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A bem da Nação

O PLANETA DOS PALHAÇOS - 3

Capitulo 3 – O Reencontro e a Paz

 

Um mês depois e depois da continuação da guerra que já durava mil anos, o Príncipe Supremo dos Palhaços Alegres encontrou-se, como prometido, com a Princesa Herdeira dos Palhaços Tristes, no local da floresta combinado.

 

Contudo, não tendo tomado as precauções e pelas suspeitas que haviam levantado na última vez, em que tinham vindo as partes de cada um deles à procura de ambos, lá estavam pela segunda vez frente a frente, movidos por uma ânsia como ambos nunca tinham antes sentido. No mês que estiveram cada um para seu lado, um fogo ardente e quase insuportável havia crescido no peito de um e do outro, e só este novo encontro veio conseguir acalmar.

 

Sem palavras, só mexendo os olhos no sentido dos dele, ela esticou as duas mãos fechadas na direção dele e abrindo-as, deixou ver duas pérolas do tamanho de ovos de pomba, sendo uma de prata com um sinal de menos a preto e outro de ouro, com um sinal de mais a vermelho, correspondentes, o primeiro, ao sexo feminino e o segundo, ao sexo masculino.

 

Ele ficou simplesmente abismado a olhar para ambas as palmas das mãos dela, sabendo que aquelas eram as sementes plantadas no primeiro encontro de ambos, e não se contendo, agarrou as mãos dela com as dele, fazendo-o de forma a envolver aconchegadoramente ambas as pérolas. Um brilho imenso saiu dos dois pares de mãos entrelaçadas, ocultando-as numa intensa bola de luz multicolorida, com raios saindo em todas as direções, para se espalharem pela floresta, num autêntico espectáculo de luz. A luz das mãos foi aumentando até envolver os dois numa única esfera enorme de luz, que irradiava luz para todos os lados. Vieram de todos os cantos da floresta, pássaros e outros animais silvestres e selvagens, acordados e espantados com o estranho fenômeno, atraídos pela intensa radiância ali produzida, que a tudo iluminava como se tivesse de repente virado dia.

 

No Mundo dos Palhaços, os bebês depois de concebidos pelo contacto, nasciam de pequenas esferas, que mais não eram que ovos de Palhaço, e era na mistura e na simbiose das mãos do casal paterno e da luz que eles produziam neste ato, que se desenvolviam as crianças Palhaços.

 

Ainda eles estavam envolvidos pela radiante e faiscante luz, quando de um lado e do outro da floresta, apareceram hordas de Palhaços

Tristes e de Palhaços Alegres, fortemente armados de todo o tipo de armas, prontos para a batalha, quando se depararam com um dos mais intensos espetáculos de luz e côr já antes visto por um ou o outro lado.

 

Frente a frente e prontos para um choque violento, ambos os exércitos pararam por momentos face a tal deslumbrante e mágico espectáculo.

 

Instantes mais tarde, a luz começou a perder intensidade, até que quando foi diminuindo a sua intensidade, se viram no seio do sítio de onde provinha, o Príncipe Supremo dos Palhaços Alegres, a Princesa dos Palhaços Tristes e duas crianças já meio crescidas, embora ainda recém nascidas, provindas das duas pérolas que a Princesa havia apresentado ao Príncipe. Pela primeira vez em mil anos, haviam nascidos duas crianças Palhaço de uma relação entre um Palhaço Alegre e uma Palhaça Triste e, ainda por cima, de Principes Herdeiros a ambos os Tronos do Planeta dos Palhaços.

 

Nem o Rei dos Palhaços Alegres, Pai do Príncipe Supremo, nem o Rei dos Palhaços Tristes, Pai da Princesa Herdeira, à frente de cada um dos exércitos oponentes, sabia agora o que fazer perante tal situação tão desconcertante e complexa, quando até ali haviam estado em guerra permanente.

 

O que fazer? Prender a ambos e condená-los à morte nos Vulcões ou simplesmente ir avante com uma grande batalha para ver quem ganhava a contenda e ficaria com o poder de prender quem quer que fosse aqui na questão.

 

Perante tal situação nunca antes vivida e face a tal enlace, só havia agora a via da conversa. Assim, ambas as partes decidiram montar uma tenda gigantesca a meias, metade situada no lado de cà e a outra, no lado de lá da fronteira. No centro, numa das partes laterais, ficaram sentados lado a lado, o Príncipe e a Princesa e os seus dois recém nascidos Filha e Filho, que já andavam e mexiam tão bem como uma criança Terrestre de 5 anos.

 

As conversas começaram, com ambos os Reis a tomar a palavra. O Rei dos Palhaços Tristes foi o primeiro a pronunciar-se, - Sua Alteza o Rei dos Palhaços Alegres, como sabe a nossa guerra tem mil anos de idade e não foi feita para parar, mas com este acontecimento não previsto, o que poderá propor Sua Alteza perante ambas as Côrtes?

 

O Rei dos Alegres, diz por sua vez:

 

- Sua Alteza Rei Palhaço Triste, perante tal acontecimento, só temos duas opções! Jogá-los aos Vulcões aos dois ou então, jogar as crianças de ambos e deixá-los a eles vivos e a sofrer do castigo de tal ato e fruto proibidos, perpretado perante nossos dois Povos.

 

O Rei dos Tristes, por sua vez disse:

 

- Sua Alteza dos Palhaços Alegres, sou obrigado a estar plenamente de acordo com as duas opções, pois, entre nós não poderá haver mais sensata solução para esta questão. Entre nós há guerra a mil anos e não será por esta bizarra ocorrência, apesar de ter sido perpretada pelos Principes Supremos, herdeiros de ambas as Côrtes, que vamos simplesmente perdoar-lhes e deixar as coisas assim, pois, a guerra tem de continuar entre nós, saibamos qual foi o motivo que a motivou ou iniciou ou não!

 

Nisto, ouviu-se uma voz vinda do alto da tenda e como se esta fosse transparente e trespassável, surge do nada um imponente Anjo todo vestido de branco sedoso, que mais parecia constituída por faixas sobrepostas de luz pura e luminescente, que a pairar no alto, disse, - Escutai-me bem ó Reis Palhaços! Mil anos de guerra já bastam. Chegou a hora do entendimento e da paz, e esses, ei-los aqui ao vosso lado simbolizados, são o Príncipe dos Palhaços Alegres e a Princesa dos Palhaços Tristes, que acabaram de à vossa frente, de selar um verdadeiro tratado de amor e de harmonia entre os vossos dois Povos. De ora em diante, eles como Principes Herdeiros de ambos os Reinos, casarão e serão o supremo símbolo da união dos Povos do Planeta dos Palhaços, e seus filhos chamar-se-ão em lembranca disso, Amor, ele, e Harmonia, ela...

 

A partir deste momento, todos aqueles que tiveram no lado da guerra, irão servir como Palhaços num Planeta chamado Terra e lá, a título de redenção pelos seus atos, irão servir para fazer rir, ou no papel de Bobos das Côrtes Terrestres, ou como simples Palhaços nos Circos e noutras atividades circenses, para animar crianças humanas e por aí afora.

 

Os Nobres e os mais Altos Dignatários, esses irão criar Escolas para ensinar a arte da Palhaçada aos Terrestres, para que aqueles se distraiam e aprendam a rir, a humorizar e a brincar, sobretudo, naqueles momento em que isso for necessário, e naqueles maiores períodos mais sombrios, de crise ou de tristeza e onde haja necessidade de manter a fé, a boa disposição e a moral, acima de tudo.

Dito isto, todos aqueles mentores, fazedores e partidários da guerra, foram levados pelo Anjo para a Terra e por lá andam até os dias de hoje como Palhaços, enquanto no Planeta dos Palhaços, reina agora a união, a paz plena, o amor e a harmonia...

           

FIM

 

   

MANUEL DE SOUSA

Luanda – Angola

O PLANETA DOS PALHAÇOS - 2

Capitulo 2 – O Encontro

 

Andavam ambos procurando cogumelos para a janta, quando de tanto procurar e procurar, se perderam no meio de uma floresta frondosa e que era tida como sendo cheia de acontecimentos de mistério.

 

A floresta em questão, era localizada num sítio muito remoto, no sopé de uma região montanhosa fronteiriça onde poucos se atreviam a ir, à exceção de um determinado Palhaço Alegre, tido muito aventureiro e destemido, e de uma determinada Palhaça Triste, também considerada corajosa e tida a aventuras.

 

Um ramo partido, num lado e um barulho de susto feminino, no outro, despertaram os sentidos a ambos e logo levantaram as cabeças para ver o que os provocara. Deram os dois a olhar um para o outro.

 

Não sabiam bem o que dizer um para o outro, sobretudo, quando viram serem um e outro, de lados inimigos. Apanhados pela surpresa, a princípio mantiveram o silêncio e um certo ar de espanto.

 

Olharam ambos em redor, para ver se havia mais alguém, mas nada viram para além deles e das árvores que os rodeavam e dos picos das montanhas lá mais para cima, para os lados do horizonte celeste.

 

Talvez porque se desse conta de já estar meia perdida e de talvez até, de já estar por distração, no território dos Palhaços Alegres, lá encheu os pulmões de ar e com um ar triste, disse, - Ó Palhaço Alegre, quem és tu e o que fazes no meu lado da fronteira?

 

Em resposta e ainda meio surpreendido, o Palhaço Alegre respondeu, - Quem está no território alheio és tu!

 

Ficaram nesta teimosia um bom par de horas e chegaram até a jogar um ao outro, os cogumelos que haviam apanhado para os cestos que ambos traziam a tiracolo.

 

Já sem nada nos respectivos cestos e com cogumelos espalhados por todo o lado em redor, lá tiveram o consenso de parar o ato agressivo e de voltar a dialogar.

 

A Palhaça foi a primeira a tomar a iniciativa, dizendo, - Ouve bem! Quem és e o que fazes aqui tão longe da tua Aldeia?

 

Ele respondeu, - Sou o Príncipe Supremo da Côrte dos Palhaços Alegres e vim aqui para apanhar os meus cogumelos favoritos e tu, quem és afinal?

 

Ela retorquiu, - Eu sou a Princesa Herdeira da Côrte dos Palhaços Tristes e um dia serei a Rainha de todo o Reino dos Palhaços Tristes e também vim aqui apanhar os cogumelos mais raros e gostosos do Planeta, mas contudo, ainda não respondeste o que te fez passar para o meu lado da fronteira?

 

Não querendo continuar a teimar de que lado da fronteira estava, ele prosseguiu dizendo, - Minha linda Palhaça Triste, se achas que estou no teu lado da fronteira, pois e apesar de não ver marca nenhuma em lado nenhum que o diga, vou já embora, para não termos que continuar esta teimosia sem graça alguma.

 

Ele interferiu de imediato, - Palhaço Alegre, o melhor será apanhares os meus e os teus cogumelos, ao invés de perderes tempo com palavras, devolvendo após isso os meus, para que eu também vá embora, pois, já me estou a sentir meio perdida e tão logo será noite para voltar para casa. Se não volto antes do anoitecer, decerto que meu Pai, o Rei dos Palhaços Tristes vai mandar os seus principais exércitos à minha procura e se te apanharem perto de mim, não sei o que te poderão fazer!

 

De forma estranha, ele viu-se a apanhar os cogumelos de ambos e a colocá-los em primeiro lugar no cesto dela, para depois apanhar os que restavam para o seu cesto. Findo isso, viu que ela havia se sentado num tronco seco ali perto, observando e esperando até ele apanhar o último.

 

Findo isso, ele dirigiu-se a ela.

 

- Então, Cara Princesa, ainda aqui estás? Pensei que mal te devolvesse o cesto, que te punhas a caminho dos teus, para evitar que eles venham à tua procura e acabem nos achando aos dois.

 

Ela olhou para os olhos dele e disse:

 

- Estava somente a brincar contigo, pois, já passei outras noites nas florestas e em outros lugares recônditos, completamente sozinha e já todos estão habituados que eu regresse sempre sã e salva a casa, pelo que não te deves preocupar com isso. Além disso, já nem eu nem tu teremos tempo para sair daqui antes do anoitecer e tão pouco para chegar a casa a horas, pelo que, o melhor será procurares um abrigo para ambos, onde possamos estar protegidos contra os animais selvagens e as intempéries.

 

Ele ficou calado por uns momentos, em tom de quem buscava resposta, para dizer:

 

- Mas isso não me parece sensato de forma alguma. E se vêem em nossa busca de parte a parte e nos apanham juntos, o que irão fazer connosco?

 

- Para já, não sabem bem onde procurar na floresta e ainda mais à noite. O mais óbvio, será que nos procurem só a partir do amanhecer. Enquanto isso, podemos muito bem passar a noite protegidos e juntos, numa das muitas grutas que por aqui existem, sem termos que nos expor cada um à sua sorte e aos inúmeros perigos que por aqui há à noite -, disse ela.

 

Assim, ele procurou um abrigo e quase de imediato encontrou uma gruta, que parecia ser cômoda para os dois passarem a noite em paz. Buscou alguns gravetos e folhas secas e fez duas fogueiras, uma perto da entrada, onde já tinha colocado algumas espinheiras, para evitar os animais selvagens, e uma outra fogueira, junto ao local onde iriam repousar.

 

Pousaram os respectivos cestos num dos cantos e o melhor que puderam, deitaram-se um junto do outro, e sem saberem bem porquê, talvez pelo frio que fazia na gruta, acabaram por se agarrar um ao outro. Os narizes desproporcionados de um e do outro, não tornava o repouso lá muito confortavel e acabaram por passar a noite meio acordados, quase até ao amanhecer.

 

Mal acabaram de colocar os cestos a tiracolo e de se lavarem ali perto num pequeno regato, começaram a ouvir sons de cães e de gente vinda de ambos os lados da floresta.

 

Ele foi dizendo:

 

- Parece que está vindo gente à minha procura do lado de lá da minha fronteira, pelo que o melhor é nós nos separarmos aqui e irmos cada um na sua direção, pois, também há gente vindo do teu lado e que muito naturalmente, vêm à tua procura.

 

Ela respondeu de forma surpreendente, - Nunca te esquecerei. E só vou fazer o que me pedes, para que tu não sejas feito prisioneiro, se apanhado junto a mim. Hei-de fazer tudo para te ver novamente, mesmo estando os nossos lados em guerra.

 

Ele olhou para ela, mais estupefacto que nunca e quase a gaguejar, mas com semelhante coragem, disse:

 

- Não sei bem o que aconteceu entre nós, mas algo de muito mágico e forte, talvez vindo da floresta, nos modificou durante a noite, e, agora só te tenho a ti na cabeça, pelo que, também farei tudo para te voltar a ver.

 

Ainda antes de partir na direção oposta, ela virou a cabeça para trás e disse:

 

- Daqui a um mês, regressarei aqui para te encontrar, pelo que espero que cá estejas então!

 

Ele concordou:

 

- Assim será da minha parte!

 

Cada um correu o mais que pode, de encontro às vozes que vinham de ambas as partes da fronteira, para evitar que um ou o outro pudessem ser vistos de parte a parte.

 

A guerra continuou e os planos de invasão e de novas batalhas iam-se revezando e renovando. Muitos continuaram a serem feitos prisioneiros, pelo que nada previa que haveria um fim para tal conflito entre Palhaços Tristes e Alegres.

 

(continua)

 

 

Manuel de Sousa

 Luanda - Angola

 

 

 

 

O PLANETA DOS PALHAÇOS - 1

 

 

Capítulo 1 – A Guerra

 

Era um Planeta quase normal, que orbitava à volta de uma Estrela um pouco maior e mais avermelhada que o Sol, onde os tons das côres eram um tanto mais vivos e luminosos do que os da Terra.

 

Não fossem seus habitantes terem aspecto de palhaços, nao só porque passavam o tempo pintados e mascarados, mas porque, suas feições eram apalhaçadas e grotescas, em grande parte dos casos, e tudo o resto era aparentemente normal.

 

As côres da pele tambem poderiam variar de aldeia para aldeia e ir de um lado ao outro do expectro, e as feições diferenciadas, tornavam-se parecidas e características de e em determinados locais.

 

Os habitantes poderiam apresentar narizes redondos ou arrebitados ou mesmo, com outras variadas formas meio disformes, havendo uns que pareciam autênticos turbérculos, alguns parecidos com batatas e outros, com cenouras ou ainda, com mandiocas.

 

Para quem ouvisse falar pela primeira vez do Planeta dos Palhaços, iria pensar tratar-se de um Planeta onde só existiam palhaçadas, graças e muito humor constantemente, e sobretudo, paz e harmonia. Mas, pelo contrário, o Planeta estava em guerra há mais de mil anos e tudo porque, metade do Planeta era habitada pelos chamados Palhaços Tristes e a outra metade, pelos Palhaços Alegres.

 

Uns não podiam com os outros, pelo simples fato de uns apresentarem um semblante sempre carregado e triste e os outros, alegre e descontraído, apesar de ambos os lados, apresentarem o mesmo tipo de atitude apalhaçada que sempre caracterizou os palhaços.

 

Portanto, não se misturavam e os Tristes viviam em suas Cidades e Lugarejos e os Alegres nas suas respectivas Localidades. Havia uma fronteira que delimitava ambas as metades do Planeta e quem fosse apanhado no lado oposto, era simplesmente aprisionado e jogado em um dos muitos Vulcões existentes no Planeta.

 

Por vezes haviam batalhas para tentar invadir uma e a outra parte, mas que, acabavam invariavelmente em um empate, pelo que nem uma nem a outra obtinha grandes vantagens.

 

Ao longo dos mil anos que já demorava a guerra, ninguém se lembra de alguma vez ter havido um casamento ou qualquer tipo de relacionamento ou amizade que fosse, entre a parte de lá e a parte de cá do Planeta, pelo que os Palhaços Tristes casavam entre si e os Palhaços Alegres com as respectivas consortes Alegres.

 

Mas tudo isto, estaria para breve, em mudança...

 

(continua)

 

 

Manuel de Sousa

 Luanda - Angola

 

O ROSEIRAL DO CICLOPE E A ROSA – 2

 

 

Enquanto tratava do Roseiral, o Ciclope sentia-se cada vez mais atraído pelo perfume exalado pela rosa branca e vermelha e frequentemente lembrava-se de seus dizeres. Isto, sem bem saber ainda, se acreditar ou não nisso, ou se, o que se estava a passar, não seria só produto de sua imaginação.

 

Depois de ter tratado das outras rosas com o carinho e cuidado habituais, chegou a vez da Rosy. Retirou-lhe as folhas secas dos ramos, borrifou-a ao de leve com água, olhou para ela e ao chegar o nariz mais perto dela, para apreciar mais profundamente o supremo perfume que dela saía, sentiu-se desta vez mais intensamente e de facto, transportado num turbilhão de luz e cores, para um outro lugar qualquer. Fechou os olhos, pois, ao mesmo tempo e enquanto deixava que o perfume lhe inundasse os sentidos, sentiu-se num relaxe profundo. Iniciou-se assim, uma intensa fase de viagens que já nem eram breve e nem breves, mas sim, astrais e que lhe permitiam tele transportar-se fisicamente para outros lugares distantes. Fosse para onde fosse transportado, a Rosy continuava a ir e lá estava sempre aos seus pés. Viajaram dessa forma, os dois, para inúmeros locais, que mais pareciam tirados de uma fantasia ou de sonhos. Desta vez, os locais idílicos com belos jardins e quedas de água, cheios de verde vegetal por todo o lado, tanto aqui na Terra, como em outros, localizados em distantes Planetas habitáveis, situados em outras Galáxias, eram muito mais duradoiros e reais.

 

Após tantas idas e vindas e de muitas e múltiplas aventuras vividas, numa bela ocasião, viajaram para um Planeta, onde aparentemente, os habitantes principais e mais evoluídos, eram precisamente os Ciclopes.

 

Então, ao lá chegarem, a Rosy exclamou: - Meu amigo e criador Ciclope, trouxe-te aqui, porque foi aqui onde tu tiveste a tua origem e, como já estou quase a chegar ao fim de meu tempo de floração, não o queria deixar de fazer. Esta é a maneira como te agradeço, por me teres criado e por me teres cuidado com esmero e amor, ao longo de minha efémera vida. Esta, dependendo de tua opção, poderá ser uma de nossas últimas viagens em comum. Contudo, antes do regresso à Terra, terás aqui uma missão especial para cumprir. Como vês, aqui não há Roseirais nem rosas, visto que os Ciclopes, assim como os Seres Humanos, sempre acreditaram serem aqueles primeiros demasiado brutos para terem suficiente sensibilidade para as cultivar e para cuidar delas. Vamos ficar aqui os dois uns tempos, para que tenhas tempo para ensinar aos Ciclopes como eles o podem fazer. Mas, para os convenceres, só o poderás fazer exemplificando-o, para os atrair e para, assim, lhes provar que se tu o podes fazer, eles também o poderão.

 

Uns meses depois, o Roseiral já estava montado e as primeiras rosas, cujas sementes a Rosy havia solicitado ao Ciclope para trazer consigo numa sacola, estavam agora a desabrochar e a florir. Entre as sementes escolhidas, havia algumas que pertenciam aos pés de rosa que melhores rosas perfumadas produziam lá na Terra. As restantes, eram de pés de rosas que, embora não exalassem perfumes muito activos, atraíam pela sua variedade e vivacidade de tonalidades, que iam do preto, ao amarelo vivo, ao verde, ao tinto aveludado e a outras espantosas cores.

 

Nisto e aos poucos, os que por ali passavam perto do Roseiral, iam parando para olhar e para tentar identificar de onde vinha tanta combinação de perfumes, que enchia o ar em redor. No início, é provável que os Ciclopes não soubessem o que era um Roseiral ou uma rosa. Mas, à medida que iam passando a palavra uns aos outros, não tardou que em breve, Aldeias, Vilas e Cidades inteiras onde viviam os Ciclopes do Planeta Ciclope, fossem ficando curiosas e comentando sobre tal lugar, onde se havia radicado um misterioso Ciclope, que ninguém sabia de onde viera e começara a plantar flores. Flores essas, de cores variadas e que exalavam um perfume quase mágico, que atraía a todos os que passavam por lá. Os rumores começaram a ter tal intensidade que chegaram aos ouvidos dos Reis dos vários Clãs de Ciclopes. Estes então juntaram-se em função disso e decidiram visitar o tal local das rosas. Lá postos, ficaram deveras admirados por ver um Ciclope como eles e com a mesma aparência bruta, mas que praticava modos comedidos e cuidadosos. Aquele recebeu-os de forma cordial e a sua fala apresentava-se admiravelmente educada. Levou-os a ver cada uma das rosas do Roseiral e foi-lhes explicando sobre os processos de seus cultivos, tratamento e como se cruzavam as varias estirpes para criar novas e cada vez mais belas e exóticas rosas. Algumas, que iriam atrair pela cor e outras, pela intensidade do perfume. Depois de todas as explicações e de verem todas, chegaram finalmente à Rosy, a rosa branca e vermelha, ficando todos pasmados e de boca aberta, de tanto espanto.

 

Queriam todos tocá-la, quase não acreditando que ela fosse real e que exalasse um perfume tão irresistível. De um momento para o outro, viram-se a viajar num turbilhão de emoções, indo todos parar a um imenso jardim algures no Planeta Terra. Aparentava ser o Palácio de Versalles, nos arredores de Paris, tendo-se deparado com um sem fim de canteiros com rosas de todas as cores e de cheiros perfumados que enchiam o ar. Era lindo demais e de cortar a respiração...

 

Novamente, junto com seu amigo Ciclope, lá estava a rosa branca e vermelha a guiar os restantes. Nisso, a Rosy disse ao Ciclope, tendo os Reis Ciclopes também escutando: - Meu bom criador, agora que a tua missão parece estar a finalizar e a minha também, chegou a hora de os levar a todos de volta ao Planeta dos Ciclopes e tu podes optar em ficar ou ir. Quanto a mim, poderei levar-te ao teu antigo Roseiral aqui na Terra, onde eu nasci às tuas mãos, ou então irás de vez comigo e com os Reis Ciclopes para o Planeta Ciclope, passando a viver ali até ao fim dos teus dias. Eu, por minha vez, vou enfrentar a minha última viagem a levá-los de volta ao Planeta Ciclope. Ali ficarei até ao meu definhamento e secagem completos, restando-me passar a ser uma referência para os Ciclopes, pois, tenho a certeza de que, depois de tudo o que viram na Terra, irão encher o Planeta Ciclope de Roseirais com belas rosas, e ainda, também, de muitas outras espécies de flores.

 

O Ciclope olhou para os Reis Ciclopes e perguntou-lhes, a fim de tentar obter deles a firme confirmação para o que havia dito a Rosy: - Majestades, o que ireis fazer no vosso regresso?

 

Em resposta, os Monarcas responderam em uníssono: - Mestre Jardineiro, se vieres connosco, serás nosso Professor e, contigo a orientar-nos, iremos editar uma Lei onde todos os Ciclopes deverão dedicar um pouco dos seus tempos a cultivarem Jardins, sobretudo Roseirais, em seus Quintais. Para começar, iremos nós exemplificar tal acto, iniciando o plantio de Roseirais nas Praças Publicas e em frente de nossos palácios. Será assim, partir de agora, um hábito Ciclope.

 

O Ciclope, regressou com os Reis Ciclopes ao Planeta Ciclope, onde iria assim, acompanhar a Rosy em seu definhamento final.

Dela, originaram-se sementes de novas rosas brancas e vermelhas, tão lindas e cheirosas quanto ela. Hoje, não há Jardim no Planeta Ciclope, que não tenha uma rosa branca e vermelha, como uma autêntica Rainha, no meio de outras rosas de outras cores e de outras flores...

 

Hoje, existem também em todos os Reinados e Clâs do Planeta Ciclope, uma estátua do Ciclope e da Rosy, que vieram da Terra, para ensinar aos Ciclopes, antes tidos como seres brutos e insensíveis, a serem seres atenciosos e mais sensíveis, tanto no plantio de Jardins, como no trato de uns para com os outros...

 

Luanda, 25 de Dezembro de 2012

Manuel JFD de Sousa

O ROSEIRAL DO CICLOPE E A ROSA – 1

 

 

Todos já ouvimos dizer que, os Ciclopes das antigas lendas Grega, eram uma raça de gigantes de força bruta e que tinham somente um único olho no centro da testa.

 

Um dia, havia um Roseiral onde cresciam as mais lindas rosas jamais vistas. Contudo, havia um senão! O Roseiral era plantado e cuidado por um Ciclope.

 

Nem ele e nem ninguém, sabiam ao certo como ele, o Ciclope, se havia tornado um criador de rosas e nem de onde tinha ele vindo. Desde que se lembrava, sempre tinha estado a cuidar de rosas e fazia-lo como se fosse o dono, tanto do Roseiral e como das rosas, sem que ninguém das redondezas se atrevesse a questionar isso.

 

Todos, no entanto, se davam bem com Ciclope e o respeitavam, pois ele, ao contrário dos usualmente conhecidos Ciclopes de natureza bruta, era simplesmente um ser pacífico e um ser de elevada sensibilidade. Para além de cultivar rosas, cultivava-as também e tratava delas com carinho e ao pormenor, falando para elas e de forma individual. Fazia-o como se conhecesse cada uma delas em particular. E, sempre que nascia uma nova, ele apressava-se a dar-lhe nome.

 

Ele dominava ainda, a arte do apuramento e do cruzamento de rosas, sobretudo, adquirindo constantemente para o efeito, rosas de diferentes estirpes a outros Plantadores de rosas, ou ainda, fazendo-o com as que, vez por outra, lhe eram oferecidas ou resultado de troca.

 

Aos poucos, foi criando novas estirpes, com perfumes distintos e novas cores e tonalidades diferentes e particulares. A mais bela de todas, brotou aos seus olhos num momento em que estava há longo tempo a olhar para o seu botão, como se já tivesse antecipado intuitivamente tal acontecimento. Sabia que, aquela, pelas rosas que havia usado neste particular cruzamento, seria uma rosa muito especial. Chamou-lhe Rosy, pois, não conseguiu imaginar outro nome.

 

Assim foi que, depois de anos e entre tentativas frustradas, lá havia conseguido cruzar uma rosa vermelha com uma branca. Nos primeiros intentos, a rosa que resultava, ou saia em tons mais claros ou mais escuros, em várias tonalidades de cor-de-rosa, ou, saía malhada, em vermelho e branco. Mas, desta vez, foi completamente diferente, a nova rosa era vermelha nas orlas, nas pétalas inferiores e junto ao caule, e branca, nas pétalas interiores centrais. A divisão das cores era nítida, de tal forma que ele ficou tão entusiasmado com tal mágico momento do nascimento da nova e rara rosa que passou dias quase sem dormir ou comer, olhando a rosa em quase total acto de veneração. O seu perfume era sublime e intenso, também.

 

De tanto olhar e de cheirar o perfume da rosa, começou a ter a impressão de se sentir tele- transportado para algures. Em certos momentos, ia e vinha para locais que não conseguia reconhecer, de maneira breve e em actos sucessivos. Parecia decorrer tudo como se estivesse a viver um sonho. A Rosy, como era o seu nome, parecia acompanhá-lo sempre para tais, a princípio, indistintos lugares, como se tivesse algo a ver com isso, fossem onde fossem. O determinado momento, aquilo que havia sido tão-somente o eco do seu próprio pensamento, pareceu misturar-se com o eco de uma outra vozinha. No início, não acreditava que pudesse ser a Rosy que lhe tentava falar. Mas de tanto ouvir o rumor entrar em seu próprio pensamento e de se lhe misturar, logo começou a desconfiar que só poderia ser ela, pois, só estavam presentes os dois em certas circunstâncias.

 

Até que foi de arriscar fazer uma pergunta à Rosy: - Ou Linda Flor, diz-me lá quem és tu? E serás tu quem me interrompe o pensamento com tuas palavras?

 

A Rosy respondeu num tom muito sensível e feminino: - Sou a rosa a quem chamas Rosy e sim, sou eu que te falo! Mas, qual a causa de tanta admiração da tua parte?

 

- Nunca me passou pela cabeça que uma rosa pudesse falar mesmo sem boca, através do pensamento – respondeu o Ciclope.

 

A Rosa voltou a falar: - Se calhar nunca te passou pela cabeça que nós, rosas, nos comunicamos entre si, à semelhança do que acontece entre os outros seres vivos, não sendo esta uma faculdade exclusiva de Ciclopes ou Humanos. Só, ainda não tinha experimentado comunicar contigo, porque não sabia se isso seria possível e/ou se tu estarias preparado para tal e isso, para além do que vem a seguir! Pelo que consta, os Ciclopes são tidos como demasiado rudes, insensíveis e brutos, para que possam criar belas rosas. Mas tu, ao contrário, estás a provar que a sensibilidade e a delicadeza, também podem ser algo que se pode cultivar. Portanto aqui neste ponto, há algo de comum entre nós, ou seja, o processo do cultivo! Por isso, vou-te mostrar algo que nunca vivenciaste antes.

 

A partir daquele momento, tudo mudou, como haveríamos de ver mais adiante...

 

(continua)

 

Luanda, 25 de Dezembro de 2012

Manuel JFD de Sousa

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