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A bem da Nação

“SACHA E O POETA”

 

Quando o poeta aparece,
Sacha levanta os olhos claros,
Onde a surpresa é o sol que vai nascer.

O poeta a seguir diz coisas incríveis,
Desce ao fogo central da Terra,
Sobe na ponta mais alta das nuvens,
Faz gurugutu pif paf,
Dança do velho,
Vira Exu.
Sacha sorri como o primeiro arco-íris.

O poeta estende os braços, Sacha vem com ele.

A serenidade voltou de muito longe.
Que se passou do outro lado?
Sacha mediunizada
 – Ah-papapá-papá-
Transmite em Morse ao poeta
A última mensagem dos Anjos.

Resultado de imagem para manuel bandeira Manuel Bandeira

1931

 

 

“ANATOMIA DE UM POEMA”

 

Sob o título acima publicou o Sr. Marino Falcão no Diário do Povo, de Campinas, uma exegese dos meus versos “Sacha e o poeta”, pedindo-me depois, em carta muito amável, que lhe dissesse se a sua interpretação coincidia com o meu pensamento.

 

Antes de responder, vou transcrever aqui o poema e fá-lo-ei em composição corrida para poupança de espaço:

 

(o que eu não faço, pela mesma razão – HSF)

 

Para Marino Falcão esse poema é o relato metafórico de uma sedução, Sacha uma jovem ingénua, inexperiente, deslumbrada “com os ademanes e manigâncias” do poeta, os quais “desencadeiam nela o processo do viciamento da vontade”. E como Marino Falcão, sobre ser homem de letras, é promotor público na nobre cidade de Campinas, capitula a aventura como “crime definido em lei e previsto no art. 217 do Código Penal”. Bem entendido, se Sacha era menor de dezoito anos.

 

Marino Falcão acertou em parte. De facto, o poema é o relato de uma sedução. Só que a finalidade de todas as manigâncias do poeta era obter tão-somente um sorriso de Sacha. E como está contado nos versos, obteve-o. Obteve mais, coisa inefável, a última mensagem dos anjos, sob a forma de um vocalize muito semelhante às linhas e pontos do alfabeto morse.

 

Marino errou também no que concerne à idade de Sacha. Era menor de dezoito anos, sim, tinha, ao tempo da sedução, apenas uns seis meses de idade, só falava em alfabeto morse. Louríssima, alvíssima, sereníssima. Eu tinha que conquistar-lhe um sorriso, usei de todos os recursos referidos. E o sorriso veio. Como deve ter luzido sobre o mundo o primeiro arco-íris.

 

Vou mandar esta crónica a Sacha. Ela vive hoje em Estocolmo, casada com um rapagão sueco, mãe de duas suequinhas maravilhosas – Ann-Marie e Ingrid, três anos e um ano – portanto, ambas já mais idosas do que Sacha quando inspirou o poema tão interessantemente anatomizado por Marino Falcão. Não lhe doa a este o que há de errado na sua interpretação. Valéry não disse que não existe verdadeiro sentido de um texto? Não vale a autoridade do autor: Quoiqu’il ait voulu dire, il a écrit ce qu’il a écrit.

 

In «Andorinha, andorinha»

 

InManuel Bandeira – Selecta em prosa e verso”, organização Emanuel de Moraes, ed. JOSÉ OLYMPO EDITORA, Rio de Janeiro, 6^edição, Agosto de 2007, pág. 52 e seg.

 

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