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A bem da Nação

SHALOM – 8

 

 

Bom dia! Eram 7,30 da manhã quando o motorista pôs o autocarro a andar connosco já lá dentro depois de, mais uma vez, nos termos levantado de madrugada, arranjado, tomado o pequeno-almoço e passado pelo crivo da Segurança do Estado de Israel ao fundo da escada do portaló. O nosso destino era uma visita a Yardenit, junto ao Mar da Galileia (Lago Tiberíades) e a Nazaré.

 

Lá fomos novamente pelo sopé do Monte Carmelo (que entretanto aprendi significar «jardim») até encontrarmos o mega cruzamento rodoviário onde está o sósia do Walter Ulbricht no logótipo do Kentucky Fried Chicken. Virámos à esquerda e mesmo assim passámos-lhe à direita. Não há dúvida, o tipo era mesmo das esquerdas e contagiou o sósia!

 

Logo de seguida voltámos a ver campos primorosamente amanhados e a certa altura ficámos com um extenso lago ao nosso lado esquerdo. Tratava-se de um lago artificial destinado a abastecer todo o litoral do país com água captada no Lago Tiberíades que, por esse motivo, raramente tem capacidade para abastecer o Rio Jordão. E como é o Jordão que abastece o Mar Morto, há que fazer alguma coisa para que este não morra mesmo. O quê? Pois parece que o Governo aprovou finalmente o projecto de captar água no Mar Vermelho dessalinizando-a e elevando-a à altura suficiente para que depois escorra para norte em direcção ao Mar Morto. O nosso guia «José por um dia que afinal já eram dois» não estava informado de quando começam os trabalhos que admito possam constituir um bom pretexto de emprego para alguns desempregados portugueses. Tenho quase a certeza de que Israel preferirá mão-de-obra mais ou menos competente importada de Portugal do que ficar dependente da força laboral dos árabes.

 

E lá fomos andando nestas conversas até ao miradouro sobre o Mar da Galileia (Lago Tiberíades) onde parámos para ver a paisagem. Foi neste percurso que passámos por uma aldeia com um hospital bastante maior do que as necessidades locais de saúde poderiam justificar. E à pergunta do porquê de um hospital tão grande em terra tão pequena, logo ficámos a saber que se trata de um estabelecimento hospitalar público que foi recentemente ampliado para acolher os civis sírios vítimas da guerra civil em curso na Síria. Afinal, os judeus não são assim tão maus como os pintam.

 

 

Yardenit, o nosso primeiro destino, localiza-se junto das comportas que controlam os fluxos de água do Mar da Galileia para o Jordão e constitui um local aprazível onde os peregrinos se podem purificar nas águas santas do rio. É sabido que S. João baptizou Cristo num local bem mais a sul, frente a Jericó, mas essa era uma zona perigosa durante a guerra israelo-árabe e foi escolhido este local como bem mais seguro para os peregrinos que reconhecem santidade a todo o percurso do Jordão. Aliás, foi na região circundante do Mar da Galileia que Jesus encontrou os seus primeiros discípulos (Pedro, André, João, Mateus e Tiago, o Maior) e onde realizou diversos milagres (curando a sogra de S. Pedro, ressuscitando uma criança que tinha sido dada como morta, curando um leproso, devolvendo a saúde ao servente de um centurião). Ou seja, o local é muito apropriado para os efeitos da purificação a que o baptismo se refere. E se antes esta purificação era também física, hoje ela é eminentemente espiritual. A quantidade de peregrinos justifica bem a dimensão das instalações de apoio onde voltei a encontrar um numeroso grupo de africanos que desta feita eram cristãos do Gana e não judeus do Biafra como os que encontrei nas redondezas do Monte Sião. Nós, os do nosso autocarro, só molhámos os pés mas os africanos foram aos vestiários onde se despiram e envergaram umas togas brancas com as quais entraram no rio até ficarem totalmente submersos. Sem qualquer cerimónia específica, sempre diziam uma prece (para mim ininteligível pois que me pareceu numa língua minha desconhecida) e manifestavam sonora satisfação pela purificação que sentiam. Deu gosto ver. E voltei a pensar em como são felizes os que têm fé.

 

Dali seguimos para Nazaré com passagem (sem paragem) por Canaã onde o nosso guia chamado «José por um dia que afinal já eram dois» nos apontou o local da casa onde, diz a tradição, ocorreram as bodas em que Jesus transformou a água em vinho. Infelizmente não houve tempo para passar sequer pelo Monte das Beatitudes onde Jesus terá proclamado o Sermão da Montanha... «Felizes os pobres de espírito pois deles será o Reino dos Céus...».

 

Nazaré é hoje uma cidade mas nos tempos bíblicos era uma pequena localidade com muitas grutas que os habitantes adaptavam a habitações. Foi naturalmente essa a opção de S. José e de Nossa Senhora e foi numa gruta, portanto, que o Anjo anunciou a Maria que geraria o Filho de Deus.

 

Actualmente governada por uma vereação muçulmana pois a vereação anterior, cristã, terá primado pelo imobilismo e foi derrotada nas eleições anteriores, em Nazaré não fomos assoberbados por qualquer muezzin ou sua gravação mas ao subirmos a rua que do largo principal conduz à Basílica da Anunciação, deparei com um cartaz publicitário em inglês que dizia qualquer coisa do género: «Vocês, cristãos, têm uma religião que só anuncia mas nós, muçulmanos, temos a autêntica religião, a do verdadeiro Deus.» Logo pensei que o muezzin tinha de ser substituído por qualquer outra agressão. E, sim, ali estava ela!

 

 

Era meio-dia quando entrámos na Basílica da Anunciação e tivemos a sorte de ter que esperar um pouco para que na Gruta os monges franciscanos acolitassem um Padre na oração do Angelus. Muitos sentimentos emotivos no nosso grupo e nos peregrinos que nos rodeavam, desta vez japoneses. Também ali a arquitectura (moderna) envolvente do lugar sagrado tende a desviar a atenção do fundamental. Mas aqui a decoração é muito mais sóbria do que em Belém ou Jerusalém onde os ortodoxos dão largas ao seu sentido estético.

 

Concluída a visita, eis que pelos auriculares ouvimos o nosso guia «José por dois dias» a convocar-nos para o autocarro a fim de regressarmos a Haifa para embarcarmos, almoçarmos e zarparmos de regresso a Chipre.

 

À laia de fechadura destas crónicas, para dizer que, afinal, ainda havia alguma coisa por dizer relativamente à Terra Santa – quanto mais não fossem os sentimentos pessoais e o que as circunstâncias da viagem me foram trazendo à memória.

 

Espero não ter maçado muito e recomendo que, logo que possam, não deixem de visitar um país construído com paixão, Israel.

 

Deo volente, nobis viventibus

 

Abril de 2014

 

 Henrique Salles da Fonseca

SHALOM – 7

 

 

Como eu ia dizendo, «eram horas do regresso a Haifa onde nos aguardava o hotel flutuante, o nosso barco «La belle de l’Adriatique». A viagem far-se-ia pela auto-estrada que já percorrêramos nessa manhã mas, entretanto, vimos por fora as muralhas de Jerusalém e lembrei-me...»

 

 ... do primeiro bispo de Jerusalém, S. Tiago, o Justo, a quem S. Mateus e S. Marcos intitulam de «irmão de Jesus» mas que, afinal, pode ter sido seu primo por confusão nas línguas hebraica e aramaica que não possuem termo apropriado para indicar os primos e os designam com a mesma palavra que significa irmãos no sentido sanguíneo. Lembrei-me também de que foi no intervalo entre os mandatos de dois governadores romanos da Judeia que o Sinédrio condenou S. Tiago à morte por apedrejamento sendo depois atirado das muralhas. Contudo, os cristãos fizeram-lhe túmulo no local da queda pelo que a sua memória perdurou mais substancialmente do que apenas pelos relatos escritos. Não fui capaz de identificar o local porque perguntei pelo túmulo de S. Jaime, podendo assim ter gerado alguma confusão em quem não sabe dessas etimologias. Sim, Tiago é a origem de Jaime.

 

Creio que foi assim que se desfez a nascente Igreja de Jerusalém prevalecendo a de Roma.

 

 

 

E a propósito de primeiro, lembrei-me de Balduíno, o primeiro cristão a ter o título de rei de Jerusalém, sucessor do seu irmão Godofredo de Bulhão. Nesta sucessão histórica de primeiros, já referi Paulo VI que foi o primeiro sucessor de S. Pedro a visitar a Terra Santa e entretanto entrámos na auto-estrada perdendo Jerusalém de vista e passando a ver um muro de cimento separando-nos das terras administradas pelos árabes.

 

 

 

Até que também o muro desapareceu no horizonte e este se escureceu com a chegada da noite.

 

Ao fim de duas horas de viagem chegámos ao nosso barco, jantámos a correr e recolhemos ao vale dos lençóis com muita determinação pois no dia seguinte seria a vez de nos levantarmos com o Sol e visitarmos o Mar da Galileia e Nazaré.

 

Até amanhã e boa noite!

 

Abril de 2014

 

 Henrique Salles da Fonseca

SHALOM – 6

 

 

Creio que em hebreu «beth» significa «casa» e «lehem» significa «pão». Se não é assim é porque é exactamente ao contrário mas o Google Translator não me ajudou nada pois escreve o hebreu nos caracteres hebraicos e nisso eu sou analfabeto. De qualquer modo, o nosso guia «José por um dia» disse-nos que Bethlehem significa «casa do pão» no sentido de que se tratava de terra fértil. Admitamos, pois, que nos tempos bíblicos, Belém, então uma pequena aldeia, tenha sido fértil. Contudo, eu só lá vi pedras e mais pedras tanto nos montes como nos vales.

 

Foi em Belém que há cerca de quatro mil anos Jacob enterrou Raquel e foi lá também que David nasceu e onde Samuel o ungiu. Mas o que mais celebrizou a cidade foi o nascimento de Jesus e foi para visitarmos a Basílica da Natividade que lá fomos, mais do que para celebrarmos figuras do Antigo Testamento.

 

Acontece que a Basílica da Natividade se situa na parte alta da cidade a que se tem acesso por uma rua com alguma inclinação e que habitualmente não dá acesso a autocarros de peregrinos. Mas o nosso motorista, sendo palestiniano, foi a pé «conversar» com o polícia de plantão que se compadeceu de nós, os velhinhos, permitindo que subíssemos motorizados. Mas o regresso teria que ser a pé! Muito bem, para baixo todos os Santos ajudam.

 

E como não podem ver uma camisa lavada a um pobre, lá estava uma mesquita bem à frente da Basílica da Natividade e nós, já mais ou menos habituados, também ali tivemos que ouvir a gravação do muezzin a chamar os muçulmanos para a oração. Forte marcação esta que os muçulmanos fazem aos lugares mais sagrados da cristandade. E nós, bonzinhos, deixamos.

 

 Basílica da Natividade - porta minúscula para impedir que os inimigos entrem a cavalo

 

Do presépio original nada resta de tão revestido por decorações, arquitecturas de várias épocas e novos pavimentos. Apesar de tudo, a visita ao local é emotiva e inspiradora fazendo-me lembrar o Evangelho Segundo S. Lucas onde diz que...

  • Subiu também José da Galileia, da cidade de Nazaré, à Judeia, à cidade de David, chamada Belém (porque era da casa e família de David), a fim de se alistar com Maria, sua esposa, que estava grávida. E aconteceu que, estando eles ali, se cumpriram os dias em que ela havia de dar à luz. E deu à luz a seu filho primogénito, envolveu-o em panos e deitou-o numa manjedoura porque não havia lugar para eles na estalagem. - Lucas 2:4-7

 

 Local do nascimento de Jesus

 

E ao sair da Basílica, estando ainda o muezzin a chamar os retardatários, dirigimo-nos a pé até à central de camionagem lá ao fundo da rampa onde o nosso autocarro nos esperava. Não valerá a pena referir o estado degradante de muitos dos carros com que nos cruzámos nem um ou outro saco de lixo que alguém se esquecera de recolher porque, chegados à camionagem, ouvimos berraria tão grande que deu para imaginar alguma hecatombe natural ou quiçá artificial. E o que era? Eram dois polícias que se disputavam razões de tal modo vinculadas a cada um que o pior seria imaginável se algum deles puxasse da arma no coldre. E nem a presença de um grupo de estrangeiros os demoveu da defesa das causas respectivas ou lhes sugeriu alguma moderação no timbre da argumentação. Desconhecendo o vernáculo local, não posso testemunhar sobre a adjectivação usada mas, pelo tom, imagina-se como as mãezinhas estariam a ser molestadas. Como querem eles dar-se ao respeito se a própria «autoridade» se comporta de modo tão original? Comparados com aquilo, os nossos «secos e molhados» são uns inocentes aprendizes. Não sei como aquilo acabou nem quero saber. Apenas temo que se trate de um modo cultural que, felizmente, nada tenha a ver com outras Nações.

 

Dali ainda fomos a uma loja de «recuerdos» bem perto da fronteira mas não me dignei sequer sair do autocarro. E foi dali mesmo que assisti ao regresso a casa dos palestinianos autorizados a trabalhar em Israel. Ordeiros, vinham a pé da fronteira ou em mini-buses sendo estes acolhidos por «sinaleiros» ao estilo dos nossos arrumadores de automóveis com jornal enrolado numa mão para que a sinalética seja mais evidente. E, como cá, os motoristas tinham espaço de sobra para arrumarem ou manobrarem as viaturas; mas lá esticavam o braço com qualquer coisa na mão que os «sinaleiros» esbracejantemente agradeciam.

 

Belas moradias nesta zona de Belém mas ficando todas a não menos de 10 metros do muro de cimento. Nem todos por ali são «sinaleiros».

 

Eram horas do regresso a Haifa onde nos aguardava o hotel flutuante, o nosso barco «La belle de l’Adriatique». A viagem far-se-ia pela auto-estrada que já percorrêramos nessa manhã mas, entretanto, vimos por fora as muralhas de Jerusalém e lembrei-me...

 

Abril de 2014

 

 Henrique Salles da Fonseca

SHALOM - 5

 

 

É num instante que de Jerusalém nos pomos em Belém e quase não dá para perceber onde acaba a malha urbana de uma e começa a da outra. Quer-se dizer... não daria para perceber se não fosse a fronteira definida por um muro de cimento com oito metros de altura: de um lado é Israel, do outro é a Palestina totalmente independente.

 

Justifica-se recorrer à Wikipédia para se ficar com uma ideia clara da evolução que tem tido esta questão.

 

http://pt.wikipedia.org/wiki/Territ%C3%B3rios_palestinianos

 

Evolução do Mandato da Palestina e dos Territórios Palestinianos modernos

    Propostas de 1916-22: As três propostas para a administração da Palestina após a Segunda Guerra Mundial. A linha vermelha é a "Administração Internacional" proposta em 1916 no Acordo Sykes-Picot, a linha azul pontilhada foi proposta pela Organização Sionista Mundial durante a Conferência de Paz de Paris em 1919 e a linha azul refer-se às fronteiras finais do Mandato Britânico da Palestina entre 1923-48.

 

 Situação em 1947: Mandato da Palestina, mostrando em azul as áreas controladas por judeus na Palestina em 1947, que constituíam 6% da área territorial do mandato, das quais mais da metade eram controladas pelo Fundo Nacional Judaico (FNJ) e pela Associação da Colonização Judaica da Palestina. A população de judeus cresceu de 83 790 pessoas em 1922 para 608 000 em 1946.

 

 Proposta de 1947: Proposta do plano da ONU para a partilha da Palestina de 1947 (Assembleia Geral das Nações Unidas - Resolução 181 (II), 1947), antes da Guerra árabo-israelita de 1948. A proposta incluía o corpus separatum de Jerusalém, estradas extra territoriais entre as áreas não contíguas e a consolidação de Jaffa como uma exclave árabe.

 

 Situação entre 1948-67: Ocupação da Cisjordânia pela Jordânia e ocupação da Faixa de Gaza pelo Egipto após a Guerra árabo-israelita de 1948, mostrando a linhas de armistício criadas em 1949.

 

 Situação em 2014: Em verde, a região que é administrada pela Autoridade Nacional Palestiniana (sob Oslo 2).

 

Passada a fronteira e, acto contínuo, entrados em Belém, logo nos dirigimos ao Paraíso, nome do hotel onde nos foi servido o almoço. Os palestinianos poderão ser maioritariamente muçulmanos mas o vinho que nos serviram não era nada mau.

 

Abril de 2014

 

 

Henrique Salles da Fonseca (VI Estação da Via Dolorosa)

SHALOM – 4

 

 

Já disse mas repito: segui minuto-a-minuto a guerra dos 6 dias mas a imagem que me ficou gravada foi a do reencontro dos judeus com o Muro das Lamentações junto a que eles estavam impedidos de rezar há várias gerações. Pareceu-me algo como a refundação do Estado de Israel.

 

E se nesta visita a Jerusalém me lembrei de muitas coisas, outras houve que me foram lembradas pelo nosso guia «José por um dia». Por exemplo, lembrou-nos que o Papa Paulo VI, apesar de convidado pelo rei Hussein da Jordânia[1], teve que fazer um desvio de centenas de quilómetros para visitar o Monte Sião e a sala do Cenáculo porque os muçulmanos, interpostos numas ruelas entre esses dois marcos fundamentais da cultura judaico-cristã, impediram que ele percorresse essa escassa centena de metros. Em compensação, o Papa João Paulo II conseguiu fazer a sua peregrinação sem desvios absurdos e foi ao Muro das Lamentações fazer as suas orações deixando, à maneira dos judeus, uma mensagem escrita numa das ranhuras que os séculos fizeram entre as pedras.

 

 

 

Foi nesta visita ao Muro das Lamentações que usei um quipá pela segunda vez (a primeira foi na visita que fiz à Sinagoga de Budapeste) e não me senti perturbado por o ter feito. Sobretudo quando sei que o quipá judeu tem exactamente o mesmo significado que o solidéu cristão e o cofió muçulmano: - Lembra-te homem que vais só até ao cimo da tua cabeça e que daí para cima é Deus.

 

Local de grande significado para os judeus, tinha algumas dezenas de crentes a rezar e por isso me deixei ficar um pouco para trás para ter a certeza de que os não perturbava. Estar no local, próximo do muro, foi suficiente para me lembrar de que são felizes os que têm fé, de que o imperialismo dogmático é causa de muita desavença e de que muito provavelmente a generalização da infelicidade tão insistentemente transmitida pelos telejornais resulta da perturbação de multidões infelizes por falta de fé.

 

Fisicamente estafados, saímos do recinto em direcção à porta de Sião e o autocarro rumou a Belém.

 

Abril de 2014

 

 Henrique Salles da Fonseca



[1] - Para saber mais sobre a peregrinação de Paulo VI à Terra Santa, v. p. ex. http://pt.custodia.org/default.asp?id=2048&id_n=24165

 

SHALOM – 3

 

 

Descendo do Monte das Oliveiras ao terreiro das três fés, deu para me questionar sobre quem serão hoje os Fariseus, os Saduceus, os Essénios, os Zelotas e os Samaritanos. Mais: se todos esses se reportavam a um único nome de Deus, que dizer hoje do que continua a acontecer no âmbito dessa mesma fé mais nas duas novas que se lhe juntaram pela mão de Cristo e pela de Maomé? E, contudo, o Deus é o mesmo para todos. Quem diria...

 

 

Breve passagem pela Igreja da Agonia (ou de Todas as Nações) e lá fomos directos ao Monte Sião, ao túmulo do Rei David e à sala do Cenáculo passando directamente por locais que até à guerra dos 6 dias estavam obstruídos por barreiras totalmente intransponíveis separando o Islão do Judaísmo e do Cristianismo. Sim, nos tempos modernos judeus e cristãos vêm mantendo uma relação de grande compatibilidade enquanto que as relações com os muçulmanos...

 

Foi onde se diz localizar-se o túmulo do Rei David que identifiquei um grupo de peregrinos judeus do Biafra que se assumem portugueses e é claro que quiseram tirar uma foto comigo. Espero que a publiquem no Facebook para eu depois a trazer aqui.

 

Munido de um certo sentido da História, percorri de seguida todas aquelas ruelas em direcção ao Santo Sepulcro. Não esperava, contudo, que por ali houvesse atropelos deselegantes. Sim, as fés podem e devem afirmar-se mas o proselitismo tem limites de decoro e pôr no alto do minarete em altos berros uma gravação do chamamento à oração muçulmana ali mesmo às portas do Santo Sepulcro ultrapassa a decência e passa para as bandas da ordinarice. E se algum muçulmano se ofender com esta minha opinião, desde já lhe digo que se vá ofender para Meca ao som dos sinos de uma igreja cristã de qualquer rito, à sua escolha.

 

 

O Santo Sepulcro é sem dúvida o local mais sagrado para muitos milhões de pessoas e, mais ou menos tocado pela fé, é emocionante pisar aquelas lajes já tão gastas por tantos peregrinos ao longo destes vinte e um séculos que a paixão de Cristo comove multidões. Dá para imaginar tudo naquelas últimas Estações da Via Dolorosa, antes do revestimento arquitectónico que hoje monumentaliza um chão que ficou sagrado só por ter sido pisado por quem morreu para nos salvar.

 

Deu para pensar que sobre aquele local já tudo foi dito, que nada de novo se pode dizer. Mas, pensando melhor, há uma coisa que ainda não foi referida e que agora afirmo: a emoção que eu próprio senti percorrendo lenta e solenemente aquelas últimas Estações e quanto me sensibilizou a emoção dos que me rodeavam. E não é só o sentimento emotivo mas também o sentido duma enorme responsabilidade que se adquire ao sair de local tão sublime, o centro da nossa civilização. Sentido do divino, contágio emotivo, razão histórica, sentido de responsabilidade.

 

E porque éramos um grupo nada jovem, o nosso guia «José» conduziu-nos pela Via Dolorosa em sentido descendente pois era evidente que não teríamos aguentado subi-la. Cruzámo-nos contudo com alguns grupos que quase em marcha forçada cantavam e rezavam (em várias línguas) sem mostrarem qualquer cansaço ou hesitação. Não há dúvida, a fé consegue prodígios. Mas foi nesse ambiente de grande religiosidade que passámos por uma loja dum muçulmano que tinha música pop em alta berraria parecendo fazê-lo apenas para perturbar peregrinos duma religião que não a sua. Mais um ordinário que me indignou. Felizmente, os peregrinos ignoraram a estupidez e prosseguiram as suas procissões.

 

Aproximámo-nos então da entrada para o recinto do Muro das Lamentações onde todas as cautelas relativas à segurança são poucas. Todos compreendemos essas cautelas e foi com grande respeito que entrámos em local tão importante para o Judaísmo.

 

Março de 2014

 

 

Henrique Salles da Fonseca

SHALOM – 2

 

 

Com a preocupação de sempre saber onde é o Norte, fico por vezes confundido pelas voltas que os aviões dão nas aproximações nocturnas aos aeroportos mas nunca esperava confundir-me ao sair do porto de Haifa e rumar no sentido oposto ao que me indicava o sentido de... desorientação. Porquê? Porque naquele porto se ruma a Sul para entrar (e a Norte para sair, claro), atracámos numa posição que nos deixou aproados a poente e quando os autocarros rumaram a Sul, ficámos com o Monte Carmelo à nossa direita e... lá tive que consultar o mapa e deixar de ter a mania de que sou espertinho.

 

Sim, com o Sol nascente à minha esquerda, o Monte Carmelo estava ali mesmo ao meu lado direito e, olhando-o da auto-estrada que corre ao longo do seu sopé, lembrei-me de que foi ali que o profeta Elias viveu como eremita e provou aos homens que o Deus de Israel é o verdadeiro e não Baal. E lembrei-me também da Ordem dos Carmelitas, originalmente chamada Ordem dos Irmãos da Bem-Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo que a partir de certa altura passou a ter uma Ordem Segunda, ou seja, feminina, cujo convento em Lisboa – mandado erigir por Filipe I – é hoje a Escola Superior da PSP, ali ao Largo do Calvário. Mas também me lembrei de que não foi ali que Elias ressuscitou o filho da viúva de Serepta e pergunto-me onde será Serepta... Ia eu nestas confabulações e eis que de repente me vejo numa encruzilhada de auto-estradas com portagens, painéis indicativos de caminhos a seguir escritos em caracteres hebreus que me trouxeram à realidade dramática do analfabetismo mas me fizeram também sair dos tempos bíblicos em que me estava a deliciar para me transportarem até à modernidade duma enorme área de serviço cheia de néons e outras modernices. E lá estava um Kentucky Fried Chicken com o sósia do Walter Ulbricht a trazer-me à realidade dos tempos que correm. Vim a saber que se virássemos à esquerda iríamos para o Lago Tiberíades e para Nazaré mas naquele dia seguiríamos em frente durante mais duas horas até chegarmos a Jerusalém e Belém.

 

E deliciei-me com o que vi: terras primorosamente amanhadas, aldeias repletas de qualidade de vida, núcleos industriais onde menos seria de esperar, um país tratado com paixão.

 

Até que começámos a subir para Jerusalém e a paisagem se alterou por completo com a pedra a sobrepor-se a tudo o mais, montes carecas, o contrário da terra prometida em que abundaria o leite e escorreria o mel.

 

 

 

E foi nesta subida que eu me deveria ter lembrado dos Juízes do Antigo Testamento, das primeiras palavras da Bíblia – NO PRINCIPIO DEUS CRIOU OS CÉUS E A TERRA – ou mesmo de Jesus, de Nossa Senhora ou de S. João Baptista mas, heresia das heresias, só me lembrei de Moshe Dayan e do que deve ter sido aquela escalada durante a guerra dos 6 dias pelas estradas manhosas de então, bem antes da actual auto-estrada. Sim, só a rapidez das operações militares evitou maiores dramas e nem dá para imaginar a estupefacção dos guardadores de cabras e ovelhas que por ali andassem naquele dia em que o Muro das Lamentações voltou a receber as preces judaicas.

 

Paragem para esticarmos as pernas numa área de serviço a meio da subida e lá estou eu a pagar dois Euros por um café expresso. Quanto cobraria eu se tivesse que ganhar a vida em local tão inóspito? Não imagino, mas foi o modo de constatar que o Euro funciona em Israel e que o método de formação dos preços é por ali sui generis.

 

Chegados à malha urbana, logo nos dirigiram ao Monte das Oliveiras donde pudemos abranger uma ampla panorâmica de Jerusalém. E foi a partir daquele ponto que descemos aos locais das três fés.

 

Março de 2014

 

 Henrique Salles da Fonseca

SHALOM – 1

 

 

Gentio designa um não judeu. Para que um homem gentio, não descendente de Abraão, possa ser incluído no povo judeu, deve, antes do mais, aceitar ser circuncisado ficando então a ser considerado igual a qualquer nacional, com os mesmos direitos e obrigações que todos os demais israelitas. Outras acepções para o termo: pagão; não civilizado.

 

Custa-me crer que a circuncisão possa ter qualquer valor teológico mas como também penso que a fé não se discute, limito-me a permanecer do lado de fora de tal discussão e correr o risco de que me considerem não civilizado.

 

Não civilizado, gentio, pois, me confesso. Mas sempre fui um grande admirador dos judeus e foi com emoção que segui minuto-a-minuto a guerra dos 6 dias e a do Yom Kippur e que li com paixão sobre outras façanhas da causa sionista como a aventura do navio Exodus, etc....

 

E foi precisamente no Exodus que pensei quando La belle de l’Adriatique, o navio do meu cruzeiro no Mediterrâneo oriental, zarpou de Limassol e rumou a Haifa.

 

Para que não restem dúvidas sobre a evolução ocorrida desde 1947 até agora, notem-se as diferenças entre os dois navios.

 

EXODUS – 1947

 

LA BELLE DE L’ADRIATIQUE – 2014

 

É claro que não me refiro à evolução que ocorreu na engenharia naval.

 

Escusado será dizer que não fomos inamistosamente escoltados por qualquer navio de guerra e escusado também será dizer que não tínhamos qualquer manifestação popular cantando hinos de glória à nossa chegada.

 

"Exodus 1947" – A verdadeira história

 

Chegada a Eretz Israel

 

Quando, naquele 18 de Julho, completamente avariado, o navio, puxado por um reboque, chega ao cais, no mastro tremulava a bandeira sionista. Os britânicos, à espera do navio "inimigo", estavam, naquela sexta-feira, em alerta total. Haviam fechado o porto, ao qual somente tinham acesso militares e polícias ingleses ou jornalistas da imprensa internacional. No cais viam-se tanques, policias e militares sendo 500 homens da Artilharia britânica. Ao lado do cais, aguardavam três navios-prisão: "Ocean Vigour", "Runnymede Park" e "Empire Rival". Os ingleses queriam fazer do "Exodus 1947" o exemplo para desencorajar, de uma vez por todas, a entrada de judeus na Terra de Israel. Mal sabiam que logo descobririam que a coragem e determinação que os guiava eram infinitamente mais fortes que o poderoso Império Britânico. O fogo de Auschwitz moldara-os em aço...

 

Os judeus de Eretz Israel também aguardavam aquele navio. Mas, impedidos de se aproximar, milhares foram até à barreira militar inglesa e, a plenos pulmões, cantaram o Hativka, o Hino da Esperança, as vozes ressoando por todo o porto. Desde a noite anterior, toda a então Palestina estava em alerta.

 

In http://www.arqshoah.com.br/bibliografia/218/

 

 

Ainda dentro do navio, tivemos a receber-nos umas sisudas funcionárias da imigração ou da segurança do Estado de Israel que bem podiam aprender alguma cortesia com os «colegas» de índole turca que nos tinham recebido na fronteira de Nicósia. Tendo recebido antecipadamente toda a informação sobre quem éramos ou deixávamos de ser, não se compreende tanta carrancudice. Quase imitavam os ingleses naquele mesmo local em 1947. Pensam, pelos vistos, que todos somos inimigos até prova em contrário. Já vi modos mais corteses de receber amigos.

 

Ao desembarcarmos cinco minutos depois (o tempo de descermos da sala no segundo deck em que as funcionárias dos passaportes nos receberam até à escada do portaló), fomos novamente confrontados com a foto no passaporte e todos os jovens (apenas os membros da tripulação que nos deviam acompanhar aos autocarros e pôr os auriculares a funcionar) tiveram que passar pelo pórtico detector de metais; nós, os turistas propriamente ditos, fomos dados como metalicamente inocentes. Salvo alguma prótese típica da terceira idade...

 

O guia do grupo do meu autocarro chamava-se «José» porque aquele era o Dia do Pai.

 

E lá fomos, Sol nascente, a caminho de Jerusalém e de Belém...

 

Março de 2014

 

 Henrique Salles da Fonseca

KALIMERA – 4

 

 

Sobrevoei pela primeira vez de cima a baixo o mar Egeu pois das vezes anteriores só o atravessara de lado a lado. Ao pôr do Sol, ainda era dia para nós no avião e lá em baixo já começavam as sombras a alongar... E muito. Deixando Salónica para trás, logo vi uma ilha montanhosa cujos cumes brancos me levaram a perguntar o que fazia ali tanta neve. E logo me lembrei duma professora que chegara ao Liceu Francês de Lisboa vinda de Salónica nos dizer que aquela região primava pela rudeza invernosa. Assim como me lembrei de que em tempos ali também era o Império Otomano e que aquela era a cidade natal de Mustafá Kemal Paxá, Atatürk. E mais me lembrei de que aquela região fora a terra permitida para uma parte importante dos sefarditas que ali reconstruíram as vidas sem renegarem a Pátria que os ostracizara. Em 1913 havia muitas sinagogas na cidade mas quatro delas chamavam-se «Évora», «Nova Lisboa», «Velha Lisboa» e «Portugal». Por aqui se imagina a importância da colónia sefardita portuguesa de Salónica e durante a Primeira Grande Guerra muitos foram os que retomaram a nacionalidade portuguesa. Gentio, foi com simpatia que sobrevoei as terras e os mares que os acolheram e lhes deram vida aos filhos e netos.

 

Era noite quando aterrámos perto de Larnaka e nem sequer passámos pela cidade. O táxi (um Mercedes não muito longínquo do topo da gama) que nos esperava meteu logo pela auto-estrada e só parámos 45 minutos depois à porta do hotel em Limassol.

 

E como o dinheiro abunda em Chipre, as auto-estradas não têm portagens.

 

Instalados, demos uma volta pelas redondezas do hotel e jantámos no primeiro boteco que encontrámos cheio (melhor cartão de visita para qualquer forasteiro). Simpatia esfusiante, logo veio o Cristiano Ronaldo à baila quando souberam da nossa nacionalidade. Há uns anos, na Tailândia, a referência era o Luís Figo e na Alemanha em 1961 eram Amália e as sardinhas. Portugal sempre teve quem o representasse bem.

 

O primeiro impacto com a tradição culinária cipriota teve a ver com a quantidade absurda que aquela gente consegue ingerir. A partir de então a minha mulher e eu passámos a encomendar uma dose para os dois para que não sobrasse tanto como desta vez. E foi logo ali que ficámos a saber que para eles o que é grego é bom; o que não é grego, logo se vê...

 

Limassol tem uma bela frente de mar, um «calçadão» muito frequentado por quem pratica jogging, muitas esplanadas de apoio às praias, uma areia compacta da cor do cimento e até vimos uns quantos corajosos que nadavam a tentar convencer os sensatos de que a água estava apetecível.

 

Lemestos é o nome vernáculo da cidade mas como havia muita gente que não conseguia pronunciar correctamente, inventou-se o nome Limassol. Já tenho ouvido muita tontaria ao longo da vida mas por etimologia tão anedótica é que eu não esperava. Venha outra explicação que esta não passa. Todos os cartazes e sinais de trânsito indicam Lemestos e Limassol tanto em alfabeto grego como latino pelo que ninguém se perde por falta de informação. Bela cidade, avenidas amplas, casario de qualidade e uma quantidade enorme de locais históricos a visitar. O mais espectacular é Kourion, cidadela imponente que me fez lembrar a judia Massada mas com um teatro grego que parece acabado de inaugurar. E fez-me sonhar com o que nós podíamos fazer em Balsa se os tavirenses tivessem um mínimo de interesse cultural. Mas...

 

 

Foi de Limassol (ou Lemestos para quem quiser ser mais genuíno) que partimos em direcção aos montes Troodos e lá no alto, à porta do hotel que se situa no miradouro, ainda havia vestígios da neve que caíra durante a noite. Não deixa de ser curioso o facto de a poucos quilómetros uns dos outros, andarem uns pândegos a nadar no mar e outros a fazer bolas de neve.

 

 

 

Dali fomos para o Mosteiro de Kikkos onde viveu Makarios até ser eleito Arcebispo e, depois disso, Presidente da República. E é lá que está o seu túmulo, em local de que se avista a sua terra natal, Panagia, junto de Paphos. Belos frescos e mosaicos por toda a parte. Neste maciço montanhoso há uma profusão enorme de mosteiros e igrejas, muitas das quais classificadas pela UNESCO e que a certo passo deixam o turista um pouco desejoso de zarpar dali para fora.

 

A visita a Paphos é indispensável pois a arqueologia local está de tal modo preservada que dá a sensação de nos podermos cruzar a qualquer momento com uma personagem das antiguidades grega ou romana.

 

 

 

Finalmente, uma breve referência a essa cidade dinâmica e moderna que é Larnaca, no extremo oriental da parte sul da ilha. O significado do nome da cidade, sarcófago, nada tem a ver com o que dela vemos. Pelo contrário, vi uma cidade toda «p’rá frentex», com belas praias (lá está o que mais parece cimento em pó no local onde devia estar a areia), um calçadão a perder de vista e hotéis a disputarem o top da qualidade. De cansado, não fui à marina que se situava mesmo em frente do meu hotel mas deu para ver que os mastros não eram de barquitos do lago do Campo Grande.

 

Apetece-me consultar a bola de cristal para tentar ver algo sobre o futuro de Chipre. Relativamente à zona etnicamente turca, já a tenho como Região Autónoma da Turquia; quanto à República de Chipre, a do sul, admito que a «enosis» não vingue mas...

 

Entretanto, está na hora de zarpar até Haiffa...

 

Março de 2014

 

 Henrique Salles da Fonseca

KALIMERA – 3

 

 

Ah, desculpem! Esqueci-me de dizer que «Kalimera» significa «Bom dia» em grego. E tirando um ou outro regionalismo, o que se fala na República de Chipre é grego e o que se fala na República Turca de Chipre do Norte é turco. A partir da proclamação da independência do norte relativamente ao resto da ilha em Novembro de 1983, os gregos que viviam no norte aceleraram a emigração para sul e os turcos que viviam no sul intensificaram a ida para norte. Sem pressas e sem choros nem rangeres de dentes: o grego vende o que possui no norte e compra no sul; o turco vende o que tem no sul e compra no norte. Mas não é coisa que se faça, é coisa que se vai fazendo...

 

A moeda que actualmente circula no sul é o Euro[1], a que circula no norte é a Lira Turca. É frequente depararmos com bandeiras gregas hasteadas um pouco por todo o sul; no norte as bandeiras nacionais da República do Norte e da Turquia estão sistematicamente hasteadas em paralelo. Mais: quando pela magnífica auto-estrada nos dirigimos de Larnaka para Nicósia (a que os turcos chamam Lefkosa), vemos ao longe, para lá da fronteira, pintada na vertente sul dos montes Cirénia uma enorme bandeira da República do Norte que deve medir nada menos que 500 metros de comprimento por 90 ou 100 de altura.

 

 

A crer no que me tinham contado, daria para admitir que nos estávamos a aproximar de algo tão terrífico como a Coreia do Norte mas eu conheço a Turquia – país que muito admiro – e sabia que essas histórias não passavam de versões absurdas. E logo que em Nicósia – a cidade dividida por um muro e postos de controlo à maneira da «cortina de ferro» – nos apresentámos para passar para o lado de lá, logo fomos abordados por um par de jovens funcionários da República do Norte que muito normalmente viram os nossos documentos. Ela até sorria com evidente agrado pela nossa visita; ele, muito atarefado a verificar a documentação, não era do estilo de mandar sorrisos a homens e não reparei no que ele fazia com as Senhoras. Mas os papéis assoberbavam-no. O «negócio» dos Vistos não deve ser coisa que interesse à República do Norte pois não me lembro de ter que os pagar. Se houve pagamento, o custo devia estar incluído no valor que pagámos pela excursão. Trocos pequenos.

 

A nossa guia, cipriota do sul que cheirava a bagaço depois de cada café que tomava, não tinha alvará para exercer a profissão na República do Norte pelo que na fronteira entrou no nosso autocarro uma guia nortenha (que, para além dos bons-dias e até-logos, entrou muda e saiu calada) cuja missão era por certo a de nos demonstrar que por ali não se comiam criancinhas ao pequeno-almoço. Muito simpaticamente, ficou a fazer companhia aos nossos coxos cansados ou pacientes de outras maleitas (o ar condicionado do nosso barco devia ter os filtros a precisar de limpeza e as constipações grassavam) enquanto nós, os sãos e escorreitos, calcorreávamos por onde a nossa guia sulista nos queria levar. E vimos tudo que esteve à mão de semear. A começar pela auto-estrada (tão boa como a do sul) que de Nicósia nos levou até Keryneia, cidadezinha litoral com um porto (actualmente, de recreio) do tempo dos fenícios mas remodelado pelos venezianos medievais e com modernizações sucessivas imprescindíveis ao conforto dos turistas mareantes actuais, rodeado de restaurantes e pequenas estalagens, do mais cosmopolita que se pode imaginar (mas também como dizia uma das nossas companheiras de viagem «mais que c’est migon») e deixando-nos a todos com pena de não podermos lá voltar nos tempos mais próximos. Porquê? Ora, porque há tanto ainda por conhecer...

 

E é claro que perguntei se o norte também tem um sistema bancário «democrático» como o sul. Não me fiz entender logo à primeira e tive que perguntar se na República do Norte também há lavagem daquela roupa que se suja na Rússia ou noutras latitudes, «indústria» tão importante no sul. Para gáudio dos meus companheiros de viagem (todos franceses), a nossa guia sulista meteu os pés pelas mãos pois teve que reconhecer que o norte é mais bem comportado que o seu sul. A guia nortenha deve ter gozado o pratinho mas comeu-o em silêncio.

 

Amanhã vamos a Paphos, no extremo ocidental da República de Chipre (a do sul), cidade natal de Makarios e por onde entraram as Forças Armadas turcas quando decidiram tomar o norte. Mas vamos também dar um giro por Limassol e por Larnaka.

 

Março de 2014,

 

 Henrique Salles da Fonseca



[1] Antes do Euro, a moeda era a Lira Cipriota com um câmbio muito forte.

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