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A bem da Nação

POR TORDESILHAS ALÉM… - 7

 

Era ali pelas bandas do tempo que antecedeu o 25 de Abril de 1974 que a RTP transmitia o anúncio a um shampoo qualquer em que aparecia uma pequena mais ou menos coberta (ou mais ou menos despida) por uma túnica branca, metida até aos joelhos na água de um laguinho, tendo como fundo da imagem uma pequena cascata.  E enquanto a pequena mexia e remexia na sua farta cabeleira, a voz-off dizia que «a Natália foi à Jamaica lavar o cabelo com…» (e dizia o nome do shampoo que já esqueci). Ora, naquela época, a filha solteira do então Presidente da República, Almirante Américo Thomaz, chamava-se Natália e, vai daí, o bom povo português encheu o anedotário nacional duma quantidade enorme de chistes a que a minha memória deu entretanto o mesmo tratamento que ao nome do shampoo.

Eis o que até há bem pouco tempo, eu sabia da Jamaica. Mas agora, indo lá, pareceu-me de alguma conveniência passar pelo Google[i] e estudar um pouco sobre o dito país.

Então, a Jamaica compõe-se de uma única Nação negra, Estado independente mas integrado na Commonwealth. O território é a ilha do mesmo nome. A actividade económica baseia-se na exploração de bauxite e no turismo enquanto o equilíbrio financeiro é muito ajudado pelas remessas dos emigrantes.

Assim sendo e nesta conformidade de viajantes, aportámos durante a noite a Ocho Rios (e não Eight Rivers como alguém me confundiu), desembarcámos num cais florido e desembocámos numa simpática praça ajardinada onde os autocarros nos esperavam. Visto da varanda do nosso camarote, Ocho Rios fez-me lembrar o Machico e não mais. Pequena vila a que por ali se chama cidade, tem aspecto asseado e não se vê miséria nem a chusma de vendedores ambulantes (mendicidade disfarçada) que nos assediara na esplanada em que almoçáramos em Cartagena de las Índias. Encamionados, lá fomos nós rumo ao desconhecido… E qual não foi o meu espanto quando deparei com a «cascata da Natália». Trata-se de um riacho cantante dentre os mais de mil que se diz existirem na Jamaica e que, enquadrado num parque de lazer, desce até à praia onde existe um rudimento de apoio turístico. Foi então que, pela primeira vez, molhei os pés naquela região caribenha. Não avancei mar adentro porque me disseram que os tubarões também gostam de tomar banho por ali.

Gostei do que vi mas achei pouco para justificar uma viagem tão longa.

Foi então, no regresso ao barco, que comecei a pensar nas diferenças óbvias entre a Jamaica e o Haiti, outra República negra nas Caraíbas, onde impera a miséria e o desmando político. E notei para comigo e em silencia que nunca me passou pelas orelhas o som do nome de algum político jamaicano enquanto que os haitianos «Papa Doc» Duvalier e seu filho gordo e perdulário encheram as notícias urbi et orbe. E desse desmando – aparentemente justificado pelos vapores da liberdade, igualdade e fraternidade - resulta por certo a fuga das gentes que não remetem poupanças para os bancos em Port au Prince. Pelo contrário, os emigrantes jamaicanos enchem de remessas os bancos do seu país porque sabem que ali tudo é sereno.

Um slogan curioso: «Na Jamaica não há problemas, há acontecimentos e estes têm soluções». Trata-se, evidentemente de um eufemismo jocoso mas não deixa de mostrar uma faceta da bonomia geral. E a pergunta que me ocorreu foi se essa bonomia não resultará de «aquela malta andar toda ganzada». Talvez sim, talvez não. Eu não vi nada que me fizesse supor uma sociedade abandalhada. Vi-a sorridente e serena, mas não eufórica no pico da ganza nem deprimida na ressaca.

Concluindo, nesta minha primeira visita à Jamaica, vou com uma ideia positiva.

Almoçámos no barco e zarpámos rumo à Grande Caimão onde chegaríamos na manhã seguinte. Tanto quanto me apercebi, as ondas devem ter sido tão grandes como as do lago do Campo Grande em Lisboa.

(continua)

Março de 2020

 

Henrique Salles da Fonseca

 

[i] - https://pt.wikipedia.org/wiki/Jamaica

 

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