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A bem da Nação

RELAÇÕES NORTE SUL

 

Rainhas de Portugal

os Dhugail e os Fingail

 

 

De vez em quando uma viagem pela história luso-árabe-viking, mesmo parecendo atrevimento por parte dum não pesquisador ou professor, não faz mal a ninguém, e terá no mínimo uma vantagem: se alguém discordar e sobretudo comentar, todos os que lerem essa “polémica” mais informados ficam.

 

Os chamados Homens do Norte, os vikings, começam a expandir-se no século VIII, navegando nos seus magníficos barcos “drakkars” – dragão – invadem e ocupam a Islândia, Irlanda, Escócia, Inglaterra, Bretanha na França, além da expansão para leste onde formaram o primeiro estado russo.

 

Era uma “turma da pesada”, sabe-se que chegaram até à Gronelândia e muito possivelmente ao Canadá, e para sul às Astúrias, Galiza, Portugal (de hoje), à Espanha muçulmana, Baleares, Sicília, Grécia e até ao Líbano e Palestina.

A cristianização dos escandinavos começa quando o rei Harald Klak Halfdansson (c. 785 – c. 852) da Jutlândia – Dinamarca e parte sul da actual Suécia, rei dos dhugail – se sente ameaçado e pede proteção a Luis I, o Piedoso (778-840), rei da Aquitânia desde 813, mas é Olavo Tryggvason, rei da Noruega de 995 até 1000, bisneto de Haroldo, primeiro rei da Noruega, rei dos fingail, quem teve um papel importante na conversão dos vikings ao cristianismo. Antes do cristianismo adoravam Odin, Thor e outros.


Quando começam a expansão para sul encontram pelo caminho duas religiões monoteístas bem estabelecidas, a cristã e a islâmica, mas o respeito pelos cristãos era bastante “frágil”!


Cerca de 844 chegam à costa da Galiza que começam a saquear. Ramiro I (o meu antepassado muito estimado!) reune um exército, corre com eles, que entram nos barcos e seguem para o sul. Quando passam por Lisboa saqueiam a região, conforme carta de Wahballâh ibn-Hazun, governador de Lisboa, avisando todos os governadores muçulmanos a prepararem a defesa; “ali tinham passado cinquenta e quatro navios e outras tantas barcaças, o mar parecia cheio de aves vermelhas”! Eram as cores das velas dos drakkars.

 

                       

 

Em todo o Oeste ninguém conseguia opor-se-lhes. Era inimigo duma bravura pouco comum!

 

Os melhores relatos dos ataques dos vikings à Península foram deixados pelos árabes. O mais antigo, de Ibn al-Koutia, do século X, cujo nome significa filho de Godo, nascido na Andaluzia, descendente de Sara, filha de Witiza, que casou com um escravo forro do Califa Omar II de Damasco, foi o maior filólogo da Espanha. Seu nome completo Abu-Bekr Mohammed ibn-Omar ibn Abdo’l-aziz, faleceu em Córdova em 367 (989 da era cristã). Deixou-nos o relato da primeira das invasões dos normandos a quem chamavam Madjous.

 

“Abd ar-Rahman (também meu estimado antepassado!) mandou construir a grande mesquita de Sevilha e reconstruiu as muralhas desta cidade destruidas pelo ataque dos Madjous em 844. A chegada destes bárbaros semeou o terror entre os habitantes que fugiram para as montanhas. Adb ar-Rahman teve que pedir auxílio a todos os vizires que se uniram e foram emboscar os invasores na vila Quintos Maãfir (Maãfir, o nome de uma tribu árabe que se apossou da antiga vila Quintos, perto de Sevilha). Puseram um vigia na torre da antiga igreja com um molho de lenha, para avisar quando o inimigo passasse. Deixaram passar os infiéis polígamos e atacaram-nos pelas costas de modo que lhes impediu a retirada e mataram 16.000.” (É evidente o gosto dos árabes no exagero das vítimas das guerras, e aqui haverá, no mínimo um zero a mais!). Todo o tempo que estiveram à volta de Sevilha foi de cerca de quatorze dias, quando, depois de perderem muita gente foram embora, apesar de estarem constantemente a receber reforços.

 

Os Madjous saíram de Sevilha, voltaram por Lisboa sem mais ataques e sumiram.

 

Abd ar-Rahman a seguir mandou construir em Sevilha um arsenal para construção de navios, contratou marinheiros em toda a costa da Andaluzia e a todos forneceu “máquinas de guerra” e nafta. Quando os Madjous voltaram, quatro a cinco anos depois, foram batidos e perderam vários navios que foram queimados.

 

Durante bastante tempo os vikings deixaram a Espanha em paz. Até 1014, quando o jovem príncipe Olaf Haraldsson por espírito de aventura (e pilhagem) voltou a assolar a costa da França, Astúrias, Galiza, onde destruiu Tuy, e a costa do Mediterrâneo, sempre à procura de ricos espólios. Mais tarde Olaf tornou-se rei da Noruega, foi beatificado em 1031 três anos pós a sua morte e canonisado em 1164 pelo Papa Alexandre III. Recebeu ainda o título de Rex Perpetuus Norvegiae.

 

Mais cem anos se passam e agora é o jovem rei Sigurd I, que em 1107 sai de Bergen para a Terra Santa com 60 drakkars levando 10.000 homens. Desta vez não foi pela pilhagem mas à procura de glória pessoal!

 

Pouco depois Portugal torna-se um reino independente e, como em todo o lado, o primogénito é o príncipe herdeiro e os outros tinham que ir à vida, como fez o terceiro filho de Sancho I, Fernando, que se tornou Conde da Flandres quando, em 1211, casou com Joana da Flandres, filha mais velha e herdeira de Balduíno I, Imperador Latino de Constantinopla e Conde da Flandres. Este Dom Fernando foi peça importante no jogo de interesses da França e Inglaterra sobre as Flandres e um nobre conhecido lá pelas terras do Norte.

 

Waldemar II, rei da Dinamarca enviuvara da sua primeira mulher Margreta Dankmar, Princesa da Bohémia, filha de Przenihl-Ottocar I, rei da Boémia, em 1212 e, certamente por influência do Infante Dom Fernando, voltou a casar com a irmã mais nova deste, Berengária, em Maio de 1214. Tem-se como provavel que esta Infanta estaria a viver em casa do irmão. Deste casamento nasceram três filhos que todos foram reis da Dinamarca, e uma filha.

 

Talvez porque a primeira mulher do rei Waldemar II fosse simpática, a nova rainha portuguesa, que morre muito nova, em 1221, deixou mau nome, tanto que ainda hoje o seu nome, Bengierd, em dinamarquês, é sinónimo de mulher má! A má fama vem pela superstição da série “negra” da família. Começa quando, já morta a rainha, o rei Waldemar II é feito prisioneiro e entrega o trono ao único filho do primeiro casamento, Waldemar III, que casou com uma sobrinha de Berengária, Leonor, filha do rei Afonso II de Portugal. O casamento durou somente dois anos; a rainha Leonor morre dando à luz, em Agosto de 1231, e a criança teve vida curta. Pouco tempo depois, em Novembro do mesmo ano, Valdemar III morre, acidentalmente atingido por uma flecha enquanto caçava. Com a morte do pai, assume o trono o filho mais velho de Berengária, Erik V, que em lutas pelo trono com o irmão Abel, é por este feito prisioneiro e assassinado. Abel morre dois anos depois durante uma revolta dos frísios na Dinamarca. O trono passa ao mais novo, Cristovão I, que vive em constante luta com o clero e parece ter sido envenenado.

 

Com tanta desgraça, razão teve Shakespeare quando escreveu tem algo de podre no reino da Dinamarca! (Será que Hamlet é inspirado nesta família?)

 

E a culpa desta saga, estupidamente assumida em trovas impressas no final do século XVI, é atribuida à rainha portuguesa! E ainda se devem queixar do “azar” da segunda rainha, Leonor, também portuguesa, ter morrido com dois anos de casamento sem deixar herdeiro.

 

O que se consegue apurar é que, segundo antropólogos que abriram o seu túmulo sete séculos depois, Dona Berengária era uma mulher linda. “O esqueleto de Berengária assim como a sua caveira são de linhas nobres e belas, donde se deduz que esta princesa deve ter sido raramente formosa e de corpo escultural. Ao lado da caveira estavam duas tranças fartas que actualmente se conservam entre duas chapas de cristal no Museu da Igreja dos Waldemares, em Ringsted, que em 1915 inspiraram o poeta Waldemar Rordam:

 

Neste escrínio de cristal, repousam cabelos de mulher

Separados da minha mão, unicamente pelo vidro.

Ali jaz uma trança farta, espantosamente conservada

Das trevas da morte e da poeira de 700 anos.

Está frágil e desbotada, no seu entrançado,

Com esta trança, o rei Waldemar brincou.

Nas ondulações desta trança enroscou-se

A felicidade da Dinamarca.

Sustentámos batalhas gigantescas

As nossas vitórias caíram, quais frutos corridos

Pela traição dos duques, e discórdia fraternal.

 

Na época, o nome das rainhas de Portugal, seria lembrado com admiração, o que deve ter levado a princesa Cristina da Noruega, filha do rei Hakon IV, a empreender em 1256 uma viagem, “acompanhada de cento e vinte pessoas, muitas damas da nobreza e um grande dote de ouro, prata e peles brancas e cinzentas”, para ir casar-se com um dos irmãos do rei Afonso X de Leão e Castela.

 

Escolheu Filipe, vinte e cinco anos, arcebispo de Sevilha que entrega o arcebispado ao irmão Sancho, promete à noiva construir uma igreja dedicada a Santo Olaf e casam em 1257.

 

Notas

1.- Se alguém for à Dinamarca deve visitar a Igreja dos Beneditinos em Ringsted, onde estão sepultadas as duas rainhas e seus maridos.

2.- Ramiro II e Adb ar-Rahman foram mesmo meus antepassados!

 

 

12/06/2014

 

 Francisco Gomes de Amorim

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