DIXIT
«Pense como um homem de acção; actue como um homem de pensamento.
A contemplação é um luxo; a acção é uma necessidade.»
Henri Bergson
In «Pensador» - https://www.pensador.com/autor/henri_bergson/
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«Pense como um homem de acção; actue como um homem de pensamento.
A contemplação é um luxo; a acção é uma necessidade.»
Henri Bergson
In «Pensador» - https://www.pensador.com/autor/henri_bergson/
segundo Fernando Pessoa
Fortemente aristocrática na sua constituição espiritual, ferrenhamente católica no seu habitus moral, absurdamente tradicionalista no conjunto quotidiano dos seus usos e costumes, Castela apresenta-se como um elemento anteprejudicador de uma confederação, e como um elemento (e é isto que aqui importa) violador da nossa grande tradição árabe — de tolerância e de livre civilização. E é na proporção em que formos os mantenedores do espírito árabe na Europa que teremos uma individualidade à parte.
Assim o espírito castelhano é fundamentalmente inimigo, no seu espírito, da Ibéria. Mas estes característicos, que tornam Castela magnificamente incompetente para hegemonizar na Ibéria admiravelmente a dispõem para equilibrar as tendências (em outros sentidos excessivas) dos dois outros povos ibéricos. Por onde se vê que tudo se acha harmonizado pelo Destino para a futura confederação.
O segundo grande inimigo da Ibéria é a França. O espírito francês é o grande inimigo do espírito comum às populações ibéricas. Grande inimigo não só na sua constituição espiritual, senão também nos efeitos que tem tido para a degradação e decadência do autêntico espírito ibérico. A França herdeira directa da tradição romana, no que ela tem de estreitamente grega, a França representa na Europa não um país criador (como a Itália de onde vem a arte, ou a Inglaterra, de onde nasce a política), mas um país distribuidor e aperfeiçoador dos elementos que os outros povos fornecem. Tão pouco criador é o espírito francês que, para obter a única ideia que dentro dele se realizou, teve de chamar um suíço, Jean-Jacques Rousseau, e para pôr fim magnificamente à anarquia que daí adveio, teve de descobrir um italiano, Bonaparte.
Lúcidos, completos no seu nível inferior, os franceses têm sido os corruptores danossa civilização ibérica. O seu espírito romano, sem a força romana, é fundamentalmente inimigo do nosso espírito romano-árabe, ao mesmo tempo complexo e intenso, e disciplinado e rude.
O terceiro inimigo da Ibéria é a Alemanha.
Mas aqui temos mais a temer o espírito alemão que a Alemanha propriamentedita. Estes herdaram o espírito romano na sua parte superior (ao contrário dos franceses que lhe herdaram a parte que já neles era secundária, porque basilarmente grega). Mas casaram-no com aquele curioso elemento de incompletidão que é distintivo dos bárbaros do Norte, que não sabem equilibrar duas coisas [...]
Nós, ibéricos, somos o cruzamento de duas civilizações — a romana e a árabe. Na França e na Alemanha a civilização romana existe sobreposta ao fundo original, sem outro influxo civilizacional. Somos, por isso, mais complexos e fecundos, de natureza, que a França ou Alemanha, que, quando tomarmos consciência da nossa ibericidade devem existir aproveitadamente no horizonte do nosso desprezo.
Fonte: texto de Fernando Pessoa
MÉRTOLA NO ALENTEJO: LEGADOS ROMANO, ÁRABE E CRISTÃO

* * *
Leitura muito instrutiva para quem, como eu, nada sabia sobre Nietzsche, da pessoa e das respectivas ideias.
A vida de Nietzsche dividiu-se em três fases fundamentais:
Em todas as fases há informações interessantíssimas mas vou apenas referir que:

(Edvard Munch)
Ideias-chave[i]
* * *
Sue Prideaux apresenta-nos um personagem bem diferente do que eu esperava como alguém com um verdadeiro sentido do humor, com gosto pela vida, abominando a beatice da mãe e o nazismo da irmã, um europeísta «avant la lettre», uma vítima da medicina arcaica, um doente para quem a ciência chegou tarde de mais.
Lido com interesse e com gosto.
Junho de 2020
Henrique Salles da Fonseca
[i] - Nesta secção, segui a Wikipédia e não o livro
Porque na vida ninguém pode ter tudo e viver é mesmo faltar sempre alguma coisa.
Branquinho da Fonseca, in "Caminhos Magnéticos" cit, p.51
In 3ª Consideração Intempestiva – Schopenhauer como educador
Temos de seguir um curso um pouco ousado e perigoso nesta vida em especial porque, aconteça o que acontecer, estamos destinados a perdê-la.
* * *
O artista está relacionado com os amantes da sua arte como um canhão pesado com um bando de pardais.
* * *
O Estado nunca tem qualquer serventia para a verdade como tal, apenas para a verdade que lhe é útil.
* * *
O Estado quer que os homens lhe prestem o mesmo culto que anteriormente prestavam à Igreja.

Foi no dia 13 de Agosto de 1876 que se inaugurou o Festival de Bayreuth no teatro cujo projecto e construção foram supervisionados pelo próprio Wagner. Tudo começou com «O anel dos Nibelungos» em que Siegfried mata o dragão. Este, ameaçado pelo herói, abana vigorosamente a cauda, revira os olhos e deita fumo pelas narinas.
É Cosima Wagner que nos conta nos seus diários que a única oficina que encontraram para fabricar uma máquina que, devidamente revestida imitando um dragão, abanasse a cauda, revirasse os olhos e contivesse depósitos que permitissem no momento certo fazer sair fumo pelas narinas do «boneco», se situava em Inglaterra. Adjudicado o trabalho, foi o dragão fabricado mas a montagem final das três partes, cauda, corpo e pescoço (e cabeça, presumo), deveria ser feita no destino.
Quase tudo bem. A cauda e o corpo chegaram a Bayreuth a tempo e horas mas o pescoço foi enviado para Beirute porque o funcionário do Despachante encarregado do envio dessa peça tinha problemas de audição. Ou seria o mandante do despacho que tinha problemas de dicção? Cosima não esclarece quem a lê mas o Festival foi inaugurado na data prevista, sem que nem o dragão nem Wagner perdessem a cabeça.
Imagine-se a gritaria histriónica que haveria e quantas cabeças rolariam se nas vésperas da inauguração do primeiro festival de folclore de Santa Marta de Tornozelo faltassem as pandeiretas…
Novembro de 2019
Henrique Salles da Fonseca
«Considerações Intempestivas» é o título geral de um conjunto de textos de Nietzsche e que, sob a forma de opúsculos, ele foi publicando à medida que os ia considerando concluídos[1] e em condições de divulgação.
A segunda Consideração tem a ver com a historiografia, ou seja, com a ciência e com a filosofia da História e intitula-se Da utilidade e das desvantagens da História para a vida.
A título de curiosidade, Nietzsche destrinça três tipos de interventores na História: o “antiquário” que procura preservar o passado; o “monumental” que procura emular o passado; o “crítico” que procura libertar o presente do passado.
Neste texto, Nietzsche disseca a realidade alemã do seu tempo alertando para que a obsessão das elites pelo passado estava a obstar à construção racional do presente.
Tomando em conta que o filósofo morreu no dia 25 de Agosto de 1900, temos que reconhecer que a «adivinhação» das dificuldades alemãs na construção de um presente racional se repercutiu muito para além do seu desaparecimento físico entre os homens conferindo-lhe uma efectiva capacidade de antevisão dos problemas por que a Alemanha haveria de passar. Por outras palavras, a loucura colectiva que assolou os alemães através do nazismo, tem raízes bem mais antigas do que aquelas que habitualmente se referem.
E estou mesmo em crer que Wagner tem algumas culpas no Cartório. Voltarei ao tema.
Novembro de 2019

Henrique Salles da Fonseca
[1]- Para saber mais, ver em «Considerações intempestivas – F. Nietzsche»
[Na década de 30 do séc. XX] os sociólogos, democratas, livre-pensadores, partidários da liberdade individual, confirmavam com a sua ciência os valores aos quais espontaneamente aderiam. Aos seus olhos, a estrutura da civilização presente (densidade ou solidariedade orgânica) exigia de algum modo as ideias igualitárias, a autonomia das pessoas. Os juízos de valor ganhavam, mais do que perdiam em dignidade, ao tornarem-se juízos colectivos. Substituía-se com toda a confiança a sociedade de Deus. Aliás, o termo «sociedade» não deixa de ser equívoco pois ora designa os colectivos reais, ura a ideia ou o ideal destes colectivos. Na verdade, só se aplica aos agrupamentos particulares, fechados sobre si mesmos, mas menos do que as palavras «pátria» ou «nação» e recorda as rivalidades e as guerras (não se imagina facilmente uma sociedade alargada aos limites da humanidade inteira). Dissimula os conflitos que assolam todas as comunidades humanas. Permite subordinar à unidade social as classes opostas e conceber uma moral nacional que seria sociológica sem ser política.
Ora, se este conceito designar o geral parcialmente incoerente dos factos sociais, desprovido de todo o prestígio emprestado, pergunto: não parece assim que o “sociologismo” junta, com uma relatividade sem limites, a redução dos valores a uma realidade mais natural do que espiritual, submetida a um determinismo e não aberta à liberdade?

In «Memórias» - ed. Guerra & Paz, Fevereiro de 2018, pág. 122
Que Nietzsche se dedicava à música era tema meu desconhecido até ter começado ler a biografia escrita por Sue Prideaux com edição portuguesa do Círculo de Leitores, Abril de 2019. Pelos vistos, sentava-se ao piano e lia à primeira vista qualquer partitura que lhe pusessem à frente e era também reconhecido nos meios estudantis como um grande improvisador.
Estando já na Suíça a dar aulas de Filologia Clássica na Universidade de Basileia, teve também oportunidade de se dedicar à composição. A amizade próxima que o ligava ao casal Wagner também o incentivaria nesse sentido.
E porque queria saber o que o Mestre pensava da sua obra, decidiu certo Natal oferecer uma composição a Cosima, mulher de Wagner e filha de Liszt, que se prontificou a tocá-la em conjunto com Hans Richter pois que se tratava duma peça a quatro mãos.
Mas as relações de Wagner e Nietzsche vinham azedando pois o compositor era totalmente germanófilo e o filósofo era a favor da Cultura Universal cuja sede era então em Paris. Mas, para além desta questão político-cultural, havia outro motivo de azedamento das relações entre os dois homens: querendo Nietzsche publicar o seu livro O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música, enviou o manuscrito ao editor de Wagner sem nada lhe dizer, o que levou o compositor a uma enorme irritação. E esta, sim, mais do que a discórdia política, foi a razão do muito mau feitio de Wagner para com Nietzsche naquela época. Mas, mesmo assim, o filósofo foi convidado para passar o Natal com os Wagner e, pelos vistos, também com o maestro Richter.
Retomando o fio, transcrevo da pág. 123 e seg. da obra citada:
Nietzsche considerava-se um compositor com algum talento e sentia-se exultante com a expectativa da admiração de Wagner. Quando Hans Richter e Cosima Wagner se sentaram finalmente ao piano de Tribschen para tocar o dueto para Wagner, o Mestre deu sinais de impaciência durante os vinte minutos que demorou a execução. A peça era típica das composições de Nietzsche neste período, um «pot pourri» de Bach, Schubert, Liszt e Wagner. Desconexas, demasiado emotivas e curtas no desenvolvimento, as suas composições despertam invariavelmente a ideia de que, caso tivesse vivido até mais tarde, talvez pudesse ter conhecido o êxito como compositor de música de cena para o cinema mudo. No entanto, por muito que rissem em privado, Wagner e Cosima calavam a fraca opinião que tinham da peça. Ela agradeceu-lhe a «bela carta» que acompanhava a prenda, mas não fez qualquer referência à música em si.
Posto o que a filosofia ficou com mais tempo na vida de Nietzsche.
Lisboa, 7 de Outubro de 2019
Henrique Salles da Fonseca
Quando mais te oferecem o braço do que to pedem,
Quando, na tua bancada, os remédios disputam o lugar dos cosméticos,
Quando a loção relaxante é substituída pelo creme analgésico,
Quando os óculos escuros passam a graduados,
Quando pensas na renovação da carta de condução,
Quando os teus netos se calam perante as tuas hesitações,
Quando o automobilista não protesta quando atravessas uma «zebra»,
Quando te pedem mais conselhos do que tos dão,
Quando tens mais tempo para pensar do que para fazer,
Então, isso significa que chegaste à idade da sabedoria,
Talvez não à plenitude nem à certeza da razão,
Mas, espero bem, à glória da compaixão.
Setembro de 2019
Henrique Salles da Fonseca
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