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A bem da Nação

POR TORDESILHAS ALÉM… - 10

Ondas como as do Lago de Genève. Fazendo horas para o jantar, a Graça e eu estávamos na varanda do camarote a ver o Sol a caminho da noite e olhávamos para nenhures. O que se espera ver num mar que parece infinito e plano? Um tsunami que nos vire de borco? Não! Talvez se veja uns golfinhos, umas baleias, um navegador solitário ou uns náufragos… Nada disso. A novidade não estava no mar, tinha sido posta num papel por baixo da porta do camarote.

Era uma comunicação formal de alguém colocado na hierarquia determinante do navio a informar que aportaríamos a Colón na manhã seguinte pelas 7 horas e que seríamos todos metidos em autocarros e escoltados até ao aeroporto de Panamá City. Que tratássemos de mudar de vida. E que, como com o bode a ser ordenhado, não haveria nem meio mé.

O nosso programa de festas previa desembarcarmos, termos um carro à nossa espera para nos levar ao hotel em Panamá City onde ficaríamos mais dois dias a ver o que por lá houvesse de interessante e, então e só então, voarmos para Cancún, no México. Nada disso, seríamos escoltados até ao aeroporto e dali não poderíamos sair a não ser por uma porta de embarque para um avião que nos tirasse para fora do Panamá. No Panamá é que não podíamos ficar. Escorraçados como um bando de mal-cheirosos. E mais: o problema não era apenas connosco, os quatro portugueses, era com todos os passageiros do navio com desembarque previsto em Colón, «apenas» cerca de 850 pessoas. Se a esta multidão somarmos os tripulantes não panamianos em fim de contrato que também desembarcariam, tratar-se-ia de cerca de mil pessoas à deriva, sem solução muito diferente da de terem (termos) que dormir espojados no chão do aeroporto. Estariam 16 autocarros à nossa espera no cais e seríamos escoltados pela Polícia. E que desamparássemos a loja, neste caso, o navio. À saída, haveria uma equipa médica que nos mediria a temperatura: se apiréticos, tudo bem; se febris, não nos disseram onde estaria a máquina de picar carne para de seguida mandarem os restos para o crematório local.

- E não podemos ir no barco até Cartagena de las Índias e tentar resolver o problema a partir da Colômbia?

- Nem pensar nisso, até porque o problema lá é igual ao daqui. Têm que sair e desenrascarem-se.

No check in, aquele mesmo funcionário tinha sido mais afável e não perdi a oportunidade de chamar Pilatos a quem assim se livrava de nós. Desapareceu e não foi mais visto nas redondezas daquele balcão de «apoio» aos passageiros do nosso deck.

A Graça e o Pepe – os reais organizadores das viagens que fazemos em conjunto – tinham 12 horas para conseguirem antecipar o vôo do Panamá para Cancún e para anteciparem dois dias a nossa chegada ao hotel em Playa del Carmen. Como se imagina, as comunicações do barco entupiram de imediato com tanta gente a querer resolver os respectivos problemas equivalentes ao nosso. Valeu-nos a diferença horária entre o Panamá e Portugal, 5 horas, pelo que quem tudo reorganizou com inexcedível dedicação e profissionalismo foi a nossa agência de viagens em Lisboa, a Lusanova, a quem daqui presto merecido aplauso. É que, quando desembarcámos, já sabíamos que voaríamos no vôo tal e tal, que no destino teríamos quem nos levasse ao hotel, tudo perfeito.

Formada a coluna de 16 autocarros, fomos escoltados por polícia motorizada e armada de metralhadora como se fôssemos uma leva de criminosos ou um bando de leprosos. E isto era sabendo que estávamos todos apiréticos. O que seria se alguém estivesse com febre por causa de um panarício ou por um ataque de caspa? Chegados à cerca do aeroporto, ordem para parar. E começámos a ser ultrapassados por todos os que não pertenciam à coluna. Assim estivemos cerca de uma hora até que duas dúzias dos nossos, exaltados, fizeram um cordão humano a impedir o trânsito. Foi ver a Polícia a dar ordem para seguirmos. Pensei que esses cívicos armados ou eram cobardes ou não estavam convictos de alguma ordem absurda que estavam contrariadamente a cumprir.

À hora prevista chamaram-nos para o avião. Não nos virámos para trás a fazer um gesto feio até porque os passageiros depois de nós na fila de embarque não tinham culpa nenhuma. Mas dissemos «Adios Panamá».

Vôo de duas horas e aterragem tão suave que só me apercebi que já estávamos no chão porque senti o piloto pôr o reverse e travar.

Bom augúrio, México!

Continua)

Março de 2020

Henrique Salles da Fonseca

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