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A bem da Nação

POR ESSA PICADA ALÉM… - 7

QUELIMANE-Hotel Chuabo.png

Feito o check in no hotel e feitas as abluções típicas de um final de viagem por estradas com algum pó, eis-nos a caminho da sala de jantar, no último piso do hotel. E qual não foi o meu espanto quando vi que a dita sala de jantar estava apinhada e que, pelo sotaque, se tratava de americanos. Já não eram crianças nenhumas, lembro-me bem. Ao estilo de gente já reformada mas com saúde. Disse-me o sena que nos serviu que se tratava de um grupo de caçadores. Se aquela gente se pusesse toda aos tiros, duvido que restasse algum elefante ou búfalo que pudesse ir prevenir os sobrevivos das respectivas espécies de que o bicho homem ensandecera por completo. Não gostei de saber que a caça se organizava para grupos tão grandes e, passados estes 47 anos, temo que a mortandade não tenha cessado – só que, agora, clandestinamente e às mãos do comércio de marfim e da farmácia chinesa.

Com pensamentos algo plúmbeos devido ao tiroteio por diversão, limitei-me a olhar para fora enquanto jantávamos e tentei desviar as ideias para outros temas. E olhei para o «Rio dos Bons Sinais», ali mesmo por baixo do meu nariz. Foi Vasco da Gama que em 1498 assim chamou ao rio que então poderia estar (ou não) numa daquelas fases em que mais não é do que um braço do delta do «Zambeze». Quando a ligação ao grande rio se fecha (por assoreamento, creio), este rio menor junta-se ao «Lua-Lua» e formam o «Quá-Quá» mas o nome dado por Vasco da Gama mantém-se em qualquer situação. Não imaginava eu que dentro de cerca de 2 anos alguém me encarregaria de coordenar o projecto de redinamização do Porto de Quelimane. Missão essa nas vésperas do 25 de Abril de 1974, tudo ficou em «águas de bacalhau». Quem diria que bacalhau teve águas em Quelimane.

E, realmente, a actividade portuária estava reduzida em relação ao que eu dela esperava. Perguntado, o mesmo sena que nos servia informou que o rio estava cheio de matope (não disse assoreado, lembro-me) e que só barcos pequenos ali chegavam. - E vão até onde entregar a mercadoria aos barcos grandes? Não sabia, fez um gesto largo com a mão em direcção ao mar… Fiquei sem saber como era escoado o algodão e o melaço do açúcar (ou seria ainda só a cana?) mas, na verdade, por ali não havia actividade fluvial correspondente à economia que víramos no interior. Que estradas nos esperariam dali até à Beira?

E aí, o nosso «expert» em geografia, o Miguel, falou:

- Temos que sair muito cedo para apanharmos o primeiro batelão que sai de Mopeia. Caso contrário, arriscamo-nos a ficar numa bicha (ainda não se dizia «fila») de camiões e só conseguirmos atravessar o Zambeze ao fim do dia.

- E a que é que chamas «muito cedo»?

- Temos que nos levantar às 3 da manhã para começarmos a andar pelas 4 e chegarmos a Mopeia não muito depois das 6, se não apanharmos muito trânsito de camiões à nossa frente.

Lembro-me perfeitamente das expressões «protocolares» que o Tó e eu proferimos. Fique o Leitor tranquilo pois não as repetirei aqui.

Do mal, o menos: o nosso «herói» tinha comido e bebido à chegada a Quelimane para não ir para a cama com fome; na madrugada seguinte já não demoraríamos a satisfazer-lhe as precisões.

Às 4 da manhã rodei a chave da ignição e o «herói» despertou com a sua habitual boa disposição. Dos cerca de 200 quilómetros que nos separavam do destino, o cais fluvial de Mopeia, fizemos quase metade em noite de breu mas a luz começou pelas 5 e tal da manhã e às 6 e picos estávamos na pequena fila de candidatos à primeira viagem diária do batelão. À nossa frente, dois ou três carros ligeiros e apenas um camião. Sobrava espaço pois o batelão era um «cacilheiro» dos grandes. Chamavam-lhe batelão certamente que por tradição e porque entrávamos por uma ponta e saíamos pela outra.

 

E com esta «mania» de acordar antes das galinhas, fiquei sem ver o que nos rodeava em grande parte do percurso. Mas presumo que não fosse muito diferente do que vi, luz alta: estrada construída em aterro ao estilo «dique», terrenos circundantes que dariam para arrozais se as enchentes não fossem tão fortes, gado em pastoreio extensivo, nada mais que condutor atilado conseguisse ver sem correr o risco de pôr o carro a pique do lado de fora da estrada.

Entrados no batelão, foi o mesmo preenchido com mais carga ligeira e só o tal único camião que nos antecedia.

- Então, Miguel, onde está a tal bicha de camiões?

- Não sei, mas antes assim do que com mais outros que desequilibrassem a carga do batelão.

E a travessia fez-se com todo o equilíbrio, sem sustos nem nada de especial para contar. O Zambeze estava benigno, o Xicuembo não tinha ficado no cais de Mopeia, viera connosco até à margem sul, a Chupanga.

A ver…

Amanhã há mais.

Julho de 2019

Henrique Salles da Fonseca

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