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A bem da Nação

ELES ANDAM POR AÍ…

Foi Raymond Aron que, a págs. 91 da edição portuguesa das suas “Memórias”, me champu a atenção para o facto de a prevalência histórica do capitalismo sobre o determinismo histórico marxista ter esvaziado a Europa ocidental da revolução proletária, o que conduziu Herbert Marcuse – que viria a ser considerado o principal ideólogo do Maio de 68 - a virar-se para os contestatrários que prevaleciam, mesmo que numa sociedade em permanente mutação, isto é, os que rejeitavam os apelos do consumo e a integração na sociedade capitalista moderna.

Herbert_Marcuse_in_Newton,_Massachusetts_1955_jpeg

Herbert Marcuse (1898-1979)

E a partir desta chamada de atenção, procurei alguma informação mais e fiquei a saber que Marcuse viu, ainda que com certa cautela,  naquele “substrato de párias e estranhos, de explorados e perseguidos”, que se somavam aos guerrilheiros do terceiro-mundo,  uma possível esperança do sistema capaz de atenuar o seu pessimismo revolucionário.”

Contentes ou não, pareciam-lhe os únicos capazes de tirar os jóvens da acomodação, de sacudirem a sua falsa consciência social. Eram uma força elementar que violava as regras do jogo e ocupava o papel de povo eleito no novo messianismo libertário.

O filósofo pugnou por um novo principio da realidade assente noutras formas produtivas [1] que não aquelas que então imperavam nos EUA e defendeu  que a progressiva liberdade sexual dos anos 60 era uma artimanha capitalista para tornar a juventude conformista e acomodada com a vida. O sexo, assim como era entendido naquela época, era o ópio da juventude. Marcuse parecia ter chegado a acreditar ser possível chegar-se à utopia.

Não alcançada a utopia, a tecnologia trazia, pela exigência excessiva de racionalidade, um enorme potencial totalitário.  O avanço tecnologico, mesmo que pervertido pelos sucessivos Governos para gerar desperdício, consumo conspícuo e armamentos, poderia ser resgatado para a construção de uma nova utopia, a de uma sociedade harmoniosa habitada por gente feliz, saudável,  libertada das opressões viciosas que a cercavam. Este, o seu horizonte histórico, a sua utopia.

Passados muitos anos dessas profecias e “utopias” e desde a sua morte em 1979, Marcuse, tido por “pai da nova esquerda", desapareceu dos fora académicos e dos internacionais. Mas…

… eles andam por aí,«bloqueados», por muito que seja o irrealismo das utopias.

Com a diferença de que os nossos marcusianos actuais não são aquele substrato de párias, estranhos, explorados e perseguidos que se somam aos guerrilheiros do terceiro-mundo. Os nossos bloquistas são intelectuais maduros mas claramente adeptos da «grande recusa», são potencialmente destrutivos e seguramente utópicos.

É uma pena haver tantos outros, não-bloquistas, a darem-lhes argumentos morais, éticos e legais para a sanha destruidora que os move.

Enfim, uns e outros, empenhados na destruição da nossa sociedade, também ela harmónica e não rancorosa, democrática e não dogmática, solidária e não leonina, de liberdade e sem espartilhos ideológicos que nós, os vulgares, afanosamente tentamos tecer.

É que, afinal, o «Bloco de Equerda» existe por culpa dos maus exemplos de quem se serve do Estado em vez de servir a Nação.

Aturemo-los… mas urge dar uma volta à democracia portuguesa.

Junho de 2019

Henrique Salles da Fonseca

BIBLIOGRAFIA:

Voltaire Schilling - «Marcuse , o apóstolo da Grande Recusa»

https://www.terra.com.br/noticias/educação/historia/

 

[1] - Procurei debalde informação sobre que novas formas Marcuse propunha.

BOM VERÃO!

Solstício de Verão em Stonehenge.jpg

 

Será que a comunicação é viciante?

Já tive mais certezas negativas sobre essa hipótese; há tempos negaria a pés juntos que o fosse; hoje, estou em crer que a comunicação é algo mais do que um gosto ou mesmo mais do que um hábito (virtuoso, claro). Mas admito que possa criar dependência e, em consequência, deixar de olhar para a qualidade dos conteúdos e passar para a preocupação de assegurar uma visibilidade constante. Só que isso pode arrastar o comunicador para aquilo a que vulgarmente se chama «encher chouriços», ou seja, publicar «coisas» só para não perder o «tempo de antena», mesmo que nada de especial tenha para dizer.

São vários os políticos que parece assim agirem no pressuposto de que «o fundamental é aparecer» para que o eleitor os não esqueçam. Sofisma, claro. Aparecer por aparecer só para não ser esquecido pode muito naturalmente levar à criação da ideia de que esse tal comunicador não passa de um «fala barato», de alguém que «não interessa nem ao Menino Jesus».

É, pois, evidente o prejuízo que a ânsia da comunicação pode provocar a quem não se sabe conter, a quem padece de verborreia ou de excesso de ego.

Até porque «quem muito fala pouco acerta», «pela boca morre o peixe» e ao abrir muito a boca «ou entra mosca ou sai asneira».

Portanto, na mente senso, na língua tento.

Votos de bom Verão para quem me lê!

 

No dia do Solstício de Verão de 2019

Henrique Salles da Fonseca

DA ÉTICA

 

A ultrapassagem do metafísico pelo positivo só se sustentou enquanto este último viveu da herança dos estádios anteriores (teológico e metafísico). Porém, o sucessivo afastamento e descuido em relação àquelas fontes deixou-o animicamente esvaído e eticamente desamparado.

 

Este raciocínio de D. Manuel Clemente a págs. 40 e seg. do seu livro “PORQUÊ E PARA QUÊ – Pensar com esperança o Portugal de hoje” assenta como uma luva à geração pós-moderna actual.

 

Contudo, a ética cristã de solidariedade e benevolência para com o próximo (muito próxima da compaixão budista), de honradez e de trabalho, tem uma versão laica que pergunta, com enorme simplicidade, «o que é que eu posso fazer por ti sem o prejudicar a ele, esse terceiro que nem sequer conheço?». E esta atitude não carece de fundamento teológico pelo que é perfeitamente aplicável a quem se diz afastado das religiões. Ou seja, estar longe das religiões não é argumento para ignorar o princípio ético.

 

No início do século XX, a sociedade portuguesa vivia numa quase hierocracia e foi contra esse domínio que a laicização da ética tentou abrir caminho. Mas não terá conseguido vingar no ambiente de iliteracia que então reinava e hoje, passado um século, continuamos a padecer das consequências desse desencontro.

 

Uma população tutelada pela ameaça da ira divina, não teve arcaboiço para se harmonizar eticamente sem tutela num espaço que se pretendia republicano, responsável. Aos portugueses, iletrados e habituados a uma estrutura social muito parametrizada, foi então pedido (exigido, imposto?) que assumissem uma plena cidadania. Mas, na verdade, nada lhes foi pedido: foi-lhes consumado o facto e, desenquadrados, deixados entregues a si próprios, abandonados.

 

E como as elites republicanas se limitaram a copiar as homólogas monárquicas que as tinham antecedido digladiando-se em lutas renhidas pelo Poder, o vulgo continuou ignaro, não opôs resistência quando o mandaram morrer na Flandres, no sul da Angola e no norte de Moçambique assim como também não fez «cara feia» quando apareceu alguém disposto a pôr ordem onde se instalara a desavença constante, o «tira-te tu para me pôr eu», a falência.

 

Seguiu-se nova parametrização social, rigor financeiro, resfriamento das vontades que se apresentavam aquecidas. Essa parametrização durou 40 anos. Tantos como agora levamos de militância pós-moderna, a herdeira do niilismo.

 

Se não quisermos continuar na senda da desintegração social, a ignorar a solidariedade estruturante da sociedade civil e a insistir na troca do ser pelo ter, devemos parar um pouco para refrectir se merecemos a liberdade de que queremos usufruir. Para isso, temos que interiorizar a síntese do humanismo, da solidariedade, da compaixão.

Tenho esta como a questão portuguesa histórica e sociologicamente mais pertinente:

  • Na perspectiva singular, individual – a ética da compaixão – na dimensão do «eu, tu, ele»: «O que é que eu posso fazer por ti sem o prejudicar a ele, esse terceiro que eventualmente nem sequer conhecemos?»;
  • Na perspectiva plural, colectiva – a ética do Sentido de Estado – na dimensão do «nós, vós, eles»: «O que é que nós podemos fazer por vós sem os prejudicar a eles, esses terceiros que eventualmente nem sequer conhecemos?»

 

Temo que essa síntese não esteja suficientemente assumida pela generalidade dos cidadãos mas urge promove-la antes que por aí apareça alguma sharia que nos seja imposta por estranhos radicais.

 

 Então, regressemos à ética antes que seja tarde.

 

Junho de 2019

 

Henrique Salles da Fonseca

 

DE COSTAS PARA A DEMOCRACIA

Era Napoleão que dizia algo como «os espíritos superiores discutem ideias, os medíocres discutem factos e os menores discutem pessoas».

Colhe assim a pergunta sobre o que por cá abordam actualmente as discussões políticas. Triste resposta… geralmente, são as pessoas que centram as discussões que conduzem à citação de factos, mas as ideias que se discutem têm quase sempre a ver com as intenções dos citados, ou seja, os ilícitos denunciados; ideias de substância, das que geram políticas, quase nunca são referidas. Então, como chegámos a uma situação em que a política é uniforme para todos os Partidos do arco democrático, nada há a discutir porque, entre eles, só mudam as pessoas, as suas pertenças e seus interesses clubistas.

E os eleitores sentem-se marginalizados na discussão sobre a partilha de interesses que não lhes respeitam, desmotivam-se, metem todos os políticos no mesmo «saco de gatos assanhados», no dia das eleições vão para a praia e dão a vitória ao maior Partido português, o da abstenção.

Todavia, há muito que discutir ou, pelo menos, recordar aos eleitores como sejam as alternativas ao que cada Partido político entende por bem-comum. E essa, sim, seria por certo uma remotivação do eleitorado.

Bem comum.jpg

 

Por exemplo, apenas na perspectiva económica, a proposta comunista em que tudo pertence ao Estado, a dos socialistas em que os sectores estratégicos são necessariamente públicos, a dos sociais democratas em que a propriedade dos meios de produção é privada mas o interesse público é ressarcido por forte tributação, a dos democrata cristãos que preferem a economia privada mas com grandes preocupações sociais.

Se os eleitores fossem confrontados com alternativas ideológicas, fariam opções conscientes, não lhes seria indiferente votar neste ou naquele, num qualquer «gato assanhado» que apenas por ali ande a defender o próprio «tacho».

Para remotivar o eleitor não o deixando continuar de costas voltadas para a democracia, é fundamental salvar o regime trazendo para a discussão pública o que cada Partido entende ser o bem-comum até porque não podemos ser obrigados a uma única política definida em Bruxelas.

Junho de 2019

Henrique Salles da Fonseca

A QUEIXA PROTO FASCISTA

Foi aos gritos de «Liberdade, liberdade» que se criou o espírito individualista libertário o qual tem como axioma o «Princípio da Não-Agressão», ou seja, «que nada me limite» - eis o igualitarismo anarquista.

 

Perante o igualitarismo em que a ninguém é reconhecido qualquer estatuto distintivo, vence o individualismo, todos têm razão, tudo o que se apresente difícil é considerado antidemocrático. Onde impera o individualismo, não há coesão social, todos se sentem desamparados. Mas o desamparo é desconfortável. O desconforto gera a queixa e sempre acaba por conduzir à busca de soluções para se regressar a alguma situação assemelhável a conforto.

 

Assim se reúnem os ingredientes suficientes para que apareça um caudilho com promessas cujos méritos os desamparados não querem sequer questionar. Ela aí está, a ditadura, a sempre radical, a que gera a violência pela via do capricho do ditador, capricho esse que assume a força de Lei.

 

Por antítese ao Estado de Direito, ao capricho do ditador se chama fascismo.

Sidónio  Pais.jpg

 

Eis por que…

  • Urge repor o sentido da responsabilidade social e a formação política como missão essencial dos Partidos democráticos se não quisermos cair no fascismo

 

Junho de 2019

 

Henrique Salles da Fonseca

AULA PRESIDENCIAL À NAÇÃO

Marcelo.jpg

Discurso do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa

em 25 de Abril de 2019

 

Passaram já 45 anos. 45 anos volvidos, que o rito se repita, que seja mais do que um rito. Que seja memória, que seja gratidão, que seja esperança, que testemunhemos aos resistentes de décadas, que testemunhemos aos jovens militares de então o nosso indelével reconhecimento. Aos que partiram, aos que permanecem entre nós, aos que nunca esquecerão o que fizeram, aos que, além disso, continuam a sonhar com um futuro melhor para Portugal.

 

Dir-se-ia que foi ontem, mas passaram já 45 anos. E há 45 anos quais eram as expectativas, os anseios, os desafios, as causas dos jovens de Portugal? Desse Portugal também jovem, apesar do milhão que havia votado com os seus pés, emigrando, recusando a vida sem liberdade, sem mais desenvolvimento, sem maior justiça social. Lembramos bem o que nos unia, a nós jovens, dos mais opostos pensamentos na alvorada da mudança. Unia-nos democracia em vez de ditadura. Liberdade em vez de repressão. Desenvolvimento integral e justiça social mais partilhada em vez de desigualdade económica, descriminação social, taxas confrangedoras de mortalidade infantil, de escolaridade e de infraestruturas básicas. Paz em África em vez de empenhamento militar sem solução política. Isto nos unia.

 

Muito do mais nos dividia. Os contornos concretos do regime político, o sistema de governo, a visão sobre a Europa e do Mundo, o papel do Estado, pessoas e organizações, o caminho, o fim, o ritmo da Revolução, o alcance da Constituição e como ela se devia conjugar com a Revolução, prolongando-a, moderando-a ou conformando-a. E como sempre acontece com as revoluções, cada qual cadinho de muitas, muito diversas, uns veriam os seus desígnios triunfar no instante inicial. Alguns, em vários trechos do percurso. Outros, na primeira versão da lei fundamental, outros ainda no somatório das revisões que a foram moldando a novos tempos e a novos modos. Em rigor, dos jovens de 74 nenhum pode dizer ter visto vencer tudo o que queria para o seu e nosso futuro.

 

Mas olhando ao caminho trilhado, justo é convir que todos acabaram por ver muito do essencial do seu denominador comum atingido. Portugal passou de ditadura para democracia, alargou-se a novos universos, tempos e modos. Superou indicadores de educação, de saúde, de habitação, de infraestruturas básicas, de Segurança Social, que condenavam à insuficiente produção educativa, à elevada mortalidade à nascença, a condições de vida e de proteção sem horizonte.

 

Construiu tudo isto com uma descolonização tardia em plena Revolução e que, por isso mesmo, desenraizaria tantos regressados e deixaria no terreno tantos anos de combates armados. Mas sabendo preparar a formação da Comunidade de Países de Língua Portuguesa e, pelo meio, começando a viver o repto da integração europeia. Ninguém ousará dizer que nessas décadas os jovens de 74 e com eles os mais antigos e os mais recentes não viveram uma aventura agitada, exigente, não linear, cheia de altos e baixos.

 

A Revolução dois anos. O arranque da democracia, primeiro com o Movimento da Forças Armadas mais seis anos. Depois, de base exclusivamente eleitoral a partir de 1982. A adesão às comunidades europeias, processo de oito anos, o lançamento da CPLP, mais onze anos. No entretanto, a aproximação do regime económico aos europeus durante quase 20 anos, dos quais inúmeros após a própria adesão.

 

Para muitas portuguesas e portugueses a descoberta da própria liberdade chegaria com a da democracia e uma e outra com a conversão de um império colonial de cinco séculos em membro de comunidades que, não sendo inéditas nas raízes, o eram nos seus contornos políticos, económicos e sociais. Claro que, no essencial, continuamos a ser o que sempre fomos. E bem, por corresponder à nossa vocação cimeira: plataforma entre culturas, civilizações, oceanos e continentes. Claro que por vezes assumimos essa viragem histórica singular que é encerrar um ciclo de cinco séculos como se de uma suave, natural e pacífica transição sem dor se tratasse. Nós, somos inexcedíveis nesse fazer de conta de que mesmo o mais difícil é fácil. E o mais profundamente diverso não passa de um subtil acidente de percurso.

 

Hoje, 45 anos depois, manda a verdade, porém que digamos, nós os jovens de 74, que continuamos a preferir a democracia, mesmo a mais imperfeita, à ditadura, mesmo a mais insensata. Que preferimos o reformismo, mesmo o mais arrojado, à rutura demagógica feita de basismos ilusórios, de messianismos de messias impossíveis, de sebastianismos de passados que não voltam.

 

Que queremos mais, muito mais, da nossa democracia social e cultural. Melhor, muito melhor da nossa democracia política e económica, mas não estamos dispostos a esquecer o que fizemos para ultrapassar barreiras, exclusões e discriminações de há quase meio-século. Esperamos mais, muito mais da Europa e da comunidade dos países falantes em português, mas não cedemos a tentações ou marginalizações serôdias, nem a xenofobias, nem a traumas pós-coloniais, seja quais forem os pretextos ou as seduções do momento.

 

Não vemos estes 45 anos como obra perfeita, completa, acabada, que nos deixe deslumbrados, auto-contemplativos, realizados, longe disso. Desejamos muito mais e muito melhor. Mas reconhecemos que valeu a pena o passo fundador. Valeu a pena o 25 de abril. Valeu a pena que mesmo aquilo ao longo das décadas custou a tantos de destinos sacrificados ou de metas ainda não realizadas. Valeu a pena. Quem o diz é um dos milhares de jovens desse início dos anos 70, então conhecedor das vicissitudes do estertor da ditadura, agora Presidente da República em democracia pelo voto dos portugueses.

 

E hoje? O que pensam? O que sentem? O que querem os jovens de 2019? Porque os regimes, em particular as democracias, não se quedam na visão dos passados, têm de saber responder aos desafios dos presentes e dos futuros. Para eles, para esses jovens, basta acenar com o existente em pós-descolonização, desenvolvimento e democracia? Ou os seus sonhos e as suas necessidades são muitíssimo mais fundos e vastos? Pós-descolonização? Sim. Visão universal? Sim. Querem-na se significar mundo mais aberto, mais dialogante, mais multilateral, mais inclusivo, mais contrário a clivagens que separem, que humilhem, que desumanizem.

 

Mas querem-no em atos, em gestos diários, em vivências quotidianas. Cá, lá, por todo o universo. Sabem que os tempos de medos explicam os fechamentos, a recusa do outro, do diferente, do estranho, mas nasceram e querem realizar-se numa universalização humana e humanizadora. Da diferença. Não sobre o protecionismo da identidade forçada nos muros impostos. E não se conte com eles para passadas ou futuras clausuras, fronteiras, prisões, interditos de circular e fazer circular pessoas, ideias e projetos de vida.

 

Democracia? Sim. [Os jovens de 2019] não querem voltar a ditaduras, mas cultivam tantas vezes uma participação diversa, amiúde inorgânica, sempre mais digital. E queixam-se da dificuldade dos sistemas tradicionais saberem lidar com essas novas formas de agir, interagir, intervir, influenciar, aspirar a decidir. Essa sua inquietude torna-se apelo atrativo para ideias, movimentos, exigências, acelerações, disfunções, que a democracia nos seus contornos mais clássicos, de outro ritmo e de outra configuração tem de compreender e de fazer conjugar sob pena de se condenar a meras formas com cada vez menos conteúdo.

 

E não se conte com eles para passadas ou futuras sobrancerias, orgânicas, obsoletas ou ineficazes, clientelismos, adiamentos crónicos face a problemas sociais.

 

Desenvolvimento para mais e maior justiça social? Sim. Mas esses objetivos gerais e abstratos, valem menos neste final da segunda década do século XXI. Valem mesmo muito pouco se não forem acompanhados de escolhas, de passos, de marcos muito concretos e visíveis. E mais rápidos. Na educação, na saúde, na solidariedade social. E não se conta com eles para passadas ou futuras indiferenças ou resignações comunitárias. Os jovens de 2019 querem, além de tudo isso, respostas inequívocas para algumas perguntas urgentes.

 

Quando e como volta Portugal a querer ser uma sociedade a rejuvenescer? Pelos que nascem e pelos que recebe de fora. Digo bem. Pelos que recebe de fora e não a envelhecer a passo estugado, permitindo finalmente a todos os jovens no seu dinamismo social, os menos jovens na sua luta contra a guetização, numa esperança coletiva renovada.

 

Quando e como esbatemos mesmo as desigualdades que ainda persistem, que continuam a minar a nossa coesão entre pessoas grupos e territórios? Sublinho, territórios. Que atrasam o desenvolvimento, esvaziam as descentralizações, juntam novos pobres aos velhos pobres.

 

Quando e como antecipamos o que aí vem nesta era de revolução digital no emprego e no trabalho perante mutações científicas e tecnológicas que vão em cinco, dez anos mudar os sistemas produtivos, dispensar pessoas ou re-arrumá-las nas suas atividades e percetivas do amanhã?

 

Como e quando conseguimos explicar aos menos jovens, e que são muitos numa sociedade a envelhecer, que há mesmo alterações climáticas, que há mesmo deveres inter-geracionais, que as purgas pela chamada sustentabilidade do desenvolvimento não são bizantinices de meia dúzia de iluminados ou agitadores, uma moda dos mais jovens, uma mera manobra conspirativa vinda de fora para beneficiar das indecisões ocidentais ou europeias?

 

A maioria destas causas não existia ou não era decisiva para os jovens de 74. Portugal era ele mesmo jovem. As desigualdades eram, de facto, mais chocantes. Mas acreditava-se que o crescimento económico, por si só, as iria resolvendo ou atenuando progressivamente. O digital era uma revolução inexistente. O futuro do trabalho e a atenção ambiental constituíam preocupações de minorias muito minoritárias. O desafio dos jovens de 25 de abril de 74 era muito nacional e muito concentrado em três objetivos cimeiros: a paz em África e por isso a descolonização, a Democracia e o Desenvolvimento vistos a prazo mais curto.

 

O desafio dos jovens de 25 de abril de 2019 é muito mais global, muito mais complexo, muito mais exigente na diversidade dos fatores de que depende e do prazo alargado que envolve. Mais ambição na democracia. Mais ambição na demografia na coesão. Mais ambição na era digital e na antecipação do futuro do emprego e do trabalho. Mais ambição na luta por um mundo sustentável. Tudo com a economia a crescer, dependência pelo endividamento a diminuir, sensatez financeira a salvaguardar, acrescida de justiça no repartir.

 

Tudo sem excluir ninguém. Nem os menos jovens, como somos hoje os jovens de 74, nem os mais jovens. Ou seja, os jovens de hoje. Parece um programa impossível? Talvez. Mas a história faz-se sempre de programas, de ideais, de sonhos impossíveis. E a história de Portugal é a história de uma pátria que nasceu impossível. Uma impossibilidade com quase 900 anos. Porque haveriam de ser as gerações de hoje as primeiras a renunciar, a construir o impossível? Porque haveríamos de ser nós, precisamente nós, a não acreditar em Portugal? Que para sempre vivam os caminhos de liberdade, democracia e dignidade das portuguesas e dos portugueses que abril desbravou, que para sempre viva Portugal.

 

COMO TERIA SIDO SE…?

Mafra-convento.jpg

 

Em Abril de 1970, na minha recruta na EPI-Escola Prática de Infantaria, em Mafra, testemunhei (sem perceber do que se tratava) a incorporação de Cadetes que até então viviam no estrangeiro.

 

Muito mais tarde, já a tropa cumprida, percebi que se tratava de exilados políticos cuja missão passaria a ser a infiltração do Exército naquilo que seria a desmoralização progressiva das forças militares que Moscovo não conseguia, pela guerrilha, vencer em Angola e em Moçambique.

 

Eles estavam politizados; nós, não.

 

Como teria sido se nós estivéssemos politizados; o que se comemoraria actualmente?

 

Não por certo a manutenção das colónias mas certamente algo de bem diferente das desgraças por que quase todos eles passaram.

 

E nós, por cá?

 

Talvez não tivéssemos que afirmar que o 25 de Abril foi um golpe de Estado comunista executado por militares ingénuos que de política nada percebiam ou que, pelo contrário, estavam super-politizados no sentido de entregarem as colónias portuguesas ao Império Soviético.

 

Não teríamos talvez tido que esperar pelo 25 de Novembro de 1975 para dizermos que só então é que a democracia ficou assegurada, não teríamos talvez assistido à destruição da malha produtiva nacional, teríamos certamente tido a oportunidade de avançar resolutamente para uma política coerente de desenvolvimento e bem estar em vez de andarem por aí aos gritos de propaganda menos balofa do que teria sido conveniente.

 

Se nós estivéssemos politizados, não sei como teria sido mas do que não tenho dúvidas é que teria sido muito diferente do que não comemoro em Abril.

 

Abril de 2019

Henrique sem bigode-1970.jpg

Henrique Salles da Fonseca

O QUE ELES DIZEM…

DIZ A DIRECÇÃO GERAL DO ORÇAMENTO QUE

 

Em Janeiro de 2019, a Execução Orçamental revela que o saldo global das Administrações Públicas apresenta um valor de 1.542,1 milhões de euros, o que compara com 791,1 milhões de euros no período homólogo.

 

E DIGO EU QUE

 

Já vi bem pior do que isto mas se não fossem as cativações «centenárias», estaríamos bem «à pega» com o Orçamento que a Geringonça engendrou.

NÃO À REGIONALIZAÇÃO DE PORTUGAL

 

Portugal é constituído por um só Povo, que fala uma só Língua. Não está dividido por quaisquer conflitos étnicos ou religiosos. Não tem sequer nenhuma tradição de administração regional autárquica – a menos que alguém queira tomar como exemplo, ou termo de comparação, o poder arbitrário e quase absoluto exercido pelos senhores feudais sobre os camponeses, na Idade Média.

(jornal i)

Alfredo Barroso.jpg

Alfredo Barroso

MEDITEMOS...

D. João II.png

 

D. João II recebe unanimemente o cognome de «Príncipe Perfeito» e tendo, no início do seu reinado, proferido a célebre frase «o meu Pai deixou-me as estradas para eu passear», desenvolveu a política de concentração do poder régio. Ficou assim confirmada a unidade nacional por contraposição à fragmentação da preferência feudal.

 

Um pouco mais de cinco séculos depois, corremos o perigo de regresso ao feudalismo fragmentário.

 

Testemunhando esse perigo, transcrevo de seguida um texto de Helena Matos com que me cruzei e que poderia subscrever na íntegra (salvo estilo literário).

 

Fevereiro de 2019

Bondi-2017.JPG

Henrique Salles da Fonseca

 

REGIONALIZAÇÃO

BOA PARA OS POLÍTICOS, PÉSSIMA PARA PORTUGAL

 

Em 2019, políticos e beneficiados do regime querem aprovar na secretaria o que o povo chumbou em referendo: a regionalização. Porquê? Porque não querem governar. Querem salvar a face e a sua vidinha.

 

Junte-se uma comissão de sábios, mais um estudo (encomendado como não pode deixar de ser ao professor Freitas do Amaral), adicione-se como pano de fundo vários líderes partidários a precisarem desesperadamente de uma fuga em frente que lhes permita aparecer diante do povo como portadores de algo de novo e temos o caldo de cultura mais que propício para o lançamento de um projecto que entretenha o povo, anime as televisões e lhes devolva protagonismo. Um desígnio, como soe dizer-se. O projecto-desígnio que aí vem para os salvar a todos chama-se regionalização.

 

Em 2019, os líderes partidários e os grandes beneficiados do regime querem aprovar na secretaria o que o povo chumbou em referendo em 1998: a regionalização. Porquê? E porquê agora? Porque não querem governar. Sabem que tal será cada vez mais difícil, para não dizer inviável, entre grevistas em auto-gestão, corporações em desatino e números que, mesmo devidamente torcidos, mostram um país cativo das cativações.

 

A presente classe política comprometeu-se com aquilo que sabe não ser possível garantir, teme uma nova crise e acredita que a regionalização pode ser em 2019 aquilo que a entrada na Europa foi nos anos 80: o desígnio que libertou a classe política portuguesa de se confrontar com o seu óbvio falhanço enquanto governante.

 

Temos pena, mas desta vez não vai haver desígnio. Os políticos portugueses se querem tratar da sua vida façam-se a ela. Mas para salvarem a sua face não nos criem problemas que não temos.

 

Os portugueses pagam e querem hospitais que funcionem, comboios que não percam os motores, escolas que ensinem, uma Protecção Civil que de facto os proteja e umas Forças Armadas que não os envergonhem. Exigem, suplicam e solicitam uma justiça que funcione. Rezam para que as estradas não se esboroem. O que não têm pedido é a regionalização.

 

Não o fizeram porque o instinto de sobrevivência de um pequeno país que conseguiu construir um Estado e definir a fronteira mais antiga da Europa não permitiu que se soltasse a caixa de Pandora das regiões. A isto junta-se a clara consciência popular de que a regionalização vai apenas acentuar os muitos defeitos do Estado sem trazer outra mudança além da multiplicação dos edifícios construídos e alugados para o efeito, dos gabinetes onde pontuarão os jovens de todas as famílias César que cada região fará florescer, sem esquecermos a crescente frota de carros obviamente eléctricos, as senhas de presença, os subsídios de alojamento para quem não vive na região, a invenção de mil e um artifícios legais para favorecer cada região em detrimento das outras, sendo que “as outras” também tratarão de multiplicar os respectivos artifícios para proteger “os seus” (veja-se o delírio das discussões orçamentais em Espanha)… E, claro, os contribuintes a pagar os custos de tudo isto, a sofrer a crescente burocracia e a consequente diluição das responsabilidades de cada vez que os relatórios, os formulários e os inquéritos passarem de um nível de decisão para o outro.

 

Naturalmente os sábios querem que desta vez a discussão seja feita nos seus devidos termos. Ou seja, nos termos por eles controlados e em que no final a regionalização será uma espécie de facto consumado a que só os ignorantes se opõem.

 

Mas por mais que isso enfastie os sábios, os autores dos estudos, o centrão e as suas margens, os boys que anseiam por novas comissões, sub-comissões, unidades de missão, observatórios… a regionalização não vai ser aprovada na secretaria. Pois tal como o moleiro acreditava que ainda havia juízes em Berlim, há quem acredite – e eu acredito – que ainda há portugueses em Portugal.

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Helena Matos

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