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A bem da Nação

REFLEXÃO COLONIAL - 1

Quem conheceu as zonas urbanas de Moçambique antes de 1974 ficou muito provavelmente encantado e quem voluntariamente viveu fora das cidades também terá hoje saudades de paisagens, gentes e condições gerais da vida.

Paisagens soberbas, inesquecíveis; gentes globalmente pacíficas, afáveis, cerimoniosas, civilizadas; condições confortáveis de vida..

«Vendo o filme ao contrário», creio que todos – de todas as cores e de todas as etnias – pensávamos (locais e «reinóis») que a independência era uma ocorrência natural num futuro não localizável mas para que não se previam turbulências… mas a História trocou-nos as voltas e a destabilização começou, cresceu, foi confinada e a vida retomou a tranquilidade anterior.

E foi nesta tranquilidade na maior parte do território que o grande desenvolvimento começou: Universidade, barragens, estradas, aeródromos, portos, substituição de importações, progressiva monetarização da economia… E foi neste desenvolvimento a ritmo inédito que muitos de nós, «reinóis», colaborámos activamente. Recordo vários amigos e camaradas de armas que davam aulas nos cursos nocturnos do nível secundário e mesmo no superior. Eu guardei-me para depois do serviço militar regressando a Moçambique como civil para o exercício das minhas habilitações profissionais.

Foi uma fase empolgante na construção do que ficara durante séculos por fazer tanto no físico como, sobretudo, no desenvolvimento humano.

Mas não seria pela vida contemplativa ou de ócio que serviríamos os moçambicanos. Daí, as autocríticas históricas e análises de estrutura que acabariam por desenhar muitas políticas dos Governos de Arantes e Oliveira e de Pimentel dos Santos.

A primeira crítica foi ao elevadíssimo grau de iliteracia das populações. Daqui resultaram duas decisões estruturais: o incentivo da formação e recrutamento de professores primários (não tivemos a força política necessária para levarmos por diante uma adaptação dos programas à realidade moçambicana e, por absurdo, as crianças do interior, do litoral e do topo ao fundo do mapa  moçambicano tinham que aprender o mesmo que se ensinava em Portugal); o adensamento da quadrícula de escolas primárias (se os condicionalismos orçamentais impedissem a construção de edifícios em alvenaria, pois que as escolas funcionassem em palhotas de pau a pique pois o importante era que as crianças aprendessem a ler, escrever e contar). E foi tanto o que ficou por fazer… Mas em Portugal chegámos ao 25 de Abril de 1974 com 25% de analfabetismo adulto.

No ensino secundário, a malha era muito mais larga pois só havia liceus (alunos maioritariamente brancos à semelhança do que acontecia em Portugal cuja população liceal era oriunda sobretudo de famílias instaladas no conforto) ou escolas técnicas (sobretudo alunos não brancos, à semelhança do que acontecia em Portugal cuja maioria dos alunos na via profissionalizante era oriunda de famílias laboriosas) nas capitais de Distrito. Manifestamente insuficiente mas em tudo semelhante ao que acontecia em Portugal. Não vingou o cabimento orçamental para intensificar a formação agrária mas sobraram verbas na formação de torneiros mecânicos. Contudo, ainda se deu início ao funcionamento em Inhambane do Centro de Formação Profissional das Comunicações onde se começaram a ministrar os cursos que as escolas técnicas não dispunham (lembro-me de várias especialidades na electrónica). O sonho era o de tudo aquilo poder vir a ser um Instituto Superior Técnico a integrar na Universidade de Moçambique.. Mas ficou-se pelo sonho. E se é sempre penoso interromper sonhos, neste caso ainda foi pior para a maioria não-branca que frequentava os cursos iniciados e não ministrados até final.

Naquela primeira metade da década de 70 do séc. XX, a maioria da população escolar universitária era branca.

Faltava fazer a democratização do acesso ao ensino e foi com o objectivo primordial de se fazer a tele-escola e a promoção do português como língua de comunicação inter-étnica que se tomou a decisão de cobrir todo o território por televisão. Feito o projecto, tudo pronto para se lançar os concursos para o equipamento e eis que de Lisboa chega o veto pois a RTP tinha equipamento (obsoleto, claro) de que se queria livrar. Passado pouco tempo, aconteceu o 25 de Abril de 1974 e este foi outro sonho interrompido.

Vizinho do «apartheid» sul africano, o regime português de Moçambique orgulhava-se do seu não racismo mas, há que reconhecer que o desenvolvimentismo foi tardio e que por isso mesmo os benefícios outorgados aos pretos também tardaram. O racismo real fazia-se pelo poder de compra: não passava pela cabeça de ninguém barrar o acesso a qualquer local ou situação com base na cor da pele. Bastava que se tivesse poder de compra e o acesso era livre a toda a parte e a todas as circunstâncias. Mas a pirâmide social não brancaa tinha uma amplíssima base e um topo afuniladíssimo mas, mesmo assim, alcançando níveis tão elevados como a homóloga branca. Nós, os desenvolvimentistas, não tivemos tempo de corrigir esta situação pela via da instrução e da formação profissional. Esta foi uma falha retumbante da nossa administração colonial – não muito diferente, aliás, do que se passava em Portugal.

Uma nota final que pode parecer menor tem a ver com a escassez de saneamento básico nas cidades em que prevaleciam as fossas em vez dos colectores com todo o inerente impacto ambiental. Sim, é verdade, um índice lastimável. Mas na Avenida da República, em Lisoa, as fossas assépticas só foram ligadas a colectores no início dos anos 80 do séc. XX e no país menos urbano, poucas eram as casas que tinham casas de banho.

O atraso era específico e generalizado, as políticas desenvolvimentistas foram tardias e nós, os seus executantes, fomos corridos e, infelizmente, seguiu-se-nos o dilúvio em Portugal e Colónias.

Fevereiro de 2022

 

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