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A bem da Nação

CULTURA INDO-PORTUGUESA

O Estado Português da Índia existiu desde 1510 a finais de 1961. Foram 451 anos de convivência intercultural a que deveremos acrescer os anos que antecederam a criação oficial do referido Estado e os anos que já decorreram desde a sua extinção de facto até ao presente. São, praticamente, cinco séculos de intercâmbio cultural cuja realidade global deve ser reconhecida como verdadeiro Património da Humanidade tanto na vertente material como na imaterial.

Arquitectura, religião, língua, mobiliário, medicina, literatura, pintura, música, enfim, todas as vertentes da intelectualidade e da cultura popular.

A cultura indo-portuguesa consubstancia um estilo de vida que traduz uma Civilização híbrida de grande mérito dentro e fora do subcontinente hindustânico. São inúmeras as personalidades oriundas desse estrato civilizacional que ao longo da História se elevaram aos mais altos postos das hierarquias indiana e portuguesa. Por exemplo, Jorge Fernandes que foi Ministro da Defesa da Índia de 2001 a 2004 e António Costa que é o actual Primeiro Ministro de Portugal.

Mas esta cultura vem desaparecendo porque as vicissitudes da História puseram fim à presença da Administração Portuguesa, porque os indo-portugueses vêm emigrando e porque o espaço assim deixado vago vai sendo preenchido por quem não se sente ligado a essa tradição cultural. Mesmo a Igreja Católica se apressou a substituir a língua portuguesa pela inglesa nas suas celebrações e esse foi, só por si, um golpe da maior gravidade na coesão da cultura indo-portuguesa. Como se a luta do Mahatma Gandhi contra os ingleses tivesse sido vã.

Não é compreensível pedir agora ao Patriarca do Oriente, Arcebispo de Goa, que decrete o regresso do seu Patriarcado à língua portuguesa. Mais lógico seria que regressasse ao concanim românico nas suas celebrações diárias em Goa mas não será absurdo pedir-lhe que introduza no Seminário de Rachol uma aula de português para que futuramente se possa celebrar em português uma vez por semana nas igrejas de Goa, Damão, Dadra, Nagar Haveli, Diu, Baçaim, na de Korlai pois que Chaul já morreu e nas do Kerala onde em Cochim continua uma grande peregrinação ao túmulo vazio de Vasco da Gama na igreja de São Francisco. São muitos os indianos que balbuciam as suas orações em português e que com dificuldade aceitam o desprezo linguístico da sua Igreja.

Entretanto, a Universidade de Goa acolheu o Instituto Camões e ali se ministra a didática da língua portuguesa aos futuros professores. Este é um trabalho ciclópico a que não poupo louvores. Conjuntamente com a delegação do mesmo Instituto em Delhi, estão lançados os fundamentos para uma Associação Cultural dos Professores de Português da Índia cuja constituição aqui deixo sugerida aos meus amigos Catarina Índia e Ajay Prazad.

Assim nasceu a Sociedade de Amizade Indo-Portuguesa, Goa (Indo-Portuguese Friendship Society, Goa) que, pela mão do saudoso Dr. Jorge Fernandes, vem desempenhando um papel da maior relevância no estreitamento das relações de amizade entre os dois países, ou seja, entre as duas culturas. O mesmo é dizer que vêm preservando a cultura indo-portuguesa.

Falta que em Damão-Silvasssa e em Diu os lusófilos se associem de modo semelhante em Sociedades de Amizade Indo-Portuguesa, recrutem professores indianos de língua portuguesa e preservem desse modo a identidade civilizacional que os distingue a nível mundial.

Se poderes públicos ajudarem, tanto melhor; caso não, as gentes que salvem a sua própria Cultura.

Henrique Salles da Fonseca

18 DE DEZEMBRO DE 1961

 

Efeméride negativa correspondente à invasão indiana do que restava do Estado Português da Índia – Goa, Damão e Diu.

* * *

Quando em 1498 Vasco da Gama chegou à Índia aportando a Calecute, fez inimizade com o Rei dessa cidade e amizade com o de Cochim que lhe pediu ajuda contra o seu inimigo tradicional, precisamente Calecute. Passados quase cinco séculos, o Ministro da Defesa da Índia, Krishna Ménon, natural de Calecute, ordenou a aniquilação do Estado Português da Índia. Tudo se consumou num fim de semana: 18 de Dezembro de 1961, Sábado, assistiu à invasão sem poder oferecer resistência significativa pois as armas que poderiam ter tido algum desempenho defensivo tinham sido «estrategicamente» retiradas de Goa (e talvez também de Damão e de Diu) por ordem de um já então poderoso militar português chamado Francisco da Costa Gomes. Assim se começou a cumprir a vontade de Moscovo e Calecute se sentiu finalmente vingada. Depois de uma humilhante detenção dos militares portugueses seguida de evacuação ainda mais humilhante, foi a vez de dar início à opressão da Nação Goesa e à tentativa de aniquilação da Cultura Indo-Portuguesa.

Mas…

… passados quase tantos anos quantos aqueles que os portugueses demoraram para escorraçar os reis castelhanos, em Goa desperta agora o orgulho da própria Nação, em Cochim o túmulo (vazio) de Vasco da Gama continua a ser alvo de romagem popular e o Hino Nacional de Portugal foi traduzido para concanim.

 

A Portuguesa – ‘Heróis do Mar’

(Versão breve do Hino Nacional de Portugal,

tal como se canta ou toca para qualquer solenidade.)

 

Heróis do mar, nobre povo,

Nação valente, immortal,

Levantai hoje de novo

O esplendor de Portugal!

Entre as brumas da memória,

Ó Pátria, sente-se a voz

Dos teus egrégios avós,

Que há-de guiar-te à vitória!

 

Às armas, às armas!

Sobre a terra, sobre o mar,

Às armas, às armas!

Pela Pátria lutar!

Contra os canhões,

marchar, marchar!

--------------------------------------

 

 

Tradução em konkânní clássico (ânthruzhí) por

Ave Cleto Afonso, Goa.

 

समुद्र वीर

समुद्र वीर, म्हान जन’गण,

धिरिश्ट राष्त्र अमर,

आयज परतून एकदां ऊंच करा

पोर्तुगालची महिमा !

आठवणेच्या धुक्यांत्लयान,

ए पितृदेश, आवाज येता

तुजया श्रेश्ठ पुर्वजांचो,

जो तुका जैताक पावोयतोलो.

 

शस्त्रां सयत, शस्त्रां सयत !

जमनी वयर, दरया वयर,

शस्त्रां सयत, शस्त्रां सयत !

देशा खातीर लडूंक !

तोफां विरूददः,

तेज चलूंक, तेज जलूंक !

------------------------------------------------------

 

Transliteração em alfabeto Romano (segundo Novo Protocolo),

da versão em kônkânní clássico:

 

Sâmudrâ vír

Sâmudrâ vír, mâhan jân’gânn,

Dhirishtt rashtrâ âmâr,

Ayz pârtún êkdam únchâ kâra

Portugalchí mâhima!

Atthvânnêchya dhukyantlean,

Êh Pitrúdêsh, avaz yeta

Tujya shrêshtth purvâjancho,

Jo tuka jâitak pavôytolo.

 

Shastram sâyt, shastram sâyt!

jâm’ní vâyr, dârya vâyr,

Shastram sâyt, shastram sâyt!

Dêsha khatir lâddúnk!

Tôphâm virúdh,

têj châlúnk, têj châlúnk!

----------------------------------------------

 

Tradução no saxttí konkânní, no alfabeto Romano (Novo Protocolo)

por Ave Cleto Afonso, Goa.

 

Sômdirantle vír

Sômdirantle vír, vhôdd lôk,

Kalljidar dês ômor,

Aiz pôrtun êk pavtt vôir kaddat

Portugalcho porzoll!

Ugddasachea dhunvrantlean,

Arê Paidês, tallo aikunk ieta

Tujea nam’nnêchea purvozancho,

Zo tuka zôitak pavôitolo.

 

Armam dhôr, armam dhôr!

Zôm’ni vôir, dôria vôir,

Armam dhôr, armam dhôr!

Desa pasot zhuzpak!

Nôlliam add,

têz cholpak, têz cholpak!

--------------------------------------------

 

Tradução em inglês (tal como na internet).

 

Heroes of the sea

Heroes of the sea, noble people,

Valiant and immortal nation,

Raise once again today

The splendour of Portugal!

Through the haze of memory,

Oh Fatherland, one feels the voice

Of your distinguished forefathers,

That shall lead you on to victory!

 

To arms, to arms!

Over land, over sea,

To arms, to arms!

To fight for the Fatherland!

Against the cannons,

to march on, to march on!

--------------------------------------------

Dezembro de 2020Em tempo: efeméride negativa não se celebra mas assina

Henrique Salles da Fonseca

 

Em tempo: efeméride negativa não se celebra mas refere-se fora da data

CULTURA INDO-PORTUGUESA

RESUMO

Tipologia de conceitos

  • Estéticos - arquitectura, mobiliário, música, pintura, …;
  • Religiosos - cristianismo e hinduísmo;
  • Linguísticos - concanim românico (Goa) e português;
  • Culinários

* * *

Como relevante potência mundial que já é e como grande potência que será num prazo não muito distante, a Índia tem na diversidade cultural um dos seus mais importantes Valores, riqueza plural que a beneficia e enriquece.

Com altos e baixos, foram quase 500 anos de intercâmbio e miscigenação entre a Índia e Portugal - eis a Cultura Indo-Portuguesa.

Nas expressões compostas, o elemento determinante é o primeiro. Portanto, neste caso, trata-se de uma Cultura indiana com influência portuguesa. Se o contrário existisse (e não o creio), seria a Cultura Luso-Indiana significando uma Cultura portuguesa com influência indiana.

Concomitantemente, tratando-se de uma Cultura indiana, a sua sede é na Índia. Uma sede excêntrica, dispersa por tantos centros quantos aqueles em que o intercâmbio cultural se fez com mais ou menos intensidade ao longo da História.

Bangalore foi a cidade onde mais inesperadamente encontrei falantes de português. Trata-se, logicamente, de uma língua de base portuguesa mas os seus praticantes eram (são?) afirmativos na convicção de que aquele português é tão autêntico como o que se fala noutras paragens por esse mundo além... E eu próprio tomei a iniciativa de lhes confirmar essa autenticidade.

Para além desta localização, para mim inesperada, mais outras que, essas, sim, já conhecia, desde Diu a Cochim passando por Baçaim, Silvassa, Corlai,… Mas, dentre todas as formas linguísticas que legitimamente integram a Cultura Indo-Portuguesa, o concanim românânico assume uma relevância especial não só por ser correntemente usado por cerca de meio milhão de pessoas mas  porque, sendo escrito em caracteres latinos, possui só por esse facto uma capacidade de internacionalização muito superior a todas as demais línguas indianas. Urge torná-lo acessível ao resto do mundo incluindo-o, por exemplo, no «Google Translator»[i]. Esta, a minha primeira sugestão para a afirmação da Cultura Indo-Portuguesa à escala global[ii].

Esta miscigenação cultural é muito vasta não apenas na perspectiva geográfica mas sobretudo em múltiplas temáticas. Assim, para além da arquitectura religiosa e profana, assumem especial relevo a música (mandó, p. ex.) e a culinária.

Em Portugal, por exemplo, em paralelo com restaurantes tipicamente indianos, abundam os restaurantes goeses[iii] numa acção de divulgação e afirmação cultural da maior relevância.

Um texto como este – por mais breve que pretenda ser - não pode omitir uma referência ao contributo da Igreja Indiana para a exegese católica ao longo dos já longos anos que o Catolicismo conquistou fiéis no sub-continente indiano. Hindus e católicos foram ensinados a conviver pela sabedoria adquirida pelo pragmatismo da vida e da proximidade diária. E é monumento da tolerância que faz jus à maior democracia do mundo, a União Indiana, nas suas próprias afirmações nos «fora» internacionais. Mas não basta dizer, há que o provar. E a preservação-protecção da Cultura Indo-Portuguesa será uma prova real.

Será por certo um trabalho ciclópico mas convido quem me lê a pensar comigo na nobreza do que será organizar um processo que eleve a Cultura Indo-Portuguesa a Património da Humanidade. E se a minha ideia tomar forma, que o seja sob a égidem conjunta dos Governos da Índia e de Portugal.

Ficam as sugestões.

Setembro de 2020

Henrique Salles da Fonseca

 

[i] - O canarim já está disponível no Tradutor da Google mas essa língua não pertence à Cultura Indo-Portuguesa

[ii] No mundo actual, só existe quem está na Internet.

[iii] - Lastimavelmente, na região de Lisboa não sei da existência de restaurantes tipicamente diuenses nem damanenses

POBREZA, INDIGÊNCIA, MISÉRIA

Comecemos pelo dicionário de português[i]:

  • Pobreza – penúria de bens;
  • Indigência – pobreza extrema;
  • Miséria – inópia, falta do necessário

E agora passemos para a Índia. Para onde? Por exemplo, para o Tamil Nadu mas também poderia ser para Calcutá, zonas urbanas do Maharastra,… onde a miséria assume graus superlativos inimagináveis por um português do século XXI. Só vendo. E eu vi crianças, mulheres e homens a vasculhar no lixo ubíquo disputando qualquer coisa comestível com vacas, cães, ratos… Por ali, as vacas (não os bois) são sagradas mas as pessoas que se desenrasquem como puderem. Se há uma política de segurança social, ela não dá sinais de si; pelo contrário, parece que a política oficial é a do abandono social. E há quem diga que a Índia é a maior democracia do mundo. É que uma parte enorme da população está entregue à miséria superlativa, totalmente abandonada e isso não é democracia. Será qualquer outra coisa mas democracia não é certamente.

É nesta realidade social que aparecem empresas multinacionais a oferecer postos de trabalho. Para os padrões ocidentais, vão para ali pagando uma ridicularia, parece que a higiene e segurança no trabalho é «coisa» desconhecida por aquelas bandas, que muitos trabalhadores são apenas crianças, que dormem e comem no local de trabalho e se submetem a outras condições inimagináveis no Ocidente. Mas dormem sob um tecto, talvez amealhem algumas Rupias, não precisam de chafurdar no lixo à procura de qualquer coisa parecida com comida, têm que vestir e não andam com um trapo sujo a tapar-lhes apenas «as vergonhas» como vi por todas aquelas cidades por que passei.

Tudo é relativo: o que parece horrível para um ocidental, é bom para um indiano que consegue um desses postos de trabalho levando-os a aspirar pelo aparecimento de muitas mais empresas ocidentais que os tirem da miséria superlativa em que os políticos indianos os deixam.

Mas, na verdade, estas empresas nem sequer são as tais multinacionais ocidentais e sim empresas indianas cujos clientes são essas multinacionais. Ou seja, a solução passaria pela existência daquilo a que entre nós se chama a Inspecção do Trabalho que obstasse às situações que acima refiro. E a pergunta é: com que moral é que qualquer político indiano pode apresentar tal ideia se os tais «abusos» são o «paraíso» em comparação com as condições que a classe política oferece aos seus cidadãos?

Outro absurdo: as campanhas que correm no Ocidente contra as marcas que «exploram o trabalho infantil no Oriente».

Então, no que ficamos? Na necessidade imperiosa de os políticos indianos se passarem a preocupar com as necessidades mais básicas e elementares dos seus cidadãos.

Imbuídas de uma cultura humanista, Goa, Damão e Diu bem podiam dar o exemplo com uma proposta política centrada nos Valores Humanos e não sobretudo nos das vacas.

Julho de 2020

Henrique Salles da Fonseca

 

[i] - Dicionário Priberam da Língua Portuguesa

«RESSENTIMENT» - NIETZSCHE

Hoje, 28 de Maio de 2020, lembrei-me do conceito nietzschiano de ressentiment (que ele usa na grafia francesa) e que liga ao sentimento de superação de uma situação de constrangimento associada à inveja e à necessidade de culpabilização de alguém por esse sofrimento.

Historicamente, entre nós, temos duas formas de sublimação desse ressemtiment: a emigração, nomeadamente aquela que erigiu o Império; as revoluções, de que destaco as mais recentes, a da implantação da República, a do 28 de Maio de 1926 e a do 25 de Abril de 1974, uma sucessão ao estilo dos alcatruzes – alarga, aperta, alarga.

A Monarquia, tipicamente o regime em que uns nasciam destinados ao mando e os outros à obediência, foi substituída por um outro em que todos se achavam com direito ao mando, a sublimação do ressentiment numa explosão dos recalcamentos acumulados e de vingança pelas expectativas frustradas´- daí, a instabilidade social, as constantes revoltas de facção, os Governos de curta duraçã0o, a ausência de soluções sensatas ou eficazes, a bancarrota, a criação da ansiedade e da aspiração por uma paz entretanto perdida.

Foram os militares humilhados na Flandres, no norte de Moçambique e no sul de Angola que decidiram «pôr ordem no quartel» e em 28 de Maio de 1926 disseram que, a partir dali, eram eles que mandavam. Mas os traumas eram muitos e também eles não se entenderam como queriam. Lá tiveram que ser «arrumados» Gomes da Costra e Mendes Cabeçadas até que Carmona se sentou na poltrona. E foi depois duma negaça que tiveram que ir de novo pedir-lhe que regressasse. A quem? Àquele que definiria a vida portuguesa de 1933 a 1974, o Doutor Salazar.

E foram duas as missões que o levaram a agir: o reequilíbrio das Finanças Públicas e a oposição à determinação dos soviéticos de tomarem conta da Península Ibérica para subjugarem a Europa entre os Pirinéus e a futura cortina de ferro e, simultaneamente, tomarem conta das colónias portuguesas.

O desenvolvimento económico foi nesse longuíssimo período apenas o que o equilíbrio financeiro permitisse e as frustrações políticas dos que se sentiam constrangidos criaram tensões que a PIDE ia «gerindo» mas que, acumuladas, não podiam ser contidas.

O 28 de Maio perdurou tempo demais, não quis evoluir e quando o Proifessor Marcelo Caetano o tentou fazer, foi boicotado pelos «ultras» e viu-se apeado por um golpe comunista no dia 25 de Abril de 1974.

E aí, novamente, o povo saiu às ruas a berrar nem ele próprio sabia para quê e vá de se ver envolto num processo revolucionário soviético que só tardiamente derrubou. E só então é que o ressentiment pôde dar largas às invejas, às frustrações.

E já lá vão 46 anos em que a bancarrota regressou repetidamente, a bagunça alternou com a austeridade até que Stalin foi claramente substituído por Gramci na viabilização de uma geringonça governativa.

Segue-se o quê? Não sei mas gostaria que não fosse algo parecido com o que aconteceu ao inspirador destas linhas, Friedrich Nietzsche, a loucura.

Eis do que,  «sans ressentiments», me lembrei hoje.

28 de Maio de 2020

Henrique Salles da Fonseca

OBVIOUSLY

Na minha actividade de reaproximação a Portugal dos descendentes dos «portugueses abandonados», são muitos os contactos que mantenho em todo o mundo, sobretudo naquelas partes em que tivemos um Império.

No Oriente e até no Extremo Oriente, são muitos os lusófilos que nutrem uma enorme admiração pelo nosso país. A maior parte dos meus contactos começou há pouco a aprender os primeiros rudimentos da nossa língua e até já está em andamento o dicionário de «Português de Portugal – Português de Malaca» Mas, daí, a conversarmos, vai uma grande distância. Por enquanto, servimo-nos do inglês como língua intermédia.

Foi assim que recentemente perguntei a um interlocutor, o que era feito de um terceiro de quem não tinha notícias desde há muito tempo. E a resposta foi rápida: - (…) it seemed to have become defunct after he passed away (…). «Parece que se tornou defunto depois de ter morrido».

Ainda não respondi porque ainda não parei de rir. A ver se consigo respirar um pouco…

Lisboa, 13 de Outubro de 2019

Navegando arquipélago Estocolmo.jpg

Henrique Salles da Fonseca

 

CAMÕES, O “IMPARCIAL”

 

 

O trinca fortes, Camões

 

As armas e os barões...

Cantando espalharei por toda a parte

Se a tanto me ajudar o engenho e arte.

 

 

 

O nosso épico não se fez rogado a enaltecer os feitos lusíadas nem a denegrir os que se nos opunham: nós, os heróis; eles, os vilões.

 

E assim fomos criados num imaginário glorioso que então nos levou «além da Taprobana» mas que ainda hoje nos faz sonhar com a Lusitânia Armilar onde cabem todos os que se sentem portugueses mesmo que já não falem a nossa língua e já lhes rareiem os genes lusitanos.

 

E é nestas brumas poéticas que me lembro de Heródoto, o pai da História, que tanto contava os feitos dos vencedores como dos vencidos para «impedir as grandes e gloriosas acções de gregos e de bárbaros de perderem o tributo de glória que lhes é devido».

 

Sim, Heródoto praticava a imparcialidade e era objectivo na descrição dos feitos que relatava. Por isso se credibilizou como historiador e não como poeta ou contista.

E se essa objectividade lhe atribuiu a «paternidade» da História, ela inspirou também todo o método científico, o mesmo que nos permite, tantos séculos depois, estarmos onde estamos, a desbravar os limites do Universo e a «tratar por tu» o núcleo das células.

 

Hoje, os lusíadas do século XXI, estamos todos em pé de igualdade, sem suseranos nem servos, sem dominadores nem dominados. Assentes na realidade, cumpre-nos aceitar as coisas como elas efectivamente são e, não querendo discutir as situações a que a História nos conduziu, resta-nos a possibilidade de tirarmos o maior proveito das circunstâncias, sem cenários mirabolantes.

 

Apetece, no entanto, perguntar como teria sido o nosso percurso nacional se em vez de Camões tivéssemos sido influenciados por Heródoto. Ninguém consegue imaginar os resultados duma experiência não experimentada mas talvez possamos admitir um percurso como o da Nação grega. E vai daí, não haveríamos por certo de querer a troca quando pela Grécia só a metade Sul de Chipre sonha enquanto nós temos – apesar de tudo – uma dimensão universal.

 

E como estaria hoje a nossa auto-estima se não fossemos diariamente achincalhados pelos telejornais?

 

E como estaria hoje a nossa determinação se não fossemos diariamente desmotivados pelos gatunos?

 

E como estaríamos hoje se os políticos se entregassem ao bem comum com a mesma tenacidade com que se dedicam ao «tira-te tu para me pôr eu»?

 

E como estaríamos hoje se a base da nossa cultura não fosse a fantasia épica e sim a verdade histórica?

 

Seríamos talvez uma Nação sorumbática, instalada, maçuda e rica mas não teríamos certamente as gargalhadas das anedotas nem os sonhos de voltarmos a ser a Nação gloriosa que nos contaram. E sem esperança não há futuro.

 

VIVA CAMÕES!

Dança com serpente.JPG

Henrique Salles da Fonseca

(algures na Amazónia, MAR16)

LUSITÂNIA ARMILAR

 Lusitânia Armilar 2.jpg

 

Há quem diga aí pela Internet que nós, os que cá estamos em Portugal, não prestamos e que os que emigraram, esses, sim, são os bons.

 

Acho que nós, os de cá, podemos ser classificados em seis categorias:

  • Os mandantes;
  • Os herdados;
  • Os que andaram por fora e voltaram;
  • Os estrangeiros que tomaram Portugal como país de acolhimento e adopção;
  • A maioria, que é a dos que não se incluem nas categorias anteriores mas são gente de bem;
  • Os gatunos e outros «artistas» que tais...

 

Portanto, antes de chegarmos aos últimos, os que não prestam – tanto indígenas como forasteiros – temos todos os outros que constituem a maioria absoluta dos residentes e, dentre eles, muitíssimos de grande valimento e seriedade absoluta.

 

Dos «artistas», com ou sem gravata, que se encarregue a Polícia pois é também para isso que pagamos impostos.

 

Portugal é o centro da Lusitânia Armilar e, portanto, pode e deve ser a casa natural de todos os lusíadas. E esses somos nós, os que gostamos de Portugal.

 

Portugal - ame-o ou largue-o!

 

Henrique Salles da Fonseca, Macau

Henrique Salles da Fonseca

(em Macau, DEZ06)

AQUI TUDO COMEÇOU…

 

HSF-Ceuta.png

A Conquista de Ceuta, cidade islâmica no Norte de África, por tropas portuguesas sob o comando de D. João I, consolidou-se a 22 de Agosto de 1415

 E FICOU ASSIM

HSF-Portugal_Império_total.png

 

 MAS EM 1974 VOLTOU A FICAR ASSIM

HSF-PORTUGAL 2.png

 

E COMO VAI SER O FUTURO?

Agora, banidas as armas, assinalam-se os Barões da amizade, da cultura, da equidade, do desenvolvimento e construiremos a Lusitânia Armilar. O futuro é o que os nossos Grupos de Paz construirem.

 

Agosto de 2015

Eu, Barril-8AGO15-2.jpgHenrique Salles da Fonseca

ESTILOS


Lusitânia Armilar 2.jpg

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Atribui-se a Napoleão o conceito de que os homens superiores debatem ideias, os vulgares referem factos e os medíocres discutem pessoas.

 

Não havendo medíocres nas nossas cercanias, o vulgo dedica-se à discussão dos factos e os inúmeros intelectuais com que topamos preocupam-se com as ideias. Será?

 

Basta o Caro Leitor assistir aos inúmeros programas televisivos dos abundantes comentadores encartados para formarmos a nossa própria opinião sem necessidade das achegas que por aqui eu possa dar. E note que, neste preciso momento, estou a referir-me a pessoas, o que é tipicamente medíocre. Mas isso é um conceito napoleónico e alguém por nós já liquidou quaisquer veleidades imperiais da Nação portuguesa.

 

Sim, liquidaram de facto. Mas nós temos virtualidades que nos permitem encarar o futuro em equidade com todos os povos que algures no mundo e ao longo da História governámos umas vezes bem e outras «assim-assim». E essas virtualidades traduzem-se na capacidade que hoje temos de fazer uma Lusitânia Armilar assente no software e abdicando do hardware. Ou seja, não será com dispendiosos exércitos «putinescos» ou com gananciosas empresas multinacionais que voltaremos à nossa dimensão global, será sobretudo pela igualdade, pela Cultura e pela convivência pacífica.

 

E como faremos isso? Bem, já o estamos a fazer e não pedimos autorização a ninguém. A nossa Escola de Português (e não de «acordês») no Facebook já ultrapassou os 120 alunos e até ao momento nela estão publicadas 18 lições ministradas pela Professora Filomena Ferro; o grupo de amizade com Diu já ultrapassa os 800 membros; o grupo de conversação em português destinado aos lusófonos de Bombaim dá os primeiros passos; está aberto o processo para pedirmos ao Governo Português a nomeação de um Cônsul Honorário em Diu e outro em Damão; a Gramática Portuguesa da Professora Berta Brás está em distribuição aos professores na Guiné-Bissau e no norte de Moçambique… E o mais que se verá.

 

Só voluntariado e acções a custo zero para o Estado Português.

 

E tudo isto, apesar do conceito napoleónico, para tratarmos de pessoas.

 

Este é o nosso estilo, aceitamos companhia.

 

Pena é que o Director de Programas da RDP ainda não tenha tido tempo para responder ao e-mail que há meses lhe enviei (por indicação do Presidente da RTP/RDP que me respondeu instantaneamente) para a feitura de um programa semanal a custo zero para a empresa denominado «Lusitânia Armilar». Mas eu compreendo que esse cavalheiro deva estar muito ocupado a discutir ideias enquanto nós queremos apenas tratar de pessoas.

 

Agosto de 2015

 

Eu, Barril-8AGO15-2.jpgHenrique Salles da Fonseca

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