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A bem da Nação

MANIPULAÇÃO EXPERIMENTAL

 

Os obstinados são isso mesmo: obstinados, teimosos, insistentes e mais o que os dicionários de sinónimos dirão. E quem é desta vez? Ora bem, os mesmos de sempre, os que querem mandar nos outros, os do «tira-te tu para me pôr eu».

A estratégia é sempre a mesma e, daí, ficar o gato escondido com o rabo de fora: cortar aos grandes o acesso às riquezas da Terra. Foi assim com o cerco soviético à Europa que em 1974 culminou com o 25 de Abril em Lisboa e, daí, a passagem do Império Português para a esfera soviética, é agora com a destabilização da América Latina para enfraquecer os EUA.

Mas desta vez pode haver uma mudança de «artistas» com os chineses a substituírem os russos. É que a Rússia tem petróleo e a China está ávida dele, especialmente o da Venezuela, antes que o Estreito de Ormuz fique intransitável. Assim, tudo se justifica para que o petróleo venezuelano deixe de ser exportado para o mundo ocidental e passa para a sua, chinesa, esfera de interesses.

E agora que tudo estava a correr às mil maravilhas com o norte de Moçambique «no papo» e com a América Latina em polvorosa, logo vem aquela chatice de Hong Kong… Só faltava agora que a «coisa» alastrasse a outras cidades chinesas com um Sindicato Livre qualquer ao estilo do «Solidariedade». A ver…

E estava eu nestas confabulações quando o Embaixador Francisco Henrique da Silva me envia um vídeo com o assalto e saque a uma igreja no Chile. Seguiu-se o diálogo que transcrevo:

Eu – Quem semeia ventos, colhe tempestades e a uma acção segue-se sempre uma reacção.

Embaixador - Pois tem toda a razão, (…) a uma acção segue-se uma reacção e quem brinca com o fogo queima-se. O certo é que na América Latina o rumo político é quase sempre incerto e as coisas mudam inopinadamente. A Argentina pode mudar para muito pior agora que os Kirchner voltam ao poder; o México prossegue uma via de esquerdização pela mão de um demagogo , que, aliás, conheci bem, AMLO; na Bolívia, Moralez teve de bater com a porta; na Venezuela, tudo como dantes, afinal, Maduro não cai de…maduro..; no Brasil, Bolsonaro, apesar da ondulação, aqui e além, agitada, mantém-se; no Equador, com alguns sobressaltos, a situação parece agora estar controlada; no Chile, o caos continua, com características anárquicas, como se vê. No céu, as nuvens acumulam-se, o que é que se segue é uma incógnita.

Eu - Muito obrigado, Senhor Embaixador! Não é todos os dias que sou beneficiado com um "tour d'horizont" tão elucidativo e sintético. Peço autorização para enquadrar a sua exposição em texto a publicar no "A bem da Nação".

Embaixador - Pode utilizar o texto como lhe aprouver. A minha intenção não era publicá-lo como está, pois é demasiado sintético, pouco analítico e teria de lhe dar alguns retoques, aqui e além. Mas se entender que é de publicar…esteja à vontade.

O rumo da América Latina, por razões históricas, políticas, económicas e sociais está em permanente redefinição e tanto se por esboçar no sentido de uma direita musculada como de uma esquerda demagógica. 

* * *

E a pergunta, agora, é: - E agora?

Dado que não sou Ministro dos Negócios Estrangeiros, posso especular e não definir uma política autónoma ou concertada com os demais países nossos aliados mas, para já, olho para a América Latina e vejo-a como o laboratório onde os gananciosos obstinados de um lado, do outro ou de todos, manipulam as experiências políticas que servem aos seus objectivos de subjugação dos povos desamparados e respectivas riquezas naturais.

Pobres países ricos!

Novembro de 2019

Dubrovnik-réveillon 2016-17 (1).jpg

Henrique Salles da Fonseca

DA COBIÇA

Perguntado sobre se o “A bem da Nação” se pronuncia sobre os fogos na Amazónia, respondo que a desinformação me parece muito grande, o que obsta a que consigamos fazer raciocínios minimamente fundamentados em informação credível. De tudo o que me chega, extraio a sensação de que, das duas, uma: ou é verdade ou é mentira.

Portanto, louvo-me na opinião do meu amigo Francisco Gomes de Amorim que vive no Brasil há mais de 40 anos, tem uma visão holística do assunto, conhece os brasileiros nas suas virtudes e nos seus podres e conhece os que se lhes opõem nas suas virtudes e nos seus podres.

Da conversa telefónica que tivemos extraio que:

  • Sempre houve queimadas na Amazónia que, descontroladas, se transformaram em acidentes;
  • A pressão para a extensão das áreas agrícolas e pecuárias incide na região amazónica na razão directa da corruptibilidade governativa;
  • A cooperação internacional vem sendo feita a pretexto do combate aos fogos mas tendo como objectivo real a prospecção das riquezas naturais, em especial as do subsolo;
  • O Brasil dispõe dos meios necessários ao combate aos fogos mas seria importante que estes deixassem de ser ateados por quem quer manter as equipas prospectoras das riquezas naturais na Amazónia;
  • De momento, são conhecidos os interesses de França, da Alemanha e da Noruega;
  • Adivinha-se a decisão internacional de imposição de sanções ao Brasil com vista a impedir acordos comerciais que facilitem a entrada de produtos agrícolas (e pecuários) e agrícolas transformados nos mercados europeus.

Uma das riquezas do subsolo amazónico parece ser essa tal dos metais raros.

Seguem-se dois gráficos que me foram enviados por outro contacto meu no Brasil.

AMAZÓNIA-FOGOS 1.jpg

ASSUMINDO....png

 

Agosto de 2019

Henrique Salles da Fonseca

GENERAL HAFTAR

Haftar.jpg

 

Conheci o Bruno C. e sua mulher em 2013 quando a minha mulher e eu fizemos um cruzeiro no Danúbio. Ficámos na mesma mesa e conversámos muito durante as refeições. Em inglês, porque a mulher dele é americana e porque ele, italiano, continua com Napoleão um pouco de través.

 

Engenheiro naval, na casa dos 70, bem aposentado depois de larguíssima carreira no mar, está zangado com os italianos, vive em Nice e apenas vai regularmente à fronteira comprar um jornal para não «perder o pulso ao desvaire».

 

Lembro-me de que nos disse com plena convicção de que o tráfico de imigrantes vindos do Norte de África está plenamente controlado pelas forças navais italianas, quer dos Carabinieri quer da própria Marinha Italiana, de tal modo que não há «perdas» quando são elas as receptadoras dos traficados. Sim, tudo por certo com ligações mafiosas à mistura. E já lá vão uns anos que esta conversa aconteceu… Kadhafi morrera dois anos antes.

 

Confesso que não prestei então muita atenção ao tema. Mas não o esqueci.

 

Acho, contudo, que está na altura de o retomar porque o movimento imigratório não dá, entretanto, sinais de abrandamento e o que salta agora à vista é uma alteração fundamental no cenário líbio com o aparecimento do General Haftar a entrar em Trípoli, vindo de Tobruk.

 

O Governo sediado em Trípoli e reconhecido internacionalmente é conivente com a situação de descalabro no país com as suas mais de 140 tribos em zaragata permanente, com os traficantes de escravos negros à rédea solta, com os negócios do petróleo em descontrole completo.

 

As forças «rebeldes», controlando a metade leste da Líbia e com sede em Tobruk, são lideradas pelo general Haftar, dos tempos de Kadhafi, homem de 75 anos que está numa de pôr um ponto final à situação caótica a que o seu país chegou. E marchou sobre Trípoli sem demagogias nem promessas miríficas duma democracia que os muçulmanos sunitas não estão em condições de usar sem o medonho jugo clerical sharioso. Mais: considera que os seus opositores são radicais islâmicos que urge domar, que são divisionistas das tribos que há que controlar, que são intervenientes nos negócios do petróleo que há que integrar nos interesses do Estado Líbio, que são traficantes de escravos negros que há que aniquilar.

 

Trípoli tem o apoio de António Guterres e de Itália, nomeadamente da sua ENI; Tobruk tem o apoio do vizinho Egipto, de Putin e de Macron.

 

Creio que Macron está dentro da razão.

 

Abril de 2019

A bordo Dawn Princess-3.JPG

Henrique Salles da Fonseca

ANDA O MALIGNO À SOLTA – 8

 

 Dos temas que abordei neste conjunto de crónicas relativas à liberdade do Maligno

  • ascensão da China,
  • invasão muçulmana da Europa e correspondente «revivalismo» sunita,
  • tensão totalitária na Turquia e na Venezuela,
  • bitcoin e narcodólar,

façamos um caldinho do revivalismo sunita, da tentação totalitária e do narcodólar e vejamos no que dá:

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Imagens bem recentes, que me chegaram há muito poucos dias, relativas aos ataques terroristas muçulmanos na Província de Cabo Delgado no extremo norte de Moçambique.

 

Alguém fica com dúvidas de que o maligno anda por ali à solta?

 

Com que objectivo e instigado por quem? Aceitam-se pistas.

 

Fevereiro de 2019

 

FIM

046.JPG

Henrique Salles da Fonseca

ANDA O MALIGNO À SOLTA – 7

 

- Já disse, não há tempo a perder, quero tudo e já!

 

Quem assim pensa não tem tempo para avaliar se os meios são legítimos para alcançar o objectivo e muito menos tempo tem para saber se os procedimentos são éticos. E não tem tempo para analisar a questão ética porque a ignora propositadamente ou – pior ainda - porque a desconhece em absoluto.

 

Então, para ter tudo imediatamente, há que ter os meios de pagamento para o efeito e, das duas, uma: ou os herda ou os cria.

 

A herança pode, contudo, não ser suficiente para o financiamento das ambições (que podem ser desmedidas) e, portanto, lá vai o ambicioso ter que criar mais riqueza.

 

A criação (de riqueza) é, contudo, confundida amiúde com posse (da dita riqueza) sendo que esta segunda pode resultar da produção propriamente dita ou do roubo, tendo este a ver com a posse de algo por meio ilegítimo.

 

Então, estamos numa de que quem tudo quer de imediato e não olha a meios para alcançar fins, não hesita em recorrer a todos os expedientes para satisfazer as ambições. Daí, à trafulhice, não dista muito ou não dista mesmo nada.

 

E o que é que está a dar lucros que se vejam?

 

Tem tudo a ver com o risco: quanto mais arriscado um negócio, maiores perspectivas de lucro ele apresenta. E se o risco passar para as bandas da ilegalidade, então as margens são ainda mais altas.

 

A tentação é grande e há muito quem se sinta tentado.

 

Mas há «coisas» que por aí andam, de que muita gente fala às claras, mas que também me fazem muita confusão. Refiro-me ao «bitcoin» cuja publicidade nos entra pelos e-mails a oferecer lucros chorudos num piscar de olhos.

 

Bitcoin.png

 

Moeda virtual, quem a emite e quem lhe garante um valor? E o valor que alguém lhe atribui, como é calculado?

 

Eis um tema sobre que eu gostaria de ouvir o «Banco de Portugal» a transmitir uma ou outra informação e, no seu silêncio, que fale o «Banco Central Europeu» ou, mais sofisticado ainda nos dias que correm, o «Banco de Inglaterra».

 

Aos gananciosos não lhes chega o «narcodólar» e inventaram agora uma nova moeda falsa.

 

E é neste mundo que vivemos - não há dúvida, o maligno anda mesmo à solta.

 

Quem quiser, que se arrisque mas se tudo der para o torto, que não se queixe pois o risco é a alma do negócio, muito mais do que o segredo.

 

(continua)

 

Janeiro de 2019

Rua mais estreita de Estocolmo.JPG

Henrique Salles da Fonseca

(JAN19-cidade velha de Estocolmo)

ANDA O MALIGNO À SOLTA – 6

Jean-Francois Revel.jpg

 

Foi o académico francês Jean François Revel (1924-2006) que em 1976 glosou o tema da tentação totalitária fazendo-nos recordar, entre outros temas, que todo o político gosta muito mais de mandar sem oposição do que ter que aturar uns quantos «empatas» que só fazem é tolher-lhe a vontade e os feitos. A questão da fiscalização da governação pela oposição democrática é matéria que incomoda todos, por mais democratas que se intitulem e mesmo que neguem a pés juntos tal incómodo.

 

É muito ténue a fronteira entre a democracia musculada e o totalitarismo e todos estamos recordados do impacto que a teorização democrata teve no combate efectivo aos totalitarismos nos países vergados pelo comunismo. Sim, foi grão a grão que o muro de Berlim foi cavando a sua própria queda – com uma «ajudinha» do lado de cá pois íamos crescendo e eles falindo.

 

Julgávamos que o totalitarismo morrera mas esquecemo-nos de que a tentação totalitária, sub-repticiamente, persiste. E, donde menos se deveria esperar depois da «vacina lestiana», chega-nos pela mão esquerda sob pretextos tão variados como a necessidade de combate a um putativo desmembramento nacional versus a necessária unidade nacional, como a «vontade popular» de combate aos «abusos capitalistas» em defesa dos explorados, como a introdução de reformas radicais numa sociedade conservadora e avessa a mudanças «fundamentais».

 

Assim surgem os Partidos únicos nos Estados de constituição recente (por exemplo, Angola, Moçambique, etc. que assentaram praça sob o jugo soviético), as políticas autoritárias (por exemplo, a Venezuela e demais países sul-americanos em confronto mais ou menos aberto com os EUA), a propaganda de base doutrinária se não mesmo religiosa (por exemplo, a Turquia que, entretanto, apesar de membro da NATO, anda de namoro com o novo czar de todas as Rússias).

 

Tudo pretextos para se justificarem as ditaduras quando já julgávamos que a humanidade delas se tinha libertado.

 

Inocentes, fomos apenas wishful thinkers, uns tontos.

 

A diferença está em que a democracia, cúmulo de virtudes dos direitos humanos, tem que ser criada todos os dias e sem limite temporal enquanto as ditaduras, todas malignas sejam elas de que banda forem, são criadas da noite para o dia e apanham os inocentes desprevenidos.

 

Então, se no caso venezuelano a boçalidade do cenário de desespero humano e falência económica aponta para um final mais ou menos previsível e não muito longínquo no tempo, no caso turco – país de fronteira civilizacional – a coisa «pia muito mais fininho».

 

E é precisamente esta finura – mais do que o facto de eu conhecer a Turquia melhor do que a maior parte dos turcos – que me preocupa e me leva a orar às forças do bem que travem as suas opostas.

 

A ver…

 

(continua)

 

Janeiro de 2019

Amazónia-ABR16.JPG

Henrique Salles da Fonseca

(algures na Amazónia, ABR16)

ANDA O MALIGNO À SOLTA – 5

Deus.jpg

 

 

Alá não é o Deus dos muçulmanos mas é, sim, como se diz Deus em árabe.

 

Quer os teólogos muçulmanos queiram quer não, Alá é precisamente o mesmo que Jeová é para os judeus e Deus é para os cristãos.

 

As diferenças resultam da exegese que cada um faz dos respectivos textos sagrados. Mas há quem não faça exegese nenhuma e cumpra o seu texto sagrado à letra - os muçulmanos sunitas relativamente ao Corão.

 

Vai daí, estamos todos «à pega» quando o cumprimento literal do texto sagrado sunita assenta em ordens tais como

 

Quando os meses sagrados houverem transcorrido, matai os idólatras onde quer que os acheis; capturai-os, acossai-os e espreitai-os - (Corão, 9ª Surata, versículo 5)

 

Mas, apesar de não fazerem a exegese, não se coíbem de dar motes. Eis algumas frases «simpáticas» de um dos teólogos muçulmanos mais radicais, o Sheick Hassan al-Banna (1906-1949), fundador da hoje tão actuante «Fraternidade Muçulmana»:

  • É da natureza do Islão dominar, não ser dominado, impor a sua lei a todas as Nações e fazer alastrar o seu poder ao planeta inteiro.
  • O punhal, o veneno e o revólver… Estas são as armas do Islão contra os seus inimigos.

 

 

Sim, no sec. XXI continua a haver quem mate em nome do Deus infinitamente bom e tenha o desplante de apregoar que o Islão é uma religião de paz. Claramente, na vertente sunita, não é!

 

E são precisamente os sunitas que estão a invadir a Europa, para além dos que já cá estavam. A diferença está em que o proselitismo sunita – na sua versão mais radical, a wahhabita – vem sendo financiada pela Arábia Saudita, a mesma que se diz tão «amiguinha» dos EUA.

 

Mas dado que o clero sunita não tem uma estrutura hierárquica que discipline a mensagem transmitida, cada mulah é livre de pregar o que lhe apetecer sem ter que prestar contas a ninguém. Vai daí, o descontrole é total e parece instalar-se uma competição de encarniçamento contra os infiéis e de destabilização da sociedade de acolhimento, cristã ou oriunda do cristianismo. Mais: uma sociedade de acolhimento fundada em valores benignos, não mais belicosa como nos tempos da intransigência medieval, aberta ao acolhimento de quem a procura.

 

O resultado é a destruição de um tecido pacífico por um clima de rancores cada vez mais cruzados.

 

Sim, anda o maligno à solta e bem necessário sería que alguém tomasse providências antes que seja tarde, antes que a mostarda chegue ao nariz dos pacíficos, antes que o caldo se entorne e alguém invoque São Bartolomeu.

 

(continua)

 

Janeiro de 2019

Bondi-2017.JPG

Henrique Salles da Fonseca

(Bondi, arredores de Sydney, 2017)

ANDA O MALIGNO À SOLTA – 4

 

Recapitulando, os temas que mais chocalham o meu equilíbrio são

  • a ascensão da China,
  • a invasão muçulmana da Europa e o correspondente «revivalismo» sunita,
  • a tensão totalitária na Turquia e na Venezuela,
  • o bitcoin e o narcodólar

 

* * *

 

A China tem crescido porque o Ocidente assim o tem determinado.

 

Xangai.jpg

 

Na ânsia dos custos baixos, as empresas americanas (foi com os americanos que tudo praticamente começou depois de Nixon ter lá ido encontrar-se com Chu En Lai) pensaram – e conseguiram – inundar os mercados mundiais com produtos baratos. Se a deslocalização empresarial levava Detroit e outros centros industriais americanos à falência, isso era questão que não lhes dizia respeito, os políticos que pensassem numa solução. Elas, empresas deslocadas, riam-se dos sindicatos que assim se especializavam no desemprego absoluto.

 

Comércio livre, sim, bem como livre circulação de capitais mas quanto à livre circulação da mão de obra é que, pelo contrário, nem à mão de Deus Pai: sindicalistas americanos na América; «sindicalistas» chineses na China. E nada de misturas nem trocas de poiso. E os sindicatos concordam com isso pois que, entretanto, se transformaram em forças radicalmente conservadoras e não querem a concorrência barata.

 

A China propriamente dita ia invadindo o resto do mundo com toda a espécie de quinquilharia vendida nas prolíficas «lojas dos chineses».

 

Mas a China (a verdadeira, não a minúscula Taiwan) é politicamente comunista e, por paradoxal que isso seja, assenta actualmente numa economia capitalista. Conjugação dos antagónicos ou farsa política?

 

Como pode um regime ferozmente totalitário conviver com uma economia liberal?

 

Que perspectivas de desenvolvimento endógeno existem num regime de Partido único?

 

O que acontecerá quando o proletariado perceber que o crescimento está a abrandar radicalmente, que as diversas «bolhas» estão a rebentar (por exemplo, as cidades fantasma plantadas no meio de nenhures só para que os dirigentes cumpram o plano ditado a partir do centro decisório), que as «grandes» investidoras estatais estão a falir (e a cair no controle directo de Pequim com sérios problemas pessoais para os dirigentes afastados dos cargos que vinham desempenhando) e que ele, proletariado, continua com 5 dias anuais de férias e está a ser silenciado para fingir que tudo continua uma serena maravilha apesar de o desemprego por aquelas bandas corresponder a abandono com 3 meses de subsídio não renováveis?

 

Quanto custa o funcionamento do Partido único e o das gigantescas Forças Armadas (segredos de Estado) e que política orçamental e monetária financia tudo isso?

 

A China está certamente muito próxima de perceber que se pode mentir durante algum tempo e engar algumas pessoas mas que é impossível mentir sempre e tentar enganar toda a gente.

 

Os castelos de cartas não são eternos nem a diáspora chinesa é estanque em relação aos que lá permanecem e cada vez se saberá mais que cá fora se vive em condições incomparáveis com o que por lá conseguem.

 

A China vai implodir e não tardará muito.

 

E depois?

 

Não tenho uma bola de cristal mas «cheira-me» que ficarão na China as empresas ocidentais cujas produções se destinem ao abastecimento do mercado interno, se esse ainda existir com algum significado depois de uma livre discussão política pluripartidária, depois de a moeda chinesa passar a valer o que deve valer e não o que os decretos determinarem, depois de existir liberdade sindical, depois de haver uma política monetária credível suportada por uma política orçamental transparente e não mais secreta como hoje acontece.

 

Resta por saber como ficaria tudo a partir do momento em que o Ocidente desistisse da China que, entretanto, se revelara o seu próprio algoz. A pergunta que se impõe é: o que será a China quando o comunismo cair? Eventualmente, uma «molhada de brócolos».

 

Só que, entretanto, não há folga enquanto o pau não nos sai das costas.

 

É que tudo isto, sim, merece ser corrigido condicionando seriamente o maligno que por aí continua à solta.

 

(continua)

 

Janeiro de 2019

Xangai-DEZ06-2.jpg

Henrique Salles da Fonseca

(Xangai, 2006)

ANDA O MALIGNO À SOLTA – 3

 

Nos dois textos anteriores sob a mesma epígrafe, abordei dois factores que contribuem directamente para a soltura do maligno, a saber, respectivamente, o antiquíssimo conflito de gerações e a actual pós-modernidade à mistura com a toxicodependência e com o inerente narcotráfico. Ambos, numa perspectiva local.

 

Para sarilho já bastaria, mas há mais…

 

O meu mundo evoluiu de acordo com a minha vontade:

 

  • Rendição do Japão (na Europa já não havia guerra quando eu nasci em Junho de 1945)

Rendição do Japão.jpg

 

  • Evolução da guerra fria no sentido da vitória ocidental até ao derrube do muro de Berlim

Derrube muro Berlim.jpg

 

  • Prevalência dos valores democráticos com garantida liberdade de opinião, afirmação do empreendedorismo, obtenção de grande segurança social.

Assembleia da República.png

 

Seria hipócrita se dissesse mal do eurocentrismo. Mas, conhecendo muito mundo extra-europeu, não hesito em afirmar que «nem só da Europa vive o mundo». E não me refiro a uma questão geográfica pois tanto a América Latina como a Austrália e a Nova Zelândia são claramente europeias enquanto o Magreb e o Mackresh, aqui bem próximos, pouco ou nada têm a ver connosco.

 

Mas há equilíbrios a que nos habituamos e as mexidas provocam tonturas. Por exemplo, a tão propalada ascensão da China, a invasão muçulmana da Europa e o correspondente «revivalismo» sunita, a ascensão totalitária na Turquia e na Venezuela, o bitcoin e o narcodólar, etc., etc.

 

(continua)

 

Janeiro de 2019

Bali, Tirta Empul - 1.JPG

Henrique Salles da Fonseca

(Bali, santuário de Tirta Empul, SET18)

ANDA O MALIGNO À SOLTA – 2

R. Augusta, Lisboa.jpg

 

Uma das «coisas» a que nos habituamos fácil e rapidamente é à qualidade de vida. Assim é que todos na Europa temos como adquirida a segurança social, a reforma, a democracia, as férias, etc. A paz internacional também é um «must» - relativamente recente, sim, mas todos a vemos como um dado adquirido.

 

A segurança física, essa, lastimavelmente, não está assim tão garantida como todos gostaríamos.

 

Porquê?

 

Porque o pai e a mãe foram trabalhar enquanto os filhos ficaram nas ruas da selva urbana e suburbana e, cumprindo o espírito gregário que rege a nossa espécie, constituíram grupos que nem sempre se dedicam às causas mais nobres.

 

Jovens desenquadrados da cultura da tradição dos pais, não tiveram quem deles cuidasse e gentilmente os acolhesse e integrasse numa cultura urbana.

 

E, mesmo esta, que cultura é?

 

A cultura pós-moderna, laica, dissociada de valores religiosos e correspondentes moral e ética. Uma cultura que, não crendo numa vida para além da morte, quer usufruir de tudo imediatamente num regresso ao objectivo platónico da primazia do prazer a que juntou o hedonismo, o consumismo, o exibicionismo.

 

E se não houver meios para obter todo o prazer desejado e tudo o que se vê nos escaparates, rouba-se porque vinga o sentido de posse e a legitimidade é um conceito não incutido por qualquer enquadramento ético.

 

Com a agravante do narcotráfico e da toxicodependência.

 

E se tudo começou pela selva urbana dos bairros de lata, não tardou assim muito para que o cenário se instalasse por entre o cimento do centro.

 

Eis como o maligno se soltou bem perto de todos nós.

 

(continua)

 

Janeiro de 2019

Jakarta - 2 (SET18).jpg

Henrique Salles da Fonseca

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