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A bem da Nação

ECONOMIA PARALELA

 

ECONOMIA PARALELA.png

 

Perguntado pelo Senhor Coronel Miranda Lima sobre como combater a economia paralela (comentário ao meu texto «A POBREZA E A JUSTIÇA» publicado em 15ABR19), respondi que faria texto específico em vez de apenas me ficar por comentário-resposta no blog. A isso venho, pois.

 

* * *

 

Economia paralela é a que, legalmente não isenta de tributação, na realidade não se encontra tributada. Por fuga ao Fisco, está visto.

 

Vai desde o cândido biscate até ao tráfico de estupefacientes e outras brutalidades do género passando pela «bica» sem factura-recibo, do cabeleireiro, do veterinário…

 

Ou seja, nem toda a economia paralela merece tratamento policial.

 

É por isso que divido a questão em duas partes que, no meu entendimento, não são miscíveis e que carecem de tratamentos distintos:

  • a criminosa – que é do foro policial;
  • a «cândida», que não merece tratamento policial – que essa, sim, podemos tentar combater com medidas de política, nomeadamente no âmbito da fiscalidade.

 

A. Começo por recordar que houve medidas legislativas que, por exemplo, ilegalizaram a mais antiga profissão do mundo e que, ipso facto, a atiraram num instante para fora da fiscalidade. Foi em 1961 quando houve que enviar para Angola grandes contingentes militares e que o Governo de então terá entendido que essas profissionais eram mais necessárias lá do que cá. Entretanto, apesar de terem passado «só» quase 60 anos, as circunstâncias sanitárias terem passado pelo stress da SIDA e de outras doenças sexualmente transmissíveis, a moralidade real ou fingida dos políticos mantém essa ilegalidade com todos os perigos sanitários inerentes e óbvio prejuízo da Fazenda Pública.

 

NOTA À PARTE

[A tributação da prostituição não passará certamente pelo controlo dos recibos emitidos a favor do consumidor final com inequívoca identificação fiscal, passará certamente pela presunção de facturação daquelas profissionais com base na experiência dos Chefes das Repartições de Finanças – prática esta, presuntiva, muito experimentada em diversos sectores da actividade económica ao longo da história recente dos nossos sábios publicanos.]

 

Quantos mais sectores excluídos poderiam ser trazidos de volta à esfera da fiscalidade?

 

B. A carga fiscal - tanto directa quanto indirecta - é um convite à fuga pois tudo o que «passe por fora», é metido ao bolso sem mais problemas. Sobretudo quando o cliente final só pode descontar uma ninharia no respectivo IRS.

 

Nesta questão, há duas soluções (fora os arranjos e combinações que a imaginação sugira):

  • ou se reduz a tributação directa do vendedor;
  • ou se permite que o cliente final possa deduzir no IRS a tributação indirecta suportada (de preferência toda ou, então, muito mais do que actualmente é permitido) nas compras de bens e serviços que faça.

 

Então, bastaria que se pudesse descontar esse tipo de despesas no IRS para que os recibos passassem a existir, o IVA a ser cobrado e o volume de negócios sectorial declarado a aproximar-se da dimensão real.

 

Afinal, até parece que é verdade serem os Governos que, com estas proibições, promovem a evasão fiscal e enviam inteiros sectores de actividade para fora da economia oficial. Fazem-no apenas por nabice, claro está, porque nas Escolas aprenderam doutrinas da Fiscalidade que já não existe.

 

É com base nestas realidades que nasce a tese que diz que se todos pudermos descontar todas as despesas no IRS, as receitas públicas aumentam. E como não poderia deixar de ser, também existe a antítese que afirma que os novos descontos no IRS ultrapassariam o aumento das receitas pelo que o encaixe público seria menor.

 

Sim?

 

A partir daqui, recorro a um texto que escrevi quando a taxa normal do IVA era 21%.

 

O actual método de cálculo da matéria colectável – tanto para efeitos de IRS como de IRC – apenas permite o desconto de algumas despesas.

 

Imaginemos o seguinte cenário:

Matéria tributável no IRS = 100

Despesas dedutíveis (30%) = 30

Matéria colectável                = 70

Taxa aplicável                        = 30%

COLECTA                              = 21

 

Admitamos agora que sobre metade da matéria colectável (35), o Contribuinte, ao não pedir recibo, permite que nessas transacções o lado da oferta se evada fiscalmente. Ou seja, no nosso modelo, a evasão fiscal assume a dimensão de 35 pelo que só 65 se enquadram na economia oficial: os 30 já “agarrados” pela dedutibilidade das despesas no lado da procura mais os 35 do lado da oferta que não passaram à clandestinidade apesar de corresponderem a despesas não dedutíveis.

Nestas circunstâncias, do lado da oferta, o mesmo modelo será como segue:

Matéria tributável no IRC   = 65

Despesas dedutíveis (30%) = 19,5

Matéria colectável             = 45,5

Taxa aplicável                   = 30%

COLECTA                           = 13,65

COLECTA TOTAL (IRS + IRC)         = 34,65

IVA, à taxa de 21% (sobre 65)         = 13,65

IVA s/ 100 do lado da procura a 21% = 21

RECEITA PÚBLICA TOTAL               = 69,3

 

Imaginemos agora que o Governo fazia aprovar um novo método de cálculo do IRS permitindo o desconto de mais despesas, agora para 50% em vez dos 30% do exemplo anterior. Introduzindo apenas essa variação no modelo do lado da procura, sucederá o que segue:

Matéria tributável no IRS = 100

Despesas dedutíveis (50%) = 50

Matéria colectável              = 50

Taxa aplicável                      = 30%

COLECTA                            = 15

 

Continuemos a admitir que sobre metade das despesas não dedutíveis (25) pela procura, o lado da oferta nessas transacções se evada fiscalmente. Assim sendo, a evasão fiscal assume a dimensão de 25 e ao universo tributável inicial (65), há agora que juntar aqueles que abandonaram a clandestinidade (25) para constituírem um novo universo tributável do lado da oferta já com a dimensão de 90 num total de 100.

Matéria tributável no IRC   = 90

Despesas dedutíveis (30%) = 27

Matéria colectável              = 63

Taxa aplicável                     = 30%

COLECTA                           = 18,9

COLECTA TOTAL (IRS + IRC)         = 33,9

IVA, à taxa de 21% (sobre 90)         = 18,9

IVA s/ 100 do lado da procura a 21% = 21

RECEITA PÚBLICA TOTAL               = 73,8

 

E assim sucessivamente até à exaustão da economia paralela «cândida» para o que bastará os Governos permitirem que a procura – apenas os singulares para efeitos de simplificação do modelo – deduzam todas as despesas na declaração anual de rendimentos para efeitos de cálculo da matéria colectável.

 

RESUMO

Descontos no IRS

 

 

Colecta

30

50

Δ%

IRS

21

15

-28,6

IRC

13,65

18,9

38,5

IVA

34,65

39,9

15,15

TOTAL

69,3

73,8

25,05

 

Neste exemplo apenas permiti que os singulares deduzissem mais despesas aos seus rendimentos declarados e nada fiz quanto aos colectivos. Se procedermos de igual modo quanto a estes, poderemos trazer de volta à economia oficial as tais empresas «maquizardes» que não suportam a actual carga fiscal e o Fisco passaria a obter receitas de fontes em que actualmente não mete o nariz.

 

Fica assim demonstrado que o acréscimo da dedução à colecta é, por si próprio, um incentivador da receita pública.

 

CONCLUSÃO:

A economia paralela de génese criminosa é do foro policial mas a «cândida» pode e deve ser reduzida por diversas medidas de política, nomeadamente as de índole fiscal.

 

Abril de 2019

 

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Henrique Salles da Fonseca

MANTA DE RETALHOS

Assembleia da República.jpg

Depois de enxertado com cerca de mil emendas, será o Orçamento para 2019 do nosso Estado uma manta de retalhos ou é apenas o «bombo da festa»?

 

Onde estará a «unidade de doutrina orçamental»?

 

Quem se entenderá numa leitura de congruência mínima?

 

Creio que todas estas questões – que deveriam ser as maiores – não passam de minudências e bexiguices típicas de coca-bichinhos.

 

- Como assim?

 

- Assim mesmo!

 

É que a política de esquerda oficialmente em curso pela teoria geringôncica esbarra frontalmente com a necessidade imperiosa de anular o défice público e obter superavits que permitam a redução sustentada do stock da dívida pública, antes que por aí venha alguma seca nos mercados de capitais e os juros comecem mesmo a subir em virtude dessa mais que provável escassez de liquidez. E antes que isso aconteça – porque acontecerá infalivelmente mais ano menos ano – há que reconquistar a independência financeira nacional por muito choro e ranger de dentes que banqueiros e outros globalizadores chorem e ranjam.

 

Então, há que quadrar o círculo. Como? Muito facilmente, com as «centenárias» cativações, essas que endireitam todos os orçamentos por mais esquerdinos que eles nasçam.

 

Aqui está a tal manta de retalhos transformada no bombo da festa que se endireita à custa da tal martelada a que eufemisticamente se chama «cativação de verbas».

 

- E essa martelada dá alguma coerência ao Orçamento resultante?

 

- É óbvio que não.

 

Mas isso é que é, afinal, uma completa minudência perante o fim maior que é a independência nacional perante os glutões da finança internacional.

 

Dá-me assim vontade de rir quando o Governo geringôncico se diz de esquerda e eu, que pugno pela libertação nacional do jugo bancário, me digo – e sou - da democracia cristã.

 

Eu sou democrata cristão sem qualquer sombra de dúvidas; o Governo geringôncico é que não é mais do que uma mentira política folcloricamente esquerdina mas, afinal, perito na prática da austeridade radical.

 

Mas são de esquerda.

 

- AHAHAH!!!

 

28 de Novembro de 2018

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Henrique Salles da Fonseca

DE FÉRIAS – 6

 

- Boa tarde! Está há muito tempo à minha espera?

 

- Boa tarde! Não, cheguei agora também. Lembra-se do que ontem prometeu?

 

- De falar sobre a questão dos preços, não é?

 

- Exacto!

 

- Vou falar de agricultura e pescas na generalidade, não vou referir-me a nenhum produto em especial mas começo já por dizer que me refiro sempre a produtos tipificados, com características perfeitamente conhecidas de toda a gente que os queira comprar ou vender.

 

- Muito bem, uma conversa geral.

 

- Portanto, refiro produtos standard, não aquelas favas que são muito melhores que todas as outras nem o meu milho que é único nas redondezas. Refiro-me à sardinha de um determinado tamanho, não à petinga nem aos «jaquinzinhos» que é proibido pescar.

 

- Sim, tudo igual e legal.

 

- O que se passa em Tavira passa-se no resto do país mas eu acredito que o absurdo da formação dos preços em Portugal tem que quebrar nalgum sítio e esse pode perfeitamente ser cá. Os agricultores começam por produzir e só depois é que vão à procura de cliente que, habitualmente, é um comerciante. E quando o encontram, a conversa é mais ou menos assim: «Ou me vendes as batatas pelo preço que tas quero comprar ou elas te apodrecem no armazém e ficas sem elas e sem o dinheiro que te quero dar por elas agora.» E como, do mal, o menos, o agricultor vende-lhas pelo preço que o comerciante diz. Já nas pescas o problema é outro porque na lota o leilão vem de cima para baixo e por vezes o preço vem até tão baixo que já há um nível a que se chama «preço de retirada» em que o lote de peixe sai da venda e é entregue a uma instituição de caridade pelo tal preço ridículo. Mas não volta para quem o pescou; entra na lota e o pescador nunca mais é dono dele. Os comerciantes não arriscam nada, tanto na agricultura como nas pescas e, contudo, são eles que ditam os preços por que querem comprar os produtos.

 

- E como é que se dá a volta a isso?

 

- Distribuindo o risco tão equitativamente por todos os intervenientes (produtores e compradores) quanto possível de modo a que ambas as partes tenham uma palavra a dizer na definição do preço por que se faz a transacção.

 

- E como é que se faz isso?

 

- Na lota, bastaria fazer o leilão de baixo para cima de modo a que os comerciantes se picassem uns aos outros em vez de fazerem o cambão de cima para baixo; na agricultura, fazendo preços sobre futuros.

 

- O que é isso do preços sobre futuros?

 

Bolsa de Mercadorias e Futuros.jpg

 

- O produto ainda não existe e há um sítio em que os produtores (em «economês», a Oferta) e os comerciantes (a Procura) se encontram e perguntam uns aos outros quanto valerá um determinado produto (A) dentro de um certo prazo. Uns dizem X e os outros dizem Y. Ao longo do dia pode acontecer que X e Y se igualem e, nessas condições, o acordo estabelece-se e assina-se um contrato ao abrigo do qual o produtor se compromete a entregar no prazo indicado uma certa quantidade do produto A ao preço X=Y e o comerciante se compromete a comprar nessa data futura, por esse preço, a dita quantidade do produto A. E por que é que X e Y se igualaram? Pois bem, porque o preço era conveniente para ambos: o produtor irá de seguida deitar as máquinas à terra porque sabe que na data futura terá o produto que venderá ao preço que para ele é conveniente; o mesmo se diga para o comprador que terá mercado para a dita mercadoria. Ou seja, o risco do negócio distribui-se equitativamente pelos dois intervenientes em vez de recair apenas sobre um deles, como actualmente.

 

- E acha que isso se pode fazer cá em Tavira?

 

- Em Évora faz-se e só falta fazer evoluir o processo envolvendo o sistema bancário.

 

- Como?

 

- Bem, isso fica para amanhã. Pode ser?

 

- Sim, pode. Então até amanhã.

 

- Até amanhã.

 

(continua)

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 Henrique Salles da Fonseca

DE FÉRIAS – 5

 

 

- Boa tarde, amigo! Tudo bem, consigo?

 

- Tudo bem. E consigo?

 

- Sim, tudo bem mas ontem dei-lhe uma informação que não corresponde exactamente à verdade. Balsa está a ser tratada a nível do Poder Central e já escapou a Tavira.

 

- E isso é bom ou mau?

 

- É bom no sentido de que assumiu uma dimensão de interesse nacional; é mau porque é um atestado de inércia ao Poder local. Mas reconheço que mais vale assim apesar do perigo de se perder no meio do tanto que há a fazer a nível global. O ideal seria que houvesse interesse local que espicaçasse o assunto lá pelas bandas de Lisboa.

 

- E quem é que deveria fazer isso?

 

- Teoricamente, o Presidente da Câmara mas talvez fosse bom fazer uma «Associação dos Amigos de Balsa» que levasse tudo a peito e sem encargos para o Estado.

 

- Sim, a isso eu poderia pertencer mas só para fazer número.

 

E aqui fiquei eu novamente «em ponto de rebuçado» para acabar com a conversa mas continuei…

 

- E conviria despartidarizar o grupo desses Amigos pois o interesse tem que ser transversal a todos e não apenas a uma côr política.

 

- Muito bem, aguardemos… E mais quê para pôr Tavira a mexer no Inverno?

 

- Uma das coisas que me parece mais importante é a que tem a ver com a juventude que continua a emigrar para estudar para além do secundário. Seria importante criar condições de fixação da juventude tavirense e que de igual modo se atraísse juventude forasteira para a frequência de cursos úteis, não daqueles que dão diplomas que são autênticos passaportes directos para o desemprego.

 

- Como por exemplo?

 

- Cursos de índole técnica. Olhe! A começar pela agricultura e pela náutica. Para a agricultura até há as instalações do antigo Posto Agrário e para a náutica não falta água. Tudo, integrado num Politécnico se o Estado quisesse avançar ou por concessão a privados. Mas há mais…

 

- Mais o quê?

 

- Sabe que foi na Região Demarcada dos Vinhos de Tavira que o Marquês de Pombal se inspirou para fazer a Região do Vinho do Porto?

 

- Não me diga…

 

- Digo, sim! Seria interessante refazer a Região Vitivinícola de Tavira e levar a cultura da vinha por essa serra além...

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- E acha que o vinho seria bom?

 

- Com os enólogos que por aí andam já não há vinhos maus em Portugal. Os daqui também haveriam de ser bons desde que se lhes fixassem as características. Mas há muito mais coisas que agora se podem fazer e que antes era impossível por falta de água. Agora, com a barragem grande e com o perímetro de rega, é só puxar pela imaginação e tratar dos preços.

 

- Já antes falou dessa coisa dos preços. Qual é o problema?

 

- Isso vai demorar um bocadinho a explicar mas prometo que amanhã digo.

 

- Muito bem, amanhã cá estarei à espera. Até amanhã.

 

- Até amanhã.

 

(continua)

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 Henrique Salles da Fonseca

DE FÉRIAS – 4

 

 

- Então, como estava hoje a praia?

 

- Um pouco ventosa mas a água estava ainda estupenda.

 

- Ainda?

 

- Sim, sabe que quando o vento sopra dos lados do Alberto João Jardim, a água refresca e faz as ondinhas de carapinha com bandeira verde; quando sopra do Estreito, aquece e manda vagalhões de bandeira encarnada. Não se pode ter Sol na eira e chuva no nabal.

 

- E, afinal, é disso que a gente vive…

 

- Mas poderiam viver de muito mais coisas que nos fizessem cá vir na época baixa.

 

- E foi por isso que falou de Balsa.

 

- Sim, foi precisamente por isso. É que eu estive na Turquia por 3 vezes e fiquei espantado com o que vi em Afrodisias e em Efeso. São duas cidades gregas da Antiguidade Clássica que estavam há séculos enterradas mas que se sabia estarem onde efectivamente estão. E não imagina o que é o rodopio de turistas ao longo do ano inteiro. As regiões envolventes vivem desse rodopio e as camionetas de turistas contam-se às dezenas e dezenas em cada uma delas. De princípio, o Governo Turco não tinha dinheiro para os trabalhos arqueológicos e começou por fazer um contrato de escavação, reconstrução e exploração de Afrodisias com a Universidade do Estado de Nova Iorque e em relação a Efeso com a Universidade de Viena. O dinheiro dos bilhetes financia todos os trabalhos arqueológicos e o Governo empocha os impostos que todos os turistas pagam ali e no mais que fazem no país.

 

- E é isso que imagina para Balsa?

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- Exacto! É precisamente isso que imagino para Balsa que se sabe ser mais importante que Conimbriga e muitíssimo mais que Miróbriga.

 

- E a agricultura que por ali se faz?

 

- Ela já hoje se faz ao lado do sítio arqueológico e não bule com nada disso.

 

- Isso é o ideal.

 

- Sim, sim. E creio que o movimento turístico que o campus arqueológico haveria de gerar ao longo do ano inteiro seria importante com o desenvolvimento das escavações…

 

- E por que é que nada disso foi feito?

 

- Bem, isso eu não sei mas o meu amigo é tavirense e poderia fazer a pergunta numa reunião camarária, dessas abertas aos munícipes.

 

- Eu? Não pense nisso. Ainda me chateavam por meter o nariz onde acham que não sou chamado.

 

- Pois…

 

Com as despedidas impostas pela cortesia, a conversa hoje ficou por aqui e eu enchi-me de mau feitio.

 

(continua)

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Henrique Salles da Fonseca

DE FÉRIAS – 3

 

 

- Olá, boa tarde! Como está?

 

- Eu estou bem, obrigado mas fiquei preocupado com a sua falta de ontem. Tínhamos combinado mas…

 

- Peço desculpa mas deixei-me ficar no «bem bom» das salsas ondas e quando dei por mim já era tarde para vir até aqui. E como não tenho o seu contacto, não lhe pude dar uma explicação.

 

- Bom, se está bem, não há problema. Sabe, nós os algarvios temos menos apetite pela praia do que Vocês, os forasteiros e, portanto, deixamo-nos ficar pela cidade, a maior parte das vezes sem termos nada de especial para fazer e tinha ficado todo entusiasmado em poder ontem continuar uma conversa interessante em vez de ter de falar de futebol e coisas desse género. Mas tenho muito gosto em lhe dar o meu contacto: 9……… Fica já para qualquer situação futura. Sim, porque de certeza que as nossas conversas não vão ficar só por este Verão.

 

- Muito obrigado! O meu telemóvel é o 9……… Mas se vamos prolongar estas conversas, o melhor será ficarmos também com os e-mails porque eu vou-me embora dentro de dias e só volto no próximo Verão. O meu é o ……….@.......

 

- E o meu é o …………….@............

 

- Óptimo! Ficamos em contacto. E como íamos dizendo, há solução para os problemas de Tavira.

 

- Sim, claro que há. Umas soluções são fáceis, outras não tanto mas de qualquer modo são possíveis.

 

- E por onde é que acha que se deve começar?

 

- Por tudo ao mesmo tempo. As fáceis de resolver podem ser de efeito rápido ou lento e as menos fáceis podem ter efeitos rapidos ou mesmo rapidíssimos. Portanto, o melhor é começar tudo ao mesmo tempo e os resultados hão-de ir aparecendo…

 

- Então, o meu amigo imagine que é Presidente da Câmara. O que fazia para acabar com a modorra que nos dá no Inverno?

 

- A coisa mais fácil de fazer e talvez a de efeitos mais lentos, seria a erradicação do analfabetismo adulto em todo o Concelho e isso tanto na cidade como nas zonas rurais desde o litoral até à serra passando por tudo quanto é barrocal.

 

- E como é que faria isso?

 

- Com a ajuda das igrejas presentes no Concelho, lançaria a campanha que haveria de ser seguida pela obtenção de locais de encontro onde se haviam de ministrar as aulas em cada Freguesia. Aulas ministradas por agentes de desenvolvimento voluntários a recrutar localmente e a quem se daria uma rápida formação pedagógica seguida de apoio contínuo.

 

- Mas isso não será fazer arqueologia social?

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- É claro que isto tem consequências muito lentas mas estou convencido de que muito consistentes. Sobretudo, no efeito positivo a nível familiar. E sabe que mais? Não vale a pena perder tempo a convencer os homens. As mulheres são muito mais progressistas nessas coisas e uma vez motivadas eles, os homens, não hão-de querer ficar para trás e acabam por aderir. E quando a economia doméstica é dirigida por uma letrada, tudo melhora na casa e no meio social.

 

- Mas isso não é muito caro?

 

- Não fiz as contas mas admito que seja possível angariar financiamento público ou mesmo não público. Mas o que mais me preocupa não é o financiamento, é a lentidão de todo o processo. E por isto mesmo é que eu acho que é a acção mais urgente.

 

- E as escolas que já existem?

 

- Essas são para as crianças, não para os adultos. Mas se os professores primários ou outros quiserem aderir, tanto melhor.

 

- Sim, seria bom que a Câmara financiasse tudo isso.

 

- A Câmara, o Instituto do Emprego e outras portas a que se haveria de bater.

 

- E mais quê para pôr rapidamente a economia a mexer no Inverno?

 

- Arrancar com a exploração da maior riqueza que existe em Tavira.

 

- As pescas?

 

- Não. Isso depende muito do mar e de gente a quem a Câmara não dá ordens.

 

- Então?

 

- Balsa!

 

- EH caramba! Isso é que dá mesmo pano para mangas. Mas olhe, hoje sou eu que tenho que ir andando. Continuamos amanhã?

 

- Sim, acho que sim. Mas já temos os contactos e podemos combinar melhor amanhã de manhã. Se houver levante…

 

- Então, até amanhã.

 

- Até amanhã.

 

(continua)

 

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Henrique Salles da Fonseca

(em Afrodisias, Turquia)

DE FÉRIAS – 2

 

 

Hoje vamos às trevas…

 

E a conversa entre turistas, passou-se assim:

 

- Depois da praia, o que há em Tavira para fazer?

- Nada!

- Como assim?

- Para quem seja profissional de férias, após a época estival não há nada (ou quase nada) para fazer porque toda a vida económica está vocacionada para a praia e o Verão. Passado o tempo dos banhos de mar e das jantaradas, os turistas vão-se embora e a cidade hiberna.

- E o pessoal da terra, o que faz?

- Uns vão para o Fundo do Desemprego e os outros caem nas actividades comuns a uma pequena comunidade a que falta massa crítica para justificar economias de escala. Mesmo a juventude, ao chegar ao final do ensino secundário, só tem a alternativa entre a mediocridade e a emigração.

- E emigram para quê?

- Uns emigram em busca de ensino superior; outros emigram para encontrar trabalho permanente porque a economia local já quase não existe.

- E a agricultura e pescas?

- Como no resto do país, a agricultura e as pescas em Tavira padecem de um método absurdo de formação dos preços pelo que cada vez mais há cada vez menos gente interessada em servir os intermediários que, esses sim, ganham bem.

- Mas por aqui houve grandes pescarias de atum…

- O atum deixou de «encalhar» nas praias, mudou a rota para o largo e os tavirenses ficaram em terra a chorar e a pedir subsídios ao Estado pela inactividade em que caíram.

- E por que é que não o vão pescar ao largo?

 

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- Porque não sabem como isso se faz e dizem que é muito caro ultrapassar os cardumes pela cabeça para lhes fazerem o cerco. É claro que esse método é proibitivo e só conduz à falência. Se não imaginaram uma alternativa, bem fizeram em não se meterem nessa desgraça. Foram os japoneses que o fizeram ali ao largo de Olhão. E ganham o dinheiro que querem.

- E o pessoal de Tavira, o que faz perante isso?

- Vê-os lá longe a ganhar dinheiro.

- Mas deve haver um modo de dar a volta a esse problema…

- Sim, há! A esse e a muitos outros.

- E como é?

- Bem, isso fica para amanhã porque agora são horas de ir andando… Até amanhã!

- Até amanhã, à mesma hora, aqui. Está bem?

- Sim, fica combinado.

 

(continua)

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 Henrique Salles da Fonseca

DE FÉRIAS -1

 

 

Há quase 15 anos de férias, já estou com dificuldade em distinguir os Sábados e Domingos daqueles dias em que a maior parte das pessoas trabalha. E se durante toda a vida de trabalho o Sábado era o dia do folguedo glorioso, a tarde de Domingo continha uma certa neura que nem um «cineminha» conseguia neutralizar. Nunca fui capaz de identificar a causa dessa neura. Seria por ser a véspera da retoma do trabalho? Mas se eu até gostava do que fazia, porquê a tal sensação neurótica?

 

Não sei e não será agora que me dedicarei a tal investigação. Haja quem o faça por mim. Mas, depois, conte.

 

O que sei é que com a aposentação, essa neurastenia da tarde domingueira desapareceu e de Segunda a Segunda passeando por tudo quanto é dia, a vida é bela e só os Impostos é que dão cabo dela.

 

E porque a vida é bela, vá de tentar fazer agora o que não pude fazer enquanto trabalhava. Assim, mal entrei na reforma, decidi praticar o meu desporto diariamente (de manhã, com excepção do tal Domingo cuja tarde era chata) e estudar à tarde o que nunca tinha estudado. Por exemplo, tenho estudado alguma coisa de Filosofia e de Teologia mas de vez em quando lá volto às «coisas» a que me dedicava antigamente. E porque estou a banhos em Tavira, tenho procurado identificar a causa dos níveis de desenvolvimento e de subdesenvolvimento local.

 

Assim, começo por constatar que há duas «Taviras»: a do Verão e a do Inverno. A estival é um festival festivo, a invernosa é uma tristeza triste.

 

Comecemos pela euforia.

 

Porquê esta glória estival? Porque esta praia se alonga languidamente desde as chamadas «Quatro águas» até à barra da Fuzeta em cerca de 14 quilómetros de areia magnífica e águas aquecidas fazendo dela a melhor praia do mundo. E quem me costuma ler sabe que eu conheço praias nos cinco continentes desde latitudes altíssimas até às suas opostas e que, portanto, sei o que digo. Mas compreendo que haja quem fique na dúvida e, então, faço desde já a destrinça entre essas outras praias tão afamadas pelos agentes de viagens e esta em que por aqui me banho em Agosto desde há quase 40 anos: é que os tubarões mordedores não têm o costume de cá vir tomar banho connosco. Porquê? Não sei, perguntem-lhes.

 

E temos também outros privilégios. Este ano, a moda dos fatos de banho femininos é deslumbrante e glutona.

 

Moda praia 2018.jpg

 

Como assim, perguntará o leitor. Sim, os fatos de banho deste ano põem os glúteos das Senhoras em tal evidência que nos levam a concluir que finalmente alguém inventou a moda das nádegas femininas com suspensórios. A não perder!

 

(continua)

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 Henrique Salles da Fonseca

PENSANDO…

 

Apesar do título, inspirando racionalidade, começo com um dogma que, por definição, dispensa a tal racionalidade.

 

DOGMA - Uma pessoa de bem, paga o que deve.

 

divida-paga.jpg

 

Este meu dogma aplica-se tanto na dimensão micro como na macro, ou seja, às pessoas e aos Estados. Porque, ao contrário do que disse um «sem-vergonha dos quatro costados», as dívidas são para pagar.

 

Então, deixando a definição da dívida micro ao cuidado dos contabilistas, a nível macro a dívida global tem duas vertentes: a pública e a privada.

 

A dívida pública é a que vem sendo mais referida pela comunicação social mas a privada também tem que se lhe diga.

 

A dívida pública, constituída para financiar os défices públicos, só pode ser reduzida na medida dos superávites públicos; a dívida privada só pode ser reduzida na medida dos saldos positivos da balança de transacções correntes.

 

Enquanto não tivermos saldos positivos nas contas públicas, não reduziremos o stock da dívida pública; se não tivermos saldos positivos na balança de transacções correntes, o sistema bancário nacional continuará a endividar-se sobre o exterior persistindo na via da falência ou, no mínimo, da absorção pela banca estrangeira.

 

PRIORIDADES:

  • Obtenção urgente de saldos positivos nas contas públicas;
  • Reforço da produção de bens e serviços transacionáveis; contenção do consumo.

 

Estes, os meus silogismos dogmáticos para hoje.

 

Dezembro de 2017

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 Henrique Salles da Fonseca

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