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A bem da Nação

PORTUGUÊS, LÍNGUA FRANCA NO ORIENTE

«NOSSLING» E OUTRAS MAIS…

A Cultura Portuguesa no Oriente continua a ser motivo de grande interesse por parte de intelectuais e de lusófilos longínquos falantes de português moderno e de muitos dialectos de origem portuguesa.

Dos intelectuais, destaco Jorge de Sena, o poeta que me faz cruzar com a tristeza e K. David Jackson, o historiador cuja obra, nesta temática, tenho por inultrapassável.

De Jorge de Sena, versos da nostalgia do passado e da tristeza do presente…

«Escritos em caracteres tamil

Por quem mal sabe a língua em que soavam…

Estes versos emergem com uma tranquilidade

Terrível de língua morta a desfazer-se

E cujos ossos restam dispersos num e de um romance

Cantado há quatro séculos numa terra alheia.

Distâncias de oceanos os conduziram como hábito

De serões e vigílias.

Solidões do longe

Os ensinaram a quem partilhou tédios e saudades…

Ficaram nas memórias teimosas de abandonada gente…

Presa por um fio a um país esquecido…

Não os ouve nada nem ninguém!»

(Jorge de Sena - «A sátira na poesia e na poética»)

 

Eis a sina dos “lusófilos longínquos” que ficaram nas suas terras depois do fim da administração portuguesa. Mas, apesar de rodeados de hostilidade ou por desdenhosa indiferença, defendem os Valores que tinham recebido – religião, língua e até alguns genes.

E é precisamente toda esta tenacidade que me leva a olhar o futuro com esperança desde que, em vez de choro mole, ajudemos esses “lusófilos longínquos” a olhar em frente com fé na preservação dos Valores que tão corajosamente preservam.

Extractos de génese histórica da obra de Jackson que retenho:

  • Depois de quinhentos anos, a presença portuguesa na Ásia é muito visível, paradoxalmente, através de uma ausência sensível na arquitectura militar, civil, religiosa e até mesmo profana das cidades, com as suas fortalezas costeiras, igrejas e casario que transformaram a História em arqueologia - tal é a fortuna de locais mais ou menos preservados desde a ilha de Socotorá ao largo do Iémen, no exclave omanita no Estreito de Ormuz onde me disseram que a sua língua é «árabe aportuguesado» (se é que isto faz algum sentido), na Costa do Malabar refiro Chaul e Baçaim com grande número de fortificações, monumentos, construções e inscrições que testemunham a ausência sensível desse que foi o império marítimo português;
  • De Chaul, portanto, restam as pedras pois faz uma vintena (?) de anos que morreu o professor do dialecto de português que ali se falava mas que, felizmente, se preserva na vizinha Corlai, a famosa «nossling».
  • De Damão, transcrevo apenas curtos versos de cantiga actual:

«Papegaai ne gaiola,

batté azas quer curre,

Menina ne janela,

batté peto quer morre»;

  • De Diu refiro que se trata da parcela do extinto Estado Português da Índia que apregoa ser onde actualmente mais se fala português;
  • De Baçaim, hoje um dormitório de Bombaim, último hospital de apoio à «carreira da Índia» (o 17º) com início no Algarve (Tavira), resta a monumentalidade da que foi a Capital das Províncias do Norte do Estado Português da Índia;
  • Para além de várias «bolsas» residuais de algumas famílias dispersas por vários pontos da Índia que dizem falar «o português correcto», o português moderno é falado com maior ou menor militância e com um ou outro regionalismo em Goa, Damão, Diu e Dadra.

 

Dobrado o Cabo Comorim, eis-nos a caminho da Taprobana, de todo o Golfo de Bengala e do mais que se há-de ver…

  • Trincomalee e Batticaloa, na costa oriental do Sri Lanka, são as mais ricas fontes de «português» no Ceilão. Nada menos que trezentas famílias falam o seu dialecto de português. A União Católica "Burgher" reúne estas pessoas que falam português na Reunião Geral Anual mas as actas são escritas em inglês porque naquelas Assembleias não tem havido quem saiba escrever o seu português senão em caracteres tâmil, o que eles não querem fazer por questões relativas à neutralidade nos conflitos internos no país (foi o General Fonseka que fez cessar a guerra civil). Mas têm muito orgulho na sua cultura e estão interessados em preservar a sua língua. Todas as suas orações católicas são em português e achei comovente ouvi-los rezar o «Pai Nosso»:

Pai nosse qui está ne céos,

Santificádo seja tua nomi,

Venho nós a tua Reyno,

Seja fêto a tua vontadi

Assi ne terra, como ne céos;

O pan nosse de cada dia nos dá ojo,

E perdová nós nosse dívidas

Assi como nós perdovamos nosse dividóris,

E nan nos desse caí em tentaçan,

Mas livra nós de mal.

Ámen1!

Do folclore português do Sri Lanka, basta transcrever duas pequenas peças para se ver o que falta fazer no apoio a estes "lusófilos longínquos" para que mantenham a sua cultura:

«Anala de oru sathi padera juntu

Quem quera anal avie casa minha juntu»     \

(O anel de ouro com sete pedras

Quem quiser o anel, venha casar-se comigo)

 

«Já foi todo partis, Ceilão per Japan

Mais nunca trizé nada, for da firme coração»

(Já fui a toda a parte, do Ceilão para o Japão

Mas nunca trouxe nada, excepto o fiel coração)

 

Rumando a Norte pelo Golfo de Bengala, já não encontrei vestígios da língua portuguesa na Costa do Coromandel e a Feitoria Portuguesa em Calcutá foi devorada pelo urbanismo do caos. E, contudo, em todos aqueles litorais, toda a gente se entendia em português, a língua franca em todo o Oriente, correndo então o século XVII e suas envolvências.

À cautela, não me aventurei pelo Mianmar adentro e, portanto, não visitei o país em que o lisboeta Filipe de Brito e Nicote foi eleito Rei e que morreu no seu posto rodeado da amizade e respeito do povo que governou; relativamente a Malaca, sou co-autor do «Dicionário Papiá Cristang-Português» em vias de produção; no Vietname, testemunhei o prestígio actual do Padre Francisco de Pina SJ que fez o primeiro dicionário «Vietnamita-Português» e ali introduziu o alfabeto latino para aquela cultura sair da alçada chinesa; em Macau, o Instituto Camões desempenha a função que lhe está consignada; em Jakarta. os lusófilos locais têm uma História interessantíssima que não cabe nestas linhas, são os Tugus e têm língua própria; na ilha das Flores, as orações católicas são todas em português e Timor-Leste está a fazer um trabalho muito valioso para recuperar dos traumas da invasão indonésia.

Noto que em todas estas situações e à semelhança do que acontece na Galiza e em Timor-Leste, a língua assume um papel de identidade social do maior relevo. E mais noto que a língua portuguesa apresenta perspectivas de futuro que a colocam numa rota de grande crescimento: mais do que para carpir saudades e «arma» de afirmação sociológica, o português é um instrumento que serve o desenvolvimento na América do Sul, em África, no Exstremo Oriente e, claro está, na Europa.

Pela sua finura linguística e pelo seu traço de erudição, Goa p0deria – se quisesse – ganhar o Prémio Internacional da Língua Portuguesa mas para isso é necessário que o galardão exista e que a profecia de Jesus sobre o canto do galo não se aplique.

Enfim, numa perspecyiva futura, há que apoiar essas comunidades dialectaantes de português fixando-lhes as respectivas semânticas, sintaxes e tempos verbais e, em situações pontuais, ensinando o português moderno como língua estrangeira. Aqui fica a sugestão-pedido à Fundação Oriente.

«Arigatô»!

Henrique Salles da Fonseca

BIBLIOGRAFIA

«De Chaula Batticaloa» - K. David Jackson

 

Publicado em 24 de Outubro de 2021 no jornal O Heraldo, Pangim, Goa

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