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A bem da Nação

SHALOM – 2

 

 

Com a preocupação de sempre saber onde é o Norte, fico por vezes confundido pelas voltas que os aviões dão nas aproximações nocturnas aos aeroportos mas nunca esperava confundir-me ao sair do porto de Haifa e rumar no sentido oposto ao que me indicava o sentido de... desorientação. Porquê? Porque naquele porto se ruma a Sul para entrar (e a Norte para sair, claro), atracámos numa posição que nos deixou aproados a poente e quando os autocarros rumaram a Sul, ficámos com o Monte Carmelo à nossa direita e... lá tive que consultar o mapa e deixar de ter a mania de que sou espertinho.

 

Sim, com o Sol nascente à minha esquerda, o Monte Carmelo estava ali mesmo ao meu lado direito e, olhando-o da auto-estrada que corre ao longo do seu sopé, lembrei-me de que foi ali que o profeta Elias viveu como eremita e provou aos homens que o Deus de Israel é o verdadeiro e não Baal. E lembrei-me também da Ordem dos Carmelitas, originalmente chamada Ordem dos Irmãos da Bem-Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo que a partir de certa altura passou a ter uma Ordem Segunda, ou seja, feminina, cujo convento em Lisboa – mandado erigir por Filipe I – é hoje a Escola Superior da PSP, ali ao Largo do Calvário. Mas também me lembrei de que não foi ali que Elias ressuscitou o filho da viúva de Serepta e pergunto-me onde será Serepta... Ia eu nestas confabulações e eis que de repente me vejo numa encruzilhada de auto-estradas com portagens, painéis indicativos de caminhos a seguir escritos em caracteres hebreus que me trouxeram à realidade dramática do analfabetismo mas me fizeram também sair dos tempos bíblicos em que me estava a deliciar para me transportarem até à modernidade duma enorme área de serviço cheia de néons e outras modernices. E lá estava um Kentucky Fried Chicken com o sósia do Walter Ulbricht a trazer-me à realidade dos tempos que correm. Vim a saber que se virássemos à esquerda iríamos para o Lago Tiberíades e para Nazaré mas naquele dia seguiríamos em frente durante mais duas horas até chegarmos a Jerusalém e Belém.

 

E deliciei-me com o que vi: terras primorosamente amanhadas, aldeias repletas de qualidade de vida, núcleos industriais onde menos seria de esperar, um país tratado com paixão.

 

Até que começámos a subir para Jerusalém e a paisagem se alterou por completo com a pedra a sobrepor-se a tudo o mais, montes carecas, o contrário da terra prometida em que abundaria o leite e escorreria o mel.

 

 

 

E foi nesta subida que eu me deveria ter lembrado dos Juízes do Antigo Testamento, das primeiras palavras da Bíblia – NO PRINCIPIO DEUS CRIOU OS CÉUS E A TERRA – ou mesmo de Jesus, de Nossa Senhora ou de S. João Baptista mas, heresia das heresias, só me lembrei de Moshe Dayan e do que deve ter sido aquela escalada durante a guerra dos 6 dias pelas estradas manhosas de então, bem antes da actual auto-estrada. Sim, só a rapidez das operações militares evitou maiores dramas e nem dá para imaginar a estupefacção dos guardadores de cabras e ovelhas que por ali andassem naquele dia em que o Muro das Lamentações voltou a receber as preces judaicas.

 

Paragem para esticarmos as pernas numa área de serviço a meio da subida e lá estou eu a pagar dois Euros por um café expresso. Quanto cobraria eu se tivesse que ganhar a vida em local tão inóspito? Não imagino, mas foi o modo de constatar que o Euro funciona em Israel e que o método de formação dos preços é por ali sui generis.

 

Chegados à malha urbana, logo nos dirigiram ao Monte das Oliveiras donde pudemos abranger uma ampla panorâmica de Jerusalém. E foi a partir daquele ponto que descemos aos locais das três fés.

 

Março de 2014

 

 Henrique Salles da Fonseca

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