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A bem da Nação

POR ESSA PICADA ALÉM… - 9

Quer o Leitor acreditar no que tenho para lhe dizer? Se sim, tudo bem, continue a ler; se não, passe para a linha que se segue aos asteriscos (* * *). Então, se aqui está, fique sabendo que há 47 anos não havia telemóveis nem sequer máquinas fotográficas de bolso como hoje as temos para já não falar na qualidade tão razoável das fotos feitas com os próprios telemóveis. Pois é, naqueles idos nada disso existia e a frequência fotográfica era diminuta. Havia uns quantos carolas que eram apontados a dedo como os «maluquinhos das fotografias» mas a generalidade das pessoas não tinha sequer uma máquina fotográfica. Eu, por exemplo, não tinha uma máquina fotográfica mas tinha, isso sim, uma câmara de filmar. Só que tudo dava tanto trabalho que era mais fácil registar na memória e contar aos netos de seguida. Mas um dos meus companheiros devia ter uma máquina fotográfica pois não haveria outro modo de aparecer uma foto do nosso «herói» na floresta de Inhaminga com a porta traseira esquerda aberta à espera que Mrs. Livingston entrasse ou saísse. E onde será que guardei esse exemplar único? Na memória. E só. Portanto, venho aqui apresentar-me como «documento coevo» desta viagem e pedir perdão pelos lapsos de memória. Ao mesmo tempo, garanto que não farei como Fernão Lopes quando não se lembrava de coisas que se tivessem passado 47 anos antes de quando escrevia: ele, de certeza, inventava; eu floreio, admito, mas não invento.

Mas se aparecer por aí uma ou outra foto, Companheiros não hesitem em mandar-me publicá-las. Mas para não incorrer no problema de Fernão Lopes, o melhor é porem legendas.

Seguem-se os asteriscos que separam os crédulos dos incrédulos.

* * *

- Então, Miguel, a que horas é o despertar amanhã?

- Ora, se da Beira à Gorongosa são cerca de 150 quilómetros (viemos a saber que eram 136, não errou quase nada) e lá queremos estar à abertura do portão que é as 6, convém sairmos às 5 e levantarmo-nos às 4.

- Por mim, tudo bem. Que te parece, Tó? O Tó passava pelas brasas mas abriu um olho e disse que sim. Ainda hoje o Miguel e eu não temos a certeza sobre se o Tó sabia do que nós estávamos a falar. Mas a palavra estava dada e ele, sabendo ou não do que se tratava, honrou-a. É assim a vida de um Cavalheiro.

- Mas, oh Miguel! Não achas perigoso corrermos o risco de ir acordar a bicharada entregue aos sonos profundos da floresta? E se eles têm mau acordar? É que assim como há gente com mau feitio antes de tomar o pequeno-almoço, o mesmo pode acontecer com os leões e eles acharem que nós lhes servimos de pequeno-almoço. Isto era eu a tentar ganhar mais algum tempo de sono… mas não tive sorte nenhuma. Parece que ao pequeno-almoço os leões não são carnívoros… As coisas que estamos sempre a aprender. É como as avestruzes mamarem até ao ano de idade para não deixarem a mãe voltar a procriar…

Como o Miguel queria, estivemos uns bons minutos à espera que o portão da Gorongosa abrisse. E foi nesta espera que fizemos o ponto laboral da situação. À falta de guerra, o Tó foi o único de nós os três no completo desemprego; o Miguel trabalhou bem como «mestre cronógrafo» que é como quem diz «o despertador» e eu não fiz outra coisa se não trabalhar para eles, agarrado ao volante.

- Nós estamos de férias – disse um deles – e tu estás em missão de soberania. Trabalha para salvares a Pátria e não refiles porque, senão, dizemos ao Kaulza e vais preso.  

E com esta lógica assassina, resignei-me e continuei agarrado ao volante como o homem do leme do Mostrengo que está no fim do mundo e que com três urros se pôs a chorar.

- A chorar? Que disparate! A chiar!!!

- E o homem do leme disse o quê?

- Disse para pores o carro a trabalhar que o guarda já abriu o portão.

Ultrapassado o ataque de non sense e ultrapassado o portão, entrámos na Gorongosa, o reino da bicharada.

Seguindo as indicações que ladeavam a estrada, dirigimo-nos ao «Acampamento Central» para, a partir daí, decidirmos como seria a visita. Mas uma decisão foi logo tomada: não dormiríamos na Gorongosa que devia ser sono pesado em Escudos; passaríamos o dia a vaguear pelo Parque e à hora do fecho iríamos a Gondola ou a Vila Machado procurar poiso para a noite.

(continua no próximo número que é já daqui a pouco, depois de breve intervalo pois a Gorongosa merece um número só para ela)

Julho de 2019

Henrique Salles da Fonseca

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