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A bem da Nação

ELEIÇÕES À VISTA

  1. A ARMA QUE TERÇO

 

O voto é a minha arma e ela é serena, conservadora e progressista.

Arma serena porque nunca andei nem tenciono andar a correr e aos berros a trás duma qualquer bandeira de celeradas utopias.

Arma conservadora porque não quero revoluções que me perturbem a família nem o património físico ou mental.

Arma progressista porque quero mais e melhor para mim e para os meus compatriotas de modo a que todos tenham de seu atirando a inveja para as calendas do pretérito imperfeito e deixando de ser o grande instrumento da desunião nacional.

Eis para o que quero continuar a terçar a arma democrática, o voto.

Dezembro de 2020

Henrique Salles da Fonseca

(hoje não me alongo mais porque os olhos não deixam)

«FASTEN SEAT BELTS»

ou

AS MARAVILHAS DA FÉ

 

Sim, Caro Leitor, este é um texto polémico e por isso começo por lhe sugerir que aperte o cinto de segurança. É que, pese embora eu achar que a fé não se discute, não me sinto obrigado a nem sequer referir esse tipo de matérias. Cito-as acriticamente e cada Leitor que se dedique à adivinhação sobre o que penso.

E se a maior parte das vezes que se cita a fé se esteja a tratar de temas religiosos, aparecem também outras ocasiões em que podemos citar dogmas laicos.

Num calendário coincidente com a realização do Congresso dos comunistas leninistas stalinistas portugueses, os dogmas laicos jorram por tudo quanto é sítio do Pavilhão Paz e Amizade de Loures e basta escolher…

Então, começo logo pelo nome do próprio pavilhão em que se realiza o Congresso, o da paz e amizade, quando é sabido que o comunismo é militarista, expansionista, unicitário e, portanto, monolítico e, bem pior, taliónico. Ou seja, o comunismo é autista e só cultiva a paz e a amizade consigo próprio. À semelhança do islamismo cujo primeiro grande dogma consiste na atribuição a Maomé da autoria do Corão apesar de se saber que o Profeta não lia nem escrevia.  Mas os dogmas são assim mesmo, não se discutem e são apenas para quem neles crê.

A semelhança que existe entre o comunismo e o islamismo é o tratamento dado aos não comunistas e aos infiéis: o fuzilamento e a decapitação. A paz com os decapitados e a amizade com os fuzilados.

E se quanto a semelhanças entre estes «benignos» me fico por aqui, o marxismo tem outras facetas que me levam ao espanto por ainda haver quem, nestas primeiras décadas do séc. XXI, nele veja um caminho para o bem comum.

Que bem comum é possível num cenário em que a uma classe social é atribuído o monopólio das decisões com prejuízo total das demais classes?

Que bem comum é possível     quando o conceito de democracia consiste no nivelamento por baixo pelo despojamento de todo o conforto individual?

Que bem comum é possível quando a diabolização do lucro conduz inevitavelmente ao aniquilamento do investimento?

Que bem comum é possível quando a iniciativa individual é esmagada pelo planeamento central?

Que bem comum é possível prometer quando o determinismo histórico falhou clamorosamente em 1989 pela queda do muro de Berlim e pelo desmoronamento da URSS?

Pois é Caro Leitor, vejo-me obrigado a reconhecer que já escrevi textos mais imparciais e acríticos.

Mas com tanto dogmático por aí além a apregoar loas, também eu me sinto no direito de afirmar um dogma: este é um texto imparcial e… adogmático!

Apesar da minha «imparcialidade», o melhor é mantermos os cintos de segurança apertados não vá aparecer alguma verdade jorrada lá do pavilhão de Loures e nos magoarmos caindo de espanto.

Novembro de 2020

Henrique Salles da Fonseca

AS VACAS DO «AVANTE»

 

Nascido em 1945, lembro-me muito bem de, por vezes, aparecer na nossa caixa de correio um jornal chamado «Avante» impresso num papel muito fino quase ao estilo do que então se usava para o correio aéreo. Lembro-me de por mais de uma vez ter tentado ler o dito jornal e de logo às primeiras linhas ter desistido  da leitura por total falta de interesse. Não dei por que mais alguém lá em casa se interessasse por ele. Lembro-me dele, sim, no lixo quando lá fui despejar qualquer sebência. Conversando à mesa de jantar na ocorrência duma dessas raras aparições jornalísticas então clandestinas,, constatei que só a minha mãe e os meus avós tinham dado pelo jornal e ficámos a saber que tinha sido o meu avô que, depois de lhe dar uma fugaz mirada, o pusera a caminho do húmus. Foi o meu pai que explicou ser aquele o jornal do Partido Comunista e que, se um dia chegasse ao Poder, nos tirava os prédios. Adolescente, não precisei de mais explicações para me tornar anticomunista. Até hoje. Só que, hoje, com mais alguns argumentos…

Apesar de aqueles serem tempos da clandestinidade do PCP, eles eram também os das vacas gordas pois a URSS investia fortemente no derrube de Salazar e de Franco para os respectivos Partidos Comunistas tomarem o Poder e, daí, se estrangular a Europa entre a Cortina de Ferro e uma Península Ibérica comunizada. E assim continuou até à falência do comunismo em finais de 1989.

Caída a URSS, cessaram os apoios financeiros ao PCP tendo este que passar a fazer pela própria vida. Emagreceram as vacas mas o monolitismo doutrinário manteve-se. O enorme património imobiliária adquirido nos tempos delas gordas, não rende pois continua, romanticamente, a albergar os «Centros de Trabalho» onde nada se produz e tudo se consome; os descontos obrigatórios que os eleitos em listas comunistas fazem para apoio à tesouraria do Partido estão queda pois os eleitos são cada vez menos e o mesmo se diga da tendência dos apoios públicos (uma verba fixa por cada voto recebido nas urnas).

Numa perspectiva claramente minguante, o PCP vê-se a braços com as consequências do seu dogmatismo: perda de comunicação, perda de peso político, perda de receitas.

E as vacas cada vez mais magras…

Resta-lhes um punhado de erva, a que cresce na «Quinta da Atalaia».

Não sei adivinhar o futuro mas creio que o BE dificilmente aceitará a integração do PCP sob pena de se esgatanharem todos e o caldo se entornar por completo. Até não é má ideia; aqui fica a sugestão.

Mais uma vez, o determinismo histórico marxista a revelar-se às avessas contando-se já as costelas às vacas do Avante.

Agosto de 2020

Henrique Salles da Fonseca

EFEMÉRIDE

Estava eu há 50 anos a estagiar na EPAM - Escola Prática de Administração Militar, na Alameda das Linhas de Torres, em Lisboa, quando foi anunciada a morte do Doutor Salazar. Ocorrência esperada a qualquer momento face à situação clínica do enfermo, nada aconteceu. Ao contrário do que os seus adeptos ferrenhos queriam, o povo não se manifestou em rios de lágrimas nem se ouviram coros de prantos; ao contrário do que os comunistas queriam, não houve manifestações de júbilo nem as valetas das ruas se encheram de sangue. Nada, absolutamente nada. E nós, os crentes na Primavera Marcelista, imaginámos que o Professor Marcelo Caetano se sentiria então mais à vontade para conduzir Portugal no caminho suave para a democracia e com as colónias a caminho da autonomia integrada num processo pacífico.

Por todas estas razões, posso hoje afirmar que há 50 anos nada aconteceu: nem para salazaristas, nem para comunistas, nem para marcelistas.

Mas se a ocorrência não foi charneira histórica, ela pode hoje servir para lembrar algumas realidades sobre o Doutor Salazar:

  • Ao contrário da propaganda comunista, o Doutor Salazar não era fascista. Pelo contrário, instituiu um Estado de Direito – um Direito autocrático, sem dúvida, mas Direito publicamente conhecido de todos os cidadãos, aplicável a todos, sem excepção;
  • Herdeiro de um Estado falido, manteve sempre a política do equilíbrio das Finanças Públicas e condicionou todo o desenvolvimento – económico e social – a esse equilíbrio;
  • Autocrata, nunca fingiu ser democrata, muniu-se dos instrumentos de segurança nacional (não propriamente de segurança pessoal) que lhe pareceram convenientes. Refiro-me à PIDE já que tanto a Legião Portuguesa como a Brigada Naval não passavam de puros bluffs a que ele próprio, depois da guerra civil espanhola, deixou de dar qualquer importância – serviam para que uns quantos «maduros» se fardassem a fingir que eram uns durões. A Mocidade Portuguesa era uma brincadeira de crianças;
  • Em política externa, o Doutor Salazar foi exímio e nas épocas mais conturbadas assumiu a pasta dos Negócios Estrangeiros para gerir o processo sem intermediários. E a URSS não tomou a Península Ibérica como Stalin tinha imaginado.

E assim foi o que há 50 anos quase passou despercebido. Mas que hoje refiro como um estadista que nos salvou do nazismo, do fascismo e do comunismo.

E mais não digo porque acho que basta e porque não sei muito mais que dizer.

 

Julho de 2020

 

Henrique Salles da Fonseca

VEM AÍ O PAI NATAL…

… e a tripa magra já se imagina fôrra.

As pessoas finas, onde incluo as da Diplomacia, chamam frugais aos países do norte da UE e «da coesão» aos do sul. Nas histórias infantis, fala-se da formiga e da cigarra. Eu, que não sou diplomata, aos do norte chamo doadores e aos do sul perdulários.

E o Conselho Europeu não chega a acordo nem quanto ao montante global do Cabaz de Natal nem quanto aos critérios de distribuição. Muito menos acordo em relação ao controle do modo como os perdulários vão gastar as dádivas.

E por muito que os sulistas bramem «Ó filha dá cá o meu!», não é imaginável que o esbanjamento continue. Para que haja alguma transparência na aplicação de fundos doados ou emprestados, é necessário que os instrumentos de controle sejam minuciosamente geridos directamente pelos doadores sob pena de vingar algum tipo de compadrio lá pelas ilhas do Mar Egeu…

Julho de 2020

Henrique Salles da Fonseca

 

   

RACISMOS

«Deus fez o Mundo;

Os holandeses fizeram a Holanda;

Os portugueses fizeram os mulatos»

(da sabedoria inglesa)

 

Qualquer português medianamente culto, actualmente vivo, que tenha conhecido as Colónias[i] com alguma perenidade, não tem razões que lhe permitam pactuar com o racismo.

Se é racista, não é medianamente culto; se foi racista, já não é vivo; se é racista, medianamente culto e está vivo, não conheceu perenemente as Colónias; se, mesmo assi, é racista, não é meu Leitor.

Qualquer que seja a côr da sua pele, o racista português tem fraca cultura e nunca foi às Colónias; é facilmente manipulável.

E assim é que, pela manipulação dos incultos, está em curso a substituição do racismo branco contra os pretos pelo racismo preto contra os brancos, processo que visa a destruição da Civilização Ocidental de origem greco-latina.

Morto o estalinismo, vinga o gramscianismo; morto o PCP, vinga o BE; morta a classe operária, vinga a hegemonia cultural marxista de inspiração anarquista, inimiga da burguesia e de tudo o que ela represente.

Eis como os ditos eruditos marxistas de inspiração anarquista ressurgidos da tradição sartriana do Maio de 68 encontraram esse instrumento que é o racismo negro que se arvora em revisor da História do Ocidente como forma de lhe apear os Valores e, destruindo (desconstruindo, como imbecilmente apregoam) a História, atingirem fatalmente o Ocidente e tudo o que o distingue do resto do mundo.

Na hora que corre, cumpre-nos, ocidentais, usarmos todos os megafones da moderna tecnologia para promovermos a destruição dos fundamentos teórico-históricos do marxismo[ii], fundamentarmos as virtudes do pluripartidarismo compatível com os Valores Ocidentais, nomeadamente os constantes da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Português culto não exala ódios racistas mas também não gosta de ser pisado.

Julho de 2020                                                                                                  

Henrique Salles das Fonseca

 

[i] - Deixemo-nos de eufemismos do género de «Províncias Ultramarinas» e de quaisquer outras subtilezas politico-semânticas

[ii] - O sofisma da diabolização do lucro que conduziu a indústria soviética a um monte de sucata;

A falácia do determinismo histórico que se revelou «apenas» às avessas;

O absurdo humanista da ditadura do proletariado;

O absurdo completo que é a perenidade revolucionária.

MUITO ESQUECE A QUEM NÃO SABE – 3

Resulta claro do texto anterior que o nome do «Bloco de Esquerda» não nasceu das salsas ervas nem por acaso: para além de significar a amálgama em bloco de uns quantos movimentos políticos de esquerda, corresponde por certo ao conceito gramsciano de «bloco hegemónico».
É também do texto anterior que resulta a diferença abissal entre os Partidos Comunistas tradicionais assentes na manipulação da classe proletária e o pensamento de António Gramsci que assenta na motivação da classe intelectual. Os Partidos tradicionais tanto podem ser stalinistas como trotskistas sendo a diferença entre eles apenas de estratégia uma vez que, na teoria, são praticamente o mesmo. Mas com uma ideia tão vinculada de que são diferentes, não se toleram. Todos comunistas, todos inimigos e todos ambicionando o tal protagonismo que matou Trotsky, todos pela destruição do Ocidente.
Eis por que o Doutor Louçã, trotskista, nada quer com o Sr. Jerónimo de Sousa, stalinista. O vice-versa também se aplica.
Poucos, muitos ou assim-assim, os trotskistas portugueses [Frente da Esquerda Revolucionária; Liga Comunista Internacionalista (Portugal); Movimento Alternativa Socialista; Partido Operário de Unidade Socialista; Partido Revolucionário dos Trabalhadores (Portugal); Partido Socialista Revolucionário (Portugal) e outros mais que eu possa estar involuntariamente a esquecer] tiveram que se associar a outras vertentes da esquerda pois que, isolados, nada conseguiriam na nossa democracia. E, depois de voltas e mais voltas, aí os temos no BE – Bloco de Esquerda. Pela dinâmica da História, a substituição do Doutor Louçã na liderança da «salada de esquerda» era só uma questão de tempo. A ascensão do gramscianismo tem um rosto, o de Catarina Martins.
E vai daí que, estava a Senhora a discutir temas sublimes no doce remanso parlamentar, um polícia americano estrangula um preto e desaba o mundo aos gritos do racismo negro contra os brancos, racistas ou não.
Fogo posto nas almas, decapitam-se os símbolos do Ocidente imperialista, racista, capitalista e mais não sei quê… numa voragem desenfreada de Londres a Christchurch passando por Otawa e pelo nosso «Largo da Palmatória» pintando de vermelho aquele que em vida foi um verdadeiro progressista para os padrões da sua época. No nosso caso, vergonhosa ignorância dos revolucionários que vieram destabilizar o confortável sossego da actriz Catarina. E lá teve a Senhora que descer a terreiro bradando aos ventos televisivos afirmando que concordava com os valores da contestação em curso, a do «Black Lives Matter». E, das duas, uma: ou o movimento é composto por gente exógena ao BE e a Senhora legitimou-os com os ventos que semeou ou essa gente vem de dentro do BE, a Senhora foi apanhada desprevenida e falou numa tentativa de não perder o «comboio» que partira antes dela apitar a corneta de Chefe de Estação. Se se tratar de um movimento exógeno, é mau que a Senhora o tenha legitimado pois, eventualmente, os protestantes não reconhecem legitimidade a quem pactua com os Valores parlamentares ocidentais; se se trata de algo que surgiu de dentro do BE, então a Senhora que se prepare para ser apeada ou para ter que fazer uma purga stalinista o que, para além de ser uma vergonha doutrinária para uma gramsciana convicta, é penalizável no âmbito do quadro legal em vigor. Em qualquer das hipóteses, um evidente sinal de fragilidade – e se um sistema rígido como um bloco abre fissuras, parte e esfarela-se.
Duvido seriamente que a Senhora esteja em condições de tomar o controle do «BLM» quer porque não o consegue fazer quer porque não o queira - «deixá-los escaqueirar tudo que é isso mesmo que eu quero». Então, daqui lhe sugiro que pergunte à sua antecessora na diatribe revolucionária, Dolores Ibarruri, o que acontece a quem semeia tempestades.
Finalmente, pergunto ao Senhor Dr. Costa se põe ordem nos desacatos ou se fica à espera que alguém tenha a ventura de o fazer por conta própria. É que, se assim acontecer, será muito mau para quase todos – menos para quem se fique a rir ao ver os inimigos esfacelarem-se mutuamente. Péssimo cenário.
Prefiro o discurso de Emmanuel Macron no passado dia 14 de Junho:
(…) la République n’effacera aucune trace ni aucun nom de son Histoire.
La République ne déboulonnera pas de statues.
Nous devons plutôt lucidement regarder ensemble toute notre Histoire, toutes nos mémoires, notre rapport à l’Afrique en particulier, pour bâtir un présent et un avenir possible, d’une rive à l’autre de la Méditerranée avec une volonté de vérité en aucun cas de revisiter ou de nier ce que nous sommes (…)
FIM
Junho de 2020


Henrique Salles da Fonseca

MUITO ESQUECE A QUEM NÃO SABE - 2

Do que, ao longo dos anos, fui estudando sobre Marx, o marxismo e o comunismo, retive fundamentalmente o que segue:

  • O sofisma da diabolização do lucro que conduziu a indústria soviética a um monte de sucata[i];
  • A falácia do determinismo histórico que se revelou «apenas» às avessas[ii];
  • O absurdo humanista da ditadura do proletariado[iii];
  • O absurdo completo que é a perenidade revolucionária[iv].

Quem me conhece, não estranha estas minhas observações, quem não me conhece, fica desde já a saber que nada me liga ao marxismo, ao comunismo ou a qualquer outra forma de fascismo.

Quem habitualmente me lê, sabe na perfeição o que significa cada uma das minhas observações; quem não sabe, não me lê e, portanto, posso passar por cima das explicações.

* * *

Com enorme antecedência relativamente ao colapso soviético, António Gramsci (1891-1937), adepto marxista, previu que com a classe proletária não se iria a qualquer lado e que a destruição do mundo ocidental tinha que mudar de instrumento, ou seja, passar da manipulação da boçalidade proletária para a mobilização das classes eruditas. E assim foi que apareceu o conceito de «hegemonia e bloco hegemônico».

E aqui, para encurtar razões e não alongar o presente texto, recorro à síntese wikipédiana:

Gramsci é famoso principalmente pela elaboração do conceito de hegemonia e bloco hegemônico e também por se focar no estudo dos aspectos culturais da sociedade (a chamada superestrutura no marxismo clássico) como elemento a partir do qual poder-se-ia realizar uma acção política e como uma das formas de criar e reproduzir a hegemonia.

Alcunhado em alguns meios como "o marxista das superestruturas", Gramsci atribuiu um papel central à separação entre infraestrutura (base real da sociedade, que inclui forças produtivas e relações sociais de produção) e superestrutura (a ideologia, constituída pelas instituições, sistemas de ideias, doutrinas e crenças de uma sociedade), a partir do conceito de "bloco hegemónico". Segundo esse conceito, o poder das classes dominantes sobre o proletariado e todas as classes dominadas dentro do modo de produção capitalista não reside simplesmente no controle dos aparelhos repressivos do Estado. Se assim fosse, tal poder seria relativamente fácil de derrotar (bastaria que fosse atacado por uma força armada equivalente ou superior que trabalhasse para o proletariado). Este poder é garantido fundamentalmente pela "hegemonia" cultural que as classes dominantes logram exercer sobre as dominadas, através do controle do sistema educacional, das instituições religiosas e dos meios de comunicação. Usando deste controle, as classes dominantes "educam" os dominados para que estes vivam em submissão às primeiras como algo natural e conveniente, inibindo assim a sua potencialidade revolucionária. Assim, por exemplo, em nome da "nação" ou da "pátria", as classes dominantes criam no povo o sentimento de identificação com elas, de união sagrada com os exploradores, contra um inimigo exterior e a favor de um suposto "destino nacional" de uma sociedade concebida como um todo orgânico desprovido de antagonismos sociais objetivos. Assim se forma um "bloco hegemónico" que amalgama a todas as classes sociais em torno de um projeto burguês. O poder hegemônico combina e articula a coerção e o consenso.

* * *

Historicamente, ao movimento gramsciano original, o italiano, faltou o apoio das grandes massas populares pelo que tudo acabou afogado nas prisões de Mussolini – para gáudio do Partido Comunista Italiano esse, sim, controlador de parte importante do proletariado de então.

(continua)

Junho de 2020

Henrique Salles da Fonseca

[i] - É do lucro que se geram a poupança e o investimento. Sem lucro, não há investimento e, daí, a não renovação dos equipamentos e a acumulação de sucata.

[ii] - Por falta de investimento, gerou-se o colapso económico e deste ao colapso político foi um instante. Em vez do triunfo do comunismo, aconteceu o seu colapso.

[iii] - Todos os homens nascem iguais pelo que não faz sentido que uns tenham mais direitos que outros.

[iv] - A revolução é, por definição, uma acção desenvolvida ao arrepio do quadro legal até então prevalecente. Se a revolução é constante, não se cria um quadro legal que permita a constituição de um Estado de Direito. Na ausência de um quadro legal, prevalece a vontade e o improviso (o capricho) do ditador que assume a chefia da ditadura de uma das classes sobre as outras. Ao regime submetido ao capricho do ditador chama-se fascismo.

ASSANHADOS E ATIÇADOS

Laudatícios e louvaminheiros, uns; afrontosos e exegetas, outros – todos, discutindo a pessoa que sai, o «centenário» Ministro.

Puro erro de pontaria, tiros vãos.

Erro de pontaria porque, discutindo a pessoa do Ministro, esquecem que a política é do Primeiro Ministro e não de qualquer Ministro - de qualquer pasta, aliás – que sirva num Governo presidido por quem «sabe o que quer e para onde vai».

Esmiuçando, é assim:

  • A política é do Primeiro Ministro;
  • O Ministro executa a política inerente à sua pasta;
  • Os Secretários de Estado ajudam o respectivo Ministro;
  • Os Subsecretários de Estado ajudam o respectivo Secretário de Estado.

A Lei Orgânica dos Governos da minha memória estipula que só o Primeiro Ministro e os Ministros têm competências próprias; todos os demais funcionam com base em delegação de competências as quais podem ser avocadas a qualquer momento. O Primeiro Ministro não avoca competências, demite o Ministro e substitui-o por quem muito bem entender[i].

Eis o cenário por que acabámos de passar: o anterior Ministro das Finanças foi substituído por quem o Primeiro Ministro considerou oferecer mais garantias de execução da sua política.

Primeira conclu8são: os tiros disparados pelos afrontosos e exegetas erraram o alvo porque acusaram o executante e não o determinante da política; os laudatórios e louvaminheiros esqueceram-se de aplaudir e louvar o mandante da tal política. E este, o mandante, espertalhufo, deixou que o executante fosse o alvo da discussão não fosse ele próprio sair salpicado caso avocasse a competência claramente sua e caso a discussão corresse a desfavor.

E o que vimos nós?

Vimos a esquerda representada pelo Partido do Governo a defender a austeridade inerente às cativações e vimos a oposição à sua direita a criticar essa mesma austeridade e a pugnar, afinal, pelo desequilíbrio das contas públicas.

Segunda conclusão: inversão completa dos Valores que estão na génese eleitoral, uma traição bilateral, um descrédito para a democracia.

Terceira e última conclusão: o Deputado – qualquer um - não tem o direito de defraudar o sentido do mandato que o eleitorado lhe conferiu sob pena de perda da legitimidade democrática.

Junho de 2020

Henrique Salles da Fonseca

 

[i] - Com o Doutor Salazar era de modo diferente e dá para outro escrito de contornos humorísticos.

MUITO ESQUECE A QUEM NÃO SABE

 

P. António Vieira.pngPadre António Vieira, SJ

 

Foram essas ninfas acobreadas púbio-alopécicas vivendo em pleno naturismo que por certo impediram António Vieira de subir aos altares mas as sofisticadas industânicas nos seus coloridos saris não tiveram as artes capazes de obstar a essa ascensão a Francisco Xavier.

 E se Vieira terçou a verve em defesa dos inocentes desnudos perambulando pelo paraíso verde das Índias Ocidentais, foi Xavier que pediu ao Rei que enviasse o inferno inquisitorial para as Índias Orientais.

 Então, a bondade perdeu os ossos nalguma vala anónima esquecida algures por ali próxima do prosaico Elevador Lacerda ligando o mercado de escravos às alturas da benesse divina destinada aos inocentes ocidentais, na Sé de Salvador da Bahia, mas o promotor do radicalismo torquemadeano recebe culto e grande veneração ao corpo exposto em ataúde dourado na Roma do Oriente.

 Vá lá a gente perceber isto sem termos aqueles que vandalizaram a estátua em Lisboa do Padre António Vieira como delinquentes ignorantes e arruaceiros disfarçados de políticos. Os mesmos que preconizam a demolição da Torre de Belém, de outros monumentos emblemáticos e, afinal, a destruição de Portugal.

Não podemos ficar indiferentes.

Não ficaremos indiferentes.

* * *

Para saber mais sobre o Padre António Vieira, ver em

https://www.sitiodolivro.pt/pt/livro/exsurge-deus/9789892019703

 

 

 

Junho de 2020

Henrique Salles da Fonseca

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