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A bem da Nação

HISTÓRIAS DA ÁFRICA

 

POR ONDE OS PORTUGUESES ANDARAM

 

3

 

O COMEÇO DO FIM

 

 

Pela Convenção de Berlim, Portugal, para continuar a manter as suas ligações com África, foi obrigado, como já vimos, a ocupar militar e administrativamente as regiões onde há séculos comerciava, e com quem tinha, em muitos casos, boas relações de entendimento e respeito.

 

A própria Metrópole atravessava um período de total descontrole, com dois partidos políticos que fingiam que eram adversários: os seus componentes passavam-se de um lado para o outro como quem troca de camisa. Como é evidente, dinheiro não havia! Portugal não conseguia sair da grave crise financeira que o acompanhava desde as invasões francesas, que se agravara até mais não durante as Lutas Liberais e que conhecera novo surto com o Ultimatum Inglês e a bancarrota do Reino.

 

Mas houve que mandar tropas para África, o que se verificou ser um outro desastre: em muitos casos combater aliados, ou ser por eles derrotado, e constatar que as finanças do país não suportavam essas despesas. Para mais, o controle da situação não era tão evidente quanto pensava o governo em Lisboa!

 

O caso da moeda no período colonial era outra bagunça. Nos territórios ultramarinos corriam moedas de todos os países, e cada um dava-lhes o câmbio que bem entendia. Faziam-se leis estabelecendo os câmbios que não entravam em execução. Enfim, uma cegueira política e económica sobre a administração colonial.

 

Cabo Verde, o Porto Grande do Mindelo, começava a deixar de ser o principal porto no Atlântico para reabastecimento de carvão aos “novos” navios a vapor – o que lhe dava desafogo financeiro - perdendo para a concorrência dos portos de Dakar e das Canárias, mais modernos e melhor apetrechados.

 

Para se procurar arranjar dinheiro, forjavam-se leis com alguns impostos que alteravam constantemente as pautas aduaneiras, faziam-se reduções às mercadorias transportadas em navios de bandeira portuguesa, mas Portugal estava com a marinha mercante reduzida a quase nada.

 

Além de tudo, Portugal temia que, facilitando os direitos (por exemplo em Angola), os comerciantes poderiam aproveitar e reexportar esses bens para os territórios vizinhos, o que teria sido até um boa jogada comercial. Os interesses dos monopólios em Portugal iam falando mais alto…

 

O tráfico de escravos acabara. Os grandes empresários de Angola, os negociantes, os únicos que tinham tido crédito, cujas notas promissórias circulavam como dinheiro, estavam todos à beira da falência. Angola estava completamente descapitalizada.

 

Sonhava-se em levar colonos de Cabo Verde e das ilhas, sobretudo dos Açores, para colonizar Angola, mas chocava-se sempre no mesmo ponto: transporte e financiamento, apesar de algumas tentativas terem resultado, como por exemplo na Chibia, Huila, Angola, onde até hoje continuam a viver descendentes de açorianos.

 

O problema da moeda, se escasseava em Portugal, em Angola era uma parafernália.

 

Tudo servia de moeda e a escassez chegava a situações que obrigou a muita vez se adoptar a “moeda” africana, como os panos do Luango ou Nzimbo para pagar à tropa, e persistiam em outros tantos negócios a troca directa de bens, sobretudo alimentares.

 

Em 1864 foi criado o BNU, Banco Nacional Ultramarino, para ser o emissor nas colónias, rapidamente entregue a “compadres maçons” sem que tivesse havido concurso público, e que explorou, com juros exorbitantes, agricultores e comerciantes, confiscando propriedades que em vez de se terem desenvolvido, se endividaram ao banco.

 

(Com a lei de 25 de Fevereiro de 1869, proclamou-se a abolição da escravatura em todo o Império Português. Mas... em 1875 o BNU contrata, directamente da Libéria, 600 homens e mulheres para as suas propriedades de S. Tomé e até ao final de 1876 tinha já “importado” da Libéria, cerca de 3000 trabalhadores. A importação de mão de obra da Libéria foi a solução que o F. Chamiço encontrou como ideal para evitar a caça aos navios de escravos que era feita pelos navios de guerra ingleses sobretudo nas costas de Angola. Aliás, em 1877 o navio à vela “Ovarense” ao serviço do BNU, foi arrestado pelos ingleses e confiscada toda a sua carga, sob pretexto de que fazia comércio de escravos. Em 1877 o jornal “O Progresso” de Lisboa refere que em Luanda se encontram 240 escravos comprados pelo BNU com destino a S. Tomé, estando mais 1000 escravos em Novo Redondo, prontos para partir para a “Água Izé”, propriedade do BNU em São Tomé) É bom notar que estas roças, todas em S. Tomé, já propriedade do BNU, foram confiscadas a antigos agricultores que tiveram a infelicidade de pedir dinheiro ao banco!

 

Residência do Administrador da
Roça Água Izê
com seus funcionários em dia de pagamento

 

A situação nas colónias mantém-se, economicamente, um desastre, pouco mais se tendo feito, e com capitais ingleses, do que as três linhas de caminhos-de-ferro – Benguela, Malange e Lobito em Angola e Beira e Lourenço Marques em Moçambique – e criando-se companhias “magestáticas” para substituir os “prazos” de Moçambique, tudo em proveito dos investidores, portugueses e estrangeiros.

 

Por muito grande que tenha sido o projecto vigarista de Alves dos Reis, 1925, com o famoso Banco Angola & Metrópole (que ficou conhecido como “Engrola a Metrópole”), talvez tenha sido uma pena que não tivesse seguido em frente. Angola teria resolvido com esta jogada o seu problema financeiro que certamente a faria crescer com rapidez.

 

A partir dos anos 20 do século XX são as grandes companhias, que vão para Angola e Moçambique, nos mesmos moldes, como a dos diamantes, açucareiras, algodoeiras cujos beneficiados eram os capitalistas e suas fábricas em Portugal. São Tomé, um grande produtor de cacau e café, mandava para os magnates portugueses, incluindo o próprio BNU, todo o lucro das suas explorações.

 

É com a 2ª Guerra Mundial que o dinheiro fácil chega a Portugal, assente nas exportações de volfrâmio e de conservas de peixe para todas as partes beligerantes. E são esses excedentes em divisas que, tempos mais tarde, tornam possível o 1º Plano de Fomento e, com ele, Angola comece a crescer.

 

Só que Portugal tinha perdido quase totalmente a confiança dos povos nativos. E nem parece ter escutado (ou, se escutou, não entendeu) as palavras de De Gaulle aos soldados das suas colónias em África, quando lhes prometeu dar-lhes a independência pela sua contribuição na guerra, ao lado da França.

 

No fim da 2ª Guerra Mundial, como para a população portuguesa o solo natal lhe era adverso e pobre, Angola começa receber gente e a crescer, desta vez em inúmeros sectores, desde o agrícola, comércio, indústria e financeiro, com praticamente todos os bancos da Metrópole a se instalarem, tanto em Angola como em Moçambique.

 

As vozes dos intelectuais africanos, que pouco mais queriam do que ser ouvidos e sobretudo tratados em condições iguais aos europeus que chegavam e ocupavam todos os postos superiores da administração, não são ouvidas. O Governo de Salazar faz ouvidos moucos e criam-se os movimentos que Portugal chamava de “terroristas”, e o, talvez evitável se discutido desde os primeiros momentos, apareceu: a luta pela independência.

 

Angola dá um pulo incrível de desenvolvimento entre 1961 e 1974, mas o mal estava instalado e crescia. A Guerra Colonial podia até estar ganha em Angola. Nunca na Guiné nem em Moçambique, mas o entendimento, a confiança, haviam desaparecido.

 

O alardeado Império Colonial Português, não tivera nem meio século de vida.

 

Os 500 anos de colonialismo também não chegaram a cem (na verdade, vão da 2ª década do séc. XX até 1975)!

 

E assim Portugal se encontrou despido, ainda mal visto por muitos, quase obrigado a aceitar esmolas de Timor para os sinistrados de incêndios (que ao fim de muitos meses, por razões burocráticas!!!, ainda não entregou aos destinatários).

 

Mas continua a ter 50 ministros e secretários de estado, mais de 200 deputados, todos muito contentes com eles-próprios. Para quê?

 

N.- Devo ao Dr. Palhinha Machado o favor de ter feito uma revisão do texto.Mas se algo não estiver correto só tem um que errou: eu!

 

Rio de Janeiro, 22/05/2014

 

 Francisco Gomes de Amorim

HISTÓRIAS DA ÁFRICA

 

POR ONDE OS PORTUGUESES ANDARAM

 

2

 

Nos exemplos de Tratados a seguir apresentados há uma ideia bastante fiel e realista do modus vivendi ou modus operandi dos portugueses em África.

 

Negociava-se principalmente em escravos, comércio que os africanos praticavam desde sempre, o que não constituiu nenhuma invenção dos europeus. Escravos, marfim, cera e pouco ou nada mais.

 

Um dos aspetos importante a notar é a definição dos “impostos” que sempre os portugueses tinham que pagar às autoridades nativas para se instalarem ou negociarem em terras de reinos africanos, o que é reconhecido e destacadamente afirmado nos Tratados assinados entre os reis e príncipes africanos e as autoridades portuguesas em nome do Governo de Angola e sobretudo do rei de Portugal.

 

Os Tratados, de que se reproduz uma parte, foram assinados pelo então Major Henrique Augusto Dias de Carvalho, e estão descritos em livros por ele publicados.

 

Tratado de Comercio

Celebrado entre Portugal e Mona Samba (Capenda)
23 de Janeiro de 1885

Carvalho, Henrique A D de – “A Lunda” pp. 39-43

 

Havendo a Expedição portugueza que em missão especial do Governo de Sua Magestade se dirige ao Muatiânvua, com o consentimento de Mona Mahango (Mona Samba), seus filhos e mais pessoas de familia, feito construir proximo á sua ambanza, uma casa de paredes barradas, ... consentimento que importou em 50 peças de fazenda, fica sendo esta casa propriedade do Estado Portuguez, conhecida pelo nome de Estação Civilizadora Portugueza Costa e Silva, podendo n’ela estabelecer-se a todo o tempo, sem outros encargos, a missão que o governo de Sua Magestade Fidelissima haja por bem para esse fim nomear.

 

Para todos os effeitos o chefe d’esta missão será considerado por Mona Samba, por Mona Buizo (Mona Cafunfo), por seus filhos, mais pessoas de familia e povos, delegado do governo geral de Angola, n’esta região, e será elle que de acordo com os dois potentados Mona Samba ou Mona Buizo, resolverá todas as pendencias que possam suscitar-se entre Portuguezes e os povos sob seus dominios, e quem fará cumprir áquelles o que fica estipulado n’este tratado.

 

O delegado do governo geral de Angola, quando julgue necessario para mais desenvolvimento da missão ou para o estabelecimento de novas, n’esta ou em outra localidade nos dominios de Mona Mahango (Samba) ou de Mona Cafunfo (Buizo) fará construir casas, templos religiosos, armazens, officinas e quaesquer outras dependencias sem que para isso tenha a pagar mais do que o valor de uma jarda de fazenda por cada dez metros quadrados de terreno occupado pelas referidas edificações, sendo as medições feitas pelo chefe da povoação mais proxima com a assistencia do delegado do governo geral de Angola, e um impunga (representante) de Mona Mahango ou de Mona Cafunfo.

 

Os subditos de Mona Mahango e de Mona Cafunfo, quando estiverem em terras portuguezes, serão considerados subditos de Sua Magestade Fidelissima, e gozam dos mesmos direitos e regalias que os seus desfructam.

 

O delegado do governo geral de Angola, terá á sua disposição a força necessaria para manter a sua auctoridade, garantir a segurança de pessoas e de bens da colonia e estações portuguezas, prestar a Mona Mahango, Mona Cafunfo, chefes de povoações e aos seus povos, todo o auxilio indispensavel no cumprimento das clausulas que neste se consignam, e ainda contra os malfeitores, quando esses socorros sejam pedidos por qualquer daquelles dois potentados e quando taes socorros não arrastem consigo compromissos á colonia e estações portuguezes.

 

O subdito portuguez que só queira transitar pelas terras de Mona Mahango ou Mona Cafunfo, fazendo-se acompanhar de cargas de commercio, terá de pagar quatro peças de fazenda a quem pertençam essas terras: mas se o seu fim, fór negociar pelo transito, então obterá uma licença especial para commercio, pela qual paga duas peças e em qualquer dos casos, nas povoações em que tenha de acampar pagará uma peça ao chefe d’essa povoação.

 

Se o subdito portuguez pretender estabelecer-se temporariamente (até 2 meses) em qualquer localidade, em logar duma terra terá a pagar ao chefe da localidade, duas peças, por seis mezes ou por anno, e para esse fim obter uma licença de Mona Samba ou Mona Buizo, a qual no primeiro caso, importará em quatro peças de fazenda e no segundo caso, em seis peças, além das duas que já tem de pagar ao chefe da povoação.

 

Quando o residente construir casa barrada para si e sua feitória, qualquer que seja a grandeza, não o poderá fazer sem licença de Mona Mahango ou de Mona Cafunfo, e esta importará em doze peças de fazenda, para qualquer destes potentados e tres para o chefe da povoação mais próxima.

 

As terras para lavrar serão concedidas gratuitamente, mas as ocupadas por quaesquer edificações nellas comprehendidas, ficam sujeitas ao que já fica classificado.

 

As licenças são obtidas como fica dito, por intervenção do delegado do governo geral de Angola, e os que no prazo de quinze dias as não tenham pago, procedente aviso do mesmo delegado, serão multados no triplo do valor das licenças, ficando 1/3 na delegacia para as despezas que ha a fazer e 2/3 entregues a Mona Mahango ou a Mona Cafunfo, a quem pertençam.

 

Estação civilizadora Costa e Silva, 18 fevereiro de 1885.

 

Extrahido do livro do expediente da Expedição portugueza ao Muatiânvua n.º 2, que foi presente á votação de Mona Samba, Senhor de Mahango e todos os do seu conselho na sua ambanza em 23 de fevereiro de 1885 á qual assistiram os Portuguezes residentes no auto que se fez levantar.

 

Auto de eleição do embaixador a enviar a Luanda a solicitar a protecção de Portugal na Lunda

CARVALHO, Henrique A. D de – “A Lunda”, pp 197-202

 

Aos doze dias do mez de Junho do anno do nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil oitocentos e oitenta e seis no Acampamento do Muatiânvua eleito, Ianvo vulgo Xa Madiamba, situado dois kilometros a leste da povoação do Chibango na margem esquerda do rio Chiumbue, no logar das audiências gerais estando reunidos os Muatas de lucano: Bungulo Anzovo, Chibango Cacuruba senhor da terra, Muzooli Mucanza sobrinho e herdeiro do assassinado Mucanza governador de Mataba, Tambu de Cabongo chefe dos Turubas entre os rios Chiumbue, Cassai e Luembe; e também os representantes de Muene Dinhinga, de Xa Cambuji, dos Muatas Cumbana, Caungula, de Muitia, de Muene Panda e outros e muito povo; o Muatiânvua eleito, sentado na cadeira de espaldar dourada debaixo do docel e devidamente fardado annunciou que chamara os quilolos áquella reunião para se despachar a embaixada que ia seguir para Loanda segundo as deliberações tomadas na ultima audiência por elles quilolos, mas era preciso antes que todos ouvissem o que se escreveu na mucanda (auto) e firmassem com o seu signal para se provar a Muene Puto que eram desejos de todos o que se pedia na mucanda.

 

Mostraram todos a sua adhesão ao que dissera Muatiânvua batendo palmadas e proferindo as palavras do uso.

 

O Chefe da Expedição disse: que tendo sido procurado pelo Muatiânvua e os principais quilolos para fazer constar a SUA MAGESTADE FEDELISSIMA o desejo que todos teem que o Governo do mesmo Augusto Senhor faça encorporar nos domínios da sua coroa as terras do Estado do Muatiânvua; escreveu no sentido em que lhe fora feito o pedido e ordenou que eu interprete António Bezerra de Lisboa lhe fizesse comprehender na sua língua o que estava escrito.

 

Depois de algumas explicações e demoradas considerações do Muitia e do Muata Bungulo, deliberou-se que fosse representado o Muatiânvua por seu sobrinho Muteba porém por causa de força maior o Cacuata Capenda é substituído pelo Cacuata Noeji e como particular de Muteba irá o Caxalapoli de confiança do Muatiânvua Tanda Ianvo e determina-se a Caungula que dê um representante seu e peça a Muata Cumbana para apresentar um delle os quaes se encorporarão aos que daqui partem.

 

O Muatiânvua e todos os grandes do Estado da Lunda representados pelos que firmam este auto reconhecem a Soberania de Portugal e pedem ao seu Governo que torne effectiva a ocupação da Lunda como terras portuguezas conservando entre os indiginas o que tem sido de seu uso e não importe embaraços á administração portugueza, e mantenha a integridade dos territórios como propriedade do antigo ESTADO DO MUATIÂNVUA.

 

É abolida a pena da morte logo que a autoridade portugueza junto do Muatiânvua resgate a vida dos sentenciados e faça seguir estes debaixo de prisão para as terras de Angola.

 

Fica proibida para fora das terras a venda ou troca de gente por artigos de commercio e nas terras não se pode tal transação fazer sem ser ouvida a auctoridade portugueza que tem preferência porque lhes dá a carta de alforria, e como seus tutellados os educa no trabalho.

 

Em quanto as autoridades portuguezas não possam dispor de recursos indispensáveis para serem devidamente educados os menores com direito á SUCESSÂO ao poder no Estado do Muatiânvua e nos estados em que elle se subdivide, as mesmas auctoridades proporcionam os meios de os fazer educar nas terras portuguezas em que não faltam recursos para esse fim.

 

O Muatiânvua depois de tomar posse da governação do Estado, comprometteu-se a validar todos os Tratados e nomeações feitas pelo Chefe da Expedição portugueza o Sr. Henrique Dias de Carvalho em terras da Lunda sem distinção de tribus; e desde já os quilolos que formam o seu séquito se obrigam a sujeitar-se á arbitragem do mesmo Chefe nas pendências a resolver com MONA QUISSENGUE chefe principal dos quiocos entre os rios de Chicapa e Luembe de modo que nesta região fique bem firmada a paz entre as tribus sob o domínio do Muatiânvua e as sob o domínio d’aquelle.

 

Pedem o Muatiânvua e os representantes da corte ao Governo de SUA MAGESTADE FIDELISSIMA, auctoridades portuguezas, força de soldados brancos para distribuir pelos paizes do Estado (LUNDA), mestres de officios, padres, médicos, lavradores, industriaes e negociantes.

 

E como todos os potentados e mais indivíduos presentes nada mais tinham a acrescentar ao que fica exposto, passou-se ás cerimónias da nomeação do embaixador que consistiram no seguinte:

 

Chamado MUTEBA veiu agachado collocar-se á frente do estrado sobre que estava collocada a cadeira e ahi ficou agachado. O Muatiânvua estendendo o braço direito sobre a cabeça delle disse umas palavras do rito que se resumem: em annunciar que o vae representar na longa jornada e tomará o seu nome e honras e nessa qualidade falará com o representante do grande Muene Puto em Loanda e por ter confiança nelle o escolhera e tudo que lhe disser é dito pelo próprio MUATIÂNVUA e tome muita conta no que ouvir para de tudo dar conhecimento ao Estado, lembrando-se que vai preparar um melhor futuro para este.

 

Depois recebendo de um prato que lhe apresentou muene Casse, mestre de cerimonias, um envolucro com pó vermelho dum lado, e branco do outro; ora tomando pitadas dum ora do outro fez-lhe cruzes na testa, hombros, peito, costa e braços pela parte interior, falando sempre: - que esperava não encontrasse, difficuldades no caminho, marchasse muito bem, que os maus espíritos andassem sempre longe delle etc.

 

Em seguida cuspiu-lhe na palma da mão esquerda, o que o agraciado sorveu dum trago e depois passando os dedos da mão direita pela palma da mão direita do Muatiânvua dava um estalido com os dedos e repedindo isto três vezes terminou por bater três palmadas com as suas mãos, o que repetiram todos os circumstantes gritando ChiNoeji, Muatiânvua, na lá ni eza, echu aosso imanei, Zambi umutalei. ( Pelo grande dos grandes, estas feito Muatiânvua, vae e volta, nós todos te esperamos. Deus te vigie).

 

E como nada mais houvesse a tratar com respeito ao assumpto, determinou o Chefe da Expedição que se encerrasse este auto que vae ser assignado pelos principais, fazendo uma cruz ao lado dos seus nomes, os que não sabem escrever e a todos eu secretario que escrevi reconheço pelas cathegorias que representam. – Acampamento do Muatiânvua na margem esquerda do Chiumbue, 12 de Junho de 1886.

 

(ass.) Henrique Augusto Dias de Carvalho, major do Exercito, Chefe de Expedição Portugueza ao Muatiânvua.

 

Há mais Tratados semelhantes, todos eles mostrando inequivocamente o reconhecimento de Portugal sobre a propriedade das terras.

 

Bastaria ver as taxas ou impostos que os portugueses tinham que pagar, para se reconhecer de quem era a soberania.

 

Infelizmente não durou muito esta situação. Os povos que se quiseram proteger do avanço de outros europeus, colocando-se sob a soberania de Porrtugal, nada ganharam com isso. Portugal não tinha força para lutar contra toda a Europa, e até internamente atravessava uma crise de total desgoverno. Americanos e alemães, não sendo potências colonizadoras, reconheceram de imediato, contra Portugal, os “direitos” da “Association Internacionale du Congo”, forma sofismada de chamar ao Congo propriedade particular do rei dos belgas.

 

E a famigerada Conferência de Berlim impôs aos novos colonizadores obrigações que colidiam com a nossa maneira de estar, sobretudo pela clásula que obrigava à ocupação militar e administrativa dos territórios, contrariando frontalmente todo o entendimento existente até então.

 

Pouco depois, os nossos mais antigos e “amigos aliados”, roubam-nos, com ameaça de exército e até de invasão do torrãozinho lusitano, a área central de África conhecida como o “Mapa Côr de Rosa”.

 

De pagadores de impostos aos chefes africanos fomos obrigados a inverter a situação e impor às populações a cobrança de novos impostos, que jamais foi por eles aceite.

 

Rompeu-se assim um entendimento que tinha todos os méritos.

 

Um dia Portugal fez pior do que Pilatos: lavou as mãos em águas sujas de sangue, entregou as colônias, sem respeitar nada nem ninguém, aos comunistas, rasgou os Tratados que tinha assinado solenemente com os povos, enfim abandonou a sua história.

Virou-lhes as costas.

 

Hoje, Portugal continua de costas viradas para si mesmo, sem coragem de pedir desculpa pela covardia, pelos desastre que provocou.

Angola tem diamante e petroleo.

 

Portugal, de cara desavergonhada, estende-lhe a mão à espera de esmola.

 

Discutir os direitos dos povos...

 

Os Lunda Tchokwe, Cabindas, e vários outros foram ignorados. Esquecidos.

 

09/05/2014

 

 Francisco Gomes de Amorim

HISTÓRIAS DA ÁFRICA

 

Por onde os portugueses andaram

 

1

 

Como muito se fala nisso, e os cientistas aprovam, há um consenso sobre a origem dos Homo Sapiens: África. O avestruz também é originário de África que, diz a lenda, porque parece não ser verdade, o avestruz quando sente perigo enfia a cabeça num buraco. O que ele faz é baixar o pescoço até ao chão para passar mais desapercebido.

 

Com os chamados homo sapiens cobardus, aqueles que renegam ou insultam a história, passa-se algo semelhante: com medo de verdades enfiam a cabeça num buraco. Pena que o buraco não se feche de vez mantendo-os ad aeternum enterrados na escuridão e covardia.

 

Portugal tem feito sumir uma quantidade de feriados e dado ênfase político a outros, sobretudo o 5 de Outubro e o 25 de Abril, ambos impostos pela força. O primeiro levou dezoito anos a destruir o pouco que já vinha malbaratado da monarquia, e outro ao fim de 40 anos continua a fazer grande festa, sobretudo dos vermelhuscos e a enaltecer o empobrecimento constante, o desbarato, o conluio e a corrupção.

 

O 10 de Junho, chamado da Comunidade Lusíada... vai minguando com o desentendimento gerado pelo des-acordo ortográfico, e não só. O povo português ainda não entendeu qualquer processo político e por isso vota mal, quando vota, e depois fica pacificamente a falar mal dos que eles mesmos lá puseram, enquanto toma uma bica no café da esquina com os compadres.

 

Houve época em que “se estendiam ramos à mocidade que passava”, orgulhosa de pertencer a uma nação que tinha um passado de glória, de honra e de ética, que começou a sumir a partir do século XVII, até chegar a ser uma espécie de massa amorfa.

 

E como Portugal tem do que se orgulhar...! Não precisa dos “milagres” de Ourique nem da batalha de Aljubarrota, mas que lhe contem, sem exageros nem pieguices e, muito menos sem escamotear feitos dignos duma raça valente, algumas passagens, entre as quais as que os pseudo maoistas e marxistas quiseram denegrir no pós “cravos”, como foi o caso de insultar a memória, gloriosa, de Afonso de Albuquerque.

 

O tempo colonial ainda está presente na memória de muitos que, embrutecidos pelo complexo de vira-latas, teimam em insistir nos “erros” dos portugueses.

 

É evidente que fizeram muitos, mas levante a primeira pedra quem passou pela vida sem os cometer.

Os pobres de espírito que em África ainda insistem nos 500 anos de colonização, não têm a menor ideia do que foi o tempo que os, pouquissimos, pouquissimos, portugueses por lá andaram.

 

Não foram eles que inventaram a escravatura, nem os maiores negreiros dos últimos séculos, mas foram, de certeza, os que melhor se entenderam com as populações nativas, tanto em África, como no Brasil e no Oriente. Quem levou os primeiros africanos para a Europa e os mandou educar nos melhores colégios? Porque existiu Macau, que nunca foi uma colónia? Como foi foi possível que um homem só, António Fernandes, em 1500 e pouco, tivesse entrado sozinho pelo interior da costa leste de África, atingido o Reino do Monomotapa e ao fim de pouco tempo ter mais de 3.000 escravos que se lhe foram oferecer e trabalhar sob seu comando?

 

Há muitas histórias destas que os meninós que “reinam” nos des-governos de Portugal e/ou nas escolas e faculdades se “esquecem” de mostrar aos jovens. Mas não esquecem de dizer que Salazar foi um isto e mais aquilo, que Afonso Costa (alguém sabe quem foi?) quase foi beatificado pelos bolcheviques, que foi uma pena Humberto Delgado, o louco, não ter sido eleito, e que “Grândola, Terra Morena” é a melhor e mais profunda música do país.

 

Mas... e os que “por obras valerosas deviam ser da morte libertados”?

 

Vamos para África.

 

Alguém sabe o que um grupo de austríacos, chefiados por um vigarista, Guilherme Bolts, andou a fazer em Lourenço Marques no último quartel do século XVIII? E como de lá foram corridos?


Há muita história para contar, mas vamos-nos ater a alguns pontos que hoje são sobretudo polémicas inter-africanas, porque Portugal, já moribundo na época do Ultimato, e cobarde com os cravos VERMELHOS, não soube vestir a honra e dignidade dos seus antepassados e virou costas às populações que lhe tinham solicitado, oficialmente, protecção.

 

Apesar de nos dedicarmos agora a África é bom não esquecer a vergonha dos capitãesdeabril em relação a Timor.

 

Bem antes da famigerada Conferência de Berlim, 1884-5, ter dividido Angola entre os mais poderosos da Europa (um pouco do que se passa hoje com a União Europeia... a desmantelar-se), já Inglaterra começara a pressionar Portugal para não ocupar militarmente algumas regiões a norte de Ambriz em Angola, porque o rei Leopoldo da Bélgica já tinha deitado o olho (grande) a todo o território do Congo.

 

O pouco que deixaram para os pobres e infelizes portugueses, os que há vários séculos tinham penetrado África e com os africanos comerciavam, após muita discussão, foi que só se considerariam sob protectorado as regiões que fossem ocupadas administrativa e militarmente.

 

É evidente que os queridos ingleses sabiam perfeitamente que Portugal não tinha forças para nada, mas algo se arrancou das suas entranhas e teve que inverter a sua posição face aos reinos angolanos: de visitantes, autorizados mediante pagamento de pedágios ou portagens, a dominadores e receptores de impostos.

 

As divisões das terras africanas não levaram em conta reinos antigos, nem etnias, mas sim através de paralelos e meridianos para poderem abarcar as riquezas que aí dentro ficavam garantidas.

 

Há documentos antigos que mostram o grande descontentamento dos povos africanos perante esta infâmia, todos eles sabendo que não tinham forças para combater os novos invasores e, sobretudo não se quererem sujeitar a europeus arrogantes e racistas que ainda durante quase mais um século escreviam “cientificamente” que os africanos eram seres anatomicamente inferiores e que assim só a escravidão lhes serviria.

 

O contacto e o trato com os portugueses, conhecidos de há séculos, eram diferentes, havendo um exemplo claro disso, com a vida do sertanejo Silva Porto, que durante décadas foi o único branco, português, que viveu, sozinho no interior de Angola.

 

Para “garantir” a sua sobrevivência como reinos independentes, alguns povos reuniram todos os seus principais chefes e representantes e, voluntariamente colocam as suas terras sob o protectorado do rei de Portugal, pedindo que este lhes desse protecção contra invasores, fossem eles quem fossem, e que ao mesmo tempo lhes enviasse artífices, professores, e soldados para os defenderem.

 

O mais conhecido destes tratados é assinado em Cabinda em 1 e Fevereiro de 1885, cujos primeiros três parágrafos rezam:

 

Art. 1º - Os príncipes e mais chefes (de Cabinda) e seus sucessores declaram, voluntariamente, reconhecer a soberania de Portugal, colocando sob o protectorado desta nação todos os territórios por eles governados.

 

Art. 2º - Portugal reconhece e confirmará todos os chefes que forem reconhecidos pelos povos segundo as suas leis e usos, prometendo-lhes auxílio e protecção.

 

Art. 3º - Portugal obriga-se a fazer manter a integridade dos territórios colocados sob o seu protectorado.

 

Assinou em nome do rei de Portugal o capitão tenente da Armada Guilherme de Brito Capello, comandante da corveta Rainha de Portugal, que se fosse vivo hoje iria pedir perdão aos príncipes de Cabinda por ter colaborado numa mentira, como foi Egas Moniz ao rei de Leão por Afonso Henriques não ter cumprido com a palavra que seu aio deixara como garantia de vassalagem para que o rei de Leão levantasse o cerco a Guimarães.

 

Seguiram-se vários Tratados de Protectorado, todos no mesmo sentido de aparente responsabilidade, entre Portugal

 

- e Mona Samba (Capenda) 1885, 23 de Fevereiro

- e Caungula (Xá Muteba) 1885, 31 de Outubro

- e Tchissengue e os seus Nobres Muananganas (Quiocos), 1886, 2 de Setembro

- e o Muatianvua Ambinji Chefe dos Calambas do Moxico, 1886, 1 Dezembro, Lucusse

- e a corte Imperial do rei Muatiânvua, 1887, 18 de Janeiro

 

Mas vamos deixar a continuação para a próxima.

 

Rio de Janeiro, 05/05/2014

 

 Francisco Gomes de Amorim

HISTÓRIA GERAL DE ÁFRICA

Edição completa em 8 volumes

Brasília: UNESCO, Secad/MEC, UFSCar, 2010.

 

Resumo: Publicada em oito volumes, a colecção História Geral da África está agora também disponível em português. A edição completa da colecção já foi publicada em árabe, inglês e francês; e sua versão condensada está editada em inglês, francês e em várias outras línguas, incluindo hausa, peul e swahili. Um dos projectos editoriais mais importantes da UNESCO nos últimos trinta anos, a colecção História Geral da África é um grande marco no processo de reconhecimento do património cultural da África, pois ela permite compreender o desenvolvimento histórico dos povos africanos e sua relação com outras civilizações a partir de uma visão panorâmica, diacrónica e objectiva, obtida de dentro do continente. A colecção foi produzida por mais de 350 especialistas das mais variadas áreas do conhecimento, sob a direcção de um Comité Científico Internacional formado por 39 intelectuais, dos quais dois terços eram africanos. 

 

Download gratuito  (somente em português):

 

http://www.unesco.org/pt/brasilia/dynamic-content-single-view/news/general_history_of_africa_collection_in_portuguese/back/9669/cHash/d6c86ae49c/

 

 

TAUROTRAGUS ONIX

 

ELANDE – GUNGA – CÊFO

Longe vão os anos em que andei por África, e onde tantas vezes cacei! Bons tempos. Bonitos. Gozar aquelas paisagens espectaculares, o silêncio, a grandeza e a simplicidade das gentes!

 

Não caçávamos para matar, porque sempre aproveitávamos a carne, nem mais do que o necessário para os caçadores ou para distribuir por alguma aldeia da região.

 

A palavra eland, de origem holandesa que significa “alce”, foi usada pelos primeiros colonos boeres para designar o maior de todos os antílopes que então abundavam extraordi­nariamente não muito longe do Cabo da Boa Esperança. Hoje, o vocábulo em­prega-se tanto na África do Sul, como em Moçambique e Angola. Aqui tem ainda os nomes de Gunga, Cêfo, Onuima, Ongarongombi, e até os Mucancala lhe chamam Ni: (sendo que os dois pontos se deveriam ler como um estampido da língua! Difícil!) Em Moçambi­que, este corpulento e vigoroso repre­sentante da vasta sub família Tragelaphinae, encontra-se espalhado irregular­mente desde o Rovuma até ao Incomáti. Em Angola nas regiões Sul e Suete. (Estamos a falar dos anos 50 ou 60 do século XX).

 

O elande é um animal de índole extremamente pacífica, e custa a compreender porque não tem sido aproveitado para substituir o gado vacum nas zonas de glossinas infectadas com os tripanossomas da doença do sono.

 

A docilidade, a força prodigiosa e a facilidade com que se domes­tica, recomendam-no nesses lugares onde prestaria grande auxílio nos trabalhos da lavoura hoje feitos exclusivamente pela mão do indígena.

 

Em Panda, Moçambique há muitos anos, fizeram-se experiências de domesticação com resultados animadores. Os elandes deixavam-se conduzir docilmente, puxavam charruas e obedeciam como qualquer animal doméstico dos mais mansos. Infelizmente esses ensaios pararam sem que daí chegasse a resultar qualquer benefício. Não há dúvida que o elande, quando capturado muito novo, se torna tão manso como qualquer bovino e se reproduz perfeitamente em cativeiro. O Dr. Emite Gromier, um técnico de reputação, diz estas palavras transcritas do seu livro La Vie des Animaux Sauvages de l’Afrique:... on peut affírmer que l’eland constituerait un bétail domestique parfait, surfout dans les régions à tsé-tsé, contre lesquelles il est, bien entendu, immunisé.

 

Quase todo o norte de Moçambique e boa parte de Angola corresponde a uma vasta mancha de glossinas infectadas que ali dizimam por com­pleto o gado vacum até mesmo quando sujeitado a tratamento pelo tár­taro emético.

 

Calcule-se, portanto, o incremento que poderia ter a agricultura, se o elande provasse, como parece não haver dúvidas, ser um perfeito substituto do boi na lavoura dos campos. A agricultura poderia ser mais intensiva e talvez a mão-de-obra um problema menos difícil de resolver.

 

Ainda há bem pouco (fins de 1945) foi submetido, pelo director do «Natural Resource Board», ao Ministro da Agricultura da Rodésia, um plano para o aproveitamento do elande como animal de tiro e de talho. O plano foi rejeitado, disseram os jornais, pela única razão de haver receio de que os elandes espalhassem a doença conhecida por heart water,

 

Propunha-se levar a cabo este plano, à sua própria custa, uma importante instituição (a Rhodesia Corporation); entretanto, foi-lhe recusada a autorização necessária para a captura dos animais; isto, não o bastante ter sido reconhecido por todos que o elande está imunizado contra as tripanossomíases e numerosas doenças que atacam o gado vacum, resiste extraordinariamente às secas, é facilmente domesticável, pode ser atrelado a carros e charruas e fornece carne de excelente qualidade e sabor. Não se estranhará, neste caso, que os mistérios da burocracia técnica andem ligados à solução adoptada.

 

No elande, tanto o macho como a fêmea têm chifres. São bastante grossos na base, torcidos como um parafuso de passo largo e projectam-se para cima e um pouco para fora. Os da fêmea são mais compridos e mais delgados. De acordo com o registo dos recordes de Big Game animals, em 1935 0 tamanho maior seria de 94 centímetros.

 

A estatura geral varia também nos dois sexos. Elas têm cerca de 1,50 mts. ao garrote, ao passo que eles andam por l,70 a 1,85 mts e o seu peso, quando bem desenvolvidos, atinge aproximadamente entre 700 e 900 quilos. Quando os machos chegam a uma certa idade, começa a desenvolver-se-lhes no frontal um tufo crespo de pêlos castanho-escuros. A coloração geral do pêlo aclara com o decorrer dos anos e as listas brancas vão-se desva­necendo.

 

O elande adapta-se a todos os terrenos e encontra-se em Moçam­bique em variadas altitudes - quer nos areais, a alguns metros acima do mar, quer nas serranias escarpadas de Maniamba e de Marrupa. Podereis também encontrá-lo vagueando sossegadamente nas savanas desarborizadas, nas matas verdes de essências copadas e nos terrenos pedregosos.

 

O número de cabeças de um bando varia muito, mas era raro exceder cinquenta ou sessenta. Os agrupamentos mais comuns têm vinte a trinta. No tempo das chuvas dividem-se em pequenas famílias e vivem espalhados pelas matas, porque em toda a parte há alimentos com abun­dância. Nessa altura andam gordos, vigorosos, e o pêlo brilha ao sol como aço novo. A erva cresce robusta nas planícies e no meio-sol das matas abertas. É a altura das fêmeas terem os filhos. Andam bem gor­das, bem alimentadas, e o leite enche-lhes as tetas que os pequenotes chupam aos sacões.

 

Quando vem o tempo seco, muda o cenário por completo. A prin­cípio, nas baixas húmidas, ainda se encontram manchas verdes, e para ali convergem os elandes ao cair da noite, mas o sol acaba por secar tudo, reduzir tudo a um amarelo sujo, desolador. Então já não desde­nham os ramos tenros de alguns arbustos.

 

Por fim vêm as queimadas.

 

A planície transforma-se num mar de fogo que avança voraz, des­truindo tudo. As árvores, colhidas pelo incêndio, contorcem-se desespe­radas como seres vivos. As labaredas secam-lhes as folhas, consomem os ramos mais débeis, lambem os troncos. E o fogo passa e as árvo­res ficam para ali torcidas, miseráveis, tisnadas de negro, mas ainda assim vivas, para rebentarem viçosas ao cair dos primeiros borrifos.

 

O caniço, mal seco, apanhado pelo fogo, estoira como o estampido das bombas de S. João. A fumarada sobe nos ares, muito alto, sujando a brancura vibrante do céu com a sua cor negra.

 

A caça miúda foge espavorida. Serpentes, ratos, esquilos, toda a casta de roedores e insectos morrem apanhados pelas línguas do fogo. No ar ardentíssimo, por cima da fogueira, pequenas aves de rapina traçam rápidos e complicados voos acrobáticos, perseguindo insectos voa" dores e pássaros que fogem àquele inferno que avança sem parar.

 

O calor sufoca, falta o ar, e o vento queima como bafo de fornalha, cáustico, perturbante, quebrando todas as energias.

 

Por fim a queimada vai morrendo ao longe, e o mato, a perder de vista, ficou um campo de ruínas fumegantes.

 

Dias depois o capim, teimoso e resistente, começa a rebentar sob a acção da humidade e da cacimba. Nos ramos das árvores espreitam pequeninas gemas verdes; e então os elandes juntam-se novamente e largam, em bandos, ceifando a erva nova e as folhas tenras do arvoredo.

 

Na época do amor, os machos lutam briosamente para a conquista das fêmeas; e, com a sua grande força e chifres bem aguçados, chegam a feri-se gravemente.

 

Apesar da corpulência e do poder dos músculos, são inofensivos. Quando pressentem o homem fogem espavoridos, e se algum deles for ferido não há que recear qualquer ataque. Não obstante a sua vigorosa compleição, aguentam mal a fadiga, principalmente nas horas de maior calor, e não dispõem da resistência dos pequenos antílopes aos ferimentos causados pelas balas.

 

A última epizootia de rinderpest – peste bovina – dizimou por toda a parte milhares e milhares de elandes. Parece terem sido o elande e o búfalo os mais afectados por essa formidável hecatombe que varreu a África do norte a sul, deixando espalhados pela selva, a cada canto, cadáveres de animais selvagens.

 

As manadas refizeram-se, no entanto, dessa mortandade que não teve, apesar de tudo, o carácter exterminador das chacinas levadas a efeito na África do Sul, onde o elande desapareceu por completo, nalgumas regiões.

 

Não há talvez que culpar ninguém. Assistiu-se ali ao fenómeno sempre verificado quando o homem disputa aos animais selvagens a posse absoluta da terra.

 

Depois que o país adquiriu unidade e se organizou, as autoridades chamaram a si os trabalhos necessários para a defesa eficaz das espé­cies ameaçadas, criando reservas de caça modelares: as mais perfeitas e bem organizadas de toda a África.

 

Antes do estabelecimento dos europeus em África, os indígenas perseguiam a caça usando armas brancas e variadas armadilhas, desde o fosso aos laços corredios. Eles não caçavam, como ainda não caçam, por simples exercício desportivo. Movem-nos as necessidades da alimen­tação. Assim, a fauna pululava por toda a parte, porque facilmente se refazia do insignificante desbaste causado por processos tão primitivos.

 

Com a vinda do branco, o panorama mudou. A arma de fogo supe­rava todos os meios antes usados. Mas assim mesmo, se não fosse a profissionalização da caça, os animais não teriam sofrido tão grandes razias.

 

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Baseado em Animais Selvagens, de João Augusto da Silva -1945

 

Rio de Janeiro, 1/02/2012

 

Francisco Gomes de Amorim

UMA MISSÃO NA ÁFRICA

 

 Foto:: livreto: África Central - Ruanda (Ir. Beatriz Manna)

 

 

 

Numa das minhas costumeiras visitas à Betânia, Casa das Irmãs Dominicanas de Uberaba, encontrei Irmã Beatriz Manna que sabendo da minha curiosidade sobre a África, continente agora em voga devido aos jogos da Copa do Mundo, falou-me sobre a sua experiência em Ruanda (território 320 vezes menor que o do Brasil) quando lá esteve durante quatro anos (1990-1994) em missão de ajuda, de educação e desenvolvimento da juventude ruandesa.

 

Em um opúsculo intitulado África Central - Ruanda, Ir. Beatriz registrou suas impressões sobre a terra considerada o berço da humanidade. Conta ela que os primeiros meses foram de adaptação e reconhecimento da realidade local em Gitarama, Kigali, Byumba, Burundi, enquanto as freiras aguardavam a reforma da casa (de belgas) onde as Dominicanas iriam ficar, em Nyanawemana.

 

Em 1990, num dos campus de refugiados burundienses onde havia 1084 pessoas, a maioria crianças e mulheres, as irmãs ficaram por um tempo para dar assistência. Alojados em barracas, recebendo porções alimentares racionadas, vivendo em permanente medo de serem mortos, os refugiados viviam em condições precárias. Doença do sono, malária, Kwaskiokor, AIDS dizimavam gente. Lá a Ir. Zeny Vaz de Sousa contraiu malária e sucumbiu à doença. Quando veio a guerra e a matança entre eles (aproximadamente 800.000 mil mortos), entidades como a Croix Rouge International, Medicins du Monde, Caritas International e missionários de todo o mundo se juntaram para tentar diminuir o sofrimento dos desamparados sobreviventes. Produziam refeições, vestimentas, actividades para ocupar as pessoas, davam cuidados médicos-assistenciais.

 

A língua original de Ruanda é o Kinyarwuanda, mas fala-se francês e inglês nas comunidades estrangeiras. País de maioria católica, as missas são rezadas em francês. Republica desde 1960, apesar das lutas pelo poder entre as etnias hutus e tutsis, Kygali, a capital, cresce desordenadamente e com muitas doenças. Naqueles anos de 1990/1994, a maior parte da população andava descalça e maltrapilha. Nas comunidades mais pobres, onde não havia luz eléctrica e água encanada, o único automóvel era o do Burgo Mestre ( espécie de Prefeito). Apesar de tantas desditas, o povo gostava de cantar e dançar. As crianças, não acostumadas a ver gente de pele clara, ficavam assustadas e choravam de medo quando viam pessoas brancas e de olhos azuis. Fato que me recordou a sensação de espanto que tive na infância, quando vi pela primeira vez em 1955 um homem negro na Praça do Rossio, em Lisboa. As meias e os óculos que os missionários portavam eram vistos com curiosidade pela criançada. A Kombi era o táxi daquele tempo. As pessoas entravam e se apertavam para caber mais um. Não raras as vezes, a viagem se prolongava quando era interrompida por paradas, com saídas e entradas, e incidentes, como pneus furados. Mesmo mal acomodados, ninguém reclamava.

 

O salário correspondia a míseros 40 dólares (1990). Em Kigali, apesar de tudo, podia-se ver construções bonitas, como o Mosteiro dos Beneditinos, construído pelos belgas.

 

Em Nynawemana não havia correio. A correspondência era depositada na caixa-postal, na paróquia ou no mural da Prefeitura. A base de alimentação da população era a batata-doce, banana, sorgo, repolho, arroz, tomate, feijão, amendoim. O milho verde e as ervilhas eram mais raras e eram dadas até como presentes em casamentos. A água vinha de cisternas.

 

A população, extremamente pobre, tinha a ideia que todo estrangeiro era rico. As pessoas estavam sempre à espera de ajuda de fora, o que nem sempre acontecia, pela corrupção que existia entre o funcionalismo.

 

Culturalmente, como sinal de fertilidade, eram as mulheres que trabalhavam a terra, mesmo com os filhos às costas. Durante a guerra os adversários políticos eram condenadas à morte, sem defesa. Em geral as famílias eram grandes. As casas mais abastadas tinham fogão a gás, geladeira a querosene, água da fonte, colocada em depósitos e tonéis. Em Nynawemana havia um posto de saúde, com um médico, que não funcionava direito pela falta de água e dinheiro para adquirir remédios. Os recursos financeiros que recebiam de fora eram desviados para comprar armas. As notícias chegavam à casa das freirinhas pelo rádio de pilha e pelas cartas.

 

As escolas eram tão pobres que só tinham a lousa. Os alunos não possuíam material e vestiam roupas sujas, por falta de outras. Aprendiam tudo de cor, com uma facilidade espantosa. A história e a cultura das tribos eram passadas oralmente pelos mais velhos, em reuniões familiares envolta de fogueiras.

 

Quando colonizados pelos alemães, antes da segunda grande guerra mundial, aprenderam com eles a escrita para sua língua. As freiras e professores usavam a lousa e cartazes para ensinar. Os bancos eram improvisados com troncos de árvores. Não havia mesas. O canto fazia parte das aulas e era sempre muito apreciado. Mesmo nos Seminários existia uma grande e profunda rivalidade (incutida pelos interesses estrangeiros) entre os Hutus e os Tutsis, as duas etnias dominantes no Ruanda. ´

 

Ainda há muitos feriados, falta de comida, muitos roubos. Nas festas de casamento enfeitam a porta da igreja e o local da recepção com folhas de bananeira. O noivo oferece ao pai da noiva uma vaca ou uma cabra de acordo com suas posses. Aos convidados oferecem cerveja de sorgo ou de banana. As mulheres levam balaios cheios de cebolas, batatas doce, ovos para presente. Portam lindos "pane", espécie de saia longa, e as mães trazem à cabeça uma espécie de diadema. A cerveja é colocada num grande pote com 8 a 12 canudos longos por onde os convidados tomam educadamente a cerveja, após serem chamados. Tudo é feito de maneira ordeira. As festas sempre começam com atraso e demoram para acabar.

 

Disputas pessoais terminam, não poucas vezes, em envenenamentos. Já a rivalidade entre as etnias e o regionalismo ( os do norte não aceitam os do sul e vice-versa) levam a lutas que trazem o povo em constante deplacée , situação que impede a estabilidade e a produtividade. Os velórios e enterros são feitos no quintal. O corpo é enrolado em lençol e colocado num caixão muito tosco. Após o enterro se reúnem para discursos sobre o morto e para beber.

 

Em Abril de 1994 as irmãs deixaram o país, fugidas dos massacres e contendas. Os soldados cercaram a casa das dominicanas e depois de matar alguns missionários na vila disseram às freiras:

 

- "Ton pays demande que vos rentrez ".

 

E assim elas abandonaram Ruanda pela fronteira com Uganda. No Kenya pegaram um avião para Bruxelas. De lá, por trem, chegaram a Paris. Poucos dias depois já estavam de volta ao Brasil.

 

 Maria Eduarda Fagundes

Uberaba, 14/06/10

 

Dados e referências: Livreto da Irmã Beatriz Manna – África Central, Ruanda

                            Wikipédia

DEUS FOI QUEM DEU OS DENTES

 

Para aqueles que ainda não leram algo sobre essa outra “aventura”: em 2001 fui estar seis meses em Moçambique, como voluntário, ajudando na maravilhosa obra do Pai Américo, a Obra da Rua ou Casa do Gaiato. Na Massaca, Boane , a 45 km. de Maputo.
Há muito, muito que falar sobre esta Obra espantosa, mas hoje vão só dois “clichês” bem simples.
A Casa do Gaiato vista da horta. O cone ao fundo é o telhado da lindissima capela.

 
Aquilo a que, soberbos, os países ricos classificam de civilização, e que o dicionário eufemisticamente teima em traduzir por perfeição do estado social, não é mais do que um modus vivendi que, através da força do dinheiro e/ou órgãos de informação e difusão, se vai espalhando pelo mundo.
Não respeita fronteiras nem tradições, invade a privacidade, promove guerras e revoluções e a seguir empresta dinheiro para resolver situações criadas pela venda de armas, derruba e elege governos, e despreza os valores tradicionais.
Roma civilizou com o gládio, a inquisição com a água benta, os portugueses com a cruz e a espada, o Hitler tentou com os Panzers e Stalin com genocídios, os americanos com os dólares e a fissão dos átomos, e por aí segue a civilização, sendo a última moda as ONGs e os Projectos de Cooperação.
 
De repente, bem lá no interior duma qualquer selva tropical, onde habitam pigmeus ou insulares aborígenes asiáticos, entra um veículo motorizado, um rádio, uma revista pornográfica, que de entrada faz essa gente simples rir alegre e santamente e a seguir começa a perverter, e logo se põe o problema sobre o que está certo ou errado.
De que vale o milenar culto dos antepassados, se nos países civilizados os velhos são um lixo, um estorvo, e só quando morrem é que as pessoas fingem chorar a sua perda? Nem sempre!
De que vale uma Carta Universal dos Direitos do Homem se, nesses países civilizados, a voz da justiça tanta vez é abafada pela força da política, do dinheiro, dos lobbys e venda desenfreada de armas, minas anti pessoal e drogas?
Vasco e Jeremias. Em 2001, a estes ainda os dentes mal lhes haviam chegado!

 

 

Todos sabemos que a tal civilização pode trazer bem estar e melhoria de vida. Na verdade a quem? Àqueles que atraídos pelo mito das cidades acabam numa mísera barraca, à espera que da mesa dos bafejados caia uma migalha que lhes passe às mãos? Aos que na ânsia de usufruir dos bens modernos viajam como animais pendurados em velhos e desmantelados caminhões, ou os que todas as manhãs, e tardes, amontoados dentro de ónibus (autocarros, machimbombos, chapas, etc) com o imenso calor dos trópicos, correm para um sub emprego que na maioria dos casos nem lhes paga o básico para sua subsistência?
As ilusões vão-se perdendo, o Papai Noel deixa de ser um mito poético para ser unicamente uma festa da ganância comercial, assim como o Dia das Mães e o Dia das Crianças, e os civilizados passam a viver exclusivamente voltados para a força do dinheiro.
Abandonam-se os valores morais e as formas de religião tradicionais dando lugar àquelas que descobriram na crendice popular uma forma de rápido e violento enriquecimento, e a matéria acaba liquidando o espírito.
A um gaiato de 10 anos, moçambicano, cara alegre, cabeça rapada, orelhas em destaque, que ao rir mostrava a falta dos dois dentes incisivos de cima, por estar na idade da muda, perguntava para brincar com ele:
- O que você fez aos dentes? Comeu? Perdeu?
- Caíram!
- E onde estão agora?
- Na telha. E apontava para cima da casa.
- !?
Um religioso que ali estava, rindo também, explicou:
É tradição. Quando caem os dentes à criança, como foi Deus que lhos deu, ela atira-os para o ar, para Deus, para que Ele lhe devolva outros novos!
Quanta poesia, quanto respeito, quanta certeza no ciclo natural!
Felizmente ainda não estava totalmente civilizado, e por isso permanecia em comunhão e respeito para com o que os civilizados chamam de cosmos, mesmo sem saberem o que significa.

 
Numa das deambulações para captar em foto algumas imagens do povo, passei junto a uma casa onde estava uma mulher sentada à sombra a peneirar farinha. Ao lado um filhote de uns 2 anos. Disse-lhes adeus, sorriram e descontraídos corresponderam, com muitos outros adeus! Segui em frente. O filhote levantou-se e veio até à esquina da casa sempre a olhar para mim. Parei, para ver por onde seguir, olhei para trás e lá estava ele, ali a uns escassos metros. Disse-lhe adeus de novo. Sorriu e saiu a correr para mim! Quando chegou ao meu lado agarrou logo na minha mão. A mãe levantou-se veio atrás e quando o viu ao meu lado chamou-o: Zé! O tal de Zé disse logo “Não” e não largava a minha mão, com uma cara muito bem disposta! Devia querer ir passear comigo! A mãe tirou para fora um recheado peitão a ver se ele se interessava pela comida. “Não”.
Sempre com uma cara divertida, mas com a certeza de saber que naquele momento não era esse o programa que o atraía. A mãe aproximou-se (peitão já recolhido dentro da blusa, como é óbvio), ele largou a minha mão e fugiu. Lá foi ela atrás, apanhou-o, deu-lhe a mão, e quando os dois voltavam da grande “fuga”, uns cinco ou seis metros, fotografei-os. Vai aqui a foto deles.
Boa “praça”, o Zé!!


Do livro "Loisas da Arca do Velho", de Francisco G. de Amorim, 2001 - Livro inédito!
18-jan.2010

 

 

 

 

 

Do livro "Loisas da Arca do Velho", 2001 – Livro inédito!

 

 

 

 

CRÓNICA DE MOÇAMBIQUE

 

HADZABE
O povo que a Humanidade ignorou
 
 
 
A pré-história começou pela recolecção e caça
 
A humanidade evoluiu. O progresso apagou as marcas do tempo. A inteligência humana reinventou o mundo. Mundo novo. Mas o progresso não matou os traços da ancestralidade. Bosquímanos, Sun do Kalahari e Pigmeus da África Central. Com maior ou menor propensão mantêm seus hábitos. Fazem da natureza seu único e ideal habitat. Nomadismo. Caça e recolecção.
 
Muito poucas pessoas terão ouvido falar do grupo étnico Hadzabe, eventualmente, a tribo mais primitiva do planeta. Mais desconhecida. Em 1978 eram pouco menos de 1000. Vivem como a humanidade os fez há milhões de anos. Pré-história.
Desconhecidos pelo mundo e até pouco conhecidos no seu país. Como foi que o mundo os renegou?
 
Os Hadzabe constituem um dos vários grupos étnicos da Tanzânia, país irmão, berço de lutas de libertação no sul do continente africano. Vivem no nordeste da Tanzânia, província de Manyara. A região é famosa pela abundante fauna selvagem. Pelos parques nacionais Taranguire, Manyara e a zona de conservação de Ngorongoro (cratera) e ainda as planícies do Serengueti.
 
Mas é próximo do lago Eyasi que as últimas bolsas dos Hadzabe podem, ainda, ser encontradas. Bem próximo deste local, antropólogos britânicos, nos anos 60, descobriram fósseis de hominídeos que, de alguma maneira, comprovam as teorias sobre a África como berço da humanidade.
 
Ouvi falar nos Hazabe, pela primeira vez, em 2004. Estudantes do Colégio de Mweka falaram neles com misto de angústia, frustração e honra. Falaram da ancestralidade e pré-história que os tipificava. Um povo que se recusara à civilização, uma tribo que poderia sucumbir.
 
Caçadores e recolectores natos, os Hadzabe sobrevivem de frutos silvestres, de mel e de carne de caça. Para eles o mundo foi criado pelo Sol e pela Lua. O Sol permite que eles localizem suas presas. A Lua, que os ajuda a sonhar e a dar-lhes sorte na
caçada.
 
A caça é uma actividade essencialmente masculina. Caçam de tudo, mamíferos de grande, médio e pequeno porte. Caçam, sem piedade, outros predadores. Nada escapa! Tamanha ferocidade daria para entender como o ser humano se transformou no maior e mais temível predador do planeta. A par da caça colectam mel. Os Hadzabe sobem árvores para tirar mel ou caçar com a mesma mestria e facilidade com que qualquer primata o faria. As mulheres, para além de cuidarem dos filhos, são exímias a escavar raízes. Destas escavações retiram as calorias que os homens não conseguem trazer. Qualquer roedor teria inveja de as ver escavar e retirar das entranhas da terra as raízes do sustento. Todas as relações giram à volta da comida. Quando esta abunda, eles passam horas devorando, sem qualquer outra preocupação, tudo que a mãe natureza generosamente oferece.
 
Vida feita de comes e comes
 
Pessoas de invejável e tremendo apetite. Pessoas de estatura baixa se comparados com a média, pele escurecida pelos banhos forçados de sol, corpos franzinos. É impossível descortinar, por entre poupada roupa, reservas calóricas ou banha. Nómadas, sobrevivem no meio da selva, sem casas, tendas ou abrigos. Apenas a sombra das árvores. Em épocas de chuva refugiam-se em cavernas. Sem pertences, seus parcos haveres viajam com eles o tempo inteiro. Restos de ferro, uma pedra para afiar lanças e muitos tendões de girafa para fazer os arcos. Flechas e arcos são o cartão de identidade.
 
Com a ajuda de estudantes e professores do Mweka College, Tanzânia, travei contacto com os Hadzabe. Conversa longa e sofrida. Por vezes com tradução directa para Kishwaili. Outras só do Kidzabe, sua língua, para nenhuma outra. Falamos de como o falecido presidente Nyerere teria ordenado a construção de casas para os Hadzabe. Vã tentativa de os persuadir a mudar de vida e hábitos.
 
Mwalimo Nyerere, sem nunca os ter forçado, quis trazê-los, a qualquer preço, de volta ao mundo. Permaneceram nessas casas tão somente enquanto houve comida no seu interior. Assim que esta terminou, eles seguiram seu caminho e nunca mais regressaram. A Tanzânia falhara na missão.
 
Com os Masai, tribo conhecidíssima pelo semi-nomadismo, pastorícia e habilidade com a qual criam milhares de cabeças de gado, a história havia sido diferente.
Kidzabe é sua língua e, diga-se, dificílima de falar. Kidzabe é feita à base de clicks e estalidos, mímica e assobios. Tudo associado à sua sobrevivência e economia.
 
 
 
Caça
 
Assume-se que o ser humano tem a possibilidade de reproduzir aproximadamente 153 diferentes sons, em praticamente todas as línguas conhecidas. Os Hadzabe, por si sós, possuem até cerca de 145 sons distintos.
 
Kidzabe imita sons de animais, de pássaros. Tudo para confundir e não espantar a presa. A mímica é ordem de comando. Existem semelhanças entre as línguas dos
Bosquímanos e dos Sun. Aliás, os testes de DNA comprovam similaridades genéticas. Não admira, pois, uma intrínseca relação entre estas tribos. Nem admira que a caça tenha determinado a linguagem humana.
 
Aos irmãos Djequera e Sariboco Dufu perguntei como lidavam com a morte. Onde enterravam seus cadáveres. Os Hadzabe não acreditam que exista algo para lá da morte. A vida termina. Os cadáveres são cobertos com folhas. Depois é feita uma caçada. O animal morto é colocado junto ao cadáver. Não tardará que as hienas se sintam atraídas pelo cheiro. Estes vorazes predadores se encarregam, então, de finalizar o animal e o cadáver humano. Morte gerando e mantendo a vida. Por esta razão a hiena é o único animal que não é caçado pelos Hadzabe.
 
Conversamos sobre as técnicas de caça. Dos venenos colocados nas extremidades de suas lanças. Veneno extraído de plantas. Basta, então, explicavam, que a lança atinja a presa. Não importa a gravidade. O animal morrerá passados alguns minutos. O grupo de caçadores subsequentemente segue os rastos. Contam com a orientação dos abutres. A carne envenenada não constituía perigo para seu próprio consumo. O fogo, feito à mão e na hora, reduz a vitalidade do veneno. Satisfaz o apetite do caçador.
 
Os Hadzabe são exímios conhecedores de plantas. As plantas são farmácias a céu aberto. Curam todo e mais algum sintoma. Na verdade, não consomem vegetais. Djequera Dufu, ele próprio, foi atacado de surpresa por um búfalo. De fractura exposta na perna direita, garante que as plantas o curaram. Mesmo a malária, que dizima milhões em sociedades civilizadas, parece não fazer vítimas entre os
Hadzabe.
 
Amantes incondicionais da liberdade, os Hadzabe partilham tudo dentro do seu grupo. Viajam em grupos de quatro a cinco famílias. Nem parece. Para além de parentes consanguíneos, os grupos hospedam jovens caçadores de outras famílias.
Acreditam em amuletos. Absolutamente todos usam colares e são vacinados para se prevenirem das mordeduras de cobras e de outros animais. Não existem, porém, doutrinas ou religiões no seu seio.
 
Sol e Lua. Vento
 
Quando venta não se pode caçar. Os cheiros e odores são perceptíveis pela presa. Nem mesmo as relações matrimoniais são efémeras. Os Hadzabe respeitam suas famílias mas não se prendem à mesma mulher quando acham que atingiram níveis de saturação.
Quando a primeira mulher envelhece é substituída por uma mais nova. Duas mulheres em simultâneo é raro. Difícil de gerir. Mas acontece. O contacto ocasional com outros grupos étnicos colocou-os próximo do álcool e tabaco comercial. Álcool e cigarro converteram-se em presentes de luxo. Assim são feitas as aproximações.
 
Novas amizades
 
Hadzabe, como família, alucinados tentam compreender o dito mundo. Consomem o quanto seus corpos toleram. Por que razão os Hadzabe terão sido, aparentemente, esquecidos pela humanidade? Porque seu desenvolvimento não acompanhou a civilização e outras etnias? Não deve existir resposta. Não foi vontade divina. Assume-se que, pelo facto de viverem em zonas infestadas pela mosca tsé-tsé, próximo dos parques nacionais, foi evitado o estabelecimento de comunidades sedentárias, de pastores ou agricultores. A abundância de carne de caça, nesses parques bem preservados, manteve níveis de dieta e conforto razoáveis.
 
O sentido de liberdade e independência de sistemas também pode ser equacionado. A política de tolerância ilimitada dos tanzanianos, nas relações inter-tribais, também facilitou a permanência na selva.
 
O ideal de qualquer Hadzabe é a caça. Virar caçador. Aprender todas as técnicas de seus progenitores. Isso só se aprende na selva.
 
O presidente Kikwete, à semelhança de Nyerere, quer alterar a situação. Sabe-se de antemão que o recurso à força não surtirá efeito. Terão que ser usados incentivos diferentes. Algumas crianças Hadzabe estão sendo levadas para a escola.
Pode ser um primeiro passo. Afinal esta mudança terá de ocorrer. Os cenários mudaram. Com o aumento da população aumenta a pressão sobre o espaço vital dos Hadzabe. Interagem, mesmo sem querer, mais frequentemente com outras tribos.
 
Mas o mundo precisa de fazer muito mais pelos Hadzabe. Seus números reduzem-se a olhos vistos. Podem mesmo estar em vias de extinção. Os paradoxos do mundo e da civilização encontram nos Hadzabe campo fértil para os questionamentos. Como pode a humanidade ir para Marte e para Lua, fazer cirurgias laser, viver na luxúria e esquecer-se, bem do seu lado, que outro ser humano é pré-histórico?
 
 Jorge Ferrão
Reitor da Universidade Lúrio, Nampula, Moçambique

MAGAÍÇA

NOTA PRÉVIA: 
Magaíça – trabalhador moçambicano nas minas da África do Sul. 
A aculturação foi feita de tal modo que os homens do sul de 
Moçambique só são aceites para casamento depois de terem estado
dois anos nas minas sul-africanas.
 
 
MAGAÍÇA
A manhã azul e ouro dos folhetos de propaganda
engoliu o mamparra,
entontecido todo pela algazarra
incompreensível dos brancos da estação
e pelo resfolegar trepidante dos comboios
Tragou seus olhos redondos de pasmo,
seu coração apertado na angústia do desconhecido,
sua trouxa de farrapos
carregando a ânsia enorme, tecida
de sonhos insatisfeitos do mamparra.
 
E um dia,
o comboio voltou, arfando, arfando...
oh nhanisse, voltou.
e com ele, magaíça,
de sobretudo, cachecol e meia listrada
e um ser deslocado
embrulhado em ridículo.
 
Ás costas – ah onde te ficou a trouxa de sonhos, magaíça?
trazes as malas cheias do falso brilho
do resto da falsa civilização do compound do Rand.
E na mão,
magaíça atordoado acendeu o candeeiro,
à cata das ilusões perdidas,
da mocidade e da saúde que ficaram soterradas
lá nas minas do Jone...
 
A mocidade e a saúde,
as ilusões perdidas
que brilharão como astros no decote de qualquer lady
nas noites deslumbrantes de qualquer City.
Noemia_sousaNoémia de Sousa (Catembe, 20/9/26-Lisboa, 4/12/02)
 
(…)
Estes últimos dias de rapaz foram passados com os outros iniciados e achei a camaradagem agradável. O abrigo era perto da casa de Banabakhe Blayi, o rapaz mais rico e mais popular da escola de circuncisão. Era um rapaz cativante, campeão do jogo do pau e um galã cujas muitas namoradas nos mantiveram a todos fornecidos de petiscos. Embora não soubesse ler nem escrever, era um dos mais inteligentes entre nós. Regalou-nos com histórias das suas viagens a Joanesburgo, um lugar aonde nenhum de nós jamais tinha ido. Entusiasmou-nos tanto com histórias das minas que quase me convenceu que ser mineiro era mais interessante do que ser monarca. Os mineiros tinham uma mística; ser mineiro significava ser forte e ousado, o ideal da masculinidade. Muito mais tarde dei-me conta que eram as histórias exageradas de rapazes como Banabakhe que faziam com que tantos jovens fugissem para trabalharem nas minas de Joanesburgo, onde muitas vezes perdiam a saúde e a vida. Nesses tempos, trabalhar nas minas era quase tanto um rito de passagem como a escola de circuncisão, um mito que ajudava mais os proprietários das minas do que o meu povo.
(…)
 
LONGO CAMINHO PARA A LIBERDADE – Nelson Mandela, Autobiografia (pág. 35)
 
 

LIDO COM INTERESSE – 21

 

Título: Á descoberta de África

Autor: Martin Dugard

Tradutor: António Cruz Belo

Editores: Casa das Letras

Edição: 1ª, Abril de 2007

 

 

Trata-se de um livro de agradável leitura e que, ao contrário dos meus prognósticos, se revelou muito interessante pois o Autor enquadra as viagens de Livingstone e de Stanley na política internacional da época dando-lhe uma perspectiva de lógica imperial não se limitando à descrição das diatribes por que passa qualquer explorador.

  Bagamoyo, na actual Tanzânia, foi onde Livingstone desembarcou para iniciar a sua expedição em busca da nascente do Nilo

Logo pela capa se fica a saber que nos vamos deparar com «o relato de uma das maiores aventuras de sempre. A primeira travessia de África de leste a oeste». No entanto, os heróis do livro cruzam-se amiúde lá nas savanas e florestas africanas com portugueses pelo que esta não é de todo a primeira travessia mas apenas a primeira relatada por alguém da cultura anglo-saxónica. Por motivos diferentes que não a descoberta de ocorrências geográficas (a nascente do Nilo), os portugueses já por lá andavam e, portanto, a esses anónimos a glória do desbravamento inicial. E, mesmo assim, desbravamento para a cultura eurocêntrica do séc. XIX pois os árabes já por lá andavam no negócio esclavagista, à semelhança do que ainda hoje fazem com especial relevo no Darfur. Mas nem sequer esta perspectiva é totalmente correcta pois são conhecidas viagens de portugueses que em épocas bem mais antigas, idos do Egipto para sul a mando do Infante D. Henrique em demanda do Preste João, acabaram por atravessar todo o continente a chegaram a uma região a que os autóctones chamavam N’gola.

 

Esta referência inaugural às viagens de Livingstone e de Stanley faz-me assim lembrar a expressão do poeta alemão Hölderlin (1770-1843) que afirmava que «Somos originais porque não sabemos nada».

 Henry Morton Stanley meets David Livingstone in Ujiji, 1871. "Dr. Livingstone, presumo" - terá dito Stanley quando se encontraram em Ujiji

Na esperança de que os anglocêntricos se dêem ao trabalho de estudar um pouco mais, ficamos neste livro sem quaisquer dúvidas sobre o enorme papel que a Real Sociedade de Geografia desempenhou na definição do que foi o Império Britânico e de como estas explorações mais não tinham do que o objectivo dissimulado de afirmarem a presença britânica nos locais que Londres queria dominar. Portugal respondeu a estas viagens com as explorações de Hermenegildo Capelo e de Roberto Ivens para afirmar a posse dos territórios entre as duas costas africanas a sul do reino do Congo mas não colhe nesta apreciação referir todo o drama que foi o chamado Mapa Cor-de-rosa, a prerrogativa que Inglaterra se atribuiu de pôr e dispor sobre o que era português.

 Roberto Ivens (de pé) com Hermenegildo Capello em Iaca. Hermenegildo Capelo (1841-1917) à esquerda e Roberto Ivens (1850-1898) algures em África

Tudo o mais referido no livro é de certo modo supérfluo em relação a esta perspectiva fundamental da construção do Império Britânico com excepção da guerrilha de interesses que então existia entre Inglaterra e os Estados Unidos. É no âmbito dessa quezília internacional que surge o galês Stanley naturalizado americano a disputar o prestígio britânico salvando o herói Livingstone abandonado pelos seus pares. Esta é também uma faceta bem interessante e não fora este livro e quase dava para nos esquecermos de que esse antagonismo chegou a acirrar a política dos dois lados anglófonos do Atlântico. Quem diria nos dias de hoje que no séc. XIX Inglaterra se permitia ter uma opinião diferente da americana …

 

Lisboa, Novembro de 2007

 

Henrique Salles da Fonseca

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