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A bem da Nação

POR TORDESILHAS ALÉM… - 5

Atracámos a Cartagena de las Índias um pouco antes da aurora. Quando acordámos, deparou-se-nos uma cidade clara, prazenteira.

Teríamos apenas um dia para ver tudo, havia que acelerar o passo e isso não seria compatível com a nossa condição serena.  A decisão foi tomada antes de desembarcarmos: tomaríamos um autocarro op on-op off cujo trajecto suspenderíamos junto da cidade amuralhada, faríamos uma excursão guiada a pé e retomaríamos o autocarro depois do almoço.

De um modo muito geral, a cidade actual compõe-se de três partes distintas: o centro histórico – a cidade amuralhada – que funcionou em exclusivo entre os primórdios dos séculos XVI e os do XIX, a cidade que se desenvolveu para fora das muralhas durante os séculos XIX e XX e a cidade mais moderna, praticamente toda residencial e luxuosa, já neste séc. XXI.

Estudando um pouco, fiquei a saber que as principais actividades económicas deste conjunto são os complexos marítimos, pesqueiros, petroquímicos e o turístico.

Do moderno para o antigo, achei a parte moderna com edifícios de grande qualidade mas com urbanismo bastante mausote a denotar o jeitinho do «chega p’ra lá que ainda aqui consigo construir um arranha-céus». Contudo, o conjunto é notável e não me importaria de lá passar uma temporada num daqueles edifícios da primeira linha na praia virada para o mar aberto. Sim, também há os outros edifícios (igualmente bons) nas traseiras dos anteriores que quase circundam a baía interior. Aparentemente, poluição zero.

A parte mediana, a que saiu das muralhas, é tipicamente conservadora na sua . arquitectura dos séculos XIX e XX, exibindo algum conforto de quem por ali vive. Claramente, os pais e os avós dos que vivem virados para o mar ou para a baía.

A cidade amuralhada é um concentrado de História inultrapassável para quem queira saber alguma coisa sobre a Colômbia se não mesmo sobre o Império Espanhol naquelas paragens do mundo. Basta saber que era ali que residiam os Vice-Reis e referir que Cartagena de las Índias era o único porto autorizado pelo Rei de Espanha a comercializar escravos nas suas Américas.

No circuito a pé que fizemos com auriculares para ouvirmos as gravações deu-nos uma ideia muito vasta de cada ponto por que passávamos. Se a tudo isso juntarmos as informações que o guia nos ia dando verbalmente, deve ter sido mais o que me escapou do que o que retive. Mas, mesmo assim, acho que ainda consigo repetir algumas coisas. Não muitas, para não ser enfadonho.

Assim, a cidade devolveu os Vice-Reis à origem e declarou-se independente às 11 horas da manhã do dia 11 de Novembro de 1811 e declarou que doravante se regeria por uma Constituição feita à imagem e semelhança da americana. É claro que não funcionou as mil maravilhas e as trabuzanadas terão sido frequentes. Esta proclamação terá ocorrido frente à «porta do perdão», local com tradição histórica.

Ainda nos tempos coloniais e com a Inquisição no activo, um residente inglês recusou-se a apostatar a sua fé anglicana e foi alvo de um auto de fé em que foi queimado vivo. Essa barbaridade tão ao estilo dos dominicanos, foi realizada junto da porta lateral da catedral que, a partir de então e muito ironicamente, se passou a chamar «a porta do perdão». Fiquei sem resposta clara à pergunta do porquê da realização do auto de fé junto da catedral e não frente ao palácio da Inquisição nem no Largo de São Domingos onde se localiza o convento dominicano. Será que já então a Ordem dos Pregadores começava a sofrer fracturas internas pela promoção de práticas tão bárbaras?

Mudando de tema, que cidade seria aquela que deu direito de residência ao grande corsário Sir Francis Drake?  Terá sido um acto de vingança política contra o colonizador anterior? Mais uma pergunta que ficou sem resposta.

Almoçámos bem numa esplanada no Largo de São Domingos, frente ao «virginal» convento dos «donos» da Inquisição.

Finalmente, dirigimo-nos à porta da muralha que nos conduziria ao op on-op off, ao resto do circuito pela cidade e, daí, ao cais. Mas, antes de passarmos a porta da muralha, parei dois minutos no centro do largo a que chegavamos escravos, senti a brasa solar e imaginei o sofrimento dos escravos desembarcados de condições algo diferentes das que nós tínhamos no «Monarch», do futuro que os esperava…

(continua)

Março de 2020

Henrique Salles da Fonseca

Para saber mais, ver por exemplo em

https://pt.wikipedia.org/wiki/Cartagena_das_%C3%8Dndias

 

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