Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A bem da Nação

POR TORDESILHAS ALÉM… - 8

Quando acordámos, estávamos ancorados ao largo da Grande Caimão.

E vá de saber coisas…

Porquê ao largo e não acostados? Porque, como dizem os geólogos, geógrafos e outros sábios, as três ilhas Caimão – a grande, a média e a pequena – são os picos truncados de uma cordilheira submersa e não há um mínimo de plataforma costeira que permita a construção de cais acostáveis por navios de tonelagem séria, o declive submerso é a pique. Eis por que nós e mais dois ou três navios de cruzeiro ficámos ao largo assim como uns quantos yachts de bem menor peso que o nosso. Seríamos trasfegados para terra em barcos com capacidade para 250 passageiros e não em pirogas como (não) seria expectável.

E iríamos ver caimões? Não, os caimões (crocodilos de água salgada) eram abundantes nestas três ilhas mas os ingleses que viviam na Jamaica começaram a vir aqui fazer caçadas desportivas e acabaram com eles. E, realmente, como é que se haveria de fazer um paraíso fiscal no meio dos crocodilos?

 Assim foi que chagámos a terra, nos meteram em pequenos autocarros (uma vintena de passageiros) e fomos dar uma volta pela cidade, George Town, antes de irmos à praia dar um mergulho e almoçar.

Tudo plano, os edifícios mais altos que vi deveriam ter, no máximo, três pisos – rés do chão, 1º e 2º - o que não obsta a albergarem cerca de 250 bancos. Sim, como é do domínio público, quem, por esse mundo além, não gosta de pagar impostos (e há-os muitos), leva para ali as suas poupanças. É que nas Caimão não gostam de cobrar impostos, pura e simplesmente não existem publicanos. E à pergunta sobre do que vive o Estado, a resposta foi curiosa: para já, o Estado (entidade pública que administra um território e exerce a soberania) é o britânico, o do Reino Unido, pois as Caimão são um território ultramarino britânico (eufemismo para «colónia inglesa»); de seguida, o território não tem Forças Armadas – parece que tem meia dúzia de polícias, alguns barcos de vigilância costeira e dois ou três helicópteros para acudirem a acidentes marítimos – e mais do que isto, têm uma Administração Pública muito ligeira encimada por um pequeno Governo, um mini-Parlamento e um Governador (fantoche que representa a Rainha Isabel II). Tudo, financiado pelas taxas cobradas aos forasteiros residentes dos quais sobressaem os contabilistas (por que será?) como autorizações de trabalho - de duração relativamente curta, como não poderia deixar de ser para que as respectivas renovações financiem os polícias.

Infelizmente, ao longo das ruas não tropeçámos em nenhuns montões de dinheiro assim como não corremos o risco de nos cruzarmos com um caimão. Também não vimos nenhum capitalista gordo a fumar charuto, de chapéu alto, calças riscadas, colete, corrente de ouro e fraque como os comunistas gostam de os caricaturar. É que a nossa guia e motorista era uma cubana a quem tentei sacar alguma informação sobre a situação actual no seu país. Saiu a diskette estafada do boicote americano quando é sabido que tudo isso está mais do que furado pelos próprios americanos travestidos de canadianos, mexicanos ou não sei de mais quê. Não tive paciência para lhe dizer que mudasse de diskette pois ela deveria estar com medo de ser espiada por algum amigo de Cuba. Não dei troco, a conversa morreu ali e fiquei a saber que posso continuar a ter pena dos cubanos. A ironia desta conversa está em eu ter ido ao coração do capitalismo saber notícias de um dos últimos redutos do caduco comunismo.

Lá fomos então até à praia dar um mergulho sem caimões mas com um olho sempre alerta na eventualidade de algum primo maior dos cações. Confirmei que a minha querida paria do Barril, em Tavira, é a melhor do mundo.

Almoçámos num daqueles restaurantes de praia e regressámos ao barco. Ficou visto. Julgo que posso dizer «adieu».

(continua)

Março de 2020

Henrique Salles da Fonseca

 

3 comentários

Comentar post

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2017
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2016
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2015
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2014
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2013
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2012
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2011
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2010
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2009
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2008
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2007
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2006
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D
  209. 2005
  210. J
  211. F
  212. M
  213. A
  214. M
  215. J
  216. J
  217. A
  218. S
  219. O
  220. N
  221. D
  222. 2004
  223. J
  224. F
  225. M
  226. A
  227. M
  228. J
  229. J
  230. A
  231. S
  232. O
  233. N
  234. D