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A bem da Nação

O ERRO DA EUROPA É…

 

... PENSAR O ISLÃO PELO MODELO DO CRISTIANISMO

 

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 20 de Julho de 2016

 

ENTREVISTA - Filósofo, especialista da filosofia medieval árabe, Rémi Brague explica as fontes teológicas nas quais o Estado Islâmico poisa e admira-se que se continue a apreender a religião muçulmana através do prisma do cristianismo.

 

LE FIGARO - Mohamed Lahouaiej Bouhel, a crer nos que lhes são próximos, não tinha o perfil de um jihadista. O ministro do Interior falou de um “radicalismo expresso”. O que lhe inspira esta reflexão?

 

Rémi Brague.jpg Não está mal como perplexidade. No caso do matador de Nice, nós não temos ainda totalmente claras as suas motivações. E qualquer que seja o ritmo ao qual se opera, a “radicalização” não é uma noção clara. Faltaria em primeiro lugar pormo-nos de acordo sobre as suas “raízes”, às quais a palavra remete. Porque é que regressar às raízes deverá conduzir ao crime?

 

A vida do indivíduo (bon-vivant, bebedor de álcool, dançarino de salsa) testemunham o seu afastamento do Islão. Os homens do 11 de Setembro eram também, aparentemente, “ocidentais” no seu modo de vida. Como explicar esta esquizofrenia?

 

Seria preciso, em primeiro lugar, verificar as declarações daqueles que falam deste indivíduo. Um bom número dos que se fizeram explodir ou matar são apresentados como rapazes gentis, prestáveis e sem problemas, e, supremo cumprimento, até jogavam futebol… Esquizofrenia? Talvez não… Pode-se admitir que a prática dum jihadista violento seja também, para alguns, uma maneira de « se fazer perdoar » por uma adaptação demasiado fácil a modas ocidentais consideradas corrompidas, para se auto-castigarem pelas suas cedências. Fazer-se explodir é mais rápido que entrar num processo longo e penoso de conversão.

 

O Daesh parece exercer uma atracção violenta sobre os delinquentes. Como se faz a passagem da delinquência à guerra santa?

 

Seria preciso, para explicar esta passagem e simplesmente para a analisar, competências em psicologia e em sociologia que eu não possuo. Mas deter-me-ei nesta noção de «guerra santa». Muitos muçulmanos querem hoje evitar esta expressão e usar o árabe jihâd, muitas vezes concebido como um esforço puramente espiritual de luta contras as próprias paixões. Porém, encontramo-la frequentemente num sentido muito concreto, por exemplo nos tratados de direito (fiqh), onde o capítulo intitulado «jihâd» trata de hostilidades claramente materiais. Estabelece-se aí que se trata de uma obrigação dita de «suficiência»: não incumbe a todos os muçulmanos, mas basta que um certo número deles se encarregue para que o dever seja cumprido. Trata-se aí de convocações prévias, pergunta-se se é permito abater palmeiras do inimigo ou de o bombardear, se é preciso para isso matar as mulheres e as crianças, usando-as como escudo; explica-se o que fazer dos prisioneiros, como repartir o espólio, etc. E, no sentido místico, emprega-se mais frequentemente outro nome verbal da mesma forma da mesma raiz, a saber mujâhada. Vale em todo o caso a pena parar sobre o paradoxo que constitui esta aliança de palavras: «guerra santa». Comporta um ensinamento precioso: o Islão tem sobre as outras religiões vivas esta imensa vantagem que permite pôr directamente em equação o que há de pior e o que há de melhor, os instintos mais vivos e o ser mais santo, o assassino e Deus. As cruzadas e os inquisidores não podiam fazê-lo a não ser com o custo de mil desvios: tomar os relatos de conquista do antigo Testamento ou as fulminações contra as bruxas como recomendações actuais, etc., e, extremosamente, contornar o Sermão da Montanha. Certas religiões desaparecidas, como a dos Cartagineses ou dos Astecas - e dos Gauleses - arriscavam esta junção com sacrifícios humanos.  Para o Estado Islâmico, Deus ordena o auto-sacrifício, matando o maior número possível de outros homens. Este Islão permite também fazer crer às pessoas que não foram muito bem sucedidas na vida que tudo é culpa dos outros, que são malvados e que é preciso, portanto, eliminá-los. Sentir-se do «partido de Deus» (Corão, V, 56) em luta contra os «piores dos animais» que são os não crentes (Corão, VIII, 22) pode dar um certa exaltação. E ao mesmo tempo, a culpabilidade é eliminada, já que é o próprio Deus que mata os Seus inimigos (Corão, VIII, 17).

 

Segundo Giles Kepel, o objectivo do Estado Islâmico é provocar a guerra civil no nosso território e assim tomar partido pela causa da integridade dos muçulmanos em França. Partilha deste ponto de vista?

 

Não tenho sequer autoridade para me pronunciar, mas parece-me muito possível. Se for esse o caso, estaríamos perante a táctica empregue nos anos 1979 pelos grupos de extrema esquerda: provocar uma repressão cujos excessos levariam a uma reacção de solidariedade. Isso não funcionou com as Brigadas Vermelhas ou o bando de Baader que visavam a população inteira de grandes países como a Itália e a Alemanha. O Estado Islâmico poderia ter um pouco mais de possibilidades de sucesso porque o grupo visado, os muçulmanos que vivem em França, possui já uma certa forma de unidade, bastante laça noutros lugares, que poderia fazer “agarrar a mayonnaise” mais facilmente. Esta unidade tem vários factores: o sentimento de ser ainda uma minoria que deve «cerrar fileiras», o de ter de frequentemente se contentar com os trabalhos que os outros não querem e portanto ficar no fundo da escala, por vezes uma mesma cidadania de origem, a prática duma língua idêntica ou o facto muito simples de morar nos mesmos bairros e enfim, bem entendido, a referência mais ou menos acentuada à religião.

 

Numerosos políticos e intelectuais dissociam absolutamente a religião muçulmana do Estado Islâmico ou da Al Qaeda que eles consideram mesmo uma inversão do Islão. O Daesh não tem nada a ver com o Islão?

 

A «religião muçulmana» é já uma expressão enganosa. É claro que, se quisermos classificar o Islão numa das grandes categorias da actividade humana, é melhor arrumá-lo na rubrica «religião». Mas esta rubrica é muito larga. E, sobretudo os Europeus, desde os mais piedosos praticantes ao mais inveterado mata-frades, pensam todos a religião através do modelo insconsciente do cristianismo. Reduzem, portanto, a religião àquilo que eles observam nas diversas confissões cristãs: actos de cultor, oração, eventualmente jejuns e peregrinações. Aquilo que não é importante é sentido como exterior à religião. Ora, para o Islão, a religião consiste essencialmente em aplicar a lei divina. É porque ela o ordena que é preciso rezar, jejuar, etc. e ela comanda também o véu, a alimentação halal, etc. O Estado islâmico pretende ser fiel ao adjectivo. Qual e o direito de o contestar? Os seus propagandistas consideram aqueles que nós chamamos «moderados» como tíbios ou mesmo traidores. Quem sou eu para distribuir certificados de ortodoxia islâmica? Direi que, se o Estado Islâmico não coincide totalmente com o Islão, e, portanto, se ele não é o Islão é, mesmo assim, um Islão entre os outros. Representa uma tentativa para ressuscitar, com os meios de hoje, as práticas que as biografias mais antigas atribuem ao próprio Maomé, o «belo exemplo» (Corão, XXXIII, 21).

 

Considera-se que a Internet, mais ainda que as mesquitas, conduz os jovens para a jihad. A que fonte reportam estes sítios da Internet?

 

É-me difícil responder em detalhe, por falta de uma frequência suficientemente assídua dos sites que promovem a jihad. E que são de tendências muito variadas. De um modo geral a Internet permite um máximo de impunidade. A coberto do anonimato, ou melhor, do pseudo- anonimato, qualquer um se pode permitir contar o que quer que seja, mentir, difamar, insultar, apelar ao martírio. Isto não vale só para os sites islamitas. Nesse caso torna-se muito fácil construir um paraíso imaginário na terra.

 

Compara-se muitas vezes, o Islão à Igreja Católica insistindo sobre o facto que a religião muçulmana deve fazer o seu Vaticano II. Este paralelo é pertinente?

 

Parece-me totalmente coxo, por muitas razões. Em primeiro lugar a Igreja católica é uma organização com dogmas bem definidos e com uma hierarquia perfeitamente clara; tem um catecismo e bispos e o bispo de Roma que é o Papa. Foi um destes, João XXIII, que decidiu reunir um segundo concílio no Vaticano. Quem, no Islão, poderia lançar um apelo deste género, fazer-se escutar e fazer aplicar as decisões tomadas? Por outro lado, o Vaticano II procurava um retorno às fontes, passando as incrustações posteriores, um pouco no espírito de Francisco de Assis que queria retornar ao Evangelho sem as interpretações que o atenuam. Ora, no Islão, o pior está no princípio. É no período de Medina (622-632) que se inspiram as pessoas do Estado Islâmico. Eles idealizam-no, mas sem retirar os massacres, os assassinatos e as torturas. Os Evangelhos não contêm qualquer apelo à violência. O Corão e o Hadith, lidos literalmente, sim…

 

O que é o «Islão das luzes»?

 

Esta expressão emprega-se desde há algum tempo. Pergunto-me se o primeiro a lançá-la não seria Malek Chebel no seu Manifesto por um Islão das luzes, de 2004. Certamente, o que ele entende por isso seria uma excelente ideia. Farei porém, duas observações. Por um lado, é preciso não procurar no passado realizações dum tal Islão a não ser com muita prudência. Se quisermos falar de realizações intelectuais e artísticas, não há problema. Mas se se trata de «tolerancia»... Averroès? Ele conclui um raciocínio filosófico por «e é por isso que é obrigatório matar os heréticos» (Tahafut at-Tahafut, XVII, 17). A Andaluzia? Leiamos de preferência os historiadores, não os romancistas… Por outro lado, «as luzes» são uma das nossas «vacas sagradas» e seria bom fazer um pouco de arrumação no nosso próprio passado ocidental e de ver que elas têm bastantes sombras, antes de as propormos ao resto do mundo, Islão incluído…

DO TEMPO QUE NOS É DADO

 

 

O tempo que vivemos é um tempo conturbado, a que alguns chamam histórico, em que muitas regras de convivência social e parlamentar foram quebradas, o que tem necessariamente a consequência de um ambiente de permanente quezília, conduzindo o debate de ideias sobre o nosso futuro comum ao nível da discussão futebolística que, ignorando totalmente o desempenho desportivo das equipas em campo, resume a contenda a apreciações subjectivas e emotivas de árbitros, treinadores e presidentes. O resultado é um ambiente conflituoso e agressivo.

 

PAPINTO-Gandalph.png Recordo uma frase de Gandalph, o cinzento, o feiticeiro de “O Senhor dos Anéis”, de Tolkien, dirigindo-se a Frodo, em tempos também difíceis:

- A nós não nos cabe decidir o que acontece. Tudo o que nos cabe decidir é o que fazer com o tempo que nos é dado.

 

 

PAPINTO.png Pedro Aguiar Pinto

PELA MORTE

 

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 Pela morte, a família não se destrói, ela transforma-se, uma parte dela passa a invisível. Cremos que a morte é uma ausência, quando ela é uma presença discreta. Cremos que ela cria uma distância infinita, quando ela suprime todas as distâncias, trazendo ao espírito o que se localizava na cadeira.

 

Que laços ela renova, que barreiras ela quebra, que muros derruba, que nevoeiro dissipa, se nós verdadeiramente o quisermos.

 

Viver, é muitas vezes, abandonar; morrer é juntar. Não é um paradoxo afirmá-lo. Para os que foram até ao fundo do amor: a morte é uma consagração, não um castigo…

 

No fundo, ninguém morre, porque não sai de Deus.

 

Aquele que parece ter-se parado bruscamente na estrada, escrivão da sua vida, apenas virou uma página.

 

Quando mais seres abandonaram o lar, tanto mais os sobreviventes têm laços celestes.

 

O Céu não é mais apenas povoado de anjos, de santos conhecidos e desconhecidos e do Deus misterioso. Torna-se familiar, é a casa de família, o andar superior da casa, se assim o posso dizer, de alto a baixo, a recordação, os apoios, os apelos têm resposta. Assim seja.

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Père Antonin Sertillanges

Dominicano francês

(1863-1948)

DISCURSO DO PAPA FRANCISCO AO PARLAMENTO EUROPEU

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Senhor Presidente, Senhoras e Senhores Vice-Presidentes, Ilustres Eurodeputados, Pessoas que a vário título trabalhais neste hemiciclo, Queridos amigos!

 

Agradeço-vos o convite para falar perante esta instituição fundamental da vida da União Europeia e a oportunidade que me proporcionais de me dirigir, por vosso intermédio, a mais de quinhentos milhões de cidadãos por vós representados nos vinte e oito Estados membros. Desejo exprimir a minha gratidão de modo particular a Vossa Excelência, Senhor Presidente do Parlamento, pelas cordiais palavras de boas-vindas que me dirigiu em nome de todos os componentes da Assembleia.

 

A minha visita tem lugar passado mais de um quarto de século da realizada pelo Papa João Paulo II. Desde aqueles dias, muita coisa mudou na Europa e no mundo inteiro. Já não existem os blocos contrapostos que, então, dividiam em dois o Continente e, lentamente, está a realizar-se o desejo de que «a Europa, ao dotar-se soberanamente de instituições livres, possa um dia desenvolver-se em dimensões que lhe foram dadas pela geografia e, mais ainda, pela história».

 

A par duma União Europeia mais ampla, há também um mundo mais complexo e em intensa movimentação: um mundo cada vez mais interligado e global e, consequentemente, sempre menos eurocêntrico. A uma União mais alargada, mais influente, parece contrapor-se a imagem duma Europa um pouco envelhecida e empachada, que tende a sentir-se menos protagonista num contexto que frequentemente a olha com indiferença, desconfiança e, por vezes, com suspeita.

 

Hoje, falando-vos a partir da minha vocação de pastor, desejo dirigir a todos os cidadãos europeus uma mensagem de esperança e encorajamento.

 

Uma mensagem de esperança assente na confiança de que as dificuldades podem revelar-se, fortemente, promotoras de unidade, para vencer todos os medos que a Europa – juntamente com o mundo inteiro – está a atravessar. Esperança no Senhor que transforma o mal em bem e a morte em vida.

 

Encorajamento a voltar à firme convicção dos Pais fundadores da União Europeia, que desejavam um futuro assente na capacidade de trabalhar juntos para superar as divisões e promover a paz e a comunhão entre todos os povos do Continente. No centro deste ambicioso projecto político, estava a confiança no homem, não tanto como cidadão ou como sujeito económico, mas no homem como pessoa dotada de uma dignidade transcendente.

 

Sinto obrigação, antes de mais nada, de sublinhar a ligação estreita que existe entre estas duas palavras: «dignidade» e «transcendente».

 

«Dignidade» é uma palavra-chave que caracterizou a recuperação após a Segunda Guerra Mundial. A nossa história recente caracteriza-se pela inegável centralidade da promoção da dignidade humana contra as múltiplas violências e discriminações que não faltaram, ao longo dos séculos, nem mesmo na Europa. A percepção da importância dos direitos humanos nasce precisamente como resultado de um longo caminho, feito também de muitos sofrimentos e sacrifícios, que contribuiu para formar a consciência da preciosidade, unicidade e irrepetibilidade de cada pessoa humana. Esta tomada de consciência cultural tem o seu fundamento não só nos acontecimentos da história, mas sobretudo no pensamento europeu, caracterizado por um rico encontro cujas numerosas e distantes fontes provêm da Grécia e de Roma, de substratos celtas, germânicos e eslavos, e do cristianismo que os plasmou profundamente, dando origem precisamente ao conceito de «pessoa».

 

Hoje, a promoção dos direitos humanos ocupa um papel central no empenho da União Europeia que visa promover a dignidade da pessoa, tanto no âmbito interno como nas relações com os outros países. Trata-se de um compromisso importante e admirável, porque persistem ainda muitas situações onde os seres humanos são tratados como objectos, dos quais se pode programar a concepção, a configuração e a utilidade, podendo depois ser jogados fora quando já não servem porque se tornaram frágeis, doentes ou velhos.

 

Realmente que dignidade existe quando falta a possibilidade de exprimir livremente o pensamento próprio ou professar sem coerção a própria fé religiosa? Que dignidade é possível sem um quadro jurídico claro, que limite o domínio da força e faça prevalecer a lei sobre a tirania do poder? Que dignidade poderá ter um homem ou uma mulher tornados objecto de todo o género de discriminação? Que dignidade poderá encontrar uma pessoa que não tem o alimento ou o mínimo essencial para viver e, pior ainda, que não tem o trabalho que o unge de dignidade?

 

Promover a dignidade da pessoa significa reconhecer que ela possui direitos inalienáveis, de que não pode ser privada por arbítrio de ninguém e, muito menos, para benefício de interesses económicos.

 

É preciso, porém, ter cuidado para não cair em alguns equívocos que podem surgir de um errado conceito de direitos humanos e de um abuso paradoxal dos mesmos. De facto, há hoje a tendência para uma reivindicação crescente de direitos individuais – sinto-me tentado a dizer individualistas –, que esconde uma concepção de pessoa humana separada de todo o contexto social e antropológico, quase como uma «mónada» (μονάς) cada vez mais insensível às outras «mónadas» ao seu redor. Ao conceito de direito já não se associa o conceito igualmente essencial e complementar de dever, acabando por afirmar-se os direitos do indivíduo sem ter em conta que cada ser humano está unido a um contexto social, onde os seus direitos e deveres estão ligados aos dos outros e ao bem comum da própria sociedade.

 

Por isso, considero que seja mais vital hoje do que nunca aprofundar uma cultura dos direitos humanos que possa sapientemente ligar a dimensão individual, ou melhor pessoal, à do bem comum, àquele «nós-todos» formado por indivíduos, famílias e grupos intermédios que se unem em comunidade social. Na realidade, se o direito de cada um não está harmoniosamente ordenado para o bem maior, acaba por conceber-se sem limitações e, por conseguinte, tornar-se fonte de conflitos e violências.

 

Assim, falar da dignidade transcendente do homem significa apelar para a sua natureza, a sua capacidade inata de distinguir o bem do mal, para aquela «bússola» inscrita nos nossos corações e que Deus imprimiu no universo criado; sobretudo significa olhar para o homem, não como um absoluto, mas como um ser relacional. Uma das doenças que, hoje, vejo mais difusa na Europa é a solidão, típica de quem está privado de vínculos. Vemo-la particularmente nos idosos, muitas vezes abandonados à sua sorte, bem como nos jovens privados de pontos de referência e de oportunidades para o futuro; vemo-la nos numerosos pobres que povoam as nossas cidades; vemo-la no olhar perdido dos imigrantes que vieram para cá à procura de um futuro melhor.

 

Uma tal solidão foi, depois, agravada pela crise económica, cujos efeitos persistem ainda com consequências dramáticas do ponto de vista social. Pode-se também constatar que, no decurso dos últimos anos, a par do processo de alargamento da União Europeia, tem vindo a crescer a desconfiança dos cidadãos relativamente às instituições consideradas distantes, ocupadas a estabelecer regras vistas como distantes da sensibilidade dos diversos povos, se não mesmo prejudiciais. De vários lados se colhe uma impressão geral de cansaço, de envelhecimento, de uma Europa avó que já não é fecunda nem vivaz. Daí que os grandes ideais que inspiraram a Europa pareçam ter perdido a sua força de atracção, em favor do tecnicismo burocrático das suas instituições.

 

A isto vêm juntar-se alguns estilos de vida um pouco egoístas, caracterizados por uma opulência actualmente insustentável e muitas vezes indiferente ao mundo circundante, sobretudo dos mais pobres. No centro do debate político, constata-se lamentavelmente a preponderância das questões técnicas e económicas em detrimento de uma autêntica orientação antropológica. O ser humano corre o risco de ser reduzido a mera engrenagem dum mecanismo que o trata como se fosse um bem de consumo a ser utilizado, de modo que a vida – como vemos, infelizmente, com muita frequência –, quando deixa de ser funcional para esse mecanismo, é descartada sem muitas delongas, como no caso dos doentes, dos doentes terminais, dos idosos abandonados e sem cuidados, ou das crianças mortas antes de nascer.

 

É o grande equívoco que se verifica «quando prevalece a absolutização da técnica», acabando por gerar «uma confusão entre fins e meios», que é o resultado inevitável da «cultura do descarte» e do «consumismo exacerbado». Pelo contrário, afirmar a dignidade da pessoa significa reconhecer a preciosidade da vida humana, que nos é dada gratuitamente não podendo, por conseguinte, ser objecto de troca ou de comércio. Na vossa vocação de parlamentares, sois chamados também a uma grande missão, ainda que possa parecer não lucrativa: cuidar da fragilidade, da fragilidade dos povos e das pessoas. Cuidar da fragilidade quer dizer força e ternura, luta e fecundidade no meio dum modelo funcionalista e individualista que conduz inexoravelmente à «cultura do descarte». Cuidar da fragilidade das pessoas e dos povos significa guardar a memória e a esperança; significa assumir o presente na sua situação mais marginal e angustiante e ser capaz de ungi-lo de dignidade.

 

Mas, então, como fazer para se devolver esperança ao futuro, de modo que, a partir das jovens gerações, se reencontre a confiança para perseguir o grande ideal de uma Europa unida e em paz, criativa e empreendedora, respeitadora dos direitos e consciente dos próprios deveres?

 

Para responder a esta pergunta, permiti-me lançar mão de uma imagem. Um dos mais famosos frescos de Rafael que se encontram no Vaticano representa a chamada Escola de Atenas. No centro, estão Platão e Aristóteles. O primeiro com o dedo apontando para o alto, para o mundo das ideias, poderíamos dizer para o céu; o segundo estende a mão para a frente, para o espectador, para a terra, a realidade concreta. Parece-me uma imagem que descreve bem a Europa e a sua história, feita de encontro permanente entre céu e terra, onde o céu indica a abertura ao transcendente, a Deus, que desde sempre caracterizou o homem europeu, e a terra representa a sua capacidade prática e concreta de enfrentar as situações e os problemas.

 

O futuro da Europa depende da redescoberta do nexo vital e inseparável entre estes dois elementos. Uma Europa que já não seja capaz de se abrir à dimensão transcendente da vida é uma Europa que lentamente corre o risco de perder a sua própria alma e também aquele «espírito humanista» que naturalmente ama e defende.

 

É precisamente a partir da necessidade de uma abertura ao transcendente que pretendo afirmar a centralidade da pessoa humana; caso contrário, fica à mercê das modas e dos poderes do momento. Neste sentido, considero fundamental não apenas o património que o cristianismo deixou no passado para a formação sociocultural do Continente, mas também e sobretudo a contribuição que pretende dar hoje e no futuro para o seu crescimento. Esta contribuição não constitui um perigo para a laicidade dos Estados e para a independência das instituições da União, mas um enriquecimento. Assim no-lo indicam os ideais que a formaram desde o início, tais como a paz, a subsidiariedade e a solidariedade mútua, um humanismo centrado no respeito pela dignidade da pessoa.

 

Por isso, desejo renovar a disponibilidade da Santa Sé e da Igreja Católica, através da Comissão das Conferências Episcopais da Europa (COMECE), a manter um diálogo profícuo, aberto e transparente com as instituições da União Europeia. De igual modo, estou convencido de que uma Europa que seja capaz de conservar as suas raízes religiosas, sabendo apreender a sua riqueza e potencialidades, pode mais facilmente também permanecer imune a tantos extremismos que campeiam no mundo actual – o que se fica a dever também ao grande vazio de ideais a que assistimos no chamado Ocidente –, pois o que gera a violência não é a glorificação de Deus, mas o seu esquecimento.

 

Não podemos deixar de recordar aqui as numerosas injustiças e perseguições que se abatem diariamente sobre as minorias religiosas, especialmente cristãs, em várias partes do mundo. Comunidades e pessoas estão a ser objecto de bárbaras violências: expulsas de suas casas e pátrias; vendidas como escravas; mortas, decapitadas, crucificadas e queimadas vivas, sob o silêncio vergonhoso e cúmplice de muitos.

 

O lema da União Europeia é Unidade na diversidade, mas a unidade não significa uniformidade política, económica, cultural ou de pensamento. Na realidade, toda a unidade autêntica vive da riqueza das diversidades que a compõem: como uma família, que é tanto mais unida quanto mais cada um dos seus componentes pode ser ele próprio profundamente e sem medo. Neste sentido, considero que a Europa seja uma família de povos, os quais poderão sentir próximas as instituições da União se estas souberem conjugar sapientemente o ideal da unidade, por que se anseia, com a diversidade própria de cada um, valorizando as tradições individuais; tomando consciência da sua história e das suas raízes; libertando-se de tantas manipulações e fobias. Colocar no centro a pessoa humana significa, antes de mais nada, deixar que a mesma exprima livremente o próprio rosto e a própria criatividade tanto de indivíduo como de povo.

 

Por outro lado, as peculiaridades de cada um constituem uma autêntica riqueza na medida em que são colocadas ao serviço de todos. É preciso ter sempre em mente a arquitectura própria da União Europeia, assente sobre os princípios de solidariedade e subsidiariedade, de tal modo que prevaleça a ajuda recíproca e seja possível caminhar animados por mútua confiança.

 

Nesta dinâmica de unidade-particularidade, coloca-se também diante de vós, Senhores e Senhoras Eurodeputados, a exigência de cuidardes de manter viva a democracia, a democracia dos povos da Europa. Não escapa a ninguém que uma concepção homologante da globalidade afecta a vitalidade do sistema democrático, depauperando do que tem de fecundo e construtivo o rico contraste das organizações e dos partidos políticos entre si. Deste modo, corre-se o risco de viver no reino da ideia, da mera palavra, da imagem, do sofisma... acabando por confundir a realidade da democracia com um novo nominalismo político. Manter viva a democracia na Europa exige que se evitem muitas «maneiras globalizantes» de diluir a realidade: os purismos angélicos, os totalitarismos do relativo, os fundamentalismos a-históricos, os eticismos sem bondade, os intelectualismos sem sabedoria.

 

Manter viva a realidade das democracias é um desafio deste momento histórico, evitando que a sua força real – força política expressiva dos povos – seja removida face à pressão de interesses multinacionais não universais, que as enfraquecem e transformam em sistemas uniformizadores de poder financeiro ao serviço de impérios desconhecidos. Este é um desafio que hoje vos coloca a história.

Dar esperança à Europa não significa apenas reconhecer a centralidade da pessoa humana, mas implica também promover os seus dotes. Trata-se, portanto, de investir nela e nos âmbitos onde os seus talentos são formados e dão fruto. O primeiro âmbito é seguramente o da educação, a começar pela família, célula fundamental e elemento precioso de toda a sociedade. A família unida, fecunda e indissolúvel traz consigo os elementos fundamentais para dar esperança ao futuro.

Sem uma tal solidez, acaba-se por construir sobre a areia, com graves consequências sociais. Aliás, sublinhar a importância da família não só ajuda a dar perspectivas e esperança às novas gerações, mas também a muitos idosos, frequentemente constrangidos a viver em condições de solidão e abandono, porque já não há o calor dum lar doméstico capaz de os acompanhar e apoiar.

 

Ao lado da família, temos as instituições educativas: escolas e universidades. A educação não se pode limitar a fornecer um conjunto de conhecimentos técnicos, mas deve favorecer o processo mais complexo do crescimento da pessoa humana na sua totalidade. Os jovens de hoje pedem para ter uma formação adequada e completa, a fim de olharem o futuro com esperança e não com desilusão. Aliás são numerosas as potencialidades criativas da Europa em vários campos da pesquisa científica, alguns dos quais ainda não totalmente explorados. Basta pensar, por exemplo, nas fontes alternativas de energia, cujo desenvolvimento muito beneficiaria a defesa do meio ambiente.

 

A Europa sempre esteve na vanguarda dum louvável empenho a favor da ecologia.

De facto, esta nossa terra tem necessidade de cuidados e atenções contínuos e é responsabilidade de cada um preservar a criação, dom precioso que Deus colocou nas mãos dos homens. Isto significa, por um lado, que a natureza está à nossa disposição, podemos gozar e fazer bom uso dela; mas, por outro, significa que não somos os seus senhores. Guardiães, mas não senhores. Por isso, devemos amá-la e respeitá-la; mas, «ao contrário, somos frequentemente levados pela soberba do domínio, da posse, da manipulação, da exploração; não a “guardamos”, não a respeitamos, não a consideramos como um dom gratuito do qual cuidar». Mas, respeitar o ambiente não significa apenas limitar-se a evitar deturpá-lo, mas também utilizá-lo para o bem. Penso sobretudo no sector agrícola, chamado a dar apoio e alimento ao homem. Não se pode tolerar que milhões de pessoas no mundo morram de fome, enquanto toneladas de produtos alimentares são descartadas diariamente das nossas mesas. Além disso, respeitar a natureza lembra-nos que o próprio homem é parte fundamental dela. Por isso, a par duma ecologia ambiental, é preciso a ecologia humana, feita daquele respeito pela pessoa que hoje vos pretendi recordar com as minhas palavras.

 

O segundo âmbito em que florescem os talentos da pessoa humana é o trabalho. É tempo de promover as políticas de emprego, mas acima de tudo é necessário devolver dignidade ao trabalho, garantindo também condições adequadas para a sua realização. Isto implica, por um lado, encontrar novas maneiras para combinar a flexibilidade do mercado com as necessidades de estabilidade e certeza das perspectivas de emprego, indispensáveis para o desenvolvimento humano dos trabalhadores; por outro, significa fomentar um contexto social adequado, que não vise explorar as pessoas, mas garantir, através do trabalho, a possibilidade de construir uma família e educar os filhos.

 

De igual forma, é necessário enfrentar juntos a questão migratória. Não se pode tolerar que o Mar Mediterrâneo se torne um grande cemitério! Nos barcos que chegam diariamente às costas europeias, há homens e mulheres que precisam de acolhimento e ajuda. A falta de um apoio mútuo no seio da União Europeia arrisca-se a incentivar soluções particularistas para o problema, que não têm em conta a dignidade humana dos migrantes, promovendo o trabalho servil e contínuas tensões sociais. A Europa será capaz de enfrentar as problemáticas relacionadas com a imigração, se souber propor com clareza a sua identidade cultural e implementar legislações adequadas capazes de tutelar os direitos dos cidadãos europeus e, ao mesmo tempo, garantir o acolhimento dos imigrantes; se souber adoptar políticas justas, corajosas e concretas que ajudem os seus países de origem no desenvolvimento sociopolítico e na superação dos conflitos internos – a principal causa deste fenómeno – em vez das políticas interesseiras que aumentam e nutrem tais conflitos. É necessário agir sobre as causas e não apenas sobre os efeitos.

 

Senhor Presidente, Excelências, Senhoras e Senhores Deputados!

 

A consciência da própria identidade é necessária também para dialogar de forma propositiva com os Estados que se candidataram à adesão à União Europeia no futuro. Penso sobretudo nos Estados da área balcânica, para os quais a entrada na União Europeia poderá dar resposta ao ideal da paz numa região que tem sofrido enormemente por causa dos conflitos do passado. Por fim, a consciência da própria identidade é indispensável nas relações com os outros países vizinhos, particularmente os que assomam ao Mediterrâneo, muitos dos quais sofrem por causa de conflitos internos e pela pressão do fundamentalismo religioso e do terrorismo internacional.

 

A vós, legisladores, compete a tarefa de preservar e fazer crescer a identidade europeia, para que os cidadãos reencontrem confiança nas instituições da União e no projecto de paz e amizade que é o seu fundamento. Sabendo que, «quanto mais aumenta o poder dos homens, tanto mais cresce a sua responsabilidade, pessoal e comunitária», exorto-vos a trabalhar para que a Europa redescubra a sua alma boa.

 

Um autor anónimo do século II escreveu que «os cristãos são no mundo o que a alma é para o corpo». A tarefa da alma é sustentar o corpo, ser a sua consciência e memória histórica. E uma história bimilenária liga a Europa e o cristianismo. Uma história não livre de conflitos e erros, e também de pecados, mas sempre animada pelo desejo de construir o bem. Vemo-lo na beleza das nossas cidades e, mais ainda, na beleza das múltiplas obras de caridade e de construção humana comum que constelam o Continente. Esta história ainda está, em grande parte, por escrever. Ela é o nosso presente e também o nosso futuro. É a nossa identidade. E a Europa tem uma necessidade imensa de redescobrir o seu rosto para crescer, segundo o espírito dos seus Pais fundadores, na paz e na concórdia, já que ela mesma não está ainda isenta dos conflitos.

 

Queridos Eurodeputados, chegou a hora de construir juntos a Europa que gira, não em torno da economia, mas da sacralidade da pessoa humana, dos valores inalienáveis; a Europa que abraça com coragem o seu passado e olha com confiança o seu futuro, para viver plenamente e com esperança o seu presente. Chegou o momento de abandonar a ideia de uma Europa temerosa e fechada sobre si mesma para suscitar e promover a Europa protagonista, portadora de ciência, de arte, de música, de valores humanos e também de fé. A Europa que contempla o céu e persegue ideais; a Europa que assiste, defende e tutela o homem; a Europa que caminha na terra segura e firme, precioso ponto de referência para toda a humanidade!

 

Obrigado!

 

Terça-feira, 25 de Novembro de 2014

 

Estrasburgo, França
 

 

Papa Francisco.jpg Francisco

NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO

 

250px-Michelangelo_Caravaggio_066.jpgCaravaggio

 

A festa de Nossa Senhora do Rosário foi instituída pelo papa Pio V, em 1571, quando se celebrava o aniversário da batalha naval de Lepanto. Segundo consta, os cristãos saíram vitoriosos porque invocaram o auxílio da Santa Mãe de Deus, rezando o rosário.

A origem do «terço» é muito antiga. Remonta aos anacoretas orientais que usavam pedrinhas para contar as suas orações vocais. O Venerável Beda sugerira aos irmãos leigos, pouco familiarizados com o Saltério latino, que se utilizassem de grãos enfiados num barbante na recitação dos «pai-nossos» e «avé-marias».

Segundo a lenda, em 1328 Nossa Senhora apareceu a São Domingos recomendando-lhe a reza do rosário para a salvação do mundo.

Rosário significa coroa de rosas oferecidas a Nossa Senhora. Os promotores e divulgadores da devoção do rosário no mundo inteiro foram os dominicanos.

In POVO 07.10.14

800 ANOS DA LÍNGUA PORTUGUESA

TESTAMENTO DE D. AFONSO II – 27 DE JUNHO DE 1214

 

Apesar de ser rei e soberano absoluto, D. Afonso II, em 27 de Junho de 1214, escreveu um texto que não é um Decreto. Ele obviamente não disse: “Decreto hoje fazer esta língua. E fica feita.” Não, D. Afonso II escreveu apenas o seu testamento; limitou-se a usar uma língua que obviamente já existia e já era usada pelo seu povo, antes de ele a usar também. O simbolismo deste momento e desse marco é que é a primeira vez que isso foi feito. Nunca antes dele, um Rei, um Estado, um soberano usara a nossa língua, escrevera oficialmente a nossa língua.    

 

Existem dois exemplares deste testamento: a cópia que foi enviada ao arcebispo de Braga e aquela que foi enviada ao arcebispo de Santiago.

linha 1
En'o nome de Deus. Eu rei don Afonso pela gracia de Deus rei de Portugal, seendo sano e saluo, temëte o dia de mia morte, a saude de mia alma e a proe de mia molier raina dona Orraca e de me(us) filios e de me(us) uassalos e de todo meu reino fiz mia mãda p(er) q(ue) de

linha 2
pos mia morte mia molier e me(us) filios e meu reino e me(us) uassalos e todas aq(ue)las cousas q(ue) De(us) mi deu en poder sten en paz e en folgãcia. P(ri)meiram(en)te mãdo q(ue) meu filio infante don Sancho q(ue) ei da raina dona Orraca agia meu reino enteg(ra)m(en)te e en paz.
E ssi este for

linha 3
morto sen semmel, o maior filio q(ue) ouuer da raina dona Orraca agia o reino entegram(en)te e en paz. E ssi filio barõ nõ ouuermos, a maior filia q(ue) ouuuermos agia'o ...

 

 Pedro Aguiar Pinto

EM MEMÓRIA DE D. JOSÉ POLICARPO (1936-2014)

 

Povo de missionários em contexto de secularização

 

D. José Policarpo morreu esta quarta-feira, 12 de Março de 2014, em Lisboa, vítima de um aneurisma na aorta, revela a Renascença.

Nascido a 26 de Fevereiro de 1936 - tinha completado 78 anos há poucos dias - na aldeia do Pego, freguesia de Alvorninha, concelho das Caldas da Rainha, D. José Policarpo foi ordenado padre a 15 de Agosto de 1961.

 

A 26 de Maio de 1978 o papa Paulo VI nomeou-o bispo auxiliar de Lisboa, e a 5 de Março de 1997 o papa João Paulo II confiou-lhe o cargo de coadjutor do patriarca.

 

No dia 24 de Março de 1998 sucede a D. António Ribeiro e a 21 de Fevereiro de 2001 é criado cardeal.

 

A 18 de Maio de 2013 o papa Francisco aceita o seu pedido de resignação e nomeia D. Manuel Clemente como sucessor.

 

A 30 de Novembro de 2013 o papa Francisco confirmou-o como membro da Congregação para a Educação Católica, um dos dicastérios (principais "ministérios") da Santa Sé.

 

Integrou também a estrutura dos Pontifícios Conselhos da Cultura e Leigos.

 

Autor de vasta obra no domínio da teologia e da pastoral, que realçou a importância a dar aos «sinais dos tempos», D. José Policarpo foi presidente da Conferência Episcopal Portuguesa e magno chanceler da Universidade Católica, depois de ter dirigido a Faculdade de Teologia.

 

O patriarca emérito, que participava no retiro do episcopado que decorre em Fátima, continuava a proferir palestras: Para 2 de Abril tinha agendada a conferência "Pode Deus permitir o inferno", em Aveiro.

 

D. José Policarpo acreditava que «evangelizar é intervir na cultura», pelo que «não haverá civilização cristã sem evangelização da cultura».

 

As exéquias serão na próxima sexta-feira, 16h00, na sé de Lisboa, seguindo depois para o mosteiro de S. Vicente de Fora, o panteão dos Patriarcas.

 

1. É manifesto que o fenómeno da secularização, como está descrito no «Instrumentum Laboris», e a deriva do secularismo se fazem sentir igualmente no nosso país e na nossa cultura, apesar da sua história fortemente marcada pelo catolicismo, pela fidelidade ao Papa, pelo ardor missionário e pelo amor a Nossa Senhora, coroada Rainha de Portugal.

 

Todos estes valores sofrem a erosão da mudança cultural: correrão eles o risco de desaparecer?

 

O secularismo marca o ambiente cultural e influencia a vida daqueles que não têm convicções profundas nem estão habituados a exercitar a liberdade, apesar das condicionantes culturais. Este secularismo, sendo a água onde todos os peixes devem navegar, não impede que alguns sigam o seu caminho.

 

Enfrentar uma cultura hostil à sua missão e à sua perspectiva de vida não é uma novidade para a Igreja. Foi assim no Império Romano e em todos os continentes onde a Igreja levou a mensagem de Jesus. No Ocidente habituámo-nos a um enquadramento cultural profundamente marcado pelo cristianismo, por que, apesar de todos os erros, a fé cristã transformou a cultura, tornou-se cultura. Esta mudança é muito brusca para que a ela nos habituemos com facilidade; é semelhante à agitação sentida pela Igreja aquando da queda do Império Romano e ao enfraquecimento do quadro cultural que o sustentava. Apenas a ousadia do Espírito nos permitirá recomeçar.

 

Um novo tempo, que não é o retorno ao tempo da Idade Média, mas a um tempo novo. É a audácia da esperança. Na primeira parte do «Instrumentum Laboris» senti a falta de sinais de esperança. Em todas estas circunstâncias da história, a Igreja deve poder discernir "sinais", "sinais dos tempos", e novas oportunidades do Reino.

 

Para enfrentar os novos caminhos da missão, a Igreja confronta-se com dificuldades no seu interior: a sua linguagem, a sua forma de se relacionar com a sociedade – as suas estruturas e as suas leis –, sobretudo uma religiosidade sem a força transformadora da fé. Uma Igreja que defende o «status quo» adquirido ao longo dos séculos, mas que está enfraquecida no ardor da fé e na fidelidade a Jesus Cristo, é vulnerável a estas mudanças culturais.

 

2. Como em todos os enquadramentos culturais onde a Igreja faz o anúncio de Jesus Cristo, diante de uma cultura secularizada ela é confrontada com duas atitudes aparentemente irreconciliáveis: a ruptura ou a identificação com muitos valores que na sua inspiração profunda são comuns ao que ela propõe. Este dilema já se tinha colocado a Jesus, frente aos fariseus e aos doutores da lei: nada do que pertence à Lei é para ser abolido, mas o Reino dos Céus exige uma ruptura, onde se poderá semear o futuro.

 

3. Mas falemos do espírito de missão, uma das linhas de força da identidade cultural dos católicos portugueses. Como é que ele resiste numa cultura secularista? Estou convencido que um verdadeiro espírito de missão, enraizado na experiência da fé, é o dinamismo que melhor pode penetrar nesta cultura secularizada.

 

3.1. Em primeiro lugar, é preciso reconhecê-lo, assiste-se a uma secularização do espírito de missão, que se exprime na solidariedade de pessoas e de instituições. Ao nível do Estado laico há um esforço para demonstrar que ele pode resolver os problemas sociais e favorecer a entreajuda entre pessoas, sem apelar à Igreja. Esta não detém a exclusividade do serviço social. Os profetas da laicização da sociedade falam de uma "ética republicana", que anuncia a capacidade da república construir uma sociedade solidária. Por outro lado, poderosas organizações não governamentais (ONG) mobilizam a sociedade civil, neste espírito de missão de alcance internacional.

Muitos cristãos estão empenhados nessas missões.

 

3.2. No interior da Igreja surgem novas expressões da missão «ad gentes».

 

O número de missionários, padres, religiosos e leigos que partem para missões de longa duração ainda é impressionante. Sobretudo entre os jovens universitários está em marcha a experiência de partir em missão, por uma curta duração, durante um ano ou alguns meses, em colaboração com as Igrejas locais, sobretudo da África de língua portuguesa. Só em Lisboa há centenas de jovens que a cada ano se inscrevem. Nasceram estruturas permanentes, do tipo ONG, como os "Leigos para o Desenvolvimento". Estas experiências missionárias de curta duração são, por vezes, o terreno onde amadurecem vocações missionárias, sacerdotais, religiosas e laicais.

 

3.3. Mas o grande desafio pastoral para a Igreja é suscitar um sentido de missão, a alegria e a urgência de testemunhar a fé na sociedade que os crentes partilham com todos os outros. Trata-se de descobrir a simplicidade da missão. Foi esse o desafio do Congresso Internacional para a Nova Evangelização. A população de Lisboa mostrou que estava pronta a aceitar expressões da missão em espaços profanos. Na grande manifestação de encerramento, em torno da imagem de Nossa Senhora de Fátima, cerca de um milhão de pessoas caminharam numa procissão de luz.

 

Um aspecto muito importante da missão num ambiente cultural secularizado é a acção dos cristãos leigos no coração das realidades terrestres. Com a crise da Acção Católica e o surgimento dos movimentos carismáticos, esta dimensão da missão caiu no esquecimento; nas estruturas pastorais não há quase nada que esteja orientado para uma ajuda específica a estes cristãos e à sua missão. Em Lisboa temo-nos esforçado por valorizar esta missão, propondo aos fiéis que, em grupo, façam uma leitura das realidades da sociedade, à luz da Doutrina Social da Igreja. A Palavra de Deus e o ensinamento da Igreja são os faróis que iluminam esta leitura crente das realidades actuais.

 

Continuo a crer que, em termos culturais, mesmo em águas agitadas é possível navegar na direcção das escolhas de vida e de verdade.

D. José Policarpo, Cardeal Patriarca de Lisboa
Plenário do Conselho Pontifício da Cultura, Roma, 06.03.2008


© SNPC | 12.03.14

 

 

 Pedro Aguiar Pinto

SE

 

 

Se és capaz de conservar o teu bom senso e a calma,
Quando os outros os perdem, e te acusam disso,

Se és capaz de confiar em ti, quando de ti duvidam
E, no entanto, perdoares que duvidem,

Se és capaz de esperar, sem perderes a esperança
E não caluniares os que te caluniam,

Se és capaz de sonhar, sem que o sonho te domine,
E pensar, sem reduzir o pensamento a vício,

Se és capaz de enfrentar o Triunfo e o Desastre,
Sem fazer distinção entre estes dois impostores,

Se és capaz de ouvir a verdade que disseste,
Transformada por canalhas em armadilhas aos tolos,

Se és capaz de ver destruído o ideal da vida inteira
E construi-lo outra vez com ferramentas gastas,

 

Se és capaz de arriscar todos os teus haveres
Num lance corajoso, alheio ao resultado,

E perder e começar de novo o teu caminho,
Sem que ouça um suspiro quem seguir ao teu lado,

 

Se és capaz de forçar os teus músculos e nervos
E fazê-los servir se já quase não servem,

Sustentando-te a ti, quando nada em ti resta,
A não ser a vontade que diz: Enfrenta!

Se és capaz de falar ao povo e ficar digno
Ou de passear com reis conservando-te o mesmo,

Se não pode abalar-te amigo ou inimigo
E não sofrem decepção os que contam contigo,

Se podes preencher todo minuto que passa
Com sessenta segundos de tarefa acertada,

Se assim fores, meu filho, a Terra será tua,
Será teu tudo que nela existe

E não receies que te o tomem,

Mas (ainda melhor que tudo isto)
Se assim fores, serás um HOMEM.


 Rudyard Kipling (1865-1936)

Poeta britânico, prémio Nobel

 

 

A FORÇA DA RAZÃO

 

 

Devemos saber duvidar onde é necessário, afirmar onde é necessário, submetendo-nos onde é necessário.

Quem assim não faz não escuta a força da razão.

Há os que faltam a estes três princípios, ou tudo afirmando como demonstrativo, por não saberem fazer a demonstração; ou tudo duvidando, por não saberem onde se devem submeter; ou submetendo-se em tudo, por não saberem onde devem julgar.

 

  Blaise Pascal, Pensées #268

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