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A bem da Nação

POR ESSA PICADA ALÉM… - 15

Era noite escura quando acordei. Um candeeiro da iluminação pública lembrou-me que estava encostado à berma da estrada que entrava em João Belo, vindo de cima em direcção a Lourenço Marques. Se bem me lembrava das contas da véspera, faltavam 220 quilómetros para chegar ao destino. Os companheiros estavam a bordo, dormiam. Eram 2 da manhã, nem sei quantas horas dormira. Para aí umas 6. Sentado ao volante, doía-me o corpo. Apetecia-me esticar as pernas e dar um jeito às costas, para além de outra vontade de cariz físico-hidráulico. Antes de abrir a porta e sair, pareceu-me leal avisar a tripulação de que o Comandante ia sair e esticar as pernas. Acordaram com feitio de guardas monárquicos em regime republicano ou vice-versa. Saí, estiquei-me e fiz o mais que tinha a fazer, dei uma volta ao carro e verifiquei que, aparentemente, estava tudo em ordem. Em silêncio, cada um deles saiu e fez o que considerou oportuno. De volta aos nossos postos, dei a volta à chave da ignição e o mostrador da gasolina disse que não haveria mal para o andamento da viagem se tratasse de pôr a bóia mais em cima. Tudo bem, mas a estação de serviço que havia logo ali à frente tinha um letreiro a avisar que só abriria pelas 5 da manhã. Faltavam 3 horas, tempo de encostar de novo. Ninguém protestou. Fomos acordados pelas luzes fluorescentes do posto a que estávamos acostados. Fiz o pleno da gasolina e vi água e óleo. Tudo nos conformes, passei água pelos olhos. Cada um fez mais o que considerava apropriado, dei a volta à chave da ignição e aí vamos nós…

Três homens normais metidos num carro durante tanto tempo, gera cansaço. Sem nada confessarmos, estávamos desejosos de chegar ao destino e mudar de ambiente. Tudo bem, sim, mas bastava. A placa a anunciar a chegada a Lourenço Marques apareceu por volta das 7 e meia e o meu cansaço era tal que nem olhei para o lado quando passámos à porta do «meu» outro Centro Hípico à frente do qual havia uma placa de informação quilométrica a dizer que a Beira ficava a cerca de 1300 quilómetros pelas estradas de antigamente. Pelo conta-quilómetros do nosso «herói», entre viagem propriamente dita mais voltas e voltinhas, tínhamos feito qualquer coisa como 2500 quilómetros desde Nampula até à entrada de Lourenço Marques.

Foi giro, cansativo e inesquecível. Mas foi mais do que isso: foi a afirmação de que Moçambique era então uma terra pacífica na sua maior extensão em que as pessoas viviam e deixavam viver, em que o futuro se apresentava radioso se os intrusos não cobiçassem aquela terra de gente cerimoniosa e vocacionada para o bem. E foi também o tributo de três não operacionais àqueles que, em zonas de combate, sustinham o imperialismo soviético e, com o seu sacrifício, permitiam que milhões de pacíficos vivessem harmoniosamente. A esses operacionais, toda a honra desta viagem.

Podiam os moçambicanos pretos ter uma civilização diferente da minha mas eram muito civilizados. Não me canso de dizer que fui para Moçambique com um espirito civilizador e que, afinal, fui eu que muito por lá aprendi. Trouxe de lá um sentido de respeito que facilmente conduziu a uma simpatia perene, a uma predisposição de compaixão, ao reconhecimento de uma tranquilidade apenas perturbada por factores externos de que eles, moçambicanos, merecem ser apartados.

Quem verdadeiramente amar Moçambique, afaste dele os abutres externos e os piores de todos, os internos.

Entrados na cidade, dirigi-me ao Clube Militar que era onde funcionava a Messe de Oficiais. O Miguel despediu-se ali mesmo à porta porque tinha não sei quem à espera dele com o bilhete para as corridas de automóveis que se realizavam no dia seguinte ou coisa parecida; lembro-me de que o Tó, Oficial como eu, ainda entrou no Clube para tomar qualquer refresco e seguiu logo depois para casa duns primos que lá viviam; eu aboletei-me na Messe e deixei o meu «herói» descansar durante dois ou três dias.

* * *

A vida continuou para cada um de nós…

Pela minha parte, conclui a comissão de serviço militar, fui a Lisboa passar à disponibilidade e regressei a Moçambique como civil onde apanhei o 25 de Abril de 1974. Regressei a Lisboa em Agosto de 1974 depois de um «cruzeiro» de 15 dias com a namorada no “Infante D. Henrique” e trazendo o meu «herói» também ele são e salvo.

Voltei a encontrar o Miguel uns 20 e tal anos depois mas ao Tó não voltei a encontrar. A ambos desafiei para me ajudarem a contar esta história. O Miguel tem feito um ou outro comentário (muito menos do que eu tento gostaria), nomeadamente o do Xiquembo, mas do Tó não tive respostas às mensagens que tentei que a irmã lhe transmitisse.

Moçambique é terra que merece tudo de bom, não o que lhe têm feito. Que todos os Xiquembos se juntem para salvação de toda aquela terra de tão boa gente.

Passados 30 anos, voltei a Moçambique. Houve coisas de que gostei.

 

FIM

Julho de 2019

Henrique Salles da Fonseca

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