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A bem da Nação

ENTRE A VERGONHA E O ORGULHO

 

 

Ao contrário do que muitos julgam, não basta assumir uma culpa para nos vermos livres dela… como se a exibição isentasse de qualquer castigo.

 

Desde a saudável modéstia até à condenação absoluta de si – por uma espécie de fantasma de culpa criado e alimentado pela própria vítima, a vergonha é uma das formas mais íntimas, duras e afiadas de medo.

 

É natural e desejável que a consciência nos oriente através de juízos de valor a respeito de tudo quanto fizemos, fazemos e do que poderemos vir a fazer.

 

Um homem (bem formado) é capaz de reconhecer a diferença que separa as boas das más intenções. O bem do mal. A virtude de conhecer os seus deveres, omissões e erros.

 

A vergonha pode ser, nalguns casos, um tipo de veneno que ataca as fundações do espírito… colocando a pessoa à mercê de um hipotético julgamento dos outros, uma espécie de sentença tão injusta quanto inevitável.

 

Mas há quem tenha uma postura oposta em relação à culpa… sentindo-se orgulhoso de tudo o que faz. Mesmo do mal que faz. Mas, também aqui se comete um erro grande na medida em que, ao contrário do que muitos julgam, não basta assumir uma culpa para nos vermos livres dela… como se a exibição isentasse de qualquer castigo. Pode parecer coragem, mas é apenas uma cobardia requintada!

Ter orgulho no mal que se protagoniza só pode ser uma forma de tentar, de modo muito infantil, enfrentar uma vergonha autêntica e que até poderia ser benéfica enquanto reconhecimento humilde e redentor.

 

A perfeição encontra-se entre os males da vergonha e do orgulho. Importa pois que, no segredo dos teatros do nosso coração, não permitamos nem que a vergonha funcione como um elemento corrosivo que nos destrói a dignidade; nem, tão-pouco, que a euforia da exibição bruta nos impeça de compreendermos que também o pudor, por vezes, faz parte do caminho do perdão.

 

A cultura passa dos mais velhos para os mais novos, tornando-os capazes de ir criando, em si mesmos, mecanismos que lhes permitem sancionar-se em nome do comum. É aqui que aparecem os caminhos da vergonha como castigo e do orgulho como prémio. No entanto, há gente mal formada que visa o controlo e a agressão das consciências alheias através da violação subtil e eficaz da intimidade, manipulando quem assim passa a sentir-se inferior face a estes diabos (que, tal como todos os outros, têm sempre aparência de anjo).

 

Os que são verdadeiros culpados só raríssimas vezes sentem a sua profunda desonra… também os que se sentem desprezíveis sem redenção quase sempre são, na verdade, apenas vítimas inocentes de uma maldade, alheia ou própria…

 

É essencial que saibamos defender e promover a nossa intimidade. Nem tudo é para todos. Muitos são os tesouros que perdem boa parte do seu valor… porque quem os devia guardar os revela a quem não deve.

 

Este pudor maligno rebaixa a pessoa ao ponto de ela se sentir obrigada a cavar um buraco, a fim de ir viver lá para dentro… escondida daqueles de quem teme o pior – um mal terrível que o seu medo não deixa sequer imaginar.

 

Esta vergonha de quem não fez mal algum é um problema sério na medida em que nos impede de ser quem somos… tal como se fosse um buraco negro que vai apagando, uma após outra, as estrelas do nosso céu interior.

 

Só há culpa depois de uma escolha, nunca antes. A vergonha só faz sentido depois de uma escolha má, e apenas na proporção da falta e das possibilidades de a ter evitado. Uma acção será tanto mais vergonhosa quanto maior for o mal que provoque e mais fácil tivesse sido evitá-lo.

 

A vergonha coloca quem a sente entre o vazio de uma solidão remota e a confusão de um caos sem sentido. Um isolamento diante de uma multidão imaginária de gente que aponta e grita acusações tremendas como se fossem verdades.

 

21 de Junho de 2014

 

    José Luís Nunes Martins

SENTIR E CONSENTIR

 

 

Cada um de nós é a linha que vai do que sente ao que faz e que passa pelo que pensa e diz... somos o que escolhermos sentir, pensar, dizer e fazer. Somos querer

 

Não podemos controlar o que sentimos, mas cabe-nos, sempre, escolher entre consenti-lo ou afastá-lo. Não controlamos tudo o que pensamos, mas cabe-nos a responsabilidade de escolher. Nem sempre optamos por dizer ou calar o que é melhor, mas, apesar de tudo, é essencial traçar a linha que separa o que queremos do que não queremos ser...

 

Já o que fazemos (e o que não fazemos) depende, quase na totalidade, da nossa vontade. Devemos pois ordenar o que sentimos com vista a definirmos quem somos e quem queremos ser, a fim de agir de acordo, sem grandes desculpas, mentiras ou promessas vãs.

Cada um de nós é a linha que vai do que sente ao que faz e que passa pelo que pensa e diz... somos o que escolhermos sentir, pensar, dizer e fazer. Somos querer.

 

A verticalidade de um homem depende da forma como assume o que sente, da profundidade com que pensa, da verdade do que diz e do valor absoluto das suas ações. E, claro, da harmonia que consegue entre estas suas quatro dimensões.

 

Há muita gente desafinada... perdem-se apesar de alguns acharem que assim conseguirão ultrapassar a verdade. Um dia acordam e compreendem que foram afinal escravos do mundo, quando podiam ter sido senhores do seu destino.

 

A autoridade é o poder do autor, competindo pois a cada homem dominar-se aos diferentes níveis, ordenando-se em vista do seu maior bem.

 

Não sou o que sinto, nem o que digo, sou o que quero... e, em última instância, o que escolho fazer, apesar de tudo.

 

É próprio do homem elevar-se acima da sua condição animal, ponderando e julgando as suas ações. Quem se rende de forma passiva ao que sente, demite-se de ser homem.

 

Eis a essência da liberdade: uma vontade esclarecida.

 

A espontaneidade dos instintos é algo primário, os apetites são desejos mas não são vontades, apesar do engano que a linguagem induz. Apetites são tendências naturais básicas que correspondem a desequilíbrios e necessidades primitivas que, apesar de tudo, pode a vontade humana ultrapassar. Os instintos são bons, desde que ordenados.

 

Como posso chegar a ser quem quero? Através do domínio do que consinto, penso, digo e... faço.

 

Não é bom ser-se uma solidão cheia de amor. Deve fazer-se com que essa vontade se faça real, se pratique, chegue ao mundo concreto e o enriqueça. Claro, importa analisar e avaliar muito bem o que nos rodeia, não vá abraçar-se alguém errado... é verdade que temos amor e braços para dar, mas temos também olhos e inteligência para escolher a quem devem chegar.

 

Se há momentos maus na vida em que parece nada haver que nos anime, será desses, mais do que em quaisquer outros, que é mais importante sair... buscar o melhor com todas as forças, contra todas as evidências. Mais determinante que as circunstâncias será sempre a vontade íntima de se ser feliz. As tristezas não podem evitar-se... são tempos de extrema verdade e dor, mas são momentos... a que devem suceder outros momentos. Numa linha em que o querer impera... apesar de tudo.

 

Tudo tem o seu tempo, tudo pode funcionar em harmonia. Assim haja boa vontade.

 

Quando andamos, um pé fica para que o outro voe para diante. Importa aceitar que seguir para a frente não é negar o que fica para trás, mas antes fazê-lo parte de algo maior que o momento, maior que o tempo...

 

Desilude-se quem nesta vida julga que a luta acaba depois de uma batalha. Sempre haverá mais batalhas, mais feridas, talvez ainda mais profundas, mas também mais conquistas, mais alegrias e sempre, sempre, mais vida... para continuar a lutar. Assim haja querer, para caminhar rumo ao melhor de nós.

 

14 de Junho de 2014

 

 José Luís Nunes Martins

A VIDA NÃO VIVIDA

 

 

 

Faz sentido deixarmos de existir? Não. A prova evidente é que também não parece fazer grande sentido existirmos e... aqui estamos! Chegados do nada.

 

Em vários momentos da sua vida, cada pessoa dá-se conta da realidade da própria morte... o confronto com a ideia desta verdade pode mudar quase tudo. Deixam de se sentir os dias e as noites da mesma forma, porque se pressente o próprio apocalipse e, em função dele, reordena-se a vida. Claro, há quem nem seja capaz de perceber o básico e continue como se a morte fosse algo que apenas acontece aos outros.

 

Há um instinto primário em todos os seres vivos que os leva a lutarem pela sobrevivência. O homem será o único que tem consciência plena da inevitabilidade do seu fim temporal, lutando assim, mais do que pela sua vida, pela sua imortalidade, buscando garantir que a sua vida passa para além da própria morte.

 

A morte não tem de ser a frustração definitiva do desejo de felicidade.

 

Devemos agir sempre de acordo com o futuro que julgamos melhor, mas sempre sem grandes pressas nem perdas de tempo. Com toda a intensidade possível, mas com critério e sem exageros.

 

Será o medo da morte uma forma de amor incondicional à vida? De onde chega ao amor a garantia de que a morte não lhe impede a realização plena?

 

As perguntas pertinentes sem resposta não significam que haja falta de sentido ou verdade, mas tão só que vivemos um mistério... onde o nada aparente não tem de significar vazio, podendo mesmo ser o sinal de uma imensidão sublime.

 

Faz sentido deixarmos de existir? Não. A prova evidente é que também não parece fazer grande sentido existirmos e... aqui estamos! Chegados do nada. Nós, o leitor e eu, nós mesmos, não quaisquer outros em nosso lugar... outros filhos dos nossos pais ou de outros pais... não... Nós mesmos. Não somos seres insignificantes e dispensáveis. Cada um de nós faz sentido e faz parte do sentido da vida. Ainda que não saibamos como, porquê ou para quê...

 

Num cemitério estão, lado a lado, os restos dos corpos dos que deixaram saudades e dos que não as semearam. Cada um de nós escolhe a sua vida, embora ninguém possa assumir-se como causa principal de si mesmo. Existimos, mas por um sentido que nos ultrapassa. Maior que a nossa compreensão. O que não somos é migalhas de uma explosão do acaso. Isso é que não faz sentido nenhum.

 

Temos pouco tempo, mas não parece. Basta que analisemos o quanto desperdiçamos em actividades supérfluas... Talvez a vida seja muito longa para alguns. Quando a esperança de vida aumenta, dilata-se-lhes a velhice e não a juventude... não sabem o que fazer com a vida.

 

Aproveitar o tempo não é fazer muitas coisas … é fazer o que é bom não só para esta fase da nossa vida, mas também para a sua totalidade, ser autor apenas do que em sentido de eternidade tem valor. Tudo o mais, por mais importante que possa parecer, é caduco.

A certeza da morte devia despertar-nos para o valor do tempo. A perspetiva de uma morte próxima faz com que se descubram as inúmeras belezas que há nas coisas mais simples. Mas estas perfeições estão sempre lá... por que razão não as sentimos e usufruímos sem ter de ser a morte a abrir-nos os olhos?

 

O silêncio com que sorrio e choro não é o mesmo. Mas será sempre uma mesma verdade que jaz no fundo do que sou. A certeza de que a minha história começou muitos anos antes de eu ter nascido. Uma eternidade antes.

 

Só vive a solidão da vida e da morte quem escolhe viver sem amor.

 

Há quem anseie pela vida eterna, mas desespere com a vertigem de uma tarde livre de domingo... que castigo será a imortalidade para quem não sabe amar! Afinal, a eternidade não é um tempo sem fim, mas a ausência do tempo... num amor infinito!

 

É pouco o nosso tempo aqui. Tratemos de garantir que depois da morte teremos saudades do que fizemos neste mundo, procurando a vida que há em cada dia, vivendo-a como um dom que merecemos e... levando-a dentro do coração.

 

 

 José Luís Nunes Martins

PRESOS AO PASSADO

 

 

A existência humana implica que compreendamos que não fomos criados para qualquer espécie de imutabilidade, mas antes para uma incessante criação de nós mesmos.

 

São muitos os que hoje sofrem as dores do que lhes aconteceu ontem. Angustiam-se porque visitam e revisitam tantas vezes os mesmos tempos e espaços, sentem e ressentem a dor dos mesmos espinhos cravando-se-lhes nos pés... vivem numa espécie de noite eterna onde parece não haver vontade de manhã... mas a manhã é agora.

 

Julgam que estarão para sempre condenados a carregar o peso do que passou, desconhecem que o seu hoje está em aberto e que pode, eventualmente, servir para se redimirem, para se ultrapassarem... para voarem bem alto. Afinal, nenhum de nós é o que já foi.

 

Os sucessos e fracassos de cada dia pertencem mais a esse dia do que a quem os protagonizou. O Homem existe enquanto lançado no tempo, segue a uma velocidade constante em direcção a todos os horizontes possíveis, ao futuro aberto.

Faz-se nesta viagem onde nunca se pode demorar mais num lugar do que noutro... vive a radical vertigem de não pertencer a lugar nem a tempo nenhum.

 

Amamos... e podemos ficar junto a alguém para sempre... mas nunca de forma estática e definitiva. Seguimos os dois lançados, por entre espaços, tempos, alegrias e sofrimentos... numa expedição em que o fim é o hoje de cada um.

 

A maior parte das relações não suporta o tempo, como que sucumbe à necessidade de a cada dia se renovar a atenção e o cuidado, porque hoje eu sou já diferente – e o outro também.

 

As alegrias e tristezas mais valiosas são as de hoje. Aqui e agora. São as únicas de que somos responsáveis. Quanta gente se descobre tarde demais em cada dia... julgam que um presente estragado é o que merecem pelo passado que ainda não os deixou, mas nunca se deixam redimir, nunca se perdoam, nunca olham para diante... abortam sonhos. Anulam-se... e, ainda assim, acham pouco. Agarrados ao que já não existe sofrem com o seu passado como se ele fosse real, mas não é.

 

As frustrações do passado assassinam as esperanças.

 

Outros infelizes há que vivem agarrados às alegrias de outrora... não se dão conta que a felicidade é uma forma de viver cada dia como único. E que o verdadeiro heroísmo consiste em criar sempre novas e belas formas de ser no mundo. Sem heranças nem âncoras. Navegando tempestades com o sorriso da fé no fundo do coração. Atracando em portos sempre novos, nunca demorando em mar algum.

 

A infelicidade alimenta-se das memórias. Distorce-as e fá-las piores. Mesmo em relação às boas recordações, logo o pessimismo nos grita que são... inacessíveis e irrepetíveis. Ora, na verdade, também assim o são as más, mas, a essas, quer a falta de fé que nos revisitem vezes sem conta, magoando-nos sempre, mais e mais.

 

Aprender com o ontem não significa ter de ficar por lá.

 

A existência humana implica que compreendamos que não fomos criados para qualquer espécie de imutabilidade, mas antes para uma incessante criação de nós mesmos... na sublime certeza de que seremos tão felizes quanto quisermos e decidirmos ser. Na estrita medida do que fizermos dos nossos dias.

 

Que disparate é o desespero de quem desperdiça as suas horas com as angústias do ontem e as ansiedades de amanhã...

 

O passado não existe. Passou.

 

Pelo que fizemos e pelo que deixamos de fazer... o arrependimento é sempre uma certeza. É preciso compreender a importância e a urgência de existir. De tratarmos de ser quem queremos ser, sem nos adiarmos nunca.

 

Só se vive para diante... em direcção ao infinito.

 

  José Luís Nunes Martins

A LUTA DO DIA-A-DIA

 

 

Talvez seja mais fácil dar a vida toda de uma vez só, como no caso do mártir, do que o martírio da paciência de ter de fazer, um dia e outro, sempre a mesma coisa

 

Há, na nossa vida de todos os dias, um enorme conjunto de pequenas coisas que acabam por não nos ferir com intensidade, mas a sua persistência magoa-nos. A sua incansável sucessão chega a ser uma angústia, num coração que quase nunca consegue chegar a perceber a razão de tamanha dor.

 

É estranha a forma como o quotidiano nos consegue envolver ao ponto de, sem nunca fazer esforço... nos arrastar para baixo ao mesmo tempo que nos sufoca, sem que tenhamos sequer capacidade de reagir... acreditamos ser apenas um percalço e que, logo de seguida, voltaremos ao melhor.

 

A grandeza de alguém não está na importância social das funções que desempenha, mas na perfeição e devoção com realiza cada uma das suas tarefas. Um porteiro que recebe cada pessoa como se fosse o rei; uma senhora que limpa cada degrau da escada como se fosse um altar... assim são os que conhecem a verdade da vida. Colocando cada gesto seu ao serviço do que é sublime.

 

As grandes obras, como as catedrais ou os castelos, manifestam-se não tanto pela amplitude dos espaços, pela enormidade das dimensões, mas em cada uma das suas pedras, em cada pequena forma... em cada mínimo detalhe.

 

Tudo quanto na nossa existência não faz parte do nosso sentido da vida funcionará sempre como um peso, grão de areia na engrenagem, semente que se há de fazer raiz de tristeza.

 

É preciso ser capaz de aceitar que o maior dos bens ao nosso alcance, a felicidade, se conquista aceitando e integrando na nossa vida os pequenos trabalhos que nos cansam tanto ou mais que os grandes... é preciso compreender que o heroísmo autêntico se revela nas tarefas quotidianas. Talvez seja mais fácil dar a vida toda de uma vez só, como no caso do mártir, do que o martírio da paciência de ter de fazer, um dia e outro, sempre a mesma coisa. A felicidade premeia mais a perseverança do que a genialidade.

 

Os grandes tesouros fazem-se tostão a tostão.

 

É preciso compreender que os mais pequenos sofrimentos podem e devem ser parte da essência da nossa vida. Qualquer dor a que não consigamos dar sentido torna-se uma crueldade contra nós. Cuidemos pois de dar atenção a cada dia, a cada gesto... colocar cada peça no seu lugar, construir... sabendo que cada sofrimento sem sentido é uma brecha.... e que pelas mais pequenas fendas se afundam os maiores navios.

 

É uma prova constante à nossa fé seguirmos o nosso longo caminho sem que nunca cheguemos a contemplar a terra prometida no horizonte diante de nós... seguimos sempre rumo a algo que há de aparecer... um dia veremos.

 

Viver para sempre significa aproveitar cada um dos dias, cumprindo cada hora com devoção ao que somos e ao que queremos ser.

 

O martelar da espada do ferreiro prepara-lhe o braço para a utilizar... como guerreiro. É com determinação, atenção e constância que se forja e afia uma espada... também será assim que se faz um homem.

 

A vocação do homem é criar. Completar a criação, criando-se, num esforço constante onde cada gesto é uma obra única...

 

Caminhar para o campo de batalha faz já parte do heroísmo do guerreiro. Lutar contra o inimigo que vive dentro de si, nas dúvidas por onde a falta de fé se instala e nos tédios das aparentes insignificâncias, será o maior dos combates... a prova derradeira do que somos e do que queremos ser.

 

Uma vida sem nada pelo qual valha morrer, não terá nada pelo qual mereça ser vivida.

 

Ninguém é como nasce, mas sim o que faz para ser o que sonha.

 

5 de Abril de 2014

 

 José Luís Nunes Martins

AS PESSOAS NÃO SÃO COISAS

A dignidade de cada ser humano mede-se pela sua capacidade de reconhecer que uma pessoa é em si mesma um fim, nunca um meio. Tratar o outro como uma coisa, um instrumento, é não lhe reconhecer o seu valor fundamental. A sua dignidade essencial.

 

Ser humano é apenas um estado intermédio entre o animal e a pessoa... ao humano falta criar-se enquanto ser único e irrepetível. Ser pessoa é cumprir o projecto de si (que talvez exista desde muito antes de nascer...), assumindo a capacidade crítica que lhe permite conhecer o bem e o mal e a partir daí realizar-se. Sem se ficar por intenções.

 

Há muita gente impessoal, adiada, que se esforça por se parecer com os outros... frágeis e cobardes que se esquecem de construir a sua personalidade, que nunca é um dado adquirido, mas sempre uma tarefa a realizar...

 

Intimidade imensa, mistério profundo, cada um de nós é um universo secreto cheio de estrelas por entre as trevas. Cada homem, à imagem e semelhança de Deus, deve ser criador. Autor de si mesmo... Original, verdadeiro e autêntico.

 

A construção da identidade pessoal faz-se pela abertura do eu ao outro, ao mundo, pela capacidade que tenho de, mais do que me envolver, de me comprometer, assumindo para mim alegrias e tristezas que, na origem, não são minhas. Será esta a dinâmica que permite a (re) construção de um mundo melhor. Só há pessoa dentro de uma vida partilhada e comunitária.

 

O outro é sempre um fim. A única pessoa que pode ser tida como um meio sou eu... Quando me faço instrumento da felicidade daquele a quem for capaz de me dar.

 

Um abraço é a forma mais simples de chegar ao que está por detrás das máscaras. À substância que ama e é amada; à real presença de cada um de nós

 

15.03.2014

 

 

 José Luís Nunes Martins

PARA ALÉM DO HOJE

 

Cada vez mais se vive o momento. Fugimos do passado e temos medo do futuro, o que implica que sejamos forçados a viver um presente demasiado pequeno.

 

 

 

Os tempos de descanso devem ser ocasião de trabalho interior. Mas, vai sendo cada vez mais raro encontrar gente com memória, assim como também é raro encontrar pessoas com discernimento suficiente para se comprometer em projectos a longo prazo.

 

Navega-se à vista... sem riscos, sem sucessos nem fracassos... sem sentido. Vamos dando as respostas mínimas ao mundo e aos outros, em vez de sermos protagonistas dos nossos sonhos e heróis apesar das nossas derrotas.

 

O passado e o futuro não são mentira. São partes da verdade. Sou o que fui e o que serei. Uma identidade que vive no tempo, uma coerência que se constrói através diferentes espaços e tempos, amando o que há de eterno em cada momento. Elevando o espírito acima da realidade concreta do mundo.

 

Uma existência autêntica – uma vida com valor – constrói-se com uma estrutura sólida, equilibrada e aberta a horizontes mais longínquos em termos temporais. Um presente maior, com mais passado e mais futuro. Sermos quem somos, de olhos abertos.

 

Não devemos viver dia a dia, mas sim semana a semana, mês a mês, ano a ano... precisamos de assumir que a nossa vida é tão bela quanto enorme, fugindo à triste lógica de tentar aproveitar cada dia como se fosse o último... não será a nossa vida muito maior e mais profunda que isso?

 

Sem as referências do passado e sem as responsabilidades do futuro, o momento não é presença, é ausência.

 

22FEV14

 

 José Luís Nunes Martins

UM SORRISO QUE HÁ NO FUNDO DE MIM

 

Será o peixe menos livre que o pássaro? Será o mar mais difícil do que ar?

                       


Cada homem vive inserido numa determinada circunstância, um contexto que o condiciona mas que não lhe anula a liberdade. Esta não pode ser entendida como a capacidade de todas as possibilidades, mas antes a possibilidade de alguém se fazer a si mesmo. De se dar a si mesmo e ao mundo, uma vida carregada de sentido.

Claro que sempre haverá quem prefira a segurança tranquila de uma qualquer gaiola ou aquário à vertigem da liberdade autêntica. Ao ver em cada dificuldade um limite e não um degrau diminui-se aparentemente a responsabilidade individual, mas apenas e só na aparência, porque ainda que no pior dos cenários é sempre dado ao homem escolher, e escolhendo, escolher-se.

Uma vida humana implica uma administração, mais ou menos corajosa, dos encontros e desencontros com os outros. Do meu mundo fazem parte os outros homens. Vivo um pouco as suas vidas assim como também eles vivem a minha. Tende-se a julgar que são as semelhanças que nos aproximam do outro, mas talvez sejam, admiravelmente, as diferenças que o fazem de forma ainda mais profunda. Afinal, todos somos únicos e essa é a maior das semelhanças que há entre todos. A autenticidade da minha existência revela-se no encontro com o outro, onde as diferenças são mais evidentes.

 

Não numa lógica de complementaridade, mas antes numa linha de originalidade. Eu sou quem sou, porque não sou como tu.

Partilhamos os mundos e as vidas uns dos outros. Esta partilha activa que supõe um gesto generoso que expressa o meu interior, permite-me ser mais. Porque sou mais de cada vez que o centro da minha vida não sou eu, alargo-me e torno-me maior, vivo mais vida, porque sou e estou em mais coisas... Partilhar é a essência da vida. Romper a solidão e criar o encontro. Libertar-se de si mesmo para ser... mais.

A vida humana constrói-se no difícil equilíbrio entre a esperança e a realidade... há momentos em que devemos largar tudo e rumar ao melhor de nós mesmos, abdicando da segurança da solidão para arriscar tudo no abraço ao desconhecido.

Ao ver-me no espelho, vejo o melhor de mim? Não. A minha face ao espelho revela-me um eu já feito, só o rosto do outro me apresenta um eu a fazer...

Tal como a semente que brota da terra em busca da luz, também os homens devem ser capazes de deixar para trás o que são para se transformarem na realização do que lhes é possível.

Um sorriso pode ser um capricho divino. Um brilho da alma. O gesto mais difícil... mas será sempre uma prova da nossa capacidade de compreender que a vida que nos anima não é nossa...

Nesta existência nada se repete, tudo é sempre novo, absolutamente original.

 

Devemos pois ser capazes de não perder a pureza de admirar a beleza de cada pedaço de tudo.

... e sorrir, principalmente quando nem o mundo nem os outros nos sorrirem... pois que o grande combate a travar é contra o desespero e a angústia com que tantas vezes nos anulamos...

Ninguém está verdadeiramente sozinho. Mesmo quando o mundo parece impossível e os outros teimam em ser desencontros. Afinal, no fundo de nós há um sorriso que, depois de descoberto, ilumina um mundo inteiro... o corpo do homem é sempre muito pequeno comparado com a alma que nele habita.

A fé da paciência garante bons frutos.

 

2 Mar 2013

 

 José Luís Nunes Martins

TANTA INFORMAÇÃO, TÃO POUCA EDUCAÇÃO


Os homens de hoje são escravos da tecnologia, mais do que senhores dela

 

Uma explosão de conhecimentos, detonada por volta do século XVII, parece ter atingido dimensões que ultrapassam os limites da imaginação nos últimos 25 anos.

Todas as tradicionais áreas do conhecimento se têm expandido. Há cada vez mais especialistas, que por sua vez percebem que cada vez melhor que os saberes se entrecruzam. Num futuro muito próximo talvez se retorne ao saber único. Mais profundo e rico do que até agora... ou isso, ou outro modelo tão genial quanto simples.

A informação deve ser recolhida e armazenada. Depois, filtrada e organizada. Mas aqui reside um problema fundamental: ainda estamos a aprender a ver o imenso mar de dados. Andamos, mais ou menos, maravilhados com os prodígios da técnica, brincamos e fingimos não se tratar de nada de relevante. Quando, em boa verdade, nos cumpre adequar, tão rapidamente quanto possível, a nossa inteligência às necessidades importantes e urgentes, que surgem da imensidão de potencialidades ao nosso dispor. Pois se algumas não podem ser desperdiçadas, outras há que nem mais um passo devemos dar em sua direcção.

Vivemos numa sociedade rica em informação. Riquíssima, talvez no pior dos sentidos. Quase tudo está à distância de 2 ou 3 cliques e em 4 ou 5 segundos temos diante dos nossos olhos uma montanha de informação.

Um dos efeitos perversos deste contexto é a desresponsabilização do indivíduo em chamar a si a capacidade de recolher e armazenar os dados importantes da sua própria realidade. Parece não interessar saber este ou aquele conteúdo, desde que se saiba pedir para o irem buscar. Mas, os chamados motores de busca, bem como os conteúdos por onde navegam, resultam de escolhas mais ou menos inteligentes que ultrapassam completamente o comum utilizador. São opções alheias. Resultam de critérios muito específicos, por vezes altamente perversos, tão bem disfarçados de simplicidade e transparência que só poucos chegam a perceber o que alimenta e sustenta esta máquina que parece tão bondosa...

É admirável e estranha esta fé na tecnologia. São aos milhões aqueles que confiam de forma tão completamente voluntária quanto estúpida, o que pensam, sentem e desejam às bases de dados... talvez na secreta esperança de se poderem analisar e avaliar daqui a uns meses ou anos, ou talvez para que alguém, num qualquer dia futuro, lhes diga quem são... mas estas informações são íntimas e constituem, por si mesmas, uma das nossas maiores riquezas: sermos misteriosos aos outros, profundos e absolutamente únicos. Abdicar disto é desistir de se ser quem se é.

Os homens de hoje são escravos da tecnologia, mais do que senhores dela.

Na vida, tudo deve ser gerido com sabedoria. Sem estabelecer critérios, prioridades e importâncias, quase nada sai a direito. A cada um de nós é requerido que, pessoalmente, analise e avalie o que nos rodeia. Descubra valores, trace e siga um caminho. Um só. Nosso. Só nosso. Absolutamente único.

Mas a maioria das gentes prefere grupos, trocam a sua capacidade de ser únicos pelo sorriso de aprovação daqueles a quem imitam...

Na formação de cada ser humano é essencial a promoção da sua total autonomia; uma dignidade que assenta na liberdade e responsabilidade de nos criarmos a nós mesmos de uma forma tão autêntica quanto bela e original.

A educação é crucial, hoje mais do que nunca. Importa aprender a discernir bem o essencial do acessório, o privado do público, o que é valioso do que apenas o parece ser. É importante lançarmo-nos na preparação de seres cada vez mais humanos, que constituam melhores famílias, a fim de que toda a humanidade melhore. Mas, cuidado: É o nosso exemplo que educa, mais, muito mais, do que as nossas melhores palavras...

 

José Luís Nunes Martins José Luís Nunes Martins,

 

i-online 29 Dez 2012

DA UNIVERSALIDADE DO DIREITO AO CIRCO

 

 

A cada homem é dado criar a sua própria vida, bem como lhe é exigido que participe na definição de parâmetros gerais da família e da comunidade onde se insere. Vivemos e agimos num e para um mundo partilhado onde as identidades individuais se relacionam, se condicionam e se criam mutuamente.

Importa muito mais o que temos em comum com o outro do que aquilo que nos distingue. Hoje parece ser moda fazer da diversidade riqueza, quando, na verdade, o mais precioso é o semelhante, o que nos permite compreender o outro, criando instituições que da colaboração entre iguais geram satisfação de necessidades e anseios comuns.

A diversidade é um facto, mas a igualdade é uma conquista social, um direito. Ao Estado cabe atender às necessidades comuns, não às múltiplas esquinas da diversidade individual. Os direitos de voto, educação, saúde, protecção na velhice, etc. são universais.

Existem dois modelos de cidadania que nos permitem compreender a forma como a democracia, logo nos seus primeiros passos, parece ter sido ferida de morte... na cidades gregas era exigido aos cidadãos que participassem activamente na vida pública, responsabilizando-se todos e cada um dos cidadãos pela tomada de todas as decisões públicas. Todos os cidadãos eram políticos. Depois, no império romano, criaram-se dois patamares: um para os cidadãos e outro para os políticos, sendo que estes já eram recrutados entre as classes mais altas da sociedade. Aos cidadãos cabiam garantias jurídicas, pão e... circo.

Actualmente, os sistemas políticos apostam em garantir cidadãos à romana.

Hoje há muita gente que parece ser capaz de defender com a própria vida o seu direito ao circo. Sendo capaz de se entregar, qual mártir, a um espectáculo para o supremo bem do direito ao circo do seu próximo. Hoje, como nunca, são os cidadãos eles próprios que desejam alienar-se, distrair-se, estupidificar-se, a fim de que não tenham tempo nem espaço para os problemas mais fundos. De tudo se faz um programa de televisão, da estupidez no palco se fazem audiências, de tanta TV se fazem cidadãos cada vez mais passivos e infelizes... porque assim se perde precioso tempo para construir vidas melhores... para si mesmos e para os outros.

Com o advento da chamada web 2.0, todos os utilizadores são incentivados a criar e a partilhar conteúdos com o mundo... No mesmo sentido, caminharam os diferentes meios de comunicação social, onde cada vez há mais espaço e atenção aos que não fazem a menor ideia do que é a verdade a respeito do que dizem, reclamando invariavelmente o seu direito à... diferença. Certo é que quanto menos disserem com acerto, mais audiência geram... um circo! Em casa, muitas palmas. Aos que sabem do que falam pede-se-lhes silêncio, a fim de que não se perca nem um segundo do teatro dos tristes!

Há muito a fazer na construção de um país melhor, mas, porque não se pode confundir movimento com acção, não creio que passe por arrancar pedras da calçada, menos por atirá-las a outros cidadãos, menos ainda por se queixar por haver sofrido retaliações pelo uso abusivo da liberdade... “vítimas” da sua própria irresponsabilidade.

Cabe aos cidadãos o suporte da comunidade e não o inverso. A indignação faz sentido, mas apenas e só enquanto não atentar contra a dignidade de ninguém. Que quem nunca errou atire a primeira pedra...

Viveremos bem sem circo. Muito melhor que agora. Mas há que acordar toda a gente que precisa tanto de circo como do pão de cada dia.

 

José Luís Nunes Martins José Luís Nunes Martins

 

i-online 17 Nov 2012

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