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A bem da Nação

POR ESSA PICADA ALÉM… - 4

 

Característicos da paisagem de Nampula, os grandes morros tão semelhantes aos do Rio de Janeiro ou talvez mesmo tão parecidos com o australiano Uluru. Nitidamente, formações rochosas - quiçá monolíticas - cuja erosão circundante ao longo de milénios deixou à mostra de quem por ali ande. Imponentes, sem dúvida, à espera duma exploração turística que poderia ser motivo de maior desenvolvimento local. Muito bem, sem Direitos de Autor, aqui fica a sugestão de cartaz turístico - «Os Ulurus de África».

Picada rija, não arenosa, levando-nos por ali fora… paisagem desordenada, ou seja, sem agricultura à vista. Significava isso que as populações não tinham escolhido aquelas bermas de estrada para se instalarem. Porquê? Eu presumo que por falta de água em permanência se bem que naquela época em que por ali andámos o aspecto não fosse sequioso. E também não vimos bicharada. Eventualmente pela mesma razão, falta de charcos para poderem beber. Planície irregular à espera que o homem a trabalhe pondo-lhe água e vida. Mas havendo tantas outras zonas naturalmente muito mais ricas, para quê estar a gastar recursos – sempre escassos – com terras marginais que nem a fauna bravia procurava?

E lá fomos viajando calmamente a olhar para os «Ulurus», para a vegetação, para a falta de gente e para a ausência de animais até que… PUM!!!

- O que terá sido?

- Foi por baixo do carro mas estamos inteiros, não foi mina.

- Não, claro que não! Foi barulho de pedra que saltou e bateu por baixo.

Parei de imediato e fomos ver. Uma mancha de óleo a dizer que algo se tinha furado lá em baixo. O carter da caixa de velocidades furado por uma pedra e ainda pouco mais fizéramos do que uma centena e meia de quilómetros desde que saíramos de Nampula. Que chatice!!! E agora? Lembro-me como se fosse hoje que a nenhum de nós os três passou sequer pela cabeça voltarmos para trás. A solução era para a frente; para trás é a burra que sabe como se faz.

- Bem, aqui parados é que não resolvemos nada. Vamos embora, nem que seja com o carro engatado em primeira e a 20 à hora. Havemos de chegar a algum lado em que alguém nos ajude.

alto_molocue.png

 

O nosso «mapa» Miguel lembrava-se que dali a alguns quilómetros (quantos???) havia um Posto Administrativo.

Engatei em primeira e dei à ignição. O motor trabalhou e a caixa de velocidades fez um zunido constante que ao fim de 47 anos ainda não me saiu da memória. E o «campeão das picadas» não perguntou se havia alternativa àquela dor de «caixa», andou para a frente e não nos deixou na estrada.

Foi ao pôr do Sol que a picada deixou de ser rija e se transformou em areia solta como se estivéssemos a atravessar a praia do Guincho ou as dunas do Sahara. E o nosso «herói» não deu mostras de medo: fez um esforço suplementar e levou-nos até à porta do tal Posto. Ali estava, devidamente fardado, o Chefe do dito. Devia ter ouvido à distância a nossa aproximação e, naturalmente, veio ver do que se tratava. Explicado resumidamente o que acontecera, tomou ele logo a iniciativa de nos convidar para jantar e pernoitar, apesar de não ter como nos ajudar na resolução do problema mecânico. Mas que dali a pouco mais de uma centena de quilómetros teríamos apoio pela certa nas oficinas da Companhia dos Algodões de Moçambique, no Molocué.

Posto o «campeão» (ou o «herói»?) a recato de alguma curiosidade nocturna, lavámos as mãos e fomos convidados para jantar.

Mesa posta para quatro com todo o protocolo de instrumentália – garfo, faca, guardanapo, copo – para a ementa mais inesperada que por ali poderia ter sido servida: sardinhas assadas. Exacto, o meu Leitor não duvide, leu bem, sardinhas assadas no meio de nenhures a algumas centenas de quilómetros costa oriental de África adentro. Souberam-nos lindamente mas comemos com a moderação apropriada à cerimónia que nós os três gostamos de fazer com quem nos recebe com o melhor que tem para oferecer.

Sugiro ao Leitor que repare no pormenor de eu não ter ainda referido o facto de ir munido de uma Guia de Marcha militar e por esse facto o Chefe de Posto ser formalmente obrigado a prestar-me todo o apoio que eu lhe pedisse. Não, eu não me anunciei como militar em deslocação oficial, o Chefe do Posto fez o que fez por sua boa vontade apenas. Não nos perguntou sequer como nos chamávamos e nós tivemos o cuidado de corresponder de igual modo: ainda hoje não sabemos o nome do dito Posto nem do Administrador de então. Não me recordo do que foram os «bebes» mas pode ser que o Tó ou o Miguel, ao lerem este escrito, se lembrem e venham aqui contar.

Mas a «coisa» não ficou por aqui.

À luz dum Petromax, jantámos com toda a cerimónia que nos foi ensinada desde os tempos verdes mas à distância de não muito mais de um metro das costas do Chefe descia uma cortina desde as vigas do telhado (não muito alto) até ao chão e lá por trás ouvíamos por vezes algo que parecia alguém a mexer-se, a respirar, sabemos lá que mais… E porque ficámos sem saber de quem se tratava, sentimo-nos no direito de supor. E as suposições foram de dois tipos: um grupo de terroristas ali aboletados como nós; uma ou mais indígenas com quem o Chefe se amancebara às escondidas da mulher oficial residente algures fora dali. Tudo visto (não vimos absolutamente nada) e ponderado (não tínhamos quaisquer parâmetros para ponderação), optámos pela hipótese mais benigna, a das amantíssimas Senhoras. E até daria um bom título para um filme côr-de-rosa, «Há flores na savana».

Pareceu-me então oportuno perguntar quanto devíamos pelo jantar e pela hospedagem.

- Não devem nada, tive muito gosto.

- Mas oh Senhor Administrador, eu sou militar em deslocação oficial e recebo ajudas de custo, posso e devo pagar.

- Não paga nada, guarde o seu dinheirinho que lhe pode fazer falta nalguma outra paragem. E que façam muito boa viagem.

Feitos os agradecimentos que se impunham, o Chefe indicou-nos o local da dormição e parece ter ficado satisfeito quando lhe anunciámos que sairíamos de madrugada, aí pelas 4 da manhã. Urgia chegar relativamente cedo à oficina dos algodões.

O «herói» respondeu ao primeiro incitamento e zuniu por ali além como se nada fosse com ele.

Amanhã há mais…

Julho de 2019

Henrique Salles da Fonseca

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