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A bem da Nação

DA UNIÃO NACIONAL

Chegando a Lourenço Marques numa radiosa manhâ domingueira de Março de 1974 no vôo que saira de Lisboa no final de Sábado, levava eu o Expresso já lido e relido debaixo do braço. Dirigi-me para a recolha das bagagens e, daí, para a Alfândega. E eis que sou mandado parar. Parei de imediato e perfilei-me perante o agente daquela Autoridade. O jornal Expresso estava apreendido. Logo informei que não era necessário apreendê-lo e perder tempo com a elaboração do auto de apreensão. Eu oferecia-o ao Chefe da Delegação Aduaneira do aeroporto para que o lesse tranquilamente. Aceite a oferta, fui-me ao meu destino levando comigo a derrogação do princípio sacrosanto de "Portugal uno e indivizível do Minho a Timor".

Tenhamos fé em que o passado nos ensine a fazer um futuro risonho e não rizível.

Henrique Salles da Fonseca

A DIFERENÇA

O princípio orientador de Wilhelm von Humboldt era que deveria existir a máxima liberdade no ensino e na religião no seio de um Estado mínimo. Dentro desse Estado, o indivíduo era tudo, portanto, o ensino era tudo. O objectivo final do ensino era «uma formação completa da personalidade humana… o desenvolvimento mais elevado e mais proporcional dos poderes do indivíduo para formar um todo pleno e consistente». Esse todo pleno e consistente conjugava dois ideais tipicamente alemães: «Wissenschaft» e «Bildung». «Wissenschaft» era a ideia da aprendizagem como um processo dinâmico continuamente renovado e enriquecido pela investigação científica e o pensamento independente, de modo que cada aluno contribuísse para a totalidade do conhecimento cujo progresso não tinha fim.

O conhecimento era evolutivo e, com ele, vinha a «Bildung», a evolução do próprio estudioso.

Era precisamente o oposto da aprendizagem por memorização.

 

In «EU SOU DINAMITE – a vida de Friedrich Nietzsche», Sue Prudeaux, Círculo Leitores, 1ª edição, Abril 2019, pág. 42 e seg.

 

Wilhelm von Humboldt foi o responsável pela reordenação do ensino alemão (vários Estados do Bund) entre 1808 e 1812

Para saber mais, ver, por exemplo, em

https://pt.wikipedia.org/wiki/Wilhelm_von_Humboldt

Este método de ensino foi posteriormente adoptado pelos EUA e pelo Japão. Pena que em Portugal nos tenhamos mantido tempo de mais no medievalismo da memorização. Talvez hoje não fossemos apenas mais um dentre os países do sul europeu.

Julho de 2019

 

Henrique Salles da Fonseca

SANTO ALEIXO DE EDESSA

Ficou conhecido por «Santo Aleixo de Roma» mas diz-se… diz-se tanta coisa que alguma há-de ser verdade…

… que Aleixo era filho único de rica família romana e que fugiu na véspera do casamento que lhe tinha sido arranjado. Disfarçado de mendigo, foi até Edessa – norte da Mesopotâmia, sudeste da Anatólia – por onde ficou esmoler e contemplativo. Até que foi apontado como «homem de Deus» e fugiu novamente, desta feita de regresso a Roma. Aí chegado, mantendo o anonimato, juntou-se aos mendigos que viviam sob as escadas da casa da sua própria família. Só terá sido identificado postumamente e… de nada há registos, tudo não passa de «diz-se, diz-se». E uma vez que até os milagres que alguém lhe atribuiu não foram suficientemente estudados para merecerem reconhecimento formal, Aleixo foi retirado do hagiológio romano. Tudo a cheirar a peta, portanto. E porquê “Aleixo de Roma” se foi em Edessa que lhe elogiaram a contemplação e em Roma que o apearam dos altares?

Mas a Igreja Ortodoxa mantém-lhe o culto enquanto nós, em Portugal, mantemos-lhe apenas alguma toponímia e fazemos bonecos com o seu nome, os «bonecos de Santo Aleixo». Tudo profano, nada de muito sério.

bonecos de santo aleixo.png

 

* * *

E assim chagamos ao Alexis Tsipras agora apeado do mando em Atenas onde chegara por descrédito dos antecessores e por ter mentido com quantos dentes tinha. A diferença entre este Alexis e o seu onomástico do hagiológio ortodoxo está em que o «Santo» não mentiu, apenas se limitou a fugir das ribaltas que lhe preparavam enquanto o dito Tsipras baseou toda a sua acção na mentira contínua fazendo por esquecer que nem na política se pode mentir por muito tempo e a muita gente em simultâneo.

E que mentiras ferrou ele e a quem?

Ao contrário do Dr. Costa que mente cá dentro levando os «geringonciados» ao engano com orçamentos bem folclóricos logo regados com cascatas de cativações, Tsipras mentiu sempre para fora fazendo orçamentos todos aperaltadinhos com a vontade dos credores internacionais e, virando-se para dentro da Praça Syntagma, dizendo aos seus que o regabofe podia continuar. Mas era claro que não podia continuar e foi só a Alemanha encontrar soluções para os seus próprios problemas (Deutsche Bank, zum beispiel) e a mentira grega teria que cair. Ou seja, Tsipras teve que entrar pela austeridade e… caiu.

A mentira é viciosa e auto-multiplicativa pelo que é absurdo alguém dela se servir como base estratégica duma qualquer política.

Alexis Tsipras, um mentiroso, já caiu.

Quem é o mentiroso que se segue?

A questão portuguesa é tão simples como isto:

- O Governo tenta manter a «geringonça» e leva o país direitinho de regresso à bancarrota;

- O Governo tenta resolver o problema do país e fica sem «geringonça».

Ou será que a democracia deixou de ser compatível com a verdade? É que se essa hipótese se colocar, esse, sim, será um problema muito grave pois a alternativa será entre democracia e demagogia. E é historicamente sabido que as sociedades entram em convulsão quando a demagogia impera e alguém decide pôr-lhe fim.

E de nada vale invocar Santo Aleixo já que esse, sabemos nós, tem muito quem minta por ele.

Julho de 2019

Henrique Salles da Fonseca

DAMÁSIO NA RTP

Chegou-me há pouco um vídeo de uma entrevista concedida pelo Professor António Damásio à RTP na qual o ilustre neurologista é conduzido pelo entrevistador a afirmar que «as redes sociais são um perigo para a democracia».

Mas é claro que uma pessoa do gabarito do Professor Damásio, não se deixa influenciar por opiniões alheias e só afirma o que efectivamente quer afirmar.

Ou seja, o Professor Damásio acha que as redes sociais são um perigo para a democracia. E justifica essa opinião pelo facto de aparecerem muitas opiniões «rápidas, não ponderadas», que facilmente entram em conflito com outras opiniões igualmente imponderadas criando climas de crispação que não existiriam caso as opiniões fossem menos espontâneas, ou seja, mais pensadas.

Confesso que não esperava este tipo de argumentação. Esta, sim, parece-me excessivamente rápida e pouco sólida para quem nos habituou a uma assíntota na escala racional muito mais alta do que a do comum dos mortais. Esperava eu que o Professor nos dissesse algo do género de que o excesso de intensidade e de duração da actividade cerebral pudesse pôr em causa a saúde dos contendores ou «coisa» equivalente do seu foro científico; não esperava que se introduzisse pelo campo da técnica da retórica, matéria acessível a espíritos muito menos dotados do que o do ilustre entrevistado.

À falta, pois, de argumentos cientificamente oportunos nesta circunstância, permito-me discordar do Professor Damásio uma vez que me sinto absolutamente tranquilo para «discutir» com ele em matéria profana, acessível aos banais.

Então, eis a antítese:

- As redes sociais não põem a democracia em causa e são mesmo um novo expoente da democracia.

Dando voz directa ao cidadão comum na praça pública, as redes sociais permitem a ultrapassagem dos políticos profissionais, dos «opinion makers» mais ou menos encartados, à comunicação social como ela se habituou a existir controlando «rebanhos dóceis» de leitores, ouvintes e telespectadores.

De facto, em momentos de stress, foram já várias as vezes em que nas redes sociais se geraram movimentos não controlados por centrais sindicais, Partidos políticos, jornais, rádios ou televisões e em momentos menos stressantes, opiniões houve (e continua a haver) que vingaram e fizeram com que o establishment se sentisse ultrapassado.

Identificada a «corporação estabelecida» ou a «established corporatrion», que assim se sente em «maus lençóis», passemos à questão do populismo.

Aí vai então o establishment a correr a bradar que é o populismo a ganhar força. Então, a questão é a de saber se o que eles, os do establishment, fazem não é populismo. É claro que sim! Os políticos para ganharem votos, os jornalistas para ganharem audiências e, daí, publicidade, os opinion makers para ganharem avenças dos órgãos de comunicação ou lobbies a quem facturam, ou para ganharem ego se forem apenas vaidosos, todos querem ser ouvidos pelo maior número possível de leitores, ouvintes, especrtadores… E isso, o que é a não ser populismo? Falam apenas para ilustres membros de Academias? Falam apenas para os «camarotes» ou falam sobretudo para os «galinheiros»?

Dir-me-ão que os do establishment não querem derrubar a democracia e que os populistas sim, pretendem usufruir da liberdade que a democracia proporciona para a derrubarem. Ao que respondo que isso não passa duma falácia ou de um sofisma pois qualquer sistema democrático tem a obrigação de possuir um quadro legal que lhe permita defender-se desse tipo de ataques não fazendo sentido adjectivar de populista todo aquele que se expressa fora dos canais mais tradicionais, nomeadamente nas redes sociais.

Portanto, as redes sociais, por si próprias, não põem em causa a democracia e, pelo contrário, dando voz directa ao cidadão comum na «praça pública», são um expoente da democracia directa, a que não carece de intermediários. E esse é o problema de quem está habituado a dirigir a opinião pública pois sente que o tapete lhe foge de baixo dos pés.

E mais: ainda havemos um dia destes de entrar na discussão mais melindrosa que é a da representação parlamentar e estatuto do Deputado.

Para concluir, uma pergunta (com resposta) e um pedido:

PERGUNTA – Lá em casa, a faca serve para barrar o pão de manteiga ou para assassinar o vizinho? (assim é o uso que se faz das redes sociais)

PEDIDO – Senhor Professor António Damásio, apareça para nos ensinar nos temas em que é exímio mas deixe a trivialidade para nós, os que não chegamos à assintota de Vossa Excelência.

Julho de 2019

Henrique da Salles Fonseca

A ÉTICA DE UNS…

…e o hedonismo de outros

 

Eu tenho a sorte de ser neto de Tomás da Fonseca (1877 - 1968), esse vulto da cultura portuguesa do séc. XX, que se dizia ateu.

E porquê?

Porque «a ultrapassagem do metafísico pelo positivo só se sustentou enquanto este último viveu da herança dos estádios anteriores (teológico e metafísico). Porém, o sucessivo afastamento e descuido em relação àquelas fontes deixou-o animicamente esvaído e eticamente desamparado».

O primeiro parágrafo deste raciocínio de D. Manuel Clemente a págs. 40 e seg. do seu livro “PORQUÊ E PARA QUÊ – Pensar com esperança o Portugal de hoje” assenta como uma luva ao meu avô e o segundo assenta como uma palmatória à geração pós-moderna actual.

Tomás da Fonseca dir-se-ia ateu mas viveu sempre numa irrepreensível ética cristã de solidariedade e benevolência, na autêntica compaixão para com o próximo, de honradez e de trabalho. Dominava com destreza a Teologia mas nunca se deu bem com o dogma. Contudo, a luta que travou foi contra o domínio clerical da sociedade portuguesa em que nasceu e em que se fez homem.

No início do século XX, a sociedade rural do interior de Portugal vivia numa quase hierocracia e foi contra esse domínio que ele fez a batalha da sua vida.

Perante perfil absolutamente ético, creio necessário que, para remissão do pós-modernismo que nos vem sendo imposto e tem conduzido a juventude ao mais refinado hedonismo, haja «uma síntese a empreender para nos retomarmos como humanidade e com o que aprendemos entretanto» (op. cit).

A minha sorte é a de ter testemunhado o exemplo do meu avô – e o do meu pai – por contraste com os que julgam que tudo lhes é devido sem esforço e que nas crises reais ou imaginadas se sentem «à rasca». É que a crise pode ser real, exógena ao indivíduo, mas a pior de todas é a endógena, a que corresponde à falta do sentido ético, a do «quero tudo», a que sobrepõe o ter ao ser.

No transe, os profissionais da demagogia também deviam fazer uma pausa, caso ainda possuam parâmetros que lhes permitam distinguir o bem e o mal, tenham algum conceito de bem-comum e tenham a coragem de afirmar que a liberdade de cada um acaba onde começa a do vizinho. E mais: a liberdade democrática tanto reconhece direitos como exige o cumprimento de deveres. Mas isso já deve ser pedir muito a quem quer ganhar votos…

Henrique Salles da Fonseca

ELES ANDAM POR AÍ…

Foi Raymond Aron que, a págs. 91 da edição portuguesa das suas “Memórias”, me champu a atenção para o facto de a prevalência histórica do capitalismo sobre o determinismo histórico marxista ter esvaziado a Europa ocidental da revolução proletária, o que conduziu Herbert Marcuse – que viria a ser considerado o principal ideólogo do Maio de 68 - a virar-se para os contestatrários que prevaleciam, mesmo que numa sociedade em permanente mutação, isto é, os que rejeitavam os apelos do consumo e a integração na sociedade capitalista moderna.

Herbert_Marcuse_in_Newton,_Massachusetts_1955_jpeg

Herbert Marcuse (1898-1979)

E a partir desta chamada de atenção, procurei alguma informação mais e fiquei a saber que Marcuse viu, ainda que com certa cautela,  naquele “substrato de párias e estranhos, de explorados e perseguidos”, que se somavam aos guerrilheiros do terceiro-mundo,  uma possível esperança do sistema capaz de atenuar o seu pessimismo revolucionário.”

Contentes ou não, pareciam-lhe os únicos capazes de tirar os jóvens da acomodação, de sacudirem a sua falsa consciência social. Eram uma força elementar que violava as regras do jogo e ocupava o papel de povo eleito no novo messianismo libertário.

O filósofo pugnou por um novo principio da realidade assente noutras formas produtivas [1] que não aquelas que então imperavam nos EUA e defendeu  que a progressiva liberdade sexual dos anos 60 era uma artimanha capitalista para tornar a juventude conformista e acomodada com a vida. O sexo, assim como era entendido naquela época, era o ópio da juventude. Marcuse parecia ter chegado a acreditar ser possível chegar-se à utopia.

Não alcançada a utopia, a tecnologia trazia, pela exigência excessiva de racionalidade, um enorme potencial totalitário.  O avanço tecnologico, mesmo que pervertido pelos sucessivos Governos para gerar desperdício, consumo conspícuo e armamentos, poderia ser resgatado para a construção de uma nova utopia, a de uma sociedade harmoniosa habitada por gente feliz, saudável,  libertada das opressões viciosas que a cercavam. Este, o seu horizonte histórico, a sua utopia.

Passados muitos anos dessas profecias e “utopias” e desde a sua morte em 1979, Marcuse, tido por “pai da nova esquerda", desapareceu dos fora académicos e dos internacionais. Mas…

… eles andam por aí,«bloqueados», por muito que seja o irrealismo das utopias.

Com a diferença de que os nossos marcusianos actuais não são aquele substrato de párias, estranhos, explorados e perseguidos que se somam aos guerrilheiros do terceiro-mundo. Os nossos bloquistas são intelectuais maduros mas claramente adeptos da «grande recusa», são potencialmente destrutivos e seguramente utópicos.

É uma pena haver tantos outros, não-bloquistas, a darem-lhes argumentos morais, éticos e legais para a sanha destruidora que os move.

Enfim, uns e outros, empenhados na destruição da nossa sociedade, também ela harmónica e não rancorosa, democrática e não dogmática, solidária e não leonina, de liberdade e sem espartilhos ideológicos que nós, os vulgares, afanosamente tentamos tecer.

É que, afinal, o «Bloco de Equerda» existe por culpa dos maus exemplos de quem se serve do Estado em vez de servir a Nação.

Aturemo-los… mas urge dar uma volta à democracia portuguesa.

Junho de 2019

Henrique Salles da Fonseca

BIBLIOGRAFIA:

Voltaire Schilling - «Marcuse , o apóstolo da Grande Recusa»

https://www.terra.com.br/noticias/educação/historia/

 

[1] - Procurei debalde informação sobre que novas formas Marcuse propunha.

BOM VERÃO!

Solstício de Verão em Stonehenge.jpg

 

Será que a comunicação é viciante?

Já tive mais certezas negativas sobre essa hipótese; há tempos negaria a pés juntos que o fosse; hoje, estou em crer que a comunicação é algo mais do que um gosto ou mesmo mais do que um hábito (virtuoso, claro). Mas admito que possa criar dependência e, em consequência, deixar de olhar para a qualidade dos conteúdos e passar para a preocupação de assegurar uma visibilidade constante. Só que isso pode arrastar o comunicador para aquilo a que vulgarmente se chama «encher chouriços», ou seja, publicar «coisas» só para não perder o «tempo de antena», mesmo que nada de especial tenha para dizer.

São vários os políticos que parece assim agirem no pressuposto de que «o fundamental é aparecer» para que o eleitor os não esqueçam. Sofisma, claro. Aparecer por aparecer só para não ser esquecido pode muito naturalmente levar à criação da ideia de que esse tal comunicador não passa de um «fala barato», de alguém que «não interessa nem ao Menino Jesus».

É, pois, evidente o prejuízo que a ânsia da comunicação pode provocar a quem não se sabe conter, a quem padece de verborreia ou de excesso de ego.

Até porque «quem muito fala pouco acerta», «pela boca morre o peixe» e ao abrir muito a boca «ou entra mosca ou sai asneira».

Portanto, na mente senso, na língua tento.

Votos de bom Verão para quem me lê!

 

No dia do Solstício de Verão de 2019

Henrique Salles da Fonseca

DA ÉTICA

 

A ultrapassagem do metafísico pelo positivo só se sustentou enquanto este último viveu da herança dos estádios anteriores (teológico e metafísico). Porém, o sucessivo afastamento e descuido em relação àquelas fontes deixou-o animicamente esvaído e eticamente desamparado.

 

Este raciocínio de D. Manuel Clemente a págs. 40 e seg. do seu livro “PORQUÊ E PARA QUÊ – Pensar com esperança o Portugal de hoje” assenta como uma luva à geração pós-moderna actual.

 

Contudo, a ética cristã de solidariedade e benevolência para com o próximo (muito próxima da compaixão budista), de honradez e de trabalho, tem uma versão laica que pergunta, com enorme simplicidade, «o que é que eu posso fazer por ti sem o prejudicar a ele, esse terceiro que nem sequer conheço?». E esta atitude não carece de fundamento teológico pelo que é perfeitamente aplicável a quem se diz afastado das religiões. Ou seja, estar longe das religiões não é argumento para ignorar o princípio ético.

 

No início do século XX, a sociedade portuguesa vivia numa quase hierocracia e foi contra esse domínio que a laicização da ética tentou abrir caminho. Mas não terá conseguido vingar no ambiente de iliteracia que então reinava e hoje, passado um século, continuamos a padecer das consequências desse desencontro.

 

Uma população tutelada pela ameaça da ira divina, não teve arcaboiço para se harmonizar eticamente sem tutela num espaço que se pretendia republicano, responsável. Aos portugueses, iletrados e habituados a uma estrutura social muito parametrizada, foi então pedido (exigido, imposto?) que assumissem uma plena cidadania. Mas, na verdade, nada lhes foi pedido: foi-lhes consumado o facto e, desenquadrados, deixados entregues a si próprios, abandonados.

 

E como as elites republicanas se limitaram a copiar as homólogas monárquicas que as tinham antecedido digladiando-se em lutas renhidas pelo Poder, o vulgo continuou ignaro, não opôs resistência quando o mandaram morrer na Flandres, no sul da Angola e no norte de Moçambique assim como também não fez «cara feia» quando apareceu alguém disposto a pôr ordem onde se instalara a desavença constante, o «tira-te tu para me pôr eu», a falência.

 

Seguiu-se nova parametrização social, rigor financeiro, resfriamento das vontades que se apresentavam aquecidas. Essa parametrização durou 40 anos. Tantos como agora levamos de militância pós-moderna, a herdeira do niilismo.

 

Se não quisermos continuar na senda da desintegração social, a ignorar a solidariedade estruturante da sociedade civil e a insistir na troca do ser pelo ter, devemos parar um pouco para refrectir se merecemos a liberdade de que queremos usufruir. Para isso, temos que interiorizar a síntese do humanismo, da solidariedade, da compaixão.

Tenho esta como a questão portuguesa histórica e sociologicamente mais pertinente:

  • Na perspectiva singular, individual – a ética da compaixão – na dimensão do «eu, tu, ele»: «O que é que eu posso fazer por ti sem o prejudicar a ele, esse terceiro que eventualmente nem sequer conhecemos?»;
  • Na perspectiva plural, colectiva – a ética do Sentido de Estado – na dimensão do «nós, vós, eles»: «O que é que nós podemos fazer por vós sem os prejudicar a eles, esses terceiros que eventualmente nem sequer conhecemos?»

 

Temo que essa síntese não esteja suficientemente assumida pela generalidade dos cidadãos mas urge promove-la antes que por aí apareça alguma sharia que nos seja imposta por estranhos radicais.

 

 Então, regressemos à ética antes que seja tarde.

 

Junho de 2019

 

Henrique Salles da Fonseca

 

DE COSTAS PARA A DEMOCRACIA

Era Napoleão que dizia algo como «os espíritos superiores discutem ideias, os medíocres discutem factos e os menores discutem pessoas».

Colhe assim a pergunta sobre o que por cá abordam actualmente as discussões políticas. Triste resposta… geralmente, são as pessoas que centram as discussões que conduzem à citação de factos, mas as ideias que se discutem têm quase sempre a ver com as intenções dos citados, ou seja, os ilícitos denunciados; ideias de substância, das que geram políticas, quase nunca são referidas. Então, como chegámos a uma situação em que a política é uniforme para todos os Partidos do arco democrático, nada há a discutir porque, entre eles, só mudam as pessoas, as suas pertenças e seus interesses clubistas.

E os eleitores sentem-se marginalizados na discussão sobre a partilha de interesses que não lhes respeitam, desmotivam-se, metem todos os políticos no mesmo «saco de gatos assanhados», no dia das eleições vão para a praia e dão a vitória ao maior Partido português, o da abstenção.

Todavia, há muito que discutir ou, pelo menos, recordar aos eleitores como sejam as alternativas ao que cada Partido político entende por bem-comum. E essa, sim, seria por certo uma remotivação do eleitorado.

Bem comum.jpg

 

Por exemplo, apenas na perspectiva económica, a proposta comunista em que tudo pertence ao Estado, a dos socialistas em que os sectores estratégicos são necessariamente públicos, a dos sociais democratas em que a propriedade dos meios de produção é privada mas o interesse público é ressarcido por forte tributação, a dos democrata cristãos que preferem a economia privada mas com grandes preocupações sociais.

Se os eleitores fossem confrontados com alternativas ideológicas, fariam opções conscientes, não lhes seria indiferente votar neste ou naquele, num qualquer «gato assanhado» que apenas por ali ande a defender o próprio «tacho».

Para remotivar o eleitor não o deixando continuar de costas voltadas para a democracia, é fundamental salvar o regime trazendo para a discussão pública o que cada Partido entende ser o bem-comum até porque não podemos ser obrigados a uma única política definida em Bruxelas.

Junho de 2019

Henrique Salles da Fonseca

A QUEIXA PROTO FASCISTA

Foi aos gritos de «Liberdade, liberdade» que se criou o espírito individualista libertário o qual tem como axioma o «Princípio da Não-Agressão», ou seja, «que nada me limite» - eis o igualitarismo anarquista.

 

Perante o igualitarismo em que a ninguém é reconhecido qualquer estatuto distintivo, vence o individualismo, todos têm razão, tudo o que se apresente difícil é considerado antidemocrático. Onde impera o individualismo, não há coesão social, todos se sentem desamparados. Mas o desamparo é desconfortável. O desconforto gera a queixa e sempre acaba por conduzir à busca de soluções para se regressar a alguma situação assemelhável a conforto.

 

Assim se reúnem os ingredientes suficientes para que apareça um caudilho com promessas cujos méritos os desamparados não querem sequer questionar. Ela aí está, a ditadura, a sempre radical, a que gera a violência pela via do capricho do ditador, capricho esse que assume a força de Lei.

 

Por antítese ao Estado de Direito, ao capricho do ditador se chama fascismo.

Sidónio  Pais.jpg

 

Eis por que…

  • Urge repor o sentido da responsabilidade social e a formação política como missão essencial dos Partidos democráticos se não quisermos cair no fascismo

 

Junho de 2019

 

Henrique Salles da Fonseca

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  207. N
  208. D