Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A bem da Nação

SHALOM – 2

 

 

Com a preocupação de sempre saber onde é o Norte, fico por vezes confundido pelas voltas que os aviões dão nas aproximações nocturnas aos aeroportos mas nunca esperava confundir-me ao sair do porto de Haifa e rumar no sentido oposto ao que me indicava o sentido de... desorientação. Porquê? Porque naquele porto se ruma a Sul para entrar (e a Norte para sair, claro), atracámos numa posição que nos deixou aproados a poente e quando os autocarros rumaram a Sul, ficámos com o Monte Carmelo à nossa direita e... lá tive que consultar o mapa e deixar de ter a mania de que sou espertinho.

 

Sim, com o Sol nascente à minha esquerda, o Monte Carmelo estava ali mesmo ao meu lado direito e, olhando-o da auto-estrada que corre ao longo do seu sopé, lembrei-me de que foi ali que o profeta Elias viveu como eremita e provou aos homens que o Deus de Israel é o verdadeiro e não Baal. E lembrei-me também da Ordem dos Carmelitas, originalmente chamada Ordem dos Irmãos da Bem-Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo que a partir de certa altura passou a ter uma Ordem Segunda, ou seja, feminina, cujo convento em Lisboa – mandado erigir por Filipe I – é hoje a Escola Superior da PSP, ali ao Largo do Calvário. Mas também me lembrei de que não foi ali que Elias ressuscitou o filho da viúva de Serepta e pergunto-me onde será Serepta... Ia eu nestas confabulações e eis que de repente me vejo numa encruzilhada de auto-estradas com portagens, painéis indicativos de caminhos a seguir escritos em caracteres hebreus que me trouxeram à realidade dramática do analfabetismo mas me fizeram também sair dos tempos bíblicos em que me estava a deliciar para me transportarem até à modernidade duma enorme área de serviço cheia de néons e outras modernices. E lá estava um Kentucky Fried Chicken com o sósia do Walter Ulbricht a trazer-me à realidade dos tempos que correm. Vim a saber que se virássemos à esquerda iríamos para o Lago Tiberíades e para Nazaré mas naquele dia seguiríamos em frente durante mais duas horas até chegarmos a Jerusalém e Belém.

 

E deliciei-me com o que vi: terras primorosamente amanhadas, aldeias repletas de qualidade de vida, núcleos industriais onde menos seria de esperar, um país tratado com paixão.

 

Até que começámos a subir para Jerusalém e a paisagem se alterou por completo com a pedra a sobrepor-se a tudo o mais, montes carecas, o contrário da terra prometida em que abundaria o leite e escorreria o mel.

 

 

 

E foi nesta subida que eu me deveria ter lembrado dos Juízes do Antigo Testamento, das primeiras palavras da Bíblia – NO PRINCIPIO DEUS CRIOU OS CÉUS E A TERRA – ou mesmo de Jesus, de Nossa Senhora ou de S. João Baptista mas, heresia das heresias, só me lembrei de Moshe Dayan e do que deve ter sido aquela escalada durante a guerra dos 6 dias pelas estradas manhosas de então, bem antes da actual auto-estrada. Sim, só a rapidez das operações militares evitou maiores dramas e nem dá para imaginar a estupefacção dos guardadores de cabras e ovelhas que por ali andassem naquele dia em que o Muro das Lamentações voltou a receber as preces judaicas.

 

Paragem para esticarmos as pernas numa área de serviço a meio da subida e lá estou eu a pagar dois Euros por um café expresso. Quanto cobraria eu se tivesse que ganhar a vida em local tão inóspito? Não imagino, mas foi o modo de constatar que o Euro funciona em Israel e que o método de formação dos preços é por ali sui generis.

 

Chegados à malha urbana, logo nos dirigiram ao Monte das Oliveiras donde pudemos abranger uma ampla panorâmica de Jerusalém. E foi a partir daquele ponto que descemos aos locais das três fés.

 

Março de 2014

 

 Henrique Salles da Fonseca

Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2006
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2005
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2004
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D