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A bem da Nação

CONSIDERAÇÃO INTEMPESTIVA

«Considerações Intempestivas» é o título geral de um conjunto de textos de Nietzsche e que, sob a forma de opúsculos, ele foi publicando à medida que os ia considerando concluídos[1] e em condições de divulgação.

A segunda Consideração tem a ver com a historiografia, ou seja, com a ciência e com a filosofia da História e intitula-se Da utilidade e das desvantagens da História para a vida.

A título de curiosidade, Nietzsche destrinça três tipos de interventores na História: o “antiquário” que procura preservar o passado; o “monumental” que procura emular o passado; o “crítico” que procura libertar o presente do passado.

Neste texto, Nietzsche disseca a realidade alemã do seu tempo alertando para que a obsessão das elites pelo passado estava a obstar à construção racional do presente.

Tomando em conta que o filósofo morreu no dia 25 de Agosto de 1900, temos que reconhecer que a «adivinhação» das dificuldades alemãs na construção de um presente racional se repercutiu muito para além do seu desaparecimento físico entre os homens conferindo-lhe uma efectiva capacidade de antevisão dos problemas por que a Alemanha haveria de passar. Por outras palavras, a loucura colectiva que assolou os alemães através do nazismo, tem raízes bem mais antigas do que aquelas que habitualmente se referem.

E estou mesmo em crer que Wagner tem algumas culpas no Cartório. Voltarei ao tema.

Novembro de 2019

Dubrovnik-réveillon 2016-17 (1).jpg

Henrique Salles da Fonseca

[1]- Para saber mais, ver em «Considerações intempestivas – F. Nietzsche»

DETERMINISMO OU LIBERDADE

[Na década de 30 do séc. XX] os sociólogos, democratas, livre-pensadores, partidários da liberdade individual, confirmavam com a sua ciência os valores aos quais espontaneamente aderiam. Aos seus olhos, a estrutura da civilização presente (densidade ou solidariedade orgânica) exigia de algum modo as ideias igualitárias, a autonomia das pessoas. Os juízos de valor ganhavam, mais do que perdiam em dignidade, ao tornarem-se juízos colectivos. Substituía-se com toda a confiança a sociedade de Deus. Aliás, o termo «sociedade» não deixa de ser equívoco pois ora designa os colectivos reais, ura a ideia ou o ideal destes colectivos. Na verdade, só se aplica aos agrupamentos particulares, fechados sobre si mesmos, mas menos do que as palavras «pátria» ou «nação» e recorda as rivalidades e as guerras (não se imagina facilmente uma sociedade alargada aos limites da humanidade inteira). Dissimula os conflitos que assolam todas as comunidades humanas. Permite subordinar à unidade social as classes opostas e conceber uma moral nacional que seria sociológica sem ser política.

 Ora, se este conceito designar o geral parcialmente incoerente dos factos sociais, desprovido de todo o prestígio emprestado, pergunto: não parece assim que o “sociologismo” junta, com uma relatividade sem limites, a redução dos valores a uma realidade mais natural do que espiritual, submetida a um determinismo e não aberta à liberdade?

Aron.png

In «Memórias» - ed. Guerra & Paz, Fevereiro de 2018, pág. 122

 

COMPOSITOR A MEIO CAMINHO

Que Nietzsche se dedicava à música era tema meu desconhecido até ter começado  ler a biografia escrita por Sue Prideaux com edição portuguesa do Círculo de Leitores, Abril de 2019. Pelos vistos, sentava-se ao piano e lia à primeira vista qualquer partitura que lhe pusessem à frente e era também reconhecido nos meios estudantis como um grande improvisador.

Estando já na Suíça a dar aulas de Filologia Clássica na Universidade de Basileia, teve também oportunidade de se dedicar à composição.  A amizade próxima que o ligava ao casal Wagner também o incentivaria nesse sentido.

E porque queria saber o que o Mestre pensava da sua obra, decidiu certo Natal oferecer uma composição a Cosima, mulher de Wagner e filha de Liszt, que se prontificou a tocá-la em conjunto com Hans Richter pois que se tratava duma peça a quatro mãos.

Mas as relações de Wagner e Nietzsche vinham azedando pois o compositor era totalmente germanófilo e o filósofo era a favor da Cultura Universal cuja sede era então em Paris. Mas, para além desta questão político-cultural, havia outro motivo de azedamento das relações entre os dois homens: querendo Nietzsche publicar o seu livro O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música, enviou o manuscrito ao editor de Wagner sem nada lhe dizer, o que levou o compositor a uma enorme irritação. E esta, sim, mais do que a discórdia política, foi a razão do muito mau feitio de Wagner para com Nietzsche naquela época. Mas, mesmo assim, o filósofo foi convidado para passar o Natal com os Wagner e, pelos vistos, também com o maestro Richter.

Retomando o fio, transcrevo da pág. 123 e seg. da obra citada:

Nietzsche considerava-se um compositor com algum talento e sentia-se exultante com a expectativa da admiração de Wagner. Quando Hans Richter e Cosima Wagner se sentaram finalmente ao piano de Tribschen para tocar o dueto para Wagner, o Mestre deu sinais de impaciência durante os vinte minutos que demorou a execução. A peça era típica das composições de Nietzsche neste período, um «pot pourri» de Bach, Schubert, Liszt e Wagner. Desconexas, demasiado emotivas e curtas no desenvolvimento, as suas composições despertam invariavelmente a ideia de que, caso tivesse vivido até mais tarde, talvez pudesse ter conhecido o êxito como compositor de música de cena para o cinema mudo. No entanto, por muito que rissem em privado, Wagner e Cosima calavam a fraca opinião que tinham da peça. Ela agradeceu-lhe a «bela carta» que acompanhava a prenda, mas não fez qualquer referência à música em si.

Posto o que a filosofia ficou com mais tempo na vida de Nietzsche.

Lisboa, 7 de Outubro de 2019

Henrique Salles da Fonseca

QUANDO…

Quando mais te oferecem o braço do que to pedem,

Quando, na tua bancada, os remédios disputam o lugar dos cosméticos,

 Quando a loção relaxante é substituída pelo creme analgésico,

Quando os óculos escuros passam a graduados,

Quando pensas na renovação da carta de condução,

Quando os teus netos se calam perante as tuas hesitações,

Quando o automobilista não protesta quando atravessas uma «zebra»,

Quando te pedem mais conselhos do que tos dão,

Quando tens mais tempo para pensar do que para fazer,

Então, isso significa que chegaste à idade da sabedoria,

Talvez não à plenitude nem à certeza da razão,

Mas, espero bem, à glória da compaixão.

 

Setembro de 2019

21ABR19.jpgHenrique Salles da Fonseca

O ABSOLUTO E O RELATIVO

NA FILOSOFIA DO DESENVOLVIMENTO

Da edição portuguesa das “Memórias” de Raymond Aron, pág. 120 e seg., GUERRA & PAZ, Fevereiro de 2018, extraio a opinião de que…

(…) Entre uma sociedade comunitária que se dá a si mesma por valor absoluto e uma sociedade liberal que visa alargar a esfera da autonomia individual, não há medida comum. A sucessão de uma à outra não lograria ser apreciada se não por referência a uma norma que deveria ser superior às diversidades históricas mas tal norma é sempre a projecção hipoestagnada do que um colectivo particular é ou quereria ser. Ora, a nossa época conhece demasiado a diversidade que encontra nela própria para cair na ingenuidade dos grupos fechados, ou para se elevar à confiança daqueles que se comparam com o passado e com outrem na certeza da sua superioridade.

(…) o progresso só se aprecia em função de um critério trans-histórico. O «mais» do saber observa-se, o «melhor» das culturas julga-se – e que juiz é imparcial?

Destaques anteriores da minha responsabilidade.

* * *

Creio que a transcrição anterior é suficiente para evidenciar a diferença entre a Filosofia do Desenvolvimento e a Teoria do Desenvolvimento dado que aquela (a Filosofia) procura (pelos vistos, debalde) a norma que deveria ser superior ou o critério trans-histórico  que justificasse o processo de desenvolvimento enquanto esta (a Teoria), perante o impasse filosófico, avançou por raciocínios talvez de menor elevação mas muito mais pragmáticos, ou seja, pela discussão dos modelos (quiçá econométricos) e de concepção de estruturas sociais e mesmo políticas.

* * *

Primeira observação – O modelo comunitário que se autodefiniu como de mérito absoluto e definitivo, impediu adaptações às mudanças exógenas, petrificou, rachou e ruiu; o modelo liberal, descontente consigo próprio devido a méritos mutantes (e, portanto, relativos), procura adaptações constantes às mudanças endógenas e exógenas, flexibiliza-se, sobrevive e progride.

Segunda observação - Como somos diferentes, filósofos e economistas, quanto poderíamos aprender uns com os outros. O problema é que nunca sabemos onde está um filósofo e só os encontramos tarde, postumamente.

Setembro de 2019

Henrique Salles da Fonseca

 

AÍNDA NIETZSCHE

O pai de Friedrich Nietzsche, Karl Ludwig, morreu aos 38 anos de idade com aquilo a que à época era chamada «moleza cerebral», doença que provocava períodos dolorosos e de prostração e, na fase terminal, coma permanente.

O pai foi autopsiado confirmando-se o diagnóstico em vida mas o filho, que morreu louco, não o foi e, portanto, ficou-se sem se saber se herdara algum problema do pai.

Mas pai e filho tiveram vidas muito diferentes. O pai, sacerdote luterano, viveu sempre em paz com mulher e filhos na residência paroquial que lhe fora atribuída enquanto o filho deambulou pelos campos de batalha durante a guerra entre a França de Napoleão III e a Prússia de Bismarck como auxiliar de ambulância e teve aos seus cuidados os feridos e doentes mais graves, nomeadamente de doenças infeciosas. E, tanto quanto a medicina da época conseguiu apurar, terá, num primeiro diagnóstico, contraído disenteria grave e, num segundo diagnóstico, difteria.

Posta a situação nestes termos clínicos, foi-lhe ministrada a terapêutica mais moderna que então se conhecia e que consistia em clisteres de nitrato de prata, ópio e ácido tâmico.

Por incrível que pareça, o doente sobreviveu à doença e à terapêutica mas passou a sofrer horrores pois tinha os intestinos destruídos, tinha icterícia, insónias, vómitos, hemorroidas, um gosto constante a sangue na boca e sofria com todos os horrores psicológicos que os campos da batalha lhe haviam gravado no cérebro.

E a questão é: como é que este desgraçado não havia de enlouquecer?

Setembro de 2019

Henrique Salles da Fonseca

 

BIBLIOGRAFIA:

«EU SOU DINAMITE – a vida de Friedrich Nietzsche», Sue Prideaux, Círculo de Leitores, 1ª edição, Abril de 2019

 

LIDO COM INTERESSE – 91

ELOGIO DA SEDE-Tolentino.png

Título – O ELOGIO DA SEDE

Arcebispo de Suava.png

Autor – José Tolentino Mendonça

Editora – QUETZAL

Edição – 1ª, Abril de 2018

 

* * *

Sabemos que a imagem de um Deus intransigente e castigador lançou gerações numa paralisante angústia. (…) é necessário anunciar que a justiça de Deus não é punitiva mas sim uma justiça iluminada pela misericórdia

 

* * *

 

O livro começa com um prefácio do Papa Francisco

 

«Este caminho espiritual foi oferecido por si, que nos ajudou a sentirmo-nos procurados pela sede de Jesus, que não é uma sede de água, mas é maior: é sede de alcançar as nossas sedes, de entrar em contacto com as nossas feridas»

 

e conclui com um agradecimento também papal

 

«Obrigado, Padre e continue a rezar por nós»

 

pois que este é o guião do retiro espiritual que a Cúria Romana fez por altura da Quaresma de 2018 sob orientação do Padre José Tolentino Mendonça.

 

Entretanto, o Padre Tolentino foi nomeado Director dos Arquivos da Santa Sé e ordenado Arcebispo de Suava.

 

Como se depreende das palavras do Papa acima transcritas, o título é a apologia da busca da fé, mas é também um incitamento à pregação entre os infiéis.

 

Pese embora um estilo literário que me parece algo piegas, foram várias as passagens que prenderam a minha atenção.

 

Em vez de viver a sede do absoluto, Jean (personagem duma peça de Ionesco) escolheu viver o absoluto da sede. Por isso, tudo lhe parece ínfimo, insuficiente e mesquinho. Sobre todas as coisas espalha o mesmo veneno da lamúria, condenando-as. Esta sede, a que ele não consegue dar um rosto, faz dele um homem sem casa nem raízes, incapaz de criar laços, estrangeiro de si mesmo, perdido no labirinto onde escuta apenas o solitário rumor dos seus passos. (…) Uma sede que se torna numa grande insatisfação, numa desafeição em relação ao que é essencial, numa incapacidade de discernimento que nos empurra para os braços do consumismo. (…) A desilusão atira-nos para o círculo insone do consumo - (pág. 39 e seg.)

 

(…) as sociedades organizadas à roda do consumo, explorando avidamente as compulsões de satisfação de necessidades induzidas pela publicidade, estão na prática a remover a sede e o desejo tipicamente humanos. (…) promete libertar o desejo das inibições da lei e da moral em nome de uma satisfação ilimitada, mas quando o gozo, a paixão e a alegria se esgotam no consumismo desenfreado, chagamos à agonia do desejo. A vida perde horizonte, os tetos tornam-se cada vez mais baixos - (pág. 55)

 

Em vez de uma sede de futuro que nos projecta para a criatividade do dom, deixamo-nos enredar no sinuoso labirinto do pessimismo que recusa e descrê de qualquer horizonte – (pág. 64)

 

O Espírito (Santo) é o dinamismo do (Cristo) Ressuscitado em nós – (pág. 86)

 

A fé não é um pódio, é uma estrada (…) e a estrada tem mais a ensinar-nos do que a estalagem – (págs. 103 e 105)

 

Misericórdia é compaixão, é bondade, é perdão, é colocar-se no lugar do outro, é levar o outro aos ombros, é a reconciliação profunda - (pág. 132)

 

Sabemos que a imagem de um Deus intransigente e castigador lançou gerações numa paralisante angústia. (…) é necessário anunciar que a justiça de Deus não é punitiva mas sim uma justiça iluminada pela misericórdia – (pág. 136)

 

Finalmente, já é o Papa que faz humor no agradecimento ao Padre Tolentino pela forma como orientou o retiro da Cúria chamando a atenção para inúmeras circunstâncias em que o homem, mesmo o consagrado, é induzido ao pecado:

- Como dizia a madre superiora às suas irmãs: «Somos homens, pecadores, todos» - (pág. 166)

 

Abril de 2019

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Henrique Salles da Fonseca

RECAPITULANDO A HISTÓRIA

Aron.png

 

Escreveu Raymond Aron (1905-1983) durante alguns anos (1952-54) de grande meditação e profunda tristeza pessoal (morte de uma filha) um livro que intitulou «L’opium des intelectuels» em que explica a sua oposição aos intelectuais franceses de então. Globalmente liderados por Sartre (que se servia de Simone de Beauvoir quando ele próprio não queria «dar a cara»), todos esses intelectuais se perfilavam pela esquerda, muitos deles de filiação comunista e outros lá perto mas sem filiação no PCF (caso do próprio Sartre).

 

Sobre este livro – de que estou a ler um resumo feito pelo próprio Aron nas suas «Memórias» [i] e de que escreverei mais – extraio da pág. 325 uma citação que Aron faz de um escrito de Sartre sobre a actuação comunista em França naquela década de 50:

 

Estou certo de que boa parte da estratégia da CGT [ii] na greve é muito mais comandada por fins militares longínquos do que por objectivos sociais evidentes.

 

Repito que se trata de escrito de Sartre que Aron apenas cita.

 

Ou seja, Aron nem precisou de se levantar contra a esquerda porque foi ela própria que fez a afirmação de que o estalinismo se dedicava a tácticas de mobilização de massas para bloquear França sempre que quisesse.

 

Isto foi em França nos anos 50 do séc. XX mas é precisamente o mesmo que vemos actualmente em Portugal com o surto interminável de greves e manifestações. Trata-se obviamente duma táctica de mobilização permanente de massas que a qualquer momento possa paralisar o país. Basta, para além das massas humanas, colocar uns camiões em pontos chave do trânsito para que o caos se instale. Já o fizeram várias vezes, não hesitarão repeti-lo.

 

Como fica patente, em Portugal a cartilha stalinista continua em vigor.

 

E onde está a legitimidade democrática e a defesa dos princípios humanistas pelas Forças Armadas e de Segurança? Provavelmente manietadas por infiltrações cirúrgicas.

 

Não estou, pois, apenas a recapitular a História, estou a olhar para o presente e a temer pelo futuro.

 

Abril de 2019

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Henrique Salles da Fonseca

 

 

 

                      

 

[i] - Pág. 312 e seg. ed. GUERRA & PAZ, Fevereiro de 2018

[ii] - Confédération Générale du Travail (central sindical comunista)

LIDO COM INTERESSE – 90

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Título – UMA HISTÓRIA DE AMOR E TREVAS

Amos Oz.png

Autor – Amos Oz

Tradutora – Lúcia Liba Mucznik

Editora – D. QUIXOTE

Edição – 1ª, Março de 2016

 

* * *

É logo da capa que se extrai a informação de que o livro deu em filme, o que induz de imediato a ideia de que se trata de obra pictórica e, talvez mesmo, animada. Pictórica, sim; animada, na nossa própria imaginação como o terá sido na da realizadora, Natalie Portman.

 

Eu já conhecia Amos Oz de um livrinho que ele publicou (não me lembro onde o tenho e se o li em inglês ou português) em que expõe as suas ideias políticas sobre Israel e o processo de paz que preconizava (morreu em finais de 2018) de modo a ultrapassar a tensão permanente entre judeus, árabes e palestinianos. Gostei do que então li e avancei para este livro (636 páginas de texto) cuja leitura tive pena de ver chegar ao fim. Até porque a autobiografia não é completa, muito terá ficado por contar. Fico à espera do trabalho futuro de algum biógrafo que nos relate o que aqui ficou por contar da vida deste que foi um dos mais importantes escritores israelitas.

 

Nascido Klausner, Oz decidiu mudar de nome não só por razões literárias mas também porque a certa altura decidiu mudar radicalmente de vida abandonando Jerusalém e optando por um kibbutz. Essa mudança radical aconteceu pouco tempo depois do suicídio da mãe e de o pai se ter casado novamente.

 

Mas para ter a certeza de que não estrago a futura leitura de quem me lê, inspiro-me na contracapa…

 

Amor e trevas são duas poderosas forças que se cruzam e acompanham a vida do Autor que nos guia numa fascinante viagem ao longo dos 120 anos de história da sua família e dos seus paradoxos.

 

Em busca das raízes remotas da sua tragédia familiar, Oz desvenda segredos e «esqueletos» de quatro gerações de sonhadores, intelectuais, homens de negócios mais ou menos fracassados ou mais ou menos prósperos, reformistas, sedutores antiquados e rebeldes ovelhas negras.

 

Celebridades históricas materializam-se em personagens autênticos, desde David Ben-Gurion a Menahem Begin e a escritores como Tchernikhovsky e ao nobelizado Agnon, todos eles algumas vezes passantes – ou passeantes - pela vida de Amos Oz.

 

* * *

 

Do que chamou a minha atenção:

 

  • Pensava que «renome mundial» significava ter pernas doentes porque eram frequentemente velhos com bengalas que coxeavam um pouco e andavam vestidos de fatos de lã grossa mesmo no Verão – pág. 9;

 

  • Em Jerusalém andava-se como num funeral ou como os espectadores atrasados num concerto: primeiro apalpava-se o terreno com a ponta do pé. Em seguida, depois de pousar o pé, não havia pressa em mexê-lo: se tínhamos levado dois mil anos a conseguir pôr o pé em Jerusalém, não íamos renunciar tão rapidamente. Porque se levantássemos o pé, podiam tirar-nos o pedaço de chão. Por outro, se já estava no ar, também não havia pressa em pousá-lo: sabe-se lá que ninho de víboras lá podia estar, que intrigas e maquinações. Durante dois mil anos tínhamos pago com sangue a nossa imprudência caindo constantemente nas mãos dos nossos inimigos porque pousávamos o pé sem medir bem as consequências. Era mais ou menos assim que se andava em Jerusalém. Mas em Telavive, qual quê! A cidade inteira parecia um gafanhoto. As pessoas, as casas, as ruas, as praças, o vento marítimo, as areias, as avenidas e até as nuvens corriam. Telavive era outro continente – pág. 14;

 

  • Sobre o mérito do escritor: Só há bênção se o murmúrio das asas assentar no suor e a inspiração nascer da perseverança e do rigor – pág. 68;

 

  • Um corredor estreito e comprido, o intestino da casa – pág. 68;

 

  • Diz o tio ao sobrinho: - Faz-me o favor de perguntar à tia onde está a pomada para a pele, o meu creme para o rosto. Diz-lhe, por favor, que é o antigo porque o novo não presta para nada. E saberás tu, por acaso, a enorme diferença que existe entre «O Redentor» na língua dos góis e o nosso «messias»? Para nós, messias é apenas alguém que foi ungido com óleo: todos os sacerdotes e reis da Bíblia são messias e em hebraico a palavra «messias» é uma palavra totalmente prosaica e de todos os dias, muito próxima da palavra «pomada» - ao contrário das línguas dos gentios nas quais «messias» é chamado «O Redentor» e «O Salvador» - pág. 82;

 

  • Sobre a cidade idealizada pelo «Amor de Sião» e a realidade: - A Jerusalém de ruas calcetadas de jaspe e ónix, com um anjo em cada esquina e por cima o céu a brilhar à luz dos sete firmamentos, não a cidade poeirenta, canicular e fanática – pág. 113 e seg.;

 

  • O avô nunca mudou a sua opinião (…): alguns dias depois da conquista da cidade velha de Jerusalém na Guerra dos Seis Dias, propôs que as nações do mundo ajudassem Israel a fazer regressar todos os árabes ao Levante, «com o maior respeito, sem tocar num único dos seus cabelos, nem se apropriar de uma galinha sequer», à sua pátria histórica, a que ele chamava «Sáudia Arábia»; «Tal como nós, judeus, regressamos agora à nossa pátria histórica, também eles devem ter o direito de regressar dignamente a casa, a Sáudia Arábia, de onde eles todos vieram – pág. 127 e seg.;

 

  • Dizia o outro avô, aquele a quem todos chamavam Papá – Há muito mais cores e cheiros do que palavras; a riqueza era pecado e a pobreza castigo mas, aparentemente, Deus queria que entre o crime e o castigo não houvesse relação nenhuma; um peca e o outro é castigado. Eis como o mundo é feito – pág. 196 e seg.;

 

  • E mais dizia o avô Papá: - Justiça sem compaixão é um açougue; compaixão sem justiça talvez fosse bom para Jesus mas não para os simples seres humanos que tinham comido a maçã do Mal – pág. 201;

 

  • Foi sempre assim nas famílias judias: os estudos constituíram sempre uma segurança para o futuro, a única coisa que ninguém jamais podia tirar aos filhos, mesmo que houvesse outra guerra, outra revolução, outra emigração ou outras perseguições – o diploma podia ser rapidamente dobrado e escondido no forro do casaco antes de fugir para um sítio onde fosse permitido os judeus viverem – pág. 223;

 

  • Dizia a mãe de Amos Oz que as sinagogas, as casas de estudo, as igrejas, os conventos e as mesquitas eram todos semelhantes, uns lugares aborrecidos que cheiravam aos corpos dos religiosos que se lavavam pouco; mesmo debaixo da nuvem pesada de incenso, sentiam-se os eflúvios enjoativos da carne mal lavada – pág. 336;

 

  • E agora é a vez de ser o pai do Autor a dizer que quem roubasse as ideias de um livro, era considerado um gatuno literário, autor de plágio; quem roubasse de cinco livros, não era considerado ladrão mas sim especialista; se roubasse de cinquenta livros, era um grande sábio – pág. 408;

 

  • Sobre quem é desprezado os gatos também têm o direito de olhar para os reis – pág. 619.

 

Sim, li com interesse e mesmo mais: com gosto.

 

Abril de 2019

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Henrique Salles da Fonseca

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