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A bem da Nação

LIDO COM INTERESSE – 91

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Título – O ELOGIO DA SEDE

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Autor – José Tolentino Mendonça

Editora – QUETZAL

Edição – 1ª, Abril de 2018

 

* * *

Sabemos que a imagem de um Deus intransigente e castigador lançou gerações numa paralisante angústia. (…) é necessário anunciar que a justiça de Deus não é punitiva mas sim uma justiça iluminada pela misericórdia

 

* * *

 

O livro começa com um prefácio do Papa Francisco

 

«Este caminho espiritual foi oferecido por si, que nos ajudou a sentirmo-nos procurados pela sede de Jesus, que não é uma sede de água, mas é maior: é sede de alcançar as nossas sedes, de entrar em contacto com as nossas feridas»

 

e conclui com um agradecimento também papal

 

«Obrigado, Padre e continue a rezar por nós»

 

pois que este é o guião do retiro espiritual que a Cúria Romana fez por altura da Quaresma de 2018 sob orientação do Padre José Tolentino Mendonça.

 

Entretanto, o Padre Tolentino foi nomeado Director dos Arquivos da Santa Sé e ordenado Arcebispo de Suava.

 

Como se depreende das palavras do Papa acima transcritas, o título é a apologia da busca da fé, mas é também um incitamento à pregação entre os infiéis.

 

Pese embora um estilo literário que me parece algo piegas, foram várias as passagens que prenderam a minha atenção.

 

Em vez de viver a sede do absoluto, Jean (personagem duma peça de Ionesco) escolheu viver o absoluto da sede. Por isso, tudo lhe parece ínfimo, insuficiente e mesquinho. Sobre todas as coisas espalha o mesmo veneno da lamúria, condenando-as. Esta sede, a que ele não consegue dar um rosto, faz dele um homem sem casa nem raízes, incapaz de criar laços, estrangeiro de si mesmo, perdido no labirinto onde escuta apenas o solitário rumor dos seus passos. (…) Uma sede que se torna numa grande insatisfação, numa desafeição em relação ao que é essencial, numa incapacidade de discernimento que nos empurra para os braços do consumismo. (…) A desilusão atira-nos para o círculo insone do consumo - (pág. 39 e seg.)

 

(…) as sociedades organizadas à roda do consumo, explorando avidamente as compulsões de satisfação de necessidades induzidas pela publicidade, estão na prática a remover a sede e o desejo tipicamente humanos. (…) promete libertar o desejo das inibições da lei e da moral em nome de uma satisfação ilimitada, mas quando o gozo, a paixão e a alegria se esgotam no consumismo desenfreado, chagamos à agonia do desejo. A vida perde horizonte, os tetos tornam-se cada vez mais baixos - (pág. 55)

 

Em vez de uma sede de futuro que nos projecta para a criatividade do dom, deixamo-nos enredar no sinuoso labirinto do pessimismo que recusa e descrê de qualquer horizonte – (pág. 64)

 

O Espírito (Santo) é o dinamismo do (Cristo) Ressuscitado em nós – (pág. 86)

 

A fé não é um pódio, é uma estrada (…) e a estrada tem mais a ensinar-nos do que a estalagem – (págs. 103 e 105)

 

Misericórdia é compaixão, é bondade, é perdão, é colocar-se no lugar do outro, é levar o outro aos ombros, é a reconciliação profunda - (pág. 132)

 

Sabemos que a imagem de um Deus intransigente e castigador lançou gerações numa paralisante angústia. (…) é necessário anunciar que a justiça de Deus não é punitiva mas sim uma justiça iluminada pela misericórdia – (pág. 136)

 

Finalmente, já é o Papa que faz humor no agradecimento ao Padre Tolentino pela forma como orientou o retiro da Cúria chamando a atenção para inúmeras circunstâncias em que o homem, mesmo o consagrado, é induzido ao pecado:

- Como dizia a madre superiora às suas irmãs: «Somos homens, pecadores, todos» - (pág. 166)

 

Abril de 2019

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Henrique Salles da Fonseca

RECAPITULANDO A HISTÓRIA

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Escreveu Raymond Aron (1905-1983) durante alguns anos (1952-54) de grande meditação e profunda tristeza pessoal (morte de uma filha) um livro que intitulou «L’opium des intelectuels» em que explica a sua oposição aos intelectuais franceses de então. Globalmente liderados por Sartre (que se servia de Simone de Beauvoir quando ele próprio não queria «dar a cara»), todos esses intelectuais se perfilavam pela esquerda, muitos deles de filiação comunista e outros lá perto mas sem filiação no PCF (caso do próprio Sartre).

 

Sobre este livro – de que estou a ler um resumo feito pelo próprio Aron nas suas «Memórias» [i] e de que escreverei mais – extraio da pág. 325 uma citação que Aron faz de um escrito de Sartre sobre a actuação comunista em França naquela década de 50:

 

Estou certo de que boa parte da estratégia da CGT [ii] na greve é muito mais comandada por fins militares longínquos do que por objectivos sociais evidentes.

 

Repito que se trata de escrito de Sartre que Aron apenas cita.

 

Ou seja, Aron nem precisou de se levantar contra a esquerda porque foi ela própria que fez a afirmação de que o estalinismo se dedicava a tácticas de mobilização de massas para bloquear França sempre que quisesse.

 

Isto foi em França nos anos 50 do séc. XX mas é precisamente o mesmo que vemos actualmente em Portugal com o surto interminável de greves e manifestações. Trata-se obviamente duma táctica de mobilização permanente de massas que a qualquer momento possa paralisar o país. Basta, para além das massas humanas, colocar uns camiões em pontos chave do trânsito para que o caos se instale. Já o fizeram várias vezes, não hesitarão repeti-lo.

 

Como fica patente, em Portugal a cartilha stalinista continua em vigor.

 

E onde está a legitimidade democrática e a defesa dos princípios humanistas pelas Forças Armadas e de Segurança? Provavelmente manietadas por infiltrações cirúrgicas.

 

Não estou, pois, apenas a recapitular a História, estou a olhar para o presente e a temer pelo futuro.

 

Abril de 2019

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Henrique Salles da Fonseca

 

 

 

                      

 

[i] - Pág. 312 e seg. ed. GUERRA & PAZ, Fevereiro de 2018

[ii] - Confédération Générale du Travail (central sindical comunista)

LIDO COM INTERESSE – 90

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Título – UMA HISTÓRIA DE AMOR E TREVAS

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Autor – Amos Oz

Tradutora – Lúcia Liba Mucznik

Editora – D. QUIXOTE

Edição – 1ª, Março de 2016

 

* * *

É logo da capa que se extrai a informação de que o livro deu em filme, o que induz de imediato a ideia de que se trata de obra pictórica e, talvez mesmo, animada. Pictórica, sim; animada, na nossa própria imaginação como o terá sido na da realizadora, Natalie Portman.

 

Eu já conhecia Amos Oz de um livrinho que ele publicou (não me lembro onde o tenho e se o li em inglês ou português) em que expõe as suas ideias políticas sobre Israel e o processo de paz que preconizava (morreu em finais de 2018) de modo a ultrapassar a tensão permanente entre judeus, árabes e palestinianos. Gostei do que então li e avancei para este livro (636 páginas de texto) cuja leitura tive pena de ver chegar ao fim. Até porque a autobiografia não é completa, muito terá ficado por contar. Fico à espera do trabalho futuro de algum biógrafo que nos relate o que aqui ficou por contar da vida deste que foi um dos mais importantes escritores israelitas.

 

Nascido Klausner, Oz decidiu mudar de nome não só por razões literárias mas também porque a certa altura decidiu mudar radicalmente de vida abandonando Jerusalém e optando por um kibbutz. Essa mudança radical aconteceu pouco tempo depois do suicídio da mãe e de o pai se ter casado novamente.

 

Mas para ter a certeza de que não estrago a futura leitura de quem me lê, inspiro-me na contracapa…

 

Amor e trevas são duas poderosas forças que se cruzam e acompanham a vida do Autor que nos guia numa fascinante viagem ao longo dos 120 anos de história da sua família e dos seus paradoxos.

 

Em busca das raízes remotas da sua tragédia familiar, Oz desvenda segredos e «esqueletos» de quatro gerações de sonhadores, intelectuais, homens de negócios mais ou menos fracassados ou mais ou menos prósperos, reformistas, sedutores antiquados e rebeldes ovelhas negras.

 

Celebridades históricas materializam-se em personagens autênticos, desde David Ben-Gurion a Menahem Begin e a escritores como Tchernikhovsky e ao nobelizado Agnon, todos eles algumas vezes passantes – ou passeantes - pela vida de Amos Oz.

 

* * *

 

Do que chamou a minha atenção:

 

  • Pensava que «renome mundial» significava ter pernas doentes porque eram frequentemente velhos com bengalas que coxeavam um pouco e andavam vestidos de fatos de lã grossa mesmo no Verão – pág. 9;

 

  • Em Jerusalém andava-se como num funeral ou como os espectadores atrasados num concerto: primeiro apalpava-se o terreno com a ponta do pé. Em seguida, depois de pousar o pé, não havia pressa em mexê-lo: se tínhamos levado dois mil anos a conseguir pôr o pé em Jerusalém, não íamos renunciar tão rapidamente. Porque se levantássemos o pé, podiam tirar-nos o pedaço de chão. Por outro, se já estava no ar, também não havia pressa em pousá-lo: sabe-se lá que ninho de víboras lá podia estar, que intrigas e maquinações. Durante dois mil anos tínhamos pago com sangue a nossa imprudência caindo constantemente nas mãos dos nossos inimigos porque pousávamos o pé sem medir bem as consequências. Era mais ou menos assim que se andava em Jerusalém. Mas em Telavive, qual quê! A cidade inteira parecia um gafanhoto. As pessoas, as casas, as ruas, as praças, o vento marítimo, as areias, as avenidas e até as nuvens corriam. Telavive era outro continente – pág. 14;

 

  • Sobre o mérito do escritor: Só há bênção se o murmúrio das asas assentar no suor e a inspiração nascer da perseverança e do rigor – pág. 68;

 

  • Um corredor estreito e comprido, o intestino da casa – pág. 68;

 

  • Diz o tio ao sobrinho: - Faz-me o favor de perguntar à tia onde está a pomada para a pele, o meu creme para o rosto. Diz-lhe, por favor, que é o antigo porque o novo não presta para nada. E saberás tu, por acaso, a enorme diferença que existe entre «O Redentor» na língua dos góis e o nosso «messias»? Para nós, messias é apenas alguém que foi ungido com óleo: todos os sacerdotes e reis da Bíblia são messias e em hebraico a palavra «messias» é uma palavra totalmente prosaica e de todos os dias, muito próxima da palavra «pomada» - ao contrário das línguas dos gentios nas quais «messias» é chamado «O Redentor» e «O Salvador» - pág. 82;

 

  • Sobre a cidade idealizada pelo «Amor de Sião» e a realidade: - A Jerusalém de ruas calcetadas de jaspe e ónix, com um anjo em cada esquina e por cima o céu a brilhar à luz dos sete firmamentos, não a cidade poeirenta, canicular e fanática – pág. 113 e seg.;

 

  • O avô nunca mudou a sua opinião (…): alguns dias depois da conquista da cidade velha de Jerusalém na Guerra dos Seis Dias, propôs que as nações do mundo ajudassem Israel a fazer regressar todos os árabes ao Levante, «com o maior respeito, sem tocar num único dos seus cabelos, nem se apropriar de uma galinha sequer», à sua pátria histórica, a que ele chamava «Sáudia Arábia»; «Tal como nós, judeus, regressamos agora à nossa pátria histórica, também eles devem ter o direito de regressar dignamente a casa, a Sáudia Arábia, de onde eles todos vieram – pág. 127 e seg.;

 

  • Dizia o outro avô, aquele a quem todos chamavam Papá – Há muito mais cores e cheiros do que palavras; a riqueza era pecado e a pobreza castigo mas, aparentemente, Deus queria que entre o crime e o castigo não houvesse relação nenhuma; um peca e o outro é castigado. Eis como o mundo é feito – pág. 196 e seg.;

 

  • E mais dizia o avô Papá: - Justiça sem compaixão é um açougue; compaixão sem justiça talvez fosse bom para Jesus mas não para os simples seres humanos que tinham comido a maçã do Mal – pág. 201;

 

  • Foi sempre assim nas famílias judias: os estudos constituíram sempre uma segurança para o futuro, a única coisa que ninguém jamais podia tirar aos filhos, mesmo que houvesse outra guerra, outra revolução, outra emigração ou outras perseguições – o diploma podia ser rapidamente dobrado e escondido no forro do casaco antes de fugir para um sítio onde fosse permitido os judeus viverem – pág. 223;

 

  • Dizia a mãe de Amos Oz que as sinagogas, as casas de estudo, as igrejas, os conventos e as mesquitas eram todos semelhantes, uns lugares aborrecidos que cheiravam aos corpos dos religiosos que se lavavam pouco; mesmo debaixo da nuvem pesada de incenso, sentiam-se os eflúvios enjoativos da carne mal lavada – pág. 336;

 

  • E agora é a vez de ser o pai do Autor a dizer que quem roubasse as ideias de um livro, era considerado um gatuno literário, autor de plágio; quem roubasse de cinco livros, não era considerado ladrão mas sim especialista; se roubasse de cinquenta livros, era um grande sábio – pág. 408;

 

  • Sobre quem é desprezado os gatos também têm o direito de olhar para os reis – pág. 619.

 

Sim, li com interesse e mesmo mais: com gosto.

 

Abril de 2019

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Henrique Salles da Fonseca

LEITURAS LENTAS – 1

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Título – O PESO DA RESPONSABILIDADE

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Autor – Tony Judt

Prefaciador – Rui Bebiano

Tradutora – Patrícia Xavier

Editora – Edições 70

Edição – Maio de 2018

 

A bem da verdade, deveria ter juntado o subtítulo «BLUM, CAMUS, ARON E O SÉCULO XX FRANCÊS» na ficha técnica inicial mas ficaria uma paginação muito pesada e optei por esta solução que me parece razoável.

 

* * *

 

Esta, a minha leitura principal enquanto viajei pelo mundo de Mafamede assim me fazendo recordar que nem tudo é Talião.

 

São 280 páginas de substância, fora, portanto, as habituais fichas técnicas, título, índices e etc.

 

Trata-se de uma apreciação da vida intelectual de três vultos da França do séc. XX, Léon Blum (que foi primeiro ministro duas vezes), Albert Camus (que foi Nobel da Literatura) e Raymond Aron (que foi um dos mais importantes filósofos modernos franceses).

 

Mas, curiosamente, nenhum deles entrou neste livro por ter sido o que acima refiro: Blum, por ter sido o civilizador do socialismo; Camus, entrou como o grande moralista; Aron, pelo rigor da sua análise social.

 

E é sobretudo nestas perspectivas que toda a obra se desenrola numa leitura fácil apesar de constantemente abordar temas difíceis. Porquê difíceis? Porque todos eles mobilizaram as elites intelectuais e políticas francesas durante quase todo o séc. XX em discussões públicas, tanto políticas como académicas (as que transpareceram cá para fora, que não foram poucas).

 

Não vale a pena ler a correr, o livro não foge. Eu não o li, saboreei-o.

 

* * *

 

Uma curiosidade que só pude constatar quando cheguei ao fim da substância: a primeira frase e uma das últimas merecem a minha incondicional concordância.

 

  • A primeira frase (pág. 25, primeira frase da substância relativa a Blum): A História não é escrita como foi vivida – que o diga quem, como eu, viveu o 25 de Abril de 1974 num turbilhão comunista em que as loas à liberdade ainda hoje apregoadas mais não são do que a liberdade que os comunistas adquiriram de mandar prender quem se lhes opunha.
  • Frase quase final (pág. 289, última página da substância relativa a Aron): Os intelectuais franceses, observou [Aron] um dia, não procuram nem compreender o mundo nem mudá-lo, mas denunciá-lo – eis ao que continuamos a assistir tantos anos depois da morte de Aron (1983) em que a contestação permanente tudo exige sem querer saber da plausibilidade das exigências nem das consequências de uma putativa satisfação dessas mesmas pretensões às quais não apresenta alternativas - talvez porque as não tenha e porque talvez mesmo nunca tenha querido tê-las. Denúncias irresponsáveis, portanto, a que os órgãos da comunicação dão muita cobertura criando uma tensão social que muitas vezes mais não conduz do que a becos. Porquê? Porque a tensão factura e os becos são problemas alheios, não das instituições da comunicação. Os outros que se danem porque eles, entretanto, já tiveram as audiências, as tais que facturam.

 

Muito mais haveria para contar mas nada melhor do que ser o meu leitor a fazê-lo directamente.

 

NOTA FINAL – A reler, Camus na sua perspectiva moral, sobretudo na da não ficção.

 

Boa leitura!

 

Abril de 2019

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Henrique Salles da Fonseca

(Amazónia, Março de 2016)

CARTA DE FERNANDO PESSOA A ADOLFO CASAIS MONTEIRO

 

Fernando Pessoa

Caixa Postal 147

Lisboa, 13 de Janeiro de 1935

 

Meu prezado Camarada:

 

Muito agradeço a sua carta, a que vou responder imediata e integralmente. Antes de, propriamente, começar, quero pedir-lhe desculpa de lhe escrever neste papel de cópia. Acabou-se-me o decente, é Domingo, e não posso arranjar outro. Mas mais vale, creio, o mau papel que o adiamento.

 

Em primeiro lugar, quero dizer-lhe que nunca eu veria «outras razões» em qualquer coisa que escrevesse, discordando, a meu respeito. Sou um dos poucos poetas portugueses que não decretou a sua própria infalibilidade, nem toma qualquer crítica, que se lhe faça, como um acto de lesa-divindade. Além disso, quaisquer que sejam os meus defeitos mentais, é nula em mim a tendência para a mania da perseguição. À parte isso, conheço já suficientemente a sua independência mental, que, se me é permitido dizê-lo, muito aprovo e louvo. Nunca me propus ser Mestre ou Chefe-Mestre, porque não sei ensinar, nem sei se teria que ensinar; Chefe, porque nem sei estrelar ovos. Não se preocupe, pois, em qualquer ocasião, com o que tenha que dizer a meu respeito. Não procuro caves nos andares nobres.

 

Concordo absolutamente consigo em que não foi feliz a estreia, que de mim mesmo fiz com um livro da natureza de «Mensagem». Sou, de facto, um nacionalista místico, um sebastianista racional. Mas sou, à parte isso, e até em contradição com isso, muitas outras coisas. E essas coisas, pela mesma natureza do livro, a «Mensagem» não as inclui.

 

Comecei por esse livro as minhas publicações pela simples razão de que foi o primeiro livro que consegui, não sei porquê, ter organizado e pronto. Como estava pronto, incitaram-me a que o publicasse: acedi. Nem o fiz, devo dizer, com os olhos postos no prémio possível do Secretariado, embora nisso não houvesse pecado intelectual de maior. O meu livro estava pronto em Setembro, e eu julgava, até, que não poderia concorrer ao prémio, pois ignorava que o prazo para entrega dos livros, que primitivamente fora até fim de Julho, fora alargado até ao fim de Outubro. Como, porém, em fim de Outubro já havia exemplares prontos da «Mensagem», fiz entrega dos que o Secretariado exigia. O livro estava exactamente nas condições (nacionalismo) de concorrer. Concorri.

 

Quando às vezes pensava na ordem de uma futura publicação de obras minhas, nunca um livro do género de «Mensagem» figurava em número um. Hesitava entre se deveria começar por um livro de versos grande — um livro de umas 350 páginas —, englobando as várias subpersonalidades de Fernando Pessoa ele mesmo, ou se deveria abrir com uma novela policiária, que ainda não consegui completar.

 

Concordo consigo, disse, em que não foi feliz a estreia, que de mim mesmo fiz, com a publicação de «Mensagem». Mas concordo com os factos que foi a melhor estreia que eu poderia fazer. Precisamente porque essa faceta — em certo modo secundária — da minha personalidade não tinha nunca sido suficientemente manifestada nas minhas colaborações em revistas (excepto no caso do Mar Português parte deste mesmo livro) — precisamente por isso convinha que ela aparecesse, e que aparecesse agora. Coincidiu, sem que eu o planeasse ou o premeditasse (sou incapaz de premeditação prática), com um dos momentos críticos (no sentido original da palavra) da remodelação do subconsciente nacional. O que fiz por acaso e se completou por conversa, fora exactamente talhado, com Esquadria e Compasso, pelo Grande Arquitecto.

 

(Interrompo. Não estou doido nem bêbado. Estou, porém, escrevendo directamente, tão depressa quanto a máquina mo permite, e vou-me servindo das expressões que me ocorrem, sem olhar a que literatura haja nelas. Suponha — e fará bem em supor, porque é verdade — que estou simplesmente falando consigo).

 

Respondo agora directamente às suas três perguntas:

(1) plano futuro da publicação das minhas obras,

(2) génese dos meus heterónimos, e

(3) ocultismo.

 

Feita, nas condições que lhe indiquei, a publicação da «Mensagem», que é uma manifestação unilateral, tenciono prosseguir da seguinte maneira. Estou agora completando uma versão inteiramente remodelada do Banqueiro Anarquista, essa deve estar pronta em breve e conto, desde que esteja pronta, publicá-la imediatamente. Se assim fizer, traduzo imediatamente esse escrito para inglês, e vou ver se o posso publicar em Inglaterra. Tal qual deve ficar, tem probabilidades europeias. (Não tome esta frase no sentido de Prémio Nobel imanente). Depois — e agora respondo propriamente à sua pergunta, que se reporta a poesia — tenciono, durante o verão, reunir o tal grande volume dos poemas pequenos do Fernando Pessoa ele mesmo, e ver se o consigo publicar em fins do ano em que estamos. Será esse o volume que o Casais Monteiro espera, e é esse que eu mesmo desejo que se faça. Esse, então, será as facetas todas, excepto a nacionalista, que «Mensagem» já manifestou.

 

Referi-me, como viu, ao Fernando Pessoa só. Não penso nada do Caeiro, do Ricardo Reis ou do Álvaro de Campos. Nada disso poderei fazer, no sentido de publicar, excepto quando (ver mais acima) me for dado o Prémio Nobel. E contudo — penso-o com tristeza — pus no Caeiro todo o meu poder de despersonalização dramática, pus em Ricardo Reis toda a minha disciplina mental, vestida da música que lhe é própria, pus em Álvaro de Campos toda a emoção que não dou nem a mim nem à vida. Pensar, meu querido Casais Monteiro, que todos estes têm que ser, na prática da publicação, preteridos pelo Fernando Pessoa, impuro e simples!

 

Creio que respondi à sua primeira pergunta.

 

Se fui omisso, diga em quê. Se puder responder, responderei. Mais planos não tenho, por enquanto. E, sabendo eu o que são e em que dão os meus planos, é caso para dizer, Graças a Deus!

 

Passo agora a responder à sua pergunta sobre a génese dos meus heterónimos. Vou ver se consigo responder-lhe completamente.

 

Começo pela parte psiquiátrica. A origem dos meus heterónimos é o fundo traço de histeria que existe em mim. Não sei se sou simplesmente histérico, se sou, mais propriamente, um histero-neurasténico. Tendo para esta segunda hipótese, porque há em mim fenómenos de abulia que a histeria, propriamente dita, não enquadra no registo dos seus sintomas. Seja como for, a origem mental dos meus heterónimos está na minha tendência orgânica e constante para a despersonalização e para a simulação. Estes fenómenos — felizmente para mim e para os outros — mentalizaram-se em mim; quero dizer, não se manifestam na minha vida prática, exterior e de contacto com outros; fazem explosão para dentro e vivo — os eu a sós comigo. Se eu fosse mulher — na mulher os fenómenos histéricos rompem em ataques e coisas parecidas — cada poema de Álvaro de Campos (o mais histericamente histérico de mim) seria um alarme para a vizinhança. Mas sou homem — e nos homens a histeria assume principalmente aspectos mentais; assim tudo acaba em silêncio e poesia...

 

Isto explica, tant bien que mal, a origem orgânica do meu heteronimismo. Vou agora fazer-lhe a história directa dos meus heterónimos. Começo por aqueles que morreram e de alguns dos quais já me não lembro — os que jazem perdidos no passado remoto da minha infância quase esquecida.

 

Desde criança tive a tendência para criar em meu torno um mundo fictício, de me cercar de amigos e conhecidos que nunca existiram. (Não sei, bem entendido, se realmente não existiram, ou se sou eu que não existo. Nestas coisas, como em todas, não devemos ser dogmáticos).

 

Desde que me conheço como sendo aquilo a que chamo «eu», me lembro de precisar mentalmente, em figura, movimentos, carácter e história, várias figuras irreais que eram para mim tão visíveis e minhas como as coisas daquilo a que chamamos, porventura abusivamente, a vida real. Esta tendência, que me vem desde que me lembro de ser um «eu», tem-me acompanhado sempre, mudando um pouco o tipo de música com que me encanta mas não alterando nunca a sua maneira de encantar.

 

Lembro, assim, o que me parece ter sido o meu primeiro heterónimo, ou, antes, o meu primeiro conhecido inexistente — um certo Chevalier de Pas dos meus seis anos, por quem escrevia cartas dele a mim mesmo e cuja figura, não inteiramente vaga, ainda conquista aquela parte da minha afeição que confina com a saudade. Lembro-me, com menos nitidez, de uma outra figura, cujo nome já me não ocorre mas que o tinha estrangeiro também, que era, não sei em quê, um rival do Chevalier de Pas... Coisas que acontecem a todas as crianças? Sem dúvida — ou talvez. Mas a tal ponto as vivi que as vivo ainda, pois que as relembro de tal modo que é mister um esforço para me fazer saber que não foram realidades.

 

Esta tendência para criar em torno de mim um outro mundo, igual a este mas com outra gente, nunca me saiu da imaginação. Teve várias fases, entre as quais esta, sucedida já em maioridade. Ocorria-me um dito de espírito, absolutamente alheio, por um motivo ou outro, a quem eu sou, ou a quem suponho que sou. Dizia-o, imediatamente, espontaneamente, como sendo de certo amigo meu, cujo nome inventava, cuja história acrescentava e cuja figura — cara, estatura, traje e gesto — imediatamente eu via diante de mim. E assim arranjei e propaguei vários amigos e conhecidos que nunca existiram mas que ainda hoje, a perto de trinta anos de distância, oiço, sinto, vejo. Repito: oiço, sinto vejo... E tenho saudades deles.

 

(Em eu começando a falar — e escrever à máquina é para mim falar —, custa-me a encontrar o travão. Basta de maçada para si, Casais Monteiro! Vou entrar na génese dos meus heterónimos literários, que é, afinal, o que V. quer saber. Em todo o caso, o que vai dito acima dá-lhe a história da mãe que os deu à luz).

 

Aí por 1912, salvo erro (que nunca pode ser grande), veio-me à ideia escrever uns poemas de índole pagã. Esbocei umas coisas em verso irregular (não no estilo Álvaro de Campos, mas num estilo de meia regularidade) e abandonei o caso. Esboçara-se-me, contudo, numa penumbra mal urdida, um vago retrato da pessoa que estava a fazer aquilo. (Tinha nascido, sem que eu soubesse, o Ricardo Reis).

 

Ano e meio ou dois anos depois, lembrei-me um dia de fazer uma partida ao Sá-Carneiro — de inventar um poeta bucólico, de espécie complicada e apresentar-lho, já me não lembro como, em qualquer espécie de realidade. Levei uns dias a elaborar o poeta mas nada consegui. Num dia em que finalmente desistira — foi em 8 de Março de 1914 — acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título, O Guardador de Rebanhos. E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre. Foi essa a sensação imediata que tive. E tanto assim que, escritos que foram esses trinta e tantos poemas, imediatamente peguei noutro papel e escrevi, a fio também, os seis poemas que constituem a Chuva Oblíqua, de Fernando Pessoa. Imediatamente e totalmente... Foi o regresso de Fernando Pessoa. Alberto Caeiro a Fernando Pessoa, ele só. Ou, melhor, foi a reacção de Fernando Pessoa contra a sua inexistência como Alberto Caeiro.

 

Aparecido Alberto Caeiro, tratei logo de lhe descobrir — instintiva e subconscientemente — uns discípulos. Arranquei do seu falso paganismo o Ricardo Reis latente, descobri-lhe o nome, e ajustei-o a si mesmo, porque nessa altura já o via. E, de repente e em derivação oposta à de Ricardo Reis, surgiu-me impetuosamente um novo indivíduo. Num jacto e à máquina de escrever, sem interrupção nem emenda, surgiu a Ode Triunfal de Álvaro de Campos — a Ode com esse nome e o homem com o nome que tem.

 

Criei, então, uma coterie inexistente. Fixei aquilo tudo em moldes de realidade. Graduei as influências, conheci as amizades, ouvi, dentro de mim, as discussões e as divergências de critérios e em tudo isto me parece que fui eu, criador de tudo, o menos que ali houve. Parece que tudo se passou independentemente de mim. E parece que assim ainda se passa. Se algum dia eu puder publicar a discussão estética entre Ricardo Reis e Álvaro de Campos, verá como eles são diferentes e como eu não sou nada na matéria.

 

Quando foi da publicação de «Orpheu», foi preciso, à última hora, arranjar qualquer coisa para completar o número de páginas. Sugeri então ao Sá-Carneiro que eu fizesse um poema «antigo» do Álvaro de Campos — um poema de como o Álvaro de Campos seria antes de ter conhecido Caeiro e de ter caído sob a sua influência. E assim fiz o Opiário, em que tentei dar todas as tendências latentes do Álvaro de Campos, conforme haviam de ser depois reveladas, mas sem haver ainda qualquer traço de contacto com o seu mestre Caeiro. Foi, dos poemas que tenho escrito, o que me deu mais que fazer, pelo duplo poder de despersonalização que tive que desenvolver. Mas, enfim, creio que não saiu mau e que dá o Álvaro em botão...

 

Creio que lhe expliquei a origem dos meus heterónimos.

 

Se há, porém, qualquer ponto em que precisa de um esclarecimento mais lúcido — estou escrevendo depressa e quando escrevo depressa não sou muito lúcido —, diga, que de bom grado lho darei. E, é verdade, um complemento verdadeiro e histérico: ao escrever certos passos das Notas para recordação do meu Mestre Caeiro, do Álvaro de Campos, tenho chorado lágrimas verdadeiras. É para que saiba com quem está lidando, meu caro Casais Monteiro!

 

Mais uns apontamentos nesta matéria... Eu vejo diante de mim, no espaço incolor mas real do sonho, as caras, os gestos de Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Construi-lhes as idades e as vidas. Ricardo Reis nasceu em 1887 (não me lembro do dia e mês, mas tenho-os algures), no Porto, é médico e está presentemente no Brasil. Alberto Caeiro nasceu em 1889 e morreu em 1915; nasceu em Lisboa, mas viveu quase toda a sua vida no campo. Não teve profissão nem educação quase alguma. Álvaro de Campos nasceu em Tavira, no dia 15 de Outubro de 1890 (às 1.30 da tarde, diz-me o Ferreira Gomes; e é verdade, pois, feito o horóscopo para essa hora, está certo). Este, como sabe, é engenheiro naval (por Glasgow), mas agora está aqui em Lisboa em inactividade. Caeiro era de estatura média, e, embora realmente frágil (morreu tuberculoso), não parecia tão frágil como era. Ricardo Reis é um pouco, mas muito pouco, mais baixo, mais forte, mas seco. Álvaro de Campos é alto (1,75 m de altura, mais 2 cm do que eu), magro e um pouco tendente a curvar-se. Cara rapada todos — o Caeiro louro sem cor, olhos azuis; Reis de um vago moreno mate; Campos entre branco e moreno, tipo vagamente de judeu português, cabelo, porém, liso e normalmente apartado ao lado, monóculo. Caeiro, como disse, não teve mais educação que quase nenhuma — só instrução primária; morreram-lhe cedo o pai e a mãe e deixou-se ficar em casa, vivendo de uns pequenos rendimentos. Vivia com uma tia velha, tia-avó. Ricardo Reis, educado num colégio de jesuítas, é, como disse, médico; vive no Brasil desde 1919, pois se expatriou espontaneamente por ser monárquico. É um latinista por educação alheia e um semi-helenista por educação própria. Álvaro de Campos teve uma educação vulgar de liceu; depois foi mandado para a Escócia estudar engenharia, primeiro mecânica e depois naval. Numas férias fez a viagem ao Oriente de onde resultou o Opiário. Ensinou-lhe latim um tio beirão que era padre.

 

Como escrevo em nome desses três?... Caeiro, por pura e inesperada inspiração, sem saber ou sequer calcular que iria escrever. Ricardo Reis, depois de uma deliberação abstracta, que subitamente se concretiza numa ode. Campos, quando sinto um súbito impulso para escrever e não sei o quê. (O meu semi-heterónimo Bernardo Soares, que aliás em muitas coisas se parece com Álvaro de Campos, parece sempre que está cansado ou sonolento, de sorte que tem um pouco suspensas as qualidades de raciocínio e de inibição; aquela prosa é um constante devaneio. É um semi-heterónimo porque, não sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha, mas uma simples mutilação dela. Sou eu menos o raciocínio e a afectividade. A prosa, salvo o que o raciocínio dá de ténue à minha, é igual a esta, e o português perfeitamente igual; ao passo que Caeiro escrevia mal o português, Campos razoavelmente mas com lapsos como dizer «eu próprio» em vez de «eu mesmo», etc., Reis melhor do que eu, mas com um purismo que considero exagerado. O difícil para mim é escrever a prosa de Reis — ainda inédita — ou de Campos. A simulação é mais fácil, até porque é mais espontânea, em verso).

 

Nesta altura, estará o Casais Monteiro pensando que má sorte o fez cair, por leitura, em meio de um manicómio. Em todo o caso, o pior de tudo isto é a incoerência com que o tenho escrito. Repito, porém: escrevo como se estivesse falando consigo, para que possa escrever imediatamente. Não sendo assim, passariam meses sem eu conseguir escrever.

 

Falta responder à sua pergunta quanto ao ocultismo.

 

Pergunta-me se creio no ocultismo. Feita assim, a pergunta não é bem clara; compreendo, porém, a intenção e a ela respondo.

 

Creio na existência de mundos superiores ao nosso e de habitantes desses mundos, em experiências de diversos graus de espiritualidade, subtilizando até se chegar a um Ente Supremo que presumivelmente criou este mundo.

 

Pode ser que haja outros Entes, igualmente Supremos, que hajam criado outros universos e que esses universos coexistam com o nosso, interpenetradamente ou não. Por estas razões e ainda outras, a Ordem Extrema do Ocultismo, ou seja, a Maçonaria, evita (excepto a Maçonaria anglo-saxónica) a expressão «Deus», dadas as suas implicações teológicas e populares e prefere dizer «Grande Arquitecto do Universo», expressão que deixa em branco o problema de se Ele é criador, ou simples Governador do mundo.

 

Dadas estas escalas de seres, não creio na comunicação directa com Deus mas, segundo a nossa afinação espiritual, poderemos ir comunicando com seres cada vez mais altos.

 

Há três caminhos para o oculto: o caminho mágico (incluindo práticas como as do espiritismo, intelectualmente ao nível da bruxaria, que é magia também); caminho místico, que não tem propriamente perigos mas é incerto e lento; e o que se chama o caminho alquímico, o mais difícil e o mais perfeito de todos, porque envolve uma transmutação da própria personalidade que a prepara, sem grandes riscos, antes com defesas que os outros caminhos não têm. Quanto a «iniciação» ou não, posso dizer-lhe só isto, que não sei se responde à sua pergunta: não pertenço a Ordem Iniciática nenhuma. A citação, epígrafe ao meu poema Eros e Psique, de um trecho (traduzido, pois o Ritual é em latim) do Ritual do Terceiro Grau da Ordem Templária de Portugal, indica simplesmente — o que é facto — que me foi permitido folhear os Rituais dos três primeiros graus dessa Ordem, extinta, ou em dormência desde cerca de 1881. Se não estivesse em dormência, eu não citaria o trecho do Ritual, pois se não devem citar (indicando a ordem) trechos de Rituais que estão em trabalho.

 

Creio assim, meu querido camarada, ter respondido, ainda com certas incoerências, às suas perguntas. Se há outras que deseja fazer, não hesite em fazê-las. Responderei conforme puder e o melhor que puder. O que poderá suceder e isso me desculpará desde já, é não responder tão depressa.

 

Abraça-o o camarada que muito o estima e admira,

FPessoa-«V-Império»Desenho.jpg

Fernando Pessoa

 

 

PALAVRAS SÁBIAS

Se a felicidade residisse nos prazeres do corpo, deveriam chamar-se felizes os bois quando encontram ervilhas para comer.

 

Heráclito de Éfeso.jpg

HERÁCLITO DE ÉFESO

In A FILOSOFIA NO SÉCULO XX, Fritz Heinemann, ed. Fundação Calouste Gulbenkian, 7ª edição, Outubro de 2010, pág. 72

 

 

A POMADA

 

Diz o tio ao sobrinho:

- Faz-me o favor de perguntar à tia onde está a pomada para a pele, o meu creme para o rosto. Diz-lhe, por favor, que é o antigo porque o novo não presta para nada. E saberás tu, por acaso, a enorme diferença que existe entre «O Redentor» na língua dos góis e o nosso «messias»? Para nós, messias é apenas alguém que foi ungido com óleo: todos os sacerdotes e reis da Bíblia são messias e em hebraico a palavra «messias» é uma palavra totalmente prosaica e de todos os dias, muito próxima da palavra «pomada» - ao contrário das línguas dos gentios nas quais «messias» é chamado «O Redentor» e «O Salvador».

 

* * *

Yosef Klausner.jpg

 

O tio era Yosef Klausner (1874-1958) - professor de História e Literatura na Universidade de Jerusalém, foi candidato (derrotado a favor de Chaim Weizmann) à presidência de Israel nas primeiras eleições pós-independência, principal redactor da Enciclopédia Hebraica.

Amos Oz.png

 

O sobrinho era o escritor Amos Oz (1939-2018) de cuja autobiografia romanceada «Uma história de amor e trevas», transcrevi o breve trecho[1] acima.

 

Fevereiro de 2019

Navegando arquipélago Estocolmo.jpg

Henrique Salles da Fonseca

 

[1] - Publicações D. Quixote, 1ª edição, Março de 2016, pág.82

IN MEMORIAM…

 

… a um amigo que já não sofre mais.

 

18 de Fevereiro de 2019

31DEZ18-Estocolmo.jpg

Henrique Salles da Fonseca

 

https://www.youtube.com/watch?v=CaexXJ6UFnw

 

E AGORA, JOSÉ?

 

E agora, José?

A festa acabou,

A luz apagou,

O povo sumiu,

A noite esfriou,

E agora, José?

E agora, você?

Você que é sem nome,

Que zomba dos outros,

Você que faz versos,

Que ama, protesta?

E agora, José?

 

Está sem discurso,

Já não pode beber,

Já não pode fumar,

Cuspir já não pode,

A noite esfriou,

O dia não veio,

O bonde não veio,

O riso não veio,

Não veio a utopia

E tudo acabou

E tudo fugiu

E tudo mofou,

E agora, José?

 

E agora, José?

Sua doce palavra,

Seu instante de febre,

Sua gula e jejum,

Sua biblioteca,

Sua lavra de ouro,

Seu terno de vidro,

Sua incoerência,

Seu ódio — e agora?

 

Com a chave na mão

Quer abrir a porta,

Não existe porta;

Quer morrer no mar,

Mas o mar secou;

Quer ir para Minas,

Minas não há mais.

José, e agora?

 

Se você gritasse,

Se você gemesse,

Se você tocasse

A valsa vienense,

Se você dormisse,

Se você cansasse,

Se você morresse...

Mas você não morre,

Você é duro, José!

 

Sozinho no escuro

Qual bicho-do-mato,

Sem teogonia,

Sem parede nua

Para se encostar,

Sem cavalo preto

Que fuja a galope,

Você marcha, José!

José, para onde?

 

1942

Carlos Drummond de Andrade.jpg

Carlos Drummond de Andrade

PERGUNTEM AO PAPA!

Papa Francisco.png

 

Foi em 1964, pelos seus 28 anos de idade, que o Padre Jorge Bergoglio ensinou literatura nos dois últimos anos do Liceu no Colégio de la Inmaculata Concepción em Santa Fé [1].

 

Encaminhando os alunos para a escrita criativa, sigamos a narrativa do Papa Francisco:

 

Foi uma coisa um pouco arriscada. Devia fazer de tal modo que os meus alunos estudassem «El Cid». Mas os rapazes não gostavam. Pediam-me para ler Garcia Lorca. Então, decidi que deveriam estudar «El Cid» em casa e durante as lições eu trataria os autores de que os rapazes mais gostavam. Obviamente, os jovens queriam ler as obras literárias mais “picantes”, contemporâneas como «La casada infiel» ou clássicas como «La Celestina» de Fernando de Rojas. Mas ao ler estas coisas que os atraíam naquele momento, ganhavam mais gosto em geral pela literatura, pela poesia e passavam a outros autores. Para mim, esta foi uma grande experiência. Cumpri o programa mas de modo desestruturado, isto é, não ordenado segundo aquilo que estava previsto, mas segundo uma ordem que resultava natural da leitura dos autores. E esta modalidade tinha muito que ver comigo: não gostava de fazer uma programação rígida, mas eventualmente saber mais ou menos onde chegar. Então comecei também a fazê-los escrever. No final, decidi dar a ler a Borges [2] dois contos escritos pelos meus rapazes. Conhecia a sua secretária, que tinha sido a minha professora de piano. Borges gostou muitíssimo e então ele propôs escrever a introdução de uma colectânea.

 

Perguntar-se-á agora o que chamou a minha atenção em história tão plausível e, quase diria, banal...

 

Inesperadamente, o que chamou a minha atenção foi aquela Senhora que secretariava um escritor da envergadura universal de Jorge Luís Borges e que foi professora de piano dum futuro Papa.

 

Dá para imaginar a estatura humana e cultural daquela porteña (nome atribuído aos naturais de Buenos Aires) anónima? Quantas pessoas assim fantásticas andarão por aí escondidas e esquecidas?

 

E quem era ela?

 

Perguntem ao Papa!

Henrique à porta do Seminário de Rachol, Goa.JPG

Henrique Salles da Fonseca

(à porta do Seminário de Rachol, Goa, NOV15)

 

BIBLIOGRAFIA:

Entrevista exclusiva do Papa Francisco às revistas da Companhia de Jesus”, António Spadaro, SJ, BROTÉRIA – Agosto/Setembro de 2013, pág. 112 e seg.

 

[1] A cerca de 500 kms a noroeste de Buenos Aires, Argentina

[2] Jorge Luís Borges, primeiro laureado com o «Prémio Formentor de Literatura» em 1961

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