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A bem da Nação

LIDO COM INTERESSE – 89

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Título – “HISTÓRIA DE UM CANALHA

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Autora – Júlia Navarro

Tradutores – Rita Custódio e Alex Tarradellas

Editora – BERTRAND EDITORA

Edição – 1ª, Outubro de 2016

 

* * *

 

Foi ao longo da leitura deste livro que dei por mim a lembrar-me do medo que em criança me fazia o «Comboio Fantasma» na Feira Popular de Lisboa. Só que agora tenho quase 74 anos e, mesmo assim, saltei um capítulo apenas encetado por total incapacidade de continuar a absorver tanta maldade e, mais à frente, deixei o livro no local em que o estava a ler e fugi para outra parte da minha própria casa. Só voltei a pegar-lhe depois de respirar fundo e de tomar consciência da infantilidade em que estava a incorrer.

 

Não me lembro de ter lido qualquer outra obra de ficção com enredo tão pesado como o desta. Julgo mesmo que nem sequer Edgar Alan Poe é tão medonho.

 

Da contracapa, transcrevo:

 

Thomas Spencer sabe como conseguir tudo o que quer. A saúde delicada foi o preço que teve de pagar pelo seu estilo de vida, embora não se arrependa. No entanto, desde o seu último episódio cardíaco, apoderou-se dele um sentimento estranho e, na solidão do seu luxuoso apartamento em Brooklyn, sucedem-se as noites em que não pode deixar de se perguntar como seria a vida que conscientemente optou por não viver.

A memória dos momentos que o levaram a ter sucesso como consultor de relações-públicas e imagem, entre Londres e Nova Iorque nos anos oitenta e noventa, revela os mecanismos dúbios que os centros de poder por vezes empregam para alcançar os seus fins. Um mundo hostil governado por homens onde as mulheres resistem a ter um papel secundário.

 

Estranhará o meu leitor que inclua esta apreciação na rúbrica «LIDO COM INTERESSE» e não numa a que poderia chamar «LIDO COM PAVOR» mas acho que, por muito boa literatura que esta seja (e é), não se justificaria abrir nova secção na minha biblioteca porque não estou na disposição a voltar a ler qualquer outro livro que me incomode.

 

Resta-me uma questão para que ainda não encontrei resposta: qual o objectivo moral, ético, político, enfim, social, que levou Júlia Navarro a fazer publicar esta história?

 

Meu comentário final: IRRA!

 

Fevereiro de 2019

Rua mais estreita de Estocolmo.JPG

Henrique Salles da Fonseca

LIDO COM INTERESSE – 88

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Título – LEONARD BERNSTEIN

Autor – Barry Seldes

Editora – Bizâncio

Edição – 1ª, Outubro de 2010

 

* * *

 

Conceitos relevantes (que fui buscar à Wikipédia) para se perceber um dos tipos de questões que interessavam a Bernstein:

 

  • Música tonal - é toda a música que apresenta uma tonalidade definida, ou seja, uma hierarquia entre as notas utilizadas, girando em torno de uma principal;
  • Música atonal - é a música desprovida de um centro tonal, ou principal, não tendo, portanto, uma tonalidade preponderante;
  • Dodecafonismo - as 12 notas da escala cromática são tratadas como equivalentes, ou seja, sujeitas a uma relação ordenada e não hierárquica. As notas são organizadas em grupos de doze notas denominados séries as quais podem ser usadas de quatro diferentes maneiras; 1) série original, 2) série retrógrada (a série original tocada de trás para a frente), 3) série invertida (a série original com os intervalos invertidos) e 4) retrógrado da inversão (a série invertida tocada de trás para a frente). - Todo o material utilizado numa composição dodecafónica, seja melódico (estruturas horizontais) ou harmónico (estruturas verticais), deve ter origem na série.

 

Mas ele interessava-se também por outros tipos de assuntos. Por exemplo, pela política. E, neste aspecto, foi para mim uma surpresa ao ficar a sabê-lo da esquerda mais activa nos EUA, a ponto de em tempos ter pertencido ao Partido Comunista da América – o que conseguiu encobrir nas várias investigações de que foi alvo ao longo da vida pelas autoridades da segurança interna, nomeadamente o FBI e comissões constituídas nos tempos da «caça às bruxas» de Joseph McCarthy.

 

Nesta matéria, aliás, o livro é muito detalhado pois parece que o respectivo Autor, Barry Seldes, se não é militante dessas bandas, imita muito bem, tal a militância que ele próprio exala ao longo de toda a obra.

 

Contudo, musicalmente, Bernstein era conservador pois sempre alinhou pela música tonal e guerreou a atonalidade dos compositores mais reactivos contra Hitler, Mussolini e outros ditadores que tais. Mais: defendia a tese de que a música tonal, melodiosa e harmónica, é natural no ser humano e que a atonal só se percebe como reacção contra situações que se pretende denunciar.

 

Nós, leigos, conhecemos o West Side Story como a sua obra mais importante mas, afinal, ele tem outras que passaram com maior ou menor êxito pela Broadway e por diversas salas de concerto nas Américas e na Europa. Mas ficou por criar aquela «obra maior» que ele tanto tentou compor e nunca conseguiu. Porquê? Porque «quem muitos burrinhos toca, algum fica para trás». Actividade política por paixão (a causa israelita também o ocupou muito) e regência de orquestras por vocação e necessidades monetárias, não lhe deixaram tempo para a composição mais profunda e ficou-se por obras que ele próprio acabou por considerar menores.

 

Enfim, um personagem controverso em muitos aspectos da vida – a que o livro se refere amiúde - só recebendo louvores unânimes na divulgação musical e no brilhantismo das suas interpretações.

 

Para mim, reconheço com tristeza, foi um ícone que se desequilibrou do pedestal e quase caiu.

 

Janeiro de 2019

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Henrique Salles da Fonseca

LIDO COM INTERESSE – 87

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Título – O BEBEDOR DE HORIZONTES

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Autor – Mia Couto

Editora – CAMINHO

Edição – 2ª, Fevereiro de 2018

 

* * *

 

Sinto-me dispensado de apresentar o Autor mas não me dispenso de dizer algo sobre ele.

 

Estabeleço três grandes diferenças entre José Saramago e Mia Couto:

  • Uma, a de que um é odioso e o outro chega a ser simpático;
  • Outra diferença é a de que o odioso já recebeu o Nobel e o outro ainda não;
  • A um, não deixo que me influencie nem por osmose; ao outro, leio.
  • Mia Couto escreve «coisas» que me interessam; o outro, não sei.

 

Moçambicano e branco, assume uma postura em que parece pedir desculpa por ser branco, tanto o mal que diz dos brancos, dos portugueses em particular. Fá-lo disfarçadamente nuns livros, mais directamente noutros mas, no mínimo, com uma pedra no sapato contra nós.

 

Cumpre-nos a nós, portugueses, reconhecer que nem tudo o que fizemos em África merece os maiores louvores mas, daí a propagandear apenas os defeitos omitindo as virtudes, é uma vergonha para quem o faz. O que seria a alternativa à nossa presença nesses países? Não respondo porque não quero agora entornar o caldo.

 

Sim, a literatura africana de língua portuguesa tarda em se afirmar sem complexos de colonialismo. Parece que lá para as bandas de Cabo Verde já vão aparecendo escritores verdadeiramente independentes.

 

* * *

 

No final, o Autor informa em anexo que «Este livro é uma obra de ficção. Grande parte das personagens e das histórias foram, no entanto, construídas com base em pessoas reais e factos históricos. (…)»

 

A trama refere-se à captura de Gungunhana, de sete das suas mais de trezentas mulheres, do filho Godido, do tio e conselheiro Mulungo, do cozinheiro Ngó e do arqui-adversário Zixaxa e suas três mulheres, tudo personagens verdadeiras. A narradora é a intérprete de que o Autor se serve para que nos cheguem as falas de quem não sabia falar português.

 

Independentemente da história (que coincide com a História), Mia Couto consegue com mestria transmitir-nos muito do misticismo dos povos do Sul de Moçambique e, nesse particular, merece os maiores louvores literários e também humanistas. Basta isto para se justificar esta leitura.

 

Frases que chamaram a minha atenção:

 

  • Sobre a questão linguística, a rainha Dabondi refila sobre o modo rude como é mandada calar - «Calo-me na mesma língua do homem que me humilha» - (pág. 22);

 

  • Sobre a magreza de muitos dos soldados brancos - «(…) magros vultos com mais farda do que corpo.» - (pág. 35);

 

  • Sobre os complexos de inferioridade dos portugueses - «A nossa verdadeira pequenez não vem da geografia mas do modo como nos pensamos.» - (pág. 44);

 

  • «(…) só há um critério para medir a grandeza de um comandante: o modo como trata os vencidos.» - (pág. 45);

 

  • «(…) como um bêbado se agarra a uma garrafa já vazia.» - (pág. 62);

 

  • Sobre quem foi a Lourenço Marques assistir à apresentação dos captivos - «(…) gente de nações tão distantes que nenhum mapa lhes faz justiça.» - (pág. 116);

 

  • «A bravura não nasce de ser pensada. A coragem não mora no cérebro, emerge das entranhas.» - (pág. 144);

 

  • «Enquanto sobreviver o medo, os deuses não serão destruídos pelas máquinas.» - (pág. 238);

 

  • «(…) se não há futuro, tornamo-nos iguais aos bichos e não há melhor para as guerras que um bicho fardado de soldado.» - (pág. 248);

 

  • «O frio é tanto que as sombras não se soltam dos corpos.» - (pág. 267);

 

  • «Cozinhar não é fazer comida, é sentar os deuses à nossa mesa». – (pág. 285);

 

  • «Rir junto é um abraço.» - (pág. 325);

 

  • «(…) os nomes são tatuagens na alma. Não há morte que os apague.» (pág. 342).

 

Janeiro de 2019

Púlpito discurso Nobel.JPG

Henrique Salles da Fonseca

(no púlpito dos laureados Nobel)

LIDO COM INTERESSE – 86

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TítuloMúsica de praia

Pat Conroy.jpg

AutorPat Conroy

Tradutor – José Luís Luna

Editor – Círculo de Leitores

Edição – Setembro de 1996

 

* * *

 

Antes do livro, refiro-me ao Autor que não conhecia de lado nenhum até ao momento em que, vasculhando numa prateleira cá de casa, encontrei esta obra que a família lera mas que me tinha passado ao lado.

 

Pelos vistos, dos 14 livros que escreveu, quatro foram postos em cinema e levaram vários actores aos Óscares.

 

Nascido em Atlanta, filho de pai que lhe fez a juventude num inferno, acabou por se fixar na Carolina do Sul onde morreu aos 70 anos de cancro no pâncreas em 2016.

 

Para saber mais, ver o que sobre ele informa em português a Wikipédia no endereço

https://pt.wikipedia.org/wiki/Pat_Conroy

Mas em inglês informa bastante mais

https://en.wikipedia.org/wiki/Pat_Conroy

 

* * *

 

Nestas 570 páginas de texto, o Autor descreve o que foi o impacto da guerra do Vietname na sociedade americana e sobretudo na geração em idade de então cumprir o Serviço Militar Obrigatório em que as «cunhas» choviam para o ingresso na Guarda Nacional em vez da opção «normal», a da guerra. Como se por cá tivesse sido – e não foi – a alternativa entre o Exército e a GNR. Mais descreve o que resta da perspectiva sulista em contraste com os outros americanos, tudo num dramatismo que ficou bem sob os holofotes de Hollywood como acima refiro.

 

Com estrutura literária curiosa, o narrador desempenha, naturalmente, o papel central mas é um outro personagem que se revela, afinal, autobiográfico do Autor. Ou seja, o tema central da obra passa por ser marginal e o que nos é apresentado como central é, afinal, marginal. Mas isto são perspectivas que só se revelam lá para os finais da obra e, entretanto, vamos passando por personagens bem interessantes que revelam muita plausibilidade e grandes tiradas de sabedoria.

 

E a propósito de sabedoria, foram várias as passagens que me despertaram interesse:

 

  • «(…) havia uma história que ela me obrigava a repetir inúmeras vezes até que adquiri uma qualidade tão maquinal como as respostas de uma catequista.» (pág. 18);

 

  • «Quando ia buscar a filha, olhava para mim de tal maneira que até parecia que eu era uma amostra de urina.» (pág.18);

 

  • Roma «(…) cidade cor de corça.» (pág. 27);

 

  • «(…) um motorista italiano não guia, faz pontaria.» (pág. 35);

 

  • «(…) letra ilegível que me fazia pensar em sapatos de atacadores desapertados.» (pág. 48);

 

  • Na página 62, escreve sobre o Carnaval de Veneza a que me refiro em

https://abemdanacao.blogs.sapo.pt/anonimando-1841100

 

  • Em Roma, «Cada passo que dei com ela transportou-nos através de várias civilizações empilhadas como camisas numa gaveta.» (pág. 83);

 

  • «A sua perspectiva da humanidade era unidimensional, mas não imprecisa: os homens eram prisioneiros dos seus genitais e as mulheres eram as guardiãs da entrada para o Paraíso.» (pág. 206);

 

  • Da página 215 à 217 refere o episódio do General Sherman que contei em

https://abemdanacao.blogs.sapo.pt/general-sherman-1841486

 

  • Em Roma, «Um artista de rua sem talento desenhava o retrato de uma japonesa que se queixava por parecer coreana.» (pág. 227);

 

  • «(…) a caminho da Basílica de São Pedro, ia uma congregação que se movia lenta e pensativamente como uma manada de herbívoros que se alimentava de orações, incenso e pão ázimo.» (pág. 232);

 

  • «O excesso exuberante da Basílica de São Pedro levou-me sempre a pensar que a simplicidade dos protestantes nasceu naturalmente da exorbitância de igrejas como esta.» (pág. 232);

 

  • «A fantasia é uma das porcelanas mais brilhantes da alma.» (pág. 289);

 

  • «(…) num século que me parecia cada vez mais ridículo, achava que a solidão, a oração e a pobreza eram, talvez, cada vez mais eloquentes e justificáveis nesta época absurda em que a alienação era tanto atitude como filosofia.» (pág. 326 e seg.);

 

  • «(…) na memória do passado utilizável, a tradução inexacta, os erros de ênfase e a inevitabilidade da interpretação defeituosa de uma experiência, podia conduzir a uma perspectiva imperfeita das coisas.» (pág. 366);

 

  • Dizia a chatíssima professora de História no Liceu que «Nota-se, pela forma do queixo, que estes dois jovens descendem de pessoas que colocavam a rectidão acima do mero esplendor, a justiça acima da mera retribuição e a elegância acima do espalhafato do meretrício.» (pág. 397);

 

  • Sobre a mesma professora, afirma que «A voz dela era tão monótona como a água de um autoclismo a correr» e continua «Ela conseguia fazer com que a Carga da Brigada Ligeira parecessem instruções para dobrar um guardanapo.» (pág. 398);

 

  • «Ao longo dos séculos, o calor e o ensino medíocre fizeram muito para baixar o quociente de inteligência do Sul.» (pág. 399);

 

  • «Pairava no ar o cheiro a festa que fazia mal às artérias e bem à alma.» (pág. 449).

 

* * *

 

Conclusão: gostei e vou procurar mais obras de Pat Conroy.

 

Janeiro de 2019

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Henrique Salles da Fonseca

LIDO COM INTERESSE – 85

 

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Título – DISPARA, EU JÁ ESTOU MORTO

Autora – Júlia Navarro

Tradutores – Rita Custódio e Àlex Torradellas

Editora – BERTRAND EDITORES

Edição – Setembro de 2018

 

* * *

 

São 818 páginas de texto mais 7 de anexos com um glossário e uma listagem de personalidades reais que vaguearam por aquelas páginas todas.

 

A trama é a de duas famílias palestinianas – uma judia e outra árabe – que de profundamente amigas se vêem obrigadas a passarem a guerrear-se mutuamente com mortos de ambos os lados. Pior: em ambos os lados, as «pombas» são sempre encurraladas e não conseguem escapar aos «falcões». Mas este é o cenário resultante duma história magnificamente contada que começa na Rússia czarista, passa pelas guerras mundiais e desemboca na Palestina actual.

 

A grande plausibilidade da narrativa faz-nos passar por muitas personagens reais que a Autora entrelaça com as de ficção dando-nos uma visão das razões que opõem judeus e árabes, todos eles palestinianos.

 

Como é óbvio, não conto o final.

 

Tudo isto poderia ter sido descrito por um funcionário público mas, felizmente, foi contado por uma romancista pelo que em vez de um relatório chatíssimo, temos um romance estupendo que nos põe dentro do problema humano que a Palestina continua a ser.

 

Concluo recordando Golda Meir quando ela dizia que «se os árabes depuserem as armas, a paz será uma realidade, mas se os israelitas depuserem as armas, Israel deixará de existir».

 

Dezembro de 2018

O caos e a ordem.jpg

Henrique Salles da Fonseca

LIDO COM INTERESSE - 84

DIZ-ME QUEM SOU-Júlia Navarro.png

Título – DIZ-ME QUEM SOU

Júlia Navarro.jpgAutora – Júlia Navarro

Tradutor – Sérgio Coelho

Editora – BERTRAND EDITORA

Edição – 1ª, Novembro de 2011

 

* * *

 

De uma diva, não se espera que apenas cantarole.

 

Esta frase pode dar a ideia de que se trata de um livro bem humorado mas, pese embora alguma graça que possamos encontrar aqui ou ali, o tom geral da obra é duma seriedade absoluta raiando mesmo a sisudez histórica. Não chega às profundezas mórbido-fantasiosas de Edgar Alan Poe mas ultrapassa-o durante algumas cenas, em especial as relacionadas com os «mimos» dispensados pelo KGB e pela Gestapo aos respectivos «hóspedes».

 

São 1070 páginas de texto nesta edição que refiro e por isso mesmo sugiro ao futuro leitor que se equipe de alguma ajuda física para suporte do livro, a menos que queira logo de início ficar com uma dor na mão direita e, a partir da metade, sentir a dor passar para a mão esquerda.

 

De maneira a não estragar a leitura dos futuros leitores, apenas refiro que se trata da história duma belíssima jovem espanhola loira, magra e alta (o que só por si foge ao padrão por que esperávamos numa espanhola) que começa durante a Segunda República espanhola, passa pela II Guerra Mundial e pela Guerra Fria estendendo-se até à queda do Muro de Berlim.

 

Nem sei como classificar os personagens pois são vários os de importância central. Trata-se de um bisneto que foi encarregue por uma tia de desvendar a vida duma misteriosa bisavó que durante várias gerações foi tabu na família. Os narradores são vários e todos são importantes pois sem eles nada saberíamos. Sim, é uma tessitura do mais curioso que tenho lido e que, para nosso grande espanto, não conduz ao labirinto. Pelo contrário, tudo é rectilínio na marcha do tempo e a cada página nos sentimos mais interessados pelo que irá decorrer ao longo da História da Humanidade neste período do séc. XX.

 

É na página 924 que encontro um enigma pelo que desafio o leitor a descobrir como é que a visita entrou na casa se o visitado, paralisado e agarrado a uma poltrona, estava sozinho e longe da porta. Ou estaria numa cadeira de rodas?

 

Sim, é um romance mas é tão verosímil que só perderá em cultura histórica quem o não ler.

 

E não se esqueça, leitor: são 1083 páginas contadas.

 

Mais: assim como com a diva, de uma espanhola também não se espera que passe pela vida a cantarolar; espera-se que cante a plenos pulmões correndo a pauta por completo.

 

E foi isso que fez Amélia.

 

E quem é Amélia? Leia o livro.

 

Novembro de 2018

TAVIRA-AGO18 - 2.pngHenrique Salles da Fonseca

 

LIDO COM INTERESSE – 82

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 A BÍBLIA DE BARRO, Júlia Navarro, Bertrand Editora, 1ª edição Maio de 2016

 

O ISLÃO E A REVOLUÇÃO FRANCESA

 

(…) todos os países deviam ter uma [Revolução Francesa] que abrisse caminho à luz e à razão. [Sob o Islão], os instruídos (…) baseiam o seu poder e riqueza na miséria dos seus compatriotas.

(…) O Islão impede-vos de fazer a revolução burguesa. Até separarem a política da religião, não vão a lado nenhum. (…) causa-me repulsa ver algumas das tuas compatriotas tapadas da cabeça aos pés (…) Indigna-me que caminhem a trás dos maridos ou que não possam falar tranquilamente com um homem.

(pág. 371 e seg.)

 O ISLÃO E A POLÍTICA

Interessa que continuem a ser escravizados pelos vossos governantes corruptos e que pensem que a culpa de todos os males cabe ao Ocidente, aos infiéis e que a solução consiste em passa-los a fio de espada. Mantêm as pessoas na ignorância para melhor se servirem delas e o pior é que gente [erudita] nada faz e cruza os braços abstraindo-se do que se passa à sua volta porque nada lhe falta.

(pág. 387)

 

Novembro de 2018

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 Henrique Salles da Fonseca

(Mesquita de Delhi, JAN08)

LIDO COM INTERESSE – 81

ENQUANTO SALAZAR DORMIA.jpg

 

  

Título – ENQUANTO SALAZAR DORMIA…

Autor – Domingos Amaral

Editora – Casa das Letras

Edição – 23ª, Setembro de 2017

 

«Memórias de um espião em Lisboa» é o sub-título.

 

Como de costume, recorro à contra-capa e às badanas para descrever minimamente o enredo sem incorrer em inconfidências que estraguem a leitura dos leitores futuros.

 

Assim, diz o narrador que a vida é aquilo de que nos recordamos, ou seja, as grandes histórias que vivemos. Nada, de repente, existia a não ser Lisboa, cinquenta anos atrás. A minha Lisboa, onde amei tanto e tantas vezes. A minha Lisboa, das pensões e dos espiões, dos barcos ingleses e dos submarinos alemães; a Lisboa das ligas da Mary em cima de um lençol branco; a Lisboa dos coscktails no Aviz enquanto eu perseguia Alice; a Lisboa do penteado «à refugiada» da minha noiva, a Carminho; a Lisboa dessa menina frágil e alemã, Anika, por quem arrisquei o pescoço; a Lisboa de Michael…

 

Lisboa, 1941, um oásis de tranquilidade numa Europa fustigada pelos horrores da guerra…

 

Narrativa que põe o leitor «dentro» do ambiente que se vivia naquela época na grande Lisboa num estilo leve de muitos diálogos entre personagens reais e fictícias, o que só é possível quando tudo se configura numa grande compatibilidade entre o real e o imaginário. Curiosa alternância entre o passado e o presente em que o personagem principal assume a função de narrador e a de actor.

 

Interessante, a cena em que a antecessora da PIDE, a PVDE, se vê na necessidade de prender dois figurantes (fictícios) para os livrar das garras da Gestapo. Si non é vero, é ben trovato.

 

Quanto ao que me tocou, refiro que parte substancial da trama romanesca é passada num cenário que corresponde às ruas que me são vizinhas, as das Embaixadas inglesa e alemã nesse período da História, ao da residência oficial do então Presidente do Conselho de Ministros, ao hotel em que o narrador se instala 50 anos depois de a paz ter regressado. Conheço-lhes o aroma das «damas da noite», tudo me pareceu acontecer em frente ao meu bigode. Mais: conheci pessoalmente um dos personagens verídicos que o Autor tanto cita e que tinha um dos primeiros Jaguar E que houve em Portugal.

 

O livro poderá não vir a dar o Prémio Nobel ao Autor mas eu li-o com interesse.

 

Outubro de 2018

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 Henrique Salles da Fonseca

(Jakarta, templo chinês, Setembro de 2018)

LIDO COM INTERESSE – 80

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 Título – ESSA DAMA BATE BUÉ

Autora – Yara Monteiro

Editora – GUERRA E PAZ

Edição – 1ª, Setembro de 2018

 

Romance do mais realista que pude alguma vez imaginar. E logo eu que deixara de ler romances…

 

Quem quiser ter uma ideia bem aproximada daquilo em que Angola se transformou desde que assumiu a plena soberania, não pode deixar de ler este pequeno livro com apenas 197 páginas de texto distribuído por capítulos curtos.

 

Para não cometer inconfidências, extraio da contracapa que a personagem principal, Vitória, nasceu em Angola mas foi criada pelos avós na Malveira, em Portugal, para que se transformasse numa «boa esposa». Mas, não ultrapassando o trauma de ter sido abandonada pela mãe, uma guerrilheira, foge para Angola pouco antes do casamento à procura da mãe.

 

Chega a uma Luanda completamente caótica, de flagrantes contrastes sociais, aguarela em que tragédia e comédia roçam ombros. A Autora traça aqui um quadro tão realista que dá ao leitor a impressão de se encontrar envolvido pelo cenário absurdo que descreve a selva que é a actual capital angolana.

 

Mais do que isto, o drama por que vêm passando tantos angolanos na tentativa de recomposição duma sociedade destruída por décadas de guerra civil, a ditadura dos «todo poderosos» do regime político instaurado, o «salve-se quem puder» a que os simples se têm que entregar para garantirem a sobrevivência.

 

* * *

 

Da badana extraio que a Autora nasceu no Huambo em 1979 mas que com dois anos de idade veio para Portugal, que casou, que vive no Alentejo e se dedica à escrita a às artes plásticas.

 

* * *

 

Partes que chamaram a minha atenção:

 

Num último abraço de despedida, os braços trocaram de corpos, os rostos trocaram de olhos, que trocaram de alma. (pág. 16)

 

Conforme nos vamos aproximando do povoado, a mais visível marca da guerra é o silêncio imposto à vida diária. Até mesmo o capim tem a respiração suspensa. (pág. 17)

 

«Faz de conta que estás na tua casa» é uma formalidade da boa educação que intenta colocar a pessoa convidada à vontade. É bem-intencionada mas é falsa. Ou, pelo menos, assume que os hábitos na nossa casa são os mesmos do que dos de quem nos recebe. Por norma, não é o mesmo. Não fazer de conta que estamos na nossa casa é meio caminho andado para garantir uma boa convivência quando se é visita. (pág. 37)

 

(…) mãos que choram lágrimas caladas. (pág. 84)

 

[No aeroporto, ele] gosta de observar os viajantes. Imagina-lhes a vida que levam e a que tentam esconder. O mestre sabe que a aparência é enganadora. Confia mais na ausência da luz que revela a sombra. (pág. 135)

 

A Lua acomoda-se na parte do céu que mais lhe convém. (pág. 156)

 

[Em romagem, as mulheres vão] caminhando apoiando os pés na fé. (pág. 191)

 

* * *

 

E, concluída a leitura, a pergunta que me ocorre é: - Terão os povos angolanos evoluído algo no relacionamento entre si próprios desde os tempos em que por lá andou Paulo Dias de Novais?

 

Outubro de 2018

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 Henrique Salles da Fonseca

LIDO COM INTERESSE – 79

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Título – MEMÓRIAS DE ADRIANO

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Autora – Marguerite Yourcenar

Tradutora – Maria Lamas

Editora – Leya, RTP

Edição – 1ª, Janeiro de 2018

 

O prefácio, da autoria de Isabel Alçada, é mesmo para ler antes de se começar a leitura do livro propriamente dito e dele se realça logo na contracapa que se trata de «Uma obra magnífica e inspiradora que surpreende pela avalanche de temas e ideias sintetizadas em cada página, sem nunca atraiçoar a coerência da narrativa histórica, nem afectar a credibilidade do retrato complexo e admirável que deixa do Imperador».

 

Curiosos, os títulos latinos dos capítulos:

 

Pág. 25 - Animula vagula blândula – Pequena alma terna flutuante – primeira parte da vida de Adriano na sua Itálica natal, cidade que os romanos construíram depois do longo cerco e destruição radical de Sevilha, capítulo de que extraio algumas frases e expressões que chamaram a minha atenção:

 

«A renúncia ao cavalo é um sacrifício custoso: uma fera não passa de um adversário mas um cavalo é um amigo»;

 

«Um príncipe não tem a latitude de que o filósofo dispõe: não pode permitir-se ser diferente em demasiados pontos ao mesmo tempo e os deuses sabem que os pontos em que eu me diferençava já eram bastantes, embora estivesse persuadido de que muitos deles seriam invisíveis»;

 

«Prefiro falar de certas experiências de sono puro, de puro despertar, que confinam com a morte e a ressurreição»;

 

«Que é a nossa insónia senão a obstinação maníaca da nossa inteligência em manufacturar pensamentos, séries de raciocínios, de silogismos e definições bem suas, a sua recusa em abdicar a favor da divina estupidez dos olhos fechados ou da sábia loucura dos sonhos?»

 

Pág. 45 - Varius multiplex multiformes – Várias formas de múltiplo – parte em que deparei com diversas frases que considerei notáveis:

 

«O verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que, pela primeira vez, se lança um olhar sobre si mesmo»;

 

«(…) o rabino Joshua explicou-me literalmente certos textos desta língua de sectários tão obcecados pelo seu Deus que descuraram o humano»;

 

«O homem colocado em segundo lugar só pode escolher entre os perigos da obediência, os da revolta e aqueles, mais graves, do compromisso»

 

Pág. 97 - Tellus stabilita – A estabilidade do solo:

 

«Aparentar desdém pelas alegrias dos outros é insultá-los»;

 

«A moral é uma convenção privada; a decência é uma questão pública».

 

Pág. 143 – Saeculum aureum – A idade do ouro:

 

«Uma embarcação desencalhada aparelhava para o futuro»;

 

«Toda a felicidade é uma obra-prima: o menor erro falseia-a, a menor hesitação altera-a, a menor deselegância desfeia-a, a menor estupidez embrutece-a»;

 

«A memória da maior parte dos homens é um cemitério abandonado onde jazem, sem honra, mortos que eles deixaram de amar. Toda a dor prolongada insulta o seu esquecimento».

 

Pág. 191 – Disciplina augusta – Disciplina imperial:

 

«(…) a sombra projectada pelo homem efémero nas paisagens eternas»;

 

«Se dezasseis anos do reinado de um príncipe apaixonadamente pacífico tinham conduzido à campanha da Palestina, as probabilidades da paz do mundo afiguravam-se medíocres no futuro»;

 

«(…) podíamos destruir as muralhas maciças dessa cidadela onde Simão consumava freneticamente o seu suicídio; não podíamos impedir aquela raça de nos dizer não»;

 

«O abrandamento dos costumes, o avanço das ideias no decorrer do último século é obra de uma ínfima minoria de bons espíritos; a massa continua ignara, feroz quando pode, de qualquer forma egoísta e limitada e há razões para apostar que ficará sempre assim»;

 

«Este estranho amontoado de bem e de mal, esta massa de particularidades ínfimas e bizarras que constitui uma pessoa (…)».

 

Pág. 237 – Patientia – Paciência:

 

«O viajante encerrado no doente para sempre sedentário, interessa-se pela morte porque ela representa uma partida»;

 

«Os médicos (…) mentiriam menos se não tivéssemos medo de sofrer»;

 

«Se (…) esse dia chegar, o meu sucessor ao longo da riba vaticana terá deixado de ser o chefe de um círculo de filiados ou de um bando de sectários para se tornar uma das figuras universais da autoridade»;

 

«Procuremos entrar na morte de olhos abertos…»

 

* * *

 

Seguem-se notas explicativas sobre o trabalho de investigação e primeiras tentativas de escrita que a Autora teve ao longo de anos e anos. Como é sabido, desse género de investigação resultam sempre conhecimentos que podem ser alinhavados com crueza ou com arte e com mais ou menos plausibilidade. Neste caso, trata-se de uma obra absolutamente notável escrita com plausibilidade artística por alguém que tinha uma cultura clássica enciclopédica.

 

Como já informei na ficha técnica, li na tradução portuguesa e não no original francês mas a tradutora foi Maria Lamas que obviamente me dispenso de apresentar.

 

Setembro de 2018

A bordo Dawn Princess-3.JPG

 Henrique Salles da Fonseca

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