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A bem da Nação

POR ESSA PICADA ALÉM… - 8

 

Desembatelonámos (desembarcámos de batelão) com a maior normalidade em Chupanga que também era conhecida por Lacerdónia. Algo me diz que por ali «reinou» algum Lacerda mas não me ative nessa questão. O Senhor Lacerda não entra na História minha conhecida e, pelo contrário, há outra particularidade que essa, sim, me saltou para a região dos neurónios logo que a tabuleta com o nome da localidade se pôs à frente dos meus olhos. A bem da verdade, a ideia não me saltou de imediato, tive que puxar pela cabeça. Aquele nome «Chupanga» escrito de outro modo, dizia-me qualquer coisa. Mas, o quê? Imaginei «Shupanga», pensei e BINGO! É ali que repousam os restos mortais de Mary Livingston vítima que foi do paludismo. E lembro-me que, apesar do seu anglicanismo, foi acolhida e tratada na missão jesuíta que ali havia. Só não sei se o episódio do «Doctor Livingston, I presume» foi antes ou depois do passamento desta Senhora.

Chupanga, túmulo de Mary Livingston.jpg

Cemitério de Chupanga, túmulo de Mary Livingston

Perante esta recordação e tendo em vista evitar qualquer tipo de conflito de interesses, sugeri em silencio ao nosso benigno Xicuembo que embatelonasse de volta à sua Zambézia já que nós, agora em Sofala, nos havíamos de arranjar. Mrs Livingston, are you available to protect us? Feito o convite em silêncio, não esperei por resposta em voz alta. E se ela tivesse respondido audivelmente, eu havia de ter apanhado um cagaço tal que por certo, para mim, a viagem acabaria ali mesmo. Está na altura de perguntar ao Miguel se notou alguma alteração no lugar ao lado dele. Algum «fru fru» das vestimentas femininas do séc. XIX, algum sopro de camomila ou mensagem sibilina com «rrr» rolados… De qualquer modo, com Mrs ou sem Mrs, entrámos pela floresta de Inhaminga em total serenidade e até fizemos uma paragem da qual existe (não sei em que arquivo) a única foto feita em toda a viagem. Trata-se duma imagem do nosso «herói» a três quartos de trás com a porta esquerda traseira aberta. Mas se a nossa companhia discreta entrava ou saía, a imagem não a captou.

Chega de brincadeiras, deixemos Mrs Livingston na paz que bem merece depois de tanto ter penado por amor a Deus em paragens menos hospitaleiras para a sua alva tez que as da Velha Albion.

O nosso destino nesse dia era a Beira, dali a menos de 300 quilómetros. Se a estrada fosse boa, a meio da tarde estaríamos a fazer o check in no hotel. Qual? Varreu-se-me. Peço ajuda aos meus companheiros de viagem. Sei que não foi o icónico «Grande Hotel da Beira».

Poucas mas boas, as recordações que tenho deste troço. A primeira impressão positiva, a floresta que se não foi ali posta pela mão do homem, de tão ordenada, imita muito bem. Esquecido, andei agora à procura da espécie florestal ali predominante mas não encontrei. Venha daí - do lado da leitura - quem saiba e diga. Mas foram muitos quilómetros dentro de um túnel arbóreo que inspirava muita serenidade e harmonia com o mundo. E assim percorremos uma grande distância em paralelo com a fronteira do Parque da Gorongosa. E a bicharada, ordeira, não passou para o lado de cá nem se pôs à nossa frente. Isso ficaria para outra ocasião.

Outra boa impressão, a qualidade da estrada que parecia acabada de arranjar para nós passarmos. O tal trânsito de camiões que o Miguel temia deve ter sido desviado por rota alternativa. Por ali, não havia nada de especial.

Terceira recordação positiva, de cariz estético, a paragem de 10 ou 15 minutos em casa do Eng. Jorge Jardim para o Miguel cumprimentar as famosas manas. O Tó e eu não fomos convidados a entrar mas o que nós queríamos mesmo era chegar ao hotel, tomar banho e pormo-nos de patas ao ar. Até porque já sabíamos por experiência dos dias anteriores, que o homem dos horários haveria de querer que no dia seguinte nos levantássemos pouco depois de nos termos deitado. Mas há aqui uma anotação que eu não quero deixar passar e tem ela a ver com a facilidade com que um carro desconhecido com três Fulanos desconhecidos se aproximou do largo fronteiro da casa da família Jardim. Entrámos por ali dentro como se fossemos os donos de Moçambique inteiro ou como se aquilo fosse via pública. E o que é que isto quer dizer? Pois eu acho que quer dizer que a família Jardim se sentia segura, que ninguém lhes queria fazer mal, que se sentiam protegidos pelas populações no meio de que viviam. E esta é a grande bofetada nos da propaganda contrária que apresentaram o Eng. Jorge Jardim como um isto, como um aquilo e um mais não sei quê. Eu nunca estive pessoalmente com o Eng. Jardim, pouco mais sei dele do que o que a comunicação social dele dizia mas a ideia que dele faço é a de alguém que teve a coragem de enfrentar Moscovo nos seus desígnios imperialistas sobre Moçambique. E isso os comunas e os esquerdalhos (libertinos de esquerda não enquadrados partidariamente) não perdoam. E veja-se como na região da Beira a FRELIMO não levanta a cabeça a não ser à custa de muita trapaça eleitoral.

Eu nunca fui apresentado às célebres manas mas estive no largo fronteiro da casa delas no Dondo numa época em que elas eram (e continuam a ser) um símbolo da independência feminina, as algozes da misoginia. Tomara às Kardashians chegarem-lhes aos calcanhares.

Posto o que, feitos os salamaleques que o Miguel tinha por estético-importantes (ou seria para obter algum «salvo conduto» que nos permitisse vogarmos por ali serenamente?), era hora de um duche, algum descanso e prepararmo-nos para o que se seguisse.

Cansados mas satisfeitos. Amanhã há mais.

Julho de 2019

Henrique Salles da Fonseca

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