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A bem da Nação

PRESENÇA AFRICANA

Angola, reino Maconge.jpg

 «Reino Maconge» - pintura de Neves e Sousa

 

Apesar de tudo,
Ainda sou a mesma!
Livre e esguia,
Filha eterna de quanta rebeldia
Me sagrou.
Mãe-África!
Mãe forte da floresta e do deserto,
Ainda sou,
A irmã-mulher
De tudo o que em ti vibra
Puro e incerto!...
 
- A dos coqueiros,
De cabeleiras verdes
E corpos arrojados
Sobre o azul...
A do dendém
Nascendo dos abraços
Das palmeiras...
A do sol bom,
Mordendo
O chão das Ingombotas...
A das acácias rubras,
salpicando de sangue as avenidas,
longas e floridas...
 
Sim!, ainda sou a mesma.
- A do amor transbordando
pelos carregadores do cais
suados e confusos,
pelos bairros imundos e dormentes
(Rua 11...Rua 11...)
pelos negros meninos
de barriga inchada
e olhos fundos...
 
Sem dores nem alegrias,
de tronco nu e musculoso,
a raça escreve a prumo,
a força destes dias...
 
E eu revendo ainda
e sempre, nela,
aquela
longa historia inconseqüente...
 
Terra!
Minha, eternamente...
Terra das acácias,
dos dongos,
dos cólios baloiçando,
mansamente... mansamente!...
Terra!
Ainda sou a mesma!
Ainda sou
a que num canto novo,
pura e livre,
me levanto,
ao aceno do teu Povo!...
 
Alda Lara.jpg Alda Lara

MEU BERGANTIM

Bergantim.jpg

 

Meu bergantim, onde vens,

Que te não posso avistar?

Bergantim! Meu bergantim!

Quero partir, rumo ao mar...

 

Tenho pressa! Tenho pressa!

Já vejo abutres voando

Além, por cima de mim...

Tenho medo... Tenho medo

De não me chegar ao fim.

 

Meus braços estão torcidos.

Minha boca foi rasgada.

Mas os olhos, estão bem vivos,

E esperam, presos ao Céu...

 

Que haverá p'ra além da noite?

P'ra além da noite de breu?

 

Ah! Bergantim, como tardas...

Não vês meu corpo jazendo

Na praia, do mar esquecido?...

Esse mar que eu quis viver,

E sacudir e beijar,

Sem ondas mansas, cobrindo-o...

 

Quem dera viesses já...

Que vai ficando bem tarde!

E eu não me quero acabar,

Sem ver o que há para além

Deste grande, imenso céu

E desta noite de breu...

 

Não quero morrer serena

Em cada hora que passa

Sem conseguir avistar-te...

Com meu olhar enxergando

Apenas a noite escura,

E as aves negras, voando...

 

Alda Lara.jpg Alda Lara

 

in: Poemas (1968)

 

 

ANÚNCIO

 (*)

Trago os olhos naufragados
Em poentes cor de sangue...
 
Trago os braços embrulhados
Numa palma bela e dura
E nos lábios a secura
Dos anseios retalhados...
 
Enrolada nos quadris
Cobras mansas que não mordem
Tecem serenos abraços...
E nas mãos, presas com fitas
Azagaias de brinquedo
Vão-se fazendo em pedaços...
 
Só nos olhos naufragados
Estes poentes de sangue...
 
Só na carne rija e quente,
Este desejo de vida!...
 
Donde venho, ninguém sabe
E nem eu sei...
 
Para onde vou
Diz a lei
Tatuada no meu corpo...
 
E quando os pés abram sendas
E os braços se risquem cruzes,
Quando nos olhos parados
Que trazem naufragados
Se entornarem novas luzes...
 
Ah! Quem souber,
Há-de ver
Que eu trago a lei
No meu corpo...

Alda Lara

(*) Augusto Penteado

TODOS TEMOS UM «BERGANTIM»

POEMAS QUE EU ESCREVI NA AREIA

 

I

Meu bergantim, onde vens,
Que te não posso avistar?
Bergantim! Meu bergantim!
Quero partir, rumo ao mar...
 
Tenho pressa! Tenho pressa!
Já vejo abutres voando
Além, por cima de mim...
Tenho medo... Tenho medo
De não me chegar ao fim.
 
Meus braços estão torcidos.
Minha boca foi rasgada.
Mas os olhos, estão bem vivos,
E esperam, presos ao Céu...
 
Que haverá p'ra além da noite?
P'ra além da noite de breu?
 
Ah! Bergantim, como tardas...
Não vês meu corpo jazendo
Na praia, do mar esquecido?...
Esse mar que eu quis viver,
E sacudir e beijar,
Sem ondas mansas, cobrindo-o...
 
Quem dera viesses já...
Que vai ficando bem tarde!
E eu não me quero acabar,
Sem ver o que há para além
Deste grande, imenso céu
E desta noite de breu...
 
Não quero morrer serena
Em cada hora que passa
Sem conseguir avistar-te...
Com meu olhar enxergando
Apenas a noite escura,
E as aves negras, voando...
 
II
 
Meu bergantim foi-se ao mar...
Foi-se ao mar e não voltou,
Que numa praia distante,
Meu bergantim se afundou...
 
Meu bergantim foi-se ao mar!
Levava beijos nas velas,
E nas arcas, ilusões,
Que só a mim me ofereci...
 
Levava à popa, esculpido,
O perfil, leve e discreto,
Daqueles que um dia perdi.
 
Levava mastros pintados,
Bandeiras de todo o mundo,
E soldadinhos de chumbo
Na coberta, perfilados.
 
Foi-se ao mar meu bergantim,
Foi-se ao mar... nunca voltou!
E por sete luas cheias
No areal se chorou...
                   

  Alda Lara

 

Todos temos um «bergantim». O meu chamava-se «Uruguai» e morreu esta noite.

 

 

«Uruguai» (27 de Abril de 2001 - 16 de Março de 2013)

Testamento


 
À prostituta mais nova,

do bairro mais velho e escuro,
deixo os meus brincos lavrados
em cristal, límpido e puro…

E àquela virgem esquecida
rapariga sem ternura,
sonhando algures uma lenda,
deixo o meu vestido branco,
o meu vestido de noiva,
todo tecido de renda…

Este meu rosário antigo,
ofereço-o àquele amigo
que não acredita em Deus…

E os livros, rosários meus
das contas de outro sofrer,
são para os homens humildes,
que nunca souberam ler.

Quanto aos meus poemas loucos,
esses, que são de dor
sincera e desordenada…
esses, que são de esperança,
desesperada mas firme,
deixo-os a ti, meu Amor…

Para que, na paz da hora,
em que a minha alma venha
beijar de longe os teus olhos,

vás por essa noite fora…
com passos feitos de lua,
oferecê-los às crianças
que encontrares em cada rua…

Lisboa, 1950

 Alda Lara
 
(Poemas – Obra Completa de Alda Lara, Editora Capricórnio, Lobito 1973)

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