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A bem da Nação

PROPENSÃO PARA A ASNEIRA

 

à beira do abismo.jpg

 

Se o rendimento de alguém crescer uma unidade monetária, que percentagem dessa unidade se destina ao consumo? E quanto se destina imediatamente à poupança para que no futuro se destine ao consumo ou ao investimento?

 

Eis o tipo de raciocínio da teoria do marginalismo: o que sucede quando a «margem» se alarga uma unidade?

 

Prosseguindo, se o meu rendimento aumentasse um Euro, que faria eu com isso? Sei lá! Ia tomar um café? Bom, isso significaria que gastaria 50 Cêntimos num produto alimentar (consumo) e pouparia os 50 Cêntimos do troco. Estou obviamente a escrever na era cristã em que o café custa 50 Cêntimos. A minha propensão ao consumo seria de 50% e, em complemento, a minha propensão à poupança seria de 50% também. E dessa poupança, quanto destinaria eu ao investimento?

 

É claro que não faz sentido eu imaginar um investimento de 25 Cêntimos mas talvez já se faça alguma «coisa» relativamente importante se todos os habitantes do meu bairro juntarmos as nossas poupanças e investirmos num... táxi? (bem de consumo duradouro destinado à prestação de um serviço não transaccionável)... num lote de acções do Banco XPTO? (especulação bolsista)... numa parcela de terreno para semearmos batatas e couves? (produção de bens transaccionáveis)... num lote de quinquilharia chinesa ou espanhola para irmos vender no quiosque da esquina?... (importação de bens de consumo).

 

As hipóteses são muitas mas o que mais se tem visto é a opção pelo consumo porque os incentivos ao investimento produtivo não são assim tantos que levem as pessoas a abdicar do prazer imediato gerado pelo consumo.

 

Para além da escassez de incentivos ao investimento produtivo há também a certeza de vivermos no reino do hedonismo – não gozes amanhã o que podes gozar hoje – e do facilitismo – para que é que me vou meter em trabalhos produtivos se posso folgar, consumir e descontrair-me?

Mas há mais.

 

O crédito vem sendo encarado como um direito e não como uma conquista. Desse modo, o sistema bancário emite crédito «à la diable» e os critérios de análise de risco são por certo muito liberais porquanto vemos o volume global do “crédito mal parado” a subir de todas as vezes que as estatísticas saem a público. E os níveis de endividamento das famílias ultrapassam todas as barreiras da razoabilidade. Em quê? O grosso da coluna é o crédito à habitação levando muita gente a tentar muito legitimamente possuir casa própria um dia lá para a frente bastante distante... Arrendar casa é encher os Senhorios fascistas e capitalistas. E o carrinho que tanto jeito dá? Pois dá – mas não com mais de dois anos de uso pois todos queremos andar no «último grito» e andar num carro «vintage» dá mau aspecto perante a vizinhança e amigança... E o telemóvel, a tablet, o hight isto e aquilo, tudo tem que ser do bom e do melhor. E se os rendimentos normais não são suficientes, para que serve o crédito? Sim, é para isso mesmo: para dar ao freguês o estatuto que ele ambiciona mesmo que não seja capaz de produzir o equivalente ao que consome.

 

É que se já estávamos com elevada propensão para a asneira antes do crédito, eis-nos a ter que constatar que, afinal, o sistema bancário no nosso país é um incentivador da asneira individual e da desgraça nacional.

 

Já que a banca parece nada ter aprendido com a crise, aguardemos por mais falências bancárias. E os que pouparam e confiaram as poupanças aos banqueiros, que se lixem. Mas os devedores, esses, safam-se.

 

Então, sob a égide duma Constituição que permite que sejamos governados por quem perde eleições, por que razão não hão-de os devedores ser ilibados e os cumpridores punidos?

 

Isto já não é propensão para a asneira, é o reino dela.

 

Fevereiro de 2016

 

Henrique num templo indú em Goa.jpg

Henrique Salles da Fonseca

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