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A bem da Nação

PORTUGUÊS, LÍNGUA FRANCA NO ORIENTE

«NOSSLING» E OUTRAS MAIS…

A Cultura Portuguesa no Oriente continua a ser motivo de grande interesse por parte de intelectuais e de lusófilos longínquos falantes de português moderno e de muitos dialectos de origem portuguesa.

Dos intelectuais, destaco Jorge de Sena, o poeta que me faz cruzar com a tristeza e K. David Jackson, o historiador cuja obra, nesta temática, tenho por inultrapassável.

De Jorge de Sena, versos da nostalgia do passado e da tristeza do presente…

«Escritos em caracteres tamil

Por quem mal sabe a língua em que soavam…

Estes versos emergem com uma tranquilidade

Terrível de língua morta a desfazer-se

E cujos ossos restam dispersos num e de um romance

Cantado há quatro séculos numa terra alheia.

Distâncias de oceanos os conduziram como hábito

De serões e vigílias.

Solidões do longe

Os ensinaram a quem partilhou tédios e saudades…

Ficaram nas memórias teimosas de abandonada gente…

Presa por um fio a um país esquecido…

Não os ouve nada nem ninguém!»

(Jorge de Sena - «A sátira na poesia e na poética»)

 

Eis a sina dos “lusófilos longínquos” que ficaram nas suas terras depois do fim da administração portuguesa. Mas, apesar de rodeados de hostilidade ou por desdenhosa indiferença, defendem os Valores que tinham recebido – religião, língua e até alguns genes.

E é precisamente toda esta tenacidade que me leva a olhar o futuro com esperança desde que, em vez de choro mole, ajudemos esses “lusófilos longínquos” a olhar em frente com fé na preservação dos Valores que tão corajosamente preservam.

Extractos de génese histórica da obra de Jackson que retenho:

  • Depois de quinhentos anos, a presença portuguesa na Ásia é muito visível, paradoxalmente, através de uma ausência sensível na arquitectura militar, civil, religiosa e até mesmo profana das cidades, com as suas fortalezas costeiras, igrejas e casario que transformaram a História em arqueologia - tal é a fortuna de locais mais ou menos preservados desde a ilha de Socotorá ao largo do Iémen, no exclave omanita no Estreito de Ormuz onde me disseram que a sua língua é «árabe aportuguesado» (se é que isto faz algum sentido), na Costa do Malabar refiro Chaul e Baçaim com grande número de fortificações, monumentos, construções e inscrições que testemunham a ausência sensível desse que foi o império marítimo português;
  • De Chaul, portanto, restam as pedras pois faz uma vintena (?) de anos que morreu o professor do dialecto de português que ali se falava mas que, felizmente, se preserva na vizinha Corlai, a famosa «nossling».
  • De Damão, transcrevo apenas curtos versos de cantiga actual:

«Papegaai ne gaiola,

batté azas quer curre,

Menina ne janela,

batté peto quer morre»;

  • De Diu refiro que se trata da parcela do extinto Estado Português da Índia que apregoa ser onde actualmente mais se fala português;
  • De Baçaim, hoje um dormitório de Bombaim, último hospital de apoio à «carreira da Índia» (o 17º) com início no Algarve (Tavira), resta a monumentalidade da que foi a Capital das Províncias do Norte do Estado Português da Índia;
  • Para além de várias «bolsas» residuais de algumas famílias dispersas por vários pontos da Índia que dizem falar «o português correcto», o português moderno é falado com maior ou menor militância e com um ou outro regionalismo em Goa, Damão, Diu e Dadra.

 

Dobrado o Cabo Comorim, eis-nos a caminho da Taprobana, de todo o Golfo de Bengala e do mais que se há-de ver…

  • Trincomalee e Batticaloa, na costa oriental do Sri Lanka, são as mais ricas fontes de «português» no Ceilão. Nada menos que trezentas famílias falam o seu dialecto de português. A União Católica "Burgher" reúne estas pessoas que falam português na Reunião Geral Anual mas as actas são escritas em inglês porque naquelas Assembleias não tem havido quem saiba escrever o seu português senão em caracteres tâmil, o que eles não querem fazer por questões relativas à neutralidade nos conflitos internos no país (foi o General Fonseka que fez cessar a guerra civil). Mas têm muito orgulho na sua cultura e estão interessados em preservar a sua língua. Todas as suas orações católicas são em português e achei comovente ouvi-los rezar o «Pai Nosso»:

Pai nosse qui está ne céos,

Santificádo seja tua nomi,

Venho nós a tua Reyno,

Seja fêto a tua vontadi

Assi ne terra, como ne céos;

O pan nosse de cada dia nos dá ojo,

E perdová nós nosse dívidas

Assi como nós perdovamos nosse dividóris,

E nan nos desse caí em tentaçan,

Mas livra nós de mal.

Ámen1!

Do folclore português do Sri Lanka, basta transcrever duas pequenas peças para se ver o que falta fazer no apoio a estes "lusófilos longínquos" para que mantenham a sua cultura:

«Anala de oru sathi padera juntu

Quem quera anal avie casa minha juntu»     \

(O anel de ouro com sete pedras

Quem quiser o anel, venha casar-se comigo)

 

«Já foi todo partis, Ceilão per Japan

Mais nunca trizé nada, for da firme coração»

(Já fui a toda a parte, do Ceilão para o Japão

Mas nunca trouxe nada, excepto o fiel coração)

 

Rumando a Norte pelo Golfo de Bengala, já não encontrei vestígios da língua portuguesa na Costa do Coromandel e a Feitoria Portuguesa em Calcutá foi devorada pelo urbanismo do caos. E, contudo, em todos aqueles litorais, toda a gente se entendia em português, a língua franca em todo o Oriente, correndo então o século XVII e suas envolvências.

À cautela, não me aventurei pelo Mianmar adentro e, portanto, não visitei o país em que o lisboeta Filipe de Brito e Nicote foi eleito Rei e que morreu no seu posto rodeado da amizade e respeito do povo que governou; relativamente a Malaca, sou co-autor do «Dicionário Papiá Cristang-Português» em vias de produção; no Vietname, testemunhei o prestígio actual do Padre Francisco de Pina SJ que fez o primeiro dicionário «Vietnamita-Português» e ali introduziu o alfabeto latino para aquela cultura sair da alçada chinesa; em Macau, o Instituto Camões desempenha a função que lhe está consignada; em Jakarta. os lusófilos locais têm uma História interessantíssima que não cabe nestas linhas, são os Tugus e têm língua própria; na ilha das Flores, as orações católicas são todas em português e Timor-Leste está a fazer um trabalho muito valioso para recuperar dos traumas da invasão indonésia.

Noto que em todas estas situações e à semelhança do que acontece na Galiza e em Timor-Leste, a língua assume um papel de identidade social do maior relevo. E mais noto que a língua portuguesa apresenta perspectivas de futuro que a colocam numa rota de grande crescimento: mais do que para carpir saudades e «arma» de afirmação sociológica, o português é um instrumento que serve o desenvolvimento na América do Sul, em África, no Exstremo Oriente e, claro está, na Europa.

Pela sua finura linguística e pelo seu traço de erudição, Goa p0deria – se quisesse – ganhar o Prémio Internacional da Língua Portuguesa mas para isso é necessário que o galardão exista e que a profecia de Jesus sobre o canto do galo não se aplique.

Enfim, numa perspecyiva futura, há que apoiar essas comunidades dialectaantes de português fixando-lhes as respectivas semânticas, sintaxes e tempos verbais e, em situações pontuais, ensinando o português moderno como língua estrangeira. Aqui fica a sugestão-pedido à Fundação Oriente.

«Arigatô»!

Henrique Salles da Fonseca

BIBLIOGRAFIA

«De Chaula Batticaloa» - K. David Jackson

 

Publicado em 24 de Outubro de 2021 no jornal O Heraldo, Pangim, Goa

LÍNGUA PORTUGUESA EM GOA

Delfim Correia Da Silva (Prof.)

Director do «Instituto Camões» em Goa

Departamento de Estudos Portugueses - Universidade de Goa
16 August at 18:25  ·
Caros amigos, vem este meu texto a propósito da verdadeira "mis en scène" que constituiu a reportagem altamente difundida pela AFP e vertiginosamente transmitida, no último fim de semana, em várias línguas, através de diversos orgãos de comunicação social internacionais, sobre o rápido desaparecimento da herança lusófona em Goa e, muito em particular, a morte da língua portuguesa.
Dois factos curiosos a registar:
1) a matéria parece não ter sido muito valorizada pelos jornais locais.
2) a reportagem foi realizada em fevereiro/março de 2021, mas só agora divulgada.
A História é o que é. Não podemos reescrevê-la de acordo com aquilo que gostaríamos que tivesse sido. O copo para uns está meio cheio, e para outros meio vazio, ou até totalmente vazio! O que, relativamente à herança portuguesa em Goa, não é francamente o caso! Não vou discutir as razões sustentadas pelas aves necrófagas ou profetas da desgraça, nem tentar dourar a pílula, apenas apresentar neste meu espaço factos que contrariam essa narrativa e que tenho ouvido desde a minha chegada a Goa em 2008.
A herança cultural portuguesa não se reduz ao pastel de nata ou ao fado, a cujo ressurgimento tive o prazer de assistir, principalmente a partir de 2014, com a realização do concerto de Cuca Roseta na Kala Academy, o Concurso de Fado da Semana da Cultura Indo-Portuguesa, o projeto cultural “Fado de Goa” do Hotel Taj Vivanta, liderado por Ravi Nischal, ao qual Sónia Sirsat deu a melhor continuidade e mais recentemente a criação do CIPA onde os turistas afluem para sentir, a exemplo do icónico restaurante Alfama no Hotel Cidade de Goa, o ambiente de uma verdadeira casa de fado. Hoje em dia, começa a despontar um leque de entusiastas fadistas que seguem não só os passos da sua mentora e formadora, Sónia Sirsat, mas também da talentosa Nadia Rebelo. O fado é ainda objeto de estudo académico, pois integra desde o ano académico 2018-2019 o programa de uma disciplina curricular do B.A. em estudos portugueses, na Universidade de Goa.
Escusado será de referir a importância do rico património cultural de influência portuguesa existente em Goa, quer a nível da arquitectura, quer nas áreas da literatura, da música ou das artes em geral que atraem anualmente centenas de investigadores nacionais e estrangeiros, possivelmente tantos ou mais do que a Macau, território que serve muitas vezes para estabelecer uma errónea comparação com Goa, realidades muito distintas por razões que, por serem fastidiosas, me abstenho de desenvolver.
A peça jornalística, centrada na rápida perda da identidade cultural portuguesa, mereceu algum destaque no que diz respeito à língua, e o estado lastimoso em que se encontra neste território. E mais uma vez, não podemos tomar como referência o pujante crescimento verificado na China e em Macau, em particular, por se tratarem de realidades muito diferentes.
Sei que este texto, poderá ser lido, na sua forma original, por pouco mais de 10,000 habitantes em Goa, número escasso se comparado com os potenciais leitores de há 60 anos. Mas ao contrário do apregoado declínio da língua portuguesa no território, nos programas escolares e académicos temos assistido a um lento, mas seguro progresso do português.
Sim, é verdade, após 1961 a língua sobreviveu em ambiente familiar, em quase clandestinidade, a transmissão foi estabelecida dos pais para os filhos e mais tarde para os netos. Noutros casos, com a morte dos mais velhos, morreu também uma língua de herança.
O português, em contexto de ensino-aprendizagem, é uma língua estrangeira em Goa, a par do francês, havendo ainda a considerar alguns, poucos, aprendentes de alemão, italiano e espanhol.
A minha experiência em Goa, enquanto leitor do Camões na Universidade de Goa, responsável pelo Departamento de Português e Estudos Lusófonos de 2009 a 2018, coordenador da Cátedra Camões “Joaquim Heliodoro da Cunha Rivara” e membro, até muito recentemente, do Board of Studies de Português permite-me assegurar que os estudos portugueses estão, contrariamente ao que pretendem fazer crer, de saúde, com resultados nunca antes alcançados.
O Departamento de Português esteve encerrado de 2001 a 2005. Até esse período, 39 alunos saíram formados com o M.A., registando-se apenas um doutorado, em 1995. Graças ao extraordinário trabalho do meu antecessor, foi possível reabrir o Departamento e reiniciar o programa de M.A. em 2006. Desde então, saíram da Universidade de Goa 95 mestres em Literatura e Cultura Portuguesas, muitos deles, hoje, docentes em universidades indianas, colégios e escolas secundárias. Hoje em dia, o Departamento de Português oferece um amplo programa de Estudos Portugueses. Para além do M.A. e do M.Phil, criado em 2014, os cursos de graduação contam também com os programas de B.A. Honors, inaugurado em 2019-2020, e do Doutoramento relançado em 2020-2021.
Se nos últimos dois anos, assistimos a uma redução no número de alunos inscritos nos cursos livres e opcionais, em grande parte devido à suspensão das aulas presenciais e dos cursos da Cátedra, consequência da pandemia, o número de inscritos nos cursos de graduação, afinal o que mais importa em termos académicos, aumentou substancialmente. E muito em breve,  com o conhecimento exato dos resultados das matrículas para o presente ano letivo 2021-2022, haverá, estou certo, dados ainda mais animadores.
Há muito tempo que o Departamento de Português deixou de ser a “lanterna vermelha” na Universidade de Goa, considerando o número de alunos matriculados. O M.A. em português tem, desde 2006, funcionado ininterruptamente e nos programas até se verificou uma expansão.
Claro, o copo está apenas meio cheio! Falta desenvolver projetos academicamente mais ambiciosos. Estamos a dar nesse sentido alguns importantes passos. Para além da Cátedra Cunha Rivara que conta com conceituados investigadores e professores visitantes de prestigiadas universidades portuguesas, deu-se início no ano passado ao programa de Doutoramento em Português. Dos alunos formados com M.A. pelo Departamento após 2006, dois estão atualmente inscritos no PhD da Universidade de Goa, um inscrito no programa de PhD da Universidade de Delhi, dois encontram-se na fase da escrita da tese doutoral (um, pela Universidade Nova de Lisboa, e o outro, pela JNU/Universidade do Porto), e um outro, após ter concluído o M.A. em 2010, defendeu recentemente a sua tese de doutoramento na JNU.
Poderia, como bom indicador, mencionar ainda a procura que temos sentido no Centro de Língua Portuguesa do Camões em Pangim. Devido à pandemia encerramos os cursos presenciais em março de 2019. Em junho de 2019 reiniciamo-los na modalidade online com muito mais sucesso. Este ano já ultrapassamos a centena de inscritos.
Em janeiro de 2021 realizamos, a pedido da diretora dos Arquivos e Arqueologia, um exame para a seleção de tradutores. Dos 20 candidatos, 19 foram aprovados com elevadas classificações.
Estes são alguns dos factos, e poderia apresentar muitos mais, que, no mínimo, mostram que o rei não vai assim tão despido. Tirem as vossas conclusões!

GOA, JESUÍTAS E IMPÉRIO

 

Após as lutas necessárias, suficientes e convenientes à mudança do paradigma de Goa relativamente ao Islão, foi possível criar as condições para que a região assumisse claramente o epíteto de «Goa doirada». E esse brilhantismo nunca teria sido possível sem a participação essencial dos naturais da terra, os goenkares; teria sido impossível fazê-la doirada só pela arte dos reinóis. Dessa participação activa resultou a criação duma elite que não se limitou a expandir a Fé e o Império pelas demais partes orientais do mundo como também se distinguiu na própria Metrópole onde ocupou/ocupa as mais altas hierarquias. E tudo, não por condescendência ou compadrio mas, isso sim, por mérito próprio.

Goa foi doirada porque foi plataforma de Império e porque contou com uma elite local que fez jus à sua terra. Perdida a perspectiva imperial, ficou o principal, a qualidade das gentes.

Contudo, para além das características naturais e do ambiente social propícios ao elitismo, este teve que ser enquadrado numa Civilização diferente dos cenários que antecederam o século XVI. E o novo enquadramento fez-se no Catolicismo recorrendo a «formadores» tanto reinóis como goeses.

* * *

Reinol [1] mas ordenado em Goa, refiro o

PADRE ANTÓNIO DE ANDRADE, SJ

Português, reinol de Oleiros (1580), foi por amor a Deus e à humanidade que acabou por morrer prematuramente em Goa, corria em 19 de Março o ano de 1634.

Ainda criança, ingressou no «Colégio das Onze Mil Virgens», em Coimbra, instituição para que o fundador jesuíta redigira a «Ratio Studiorum», norma pedagógica que dali vogou para todas as demais instituições de ensino jesuítas espalhadas pelo mundo.

E porque a Fé jesuíta é católica também na acepção literal do termo, aos membros da Companhia de Jesus compete espalhar a Boa Nova entre as gentes de toda a parte e assim foi que ao jovem António cumpriu em Abril de 1600 rumar a Goa para completar a sua formação e, a partir daí, desenvolver as missões que lhe fossem entretanto  determinadas.

Ordenado, cumpriu-lhe rumar a Agra para fundar a «Missão do Mogol». Foi ali que aprendeu com muçulmanos oriundos da Caxemira várias das línguas faladas no norte da Índia e foi ali também que ouviu referências a certos enigmas, nomeadamente sobre uma religião cristã na Ásia Central.

Despertada a curiosidade, foi em 1624 que rumou a Delhi e, daí, acompanhou uma peregrinação hindu às origens do Ganges. Deixados os peregrinos para trás, prosseguiu viagem até um aglomerado de casas de que lhe tinham falado os peregrinos. Chegado a Tsaparang, «reino» perdido nas alturas himalaias, foi recebido pelo «rei» local com grande simpatia a quem explicou o Cristianismo, a quem converteu e de quem recebeu o pedido de cristianização do seu «reino». Só com a garantia do regresso é que foi autorizado a regressar a Agra com o objectivo de recrutar ajudantes para essa sua nova Missão, a primeira (e última) no Tibete. Ao todo, há o registo de seis escaladas que o Padre Andrade fez dos Himalaias mas, contudo, não foi como montanhista que ficou conhecido. Outrossim, a sua fama ficou a dever-se às cartas endereçadas ao seu Superior Geral, P. Muzio Vitelezi, em Roma, descrevendo o Budismo Tibetano até então desconhecido dos europeus daquela primeira metade do séc. XVII. Famosas, as duas primeiras cartas que foram traduzidas em 14 línguas e constituíram um verdadeiro «best seller». Se existem mais cartas, nada se sabe do respectivo conteúdo na certeza, porém, de que à hierarquia jesuíta pareceu bem atribuir nova missão ao Padre António de Andrade deixando assim «cair» a Missão do Tibete.

Mandado regressar a Goa, foi o nosso Reverendo «montanhista» nomeado Provincial do Oriente da Companhia de Jesus com jurisdição desde o Cabo da Boa Esperança a Nagasaki numa dimensão imperial que a maior parte dos goeses ainda hoje esquece.

Sim, era a partir do «Colégio de São Paulo», em Goa, que a Companhia de Jesus governava aquele «seu meio mundo», era ali que formava parte da elite genuinamente goesa, o seu Clero, era dali que irradiava a sua exegese do Deus infinitamente bom e do perdão. Por contraste, o Deus castigador dos dominicanos em Manila cuja influência chegava a Goa através da Inquisição.

Durante os dois primeiros Priorados Gerais da Companhia de Jesus, foram acolhidos muitos cristãos novos no seu seio mas o anti-semitismo sempre foi latente até que em 1593 vingou o «Estatuto da Pureza de Sangue». Assim se suspendeu o humanismo inaciano, a teologia da bondade infinita se viu de algum modo contrariada e os seus adeptos quase passaram à clandestinidade.

Não terá sido fácil ao novo Provincial jesuíta do Oriente encontrar quem se dispusesse a «dar a cara» no trabalho que secretamente havia que levar à prática de neutralização da Inquisição em Goa. Nessa tão perigosa missão se empenhou pessoalmente o Padre Andrade oferecendo-se como membro das Mesas dos julgamentos do Santo Ofício.

Pode ter sido coincidência mas a verdade é que dos autos dos três julgamentos a cujas Mesas pertenceu, não consta nenhuma sentença determinante de morte. Estava em curso a neutralização da acção perniciosa da Inquisição.

Regressando à sua residência jesuíta no Colégio de São Paulo depois de assistir ao auto-de-fé do terceiro julgamento em cuja Mesa participara, eram horas de jantar; o Padre Andrade dirigiu-se ao refeitório presidindo à refeição, fez a oração da praxe, sentou-se, bebeu um trago do copo à sua frente e instantaneamente levou as mãos à garganta. Morreu três dias depois de grande sofrimento. Era o dia 19 de Março de 1634, tinha 54 anos.

Envenenado, claramente.

Porquê? A suposição mais fácil aponta no sentido de uma punição devida à sua participação nas Mesas da Inquisição. Por ter quebrado o humanismo inacuiano? Por ter promovido a brandura das sentenças? Por, sendo português, estar no cargo do mando de meio mundo que alguém espanhol ambicionava? Por causa de alguma carta referindo o que ainda hoje ignoramos?

Tudo conjecturas, apenas especulação. A única certeza é a de que, naquelas épocas, Goa comandava meio mundo, tinha dimensão imperial. E tudo, claro está, em português, a língua franca naquela metade do mundo.

Junho de 2021

Henrique Salles da Fonseca

 

[1] REINOL – natural do Reino de Portugal

Publicado em 27 de Junho de 2021 no jornal diário «O Heraldo» de Pangim, Goa

CULTURA INDO-PORTUGUESA

O Estado Português da Índia existiu desde 1510 a finais de 1961. Foram 451 anos de convivência intercultural a que deveremos acrescer os anos que antecederam a criação oficial do referido Estado e os anos que já decorreram desde a sua extinção de facto até ao presente. São, praticamente, cinco séculos de intercâmbio cultural cuja realidade global deve ser reconhecida como verdadeiro Património da Humanidade tanto na vertente material como na imaterial.

Arquitectura, religião, língua, mobiliário, medicina, literatura, pintura, música, enfim, todas as vertentes da intelectualidade e da cultura popular.

A cultura indo-portuguesa consubstancia um estilo de vida que traduz uma Civilização híbrida de grande mérito dentro e fora do subcontinente hindustânico. São inúmeras as personalidades oriundas desse estrato civilizacional que ao longo da História se elevaram aos mais altos postos das hierarquias indiana e portuguesa. Por exemplo, Jorge Fernandes que foi Ministro da Defesa da Índia de 2001 a 2004 e António Costa que é o actual Primeiro Ministro de Portugal.

Mas esta cultura vem desaparecendo porque as vicissitudes da História puseram fim à presença da Administração Portuguesa, porque os indo-portugueses vêm emigrando e porque o espaço assim deixado vago vai sendo preenchido por quem não se sente ligado a essa tradição cultural. Mesmo a Igreja Católica se apressou a substituir a língua portuguesa pela inglesa nas suas celebrações e esse foi, só por si, um golpe da maior gravidade na coesão da cultura indo-portuguesa. Como se a luta do Mahatma Gandhi contra os ingleses tivesse sido vã.

Não é compreensível pedir agora ao Patriarca do Oriente, Arcebispo de Goa, que decrete o regresso do seu Patriarcado à língua portuguesa. Mais lógico seria que regressasse ao concanim românico nas suas celebrações diárias em Goa mas não será absurdo pedir-lhe que introduza no Seminário de Rachol uma aula de português para que futuramente se possa celebrar em português uma vez por semana nas igrejas de Goa, Damão, Dadra, Nagar Haveli, Diu, Baçaim, na de Korlai pois que Chaul já morreu e nas do Kerala onde em Cochim continua uma grande peregrinação ao túmulo vazio de Vasco da Gama na igreja de São Francisco. São muitos os indianos que balbuciam as suas orações em português e que com dificuldade aceitam o desprezo linguístico da sua Igreja.

Entretanto, a Universidade de Goa acolheu o Instituto Camões e ali se ministra a didática da língua portuguesa aos futuros professores. Este é um trabalho ciclópico a que não poupo louvores. Conjuntamente com a delegação do mesmo Instituto em Delhi, estão lançados os fundamentos para uma Associação Cultural dos Professores de Português da Índia cuja constituição aqui deixo sugerida aos meus amigos Catarina Índia e Ajay Prazad.

Assim nasceu a Sociedade de Amizade Indo-Portuguesa, Goa (Indo-Portuguese Friendship Society, Goa) que, pela mão do saudoso Dr. Jorge Fernandes, vem desempenhando um papel da maior relevância no estreitamento das relações de amizade entre os dois países, ou seja, entre as duas culturas. O mesmo é dizer que vêm preservando a cultura indo-portuguesa.

Falta que em Damão-Silvasssa e em Diu os lusófilos se associem de modo semelhante em Sociedades de Amizade Indo-Portuguesa, recrutem professores indianos de língua portuguesa e preservem desse modo a identidade civilizacional que os distingue a nível mundial.

Se poderes públicos ajudarem, tanto melhor; caso não, as gentes que salvem a sua própria Cultura.

Henrique Salles da Fonseca

18 DE DEZEMBRO DE 1961

 

Efeméride negativa correspondente à invasão indiana do que restava do Estado Português da Índia – Goa, Damão e Diu.

* * *

Quando em 1498 Vasco da Gama chegou à Índia aportando a Calecute, fez inimizade com o Rei dessa cidade e amizade com o de Cochim que lhe pediu ajuda contra o seu inimigo tradicional, precisamente Calecute. Passados quase cinco séculos, o Ministro da Defesa da Índia, Krishna Ménon, natural de Calecute, ordenou a aniquilação do Estado Português da Índia. Tudo se consumou num fim de semana: 18 de Dezembro de 1961, Sábado, assistiu à invasão sem poder oferecer resistência significativa pois as armas que poderiam ter tido algum desempenho defensivo tinham sido «estrategicamente» retiradas de Goa (e talvez também de Damão e de Diu) por ordem de um já então poderoso militar português chamado Francisco da Costa Gomes. Assim se começou a cumprir a vontade de Moscovo e Calecute se sentiu finalmente vingada. Depois de uma humilhante detenção dos militares portugueses seguida de evacuação ainda mais humilhante, foi a vez de dar início à opressão da Nação Goesa e à tentativa de aniquilação da Cultura Indo-Portuguesa.

Mas…

… passados quase tantos anos quantos aqueles que os portugueses demoraram para escorraçar os reis castelhanos, em Goa desperta agora o orgulho da própria Nação, em Cochim o túmulo (vazio) de Vasco da Gama continua a ser alvo de romagem popular e o Hino Nacional de Portugal foi traduzido para concanim.

 

A Portuguesa – ‘Heróis do Mar’

(Versão breve do Hino Nacional de Portugal,

tal como se canta ou toca para qualquer solenidade.)

 

Heróis do mar, nobre povo,

Nação valente, immortal,

Levantai hoje de novo

O esplendor de Portugal!

Entre as brumas da memória,

Ó Pátria, sente-se a voz

Dos teus egrégios avós,

Que há-de guiar-te à vitória!

 

Às armas, às armas!

Sobre a terra, sobre o mar,

Às armas, às armas!

Pela Pátria lutar!

Contra os canhões,

marchar, marchar!

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Tradução em konkânní clássico (ânthruzhí) por

Ave Cleto Afonso, Goa.

 

समुद्र वीर

समुद्र वीर, म्हान जन’गण,

धिरिश्ट राष्त्र अमर,

आयज परतून एकदां ऊंच करा

पोर्तुगालची महिमा !

आठवणेच्या धुक्यांत्लयान,

ए पितृदेश, आवाज येता

तुजया श्रेश्ठ पुर्वजांचो,

जो तुका जैताक पावोयतोलो.

 

शस्त्रां सयत, शस्त्रां सयत !

जमनी वयर, दरया वयर,

शस्त्रां सयत, शस्त्रां सयत !

देशा खातीर लडूंक !

तोफां विरूददः,

तेज चलूंक, तेज जलूंक !

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Transliteração em alfabeto Romano (segundo Novo Protocolo),

da versão em kônkânní clássico:

 

Sâmudrâ vír

Sâmudrâ vír, mâhan jân’gânn,

Dhirishtt rashtrâ âmâr,

Ayz pârtún êkdam únchâ kâra

Portugalchí mâhima!

Atthvânnêchya dhukyantlean,

Êh Pitrúdêsh, avaz yeta

Tujya shrêshtth purvâjancho,

Jo tuka jâitak pavôytolo.

 

Shastram sâyt, shastram sâyt!

jâm’ní vâyr, dârya vâyr,

Shastram sâyt, shastram sâyt!

Dêsha khatir lâddúnk!

Tôphâm virúdh,

têj châlúnk, têj châlúnk!

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Tradução no saxttí konkânní, no alfabeto Romano (Novo Protocolo)

por Ave Cleto Afonso, Goa.

 

Sômdirantle vír

Sômdirantle vír, vhôdd lôk,

Kalljidar dês ômor,

Aiz pôrtun êk pavtt vôir kaddat

Portugalcho porzoll!

Ugddasachea dhunvrantlean,

Arê Paidês, tallo aikunk ieta

Tujea nam’nnêchea purvozancho,

Zo tuka zôitak pavôitolo.

 

Armam dhôr, armam dhôr!

Zôm’ni vôir, dôria vôir,

Armam dhôr, armam dhôr!

Desa pasot zhuzpak!

Nôlliam add,

têz cholpak, têz cholpak!

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Tradução em inglês (tal como na internet).

 

Heroes of the sea

Heroes of the sea, noble people,

Valiant and immortal nation,

Raise once again today

The splendour of Portugal!

Through the haze of memory,

Oh Fatherland, one feels the voice

Of your distinguished forefathers,

That shall lead you on to victory!

 

To arms, to arms!

Over land, over sea,

To arms, to arms!

To fight for the Fatherland!

Against the cannons,

to march on, to march on!

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Dezembro de 2020Em tempo: efeméride negativa não se celebra mas assina

Henrique Salles da Fonseca

 

Em tempo: efeméride negativa não se celebra mas refere-se fora da data

CULTURA INDO-PORTUGUESA

RESUMO

Tipologia de conceitos

  • Estéticos - arquitectura, mobiliário, música, pintura, …;
  • Religiosos - cristianismo e hinduísmo;
  • Linguísticos - concanim românico (Goa) e português;
  • Culinários

* * *

Como relevante potência mundial que já é e como grande potência que será num prazo não muito distante, a Índia tem na diversidade cultural um dos seus mais importantes Valores, riqueza plural que a beneficia e enriquece.

Com altos e baixos, foram quase 500 anos de intercâmbio e miscigenação entre a Índia e Portugal - eis a Cultura Indo-Portuguesa.

Nas expressões compostas, o elemento determinante é o primeiro. Portanto, neste caso, trata-se de uma Cultura indiana com influência portuguesa. Se o contrário existisse (e não o creio), seria a Cultura Luso-Indiana significando uma Cultura portuguesa com influência indiana.

Concomitantemente, tratando-se de uma Cultura indiana, a sua sede é na Índia. Uma sede excêntrica, dispersa por tantos centros quantos aqueles em que o intercâmbio cultural se fez com mais ou menos intensidade ao longo da História.

Bangalore foi a cidade onde mais inesperadamente encontrei falantes de português. Trata-se, logicamente, de uma língua de base portuguesa mas os seus praticantes eram (são?) afirmativos na convicção de que aquele português é tão autêntico como o que se fala noutras paragens por esse mundo além... E eu próprio tomei a iniciativa de lhes confirmar essa autenticidade.

Para além desta localização, para mim inesperada, mais outras que, essas, sim, já conhecia, desde Diu a Cochim passando por Baçaim, Silvassa, Corlai,… Mas, dentre todas as formas linguísticas que legitimamente integram a Cultura Indo-Portuguesa, o concanim românânico assume uma relevância especial não só por ser correntemente usado por cerca de meio milhão de pessoas mas  porque, sendo escrito em caracteres latinos, possui só por esse facto uma capacidade de internacionalização muito superior a todas as demais línguas indianas. Urge torná-lo acessível ao resto do mundo incluindo-o, por exemplo, no «Google Translator»[i]. Esta, a minha primeira sugestão para a afirmação da Cultura Indo-Portuguesa à escala global[ii].

Esta miscigenação cultural é muito vasta não apenas na perspectiva geográfica mas sobretudo em múltiplas temáticas. Assim, para além da arquitectura religiosa e profana, assumem especial relevo a música (mandó, p. ex.) e a culinária.

Em Portugal, por exemplo, em paralelo com restaurantes tipicamente indianos, abundam os restaurantes goeses[iii] numa acção de divulgação e afirmação cultural da maior relevância.

Um texto como este – por mais breve que pretenda ser - não pode omitir uma referência ao contributo da Igreja Indiana para a exegese católica ao longo dos já longos anos que o Catolicismo conquistou fiéis no sub-continente indiano. Hindus e católicos foram ensinados a conviver pela sabedoria adquirida pelo pragmatismo da vida e da proximidade diária. E é monumento da tolerância que faz jus à maior democracia do mundo, a União Indiana, nas suas próprias afirmações nos «fora» internacionais. Mas não basta dizer, há que o provar. E a preservação-protecção da Cultura Indo-Portuguesa será uma prova real.

Será por certo um trabalho ciclópico mas convido quem me lê a pensar comigo na nobreza do que será organizar um processo que eleve a Cultura Indo-Portuguesa a Património da Humanidade. E se a minha ideia tomar forma, que o seja sob a égidem conjunta dos Governos da Índia e de Portugal.

Ficam as sugestões.

Setembro de 2020

Henrique Salles da Fonseca

 

[i] - O canarim já está disponível no Tradutor da Google mas essa língua não pertence à Cultura Indo-Portuguesa

[ii] No mundo actual, só existe quem está na Internet.

[iii] - Lastimavelmente, na região de Lisboa não sei da existência de restaurantes tipicamente diuenses nem damanenses

POBREZA, INDIGÊNCIA, MISÉRIA

Comecemos pelo dicionário de português[i]:

  • Pobreza – penúria de bens;
  • Indigência – pobreza extrema;
  • Miséria – inópia, falta do necessário

E agora passemos para a Índia. Para onde? Por exemplo, para o Tamil Nadu mas também poderia ser para Calcutá, zonas urbanas do Maharastra,… onde a miséria assume graus superlativos inimagináveis por um português do século XXI. Só vendo. E eu vi crianças, mulheres e homens a vasculhar no lixo ubíquo disputando qualquer coisa comestível com vacas, cães, ratos… Por ali, as vacas (não os bois) são sagradas mas as pessoas que se desenrasquem como puderem. Se há uma política de segurança social, ela não dá sinais de si; pelo contrário, parece que a política oficial é a do abandono social. E há quem diga que a Índia é a maior democracia do mundo. É que uma parte enorme da população está entregue à miséria superlativa, totalmente abandonada e isso não é democracia. Será qualquer outra coisa mas democracia não é certamente.

É nesta realidade social que aparecem empresas multinacionais a oferecer postos de trabalho. Para os padrões ocidentais, vão para ali pagando uma ridicularia, parece que a higiene e segurança no trabalho é «coisa» desconhecida por aquelas bandas, que muitos trabalhadores são apenas crianças, que dormem e comem no local de trabalho e se submetem a outras condições inimagináveis no Ocidente. Mas dormem sob um tecto, talvez amealhem algumas Rupias, não precisam de chafurdar no lixo à procura de qualquer coisa parecida com comida, têm que vestir e não andam com um trapo sujo a tapar-lhes apenas «as vergonhas» como vi por todas aquelas cidades por que passei.

Tudo é relativo: o que parece horrível para um ocidental, é bom para um indiano que consegue um desses postos de trabalho levando-os a aspirar pelo aparecimento de muitas mais empresas ocidentais que os tirem da miséria superlativa em que os políticos indianos os deixam.

Mas, na verdade, estas empresas nem sequer são as tais multinacionais ocidentais e sim empresas indianas cujos clientes são essas multinacionais. Ou seja, a solução passaria pela existência daquilo a que entre nós se chama a Inspecção do Trabalho que obstasse às situações que acima refiro. E a pergunta é: com que moral é que qualquer político indiano pode apresentar tal ideia se os tais «abusos» são o «paraíso» em comparação com as condições que a classe política oferece aos seus cidadãos?

Outro absurdo: as campanhas que correm no Ocidente contra as marcas que «exploram o trabalho infantil no Oriente».

Então, no que ficamos? Na necessidade imperiosa de os políticos indianos se passarem a preocupar com as necessidades mais básicas e elementares dos seus cidadãos.

Imbuídas de uma cultura humanista, Goa, Damão e Diu bem podiam dar o exemplo com uma proposta política centrada nos Valores Humanos e não sobretudo nos das vacas.

Julho de 2020

Henrique Salles da Fonseca

 

[i] - Dicionário Priberam da Língua Portuguesa

«RESSENTIMENT» - NIETZSCHE

Hoje, 28 de Maio de 2020, lembrei-me do conceito nietzschiano de ressentiment (que ele usa na grafia francesa) e que liga ao sentimento de superação de uma situação de constrangimento associada à inveja e à necessidade de culpabilização de alguém por esse sofrimento.

Historicamente, entre nós, temos duas formas de sublimação desse ressemtiment: a emigração, nomeadamente aquela que erigiu o Império; as revoluções, de que destaco as mais recentes, a da implantação da República, a do 28 de Maio de 1926 e a do 25 de Abril de 1974, uma sucessão ao estilo dos alcatruzes – alarga, aperta, alarga.

A Monarquia, tipicamente o regime em que uns nasciam destinados ao mando e os outros à obediência, foi substituída por um outro em que todos se achavam com direito ao mando, a sublimação do ressentiment numa explosão dos recalcamentos acumulados e de vingança pelas expectativas frustradas´- daí, a instabilidade social, as constantes revoltas de facção, os Governos de curta duraçã0o, a ausência de soluções sensatas ou eficazes, a bancarrota, a criação da ansiedade e da aspiração por uma paz entretanto perdida.

Foram os militares humilhados na Flandres, no norte de Moçambique e no sul de Angola que decidiram «pôr ordem no quartel» e em 28 de Maio de 1926 disseram que, a partir dali, eram eles que mandavam. Mas os traumas eram muitos e também eles não se entenderam como queriam. Lá tiveram que ser «arrumados» Gomes da Costra e Mendes Cabeçadas até que Carmona se sentou na poltrona. E foi depois duma negaça que tiveram que ir de novo pedir-lhe que regressasse. A quem? Àquele que definiria a vida portuguesa de 1933 a 1974, o Doutor Salazar.

E foram duas as missões que o levaram a agir: o reequilíbrio das Finanças Públicas e a oposição à determinação dos soviéticos de tomarem conta da Península Ibérica para subjugarem a Europa entre os Pirinéus e a futura cortina de ferro e, simultaneamente, tomarem conta das colónias portuguesas.

O desenvolvimento económico foi nesse longuíssimo período apenas o que o equilíbrio financeiro permitisse e as frustrações políticas dos que se sentiam constrangidos criaram tensões que a PIDE ia «gerindo» mas que, acumuladas, não podiam ser contidas.

O 28 de Maio perdurou tempo demais, não quis evoluir e quando o Proifessor Marcelo Caetano o tentou fazer, foi boicotado pelos «ultras» e viu-se apeado por um golpe comunista no dia 25 de Abril de 1974.

E aí, novamente, o povo saiu às ruas a berrar nem ele próprio sabia para quê e vá de se ver envolto num processo revolucionário soviético que só tardiamente derrubou. E só então é que o ressentiment pôde dar largas às invejas, às frustrações.

E já lá vão 46 anos em que a bancarrota regressou repetidamente, a bagunça alternou com a austeridade até que Stalin foi claramente substituído por Gramci na viabilização de uma geringonça governativa.

Segue-se o quê? Não sei mas gostaria que não fosse algo parecido com o que aconteceu ao inspirador destas linhas, Friedrich Nietzsche, a loucura.

Eis do que,  «sans ressentiments», me lembrei hoje.

28 de Maio de 2020

Henrique Salles da Fonseca

OBVIOUSLY

Na minha actividade de reaproximação a Portugal dos descendentes dos «portugueses abandonados», são muitos os contactos que mantenho em todo o mundo, sobretudo naquelas partes em que tivemos um Império.

No Oriente e até no Extremo Oriente, são muitos os lusófilos que nutrem uma enorme admiração pelo nosso país. A maior parte dos meus contactos começou há pouco a aprender os primeiros rudimentos da nossa língua e até já está em andamento o dicionário de «Português de Portugal – Português de Malaca» Mas, daí, a conversarmos, vai uma grande distância. Por enquanto, servimo-nos do inglês como língua intermédia.

Foi assim que recentemente perguntei a um interlocutor, o que era feito de um terceiro de quem não tinha notícias desde há muito tempo. E a resposta foi rápida: - (…) it seemed to have become defunct after he passed away (…). «Parece que se tornou defunto depois de ter morrido».

Ainda não respondi porque ainda não parei de rir. A ver se consigo respirar um pouco…

Lisboa, 13 de Outubro de 2019

Navegando arquipélago Estocolmo.jpg

Henrique Salles da Fonseca

 

CAMÕES, O “IMPARCIAL”

 

 

O trinca fortes, Camões

 

As armas e os barões...

Cantando espalharei por toda a parte

Se a tanto me ajudar o engenho e arte.

 

 

 

O nosso épico não se fez rogado a enaltecer os feitos lusíadas nem a denegrir os que se nos opunham: nós, os heróis; eles, os vilões.

 

E assim fomos criados num imaginário glorioso que então nos levou «além da Taprobana» mas que ainda hoje nos faz sonhar com a Lusitânia Armilar onde cabem todos os que se sentem portugueses mesmo que já não falem a nossa língua e já lhes rareiem os genes lusitanos.

 

E é nestas brumas poéticas que me lembro de Heródoto, o pai da História, que tanto contava os feitos dos vencedores como dos vencidos para «impedir as grandes e gloriosas acções de gregos e de bárbaros de perderem o tributo de glória que lhes é devido».

 

Sim, Heródoto praticava a imparcialidade e era objectivo na descrição dos feitos que relatava. Por isso se credibilizou como historiador e não como poeta ou contista.

E se essa objectividade lhe atribuiu a «paternidade» da História, ela inspirou também todo o método científico, o mesmo que nos permite, tantos séculos depois, estarmos onde estamos, a desbravar os limites do Universo e a «tratar por tu» o núcleo das células.

 

Hoje, os lusíadas do século XXI, estamos todos em pé de igualdade, sem suseranos nem servos, sem dominadores nem dominados. Assentes na realidade, cumpre-nos aceitar as coisas como elas efectivamente são e, não querendo discutir as situações a que a História nos conduziu, resta-nos a possibilidade de tirarmos o maior proveito das circunstâncias, sem cenários mirabolantes.

 

Apetece, no entanto, perguntar como teria sido o nosso percurso nacional se em vez de Camões tivéssemos sido influenciados por Heródoto. Ninguém consegue imaginar os resultados duma experiência não experimentada mas talvez possamos admitir um percurso como o da Nação grega. E vai daí, não haveríamos por certo de querer a troca quando pela Grécia só a metade Sul de Chipre sonha enquanto nós temos – apesar de tudo – uma dimensão universal.

 

E como estaria hoje a nossa auto-estima se não fossemos diariamente achincalhados pelos telejornais?

 

E como estaria hoje a nossa determinação se não fossemos diariamente desmotivados pelos gatunos?

 

E como estaríamos hoje se os políticos se entregassem ao bem comum com a mesma tenacidade com que se dedicam ao «tira-te tu para me pôr eu»?

 

E como estaríamos hoje se a base da nossa cultura não fosse a fantasia épica e sim a verdade histórica?

 

Seríamos talvez uma Nação sorumbática, instalada, maçuda e rica mas não teríamos certamente as gargalhadas das anedotas nem os sonhos de voltarmos a ser a Nação gloriosa que nos contaram. E sem esperança não há futuro.

 

VIVA CAMÕES!

Dança com serpente.JPG

Henrique Salles da Fonseca

(algures na Amazónia, MAR16)

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