, foi preciso chegar a Cochim para me lembrar de Sacha Guitry. Como assim? Pois pelo simples facto de este actor francês ter sido uma das raras expressões de humor durante o regime pró germânico de Vichy.

 

E isto porque os indianos não emigrados, à semelhança dos alemães, não têm sentido de humor: os alemães, certamente inspirados pelos seus sorumbáticos deuses do Walhala numa missão moralizadora de povos menos carrancudos, os hilários; os indianos, no seu esgravatar constante pela sobrevivência física, apesar da inspiração de Ganesh, o deus da felicidade, bonomia, humor.

 

Ganesh.png

 

É que em Cochim assisti a uma representação teatral muito bem-humorada levando-me a reconhecer que o erotismo védico não é humorístico e que «primum vivere, deinde philosophare». Esta prioridade não deixa, pois, tempo para chalaças. Como na Vichy de Pétain e de Laval. Malgré tout, Guitry fazia humor. E por isso me lembrei dele.

 

Teatro em Cochim-NOV15.jpg

 

Palco totalmente despido de cenários, só as paredes, um narrador munido de um tamborim, uma personagem principal (à direita, na foto) e uma outra personagem que só entra na última cena de um espectáculo de mímica e som perfeitamente inesquecível pela subtileza alcançada.

 

Na primeira parte do espectáculo, a mímica de todas as expressões humanas desde a alegria à tristeza e ao rancor passando pelo espanto, pela sedução, pelo medo, pela coragem... Sem uma palavra, apenas o tamborim do narrador que só falou no início e se calou durante o resto do espectáculo. Na segunda parte, a sedução da personagem principal, pretensamente feminina, à secundária, obviamente masculina. Troca de razões, rejeição da abordagem, ira desbragada e revelação de que, afinal, a sedutora era um demónio assoberbando o inocente deus.

 

A eterna luta entre o bem e o seu contrário, entre deuses e demónios.

 

E por que é que o mal há-de ser sempre personificado no feminino? Cada vez mais me convenço de que os autores (não os fundadores mas talvez os discípulos escritores) de muitas das religiões que por aí pululam não gostavam de mulheres.

 

Até porque, como Guitry, sou a favor do costume de se beijar as mãos de uma mulher quando somos apresentados pois, afinal, é preciso começar por algum lado.

 

 

Lisboa, 4 de Dezembro de 2015

 

 

Henrique, navegando na baía de Cochim-NOV15.jpg

Henrique Salles da Fonseca

(navegando na baía de Cochim, NOV15)

MUITAS E DESVAIRADAS GENTES – 1

 

 

 

Sim, o título é de inspiração medieval no sentido de que então se considerava desvairado todo aquele que agia segundo padrões diferentes dos do observador. E nesta viagem, para além de muita, vi gentes desvairadas.

 

Saídos de Lisboa rumo ao Dubai (nesta que era então a minha terceira passagem pelos Emiratos Árabes Unidos), logo vimos homens de bibes brancos compridos até aos pés e mulheres completamente tapadas de vestes negras que nem os olhos mostravam. Não me preocupam os bibes brancos dos homens. Se gostam de se apresentar em tais preparos, o problema é deles mas os resultados são penosos à nossa vista desprevenida quando saem dos locais em que se aliviaram e, não sabendo utilizar os apetrechos ocidentalizados que as casas de banho disponibilizam, encharcam as ditas vestes e exibem particularidades que qualquer um de nós, homens, dispensaria testemunhar. Quanto às vestes femininas – suponhamos que estão mulheres sob tanta negritude – essas, sim, preocupam-me. E, para além de me preocuparem relativamente à comodidade de quem assim é coberta, revoltam-me a ponto de afirmar que só farei as pazes com o Islão quando os seus crentes reconhecerem à mulher um estatuto de dignidade semelhante à do homem. Não perco tempo com argumentos teológicos (que sei serem infundados com base mesmo na interpretação literal do Corão), apenas peço que esses boçais deixem as mulheres respirar livremente. Só isso e nada mais, por enquanto, antes de esperar pelos resultados da exegese da Escritura Sagrada islâmica actualmente em curso apenas na diáspora sob pena de perigo de vida a quem a realize localmente.

 

Quanto às gentes ocidentalizadas, por naturais à nossa vista, não dá para tecer reparos. E já são a maioria. Mas isso é pelo lado de fora; não falei com ninguém o suficiente para descortinar o que lhes vai por dentro. Mas adivinho: os homens, indiferentes; as mulheres, em campanha «pro dignitate».

 

E dali rumámos a Chennai, na Costa do Coromandel, ou seja, a costa oriental da Índia. Voo sem história durante cerca de quatro horas, o que parece salto de pulga perante as oito horas bem esmifradas amiúde a mais de mil quilómetros à hora de Lisboa ao Dubai.

 

 

 

Bem preveniam os Serviços Meteorológicos de que por aquelas bandas chovia. Mas nós achávamos que era engano pois a época das monções já acabara. Pois! Naquela zona há a chamada «pequena monção» durante os meses de Outubro e Novembro em resultado de os ventos da monção normal esbarrarem já secos nos Himalaias, fazerem ricochete voltando para Sul e humedecendo-se progressivamente enquanto percorrem o Golfo de Bengala até ao Sri Lanka encharcando então quase todo o Tamil Nadu. E nós estávamos lá para levar com todo aquele chuveiro a bem mais de 30º centígrados.

Monção do Nordeste.jpg

Monção em Chennai.jpg

 

A nossa viagem começou em Chennai, atravessámos durante uma semana todo o Tamil Nadu, entrámos no Kerala e fomos até Cochim. Daí, voámos para Colombo, no Sri Lanka, viajámos até Kandy, o grupo voou de Colombo ao Dubai e daí a Lisboa mas nós prolongámos a viagem até Goa, a Dourada.

Viagem.jpg

 

(continua)

 

Lisboa, 30 de Novembro de 2015

 

Henrique-Arco dos Vice-Reis, Velha Goa-NOV15 (2).j 

Henrique Salles da Fonseca

(Velha Goa, Arco dos Vice-Reis, Novembro de 2015)

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