Terça-feira, 17 de Abril de 2018
KALIMERA – 13

 

 

«LAST BUT NOT LEAST»

«ΤΕΛΕΥΤΑΙΟ ΑΛΛΑ ΕΞΙΣΟΥ ΣΗΜΑΝΤΙΚΟ»

(TELEUTAIO ALLA EXISOU SIMANTIKO)

 

Δεκατρια - leia-se «decatria» - é o mesmo que treze em português e foi talvez a palavra mais bonita que ouvi. E por que é que a ouvi assim tão especialmente? Porque numa das excursões, o passageiro do outro lado da coxia do autocarro era o número treze e, na contagem a meia-voz, a guia sempre dizia «decatria» depois de me contar. Pelos vistos, eu era o número doze, ou seja, o «dódeca» e a Graça era a έντεκα – leia-se «énteka».

 

E achando eu que na fala os gregos não brincam em serviço pronunciando todas as sílabas sem condescendências ao estilo da nossa que comemos metade das palavras, aquela «decatria» em surdina parecia-me suave e, mais do que isso, bonita. Sempre gostei dos sons «a» e «i» e é por isso que em português acho que uma das palavras mais bonitas é «alguidar». Assim estou com a «decatria».

 

* * *

 

Uma questão que não posso localizar em qualquer ponto da viagem é a da bênção ortodoxa. E perguntei a um Padre (claro que do rito ortodoxo grego) por que é que a persignação ortodoxa se faz da direita para a esquerda enquanto a católica é da esquerda para a direita. A resposta foi imediata: - Porque pretendemos sentar-nos à direita de Deus Pai. E ponto final na conversa.

 

* * *

 

Σύνταγμα – leia-se «Sintagma» - significa «Constituição» e, logicamente, é esse o nome da Praça em Atenas onde se situa o Parlamento, esse mesmo que todos conhecemos das televisões quando transmitiam as manifestações que levaram à mudança governativa com a destituição (democrática, por eleição) de Karamanlis e com a subida de Tsipras. Mais do que o novo e relativamente jovem primeiro ministro, deu nas vistas durante uns tempos esse mediático (para não dizer vaidozão) Varoufakis cujo livro «O minotauro global» eu começara a ler com grandes reticências mas, lá para o fim, com verdadeiro interesse. E foi a pensar em tudo isso que me pespeguei frente ao Parlamento a ver os guardas fraldisqueiros naquelas manobras sui generis do render da guarda e outros formalismos verdadeiramente caricatos. É claro que todos aqueles movimentos devem ter alguma razão de ser mas, sem explicações, são simplesmente ridículos.

Traje tradicional grego-1.JPG

Traje tradicional masculino

 

A única explicação que consegui foi a de que aquele era o traje comum dos homens gregos até há cerca de um século com a diferença de que quase todos andavam descalços e que os sapatos (raramente usados) eram de madeira, tinham protectores metálicos e serviam para toda a vida do respectivo… descalço. Imagine-se o martírio que seria ter que calçar socos de madeira quando o uso era andar descalço. Os sapatos dos actuais guardas do Parlamento são normais, de couro, mas têm protectores na ponta do pé e no calcanhar para imitarem o barulho dos antigos socos para toda a vida.

 

E, até prova em contrário, por aqui me fico.

 

Até à próxima e haja saúde!

 

Abril de 2018

Loggia veneziana-Heraklion.JPG

Henrique Salles da Fonseca

(frente à «loggia» veneziana em Heraklion, Creta)



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 19:46
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Quinta-feira, 12 de Abril de 2018
KALIMERA – 9

 

PATMOS

 

Zarpando de Kusadasi pelas bandas do almoço, foram poucas as horas de navegação até Patmos, uma ilha um pouco maior que minúscula mas onde se exilou o Apóstolo S. João. Diz-se que morreu com cerca de 90 anos, o que não deixa de ser um quase milagre para os tempos de então.

 

A presença do Apóstolo fundamenta uma enorme devoção e são vários os mosteiros (masculinos) e conventos (femininos) que lá existem. Mas também por lá rareiam as vocações e os religiosos (tanto eles como elas) vêm cada vez mais sendo cada vez menos.

 

Por exemplo, no mosteiro da meia encosta em que o Apóstolo viveu e onde escreveu o respectivo Evangelho, só há hoje um único residente mas é ali que afluem multidões para tocarem na laje de pedra em que S. João escrevia (de pé), ao lado da outra em que ele descansava. Ali não se celebram ofícios religiosos mas é ali que os visitantes fazem as suas preces mais sentidas.

Patmos-gruta de S. João.jpg

 

No mosteiro do topo do monte há vários residentes e nota-se uma actividade intensa. Quanto mais não seja porque é lá que se localiza o muito visitado Museu de Arte Sacra. E ali, sim, celebra-se regularmente. Mas foi lá que um pequeno grupo de turistas (4 ou 5) pediu a bênção a um Padre que se encontrava à porta da igreja e ele não os benzeu. Porquê? Não percebi. Talvez a intérprete não tenha traduzido convenientemente o pedido dos turistas e o Padre não tenha querido esbanjar uma bênção a não ortodoxos. Talvez…  

 

Uma nota quase final: Patmos é seca e a água tem que vir de Rodes em navio tanque. O mesmo se diga de tudo o que a população (pouco mais de 3 mil residentes, fora os turistas no Verão) precise de consumir com excepção do peixe que é pescado localmente.

Patmos-o topo.jpg

 

Já era noite quando descemos por baixo duma Lua esplendorosa - a mesma que o Apóstolo terá visto - até à «cidade», nos metemos nas lanchas e regressámos ao navio que ficara ao largo.

 

Abril de 2018

 Grécia, algures 2.jpg

Henrique Salles da Fonseca



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Segunda-feira, 9 de Abril de 2018
KALIMERA – 6

 

NAVEGANDO…

Hidra-1.JPG

 Aportando a Hidra

 

Foi um dia inteiro a navegar aportando a três ilhas do arquipélago Argosarónico – Hidra, Poros e Egina – com «visitas de médico» a cada uma delas. Totalmente viradas para o turismo, têm actividade pesqueira mas nada a ver com agricultura. Nem sequer rudimentar. Em compensação, a água do mar está limpa (diria mesmo limpíssima) e isso significa que a questão dos efluentes está resolvida. Vi recolha de lixo mas não souberam (ou não quiseram) responder-me sobre que tratamento lhe dão. Também não perguntei o que fizeram às crianças. Devem estar todas em Atenas, presumo. Não vi escolas. Mas, em compensação, falaram da heroicidade das gentes dali no combate aos invasores durante a II Guerra Mundial. Um tiro aqui, um pedregulho despencado lá das alturas sobre uma ou outra patrulha estrangeira, refúgio de resistentes vindos do «main land», enfim, uma verdadeira guerrilha sem quartel como anos mais tarde Mao Tsé Tung plagiou. Mas se essa acção de desgaste do invasor não foi absolutamente determinante no resultado da guerra, ela foi isso mesmo: desgastante. E água mole em pedra dura… Então, a Alemanha perdeu mesmo a guerra.

 

E aquela gente toda tem um modo de vida apesar da crise que em 2014 varreu a Grécia. Poderão não estar todos ricos como Rockefeller mas vê-se conforto e é evidente que dormem muito mais tranquilamente que os magnatas dessa outra ilha, Manhattan.

 

As pequenas marinas de recreio assumem papel de relevo na paisagem e é certo que a economia local vive delas em parte importante.

 

Historicamente, apenas a batalha naval de Salamina (uma das ilhas que não visitámos), um ou outro erudito antigo que por ali viveu durante algum retiro e pouco mais.

 

Viagem turisticamente interessante mas a merecer guias mais empenhados do que os que nos calharam na rifa.

 

9 de Abril de 2018

Hidra 3.jpg

Henrique Salles da Fonseca



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 13:40
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Sexta-feira, 6 de Abril de 2018
LIDO COM INTERESSE – 76

ALÁ NÃO É OBRIGADO.jpg

 Título – ALÁ NÃO É OBRIGADO

Ahmadou Kourouma.jpg

Autor – Ahmadou Kourouma (24 de Novembro de 1927, Boundiali, Costa do Marfim - 11 de Dezembro de 2003, Lyon, França)

Tradutora – Luisa Feijó

Editor – ASA Editores

Edição – 1ª, Setembro de 2004

 

 

Gostei muito de ler este livro que me foi oferecido no Natal de 2004 e que estava por engano numa prateleira de livros já lidos.

 

O sentido do título é: Alá não é obrigado a ser justo com tudo o que se passa sobre a Terra.

 

E se antes da leitura do livro propriamente dito, li a contracapa, no fim da leitura conclui que a apresentação está muito bem feita. Portanto, dali extraio que se trata duma obra tão peculiar quanto o seu protagonista e narrador, Birahima, uma criança-soldado que assiste à morte da mãe e que, para sobreviver, sai da sua aldeia em busca da tia, a única pessoa que pode cuidar dele.

 

Da Costa do Marfim à Serra Leoa, passando pela Libéria, este órfão de “dez ou doze anos” irá passar por diversos Exércitos de guerrilheiros cujos líderes constituem uma riquíssima paleta de personagens, inesquecíveis pelas piores razões: há loucos e sádicos, psicopatas e figuras ridículas. A traição, a morte, a tortura e a mutilação são lugares-comuns por aquelas paragens. O próprio Birahima não é inocente nem culpado: é apenas uma criança que já viu demasiada violência e morte e de quem, à partida, se poderá pensar já não possuir qualquer noção do bem e do mal. Mas Birahima ainda consegue fazer essa distinção; só que as suas principais preocupações prendem-se com coisas tão fundamentais como sobreviver, alimentar-se, encontrar um sítio para viver e, acima de tudo, evitar ser assassinado.

 

"Alá Não é Obrigado" é um livro duro, poderoso, intenso, escrito por um autor que muito nos disse sobre a África contemporânea: as estranhas alianças entre chefes de Estado respeitáveis e criminosos de renome, a corrupção generalizada, a culpa, as boas intenções e as dificuldades das Nações Unidas e os desvios sofridos pelos mantimentos enviados pelas organizações não-governamentais. Em suma, uma realidade terrível que o autor nos descreve pela voz inesquecível de uma criança.

 

* * *

 

Expressões que chamaram a minha atenção:

 

«O joelho nunca usa o chapéu quando a cabeça está em cima do pescoço» (pág. 8) - num sentido equiparável ao nosso dito «quando um burro fala, os outros baixam as orelhas».

 

«Fiquei contente e orgulhoso como um campeão de luta senegalesa» (pág. 44) – não notei qualquer sentido especial para além do que a frase expõe mas a minha curiosidade resulta de eu não saber que há uma luta senegalesa diferente de outros tipos de luta. Confesso que não tentei esclarecer de que estilo de luta se trata.

 

Um personagem chamado Estabanado (pág. 61) não poderia deixar de ser um doidivanas.

 

Fiquei a saber que na Serra Leoa a um doido se chama «cacaba» (pág. 134), o que foneticamente me parece compreensível.

 

Abril de 2018

 

Holanda-JAN18.JPG

Henrique Salles da Fonseca



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 19:27
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Sábado, 17 de Março de 2018
O SENTIDO DA VIDA

VIDA SIMPLES.jpg

 

Esqueçamos as transcendências e admitamos (por absurdo) que a vida é só esta em que nos encontramos.

 

Então, que sentido faz tirar a vida seja a quem for? A resposta só pode ser uma: nenhum!

 

Não temos o direito de tirar aquilo que não demos. E, mesmo assim, também não temos o direito de tirar a vida a quem a demos, os nossos filhos. Porquê? Porque, ao existirem, passaram a ter vida própria e deixaram de ser nossos, no sentido de que deles podemos dispor. Não podemos! E não podemos porque também isso seria contrário ao desígnio fundamental da preservação da espécie, à tranquilidade do ânimo de quem entretanto tem vida própria e sente.

 

Nem sequer é necessário apelar à semelhança com a imagem de Deus, basta ver que o ser criado sente e que esse sentimento tem que ser considerado supremo na escala da intimidade, da delicadeza íntima e da nossa compaixão para com o próximo, esse sobre que temos – ou não – o poder de vida ou de morte.

 

A morte faz parte da vida? Não! A morte é definitivamente um absurdo.

 

Mas resta a convicção de que há uma outra dimensão para além da morte física. Todos queremos acreditar nisso e todos conhecemos exemplos que o provam.

 

Deixemos então viver e vivamos em compaixão, esse grande sentimento da vida.

 

Ámen!

 

Março de 2018

Henrique Salles da Fonseca

Henrique Salles da Fonseca



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Quarta-feira, 14 de Março de 2018
TODOS IGUAIS

 

MEMENTO HOMINE QUIA PULVIS ES ET IN PULVIS REVERTERIS

 

Hoje deu-me para o latim.

 

A quem esteja esquecido, recordo que a expressão do título significa «lembra-te homem que és pó e em pó te transformarás».

 

E há outros conceitos que chamam o homem à humildade.

 

Por ordem cronológica, os judeus usam o quipá, os católicos o solidéu e os muçulmanos o cofió.

 

kippah.jpg

Quipá judeu

Solidéu papal.png

Solidéu papal em dia de vento

cofió.jpg

 Cofió muçulmano

 

E, afinal, todos têm o mesmo significado: «lembra-te homem que acabas aqui porque daqui para cima é o reino de Deus».

 

Mas, mesmo assim, o mundo entrega-se à «Vanitas vanitatum et omnia vanitas» que, traduzido por miúdos, dá «Vaidade das vaidades e tudo é vaidade».

 

Março de 2018

Barranco, Lima, Peru, 12 de Outubro de 2017.jpg

 Henrique Salles da Fonseca



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 22:49
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Sexta-feira, 2 de Março de 2018
OS DISCURSOS QUE REGISTEI - 1

 

 

Sé de Évora.jpg

 

SOLENES EXÉQUIAS DE D. MANUEL TRINDADE SALGUEIRO

1965

 

No passado dia 15 de Novembro, na igreja catedral de Évora, sob a presidência do Cardeal Patriarca de Lisboa, realizaram-se exéquias solenes por alma do Senhor D. Manuel Trindade Salgueiro.

 

A presença do Eminentíssimo Cardeal de Lisboa e de muitos outros Prelados deu autêntico carácter nacional ao acontecimento.

 

Com a Sé repleta, foi celebrante D. Manuel Gonçalves Cerejeira, Venerando Cardeal Patriarca de Lisboa que teve como Presbítero assistente: Mons. Dr. José Filipe Mendeiros, Vigário Capitular; Diácono do sólio: Chantre dr. Jerónimo Alcântara Guerreiro; Subdiácono do sólio: Cónego Mons. João Luís de Carvalho; Diácono da Missa: Cónego dr. Henrique José Marques e Subdiácono, Cónego dr. Sebastião Martins dos Reis.

 

Ocupavam lugar na Capela-mor Suas Excelências Reverendíssimas os Senhores: D. Francisco maria da Silva, Arcebispo Primaz de Braga; D. Ernesto Sena de Oliveira, Arcebispo-Bispo Conde de Coimbra; D. Manuel Ferreira da Silva, Arcebispo de Cízico; D. Agostinho Lopes de Moura, Bispo de Portalegre e Castelo Branco; D. Policarpo da Costa Vaz, Bispo da Guarda; D. Manuel de Jesus Pereira, Bispo de Bragança e Miranda; D. Manuel de Almeida Trindade, Bispo de Aveiro; D. José Pedro da Silva, Bispo de Viseu; D. Eurico Nogueira, Bispo de Vila Cabral (Moçambique); D. Francisco Rendeiro, Bispo Coadjutor de Coimbra; D. José Joaquim Ribeiro, Bispo Coadjutor de Díli (Timor); D. Florentino de Andrade e Silva, Administrador Apostólico do Porto; D: António Xavier Monteiro, Bispo Auxiliar de Vila-Real; D. Júlio Tavares Rebimbas, Bispo eleito do Algarve. Também na Capela-mor, além dos membros do Cabido da Sé de Évora e de muito outro clero da Arquidiocese, viram-se inúmeras representações capitulares e Sacerdotes de outras Dioceses portuguesas e Badajoz.

 

Em cadeirões especiais imediatamente em frente do trono pontifical encontravam-se os Senhores: José Félix Mira, Governador Civil que representava o Chefe de Estado e o Governo; Eng.º Arantes e Oliveira, Ministro das Obras Públicas e Professor Vitória Pires, Secretário da Agricultura que se encontravam a título particular. Noutros lugares viam-se: Governador Civil de Beja, dr. Marques Fragoso, presidente da Câmara Municipal de Évora, dr- Serafim de Jesus Silveira, presidente da Junta Distrital, dr. Armando José Perdigão, comandante da 3.ª Região Militar general Ferreira Margarido, vereadores da Câmara Municipal de Évora, Cavaleiros do Santo Sepulcro, presidentes das Câmaras Municipais da Arquidiocese, chefe do Estado-Maior, comandantes dos regimentos aquartelados em Évora, comandantes da Guarda Fiscal e Polícia de Segurança Pública, escuteiros, filiados da Mocidade Portuguesa, Dr.ª Deolinda Santos e Dr.ª Ofélia Martins, directora e subdirectora do Instituto de Odivelas com numerosa deputação de Professoras; Dr. Ruy d’Andrade que também representava a Fundação da Casa de Bragança; D. Manuel de Portugal que representava o Conselho Administrativo da Fundação da Casa de Bragança; Padre Dr. Alves de Campos, em nome pessoal e em representação do Comissariado Nacional da Mocidade Portuguesa e da União Gráfica; D. Maria Guardiola, D. Aurora David e D. Alice Guardiola, Comissárias adjuntas; prof. dr. António Matos Beja, pela Universidade de Coimbra; Padre Caetano Fidalgo pelo Correio de Vouga; Bombeiros Voluntários de Évora, Academia do Liceu, organismos da Acção Católica, associações de piedade, numerosos elementos do clero diocesano e religioso, etc. As Novidades fizeram-se representar pelo seu redactor José Maria de Almeida.

 

Enchendo completamente a vasta catedral eborense viam-se pelas naves representações de quase todas as freguesias da Arquidiocese bem como religiosas e religiosos de todas as ordens e congregações existentes na Arquidiocese, Escolas, Colégios, Asilos, o Reverendo Padre Manuel Tavares Folgado, Pároco das Galveias, representava a Fundação Maria Clementina Godinho de Campos e seu Presidente Vitalício, Sr. José Godinho de Campos Marques; o Sr. José Manuel Mendes Marques representava o Secretário Geral da Fundação Maria Clementina Godinho de Campos, Sr. José Augusto Nunes.

 

Estavam presentes os seminaristas dos dois Seminários da Arquidiocese.

 

Túmulo de D. Manuel Trindade Salgueiro.jpg

 

No final da Missa o Senhor Bispo de Aveiro, no púlpito proferiu a notabilíssima Oração Fúnebre, escutada com a maior atenção e respeito.

 

In A Defesa – Ano XLIII; Nº 2216; 24/12; p. 1.3.6.7

 

Textos do elogío fúnebre e da notícia de «A Defesa» gentilmente fornecidos pela Arquidiocese de Évora.



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 16:39
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OS DISCURSOS QUE REGISTEI - 1

 

Parte 4

ELOGIO FÚNEBRE DE D. MANUEL TRINDADE SALGUEIRO

 

D. Manuel Trindade Salgueiro.jpg

 

POR

D. MANUEL DE ALMEIDA TRINDADE

 

3) O BISPO

 

Coimbra estimava Trindade Salgueiro como alguma coisa de muito seu. Não era apenas o meio eclesiástico que o considerava uma glória da Igreja; era também o ambiente universitário – alunos e professores – entre os quais ele criara prestígio e simpatia e até a própria Cidade, sempre orgulhosa dos valores que nela florescem e se afirmam.

 

Todos receavam que cedo ou tarde lho viessem «roubar». Anos antes, a Cidade vira partir com mágoa para Lisboa, a ocupar o lugar de Arcebispo de Mitilene, outro Professor da Faculdade de Letras, que, em período em que não era fácil aos católicos e muito menos aos sacerdotes o acesso ao ensino universitário, conquistara pelo seu talento uma posição de relevo dentro da velha Universidade. Esta, que lamentara a sua ausência sentia-se agora honrada ao ver o seu antigo Mestre ascender a outra cátedra – a cátedra episcopal do Patriarcado de Lisboa e receber das mãos de Pio XI o barrete cardinalício.

 

Os olhos punham-se agora em Trindade Salgueiro.

 

O Bispo Conde, Coelho da Silva, quase espreitava as saídas do seu eminente colaborador, recoso, ele mais do que ninguém, de nova sangria no corpo depauperado de uma Diocese onde não abundavam os valores do quilate dele.

 

Todos os dias de manhã, após a aula no Seminário, Trindade Salgueiro passava pelo gabinete de trabalho do velho Prelado, que disso fazia questão. Pelas suas múltiplas relações, pela aceitação de que gozava em todos os meios, pela clarividência dos seus juízos, pela sensibilidade e zelo por tudo quanto constituísse serviço e prestígio da Igreja, Trindade Salgueiro, embora não desempenhasse propriamente cargos de governo na Diocese, revelava-se um instrumento precioso para esse efeito. Era uma espécie de jornal diário, ampla e prudentemente informado, que o Bispo utilizava para o desempenho do seu múnus.

 

Mas, se ele prestava um auxílio, não deixava, em compensação, de enriquecer o seu espírito neste diálogo quotidiano em que, com a espontaneidade que lhe era característica, o Prelado de Coimbra vazava a sua própria alma. E deste modo, a Providência o ia preparando para aquilo que desde há muito se esperava. No dia 26 de Novembro de 1940, a notícia da sua nomeação para Auxiliar do Patriarca de Lisboa e Bispo da Acção Católica, correu o País de lés a lés.

 

Coimbra não ficou contente. O júbilo pela honra de que era objecto um filho seu foi superado pela tristeza de perdê-lo. Alguém, em gesto de sentida e sincera amizade, teve ainda a veleidade de procurar assinaturas que, apresentadas a quem de direito, pudessem sustar a saída. Era desconhecer o modo de proceder da Santa Sé nesta matéria. O gesto ficava, porém, como o testemunho de amizade e de admiração de uma Diocese que via partir o Sacerdote mais prestigioso e mais qualificado.

 

Desde o dia 24 de Fevereiro de 1941, em que, na Catedral de Lisboa, Sua Eminência o Cardeal Patriarca o ungiu como seu Auxiliar com a Ordem do Episcopado, até 20 de Maio de 1955, em que a Santa Sé o foi buscar para governar esta gloriosa Arquidiocese de Évora, a vida de D. Manuel Trindade Salgueiro foi uma doação à Igreja – a continuação, agora em plano mais alto, da doação que vinha fazendo de si desde o dia da ordenação sacerdotal.

 

Ser Bispo não é posição cómoda nem fácil. Um homem inteligente só a aceitará como um serviço. A Igreja não a impõe a ninguém, mas propõe-na de tal maneira que um cristão, que tem consciência da sua responsabilidade e não quer cometer o pecado da cobardia, não encontra, por fim, outro caminho senão aceitar. Sabe que desde esse dia fez o sacrifício do que lhe restava ainda da sua liberdade e começa a fazer a aprendizagem (se é que a não havia feito antes) da única ciência que se não aprende dos livros: a ciência do sofrimento. É do Evangelho: quando pela boca da mãe, Tiago e João pediram ao Senhor um lugar junto d’Ele, no exame a que Jesus os sujeitou fez-lhes apenas uma pergunta: Sois capazes de sofrer? – Pela vida fora, com certeza, se lembraram algumas vezes da pressa e da ingenuidade com que haviam respondido: «Somos». A distância, porém, que vai da afirmação teórica à prática diária, só a experiência – uma dolorosa experiência – é capaz de medir.

 

É certo que o Bispo não tem o monopólio nem o exclusivo da cruz. Muitas outras vidas a experimentam também. Porém, a peculiaridade do Bispo é fazer das dores dos outros, dores suas; de carregar conjuntamente com as suas penas e pecados as penas e os pecados dos outros. Só depois de ser Bispo é que compreendi o sentido, para mim antes enigmático, da invocação com que todos os dias nos preparamos para a Missa: Senhor, liberta-me dos meus pecados próprios e perdoa ao teu servo os pecados alheios.

 

Que o homem tenha obrigação de pedir perdão pelas suas faltas pessoais, compreende-se; mas que deva sentir-se responsável pelos pecados dos outros, esse é o mistério da vida do Sacerdote. Esse é o mistério também – e por excelência – da paixão redentora de Jesus. Ser Bispo é entrar no mistério desta solidariedade que em Cristo, o único inocente, encontra a sua fonte e a sua mais elevada realização.

 

Disse há pouco que não é fácil a posição do Bispo. Muito menos é fácil a do Bispo da Acção Católica.

 

A Acção Católica é hoje um grande movimento da Igreja em Portugal. Alguém que tinha especial competência para o afirmar, disse um dia que nunca os católicos portugueses tinham tido organização que se lhe pudesse comparar em orgânica, em disciplina e em número de associados.

 

Mesmo os que ficam de fora e por qualquer circunstância não aderem ou não correspondem ao apelo do Papa ou dos Bispos, ou trabalham noutros movimentos de apostolado, também eles abençoados pela Igreja, são atingidos pelo clima que a Acção Católica fez nascer.

 

Manuel Trindade Salgueiro deu-se ao movimento de todo o coração. Durante 14 anos, ele foi o centro polarizador de uma actividade de múltiplos aspectos que atingiu e continua a atingir a Nação inteira e que o Decreto sobre o Apostolado dos Leigos, aprovado na última Sessão Conciliar, acaba de sancionar com a sua autoridade de supremo órgão do Magistério.

 

A toda a parte D. Manuel Trindade Salgueiro levou a sua palavra vibrante e eloquente. Seguiu de perto a organização, presidiu a congressos, a reuniões nacionais de assistência eclesiástica, a encontros de adultos ou de jovens de ambos os sexos, escreveu sem se cansar em jornais e revistas, procurando orientar, esclarecer, animar ou mesmo acordar os que dormiam ou se deixavam adormecer; redigiu relatórios minuciosos para apresentar na Conferência dos Bispos, organizou quadros de assistentes gerais e nacionais e para isso pediu, quase mendigou, a cedência de sacerdotes a Bispos deles carecidos para os serviços diocesanos. Aguentou embates, sofreu contradições… Sinto que o elenco não fica completo. Mas devo acrescentar ainda uma palavra: fez tudo isto com todo o seu ser - a inteligência, a vontade, os nervos e o coração! O coração! Este é que havia de acabar por ser a vítima de uma actividade que era vivida com a alma toda; mas a alma encontrava reflexos no débil instrumento que a servia.

 

Em Março de 1955 D. Manuel Mendes da Conceição Santos, o santo e apostólico Arcebispo de Évora, entregava a sua bela alma a Deus. Dois meses depois era nomeado para lhe suceder o já então Arcebispo de Mitilene, D. Manuel Trindade Salgueiro.

 

Novo caminho se abria agora diante dos seus passos. Não era já o trabalho especializado da orientação superior do movimento da Acção Católica; era o governo de uma Arquidiocese de gloriosas tradições culturais e apostólicas mas, ao mesmo tempo, a mais vasta e a mais dispersa das Dioceses de Portugal.

 

Pesava-lhe agora sobre os ombros, nas suas múltiplas facetas, o serviço de uma Igreja.

 

E o novo Arcebispo de Évora serviu. Serviu com o estilo que lhe era próprio, o que era o resultado da vida que vivera em Coimbra e depois continuara em Lisboa.

 

A vasta arquidiocese foi percorrida de lés a lés em Missões, que procuraram acordar a fé adormecida. Sempre que podia – e às vezes mesmo sem poder – lá estava a animar com a sua presença as actividades missionárias, o Senhor Arcebispo. Designadamente neste trabalho muito o ajudou o seu zeloso Auxiliar, há pouco nomeado pela Santa Sé Bispo Coadjutor do Timor português.

 

As Missões, porém, seriam fogo de palha, lampejo passageiro levantado por uma lufada de vento se, para garantir a continuidade da acção religiosa, não criassem os quadros necessários.

 

O antigo Presidente da Junta Central manteve em Évora a fé que tinha na Acção Católica, quando seu primeiro responsável em Lisboa. Multiplicaram-se por isso os cursos arquidiocesanos e regionais para os vários ramos, realizaram-se reuniões de assistentes e outras iniciativas destinadas a vitalizar a instituição.

 

Quando surgiu o inspirado movimento dos Cursos de Cristandade, que tamanha projecção está tomando nesta Arquidiocese e no País inteiro, D. Manuel Trindade Salgueiro acompanhou-o com solicitude, compreensão e entusiasmo.

 

O Senhor Arcebispo de Évora estava, porém, convencido – como o estão, sem dúvida, todos os seus Colegas no Episcopado – de que todo o seu trabalho seria limitado e praticamente inútil se não tivesse a trabalhar com ele, numa colaboração generosa, alegre e desinteressada, o clero da sua Arquidiocese.

 

É aqui que está o segredo do sucesso ou do insucesso da acção de um Bispo. Sem o Bispo, o clero assemelha-se a uma amálgama de órgãos dispersos, uma espécie de membros sem tronco nem cabeça. Mas Bispo, sem padres – sem padres que façam da sua vida um serviço alegre e generoso – é como um tronco sem membros. Ainda então a vida pode continuar a existir nos seus elementos essenciais (é possível a vida de um homem sem braço nem pernas), mas a irradiação será limitada e a actividade diminuta.

 

Daí o carinho com que os Bispos procuram ter unidos a si os seus padres e a dor que sentem quando porventura algum ser transvia ou por qualquer razão (somos todos tão frágeis!) não corresponde ao que a Igreja dele espera. O coração do Bispo sente-se dilacerado entre as necessidades do bem-comum que exigem firmeza na guarda da disciplina e a natural inclinação para compreender, perdoar e esquecer.

 

Sinto que ao dizer estas palavras, mais do que a própria experiência, que é curta, estou a reproduzir a experiência do Senhor Arcebispo de Évora, o qual em conversa íntima, muitas vezes repetida, não ocultava a amizade, o carinho e mesmo a veneração que tinha pelos seus Padres.

 

Esse mesmo carinho e solicitude estendia ele aos candidatos ao Sacerdócio, que nos Seminários Arquidiocesanos de Vila Viçosa e Évora se preparam para a grande e delicada missão que os espera.

 

Aos Seminários dedicou D. Manuel Trindade Salgueiro o melhor da sua atenção. Para eles mendigou o pão de que eles estão carecidos para poderem sustentar os seus alunos. Ao seu aperfeiçoamento e actualização não poupou sacrifícios e caminhadas. A morte veio colhê-lo, quando ainda há pouco havia iniciado uma ampla remodelação num dos edifícios que nesta cidade se destinam à formação dos candidatos ao sacerdócio.

 

Ao lado de D. Manuel da Conceição Santos, D. Manuel Trindade Salgueiro é credor da gratidão da Cidade e da Arquidiocese de Évora.

 

Devo pôr ponto final às pinceladas deste perfil.

 

Se quisesse compendiar tudo quanto disse e das palavras proferidas reter uma que fosse definitiva, diria que toda a vida de D. Manuel Trindade Salgueiro se resume em servir.

 

Serviu a Igreja com fé e devoção. Por ela esgotou os nervos e arrasou o coração. As palavras de comedimento e os conselhos de prudência que lhe vinham daqui e dalém não encontravam eco na sua alma apaixonada. Ele julgava um roubo ou uma cobardia furtar-se ao trabalho.

 

Disse que serviu a Igreja mas serviu a Pátria também.

 

As alegrias da Pátria foram alegrias suas; as tristezas e dores da Pátria ajudaram a rasgar-lhe as fibras do coração.

 

Não foi um político no sentido vulgar do termo. Não era essa a sua missão como sacerdote e como Bispo. Mas nem por isso a sua actividade de pastor deixou de ser benéfica para a pacificação e engrandecimento de Portugal.

 

Em livro recente – L’Oraison, problème politique – um célebre autor francês, perito do Concílio, procurou com muita lucidez demonstrar que a oração, isto é, a vida espiritual e religiosa, constitui elemento essencial do homem e consequentemente da comunidade política. Uma cidade sem igrejas é tão desumana como uma cidade sem instrumentos de trabalho.

 

O grande mérito de D. Manuel Trindade Salgueiro consistiu em, ao longo da vida, como escritor, mestre, sacerdote e Bispo, ter procurado acordar os homens para esta vida do espírito, sem a qual todo o trabalho da civilização corre o risco de ser um regresso à barbárie.

 

Como Agostinho de Hipona – ao qual em tantos traços se assemelhou – o seu esforço foi o de ajudar a construir na terra a Cidade de Deus.

 

Manuel Trindade Salgueiro foi um modelo de homem, de intelectual, de sacerdote e de Bispo.

 

Homem dotado de qualidades invulgares de carácter, de inteligência e de sensibilidade, acordava facilmente nos homens com os quais contactava, mesmo que não comungassem do fervor da sua fé religiosa, a sintonia do coração.

 

Nítida vocação de intelectual, foi um contemplativo da verdade, que ele procurou repartir com os outros, no magistério da palavra e da pena, no seminário, na cátedra universitária, no púlpito da sua catedral.

 

Sacerdote e Bispo, dominava-o a paixão de levar os homens a Deus. Em papel que traz a sua inspiração escreveu ele esta palavra de S. Francisco de Sales: Senhor, que eu aproxime de Vós todos aqueles que se aproximam de mim.

 

Um homem de tal robustez espiritual, a morte não o vence. As suas virtudes e o seu talento falam dele para além da morte.

 

Defunctus aduc loquitur.

O morto ainda fala!

 

Évora, 15 de Novembro de 1965

D_Manuel_de_Almeida_Trindade.jpg

D. Manuel de Almeida Trindade

Bispo de Aveiro

 

 FIM



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OS DISCURSOS QUE REGISTEI - 1

 

D. Manuel Trindade Salgueiro.jpg

 ELOGIO FÚNEBRE DE D. MANUEL TRINDADE SALGUEIRO

POR

D_Manuel_de_Almeida_Trindade.jpg

 D. MANUEL DE ALMEIDA TRINDADE

 

(Presidiu o Cardeal Patriarca às exéquias solenes realizadas na Catedral de Évora)

 

Parte 1

 

Eminentíssimo e Rev.mo Senhor Cardeal Patriarca

Ex.mo Representante de Sua Ex.ª o Chefe do Estado e Governo

Ex.mos e Rev.mos Senhores Arcebispos e Bispos

Senhor Ministro e Senhores Secretários de Estado

Il.mos e Rev.mos Senhores Capitulares da Basílica Metropolitana

Ex.mas Autoridades

Rev.mos Senhores

Cristãos

Senhoras e Senhores

 

Defunctus adhuc loquitur.

O defunto ainda fala.

 

Estou a vê-lo. Alto, franzino, quase transparente. Tenho nos ouvidos o timbre da sua voz, a que o gesto nervoso e amplo mais vivacidade emprestava. Parece-me sentir ainda a cadência dos seus passos, que o faziam adivinhar ao longe. A frase de Pascal, que ele tantas vezes citou na vida: l’homme c’est un roseau…o homem é uma cana, mas uma cana que pensa, quase se lhe poderia aplicar à letra. A encimar aquele corpo débil, que uma aragem faria vergar, havia uma cabeça – uma bela e inconfundível cabeça. Ela era o espelho da sua personalidade: testa ampla, emoldurada por madeixas de cabelos, que o tempo embranquecera; olhos fundos, que tanto eram capazes de um olhar de enternecimento e doçura, como de um brilho de indignação ou da mística fixidez de alguém que contempla o Absoluto. Face cavada de sulcos profundos, cuja mobilidade permitia o gesto do rosto, a completar aquele com que todo o seu ser físico comentava a palavra, que lhe saía dos lábios.

 

Ao vê-lo, muitas vezes me veio à lembrança a figura de Santo Agostinho ou então, mais perto de nós, o retrato do Cardeal Newman.

 

A cana vergou-se à impetuosidade do vento. Vergou-se e acabou por partir-se. Não foi o peso dos anos; foi a intensidade da vida.

 

Correram lágrimas em muitos rostos ao ver desaparecer o Pastor da Diocese e o Amigo querido. Raras vezes em Portugal a morte de alguém terá provocado, ao perto e ao longe, um coro tão unânime de gemidos e de saudade, como a morte de D. Manuel Trindade Salgueiro. Esse coro não se apagou ainda. Renova-se hoje, nesta Basílica Metropolitana, onde, durante dez anos, ele presidiu como Pontífice e ensinou como Pastor e Mestre.

 

Seja-me permitido que eu junte a esse coro também o preito da minha saudade pelo Mestre e pelo Amigo querido que, ao longo de mais de trinta anos, me distinguiu com a delicadeza da sua amizade e com as luzes da sua inteligência e do seu conselho.

 

As palavras que vou dizer trazia-as há muito gravadas no coração. Nunca lhas disse em vida, por um misto de receio e de pudor. Posso agora dizê-las, que os seus ouvidos já não ouvem nem os seus olhos, vivos e irónicos serão capazes de fazer calar a palavra do elogio e da gratidão. A gratidão agora tem o sentido de uma prece, e o elogio é feito mais por intenção dos vivos (a quem prestam os bons exemplos) do que por interesse do Morto, para quem todo o encómio proferido por lábios humanos se desvanece, perante a palavra do Senhor dirigida àqueles que bem O servem: Vem daí, servo bom e fiel, entra no gozo do teu Senhor.

 

(continua)



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 08:02
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Segunda-feira, 12 de Fevereiro de 2018
LIDO COM INTERESSE – 75

O SANGUE DOS INOCENTES.jpg

 

Título – O SANGUE DOS INOCENTES

Júlia Navarro.jpg

Autora – Júlia Navarro

Tradutora – Maria João Freire de Andrade

Editora – BERTRAND EDITORA

Edição – 1ª, Junho de 2017

 

* * *

 

A história é para quem a lê.

 

Seria de muito mau gosto e um autêntico desmanchar de prazeres vir aqui contá-la. Acho mesmo que a contra-capa já conta demais e que o interesse do putativo leitor se poderia despertar sem revelar tanto como ali se faz.

 

Bastaria dizer que se trata de um enredo (fictício, claro) sobre acontecimentos históricos, nomeadamente acerca dos cátaros. E em vez de contar histórias mais ou menos mirabolantes para animar os entusiastas de aventuras de capa e espada ou de «jamesbondices», a autora explica. E são estas explicações que contribuem muito para que se perceba o resto. E se aprenda o que esta grande estudiosa tem para nos ensinar em meia dúzia de linhas em vez de desenvolver relambórios chatos que convidariam a saltar páginas. Pelo contrário, escreve curto e de fácil leitura. E não toca em vulgaridades de cordel.

 

Tenho a tradução portuguesa como digna de realce e não me apercebi de que possa ter havido traições ao original.

 

Quanto à narrativa, achei graça ao modo saltitante como somos levados no espaço e no tempo. Fiquei com uma curiosa sensação de ubiquidade que raramente outro narrador alguma vez me deu. Mais: conhecendo eu muitos dos locais em que a narrativa se desenrola, senti-me envolvido naqueles espaços e historicamente transportado para cenários de evidente plausibilidade. De grande realismo, a subjectividade das personagens.

 

Mais do que com interesse, li com gosto e recomendo.

 

Fevereiro de 2018

Buenos Aires, 2012.jpg

Henrique Salles da Fonseca



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 18:23
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