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A bem da Nação

AS COISAS QUE SE DIZEM...

 

 

 

Em Portugal, a emigração não é, como em toda a parte, a transbordação de uma população que sobra, mas a fuga de uma população que sofre.

 

Eça de Queiroz.jpg

Eça de Queiroz in “As Farpas”

 

 

Fiquei assim a saber que no século XIX as pessoas emigravam porque sobravam. Terá por certo sido o caso dos irlandeses rumo à América com o pretexto de que as batatas do Ohio tinham um paladar diferente das do Ulster; o caso dos italianos rumo à Argentina porque preferiam o tango à ópera; o dos franceses rumo ao Norte de África porque lhes terão dito que o ar seco fazia bem à pele; foi provavelmente o caso dos ingleses rumo à Austrália porque preferiam os pulos dos cangurus à quietude das masmorras reais; já tinha certamente sido o caso dos suecos rumo ao Meridião porque queriam experimentar a eficácia das velas dos drakkars; havia judeus a mais na Palestina e foi por isso que tiveram que optar pela diáspora...

 

Estou sempre a aprender. Deo gratias!

 

Bombaim-2008.JPG

Henrique Salles da Fonseca

HUMOR E IRONIA EM EÇA DE QUEIRÓS

Eça de Queiroz.jpg

 

RECLAMAÇÃO DIRIGIDA À

«COMPANHIA DAS ÁGUAS DE LISBOA»



Ilmo. e Exmo. Senhor Pinto Coelho, digno director da Companhia das Águas de Lisboa e digno membro do Partido Legitimista.

 

Dois factores igualmente importantes para mim me levam a dirigir a V. Ex.ª estas humildes regras: o primeiro a tomada de Cuenca e as últimas vitórias das forças carlistas sobre as tropas republicanas, em Espanha; o segundo é a falta de água na minha cozinha e no meu quarto de banho.

 

 

Abundaram os carlistas e escassearam as águas, eis uma coincidência histórica que deve comover duplamente uma alma sobre a qual pesa, como na de V. Ex.ª, a responsabilidade da canalização e a do direito divino.

 

Se eu tiver a fortuna de exacerbar até às lágrimas a justa comoção de V. Ex.ª , que eu interponha o meu contador, Exmo. Senhor, que eu o interponha nas relações da sensibilidade de V. Ex.ª com o mundo externo! E que essas lágrimas benditas, de industrial e de político, caiam na minha banheira!


E, pago este tributo aos nossos afectos, falemos um pouco, se V. Ex.ª o permite, dos nossos contratos. Em virtude de um escrito, devidamente firmado por V. Ex.ª e por mim, temos nós – um para com o outro – certo número de direitos e encargos.


Eu obriguei-me para com V. Ex.ª a pagar a despesa de uma encanação, o aluguer de um contador e o preço da água que consumisse. V. Ex.ª, pela sua parte, obrigou-se para comigo a fornecer-me a água do meu consumo. V. Ex.ª forneceria, eu pagava. Faltamos evidentemente à fé deste contrato: eu, se não pagar, V. Ex.ª, se não fornecer.


Se eu não pagar, V. Ex.ª faz isto: corta-me a canalização. Quando V. Ex.ª não fornecer, o que hei-de eu de fazer, Exmo. Senhor?


É evidente que, para que o nosso contrato não seja inteiramente leonino, eu preciso no caso análogo àquele em que V. Ex.ª me cortaria a mim a canalização, de cortar alguma coisa a V. Ex.ª... Oh! E hei-de cortar-lha!...


Eu não peço indemnização pela perda que estou sofrendo, eu não peço contas eu não peço explicações, eu chego a nem sequer pedir água! Não quero pôr a Companhia em dificuldades, não quero causar-lhe desgostos, nem prejuízos!


Quero apenas esta pequena desafronta, bem simples e bem razoável perante o direito e a justiça distributiva: quero cortar uma coisa a V. Ex.ª!


Rogo-lhe, Exmo. Senhor, a especial fineza de me dizer imediatamente, peremptoriamente, sem evasivas, nem tergiversações, qual é a coisa que, no mais santo uso do meu pleno direito, eu posso cortar a V. Ex.ª.


Tenho a honra de ser

De V. Ex.ª


Com muita consideração e com umas tesouras

 

Assinatura de Eça de Queiroz.png

José Maria Eça de Queirós

 

 

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