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A bem da Nação

LIDO COM INTERESSE – 79

MEMÓRIAS DE ADRIANO.jpg

Título – MEMÓRIAS DE ADRIANO

Marguerite Yourcenar.jpg

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Autora – Marguerite Yourcenar

Tradutora – Maria Lamas

Editora – Leya, RTP

Edição – 1ª, Janeiro de 2018

 

O prefácio, da autoria de Isabel Alçada, é mesmo para ler antes de se começar a leitura do livro propriamente dito e dele se realça logo na contracapa que se trata de «Uma obra magnífica e inspiradora que surpreende pela avalanche de temas e ideias sintetizadas em cada página, sem nunca atraiçoar a coerência da narrativa histórica, nem afectar a credibilidade do retrato complexo e admirável que deixa do Imperador».

 

Curiosos, os títulos latinos dos capítulos:

 

Pág. 25 - Animula vagula blândula – Pequena alma terna flutuante – primeira parte da vida de Adriano na sua Itálica natal, cidade que os romanos construíram depois do longo cerco e destruição radical de Sevilha, capítulo de que extraio algumas frases e expressões que chamaram a minha atenção:

 

«A renúncia ao cavalo é um sacrifício custoso: uma fera não passa de um adversário mas um cavalo é um amigo»;

 

«Um príncipe não tem a latitude de que o filósofo dispõe: não pode permitir-se ser diferente em demasiados pontos ao mesmo tempo e os deuses sabem que os pontos em que eu me diferençava já eram bastantes, embora estivesse persuadido de que muitos deles seriam invisíveis»;

 

«Prefiro falar de certas experiências de sono puro, de puro despertar, que confinam com a morte e a ressurreição»;

 

«Que é a nossa insónia senão a obstinação maníaca da nossa inteligência em manufacturar pensamentos, séries de raciocínios, de silogismos e definições bem suas, a sua recusa em abdicar a favor da divina estupidez dos olhos fechados ou da sábia loucura dos sonhos?»

 

Pág. 45 - Varius multiplex multiformes – Várias formas de múltiplo – parte em que deparei com diversas frases que considerei notáveis:

 

«O verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que, pela primeira vez, se lança um olhar sobre si mesmo»;

 

«(…) o rabino Joshua explicou-me literalmente certos textos desta língua de sectários tão obcecados pelo seu Deus que descuraram o humano»;

 

«O homem colocado em segundo lugar só pode escolher entre os perigos da obediência, os da revolta e aqueles, mais graves, do compromisso»

 

Pág. 97 - Tellus stabilita – A estabilidade do solo:

 

«Aparentar desdém pelas alegrias dos outros é insultá-los»;

 

«A moral é uma convenção privada; a decência é uma questão pública».

 

Pág. 143 – Saeculum aureum – A idade do ouro:

 

«Uma embarcação desencalhada aparelhava para o futuro»;

 

«Toda a felicidade é uma obra-prima: o menor erro falseia-a, a menor hesitação altera-a, a menor deselegância desfeia-a, a menor estupidez embrutece-a»;

 

«A memória da maior parte dos homens é um cemitério abandonado onde jazem, sem honra, mortos que eles deixaram de amar. Toda a dor prolongada insulta o seu esquecimento».

 

Pág. 191 – Disciplina augusta – Disciplina imperial:

 

«(…) a sombra projectada pelo homem efémero nas paisagens eternas»;

 

«Se dezasseis anos do reinado de um príncipe apaixonadamente pacífico tinham conduzido à campanha da Palestina, as probabilidades da paz do mundo afiguravam-se medíocres no futuro»;

 

«(…) podíamos destruir as muralhas maciças dessa cidadela onde Simão consumava freneticamente o seu suicídio; não podíamos impedir aquela raça de nos dizer não»;

 

«O abrandamento dos costumes, o avanço das ideias no decorrer do último século é obra de uma ínfima minoria de bons espíritos; a massa continua ignara, feroz quando pode, de qualquer forma egoísta e limitada e há razões para apostar que ficará sempre assim»;

 

«Este estranho amontoado de bem e de mal, esta massa de particularidades ínfimas e bizarras que constitui uma pessoa (…)».

 

Pág. 237 – Patientia – Paciência:

 

«O viajante encerrado no doente para sempre sedentário, interessa-se pela morte porque ela representa uma partida»;

 

«Os médicos (…) mentiriam menos se não tivéssemos medo de sofrer»;

 

«Se (…) esse dia chegar, o meu sucessor ao longo da riba vaticana terá deixado de ser o chefe de um círculo de filiados ou de um bando de sectários para se tornar uma das figuras universais da autoridade»;

 

«Procuremos entrar na morte de olhos abertos…»

 

* * *

 

Seguem-se notas explicativas sobre o trabalho de investigação e primeiras tentativas de escrita que a Autora teve ao longo de anos e anos. Como é sabido, desse género de investigação resultam sempre conhecimentos que podem ser alinhavados com crueza ou com arte e com mais ou menos plausibilidade. Neste caso, trata-se de uma obra absolutamente notável escrita com plausibilidade artística por alguém que tinha uma cultura clássica enciclopédica.

 

Como já informei na ficha técnica, li na tradução portuguesa e não no original francês mas a tradutora foi Maria Lamas que obviamente me dispenso de apresentar.

 

Setembro de 2018

A bordo Dawn Princess-3.JPG

 Henrique Salles da Fonseca

ONDE AS CRIANÇAS DEVEM APRENDER O QUÊ?

 

 

É EM CASA QUE AS CRIANÇAS DEVEM APRENDER A DIZER

Bom dia

Boa tarde

Boa noite

Por favor

Com licença

Desculpe

Obrigado

É TAMBÉM EM CASA QUE APRENDEM

Honestidade

Pontualidade

Não incomodar

Ser solidário

Ser respeitador

Ser organizado

Cuidar dos seus pertences

Respeitar a propriedade alheia

Respeitar as regras, os usos e os costumes

A comer de tudo

A não falar de boca cheia

A ser asseado

A não atirar lixo para o chão

 

PORQUE NA ESCOLA DEVEM APRENDER

Matemática

Português

História

Geografia

Línguas estrangeiras

Ciências Naturais

Física

Química

Filosofia

 

PARA ALÉM DAS MATÉRIAS ESCOLARES, OS PROFESSORES APENAS REFORÇAM O QUE O ALUNO APRENDEU EM CASA

DE FÉRIAS – 6

 

- Boa tarde! Está há muito tempo à minha espera?

 

- Boa tarde! Não, cheguei agora também. Lembra-se do que ontem prometeu?

 

- De falar sobre a questão dos preços, não é?

 

- Exacto!

 

- Vou falar de agricultura e pescas na generalidade, não vou referir-me a nenhum produto em especial mas começo já por dizer que me refiro sempre a produtos tipificados, com características perfeitamente conhecidas de toda a gente que os queira comprar ou vender.

 

- Muito bem, uma conversa geral.

 

- Portanto, refiro produtos standard, não aquelas favas que são muito melhores que todas as outras nem o meu milho que é único nas redondezas. Refiro-me à sardinha de um determinado tamanho, não à petinga nem aos «jaquinzinhos» que é proibido pescar.

 

- Sim, tudo igual e legal.

 

- O que se passa em Tavira passa-se no resto do país mas eu acredito que o absurdo da formação dos preços em Portugal tem que quebrar nalgum sítio e esse pode perfeitamente ser cá. Os agricultores começam por produzir e só depois é que vão à procura de cliente que, habitualmente, é um comerciante. E quando o encontram, a conversa é mais ou menos assim: «Ou me vendes as batatas pelo preço que tas quero comprar ou elas te apodrecem no armazém e ficas sem elas e sem o dinheiro que te quero dar por elas agora.» E como, do mal, o menos, o agricultor vende-lhas pelo preço que o comerciante diz. Já nas pescas o problema é outro porque na lota o leilão vem de cima para baixo e por vezes o preço vem até tão baixo que já há um nível a que se chama «preço de retirada» em que o lote de peixe sai da venda e é entregue a uma instituição de caridade pelo tal preço ridículo. Mas não volta para quem o pescou; entra na lota e o pescador nunca mais é dono dele. Os comerciantes não arriscam nada, tanto na agricultura como nas pescas e, contudo, são eles que ditam os preços por que querem comprar os produtos.

 

- E como é que se dá a volta a isso?

 

- Distribuindo o risco tão equitativamente por todos os intervenientes (produtores e compradores) quanto possível de modo a que ambas as partes tenham uma palavra a dizer na definição do preço por que se faz a transacção.

 

- E como é que se faz isso?

 

- Na lota, bastaria fazer o leilão de baixo para cima de modo a que os comerciantes se picassem uns aos outros em vez de fazerem o cambão de cima para baixo; na agricultura, fazendo preços sobre futuros.

 

- O que é isso do preços sobre futuros?

 

Bolsa de Mercadorias e Futuros.jpg

 

- O produto ainda não existe e há um sítio em que os produtores (em «economês», a Oferta) e os comerciantes (a Procura) se encontram e perguntam uns aos outros quanto valerá um determinado produto (A) dentro de um certo prazo. Uns dizem X e os outros dizem Y. Ao longo do dia pode acontecer que X e Y se igualem e, nessas condições, o acordo estabelece-se e assina-se um contrato ao abrigo do qual o produtor se compromete a entregar no prazo indicado uma certa quantidade do produto A ao preço X=Y e o comerciante se compromete a comprar nessa data futura, por esse preço, a dita quantidade do produto A. E por que é que X e Y se igualaram? Pois bem, porque o preço era conveniente para ambos: o produtor irá de seguida deitar as máquinas à terra porque sabe que na data futura terá o produto que venderá ao preço que para ele é conveniente; o mesmo se diga para o comprador que terá mercado para a dita mercadoria. Ou seja, o risco do negócio distribui-se equitativamente pelos dois intervenientes em vez de recair apenas sobre um deles, como actualmente.

 

- E acha que isso se pode fazer cá em Tavira?

 

- Em Évora faz-se e só falta fazer evoluir o processo envolvendo o sistema bancário.

 

- Como?

 

- Bem, isso fica para amanhã. Pode ser?

 

- Sim, pode. Então até amanhã.

 

- Até amanhã.

 

(continua)

Barril-2SET18 (2).jpg

 Henrique Salles da Fonseca

DE FÉRIAS – 5

 

 

- Boa tarde, amigo! Tudo bem, consigo?

 

- Tudo bem. E consigo?

 

- Sim, tudo bem mas ontem dei-lhe uma informação que não corresponde exactamente à verdade. Balsa está a ser tratada a nível do Poder Central e já escapou a Tavira.

 

- E isso é bom ou mau?

 

- É bom no sentido de que assumiu uma dimensão de interesse nacional; é mau porque é um atestado de inércia ao Poder local. Mas reconheço que mais vale assim apesar do perigo de se perder no meio do tanto que há a fazer a nível global. O ideal seria que houvesse interesse local que espicaçasse o assunto lá pelas bandas de Lisboa.

 

- E quem é que deveria fazer isso?

 

- Teoricamente, o Presidente da Câmara mas talvez fosse bom fazer uma «Associação dos Amigos de Balsa» que levasse tudo a peito e sem encargos para o Estado.

 

- Sim, a isso eu poderia pertencer mas só para fazer número.

 

E aqui fiquei eu novamente «em ponto de rebuçado» para acabar com a conversa mas continuei…

 

- E conviria despartidarizar o grupo desses Amigos pois o interesse tem que ser transversal a todos e não apenas a uma côr política.

 

- Muito bem, aguardemos… E mais quê para pôr Tavira a mexer no Inverno?

 

- Uma das coisas que me parece mais importante é a que tem a ver com a juventude que continua a emigrar para estudar para além do secundário. Seria importante criar condições de fixação da juventude tavirense e que de igual modo se atraísse juventude forasteira para a frequência de cursos úteis, não daqueles que dão diplomas que são autênticos passaportes directos para o desemprego.

 

- Como por exemplo?

 

- Cursos de índole técnica. Olhe! A começar pela agricultura e pela náutica. Para a agricultura até há as instalações do antigo Posto Agrário e para a náutica não falta água. Tudo, integrado num Politécnico se o Estado quisesse avançar ou por concessão a privados. Mas há mais…

 

- Mais o quê?

 

- Sabe que foi na Região Demarcada dos Vinhos de Tavira que o Marquês de Pombal se inspirou para fazer a Região do Vinho do Porto?

 

- Não me diga…

 

- Digo, sim! Seria interessante refazer a Região Vitivinícola de Tavira e levar a cultura da vinha por essa serra além...

 Douro vinhateiro.jpg

- E acha que o vinho seria bom?

 

- Com os enólogos que por aí andam já não há vinhos maus em Portugal. Os daqui também haveriam de ser bons desde que se lhes fixassem as características. Mas há muito mais coisas que agora se podem fazer e que antes era impossível por falta de água. Agora, com a barragem grande e com o perímetro de rega, é só puxar pela imaginação e tratar dos preços.

 

- Já antes falou dessa coisa dos preços. Qual é o problema?

 

- Isso vai demorar um bocadinho a explicar mas prometo que amanhã digo.

 

- Muito bem, amanhã cá estarei à espera. Até amanhã.

 

- Até amanhã.

 

(continua)

Agosto 2018 - Tavira.jpg

 Henrique Salles da Fonseca

DE FÉRIAS – 4

 

 

- Então, como estava hoje a praia?

 

- Um pouco ventosa mas a água estava ainda estupenda.

 

- Ainda?

 

- Sim, sabe que quando o vento sopra dos lados do Alberto João Jardim, a água refresca e faz as ondinhas de carapinha com bandeira verde; quando sopra do Estreito, aquece e manda vagalhões de bandeira encarnada. Não se pode ter Sol na eira e chuva no nabal.

 

- E, afinal, é disso que a gente vive…

 

- Mas poderiam viver de muito mais coisas que nos fizessem cá vir na época baixa.

 

- E foi por isso que falou de Balsa.

 

- Sim, foi precisamente por isso. É que eu estive na Turquia por 3 vezes e fiquei espantado com o que vi em Afrodisias e em Efeso. São duas cidades gregas da Antiguidade Clássica que estavam há séculos enterradas mas que se sabia estarem onde efectivamente estão. E não imagina o que é o rodopio de turistas ao longo do ano inteiro. As regiões envolventes vivem desse rodopio e as camionetas de turistas contam-se às dezenas e dezenas em cada uma delas. De princípio, o Governo Turco não tinha dinheiro para os trabalhos arqueológicos e começou por fazer um contrato de escavação, reconstrução e exploração de Afrodisias com a Universidade do Estado de Nova Iorque e em relação a Efeso com a Universidade de Viena. O dinheiro dos bilhetes financia todos os trabalhos arqueológicos e o Governo empocha os impostos que todos os turistas pagam ali e no mais que fazem no país.

 

- E é isso que imagina para Balsa?

Balsa.png

 

- Exacto! É precisamente isso que imagino para Balsa que se sabe ser mais importante que Conimbriga e muitíssimo mais que Miróbriga.

 

- E a agricultura que por ali se faz?

 

- Ela já hoje se faz ao lado do sítio arqueológico e não bule com nada disso.

 

- Isso é o ideal.

 

- Sim, sim. E creio que o movimento turístico que o campus arqueológico haveria de gerar ao longo do ano inteiro seria importante com o desenvolvimento das escavações…

 

- E por que é que nada disso foi feito?

 

- Bem, isso eu não sei mas o meu amigo é tavirense e poderia fazer a pergunta numa reunião camarária, dessas abertas aos munícipes.

 

- Eu? Não pense nisso. Ainda me chateavam por meter o nariz onde acham que não sou chamado.

 

- Pois…

 

Com as despedidas impostas pela cortesia, a conversa hoje ficou por aqui e eu enchi-me de mau feitio.

 

(continua)

Tetrapylon - Afrodisias.JPG

Henrique Salles da Fonseca

DE FÉRIAS – 3

 

 

- Olá, boa tarde! Como está?

 

- Eu estou bem, obrigado mas fiquei preocupado com a sua falta de ontem. Tínhamos combinado mas…

 

- Peço desculpa mas deixei-me ficar no «bem bom» das salsas ondas e quando dei por mim já era tarde para vir até aqui. E como não tenho o seu contacto, não lhe pude dar uma explicação.

 

- Bom, se está bem, não há problema. Sabe, nós os algarvios temos menos apetite pela praia do que Vocês, os forasteiros e, portanto, deixamo-nos ficar pela cidade, a maior parte das vezes sem termos nada de especial para fazer e tinha ficado todo entusiasmado em poder ontem continuar uma conversa interessante em vez de ter de falar de futebol e coisas desse género. Mas tenho muito gosto em lhe dar o meu contacto: 9……… Fica já para qualquer situação futura. Sim, porque de certeza que as nossas conversas não vão ficar só por este Verão.

 

- Muito obrigado! O meu telemóvel é o 9……… Mas se vamos prolongar estas conversas, o melhor será ficarmos também com os e-mails porque eu vou-me embora dentro de dias e só volto no próximo Verão. O meu é o ……….@.......

 

- E o meu é o …………….@............

 

- Óptimo! Ficamos em contacto. E como íamos dizendo, há solução para os problemas de Tavira.

 

- Sim, claro que há. Umas soluções são fáceis, outras não tanto mas de qualquer modo são possíveis.

 

- E por onde é que acha que se deve começar?

 

- Por tudo ao mesmo tempo. As fáceis de resolver podem ser de efeito rápido ou lento e as menos fáceis podem ter efeitos rapidos ou mesmo rapidíssimos. Portanto, o melhor é começar tudo ao mesmo tempo e os resultados hão-de ir aparecendo…

 

- Então, o meu amigo imagine que é Presidente da Câmara. O que fazia para acabar com a modorra que nos dá no Inverno?

 

- A coisa mais fácil de fazer e talvez a de efeitos mais lentos, seria a erradicação do analfabetismo adulto em todo o Concelho e isso tanto na cidade como nas zonas rurais desde o litoral até à serra passando por tudo quanto é barrocal.

 

- E como é que faria isso?

 

- Com a ajuda das igrejas presentes no Concelho, lançaria a campanha que haveria de ser seguida pela obtenção de locais de encontro onde se haviam de ministrar as aulas em cada Freguesia. Aulas ministradas por agentes de desenvolvimento voluntários a recrutar localmente e a quem se daria uma rápida formação pedagógica seguida de apoio contínuo.

 

- Mas isso não será fazer arqueologia social?

Alfabetização de adultos.jpg

- É claro que isto tem consequências muito lentas mas estou convencido de que muito consistentes. Sobretudo, no efeito positivo a nível familiar. E sabe que mais? Não vale a pena perder tempo a convencer os homens. As mulheres são muito mais progressistas nessas coisas e uma vez motivadas eles, os homens, não hão-de querer ficar para trás e acabam por aderir. E quando a economia doméstica é dirigida por uma letrada, tudo melhora na casa e no meio social.

 

- Mas isso não é muito caro?

 

- Não fiz as contas mas admito que seja possível angariar financiamento público ou mesmo não público. Mas o que mais me preocupa não é o financiamento, é a lentidão de todo o processo. E por isto mesmo é que eu acho que é a acção mais urgente.

 

- E as escolas que já existem?

 

- Essas são para as crianças, não para os adultos. Mas se os professores primários ou outros quiserem aderir, tanto melhor.

 

- Sim, seria bom que a Câmara financiasse tudo isso.

 

- A Câmara, o Instituto do Emprego e outras portas a que se haveria de bater.

 

- E mais quê para pôr rapidamente a economia a mexer no Inverno?

 

- Arrancar com a exploração da maior riqueza que existe em Tavira.

 

- As pescas?

 

- Não. Isso depende muito do mar e de gente a quem a Câmara não dá ordens.

 

- Então?

 

- Balsa!

 

- EH caramba! Isso é que dá mesmo pano para mangas. Mas olhe, hoje sou eu que tenho que ir andando. Continuamos amanhã?

 

- Sim, acho que sim. Mas já temos os contactos e podemos combinar melhor amanhã de manhã. Se houver levante…

 

- Então, até amanhã.

 

- Até amanhã.

 

(continua)

 

Tetrapylon - Afrodisias.JPG

Henrique Salles da Fonseca

(em Afrodisias, Turquia)

DE FÉRIAS – 2

 

 

Hoje vamos às trevas…

 

E a conversa entre turistas, passou-se assim:

 

- Depois da praia, o que há em Tavira para fazer?

- Nada!

- Como assim?

- Para quem seja profissional de férias, após a época estival não há nada (ou quase nada) para fazer porque toda a vida económica está vocacionada para a praia e o Verão. Passado o tempo dos banhos de mar e das jantaradas, os turistas vão-se embora e a cidade hiberna.

- E o pessoal da terra, o que faz?

- Uns vão para o Fundo do Desemprego e os outros caem nas actividades comuns a uma pequena comunidade a que falta massa crítica para justificar economias de escala. Mesmo a juventude, ao chegar ao final do ensino secundário, só tem a alternativa entre a mediocridade e a emigração.

- E emigram para quê?

- Uns emigram em busca de ensino superior; outros emigram para encontrar trabalho permanente porque a economia local já quase não existe.

- E a agricultura e pescas?

- Como no resto do país, a agricultura e as pescas em Tavira padecem de um método absurdo de formação dos preços pelo que cada vez mais há cada vez menos gente interessada em servir os intermediários que, esses sim, ganham bem.

- Mas por aqui houve grandes pescarias de atum…

- O atum deixou de «encalhar» nas praias, mudou a rota para o largo e os tavirenses ficaram em terra a chorar e a pedir subsídios ao Estado pela inactividade em que caíram.

- E por que é que não o vão pescar ao largo?

 

Atum Algarve.jpg

 

- Porque não sabem como isso se faz e dizem que é muito caro ultrapassar os cardumes pela cabeça para lhes fazerem o cerco. É claro que esse método é proibitivo e só conduz à falência. Se não imaginaram uma alternativa, bem fizeram em não se meterem nessa desgraça. Foram os japoneses que o fizeram ali ao largo de Olhão. E ganham o dinheiro que querem.

- E o pessoal de Tavira, o que faz perante isso?

- Vê-os lá longe a ganhar dinheiro.

- Mas deve haver um modo de dar a volta a esse problema…

- Sim, há! A esse e a muitos outros.

- E como é?

- Bem, isso fica para amanhã porque agora são horas de ir andando… Até amanhã!

- Até amanhã, à mesma hora, aqui. Está bem?

- Sim, fica combinado.

 

(continua)

Navegando no Pacífico-ABR17.jpg

 Henrique Salles da Fonseca

ENTÃO, TUDO COMEÇOU ASSIM… (4)

 

 

De Gaspar ainda hoje nada se descobriu mas se quanto a Miguel a espera foi de quinhentos anos, aguardemos… sentados, claro.

 

Então, se o desaparecimento de Miguel foi em 1502 e a redescoberta se refere a 1511, o que andou ele a fazer entretanto?

 

E aqui entram os soldados e marinheiros de Tavira e de Marrocos, os de Miguel e – quem sabe? – os da guarnição de Gaspar também.

 

Resta-nos a hipótese de tentarmos ver o «filme» do fim para o princípio pegando no que hoje dizem os Melungos. E o que dizem eles?

 

Os Melungos intitulam-se «Portuguese Melungeons» e não há quem combata a vontade de um povo que se afirma.

 

E a afirmação é peremptória: «melungeons» como resultado do «mélange» entre os algarvios d’aquém e d’além mar tripulantes das caravelas de Gaspar (?) e de Miguel Corte Real com as nativas daquelas paragens a que mais tarde se viria a chamar «índias» na sequência do bluff geográfico de Cristóvão Colombo que chegou às Caraíbas julgando que estava na Índia. E esse «mélange» acentuou-se uns séculos mais tarde com os escravos negros que entretanto por ali andaram, com europeus de diversas origens e sabe Deus com quem mais… O resultado é um ADN que dá para tudo e, a bem ver, para nada. Uns mais trigueiros que outros, uns com feições mais arianas que outros, todos foram durante séculos ostracizados pelo racismo a ponto de lhes ter sido negado o direito de voto por não serem brancos. E de ostracismo racial em ostracismo político, acabaram por se alojar nos Apalaches onde hoje ainda se encontram núcleos relevantes.

 

Creio que actualmente já não devem ter um único gene português, que muitos deles nem sequer sabem onde é Portugal mas o que me interessa é o que eles dizem e o que dizem é que são portugueses.

 

Têm diversas páginas na Internet e grupos no Facebook que podem ser encontrados através duma busca tão simples como digitando «Portuguese Melungeons».

 

 

https://www.facebook.com/groups/PortugueseMelungeons/?ref=group_header

 PORTUGUESE MELUNGEONS.jpg

 

Entretanto, vou-lhes ensinando português…

 

E pronto, foi assim que tudo começou para chegarmos onde estamos, na afirmação de que Portugal é claramente a «casa» de todos os lusófilos.

 

Aceito ajudas.

 

Agosto de 2018

Navegando no Pacífico-ABR17.jpg

 Henrique Salles da Fonseca

ENTÃO, TUDO COMEÇOU ASSIM… (2)

Estátua_de_João_Vaz_Corte_Real_que_se_encontra_n

 

Já conhecido por Corte Real, João Vaz desempenhou bem o serviço de que D. João II o incumbira e, a título de recompensa, nomeou-o em 1474 Capitão Donatário de Angra, nos Açores e a partir de 1483 também da ilha de S. Jorge. Tavira ficara a ser «guardada» pelo filho mais velho, Vasco Anes, já que os dois seguintes, Miguel e Gaspar, se dedicavam às navegações.

 

Da Wikipédia extraio a informação relativa à descendência directa de João Vaz:

  • Vasco Anes Corte-Real (II - porque era homónimo do avô), alcaide-mor de Tavira, nascido em 1465, casou com Joana Pereira.
  • Miguel Corte-Real casou com Isabel de Castro.
  • Gaspar Corte-Real.
  • Joana Vaz Côrte-Real nascida em 1465, casou duas vezes, a primeira com Rui Dias Pacheco e a segunda com Guilherme Moniz Barreto.
  • Iria Côrte-Real nascida em 1440 casou com Pedro Goes da Silva.
  • Lourenço Vaz Corte-Real casado com Barbara Pereira.
  • Isabel Corte-Real casou com Jacob de Utra

 

Voltarei a referir-me aos três primeiros.

 

Mas o pai de todos, João Vaz, tinha ficado interessado nas terras que descobrira no tempo de D. Afonso V e pediu ao Rei D. João II que o financiasse para em seu nome (do Rei) delas tomar posse. Só que o Rei, sabendo que por ali não se alcançaria o objectivo estratégico, o Oriente, respondeu que o dinheiro da Coroa não poderia ser afecto a objectivos secundários por muito meritórios que fossem e, então, ele (João Vaz) que desafiasse nesse sentido (o do financiamento duma expedição) o lavrador açoriano João Fernandes que ele, Rei, sabia que queria aumentar as explorações agrícolas, o que nos Açores não era possível por evidente falta de espaço.

 

E assim foi que se armou nova expedição chefiada por João Vaz Corte Real, Capitão-donatário de Angra e financiada por João Fernandes lavrador na Ilha Terceira.

 

Rumando a Noroeste, exploraram em mais detalhe a costa que João Vaz já conhecia e encontraram belas terras para os efeitos desejados, a agricultura e o povoamento: uma península enorme que João Fernandes foi ocupando em viagens sucessivas com gado e um território vastíssimo no novo continente de que João Vaz foi tomando posse efectiva e a que deu o mesmo nome da sua propriedade em Tavira.

 

Sim, como o Leitor já percebeu, estou a referir-me à Península do Labrador, à Terra Nova e ao Canadá.

 

Ora bem, eis como o nome do grande país setentrional nasceu em Tavira.

 

PERGUNTA:

Por que é que a Câmara Municipal de Tavira retirou a placa toponímica da localidade de «Canada» na Freguesia de Cabanas?

 

(continua)

 

10 de Agosto de 2018

 

9JUL18.jpg

Henrique Salles da Fonseca

LIDO COM INTERESSE – 78

THE POWER AND THE GLORY.png

 

Título – O PODER E A GLÓRIA

Autor – Graham Greene

Tradutor – Manuel Cordeiro

Editora – Leya, SA

Edição – 1ª, Fevereiro de 2018

 

A bem dizer, este texto deveria ser «RELIDO COM INTERESSE» pois na minha juventude já lera uma tradução francesa de que não gostei. E se naquela época não percebi por que é que não gostei, hoje percebi perfeitamente: apenas porque não tinha maturidade para perceber. Portanto, não gostei e atirei todas as culpas para cima da tradução. Injustiça óbvia.

 

A história é sobejamente conhecida mas dá para referir que se passa no Sul do México na primeira metade do séc. XX quando o regime político se azedou pelas mãos de uns quantos jacobinos e perseguiu ferozmente a Igreja, nomeadamente fuzilando os Padres que não renunciassem ao celibato, às celebrações e às confissões. O personagem central é Padre, decide não renunciar e foge durante uns quantos anos até que…

 

E agora não conto mais para não estragar a leitura de quem ainda não tenha lido a obra numa qualquer língua.

 

Mas respigo passagens que chamaram a minha atenção.

 

«Na infância há sempre um momento em que se abre uma porta para deixar entrar o futuro.» (pág. 22)

 

«Sob a sua mirada séria transformava-se (…) num fantasma que quase podia ser soprado para longe (…) nessa idade não temos medo de muitas coisas, da velhice e da morte, nem de tudo o resto que poderá acontecer, das mordidelas das serpentes, das febres, dos ratos e dos maus cheiros.» (pág. 45 e seg.)

 

«(…) o argumento do perigo só se aplica àqueles que vivem numa segurança relativa» (pág. 106), não a quem vive numa insegurança total e permanente.

 

«O sentido da inocência que acompanha o pecado é espantoso e só os homens duros e corajosos – e os santos – estão livres dele.» (pág. 192)

 

«Para que servia a confissão quando se amava o resultado do crime?». (pág. 196)

 

* * *

 

E por aqui me fico.

 

Quer saber mais? Leia o livro. Custou apenas uma mexeriquice.

 

8 de Agosto de 2018

9JUL18.jpg

 Henrique Salles da Fonseca

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