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A bem da Nação

JARDIM DA ESTRELA – 1

A cena passa-se numa das esplanadas do Jardim da Estrela, em Lisboa, onde eu estava com a minha mulher. Lanchávamos…

Isabel – Olá Henrique! Gosto muito de te ver ao fim de tantos anos.

Eu – Olá Isabel! Também gosto muito de te ver. Apresento-te a minha mulher, a Graça. E a si, Graça, apresento-lhe a minha antiga colega de Liceu, a Isabel que era conhecida por «Isabel II» já que havia outra que era mais alta e era conhecida por «Isabel I». Senta-te aqui connosco. Que vais tomar?

Isabel, doravante a II – Posso tomar um café.

Graça – Só um café? Mande vir mais alguma coisa, uma torrada, um bolo…

Isabel II – Muito obrigada, Graça, mas fico-me só pelo café que é para que a balança não se queixe muito.

Pedido o café, expliquei à Graça…

Eu – A «Isabel II» também é economista. A «I» não acabou o curso; e

Você conhece-a porque ela é sua prima.

Graça – Ah, sim! Pela descrição, Liceu, alta e prima, já sei perfeitamente de quem se trata.

Isabel II – E foi a outra Isabel que vos apresentou, sendo sua prima?

Graça – Não, até já estávamos casados quando descobrimos que o Henrique a conhecia do Liceu.

Eu – E tu costumas vir aqui ao Jardim da Estrela?

Isabel II – Muito raramente. Só passo por aqui quando venho a casa duma amiga que mora ali daquele lado e quando estaciono o carro do lado contrário do Jardim. Assim, atravesso por aqui, faço um pouco de horas para chegar a casa da minha amiga e sempre é um bom pretexto para ver duas coisas que acho lindíssimas: o coreto e aquele antigo pavilhão de chá que agora é um infantário da Misericórdia.

Graça – Sim, também gosto muito dessas construções. Não sabia que o pavilhão tinha sido casa de chá.

Isabel II – Foi o que me disseram mas eu não fui verificar. Na Internet deve haver informação. Chegando a casa vou procurar.

Eu – Eu ouvi dizer ou li algures que era o chamado «pavilhão chinês». O que é que isso queria dizer…? Admito perfeitamente que fosse um salão de chá. E lembram-se do «Leão da Estrela»?

Graça – Isso foi um filme com o António Silva…

Isabel II - … e com o Vasco Santana…

Eu – Sim, também. Mas o que deu o nome ao filme foi uma história que li há pouco tempo sobre um tal Paiva Raposo que terá tido alguma actividade na exploração africana e que trouxe um leão que ofereceu ao Jardim. Tudo isto se passou em pleno séc. XIX e eu julgo que ainda não existia o «Jardim Zoológico de Lisboa». Então, este leão era uma enorme atracção e assim foi desde que aqui chegou até que se finou. Não consegui saber se morreu de velho, de gordo ou de neura. Pobre bicho – enjaulado toda a vida e vítima dos votos de celibato que alguém fez por ele…

Graça – Está então visto que o nome do filme nada tinha a ver com esse leão e devia ser um sportinguista que morava por aqui, na Estrela….

Isabel II - … e que queria ir ao Porto ver um jogo. Já não sei mais nada da história a não ser que o motorista era o Artur Agostinho…

Eu – Quando eramos miúdos, achávamos esses filmes muito maus, só gostávamos dos estrangeiros mas hoje achamos tudo isso muito giro. E outra coisa que li há dias foi que um Visconde qualquer que deu quatro Contos para os acabamentos deste jardim, foi promovido a Conde pela Rainha D. Maria II.

Isabel II – Quatro Contos para acabar o jardim e com direito a promoção a Conde. Fantástico! O que é o valor do dinheiro…

Eu – Isabel: sobre essa matéria sabes tanto ou mais do que eu. Que políticas monetárias foram seguidas desde o tempo de D. Maria II? E os Orçamentos do Estado? Havía-os à séria ou à força da espadeirada? Quantas vezes foi a Fazenda à glória desde essa época, quantas «troikas» tivemos?

Isabel II – Julgo que qualquer historiador económico, no fim do trabalho, terá que passar por um psicólogo ou mesmo por um psiquiatra que o reponha com alguma normalidade. Felizmente, não foi a isso que me dediquei; andei pela Cooperação. Mas agora, meus queridos, são horas de ir andando.

Feitas as despedidas, ficámos os dois a ouvir a passarada a regressar aos ninhos, antes do pôr do Sol. Posto este, pagámos a conta por muito mais dinheiro que o necessário para acabar o jardim no tempo da Rainha e não fomos promovidos a Condes.

Setembro de 2019

HSF-AGO16-Tavira

Henrique Salles da Fonseca

 

 

O QUE ELES DIZEM…

DIZ O “BANCO DE PORTUGAL” QUE

Até Julho de 2019, o saldo conjunto das balanças corrente e de capital se fixou em -1633 milhões de euros, o que compara com -616 milhões de euros em igual período de 2018.

E DIGO EU QUE

  • Este é o caminho que conduz directamente à absorção de mais bancos portugueses (ainda os há?) pelos seus credores estrangeiros;
  • Numa economia aberta e pouco produtiva, o consumo não só não é motor do desenvolvimento como, pelo contrário, conduz ao descalabro das contas externas;
  • Só a pobreza da economia produtiva pode justificar que a banca se refugie despudoradamente no crédito ao consumo e à habitação (não tardará muito para que surja nova bolha imobiliária);
  • A crise portuguesa de 2011 foi há muito pouco tempo pelo que não se admite não haver dela memória viva.

Henrique Salles da Fonseca

A TRÁS DE MIM VIRÁ…

… quem bom de mim fará

 

Perguntam-me se o “A bem da Nação” se pronuncia sobre as declarações que o Dr. Rui Rio terá proferido há dias de que «a dívida portuguesa é a terceira maior da Europa e uma das maiores do mundo».

E a resposta é: - Sim, pronuncia-se.

Começo por informar os Caros Leitores de que não assisti ao debate em que o Dr. Rio terá feito a afirmação em apreço pelo que me louvo na transcrição ficando sem saber a que dívida se referiam os dialogantes. Seria a dívida pública, a privada, a externa, a total? Não sei e actualmente os meus olhos não estão em condições de me permitirem grandes investigações.

Parto, pois, do princípio de que se referiam à dívida total, ou seja, pública e privada, interna e externa.

Também não fui verificar se é a terceira maior na Europa e uma das maiores no mundo. Se o Dr. Rio o afirmou publicamente, é porque estudou o assunto e sabia o que dizia.

A dívida pública – interna e externa – é a que mais preocupa os órgãos da comunicação mas a dívida privada externa é um «buraco» muito grave e quase não se fala dela.

Centremo-nos na dívida pública.

Assim, temos que a dívida é razoável, grande, muito grande, enorme ou escandalosa em função da viabilidade e da maior ou menor dificuldade em a servir. Sim, a necessidade de pagar o que se deve não é «coisa» que recolha a unanimidade das opiniões. Sem nos imiscuirmos na análise da hombridade de quem acha que as dívidas não se pagam, assentemos que só tem crédito quem honra os seus compromissos. Ou seja, a dívida (qualquer dívida) é para ser servida e não há mais discussões.

O serviço da dívida é definido pelos capitais, pelos juros e pelos prazos.

Os capitais são os que pedimos emprestados porque não gerávamos as receitas públicas suficientes para suportarmos os «vícios» do nosso bem-estar. Sim, é óbvio que estamos a viver a cima das nossas capacidades. Quanto a cima? O montante dos capitais pedidos de empréstimo, esses que nos faltaram ao longo dos tempos… cujo somatório (chamado o stock) já ultrapassa o total da riqueza produzida anualmente, o PIB.

É claro que dá para nos arrepiarmos todos quando vemos os parlamentares a decidirem pelo aumento da despesa pública como se tivessem uma rotativa ali perto a imprimir moeda  nova ao estilo de Mugabe e de outros «experts» que tais.

A nossa sorte tem-se chamado Mario Draghi que praticou uma política monetária europeia favorável aos devedores, apesar da oposição dos credores. Essa política traduziu-se na compra pelo BCE de dívida dos Estados em aflições (as chamadas quantitative easings) e pela política de baixa permanente das taxas de juro que o BCE foi pagando aos Bancos que nele depositavam poupanças até chegar aos juros negativos (serem os Bancos a pagar ao BCE para lá terem as poupanças depositadas). Como quem diz: - Ponham o dinheiro a circular, a criar riqueza, nada de entesouramento “à la Tio Patinhas”.

Mas Mario Draghi chegou ao fim do mandato e vai ser substituído por Christine Lagarde, ou seja, com muita probabilidade, a política de defesa dos devedores vai transformar-se na política de defesa dos credores: juros positivos e alto à compra de dívidas soberanas pelo BCE.

Se a esse cenário somarmos a subida do preço do barril de petróleo que há dias começou com o ataque às instalações da Aramco na Arábia Saudita, vêm por aí tempos em que Draghi poderá dizer que «a trás de mim virá quem bom de mim fará».

Manda, assim, a prudência dar ouvidos ao Dr. Rio no sentido de que é urgente reduzir o stock da dívida pública.

Quanto à dívida externa privada, só me pergunto quais serão os próximos bancos a serem sugados pelo turbilhão que se avizinha.

Setembro de 2019

Henrique Salles da Fonseca

APIREXIA - 2

Pese embora a tradição, hoje começo por identificar as fontes de que me servi para o texto que se seguirá.

BIBLIOGRAFIA:

  • Economia ao Minu
  • Expresso
  • Jornal de Negócios
  • Jornal Económico

* * *

Dados relativos a 2019 medidos sobre os períodos homólogos do ano anterior:

Δ do PIB no 2º Trim => 1,8%

Δ preços Agosto => - 0,1%

Δ FBCF 1º Trim => 11,8%

Δ FBCF 2º Trim => 6,9%

Δ Consumo bens duradouros 1º Trim => 3,1%

Δ Consumo bens duradouros 2º Trim => 0,2%

Δ Cons. bens não duradouros 1º Trim => 2,3%

Δ Cons. bens não duradouros 2º Trim => 2,2%

Δ Consumo privado 1º Trim => 2,3%

Δ Consumo privado 2º Trim => 1,9%

Δ Importações 1º Trim => 8,1%

Δ Importações 2º Trim => 3,1%

Δ Exportações 1º Trim => 3,7%

Δ Exportações 2º Trim => 2,0%

Δ Exportações de serviços (c/ Turismo) 1º Trim => 4,6%

Δ Exportações de serviços (c/ Turismo) 2º Trim => o,8%

Δ Exportações de bens 1º Trim => 3,4%

Δ Exportações de bens 2º Trim => 2,4%

* * *

A primeira observação que me ocorre é o crescimento das importações ser sempre superior ao das exportações em que estas, virtuosas, devem ser confrontadas com aquelas que, muito frequentemente, correspondem ao esbanjamento de meios de pagamento sobre o exterior na compra de quinquilharia, o que ligo ao pujante consumo de bens não duradouros. Adivinho o quase certo aumento galopante do endividamento dos bancos portugueses sobre os homólogos estrangeiros.

A segunda observação tem a ver com o Investimento (FBCF) que, segundo a Católica Lisbon Forescasting (in Jornal Económico), se degradou pela redução da aquisição de máquinas e equipamentos - ou seja, pela redução da renovação tecnológica ou pela redução do aumento da capacidade produtiva. Não disponho, contudo, de elementos que me permitam perceber qual a importância que os equipamentos necessários ao enchimento de nova bolha no mercado de novas habitações assumem nesta redução do investimento.

A terceira observação está relacionada com a elasticidade do consumo de bens duradouros e a rigidez do consumo da quinquilharia chinesa e quejanda. De qualquer modo, apesar desta constatação, vemos por aí pulularem empresas que se dedicam à concessão de crédito ao consumo e, obviamente, de bens duradouros, não de bugigangas. Seria interessante dispormos de um barómetro do endividamento das famílias mas há muito tempo que não ouço o Banco de Portugal prestar essa importante informação. Não quero crer que esse silêncio tenha algo a ver com a aproximação do 6 de Outubro, com algum apavoramento dos eleitores e, quiçá, com desvio de votos. Pois, não quero crer mas adivinho que as famílias estão novamente super endividadas e que nova borrasca se aproxima.

Quase no fim, registo a informação do INE relativa à deflação de 0,1% em Agosto devido a uma quebra nos preços dos combustíveis. A ser mesmo essa a causa, pois então que continue a deflação por muitos e bons anos.

Finalmente, uma questão semântica: se a uma economia estagnada (ou mesmo em recessão) mas com os preços a subir se diz estar em estagflação, como se diz duma economia em crescimento (Δ do PIB no 2º Trim => 1,8%) e em deflação? Será apenas uma história mal contada?

Agosto de 2019

Henrique Salles da Fonseca

ECONOMIA PARALELA

 

ECONOMIA PARALELA.png

 

Perguntado pelo Senhor Coronel Miranda Lima sobre como combater a economia paralela (comentário ao meu texto «A POBREZA E A JUSTIÇA» publicado em 15ABR19), respondi que faria texto específico em vez de apenas me ficar por comentário-resposta no blog. A isso venho, pois.

 

* * *

 

Economia paralela é a que, legalmente não isenta de tributação, na realidade não se encontra tributada. Por fuga ao Fisco, está visto.

 

Vai desde o cândido biscate até ao tráfico de estupefacientes e outras brutalidades do género passando pela «bica» sem factura-recibo, do cabeleireiro, do veterinário…

 

Ou seja, nem toda a economia paralela merece tratamento policial.

 

É por isso que divido a questão em duas partes que, no meu entendimento, não são miscíveis e que carecem de tratamentos distintos:

  • a criminosa – que é do foro policial;
  • a «cândida», que não merece tratamento policial – que essa, sim, podemos tentar combater com medidas de política, nomeadamente no âmbito da fiscalidade.

 

A. Começo por recordar que houve medidas legislativas que, por exemplo, ilegalizaram a mais antiga profissão do mundo e que, ipso facto, a atiraram num instante para fora da fiscalidade. Foi em 1961 quando houve que enviar para Angola grandes contingentes militares e que o Governo de então terá entendido que essas profissionais eram mais necessárias lá do que cá. Entretanto, apesar de terem passado «só» quase 60 anos, as circunstâncias sanitárias terem passado pelo stress da SIDA e de outras doenças sexualmente transmissíveis, a moralidade real ou fingida dos políticos mantém essa ilegalidade com todos os perigos sanitários inerentes e óbvio prejuízo da Fazenda Pública.

 

NOTA À PARTE

[A tributação da prostituição não passará certamente pelo controlo dos recibos emitidos a favor do consumidor final com inequívoca identificação fiscal, passará certamente pela presunção de facturação daquelas profissionais com base na experiência dos Chefes das Repartições de Finanças – prática esta, presuntiva, muito experimentada em diversos sectores da actividade económica ao longo da história recente dos nossos sábios publicanos.]

 

Quantos mais sectores excluídos poderiam ser trazidos de volta à esfera da fiscalidade?

 

B. A carga fiscal - tanto directa quanto indirecta - é um convite à fuga pois tudo o que «passe por fora», é metido ao bolso sem mais problemas. Sobretudo quando o cliente final só pode descontar uma ninharia no respectivo IRS.

 

Nesta questão, há duas soluções (fora os arranjos e combinações que a imaginação sugira):

  • ou se reduz a tributação directa do vendedor;
  • ou se permite que o cliente final possa deduzir no IRS a tributação indirecta suportada (de preferência toda ou, então, muito mais do que actualmente é permitido) nas compras de bens e serviços que faça.

 

Então, bastaria que se pudesse descontar esse tipo de despesas no IRS para que os recibos passassem a existir, o IVA a ser cobrado e o volume de negócios sectorial declarado a aproximar-se da dimensão real.

 

Afinal, até parece que é verdade serem os Governos que, com estas proibições, promovem a evasão fiscal e enviam inteiros sectores de actividade para fora da economia oficial. Fazem-no apenas por nabice, claro está, porque nas Escolas aprenderam doutrinas da Fiscalidade que já não existe.

 

É com base nestas realidades que nasce a tese que diz que se todos pudermos descontar todas as despesas no IRS, as receitas públicas aumentam. E como não poderia deixar de ser, também existe a antítese que afirma que os novos descontos no IRS ultrapassariam o aumento das receitas pelo que o encaixe público seria menor.

 

Sim?

 

A partir daqui, recorro a um texto que escrevi quando a taxa normal do IVA era 21%.

 

O actual método de cálculo da matéria colectável – tanto para efeitos de IRS como de IRC – apenas permite o desconto de algumas despesas.

 

Imaginemos o seguinte cenário:

Matéria tributável no IRS = 100

Despesas dedutíveis (30%) = 30

Matéria colectável                = 70

Taxa aplicável                        = 30%

COLECTA                              = 21

 

Admitamos agora que sobre metade da matéria colectável (35), o Contribuinte, ao não pedir recibo, permite que nessas transacções o lado da oferta se evada fiscalmente. Ou seja, no nosso modelo, a evasão fiscal assume a dimensão de 35 pelo que só 65 se enquadram na economia oficial: os 30 já “agarrados” pela dedutibilidade das despesas no lado da procura mais os 35 do lado da oferta que não passaram à clandestinidade apesar de corresponderem a despesas não dedutíveis.

Nestas circunstâncias, do lado da oferta, o mesmo modelo será como segue:

Matéria tributável no IRC   = 65

Despesas dedutíveis (30%) = 19,5

Matéria colectável             = 45,5

Taxa aplicável                   = 30%

COLECTA                           = 13,65

COLECTA TOTAL (IRS + IRC)         = 34,65

IVA, à taxa de 21% (sobre 65)         = 13,65

IVA s/ 100 do lado da procura a 21% = 21

RECEITA PÚBLICA TOTAL               = 69,3

 

Imaginemos agora que o Governo fazia aprovar um novo método de cálculo do IRS permitindo o desconto de mais despesas, agora para 50% em vez dos 30% do exemplo anterior. Introduzindo apenas essa variação no modelo do lado da procura, sucederá o que segue:

Matéria tributável no IRS = 100

Despesas dedutíveis (50%) = 50

Matéria colectável              = 50

Taxa aplicável                      = 30%

COLECTA                            = 15

 

Continuemos a admitir que sobre metade das despesas não dedutíveis (25) pela procura, o lado da oferta nessas transacções se evada fiscalmente. Assim sendo, a evasão fiscal assume a dimensão de 25 e ao universo tributável inicial (65), há agora que juntar aqueles que abandonaram a clandestinidade (25) para constituírem um novo universo tributável do lado da oferta já com a dimensão de 90 num total de 100.

Matéria tributável no IRC   = 90

Despesas dedutíveis (30%) = 27

Matéria colectável              = 63

Taxa aplicável                     = 30%

COLECTA                           = 18,9

COLECTA TOTAL (IRS + IRC)         = 33,9

IVA, à taxa de 21% (sobre 90)         = 18,9

IVA s/ 100 do lado da procura a 21% = 21

RECEITA PÚBLICA TOTAL               = 73,8

 

E assim sucessivamente até à exaustão da economia paralela «cândida» para o que bastará os Governos permitirem que a procura – apenas os singulares para efeitos de simplificação do modelo – deduzam todas as despesas na declaração anual de rendimentos para efeitos de cálculo da matéria colectável.

 

RESUMO

Descontos no IRS

 

 

Colecta

30

50

Δ%

IRS

21

15

-28,6

IRC

13,65

18,9

38,5

IVA

34,65

39,9

15,15

TOTAL

69,3

73,8

25,05

 

Neste exemplo apenas permiti que os singulares deduzissem mais despesas aos seus rendimentos declarados e nada fiz quanto aos colectivos. Se procedermos de igual modo quanto a estes, poderemos trazer de volta à economia oficial as tais empresas «maquizardes» que não suportam a actual carga fiscal e o Fisco passaria a obter receitas de fontes em que actualmente não mete o nariz.

 

Fica assim demonstrado que o acréscimo da dedução à colecta é, por si próprio, um incentivador da receita pública.

 

CONCLUSÃO:

A economia paralela de génese criminosa é do foro policial mas a «cândida» pode e deve ser reduzida por diversas medidas de política, nomeadamente as de índole fiscal.

 

Abril de 2019

 

14ABR19.jpg

Henrique Salles da Fonseca

MANTA DE RETALHOS

Assembleia da República.jpg

Depois de enxertado com cerca de mil emendas, será o Orçamento para 2019 do nosso Estado uma manta de retalhos ou é apenas o «bombo da festa»?

 

Onde estará a «unidade de doutrina orçamental»?

 

Quem se entenderá numa leitura de congruência mínima?

 

Creio que todas estas questões – que deveriam ser as maiores – não passam de minudências e bexiguices típicas de coca-bichinhos.

 

- Como assim?

 

- Assim mesmo!

 

É que a política de esquerda oficialmente em curso pela teoria geringôncica esbarra frontalmente com a necessidade imperiosa de anular o défice público e obter superavits que permitam a redução sustentada do stock da dívida pública, antes que por aí venha alguma seca nos mercados de capitais e os juros comecem mesmo a subir em virtude dessa mais que provável escassez de liquidez. E antes que isso aconteça – porque acontecerá infalivelmente mais ano menos ano – há que reconquistar a independência financeira nacional por muito choro e ranger de dentes que banqueiros e outros globalizadores chorem e ranjam.

 

Então, há que quadrar o círculo. Como? Muito facilmente, com as «centenárias» cativações, essas que endireitam todos os orçamentos por mais esquerdinos que eles nasçam.

 

Aqui está a tal manta de retalhos transformada no bombo da festa que se endireita à custa da tal martelada a que eufemisticamente se chama «cativação de verbas».

 

- E essa martelada dá alguma coerência ao Orçamento resultante?

 

- É óbvio que não.

 

Mas isso é que é, afinal, uma completa minudência perante o fim maior que é a independência nacional perante os glutões da finança internacional.

 

Dá-me assim vontade de rir quando o Governo geringôncico se diz de esquerda e eu, que pugno pela libertação nacional do jugo bancário, me digo – e sou - da democracia cristã.

 

Eu sou democrata cristão sem qualquer sombra de dúvidas; o Governo geringôncico é que não é mais do que uma mentira política folcloricamente esquerdina mas, afinal, perito na prática da austeridade radical.

 

Mas são de esquerda.

 

- AHAHAH!!!

 

28 de Novembro de 2018

Navegando no Pacífico-ABR17.jpg

Henrique Salles da Fonseca

DE FÉRIAS – 6

 

- Boa tarde! Está há muito tempo à minha espera?

 

- Boa tarde! Não, cheguei agora também. Lembra-se do que ontem prometeu?

 

- De falar sobre a questão dos preços, não é?

 

- Exacto!

 

- Vou falar de agricultura e pescas na generalidade, não vou referir-me a nenhum produto em especial mas começo já por dizer que me refiro sempre a produtos tipificados, com características perfeitamente conhecidas de toda a gente que os queira comprar ou vender.

 

- Muito bem, uma conversa geral.

 

- Portanto, refiro produtos standard, não aquelas favas que são muito melhores que todas as outras nem o meu milho que é único nas redondezas. Refiro-me à sardinha de um determinado tamanho, não à petinga nem aos «jaquinzinhos» que é proibido pescar.

 

- Sim, tudo igual e legal.

 

- O que se passa em Tavira passa-se no resto do país mas eu acredito que o absurdo da formação dos preços em Portugal tem que quebrar nalgum sítio e esse pode perfeitamente ser cá. Os agricultores começam por produzir e só depois é que vão à procura de cliente que, habitualmente, é um comerciante. E quando o encontram, a conversa é mais ou menos assim: «Ou me vendes as batatas pelo preço que tas quero comprar ou elas te apodrecem no armazém e ficas sem elas e sem o dinheiro que te quero dar por elas agora.» E como, do mal, o menos, o agricultor vende-lhas pelo preço que o comerciante diz. Já nas pescas o problema é outro porque na lota o leilão vem de cima para baixo e por vezes o preço vem até tão baixo que já há um nível a que se chama «preço de retirada» em que o lote de peixe sai da venda e é entregue a uma instituição de caridade pelo tal preço ridículo. Mas não volta para quem o pescou; entra na lota e o pescador nunca mais é dono dele. Os comerciantes não arriscam nada, tanto na agricultura como nas pescas e, contudo, são eles que ditam os preços por que querem comprar os produtos.

 

- E como é que se dá a volta a isso?

 

- Distribuindo o risco tão equitativamente por todos os intervenientes (produtores e compradores) quanto possível de modo a que ambas as partes tenham uma palavra a dizer na definição do preço por que se faz a transacção.

 

- E como é que se faz isso?

 

- Na lota, bastaria fazer o leilão de baixo para cima de modo a que os comerciantes se picassem uns aos outros em vez de fazerem o cambão de cima para baixo; na agricultura, fazendo preços sobre futuros.

 

- O que é isso do preços sobre futuros?

 

Bolsa de Mercadorias e Futuros.jpg

 

- O produto ainda não existe e há um sítio em que os produtores (em «economês», a Oferta) e os comerciantes (a Procura) se encontram e perguntam uns aos outros quanto valerá um determinado produto (A) dentro de um certo prazo. Uns dizem X e os outros dizem Y. Ao longo do dia pode acontecer que X e Y se igualem e, nessas condições, o acordo estabelece-se e assina-se um contrato ao abrigo do qual o produtor se compromete a entregar no prazo indicado uma certa quantidade do produto A ao preço X=Y e o comerciante se compromete a comprar nessa data futura, por esse preço, a dita quantidade do produto A. E por que é que X e Y se igualaram? Pois bem, porque o preço era conveniente para ambos: o produtor irá de seguida deitar as máquinas à terra porque sabe que na data futura terá o produto que venderá ao preço que para ele é conveniente; o mesmo se diga para o comprador que terá mercado para a dita mercadoria. Ou seja, o risco do negócio distribui-se equitativamente pelos dois intervenientes em vez de recair apenas sobre um deles, como actualmente.

 

- E acha que isso se pode fazer cá em Tavira?

 

- Em Évora faz-se e só falta fazer evoluir o processo envolvendo o sistema bancário.

 

- Como?

 

- Bem, isso fica para amanhã. Pode ser?

 

- Sim, pode. Então até amanhã.

 

- Até amanhã.

 

(continua)

Barril-2SET18 (2).jpg

 Henrique Salles da Fonseca

DE FÉRIAS – 5

 

 

- Boa tarde, amigo! Tudo bem, consigo?

 

- Tudo bem. E consigo?

 

- Sim, tudo bem mas ontem dei-lhe uma informação que não corresponde exactamente à verdade. Balsa está a ser tratada a nível do Poder Central e já escapou a Tavira.

 

- E isso é bom ou mau?

 

- É bom no sentido de que assumiu uma dimensão de interesse nacional; é mau porque é um atestado de inércia ao Poder local. Mas reconheço que mais vale assim apesar do perigo de se perder no meio do tanto que há a fazer a nível global. O ideal seria que houvesse interesse local que espicaçasse o assunto lá pelas bandas de Lisboa.

 

- E quem é que deveria fazer isso?

 

- Teoricamente, o Presidente da Câmara mas talvez fosse bom fazer uma «Associação dos Amigos de Balsa» que levasse tudo a peito e sem encargos para o Estado.

 

- Sim, a isso eu poderia pertencer mas só para fazer número.

 

E aqui fiquei eu novamente «em ponto de rebuçado» para acabar com a conversa mas continuei…

 

- E conviria despartidarizar o grupo desses Amigos pois o interesse tem que ser transversal a todos e não apenas a uma côr política.

 

- Muito bem, aguardemos… E mais quê para pôr Tavira a mexer no Inverno?

 

- Uma das coisas que me parece mais importante é a que tem a ver com a juventude que continua a emigrar para estudar para além do secundário. Seria importante criar condições de fixação da juventude tavirense e que de igual modo se atraísse juventude forasteira para a frequência de cursos úteis, não daqueles que dão diplomas que são autênticos passaportes directos para o desemprego.

 

- Como por exemplo?

 

- Cursos de índole técnica. Olhe! A começar pela agricultura e pela náutica. Para a agricultura até há as instalações do antigo Posto Agrário e para a náutica não falta água. Tudo, integrado num Politécnico se o Estado quisesse avançar ou por concessão a privados. Mas há mais…

 

- Mais o quê?

 

- Sabe que foi na Região Demarcada dos Vinhos de Tavira que o Marquês de Pombal se inspirou para fazer a Região do Vinho do Porto?

 

- Não me diga…

 

- Digo, sim! Seria interessante refazer a Região Vitivinícola de Tavira e levar a cultura da vinha por essa serra além...

 Douro vinhateiro.jpg

- E acha que o vinho seria bom?

 

- Com os enólogos que por aí andam já não há vinhos maus em Portugal. Os daqui também haveriam de ser bons desde que se lhes fixassem as características. Mas há muito mais coisas que agora se podem fazer e que antes era impossível por falta de água. Agora, com a barragem grande e com o perímetro de rega, é só puxar pela imaginação e tratar dos preços.

 

- Já antes falou dessa coisa dos preços. Qual é o problema?

 

- Isso vai demorar um bocadinho a explicar mas prometo que amanhã digo.

 

- Muito bem, amanhã cá estarei à espera. Até amanhã.

 

- Até amanhã.

 

(continua)

Agosto 2018 - Tavira.jpg

 Henrique Salles da Fonseca

DE FÉRIAS – 4

 

 

- Então, como estava hoje a praia?

 

- Um pouco ventosa mas a água estava ainda estupenda.

 

- Ainda?

 

- Sim, sabe que quando o vento sopra dos lados do Alberto João Jardim, a água refresca e faz as ondinhas de carapinha com bandeira verde; quando sopra do Estreito, aquece e manda vagalhões de bandeira encarnada. Não se pode ter Sol na eira e chuva no nabal.

 

- E, afinal, é disso que a gente vive…

 

- Mas poderiam viver de muito mais coisas que nos fizessem cá vir na época baixa.

 

- E foi por isso que falou de Balsa.

 

- Sim, foi precisamente por isso. É que eu estive na Turquia por 3 vezes e fiquei espantado com o que vi em Afrodisias e em Efeso. São duas cidades gregas da Antiguidade Clássica que estavam há séculos enterradas mas que se sabia estarem onde efectivamente estão. E não imagina o que é o rodopio de turistas ao longo do ano inteiro. As regiões envolventes vivem desse rodopio e as camionetas de turistas contam-se às dezenas e dezenas em cada uma delas. De princípio, o Governo Turco não tinha dinheiro para os trabalhos arqueológicos e começou por fazer um contrato de escavação, reconstrução e exploração de Afrodisias com a Universidade do Estado de Nova Iorque e em relação a Efeso com a Universidade de Viena. O dinheiro dos bilhetes financia todos os trabalhos arqueológicos e o Governo empocha os impostos que todos os turistas pagam ali e no mais que fazem no país.

 

- E é isso que imagina para Balsa?

Balsa.png

 

- Exacto! É precisamente isso que imagino para Balsa que se sabe ser mais importante que Conimbriga e muitíssimo mais que Miróbriga.

 

- E a agricultura que por ali se faz?

 

- Ela já hoje se faz ao lado do sítio arqueológico e não bule com nada disso.

 

- Isso é o ideal.

 

- Sim, sim. E creio que o movimento turístico que o campus arqueológico haveria de gerar ao longo do ano inteiro seria importante com o desenvolvimento das escavações…

 

- E por que é que nada disso foi feito?

 

- Bem, isso eu não sei mas o meu amigo é tavirense e poderia fazer a pergunta numa reunião camarária, dessas abertas aos munícipes.

 

- Eu? Não pense nisso. Ainda me chateavam por meter o nariz onde acham que não sou chamado.

 

- Pois…

 

Com as despedidas impostas pela cortesia, a conversa hoje ficou por aqui e eu enchi-me de mau feitio.

 

(continua)

Tetrapylon - Afrodisias.JPG

Henrique Salles da Fonseca

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