Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A bem da Nação

QUASE COMO UMA BÍBLIA…

 

JLP-Nenhum Olhar.jpg

 

…Em que se contam histórias de gentes que povoaram o mundo. Ora com narrador não participante – extradiegético – ora com narradores autodiegéticos (de focalização interna), como personagens principais – os dos salmos, do apocalipse… e sempre para glória do Senhor, responsável pelo mundo que criou, punindo ou premiando, sem, todavia, alterar o comportamento das suas criaturas. E retomando referências já abordadas, em discurso repetitivo e progressivo, amálgama de momentos vagos de grande expansibilidade  cronológica.

 

Este livro de José Luís Peixoto – «Nenhum olhar» - tem, para além do mais, personagens com nomes da diegese bíblica, tais como José (pai e filho), guardadores de rebanhos, Gabriel, Moisés, Elias, Judas, Mateus, Salomão, Rafael … sendo que a outros – sobretudo os do sexo feminino, como seres impuros, na opinião das gentes do espaço narrado – aldeia ou vila alentejana – é-lhes substituído o nome próprio pelo de “filha” ou “mulher de” ou “pai de” ou “mãe de”, ou mesmo “puta”, ou “prostituta cega”: “o meu pai” (da “mulher de José”) … e ainda as personagens do mito, simbolizando o Mal (o gigante) ou a mexeriquice perversa popular (o demónio…). Personagens de uma ficção tenebrosa, de aleijados – vários – ou martirizados, ecos de uma bestialidade tosca, com violação (a mulher de José, na infância), ou autopunitivos José e o filho, a mulher de Salomão, Rafael…

 

Um espaço físico e social pois de dureza, de sofrimento e miséria, de insinuação criadora de intriga e desfecho fatal, espaço de interiores aldeãos pobres ou defeituosos, porque explorados, mas de gente trabalhadora e honesta (entre as personagens principais), espaço de luxo fidalgo – casa do doutor Mateus – com os seus pedantismos mas dores também e mistérios – “a voz da arca”, espaço de exterior amplo, com o monte das oliveiras simbólico de agonia, de solidão e de morte…

 

Um tempo cronológico vário, distribuído por duas partes estruturais, a primeira sobre as personagens dos inícios – pais e filhos – a segunda pelos sucessores, sem que cresçam os filhos gerados, porque os pais morreram ou se mataram, em desfecho violento, paralelo ao da primeira parte.

 

E a estrutura da intriga é redundante, em espiral, repetitiva, poética, alternada, ora com narrador não participante – extradiegético – destacando os comportamentos e os cenários, ora com o narrador participante – José, a mulher de José, os gémeos siameses Moisés e Elias, o velho Gabriel, na primeira parte, os da segunda parte. E todos eles se destacando pela dignidade de pensamento, no discurso filosófico e poético, com repetições de conceitos (Ex: «Penso: Talvez haja uma luz dentro dos homens, talvez uma claridade, talvez os homens não sejam feitos de escuridão, talvez as certezas sejam uma aragem dentro dos homens e talvez os homens sejam as certezas que possuem.» Um discurso de constante incompreensão sobre o mundo e os homens, como este de José, com tantas sugestões de Álvaro de Campos:

Ex: Os homens são uma parte pequena do mundo, e eu não compreendo os homens. Sei o que fazem, mas saber isso é saber o que está à vista, é não saber nada. Penso: talvez os homens existam e sejam, e talvez para isso não haja qualquer explicação; talvez os homens sejam pedaços de caos sobre a desordem que encerram, e talvez seja isso que os explique……….Sempre vos quis defender, em tudo fui derrotado, porque sei que, mais cedo ou mais tarde, também os vossos rostos irão sofrer; mais cedo ou mais tarde, também tu, mulher que quis mais que tudo, morrerás, e tu, filho meu, morrerás. As nossas campas no cemitério serão por uns tempos cuidadas e visitadas por aqueles que deixámos, mas também esses morrerão um dia; e as nossas campas encher-se-ão de musgo e erva, e alguém que passe por nós não parará, e mesmo esses que deixámos não serão recordados por ninguém, pois tudo o que amaram morreu…

 

Discurso de personagem (José) em tudo paralelo ao do narrador extradiegético, o que lhes retira verosimilhança como personagens modeladas, vivendo num meio rústico, onde quase todos assinavam de cruz (como se verifica no casamento de Rafael com a prostituta cega, quadro tosco de caricatura, a lembrar pinturas medievais, como as de Bruegel.

 

Um mundo, pois, de espessura dolorosa e pessimista, que recorda também a intenção escatológica que encontrámos no «Ensaio sobre a Cegueira» de Saramago. Com inegáveis qualidades de observação pictural, em perífrases originais: Ex: «Num assobio que desenhou no ar o movimento de uma chicotada», «As pontas das orelhas da cadela levantaram-se, como se tivessem sido puxadas por um fio de pesca»…., Com um  discurso tantas vezes de frases incompletas, segundo a técnica do «nouveau roman”, traduzindo a corrente de consciência indefinível: Ex: «Prosseguiu para a vila. Não por querer chegar. Não por querer, mas porque a tarde, porque o sol e a luz, porque uma solidão tão grande».

 

E o título, que se justifica num desfecho apocalíptico, de um niilismo total:

O mundo acabou. E não ficou nada. Nem as certezas. Nem as sombras. Nem as cinzas. Nem os gestos. Nem as palavras. Nem o amor. Nem o lume. Nem o céu. Nem os caminhos. Nem o passado. Nem as ideias. Nem o fumo. O mundo acabou. E não ficou nada. Nenhum sorriso. Nenhum pensamento. Nenhuma esperança. Nenhum consolo. Nenhum olhar.

 

Berta Brás.jpg Berta Brás

Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2006
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2005
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2004
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D